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Capítulo 40 — Servo Leal

 — … Por que diabos esse bastardo está aqui de novo?


Cássel sobressaltou-se por um instante ao perceber que o pensamento havia escapado de seu inconsciente direto para os lábios. Para o seu alívio, Inês, que caminhava alguns passos à frente, não pareceu notar o termo depreciativo; ela apenas se virou e o encarou com sua calmaria habitual.


— Raúl voltou depois de entregar minha bagagem para Esposa e Perez.


— … Retornou? Por quê?


Se o sujeito já havia levado os baús para Esposa e, depois, para Pérez, a missão dele estava mais do que cumprida. A simples ideia de ver um indivíduo nascido e criado nas terras de Pérez fincar os pés ali era ridícula para Cássel.

Quando Cássel dirigiu um olhar hostil e mesquinho na direção de Raúl — que observava apenas Inês com uma expressão radiante no fundo do corredor —, o criado inclinou-se imediatamente, prestando-lhe uma reverência impecável. Era a primeira vez na vida que Cássel sentia vontade de culpar um subordinado puramente porque a conduta do homem era tão perfeita que não dava margem para nenhuma reprimenda legítima.


"Esse infeliz com certeza leu o movimento da minha boca quando o chamei de bastardo..."


— Ele voltou para me reportar os detalhes da viagem e também para entregar uma carta de minha mãe — explicou Inês.


A pergunta "E quando é que ele vai embora de uma vez?" subiu pela garganta de Cássel quase por reflexo, mas, ao notar que Inês umedeceu os lábios como quem se preparava para fazer um anúncio importante, ele conseguiu manter a boca fechada a tempo.


— E eu decidi que Raúl ficará aqui a partir de hoje, servindo como o nosso camareiro pessoal na residência oficial.


— …


Prestar relatórios e entregar correspondências era uma coisa... mas como aquilo justificava que o sujeito se instalasse de malas prontas na residência de Calstera?


Inês fez essa transição com uma naturalidade tão calculada que soou quase artificial. Em seguida, ela deu as costas e continuou avançando pelo corredor. Cássel apressou o passo para alcançá-la e manifestou sua total discordância:


— Esta é a residência de um oficial de Marinha, Inês. É do tamanho de um buraco de rato. Nós já temos o Alfonso para cuidar de tudo.


Embora Cássel jamais gostasse de admitir que sua atual moradia se assemelhava a um buraco de rato, ele estava disposto a usar qualquer argumento depreciativo se isso servisse para afastar aquele sujeito e arrancar a sensação incômoda que parecia irritar seus olhos.


Ignorando as queixas do marido, Inês dobrou a esquina em direção ao corredor que dava para a sala de jantar, decidida a cear imediatamente. Como um cão adestrado que corre à frente de seu dono durante um passeio, Raúl Ballan moveu-se com uma agilidade espantosa e assumiu a dianteira, postando-se na entrada da sala de jantar. Era como se ele estivesse pavimentando um caminho que, na verdade, já existia.


— Alfonso é um velho mordomo — rebateu Inês. — Ele é a nossa melhor mão de obra, Cássel, e já está em uma idade em que não deveria ficar correndo de um lado para o outro quando não temos visitas na casa. Da forma como as coisas estão, você o está forçando a realizar tarefas que deveriam ser designadas a um camareiro ou a um lacaio de baixo escalão. Você por acaso quer que o mordomo fique plantado dentro do seu closet desde a madrugada? Você precisa de um assistente adequado.


"Então ela estava fazendo aquilo pelo bem de Alfonso?".


— Alfonso apenas envelheceu mal. Ele não é tão velho quanto parece. — Cássel achava que Inês deveria colocar os desejos do marido em primeiro lugar, não os de Alfonso. Afinal, o mordomo deveria servi-lo.


Ouvindo a conversa na entrada da sala de jantar, Alfonso arqueou a sobrancelha. Cássel deveria ter ficado envergonhado que seu mordomo o ouviu criticando a aparência, mas ele estava muito preocupado. Ele decidiu que poderia se desculpar com Alfonso mais tarde.

Inês soltou um suspiro suave. 


— Por favor, tome cuidado com o que está dizendo.


— Inês, é ridículo querer segmentar tantas classes de criados em uma casa tão pequena — Cássel insistiu, baixando o tom de voz. — Além disso, você sabe perfeitamente que eu não sou o tipo de homem que precisa de um camareiro para se vestir ou realizar tarefas cotidianas. Você sabe muito bem disso.


