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Capítulo 40 — Servo Leal

 — Por que esse babaca está aqui de novo? — Cássel ficou surpreso com o som de suas próprias palavras saindo de sua boca.

Para seu alívio, Inês não ouviu a profanação. Ela se virou calmamente e disse: 

— Raúl voltou depois de entregar minha bagagem para Esposa e Perez.

— Por que ele voltou aqui? — Se o menino de recados terminasse sua tarefa, ele não tinha motivo para retornar a uma cidade que nunca havia visitado até recentemente.

Cássel olhou furioso para Raúl no corredor, mas Raúl apenas fez uma reverência educada e pousou o olhar em Inês. Mesmo que Raúl tenha ouvido Cássel chamá-lo de babaca, ele não demonstrou isso em seu rosto. Sua atitude era tão impecável que Cássel queria repreendê-lo por ser tão irritantemente impecável.

Inês apenas respondeu: 

— Ele tinha assuntos para me relatar. E ele me entregou a carta da minha mãe. — Cássel estava prestes a perguntar quando Raúl iria embora, mas fechou a boca a tempo de ver Inês abrir os lábios novamente para continuar. — Ah, também pensei que poderia contratá-lo como manobrista desta casa.

Cássel ficou estupefato. Tornar-se um funcionário em tempo integral e residente foi um salto significativo em relação à entrega de correspondências antigamente.

Inês não percebeu o silêncio atordoado de Cássel e se virou para a sala de jantar. Raúl Ballan trotava na frente de Inês como um cachorro em uma caminhada, abrindo o caminho para ela.

Mas Cássel a alcançou e argumentou: 

— Esta é uma residência minúscula. Nós já temos Alfonso para tais funções. — Embora Cássel não se orgulhasse de admitir que a casa era pequena, ele precisava se livrar de Raúl mais do que manter seu orgulho.

— Alfonso é um mordomo em seus últimos anos — Inês rebateu. — Ele é superqualificado para fazer as tarefas de manobrista e lacaio que você pede dele. Na idade dele, ele deveria sentar em sua cadeira, esperar até que um convidado chegue e deixar o resto da equipe lidar com tarefas servis como vestir você.

— Alfonso apenas envelheceu mal. Ele não é tão velho quanto parece. — Cássel achava que Inês deveria colocar os desejos do marido em primeiro lugar, não os de Alfonso. Afinal, o mordomo deveria servi-lo.

Ouvindo a conversa na entrada da sala de jantar, Alfonso arqueou a sobrancelha. Cássel deveria ter ficado envergonhado que seu mordomo o ouviu criticando a aparência, mas ele estava muito preocupado. Ele decidiu que poderia se desculpar com Alfonso mais tarde.

Inês soltou um suspiro suave. 

— Por favor, tome cuidado com o que está dizendo.

Cássel continuou seu argumento. 

— Isso não faz sentido em uma casa tão pequena como essa, Inês. Não preciso de um criado para atender a todas as minhas necessidades. Você sabe disso.

— Eu sei que você tem se saído bem sozinho até agora, mas ainda acho que você precisa disso.

— Você é quem precisa contratar uma empregada doméstica.

— Só se você contratar um manobrista primeiro.

— Como eu disse, eu não preciso...

Inês interrompeu: 

— Mas preciso que você tenha um manobrista.

Cássel estremeceu involuntariamente antes de endireitar sua postura e coletou seu ego. 

— Por que você precisa que eu tenha um manobrista?

— Porque preciso de alguém a quem eu possa dar ordens. Não posso pedir a Alfonso para cuidar de tarefas servis, e não me sinto confortável dando tarefas críticas aos servos...

Cássel franziu a testa. 

— Você não chamou essas tarefas de servis?

Mesmo quando ele apontou sua falácia, Inês não corou. — Eles são servis, mas críticos.

Ao se aproximarem da mesa de jantar, Raúl rapidamente puxou o assento de Inês antes de ela se sentar.

Cássel observou seus movimentos praticados e murmurou: — Ele não é um pouco muito jovem para ser um manobrista?

