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Capítulo 30 — Senhora Escalante

Cássel Escalante parou em frente ao portão do centro de comando às 8h35 da manhã. Sentia-se revigorado. 

Fazia tempo que não se sentia tão bem. Várias carruagens puxadas por cavalos passaram por ele em direção aos estábulos, enquanto os oficiais que montavam seus próprios cavalos para o trabalho continuavam em direção aos portões dos fundos.


Normalmente, ele teria desprezado aqueles oficiais por usarem desnecessariamente o portão da frente para exibir seus mais novos e melhores garanhões. Mas, nesta manhã, ele estava tão absorto em seus pensamentos que nem percebeu o cheiro de esterco de cavalo no ar. 

Em vez disso, ele se lembrava de um cheiro diferente, da manhã mais cedo.

Quando entrou no prédio e se afastou dos estábulos, ele pôde recordar o delicado perfume da pele de Inês com mais clareza. Ele sentiu sua virilha endurecer ligeiramente com a lembrança, mas ainda se sentia revigorado.


Na noite anterior, a masculinidade dele estava totalmente carregada e pronta a qualquer momento, sem um pingo da impotência das semanas anteriores. Ele teve que reprimir sua ereção inúmeras vezes. Embora não pudesse tocá-la da maneira que queria, ele preferia ter a verdadeira Inês em seus braços a ter sonhos molhados com ela.


Antes de se casarem, a Inês imaginária de seus sonhos o excitava e o levava a cometer atos sexuais prazerosamente profanos todas as noites. Ela subia em cima dele e depois ficava por baixo. Os seios dela balançavam acima de sua cabeça, e os olhos dela se enchiam de lágrimas quando ele a penetrava. Ela o beijava com afeto e paixão, depois gemia de prazer quando ele a tomava em sua boca. Quando ele a fazia ficar de quatro, ela balançava os quadris no ar, convidando-o a entrar. 


Sim, Inês em suas fantasias cedia a todos os seus desejos, mas não tinha uma forma física ou qualquer tipo de livre-arbítrio. Assim, seus sonhos pareciam vazios, e ele sempre acordava com uma terrível culpa.


Cássel zombou do quão ridículas eram suas próprias fantasias. Elas eram produto de seu desejo não realizado e alucinações de luxúria. 


Quando ele pôs os olhos na verdadeira Inês, ele fingiu que nunca tinha sonhado com ela em toda sua vida. Apesar das semanas fantasiando e se masturbando com a imagem de Inês, ele agiu como se estivesse a conhecendo pela primeira vez quando ela desceu o corredor em seu vestido de noiva ou quando ele se sentou para jantar com a família dela.

Felizmente, o casamento oportuno e a noite consequente tinham resolvido todos os seus problemas.

Cássel soltou um suspiro enquanto subia as escadas. Ele se lembrou de como os ombros delicados de Inês se moviam ao ritmo da respiração dela. Naquela manhã, ao amanhecer, ele observou aquele movimento por um longo tempo. Os ombros nus dela foram suficientes para ofuscar qualquer sedução que a Inês imaginária de suas fantasias jamais tinha lhe mostrado.


Quando ele a puxou para mais perto, ele poderia jurar que não tinha intenção sexual. Mas sua excitação só cresceu mais forte quando sua ereção roçou na pele macia dela. Como um garoto que acabou de perder a virgindade, ele mal conseguia se conter com o cheiro dela.


Cássel nunca havia se sentido assim antes. Sua virilha nunca havia se excitado por uma mulher inocente que estava dormindo. Depois de semanas fantasiando, ele nem sequer se sentia culpado por isso. 


Era improvável que Inês cedesse aos seus desejos como na noite obrigatória deles, então ele também não podia agir em sua excitação.


Portanto, Cássel não teve escolha a não ser se levantar no meio da noite para cuidar de sua ereção no chuveiro frio. Para seu alívio, Inês não o notou se levantando ou usando o banheiro. Ela estava dormindo profundamente e murmurava de forma adorável em seu sono. Suas sobrancelhas não estavam franzidas, pela primeira vez, e suas pálpebras estavam delicadas e relaxadas. Seus músculos faciais estavam finalmente à vontade.


Quando ele acordou novamente pela manhã, sua segunda rodada de masturbação foi alimentada por memórias recentes da pele macia e do cheiro dela. Ter que cuidar de suas próprias necessidades era um destino infeliz para Cássel Escalante. 

Mas ele preferia ter Inês de carne e osso em sua casa, mesmo que isso significasse que ocasionalmente ele tivesse que aliviar suas próprias necessidades.

Inês de Escalante, não mais Valeztena. Sua esposa Inês…… A mulher que agora compartilhava o mesmo sobrenome. Sua legítima esposa, com quem dividia aquele dormitório.


De repente, a lembrança da cena divertida que protagonizaram no quarto antes de sua saída veio à mente, e ele abriu a porta da sala dos oficiais com um sorriso involuntário nos lábios.


— Você está sorrindo?


— — Ele está rindo?


— Quem é aquele ali? O capitão está entrando e sorrindo? Aconteceu alguma coisa?


O tenente Muñoz esbravejou com entusiasmo. O major Bardem, que estava praticamente jogado no sofá em uma posição desconfortável, endireitou o corpo e exclamou:


— Eu sabia! — Ele tentou se vangloriar, mas foi solenemente ignorado pelos demais.