— Eu sei bem o que você faz e o que deixa de fazer. Ainda assim, a presença dele é necessária.


— Traga mais uma de suas donzelas, se for o caso.


— Se eu tirar mais funcionários de Pérez…


— Eu não preciso que…


— Eu preciso dele aqui — Inês cortou a frase dele com uma firmeza resoluta.


Ao ser interrompido daquela forma categórica, Cássel refreou o ímpeto por puro hábito — dando-se conta, mais uma vez, do costume sublime que desenvolvera de ceder aos desejos dela — e estalou a língua discretamente.


— Alfonso não é alguém que possamos sobrecarregar com facilidade. Ele já ultrapassou a idade e a posição de servir como lacaio de ordens — continuou Inês, suavizando o tom enquanto se sentavam. — À medida que os oficiais e convidados começarem a frequentar esta casa, as demandas aumentarão, e eu desejo que o status de Alfonso seja respeitado daqui em diante. No entanto, não é seguro confiar tarefas confidenciais e importantes a criados comuns contratados na província…


— E você está me dizendo que este sujeito cuidará dessas tarefas confidenciais?


— Pequenas burocracias, mas que exigem extrema discrição.


Cássel tentou encontrar alguma brecha no argumento dela, mas Inês manteve a expressão impassível, amarrando as duas justificativas de forma irrepreensível.


É claro que Cássel entendia o ponto dela. Em suma, tratava-se de atribuições que apenas jovens instruídos e de total confiança da família poderiam executar… As necessidades de uma dama de alta linhagem eram diferentes das de soldados ou marinheiros comuns.


— … Ele não é jovem demais para assumir o cargo de camareiro chefe de uma residência? — Cássel questionou, observando Raúl mover-se silenciosamente para puxar a cadeira para que Inês se acomodasse à pequena mesa familiar.


Não havia como negar que uma mulher que crescera cercada de luxos como Inês precisava de um funcionário astuto ao seu dispor. Se Cássel começasse a bater o pé e a questionar "Por que esse cara?" ou "Qualquer um, menos ele", sua implicância ficaria evidente demais naquela situação… A única cartada legítima que ele poderia usar contra Raúl Ballan era a falta de idade e experiência do rapaz.


Raúl Ballan aparentava ter a mesma idade do casal, talvez um ano mais velho ou mais novo, mas certamente ostentava aquela fisionomia juvenil que denunciava pouca rodagem na hierarquia dos grandes palácios. Para alcançar o posto de camareiro de elite, um criado normalmente precisava de décadas de serviços prestados e uma sabedoria que só o tempo trazia.


"Ele mal tinha idade para ser um lacaio comum no Castelo de Pérez há alguns anos, e agora quer ser camareiro? Há uma ordem natural no mundo. Outros homens precisam trabalhar até os quarenta anos para alcançar esse título..."


— Esta é a posição ideal para ele aqui — explicou Inês. — A residência oficial não é uma propriedade que mereça ser chamada de mansão, e Raúl era o homem que comandava outros três lacaios sob as suas ordens no Castelo de Pérez. Como você mesmo disse, este lugar é apenas um buraco de rato; portanto, se eu quis trazê-lo para Calstera, precisei oferecer uma compensação em termos de status. Mesmo que seja um título nominal por pura conveniência.


— Não… Se ele é um talento tão valioso e escasso, você deveria tê-lo mantido administrando o Castelo de Pérez — Cássel rebateu, distorcendo levemente o argumento dela.


Enquanto a discussão prosseguia, Raúl assumiu o controle do carrinho de serviço que a criada trazia para a sala. Sem produzir o menor ruído, ele ergueu os pratos pesados com as duas mãos e começou a servir a refeição com uma elegância coreografada.

Cássel observou aquela postura profissional impecável. O criado agia como se estivesse completamente invisível e surdo, alheio ao fato de que o dono da casa manifestava uma insatisfação aberta em relação à sua presença…

Aquilo irritava Cássel ainda mais. O profissionalismo de Raúl era tão cirúrgico e perfeito que não permitia vislumbrar um único traço de vulnerabilidade humana.


— Quando se trata de coisas preciosas, Raúl não fica atrás de mim, Cássel.