Infelizmente, Cássel sabia que Inês tinha razão. Algumas tarefas exigiam uma pessoa jovem e letrada com raciocínio rápido, mas a casa não tinha nenhum. Agora, ele não tinha desculpa além da idade de Raúl para impedi-la de contratar o novo manobrista. A maioria dos manobristas tinha anos de experiência antes de assumir a função. Cássel imaginou que Raúl era jovem demais para ser lacaio em Perez, muito menos para ser criado. Raúl parecia ter apenas um ano a mais que ele. 

"Espere até os quarenta para sua vez", pensou Cássel amargamente.

— Quando Raúl era lacaio em Perez, ele gerenciava outros três lacaios. Se pedirmos que ele se mude para cá, devemos promovê-lo, mesmo que seja apenas em seu título. Lembre-se de que ele seria apenas um criado de uma pequena casa, como você mesmo disse.

— Bem, um talento tão precioso deveria ficar em Perez, então. Ele é bom demais para esta casa.

Enquanto eles continuavam discutindo, Raúl cumpria com seus deveres, sem dar sinais de ouvir o desdém aberto de Cássel. Ele impediu a empregada de entrar na sala de jantar com o carrinho barulhento e entregou os pratos pesados à mão.

Cássel resmungou silenciosamente diante da demonstração de profissionalismo de Raúl. "Basta olhar para ele. Ele é tão profissional e impecável no comportamento, o que o torna muito mais desagradável."

— Eu também sou um talento precioso, Cássel — comentou Inês. — Mas ainda perco meu tempo precioso nesta casa minúscula. — Naquele exato momento, Raúl lhe entregou um guardanapo molhado, e Inês limpou as mãos.

Cássel sentiu uma pontada de culpa — embora Inês não o culpasse nem odiasse viver em Calztela. A acusação não intencional também o lembrou de que ele havia trocado de casa sem que ela soubesse.

Raúl também lhe entregou um guardanapo molhado, ainda parecendo impassível. Cássel o pegou e limpou as mãos furiosamente.

— É por isso que Raúl pode desperdiçar alguns anos do seu potencial nesta casa — acrescentou Inês.

Raúl não havia demonstrado nenhum traço de ter ouvido essa conversa até agora, mas finalmente interrompeu com um sorriso praticado. 

— Minha senhora, não considero um desperdício, mas uma honra servi-la e ao Tenente Escalante. — Sua bajulação continuou, listando o quão grato ele ficaria pela prestigiosa honra.

Cássel fez sinal para que ele parasse, e Raúl parou imediatamente. A obediência instantânea só irritou Cássel ainda mais.

— Este garoto cobrirá todas as tarefas de um criado e um lacaio, fazendo recados para nós e servindo quaisquer convidados. Podemos chamá-lo do título que quisermos. Mesmo que ele não tenha experiência, uma ajuda inexperiente será melhor do que nada. — Então, Inês disse, pensando melhor: — Ah, eu cuido do salário dele.

Cássel cuspiu: 

— Não estou preocupado com dinheiro!

— Então, qual é a sua preocupação? — Seus olhos brilhavam apenas com genuína curiosidade, incapaz de imaginar qualquer outra questão além do custo adicional de contratar um manobrista.

Cássel não sabia como responder. 

Não, ele não queria que ela descobrisse sua aborrecimento com a presença de Raúl, mas também não queria parecer um marido mesquinho que contaria centavos para contratar alguém. Se ele não fosse tão distraidamente bonito, qualquer um teria visto através de seu pânico.

Nesse momento, Raúl se inclinou e sussurrou algo no ouvido de Inês. Uma veia saltou na têmpora de Cássel.

Ela imediatamente balançou a cabeça. — Não, não é nada disso.

Sua negação só deixou Cássel mais desconfiado. "O que poderia ter acontecido com o oh-o tão inteligente e talentoso Raúl Ballan disse para fazê-la dizer isso?"

Ao ler a pergunta silenciosa no rosto de Cássel, Inês esclareceu: 

— Raúl acha que você o odeia sem motivo algum.