A sala de fumo, que funcionava sob o disfarce de "escritório compartilhado das Divisões de Transporte e Abastecimento", costumava ser um ambiente impregnado pelo odor sufocante de charutos velhos, uma fumaça que agredia o nariz tanto quanto o cheiro de esterco nos portões principais……


— Que cheiro horrível. Saiam da frente.


Ao ser cercado pelos homens, um odor peculiar e desagradável o atingiu: uma mistura de vitalidade bruta e suor masculino.


Parecia que seu olfato havia sido corrompido, pois ele sequer teve tempo de se concentrar no trabalho. O aroma delicado de Inês desvaneceu-se de suas memórias imediatas. Cássel empurrou firmemente um de seus subordinados para tentar alcançar seu gabinete privado, mas era impossível abrir caminho facilmente entre uma dúzia de oficiais robustos.


Um grupo menor de oficiais correu para bloquear a rota de fuga de Cássel, enquanto os demais suspiravam, jogando moedas de prata sobre uma mesa. O único a lucrar com aquele caos foi o major Bardem, que exibia um sorriso vitorioso enquanto recolhia o dinheiro de um jovem oficial.


Cássel observou atentamente o seu próprio tenente, José Almenara, entregar as moedas com uma expressão nitidamente constrangida. Ele fez uma anotação mental para repreendê-lo mais tarde.


— Muito bem, tivemos cinco votos para 'completamente sem expressão', dois para 'parece estar sem pensamentos', um voto para 'sorrindo como um pervertido' e um para 'quase sorriso'……


— Ora, tenente, seja justo! Um quase sorriso é, essencialmente, o início de um sorriso. Então eu estou certo, não estou? — protestou o sargento Sánchez com seriedade.


Cássel observou silenciosamente os rostos de cada oficial que tinha participado desta aposta insolente. Ele decidiu que Sanchez teria um treino torturante vindo em sua direção no dia seguinte e destinos semelhantes para todos os outros envolvidos em fazer dele um tolo.

Sanchez apontou uma linha nas folhas de aposta e disse:


— Meu Deus, teve gente que apostou em 'chorando'. Imaginem se ele entrasse chorando!


O Tenente Salvatore murmurou de forma sinistra:


— Claro... Porque o casamento é uma armadilha mortal. O pavor de voltar para casa para o seu túmulo fará um homem adulto chorar...—  Embora ainda estivesse em seus trinta anos, Salvatore já estava em seu terceiro casamento que andava a passos largos de ser mal sucedido.


— Mas o Tenente Escalante tinha um sorriso no rosto.


Salvatore balançou a cabeça. 

— Não, ele só está sorrindo porque ainda não consegue chorar. É um sorriso de desespero...


— Na verdade, ele parecia estar sorrindo de forma bem genuína —  outro oficial notou.


— Eu também pensei assim! — Sanchez disse e virou seu olhar para Cássel. — Espere, mas ele não está mais sorrindo...


— Verdade. O rosto de Escalante está ficando mais azedo a cada minuto.


— Mas você tem certeza de que o sorriso dele era pervertido? Eu achei que o sorriso dele parecia bem pensativo. Eu acho que isso merece uma reavaliação —  Sanchez argumentou.


No entanto, Bardem estava irredutível.


— Não, ele estava sorrindo como um pervertido, com certeza. Tudo o que ele está pensando agora é no que fez a esposa na noite passada.


— Sim, você está certo —  Cássel respondeu. — Eu não fui enterrado em uma armadilha mortal. Estou ótimo.


Ele estava determinado a escapar dessa bagunça o mais rápido possível. Infelizmente, ele não conseguiu abrir caminho através dos homens curiosos.


— Escalante, o que você quer dizer com isso?


Sanchez gritou:

— Eu acho que ele quer dizer que ele ainda está acima da terra e não em seu túmulo.


— Claro, todo mundo sabe disso. Foi uma figura de linguagem!


A curiosidade deles só foi atiçada pelo comentário de Cássel, que sentiu-se compelido a corrigir sua declaração anterior de Salvatore.


Sanchez abordou o tópico gentilmente.


— Mas de acordo com o meu conhecimento... a Senhorita Valeztena — não, a Senhora Escalante — não é o tipo de mulher para fazer algo assim...


— Por acaso existe alguém que mude de natureza só porque se trata de homens e mulheres? Ora, por favor. Até os cardeais têm seus filhos bastardos por aí.


— Mas ela não é conhecida por sua castidade...?


Cássel sabia que Sanchez omitiu muitas outras descrições, como entediante, assustadora e rígida. A maioria dos homens estalou a língua em desaprovação ao ser lembrada da reputação de Inês, mas os poucos oficiais de patente mais alta que tinham comparecido ao casamento trocaram olhares cumplices.


Fosse por causa dos boatos que circulavam ou pela súbita importância que todos davam ao fato de terem visto a noiva real, toda aquela comoção estava se mostrando profundamente irritante para Cássel no dia de hoje.


Ao notar que o jovem capitão já não fazia o menor esforço para ocultar seu semblante de poucos amigos, o major Bardem — o primeiro a perceber o evidente mau humor de Cássel — deu-lhe um tapinha camarada no ombro, tentando amenizar o clima.