— …


Como se estivesse perfeitamente sintonizado com as necessidades da patroa, Raúl estendeu uma toalha úmida e aquecida para o lado de Inês no exato milésimo de segundo em que ela terminou a frase.


— Mas, como você pode ver, eu, que também sou preciosa, estou vivendo neste lugar — concluiu ela.


Quando Inês pegou a toalha para limpar as mãos, a cadência de suas palavras deixou no ar uma espécie de mensagem subliminar implícita: "E isso é graças a você". Como se aquela fosse a mais pura verdade.


De fato, Inês não demonstrava qualquer ressentimento em relação ao casamento ou insatisfação com a vida em Calstera, mas o fato de Cássel projetar aquela ponta de culpa na fala dela nascia puramente de sua própria insegurança. Afinal, fora ele quem a trouxera para aquela residência militar à beira-mar, movido por suas próprias conveniências egoístas no passado...


Cássel estendeu a mão e pegou a toalha úmida que Raúl lhe oferecia — um segundo após Inês — e limpou as mãos com uma rigidez nervosa.


— Portanto, não há nada de errado em permitir que Raúl passe alguns anos de sua promissora carreira servindo neste lugar — finalizou Inês.


— Não seja modesta, minha Senhora. Como poderia ser um desperdício o privilégio e a honra de servir a Senhora Inês e ao Capitão Escalante? — Raúl interveio de forma extremamente natural, abandonando a postura de quem ouvia um idioma estrangeiro.


As palavras do criado fluíram com a suavidade de quem aplicara óleo na língua. Ele falou sobre como servir ao casal era a glória de sua vida, algo de que suas futuras gerações se orgulhariam… Cássel ergueu a mão horizontalmente, num gesto seco para que o sujeito fechasse a boca.


No instante em que Raúl percebeu o sinal, os elogios cessaram imediatamente. Ele sabia a hora exata de recuar. E aquilo, honestamente, desagradava Cássel profundamente.


— Como você pode ver, o rapaz dará conta das obrigações de camareiro e lacaio ao mesmo tempo — continuou Inês, retomando o fio da meada. — Desde supervisionar as criadas até executar os meus recados e servir os nossos convidados. O título que damos a ele é o de menos… Ele ainda é jovem e terá pouca experiência prática como camareiro chefe, como você bem apontou, mas dado que não tínhamos ninguém qualificado aqui, ele será de grande utilidade. Ah, e eu mesma me encarregarei de cobrir o salário de Raúl.


— … Quem aqui falou em dinheiro?


— Não é isso? — Inês perguntou com uma inocência genuína, como se o custo financeiro fosse a única barreira possível para a objeção do marido.


Cássel fixou os olhos nela, momentaneamente sem palavras, chocado com o fato de ela presumir que ele estava regulando moedas ou questionando o orçamento da casa.

Para a sorte dele, suas feições aristocráticas e atraentes disfarçavam o constrangimento; se ele não possuísse aquele rosto imponente, sua reação de parecer um marido mesquinho, discutindo com a esposa pelo salário de um funcionário, teria ficado pateticamente exposta.


Foi então que Raúl Ballan inclinou-se cortesmente por trás da cadeira de Inês e sussurrou algo muito baixo, rente ao ouvido da patroa.


"Aquele maldito... O que ele pensa que está fazendo?"


— Certamente não é por isso. Não seja ridículo — Inês respondeu de imediato, balançando a cabeça negativamente para o criado, o que tornou a cena ainda mais suspeita aos olhos de Cássel.


"O que poderia ter acontecido com o oh-o tão inteligente e talentoso Raúl Ballan disse para fazê-la dizer isso?"


Inês, talvez decifrando o nível de suspeita estampado na testa de Cássel apenas pelo olhar dele, soltou um suspiro brando, como se estivesse lidando com uma trivialidade:


— Raúl acha que você o odeia sem motivo algum.


— …


"Esse cachorrinho atrevido..."


— Não entendo o motivo da sua hostilidade, já que ele não lhe deu razões para isso até agora.


— …


— Não seja injusto, Raúl. Cássel não é o tipo de homem que antipatiza com as pessoas sem um motivo real.


Enquanto falava com o marido, Inês virou-se parcialmente para Raúl, proferindo uma palavra de defesa sobre o caráter e a integridade de Cássel, antes de focar seus olhos claros novamente no esposo.