Cássel rangeu os dentes. "Que cãozinho de estimação descarado..."

Inês virou-se para Raúl e disse: 

— Não, Cássel não é alguém que odiaria outra pessoa sem motivo.

Cássel era, de fato, exatamente uma pessoa assim e agora não conseguia nem concordar nem discordar de Inês.

Raúl não pareceu nem um pouco envergonhado pelo fato de seu sussurro ter sido comunicado a seu outro empregador. Quando Raúl encheu o copo de Cássel com água, Cássel olhou para ele como se a água fosse o próprio Raúl.

— Raúl é um funcionário impecável. Não digo isso só porque o conheço há muito tempo — disse Inês.

Na mente de Cássel, a perfeição de Raúl era seu maior defeito.

Infelizmente, Cássel sabia que não tinha esperança de persuadir Inês depois que ela se decidisse. Depois do terrível precedente de deixá-la decidir tudo sobre a mobília e a equipe, ele sabia que não tinha base para se recusar a contratar Raúl. Então, ele escolheu, em vez disso, encarar o serviço refinado e impecável de Raúl.

— Eu entendo seus medos sobre a idade dele, mas você verá o valor dele com o tempo. — Inês virou-se para Raúl e disse: — Certo, Raúl? Você vai trabalhar muito duro para demonstrar seu valor.

Raúl curvou-se educadamente. 

— Claro. Mesmo que você me odeie, eu o servirei com o melhor de minhas habilidades.

— Não, eu disse que ele nunca te odiaria sem um motivo válido. Ele está só preocupado que você tenha pouca experiência como manobrista. — Inês se virou para encarar Cássel. — Não é mesmo, Cássel?

Cássel fumegou silenciosamente, mas foi forçado a sorrir e dizer: 

— Claro. Bem-vindo ao seu novo emprego, Raúl Ballan.

***

Quando Cássel saiu do chuveiro, a mão de Raúl apareceu, segurando uma camisa social.

Cássel estremeceu primeiro e depois ficou sem camisa em suas calças de linho. Ele olhou para a camisa na mão de Raúl, mas Raúl apenas estendeu a mão educadamente. Cássel deixou a mão de Raúl no ar por um minuto e secou o cabelo com uma toalha. "Pelo menos isso é menos irritante do que me encher o saco para usar uma camisa..." Raúl era inteligente o suficiente para saber seus limites, mas precisamente tal demonstração de inteligência irritou Cássel mais.

Como a maioria das crianças de sangue nobre, Cássel mal levantou um dedo durante toda a sua infância. No entanto, ele teve um surto de crescimento repentino na adolescência e acabou ficando mais alto do que a maioria dos adultos. Na idade adulta, ele se tornou um homem altamente capaz, com anos de treinamento naval e uma constituição que se elevava sobre a maioria das pessoas.

Por isso, ele achava que servos menores o ajudavam a se vestir um incômodo. Ele não precisava que outras pessoas se preocupassem com coisas insignificantes como comprimento de manga ou arregaçar sua gola. Infelizmente, Raúl tinha a altura e o tamanho perfeitos para ajudar Cássel sem ficar na ponta dos pés ou Cássel ter que se abaixar. E Cássel tinha um problema com a falta de problemas de Raúl.

Cássel encolheu os ombros para dentro da camisa e passou zunindo por Raúl. 

— Não preciso de ajuda com coisas assim. Alfonso não te contou?

Raúl seguiu Cássel, três passos atrás o tempo todo. — Sim, ele me informou. Estou fazendo apenas as tarefas que ele costumava fazer. Se é que você pode chamar tarefas tão fáceis de trabalho.

Cássel rangeu os dentes para o mordomo, que aparentemente estava ansioso para entregar o trabalho a Raúl. 

— Onde está Inês?

— Ela está lendo as escrituras na biblioteca.