— De qualquer forma, o noivo aqui não tem nada de recatado. E então, como vão as coisas?


— Ah, o major tem razão. Apesar de que, sendo o Capitão Escalante, poderia excitar até mesmo uma freira de verdade……


Cássel ergueu a mão em silêncio e desferiu um tapa cascudo, com a força exata para doer, na cabeça do tenente Anaya, que distraidamente comentara. Mesmo após levar o golpe, o tenente Anaya recompôs-se e voltou a indagar com uma curiosidade audaciosa, como quem insiste em barganhar um preço absurdo:


— Então, capitão, como é? Qual é a sensação de estar casado?


— É excelente — respondeu Cássel de imediato, esboçando um sorriso protocolar. Era, no mínimo, uma questão de decência não franzir o cenho ao falar de seu próprio matrimônio.


Um coro exagerado de "Oh, oh, oh!" ecoou instantaneamente pela sala, seguido por uma ponta de incredulidade coletiva.


Afinal, tratava-se do casamento de Cássel Escalante, e qualquer impressão vinda dele atraía atenção. Embora no papel ele apenas acumulasse o histórico de uma vida pacata na base de Calstera, para aqueles homens, Cássel era uma lenda e um herói devido à sua fama de mulherengo nos tempos de Mendoza.


Os boatos sempre cresciam no caminho: se uma história era inflada dez vezes na capital, ela chegava a Calstera multiplicada por cinquenta.


— Mas não diziam por aí que você tinha fugido para a marinha justamente para escapar desse casamento?


— O Elba comentou que a transferência dele para a Segunda Frota só aconteceu porque o próprio capitão implorou aos superiores. Assim ele ficaria pelo menos dez meses confinado no mar……


Contudo, no meio daquela montanha de exageros, sempre havia algumas verdades incômodas. Embora Cássel jamais tivesse ventilado sua relutância em se casar, a história que contavam parecia fazer sentido para quem ouvia.

O que ninguém ali sabia era que ele passara aqueles dez meses inteiros remoendo seus próprios arrependimentos.


— Eu me perguntava se o capitão odiava tanto assim a ideia de casar…… para agora dizer que está "excelente".


— Para os nossos padrões, o "excelente" de Cássel Escalante significa que ele está "completamente louco de tão bom". Como aquele sujeito orgulhoso e imponente admitiria isso tão facilmente?


— Já chega, cuidem da vida de vocês……— Após esta conjectura, Cássel não pôde deixar de intervir. — Isso é atenção suficiente para os meus assuntos privados—


Seu oficial superior não se importou e decidiu continuar com o tema, dessa vez chamando atenção com uma história.


— Eu não consegui um convite para a cerimônia, mas eu compareci ao baile da recepção.


Cássel teve a plena convicção de que aquele falatório era o preço que estava pagando pela manhã que tivera. O preço por ter mantido Inês em seus braços e por ter provocado a esposa. Ele massageou as têmporas e baixou o olhar por um instante. O esgotamento acumulado de três ou quatro noites quase sem dormir finalmente cobrava o seu tributo.

Os homens mais jovens pularam ansiosamente com a nova fofoca. 

— Ah, é verdade! Coronel e o Major também foram, não é?


— Sim, nós fomos.


— E vocês viram a nova senhora Escalante?


— Se nós a vimos?


Era evidente o motivo pelo qual os oficiais que estiveram na capital voltaram a trocar olhares significativos. Diante da realidade do rosto, do corpo e da postura imponente de Inês Valeztena, todos os boatos anteriores pareciam ridículos. A disparidade entre o mito e a realidade era tão gritante que quase os deixava sem fôlego.

Além disso, parecia haver um consenso tácito de que não seria prudente admitir a verdade de forma tão direta. Um silêncio pesado tomou conta do ambiente.


— Eu gostaria de saber quem inventou aquele tipo de boato.


— Que boato?


— A de que as mulheres da linhagem Valeztena eram como bruxas ou corvos, cujo único valor era a nobreza do sangue……


Como aquela era uma expressão comum em Mendoza e na base, o Coronel Azevedo a soltou sem pensar, mas, ao perceber que a dissera bem diante de Cássel, sua voz sumiu instantaneamente e ele engoliu em seco, paralisado.

Cássel já havia demonstrado irritação no passado quando o assunto era sua noiva e, agora que a desposara oficialmente……


— …… O que todos queriam dizer, Escalante, é que a sua esposa é extraordinariamente deslumbrante.


Azevedo corrigiu a frase às pressas, buscando uma saída honrosa. Enquanto os outros oficiais se entreolhavam curiosos, o major Bardem retomou o assunto com um sorriso malicioso:


— É por isso que eu não apostei em "sorriso de pervertido" à toa. Meus caros, eu tenho as minhas fontes e vi a senhora com os meus próprios olhos……

.

— Se o major tinha essa informação, por que não compartilhou conosco?


— Se eu contar tudo, qual seria a graça das apostas?


— Mas aí a vantagem é desproporcional! Isso não vale.


— Então é verídico que o Escalante entrou aqui sorrindo como um pervertido porque estava pensando na esposa.


— Olhem para os círculos abaixo dos olhos dele. Se ele está assim tão cansado, eu aposto que a Senhora Escalante mal dormiu um piscar de olhos.