Infelizmente, Cássel era exatamente aquele tipo de personalidade propensa a implicâncias imediatas; e embora os motivos em sua mente pudessem ser quantificados e catalogados, ele jamais conseguiria verbalizá-los em voz alta ali. Portanto, não tinha nada a acrescentar para se defender.


Raúl não pareceu nem um pouco envergonhado pelo fato de seu sussurro ter sido comunicado a seu outro empregador. Apesar daquela tensão na comunicação dos patrões, ele manteve a postura altiva e respeitosa, preenchendo o copo de água vazio de Cássel com a dignidade de quem apenas executava seu ofício mecânico.


Cássel encarou o reflexo da água brilhando no vidro como se estivesse inspecionando a própria alma de Raúl Ballan.


— Raúl é um funcionário impecável. Não digo isso só porque o conheço há muito tempo — acrescentou Inês.


Como Inês poderia saber que o fato de ser absolutamente impecável era, na verdade, o maior e mais perigoso defeito de Raúl Ballan? Mas Cássel tinha consciência de que aquela batalha já estava perdida antes mesmo de começar.


Inês já havia recebido autonomia total dele para gerenciar a contratação de pessoal, a decoração e a disposição dos móveis da residência de acordo com seus próprios critérios. Reclamar de Raúl Ballan agora seria contradizer a palavra que ele mesmo empenhara… Pensando bem, sua própria teimosia parecia uma tolice infantil.


Ele lançou um último olhar pessimista para Raúl, que continuava a organizar os talheres e pratos com uma sofisticação de fato inatacável.


— Sei que você tem suas reservas quanto à idade dele, mas tenho certeza de que ficará satisfeito à medida que passarem os dias convivendo sob o mesmo teto. Não é verdade, Raúl? Você demonstrará total devoção ao Capitão Escalante também.


— Sem dúvida alguma, minha senhora. Independentemente do quanto o Capitão desconfie de minhas capacidades ou de minha presença, eu farei o meu máximo esforço absoluto para servi-lo com maestria — Raúl respondeu, com uma firmeza polida.


— Como eu disse, Cássel não nutre aversão por você sem uma justificativa. É apenas o seu estranhamento com a falta de um camareiro tradicional que o deixa hesitante… Não é, Cássel?


Cássel manteve os lábios cerrados por um breve segundo, sentindo o peso de ser forçado a validar uma resposta que contrariava seus instintos mais profundos. No entanto, ele acabou cedendo, esboçando o sorriso plástico e condescendente de um traidor que abre mão de sua própria convicção em nome da paz doméstica.


— Pois bem. Seja bem-vindo à residência oficial, Ballan.


✽ ✽ ✽


Assim que saiu do banheiro privado após se lavar, Inês não estava em lugar nenhum. Em contrapartida, Raúl Ballan já o aguardava junto à porta, estendendo uma camisa de interior impecavelmente passada.


Cássel, que caminhava vestindo apenas uma calça leve de linho e com o torso completamente nu, estacou por um instante. Ele encarou a peça de roupa com uma expressão nitidamente ranzinza.


Com uma cortesia calculada, Raúl projetou a camisa ainda mais para a frente. Em vez de aceitá-la de imediato, Cássel usou a toalha para secar o cabelo molhado sem pressa e, em seguida, jogou-a rudemente nas mãos do criado. Só então a camisa foi transferida para os seus dedos, no exato espaço onde a toalha havia sumido.


Aquilo era infinitamente melhor do que permitir que o sujeito o vestisse à força, embora Cássel detestasse admitir a eficiência daquela criadagem.


Como qualquer herdeiro de alta linhagem, Cássel fora o tipo de criança que não movia um dedo para nada. Na adolescência, contudo, seu corpo estirou muito mais rápido do que o dos rapazes de sua idade. Na segunda metade da juventude, ele cresceu ainda mais em estatura e, sob o regime de treinamento rigoroso da academia militar, sua musculatura se desenvolveu a ponto de tornar qualquer lacaio comum insignificante ao seu lado.


Para os pequenos criados de Pérez, deveria ser um alívio imenso apenas estender uma camisa e ajustar os punhos de um homem daquele porte sem precisar tocá-lo. Mesmo que Cássel tivesse se habituado à vida espartana dos quartéis, a subserviência excessiva da alta aristocracia sempre o incomodava.