— Escrituras? — Cássel duvidou disso. Embora as roupas conservadoras de Inês pudessem fazê-la parecer devotamente religiosa, ele sabia a verdade. Ela nunca se incomodaria em acordar cedo para a oração matinal. Em vez disso, ela passaria as noites, preguiçosamente jogada sobre um sofá, lendo livros que decididamente não eram a Bíblia. Cássel nunca a tinha visto na sala da capela nos últimos meses, o que significava que algo estranho estava acontecendo.

Quando Cássel estava prestes a sair para investigar o que estava acontecendo, a voz de Raúl o deteve. — Ah, senhor. Se você está indo para a biblioteca agora, lamento informar que...

— Informar-me que não devo ir ver minha esposa? — A voz de Cássel era indignada. Raúl não tinha o direito de decidir quando e como Cássel deveria passar o tempo com Inês.

— Queria dizer que lamento informar que ir à biblioteca agora não é a melhor ideia. — Raúl calmamente completou sua frase, imperturbável pelo desdém aberto de Cássel.

— Por que não?

— Porque Sua Senhoria lê suas escrituras favoritas toda quinta-feira à noite e reza ela mesma. Ela não gosta de interrupções nessa rotina estabelecida...

Cássel nunca tinha testemunhado Inês fazendo tal coisa. Ele franziu a testa e procurou em suas memórias, mas nunca teve o cuidado de rastrear o que Inês estava fazendo toda quinta-feira à noite. Ele não podia dizer com segurança o que estava acontecendo toda quinta-feira, mas não queria admitir isso na frente de Raúl.

— É por isso que eu estava tão hesitante em te contar — Raúl explicou. — Eu quero evitar qualquer conflito desnecessário entre vocês durante seus dias de recém-casados...

Cássel interrompeu. 

— Se Inês ficar brava comigo, isso seria problema meu. Então, não vou tolerar mais nenhum conselho não solicitado. — Seu tom cortante deixou claro. Raúl precisava ficar em sua pista.

O que mais frustrou Cássel foi que Raúl Ballan sabia mais sobre Inês do que ele. Raúl conhecia suas inúmeras preferências e hábitos, como sua rotina de quinta-feira à noite. Ele conhecia seus limites e entendia o que ela precisava com um olhar. Eles compartilhavam um passado que Cássel nunca conheceria. Ele olhou profundamente nos olhos de Raúl, esperando vislumbrar o cérebro de Raúl e desenterrar um pouco da história compartilhada com sua esposa. "Ficar com ciúmes do passado? Posso afundar mais?" Cássel estava enojado consigo mesmo e tinha que parar de cair nessa toca de coelho.

Com tempo suficiente, qualquer um conheceria Inês tão bem quanto Raúl. Raúl não era tão especial, e o tempo ajudaria Cássel a alcançá-la. Infelizmente, Inês não tinha mais ninguém que a conhecesse tão intimamente, então Cássel teve dificuldade em se convencer de que Raúl não era especial na vida dela. Nem Juana foi convidada para se juntar à vida de casados, mas Raúl Ballan foi. Com base em tudo isso, Raúl ficou numa posição acima de Juana, e Cássel ficou em último, atrás de Juana. "Como ele poderia ser sua única conexão com o resto do mundo? Isso é ridículo."

Raúl interrompeu seus pensamentos. 

— Implorei a Sua Senhoria pela oportunidade de servi-la. — "Por que ele imploraria para ser tratado como um mero animal de estimação?" Embora nada disso fizesse algum sentido para Cássel, ele não tinha escolha a não ser aceitar a realidade.

Raúl continuou explicando: — Todo cavalheiro de sangue nobre requer uma equipe educada para servi-los ao seu lado. Embora Alfonso seja um mordomo respeitável e excelente, ele é velho demais para ser uma decoração chamativa para uma casa como esta, especialmente para os hóspedes.

Cássel se forçou a manter a calma. 

— E isso significa que você é chamativo?

Raúl assentiu. — Acredito que sim. Embora eu não ouse me exibir diante de alguém tão espantosamente belo...

— Mas você está ousando fazer isso agora mesmo.