Sanchez assentiu. — Ele parece um pouco mais pálido que o normal.


Ainda assim, alguém murmurou entre dentes que, infelizmente para os meros mortais, ele continuava irritantemente atraente, estalando a língua com desdém. Cássel teve vontade de mandar aquele sujeito calar a boca. Tanto as olheiras quanto a palidez de seu rosto certamente haviam surgido após ele entrar naquela sala enfumaçada.


— Então o motivo desse sorriso é a noite de núpcias?


— Conhecendo o histórico desse sujeito…… Ele não seria um homem comum na cama. Um homem que costuma arrancar suspiros das mulheres mesmo passando uma única noite com elas não agiria com moderação. Só espero que a jovem e inocente senhora não tenha se assustado e fugido……


— Então a senhora Escalante é surpreendentemente bonita?


— Eu lhe garanto……!


— Ela é mais bonita que o próprio capitão?


— Faz algum sentido usar a palavra "bonita" para alguém do tamanho do Escalante? Corrija isso antes que eu perca a paciência.


— Sério? Então a senhora Escalante é mesmo deslumbrante……


— Ah.


— Então não era apenas exagero? Era isso o que vocês queriam esconder? Sério? Alguém algum dia disse que ela não era atraente? Você tinha dito que não tinha gostado dela!


— Eu tinha ouvido rumores de que a personalidade dela era um tanto difícil…… Então a história sobre a beleza era inveja?


— Não, a personalidade dela realmente não é fácil.


— …… Coronel, por favor, me dê uma resposta clara. Não use formalidades. Ela é bonita porque é realmente deslumbrante ou é apenas gentileza sua?


— Eu me senti tapeado pelos boatos de tão linda que ela é……


— Quem diabos inventou aquelas mentiras?


— O Comandante Barca mencionou de passagem que a única explicação razoável seria que Escalante tentou esconder sua noiva de outros homens espalhando falsos rumores.


— Isso é verdade? Isso é uma coisa horrível de se fazer com sua noiva!


— Não, não, nós não sabemos disso com certeza. Foi a sugestão de Barca — disse Bardem.


— Eu nunca vi uma mulher como ela……


— Então é isso o que significa. Aquela imponência toda……


A conversa tornou-se um caos generalizado. Entre teorias e exclamações, os oficiais esqueceram completamente a presença do próprio Cássel. Exausto daquele ambiente, ele passou por eles sem dizer uma palavra e buscou o refúgio de seu gabinete privado.

Ao abrir a porta, ele foi recebido por uma montanha de arranjos florais grandiosos, buquês de todos os tamanhos e pilhas de cartas de felicitações. As flores, que tomavam conta de sua mesa e do sofá, exalavam um perfume forte e confuso no ar.

Ele franziu a testa e começou a tirar sua mesa de debaixo das flores. Em seguida, ele lidou com as pilhas de cartões e cartas. Ele leu rapidamente os nomes e jogou a maioria das cartas na bandeja para José Almenara levar. Então, ele olhou através das várias cartas que ele tinha separado. 


A maioria das relações mais próximas já tinha comparecido ao baile de recepção. Isso significava que as cartas eram das pessoas que ele não queria convidar pessoalmente, e muitas eram provavelmente das mulheres de quem ele não queria receber cartas para começar.


Ele abriu a carta de uma determinada mulher com visível relutância. Ao deparar-se com a frase: «Agora que você está oficialmente casado, seria o momento ideal para eu me tornar sua amante», as feições perfeitas de Cássel se contorceram em uma careta de repulsa.

Ele preferia o distanciamento. Embora fosse incômodo lidar com o ressentimento de mulheres que de fato conhecera, receber aquele tipo de audácia de alguém cujo nome sequer lembrava era ultrajante. Prevendo que tais correspondências poderiam eventualmente chegar à residência oficial ou expor Inês a importunações desnecessárias, Cássel, movido por um zelo protetor, juntou aquele maço de papéis e o atirou diretamente na lareira.


Os nomes de alguns libertinos conhecidos da alta sociedade, que insistiam em cortejar sua atenção, também foram encontrados na bandeja que seria entregue ao tenente. Mais do que poupar José do trabalho mecânico de redigir respostas formais, Cássel agia assim porque se recusava a tolerar tamanho desrespeito em meio às felicitações por seu casamento. 

Ele rasgou os papéis em pedaços e os jogou ao fogo. Mesmo sob o clima quente da estação, ver as brasas consumirem aquelas insolências trouxe-lhe um vislumbre de paz de espírito.

Finalmente, Cássel escolheu as poucas cartas que exigiam uma resposta real e começou a elaborar sua resposta.


Alguns minutos depois, José Almenara enfiou a cabeça pela porta e o chamou


— Senhor...!— Quando Cássel não respondeu, José olhou ao redor ansiosamente.— O Major Comandante Bardem pediu-lhe um convite para sua residência—


Cássel cuspiu: — Não.


— Por favor, deixe-me terminar...— José implorou. — O Major Comandante Bardem só quer uma apresentação formal à Senhora Escalante porque ele não teve a chance na recepção—


Cássel o interrompeu novamente. 


— Feche a porta atrás de você quando sair. Não me torture com a visão de seu rosto feio.


José não recuou. 