No entanto, o serviço comedido e cirúrgico de Raúl Ballan — que possuía uma estatura perfeitamente adequada — conseguia ser muito mais irritante do que a lida espalhafatosa de criados de província que pareciam saídos de contos folclóricos. E tudo o que Raúl fizera, afinal, fora lhe entregar uma maldita camiseta.


— … Obrigado, mas eu dispensei esse tipo de assessoria. Alfonso não lhe explicou como as coisas funcionam aqui? — Cássel jogou as palavras no ar enquanto passava pelo criado, terminando de enfiar os braços na camisa.


— Sim, é claro que ele me explicou, Capitão — Raúl respondeu prontamente, seguindo-o de perto como uma sombra persistente.


— E então?


— E então eu continuo executando exatamente as tarefas que ele já executava antes.


— …


— Seria um exagero chamar o que ele fazia de "trabalho pesado".


Em suma: o velho mordomo passava a maior parte do tempo ocioso.


Cássel sentiu uma ponta de irritação contra Alfonso por um breve segundo. O velho parecia ter entregado os pontos de bandeja para aquele fedelho de Pérez.


— Onde está Inês?


— Ela está na biblioteca, lendo a Bíblia junto à estante.


— A Bíblia? — Cássel franziu o cenho.


Ele recordava-se bem do semblante austero e reservado de Inês, mas sabia perfeitamente que ela estava longe de ser uma mulher devota. Ela não era, de forma alguma, o tipo de pessoa que acordaria diligentemente na madrugada por temor a Deus, ajoelhando-se diante da janela sob a luz da manhã para proferir orações.


Nas raras vezes em que a vira pegar um livro tarde da noite, a cena era sempre a mesma: Inês deitava-se de lado na cama, com uma postura indolente e a cabeça levemente inclinada, folheando as páginas com desinteresse. E o livro que costumava repousar contra o peito dela nunca, em hipótese alguma, fora uma Bíblia. Pelo menos não nos meses em que viviam juntos em Calstera.


Durante todo esse tempo na residência oficial, ele jamais a vira passar um minuto sequer recolhida na capela ou na sala de orações. Nenhum. Que tipo de vento repentino havia soprado na cabeça dela hoje?


— Ah, Capitão.


Cássel já se preparava para caminhar em direção à biblioteca, movido pela desconfiança, quando aquela voz petulante voltou a agarrá-lo pelo calcanhar. Ele parou com a camisa ainda entreaberta e virou-se parcialmente para Raúl.


— Se o senhor pretende ir até a biblioteca agora, longe de mim ofendê-lo, mas…


— … Mas eu pretendo ir. Qual é o problema? — Cássel cortou-o secamente.


Não bastava o sujeito seguir Inês para todos os lados como um cão de guarda, agora Cássel precisava pedir permissão ao camareiro para andar dentro de sua própria casa? Ele sentiu o sangue subir devido ao tom pretensioso do criado, mas conseguiu refrear a expressão, limitando-se a curvar os lábios com desdém.


— Se me permite o conselho, seria melhor não incomodar a senhora na biblioteca neste momento.


— E por quê?


— Às quintas-feiras à noite, a senhora Inês tem o hábito periódico de ler seus passagens favoritos da Bíblia e recolher-se em oração solitária.


— …


— É um costume antigo. Se a sua presença interromper o recolhimento dela, temo que a senhora não receberá o Capitão de braços abertos…


Aquela era uma rotina da qual Cássel nunca ouvira falar, um vislumbre de Inês que ele jamais testemunhara. Ele franziu o cenho, vasculhando as próprias memórias em busca de um padrão. Toda vez que Inês se recolhia na biblioteca à noite, ele não ficava monitorando os ponteiros do relógio; portanto, era perfeitamente possível que muitos hábitos dela tivessem escapado ao seu escrutínio.


"Mas por que diabos esse bastardo tem que saber tudo sobre ela, enquanto eu não sei nada?"


— … Por isso, tomei a liberdade de adverti-lo. Dado que os senhores acabaram de iniciar uma vida harmoniosa de recém-casados, forçar uma interação nesses momentos pode gerar atritos desnecessários…


— Se houver atritos, Inês expressará o seu descontentamento e tudo o que eu terei que fazer é escutá-la — Cássel rebateu friamente.


— …


— Portanto, guarde os seus conselhos estúpidos para si mesmo.