Raúl limpou a garganta. — Para um mero servo, ouvi dizer que sou agradável aos olhos.

Cássel olhou para Raúl incrédulo. "Ele se considera um pedaço de decoração? Como ele pode parecer orgulhoso de ser uma decoração?"

Os aristocratas orteganos frequentemente ostentavam o quão bem vestidos, o quão agradáveis aos olhos e o quão educados eram seus funcionários seniores. Na verdade, mordomos, lacaios e valetes eram semelhantes a decorações caras para ostentar sua prosperidade e reputação. Certa vez, uma família menos abastada chegou ao ponto de contratar um valete para um show e acabou pagando ao valete mais do que o salário da família.

Raúl disse: — Minha Senhora é filha do Duque Valeztena e esposa do Tenente Escalante. Ela não queria particularmente me contratar, mas não consigo imaginá-la sem uma única ferramenta como eu.

— De acordo com sua imaginação, presumo?

— Respeitosamente, sim. — Raúl conseguiu de alguma forma ser humilde e arrogante ao mesmo tempo.

Para o choque de Cássel, Raúl parecia genuinamente orgulhoso e satisfeito com seu lugar na vida como animal de estimação de Inês, talvez até mais leal e obediente do que um animal de verdade. No entanto, esse fato não o consolou. Ele agora se sentia como o pastor alemão ao lado do novo e brilhante Pomeranian a quem o dono dava mais atenção. Ele deu uma boa olhada em Raúl de cima a baixo e zombou silenciosamente. "Ele não é tão agradável de se olhar quanto parece pensar que é."

— Estou confiante de que posso deixá-lo satisfeito com meu serviço a tempo — acrescentou Raúl.

Cássel o dispensou. — Estou cansado de suas declarações sobre o quanto você trabalhará duro para me servir.

— Não, eu quis dizer que tenho muito a oferecer para ajudar sua causa.

Cássel arqueou uma sobrancelha em curiosidade.

— Eu respeito tanto a minha Senhora que sei tudo sobre ela. — Os olhos de Raúl brilharam de ambição. — Então, eu sei que você conseguiu fazer com que ela baixasse a guarda nesta pequena casa que você extraiu da Tenente Comandante Elba. 

***

Cássel odiava trapaça. Ele sempre seguia as regras em todos os jogos, seja bilhar, caça, tênis ou outros esportes. Na verdade, ele era bom o suficiente na maioria dos esportes para não precisar trapacear para vencer. Ele parou de jogar quando descobriu o esporte raro em que não tinha talento para vencer sem trapacear. Cássel não apenas odiava trapacear, mas também odiava perder tanto quanto. Por isso, ele era inflexível em não deixar Raúl Ballan transformá-lo em um trapaceiro.

— Se você é tão conhecedor e está disposto a trair seu mestre, o que quer em troca de suas informações?

— Eu não chamaria isso de traição.

Cássel zombou. — Eu não chamaria de outra coisa.

Raúl balançou a cabeça. — Por que eu trairia minha Senhora?

Cássel estreitou os olhos. — Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?

— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...

Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. — Parece que minha felicidade não é sua intenção.

Raúl balançou a cabeça. 

— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...

— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.

— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.

Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.

Raúl apenas sorriu generosamente diante da aparente raiva de Cássel. — Mesmo que você não confie em mim e abertamente não goste de mim, por favor, saiba que estou do seu lado.

— Eu não preciso que você esteja do meu lado. Não há sentido em tomar partido.

— Claro, eu só estou do seu lado enquanto você não tiver má vontade contra Minha Senhora. Se você quiser fazê-la feliz, eu o ajudarei de qualquer maneira que eu puder. Eu ficaria feliz em compartilhar todo e qualquer conhecimento sem nenhuma expectativa de compensação.

Cássel suspirou profundamente. — Você quer dinheiro?

Raúl engasgou. — Eu nunca seria tão desavergonhado!

Tudo o que Cássel queria era que Raúl desaparecesse. Se isso não fosse uma opção, ele preferia que Raúl fosse motivado por dinheiro para que ele pudesse pagar Raúl e se livrar dele. Infelizmente, Raúl era irritantemente dedicado a garantir a felicidade de Inês.