— Uhum... Sobre a aposta de mais cedo—


Cássel lançou lhe um olhar feroz até que José estremeceu e se afastou.

Cássel massageou suas têmporas. Ouvir os homens falar sobre a beleza de Inês o deixou tenso. Ele não gostava de nada disso. Nem um pouco.


✽ ✽ ✽


A vida em Calstera transcorria com uma calmaria profunda. 

Ao despertar pela manhã, o som das ondas do mar quebrando do lado de fora da janela acariciava os ouvidos de Inês, e uma brisa fresca soprava através da porta do balcão que Cássel deixara aberta para aquele mundo pacífico.


Era agradável ficar imóvel, observando o dossel branco da cama balançar suavemente contra o céu ao sabor do vento. Havia ali o desejo simples de que as coisas continuassem exatamente daquela maneira. O tempo passava como água mansa, e ela se deixava levar por aqueles dias, fascinada.


Surpreendentemente, sua mente estava limpa; ela não pensava em nada. No início, fora incômodo ver Cássel se aliviar sozinho todas as manhãs por falta de iniciativa dela, mas Inês logo se cansou até de sentir vergonha. Aceitando que ele era daquele jeito, ela simplesmente relaxava o corpo, olhava para o relógio e cochilava de novo, sendo embalada pelo sono mais uma vez.


Enquanto Cássel, expulso do dormitório pela própria rotina, ia se lavar, Inês se demorava um pouco mais na cama, entregando-se à preguiça. Quando ele retornava impecavelmente trajado em seu uniforme militar, ela vestia rapidamente o robe para que pudessem tomar o café da manhã juntos.


As refeições em Calstera eram muito mais modestas do que as fartas mesas de Mendoza, mas o tempero da cozinheira a agradava muito. A única ressalva era que Yolanda, a chef, era uma senhora consideravelmente mais velha que a governanta Arondra; às vezes, ela se curvava excessivamente ao entregar os pratos junto com o mordomo. 


Inês sentia uma ponta de culpa desconfortável pelo simples fato de ficar ali sentada recebendo as atenções de uma funcionária tão idosa. No entanto, a comida era deliciosa, e o prazer da mesa logo a fazia esquecer os incômodos. 

Além disso, Cássel, herdando os hábitos do pai, comia bifes quase sangrentos logo cedo. Após um breve instante lidando com as excentricidades matinais do marido, a tensão se dissipava e a dedicação da velha cozinheira — que tratava o patrão como um ser invencível — era rapidamente esquecida.


Depois de um desjejum simples, porém satisfatório, ela cumpria o protocolo de se despedir de Cássel enquanto ele partia para o quartel. A partir daquele momento, todo o tempo pertencia a ela.


As manhãs sempre começavam cedo no palácio de Calstera. Como os dias ali pareciam mais longos do que em Mendoza e seu marido despertava com a alvorada e desaparecia logo cedo, as horas seguintes tornavam-se indescritivelmente extensas. Cássel sofria de mais insônia do que aparentava. Sob certos aspectos, agia como um soldado rigoroso; sob outros……


"…… Será que ele é sincero em relação a isso?"


Era um pensamento estranho, mas que persistia. Mesmo em Mendoza, ela já o vira vestindo o uniforme de oficial, mas lá ele parecia mais uma mercadoria requintada em uma bela embalagem. Era como contemplar um prato pelo qual ela não tinha apetite, mas que todos ao redor admiravam — o que explicava as mulheres correndo atrás dele como mariposas em direção ao fogo. A única diferença real agora era a cor das vestes: o uniforme branco de gala, o azul-marinho de serviço e os adereços que mudavam conforme a ocasião. No fim, Cássel continuava sendo o mesmo.

Mas vê-lo brilhar daquela forma entre as pessoas, isolado do Cássel que ela conhecia desde a infância, costumava despertar apenas esse tipo de reflexão.


Embora a imagem não diferisse muito do que já vira na capital, em Calstera ele parecia um oficial de verdade. Seu semblante era tão atraente que assumia um ar ascético quando ele mantinha a boca fechada, e uma seriedade estrita quando fitava o horizonte sem expressão. Dava a impressão de ter se tornado um homem muito mais implacável do que ela.


Cássel nunca fora alguém de muitas nuances, mas agora certamente portava-se como um soldado. Mesmo depois de voltar para casa e tirar a farda.


Inês começava a se surpreender com o fato de que, tirando o histórico promíscuo com outras mulheres, não havia nada nele que merecesse desprezo. Sobretudo a sua diligência. Ele exibia um rosto revigorado e limpo todas as manhãs. Arondra inclusive mencionara que, quando estava sozinho, Cássel costumava pular o café da manhã para se apresentar ao campo de treinamento muito mais cedo.


Uma postura bem diferente da dela, que mantinha o hábito de dormir até tarde, algo que não conseguira mudar nem mesmo tendo a chance de viver pela terceira vez.


"Para que tanta dedicação?", questionou-se Inês, apoiando o queixo no parapeito do balcão enquanto contemplava o mar distante. No fundo, ela admitia a contragosto que as pessoas são multifacetadas. Mesmo um homem que tanto desdenhara das responsabilidades ligadas a títulos familiares e casamentos podia perfeitamente viver de forma disciplinada, cumprindo outros deveres no dia a dia.

Era surpreendente.