Não havia necessidade de lembrar o criado de qual era o seu lugar. A expressão no rosto de Cássel, desprovida de qualquer traço de amabilidade, já cumpria muito bem esse papel.


O que mais frustrou Cássel foi que Raúl Ballan sabia mais sobre Inês do que ele. Raúl conhecia suas inúmeras preferências e hábitos, como sua rotina de quinta-feira à noite. Ele conhecia seus limites e entendia o que ela precisava com um olhar. 

Eles compartilhavam um passado que Cássel nunca conheceria. Ele olhou profundamente nos olhos de Raúl, esperando vislumbrar o cérebro de Raúl e desenterrar um pouco da história compartilhada com sua esposa.


"Ficar com ciúmes do passado? Posso afundar mais?" Cássel estava enojado consigo mesmo e tinha que parar de cair nessa toca de coelho.


Com tempo suficiente, qualquer um conheceria Inês tão bem quanto Raúl. Raúl não era tão especial, e o tempo ajudaria Cássel a alcançá-la. Infelizmente, Inês não tinha mais ninguém que a conhecesse tão intimamente, então Cássel teve dificuldade em se convencer de que Raúl não era especial na vida dela. Nem Juana foi convidada para se juntar à vida de casados, mas Raúl Ballan foi. Com base em tudo isso, Raúl ficou numa posição acima de Juana, e Cássel ficou em último, atrás de Juana. 


"Como ele poderia ser sua única conexão com o resto do mundo? Isso é ridículo."


— Para que um nobre desfrute de uma existência verdadeiramente elevada, ele sempre necessitará de uma criadagem sofisticada ao seu redor — Raúl quebrou o silêncio, ajustando a postura. — Alfonso é um excelente mordomo, digno do respeito de todos nós, mas ele já está em uma idade avançada para servir como o rosto dinâmico de um palácio.


— …


— É uma audácia de minha parte pontuar isso, mas a própria aparência dele não causa uma impressão muito vistosa diante dos convidados de alto escalão que o Capitão receberá.


— … E você por acaso se considera vistoso?


— Não é uma questão de opinião pessoal, Capitão. Obviamente, eu não ousaria tecer elogios à minha própria aparência diante de um homem com o porte escultural do senhor, mas…


— Você está flertando com os limites da insubordinação, Ballan. Pare agora.


— Como funcionário, apenas me acostumei a ouvir que a minha presença é adequada para ser exibida em qualquer salão da corte.


Então o sujeito se considerava um acessório de luxo? Orgulhava-se daquilo? Cássel encarou-o como quem inspeciona um completo demente.


É claro que criados homens de alto escalão, instruídos e de boa estampa — como mordomos e camareiros particulares —, funcionavam como um termômetro da riqueza e do prestígio de uma grande casa aristocrática. Vestidos com esmero, dotados de boa estatura, feições agradáveis e modos polidos, eles eram o ornamento final da nobreza. Havia inclusive anedotas satíricas em Mendoza sobre famílias falidas que mantinham um camareiro de elite apenas para salvar as aparências, terminando com o funcionário ostentando mais pompa do que o próprio patrão empobrecido.


— Para mim, a senhora Inês continua sendo uma legítima Valeztena e, agora, a esposa de um Escalante. Ela mesma pode não dar importância a essas futilidades, mas eu não consigo conceber a ideia de que uma dama de sua estirpe viva nesta província sem ter sequer um acessório à sua altura.


— Portanto, toda essa linha de raciocínio não passa de uma projeção da sua própria vaidade.


— Sim, uma audácia de minha parte, admito.


Cássel fitou com olhos complexos aquele antigo lacaio, que conseguia ser simultaneamente descarado e profundamente submisso. Não havia em Raúl o menor indício de ressentimento ou amargura por sua condição de servo; pelo contrário, seu semblante transbordava a confiança e a plenitude de quem pensava: "Eu adoro ser o acessório perfeito dela".


Como Cássel já notara antes, o sujeito agia como um cão fiel. Mais astuto do que um cão comum.


A desconfiança ainda persistia… Cássel mediu Raúl da cabeça aos pés, adotando a postura de um pastor-alemão que inspeciona de cima um novo e petulante filhote trazido para o quintal pelo dono. E aquilo, de certa forma, era ultrajante. O sujeito parecia inofensivo, mas guardava garras afiadas.


— Tenho certeza de que o Capitão logo estará plenamente satisfeito com os meus serviços.