Como um resultado, Cássel Escalante de Esposa não entrou na biblioteca naquela noite, admitindo relutantemente a utilidade das informações de Raúl. Este era um jogo que ele não tinha talento suficiente para vencer sem trapacear, mas desistir não era uma opção. Ele estava atualmente muito atrás de uma mera empregada e um mero criado, então ele não tinha escolha a não ser igualar o campo de jogo formando uma aliança secreta com Raúl. E ainda assim, Cássel rejeitou a oferta de ajuda de Raúl.

***

Cássel observou Raúl cuidando das necessidades triviais de Inês por conta própria. "Ele age como se pudesse antecipar todas as necessidades dela e soubesse tudo sobre ela... Que irritante." 

— Balan, me traga os jornais.

Raúl pegou os jornais no console perto da porta e colocou os jornais do dia nas mãos de Cássel num piscar de olhos.

Cássel quase conseguia ouvir as palavras não ditas de Inês: "Ele não é tão prestativo?" Mas Cássel ignorou o sorriso orgulhoso em seu rosto. Ele não queria que ela tivesse orgulho de Raúl Balan. Ele acreditava que ela deveria ter orgulho de alguém mais significativo, como seu marido.

— Onde está o jornal de Mendoza? Ainda não chegou? — perguntou Cássel.

Raúl curvou-se em pedido de desculpas. — É esperado em seu escritório à tarde. Eu esperarei sua chegada ao quartel-general naval e o pegarei para sua leitura à noite.

Suspirou. 

Após anos de treinamento militar, ele preferia um estilo de vida independente, e ter Raúl voando por aí só o irritava em vez de ajudá-lo. Ele não gostava de ter Raúl por perto, mas não tinha escolha.

Se Cássel não continuasse ordenando que Raúl fizesse o que ele queria, Raúl passaria o dia todo perto de Inês. Por mais irritante que isso fosse, Cássel achava que ainda era melhor do que ver Raúl à disposição de Inês.

— Ah, Cássel. Alfonso e Raúl vão enviar convites para uma festa de vinho para seus colegas em algum momento hoje ou amanhã. Me avise se quiser convidar mais alguém — disse Inês.

— Nenhum — respondeu Cássel.

— Você tem certeza disso? — ela perguntou novamente.

Cássel apenas assentiu. Ele também não queria seus colegas em sua casa, mas queria menos ainda atrapalhar os planos de socialização de Inês. — Não tenho certeza se temos vinho suficiente para servi-los — acrescentou. O vinho fino na adega não seria apropriado para uma festa como essa.

Inês também assentiu. — Não se preocupe com isso. Raúl e eu passaremos em uma loja de vinhos em El Tabeo hoje.

Um resquício de preocupação puxando Cássel desapareceu e foi substituído por frustração. Ela nunca tinha viajado para El Tabeo nos últimos meses aqui. Como a área central mais desenvolvida da região, El Tabeo era animada e cheia de entretenimento e lojas. Cássel estava esperando pacientemente o momento certo para levar Inês para um encontro romântico, mas Raúl o venceria. Nesse jogo, paciência aparentemente não era uma virtude.

— Eu poderia me juntar a você depois do meu turno — Cássel ofereceu.

Inês balançou a cabeça. 

— Não, não quero te incomodar.

— Você não vai me incomodar.

— Mesmo que você diga isso, eu te impediria de treinar. Raúl tem um paladar exigente para vinho, então vou deixá-lo fazer todos os testes de sabor.

— Sinto-me honrado, senhora.

Cássel mastigou seu bife com fúria, mas Raúl estava muito focado em ajudar Inês com sua refeição para notá-lo.

Inês olhou para o relógio e perguntou: 

— Você não precisa ir agora, Cássel?

Isso só aprofundou o vinco na testa de Cássel. Sua pergunta inocente o fez se sentir expulso de sua própria casa. Infelizmente, ele não teve escolha a não ser deixar Inês com seu animal de estimação. Por despeito, ele a puxou para seus braços e beijou sua têmpora e lóbulos das orelhas, mas Raúl não vacilou.