"Achei que ele só vinha para cá durante as férias porque não queria voltar para Esposa, e que servia à marinha por pura obrigação……"


Ela havia presumido erroneamente que ele devia odiar seu trabalho porque a última vez que ele esteve de férias em Mendoza, ele tinha ficado por lá por muito mais tempo do que o necessário — como se ele temesse a ideia de retornar ao seu posto. Mas, ao contrário de sua suposição, parecia que a vida militar estava fazendo bem a ele, mesmo que ele tivesse inicialmente escolhido o caminho apenas para evitar vê-la.

Agora que Inês pensava sobre isso, Cássel também era um oficial naval em suas vidas anteriores. Mesmo assim, tinha pensado que ele devia ter se inscrito na marinha pelo uniforme atraente, em vez de um genuíno interesse na carreira.


Inês começou a ponderar com quem ela tinha visto Cássel pela última vez. Ela não conseguia se lembrar de um nome. Ontem, cinco dias atrás e dez dias atrás, Cássel tinha apenas ido trabalhar e voltado para casa. Ela percebeu que ambos não tinham muitos associados em comum, além de Oscar. Como qualquer outra pessoa em Mendoza, ela tinha tido contato com ele mais frequentemente por meio de rumores do que pessoalmente.


"Talvez Cássel sempre tenha sido uma pessoa diligente pelas minhas costas, mesmo durante seus anos de escola militar", Inês pensou.


De qualquer forma, era evidente que ele tinha vocação para a vida militar. E Inês concluiu que não havia motivo para se sentir culpada por ter se refugiado ali antes do tempo. Graças à rotina de Cássel, os dias dela corriam muito bem.


Inesperadamente fiel e consciente de suas obrigações, o marido saía de madrugada. Mesmo após o expediente no quartel, ele retornava tarde da noite por conta dos treinamentos individuais. Jantavam juntos, trocavam poucas palavras sobre assuntos triviais e cotidianos, e logo a noite silenciosa se estabelecia.


Todas as noites, ela lia a Bíblia retirada da estante, enquanto ele aproveitava um charuto e algumas taças de vinho ali mesmo, no balcão. Inês afastou o corpo do parapeito, inclinando-se para observar o lugar onde Cássel costumava se sentar. A visão que guardava dele pelas costas trazia à mente o seu semblante visto de frente.


O rosto relaxado ao segurar o charuto, os olhos azuis fitando o mar noturno sem pressa…… Mesmo sem testemunhar a cena naquele instante, Inês admitia objetivamente que era uma imagem impressionante. A beleza dele era inegável. Ele não demonstrava um cansaço evidente, mas, ao término do dia, mantinha-se majoritariamente em silêncio.


O contraste era nítido: o desejo incômodo que o fazia franzir o cenho ao abrir os olhos pela manhã desaparecia por completo ao anoitecer. Quase não havia diálogo entre eles, exceto durante as refeições.


Cássel deitava-se e adormecia quase imediatamente. Ele agia com simplicidade, como se tivesse drenado toda a sua energia e volúpia nos treinamentos e, graças a isso, os dois não haviam tido nenhuma relação íntima desde a primeira noite de núpcias.


"…… Sendo assim, não há com o que se preocupar."


Sim. Aquele lugar era perfeito e confortável demais. Ao encarar o fato de que não tinha nenhuma preocupação na cabeça naquele momento, Inês percebeu que nada realmente a afligia. 

Não havia necessidade sequer de tentar compensar a falta de intimidade.

Cada dia se assemelhava àquela manhã preguiçosa: despertar cedo, mas permanecer na cama grande lagarteando por um bom tempo. À noite, dormia um sono profundo e sem sonhos. Pela manhã, deliciava-se com os pratos do sudoeste — perfeitos para ganhar peso —, tirava um cochilo enquanto folheava alguns livros da estante, sentava-se no jardim para tomar sol e adormecia novamente, embalada pelo som do mar…… Não diferia muito de sua rotina na mansão Valeztena, onde também vivia confinada.

A única diferença era que aqui se sentia mais robusta e ociosa.


No fim das contas, a qualidade de vida que ela experimentava havia melhorado consideravelmente através daquela indolência. Inês não saberia dizer se o motivo era ter finalmente se afastado da família como tanto planejara, a atmosfera acolhedora daquela casa menor ou o eterno quebrar das ondas. Ela não tinha ideia e sequer queria buscar a causa. Fosse o que fosse, sentia-se relaxada e satisfeita.

Inês estava imersa nesses pensamentos quando decidiu se virar. Nesse exato momento, Arondra surgiu no balcão trazendo uma pequena bandeja carregada de petiscos.


— Ah, obrigada.


— Não há de quê, Senhora. Já passava da hora do almoço e, como não recebi ordens para servir a refeição…… Este velho corpo se preocupou com a possibilidade da senhora pular mais uma refeição e decidiu trazer isto.


— É que eu tomei um café da manhã muito reforçado. Não estava com muita fome, por isso não me dei conta do horário……


Inês sentou-se imediatamente com um semblante agradecido, preparando-se para comer. Grande parte do contentamento que aquela casa lhe proporcionava vinha justamente daquela ociosidade e da sensação de saciedade. Havia poucos olhares vigilantes ali e, por ser uma residência pequena, não havia muito para onde ir, restando-lhe apenas comer e dormir o dia todo.


— Como eu poderia pular uma refeição quando você é tão diligente em cuidar de mim, Arondra?


— De que adianta a Senhora ser tão jovem se pula as refeições dessa maneira?


— Quando você fala assim, faz parecer que voltei a ser uma criança de colo.


— As crianças crescem sozinhas, mesmo que não as alimentem. Mas uma mulher recém-casada precisa se alimentar muito bem.


Arondra exibiu um sorriso terno, daqueles que sugerem "você sabe muito bem o motivo, não preciso dizer", o que trouxe um peso implícito para a conversa.


Fingindo não compreender a insinuação sobre uma possível gravidez, Inês desviou o olhar e começou a mastigar os biscoitos de forma mecânica. Arondra observou a cena com evidente satisfação, mas logo assumiu uma expressão cautelosa e a chamou:


— Com licença, minha senhora.


— Sim?


— A Senhora pretende continuar em casa o tempo todo?


— Como assim?


— Não se sente entediada e isolada?


— Sinceramente, não……


— O cocheiro me perguntou quando a Dona Inês desejaria que ele a levasse para conhecer os arredores da região.


— Ah, por favor, diga a ele que não é necessário. Estou bem assim.


— E quanto a convidar as esposas dos outros oficiais? A cozinheira Yolanda também estava me perguntando sobre isso para poder organizar os cardápios.


— Deixa isso para lá. Yolanda já está ocupada preparando comida para nós,— Inês respondeu, indiferente.


A boca de Arondra se contraiu, momentaneamente sem palavras diante da resposta tão categórica e desinteressada de Inês.

Em seguida, ela tentou uma nova abordagem.


— O neto da Yolanda trabalha como assistente, não é?


— Sim, mas eu não gostaria de sobrecarregá-los além da conta.


— Que tal planos para convidar os oficiais superiores do Capitão Escalante?


Inês balançou a cabeça. 


— Não há necessidade.


— Bem, o jardim precisa de algumas melhorias, podíamos mudar a disposição das flores……


— Está perfeito do jeito que está.


Neste ponto, Arondra estava olhando para Inês com preocupação estampada em todo o seu rosto.


— Eu notei que a disposição dos móveis na sala está um pouco desalinhada. Se a senhora quiser, posso pedir para os criados reorganizarem tudo outra vez……


— Você fez o melhor que pôde na arrumação, não é? Então está ótimo assim.


— ……


Inês, que apenas saboreava os doces enquanto respondia no automático a cada sugestão de Arondra, finalmente se deu conta das reais intenções da governanta ao se deparar com o olhar profundamente aflito e penalizado da mais velha.

Por mais que Inês estivesse plenamente satisfeita com aquela rotina, aos olhos de quem assistia de fora, parecia que ela não tinha absolutamente nada para fazer na vida. E, de fato, não fazia nada. Afinal, sempre que os funcionários a viam, ela estava comendo, dormindo ou simplesmente sentada sem mover um músculo.


— Eu estou bem, Arondra.


Arondra tentou outra abordagem. 


— Eu estava apenas preocupada que a senhora pudesse estar solitária ou deprimida em uma nova cidade sem visitantes...— Por um momento, Inês ficou sem palavras. Ela sentiu que a pena era inteiramente descabida. 


— Arondra, eu estou muito contente com a minha vida agora.


— Eu sei que a senhora não quer preocupar sua equipe, mas—


— Não, eu estou verdadeiramente feliz. Eu não estou apenas dizendo isso para aliviar suas preocupações,— Inês disse.


— Bem, a senhora deveria saber que sua equipe está preocupada com a senhora, pelo menos.— Arondra se inclinou para a frente, seus olhos sérios. — A senhora cresceu nos magníficos terrenos de Perez e então passou sua vida adulta na agitada Mendoza. Nós todos nos preocupamos que a senhora deva se sentir sufocada nesta cidade tranquila.


— Como eu poderia me sentir sufocada quando eu tenho tantas janelas grandes ao meu redor?


— É exatamente isso que eu quero dizer! A senhora olha para as janelas o dia todo. A senhora deve estar tão solitária e deprimida.


— Deprimida...? Eu estou cheia de energia, Arondra.



Arondra apenas balançou a cabeça negativamente, escutando a justificativa de Inês como se já tivesse chegado a uma conclusão imutável por conta própria. O olhar de piedade mais profundo do mundo estava direcionado a ela.

Inês ponderou que, às vezes, até Cássel — o proprietário legítimo daquela residência — preferia ignorar as insistências da governanta.


— Não há a menor possibilidade de a senhora já estar grávida, há?


— Não. Claro que não.


— Pois bem, a senhorita passa o dia inteiro apenas comendo e dormindo…… Olhe só para o seu semblante sonolento. É tão lamentável……


— …… O que exatamente há de tão lamentável em passar o dia comendo e dormindo?


Era a eterna ironia: as pessoas que trabalham duro o dia inteiro sentem pena de quem passa o dia inteiro apenas desfrutando da boa vida. Contudo, Arondra parecia surpreendentemente sincera em sua angústia, e as opiniões dos demais funcionários, a quem ela representava, seguiam a mesma linha de raciocínio.