Agora, Cássel tinha descoberto que sua suspeita inicial estava errada. Raúl Ballan nunca foi seu amante oculto, apenas seu bichinho de estimação. Ele sabia que Raúl nunca teve nenhuma afeição romântica ou desejo físico por ela. No entanto, seu coração mesquinho se recusou a aceitar o que sua mente entendia e, em vez disso, escolheu ter ciúmes de cada ação de Raúl.

Os olhos de Raúl só brilhavam com ambição e lealdade. Ele era oportunista o suficiente para ajudar Cássel de boa vontade se isso fosse o necessário para fazer Inês feliz.

Cássel não tinha ideia de como alguém poderia estar tão disposto a ajudar e ainda ser tão irritante ao mesmo tempo. Ele ainda não tinha percebido que a natureza de suas emoções era competitividade. Afinal, até o mais gentil dos cães poderia assediar ou até matar o cão favorito do dono por ciúmes. Como Cássel não era um cão gentil para começar, ele poderia ser levado à loucura se fosse provocado ainda mais.

Quando ele estava saindo de casa para o trabalho, ele parou no meio do caminho na varanda. — Alfonso — ele disse.

O mordomo atrás dele fez uma reverência e respondeu: — Sim, senhor.

— Quero que você contrate um homem para segui-lo.

— Seguir quem, senhor? — perguntou Alfonso.

— Raúl Ballan — respondeu Cássel.

— Seguir Ballan... Senhor? — Desta vez, Alfonso perguntou não quem, mas por que seu mestre estava transmitindo tal ordem.

Cássel escolheu suas palavras cuidadosamente. Ele não podia admitir que suspeitava daqueles dois porque não suspeitava. Em vez disso, ele esperava saber o que exatamente aquele cachorro fez ao lado de Inês o dia todo. Saber os fatos seria melhor do que deixar sua imaginação correr solta. E se ele descobrisse a fraqueza ou duas de Raúl no processo, isso seria um bônus adicional. Ele tentou não pensar muito sobre o quão mesquinho e infantil ele estava sendo.

— Por exemplo, devemos garantir que ele não desvie dinheiro ao fazer compras. — Mesmo enquanto falava, Cássel não confiava em suas próprias palavras.

Alfonso assentiu. — Entendo o que você quer dizer. Vou mandar alguém atrás dele à tarde, quando partem para El Tabeo.

— Não, mande-o seguir o dia todo.

— Perdão? — Alfonso se inclinou para frente como se quisesse verificar se tinha ouvido errado.

— Na verdade, faça com que ele seja seguido todos os dias e me informe sobre tudo o que ele fizer, especialmente em torno de Inês... — Cássel se interrompeu antes que suas verdadeiras intenções fossem expostas descaradamente.

O mordomo riu, fechando os olhos por um segundo.

Cássel franziu a testa. 

— Alfonso, que impertinente. Não ria.

— Peço desculpas. É só que...

— Só o quê?

— Agora... eu finalmente entendo por que você estava olhando para ele daquele jeito. — Alfonso parecia apenas achar a obsessão mesquinha de Cássel engraçada, não preocupante.

Cássel não conseguia acreditar que seu digno mordomo estava rindo como um homem comum. — Pare de rir.

— Eu simplesmente não consigo acreditar... que você pediria algo assim. — Alfonso ainda tinha um sorriso persistente nos lábios. Ele claramente não esperava desenterrar nada de valor, mas cederia aos caprichos ciumentos de Cássel.

Cássel deixou o assunto de lado por enquanto, já que Alfonso concordou em executar suas ordens. Ao sair da varanda, ele olhou para o céu acinzentado. Nuvens escuras de chuva estavam se aproximando da costa.


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Comentários

  1. Muito obrigada pelos capítulos, estava atualizando a página toda a hora ansiosa por mais atualizações ❤️❤️❤️❤️

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