— Ouvi dizer que o capitão solicitou o matrimônio sagrado de forma repentina. É claro que já passava da hora de vocês se casarem, mas…… Mudar de vida e de cidade de um dia para o outro…… Há esposas que adoram Calstera por causa das belas paisagens, mas a governanta de um tenente subordinado ao capitão me confidenciou que as pessoas nascidas em Mendoza sofrem muito para se adaptar no início.


A preocupação da velha funcionária era tamanha que ela chegara ao ponto de fazer investigações externas para entender o estado da patroa…… No entanto, Inês não via dificuldade alguma em sua nova rotina; na verdade, era até um pouco constrangedor receber aquela enxurrada de simpatia simplesmente por ter se adaptado rápido demais ao ócio.


Apesar de tudo, o cabelo branco da governanta, sua postura imponente e o olhar obstinado carregavam uma autoridade difícil de ser ignorada, por mais firme que fosse a personalidade de Inês. Tratava-se da exaustiva cultura orteguista: a tradição de respeitar os mais velhos, mesmo quando se escolhia viver à margem das convenções sociais.


— Eu não nasci propriamente em Mendoza, Arondra. Estou perfeitamente bem.


— Mas se compararmos este lugar com a capital, há muitas desvantagens. Não há distrações, não há nada para se ver além dessa imensidão de mar e terra, e não há sequer onde gastar dinheiro……


— Por isso mesmo não há necessidade de mudar nada, Arondra. Eu originalmente sempre fui……


— — Deve ser tão frustrante para a Senhora.


O que realmente estava se tornando frustrante ali era o olhar condescendente de Arondra. No entanto, Inês refletiu que receber aquela piedade ainda era melhor do que ter os empregados cochichando pelas suas costas, dizendo: «Será que existe alguém tão absurdamente preguiçosa a ponto de não fazer nada o dia todo?».


De repente, Inês relembrou vagamente o seu plano original.


O que aconteceria se os criados de Calstera, conhecidos por sua natureza simples e pela solidariedade com o trabalho duro, percebessem a verdadeira essência de sua conduta? E se notassem que ela não estava deprimida, mas simplesmente sendo ociosa e desinteressada por pura conveniência?


"Para piorar, o Cássel é desnecessariamente diligente, o que torna a comparação ao lado dele muito fácil……"


Inês sentiu uma ponta de arrependimento ao recordar a fisionomia imponente do marido saindo energicamente de casa naquela manhã. Quão descaradamente patética a sua própria indolência pareceria diante daquela dedicação militar?


Na mansão Valeztena, ela sempre conseguira manter uma existência pacífica, sem que ninguém a incomodasse e sem precisar lidar com pessoas inconvenientes. Em uma sociedade de aparências, viver em total quietude era a maior das rebeliões.


No passado, ela jamais se importara com a opinião dos criados, já que até os julgamentos da alta nobreza eram solenemente ignorados por ela. Na sua primeira vida, atribulada e caótica, os pensamentos e pontos de vista dos funcionários eram triviais demais para merecerem sua atenção. A segunda vida, por sua vez, fora curta e miserável demais para que ela sequer tivesse empregados.


Mas agora a história era diferente. Ela precisava se preparar minuciosamente para o dia em que este casamento chegasse a um término perfeito e sem escândalos. E, para que essa separação transcorresse sem percalços, o testemunho das pessoas ao seu redor de que ela era uma boa esposa seria fundamental.


— …… Talvez você tenha alguma razão.


Inês cedeu estrategicamente, aceitando a opinião de Arondra.


No mesmo instante, os olhos da governanta se iluminaram e ela juntou as mãos, entusiasmada.


— Após a missa do fim de semana, o que a senhora acha de fazer um passeio de barco com o capitão?


— Ir à missa já é o suficiente para mim. Não sinto necessidade de estender o passeio.


— Como pode ser o suficiente? Há um lago belíssimo não muito longe daqui.


— Eu passo o dia inteiro olhando para o mar, Arondra. Não tenho o menor interesse em ver um lago.


— Mas me disseram que os caminhos ao redor são largos o bastante para um passeio de carruagem! É um trajeto muito confortável para ir e voltar.


— Não sei…… Não gostaria de cansar o Cássel no dia de folga dele.


— O senhor Escalante não conhece o significado de cansaço! Basta olhar para o porte físico imponente dele para saber disso.


— Ainda assim, prefiro deixá-lo descansar em seus dias livres.


— Mas ele não precisa de descanso!


— Todo ser humano precisa de descanso, Arondra.


— Todo mundo, exceto seu marido! Ele não precisa de descanso de jeito nenhum.— Arondra sorriu radiante.


Inês percebeu que sua linha de defesa havia falhado completamente diante da insistência da governanta.

Anuindo contra a própria vontade, ela passou a ouvir as perguntas de Arondra sobre o que deveriam preparar para a cesta de piquenique. Inês respondia de forma totalmente desalmada: "Tanto faz", "Coloque o que o Cássel preferir", "Sim, frutas também são uma boa ideia", "Eu detesto pêssegos……".


Ela estava imersa naquela sequência tediosa de respostas quando uma jovem criada colocou timidamente a cabeça para dentro do balcão, interrompendo a conversa.


— Senhora! Um mensageiro da Casa de Valeztena acaba de chegar.


— …… Da Casa de Valeztena?


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