— Se a sua intenção for servir a esta casa com integridade, não teremos problemas. Mas, por ora, a sua presença me cansa.


— Não seja por isso, Capitão. O senhor colherá muitos benefícios com a minha permanência aqui.


— …


— Considere como uma justa compensação por ter roubado a atenção da minha senhora e tê-la trazido para esta residência simples e isolada, que o senhor tomou do Major Elba e de sua esposa.


"Esse maldito..." 


Por um breve segundo, as pupilas ambiciosas de Raúl Ballan brilharam com uma audácia afiada.


— Afinal, eu amo e respeito tanto a minha senhora que sou capaz de ignorar qualquer obstáculo para garantir o conforto dela.


✽ ✽ ✽


"Ele estava brincado ou sendo sarcástico?".

Aquilo era o cúmulo do deboche. O que significava aquilo? Que ele não sabia de nada?

Cássel odiava trapaças. Fosse no bilhar, na caça, no tênis ou em qualquer modalidade que envolvesse uma bola de couro no campo de treinamento... Para ele, tudo tinha que seguir a norma rigorosa. Mesmo sem recorrer a jogadas sujas, ele era excelente na maioria dos esportes e apostas; e se não possuísse talento natural para trapacear com maestria, preferia nem começar o jogo. Ele não tinha o menor interesse em jogo sujo, tampouco em perder.


Portanto, não importava o tamanho da mentira que aquele sonhador ambicioso — que fingia ser o servo mais fiel de Inês — tentasse emplacar...


— Então você não sabe de nada, Raúl Ballan. Qual é o preço que você exige para trair essa senhora que você tanto diz amar? 


— Não se trata de traição, Capitão. Isso é um exagero. 


— É o termo exato. 


— Por que eu trairia a Senhora Inês? 


Cássel estreitou os olhos. 


— Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?


— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...


Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. 

— Parece que minha felicidade não é sua intenção.


Raúl balançou a cabeça. 


— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...


— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.


— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.


Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.


Cássel estreitou os olhos. — Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?


— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...


Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. — Parece que minha felicidade não é sua intenção.


Raúl balançou a cabeça. 


— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...


— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.


— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.


Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.

Cássel estreitou os olhos. — Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?


— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...


Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. — Parece que minha felicidade não é sua intenção.


Raúl balançou a cabeça. 


— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...


— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.


— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.


Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.

Cássel estreitou os olhos. — Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?


— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...


Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. — Parece que minha felicidade não é sua intenção.


Raúl balançou a cabeça. 


— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...


— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.


— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.


Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.

Cássel estreitou os olhos. — Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?


— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...


Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. — Parece que minha felicidade não é sua intenção.


Raúl balançou a cabeça. 


— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...


— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.


— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.


Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.

Cássel estreitou os olhos. — Essa é uma boa pergunta. Por que você está traindo ela?


— Você é o marido dela, não o inimigo dela. Contar a você sobre os hábitos dela é dificilmente uma traição. Tudo o que eu quero é que a vida dela seja cheia de alegria e que seu casamento transborde de afeição...


Cássel interrompeu antes que Raúl pudesse continuar com sua bajulação. — Parece que minha felicidade não é sua intenção.


Raúl balançou a cabeça. 


— Se eu dissesse algo insincero, você saberia imediatamente. Você é muito astuto. Mas ainda rezo pela felicidade de vocês dois. Agora que descobri o quanto você se esforçou para trocar sua residência por um tempo romântico com minha Senhora...


— Eu nunca fiz uma coisa dessas. — Cássel negou descaradamente a verdade.


— Na verdade, não — concordou Raúl, com um sorriso cúmplice.


Cássel sentiu sua irritação borbulhar no fundo do estômago e teve que se conter para não quebrar o pescoço de Raúl.


— Gostaria que o senhor soubesse que, mesmo que não confie em mim ou me dedique essa antipatia gratuita, eu estarei sempre do seu lado. 


— Não preciso de aliados desse tipo. 


— Naturalmente, isso só se aplica enquanto o senhor não trair a confiança da senhora Inês. Farei o que estiver ao meu alcance para ajudar em qualquer assunto que traga alegria a ela. Não seria excelente ter um aliado astuto e bem-informado nos bastidores? Se o dinheiro fosse o meu único objetivo, o senhor acha que eu estaria aqui passando privações? 


— Você vai acabar se entediando. 


— Como? Capitão? 


— Eu preferia que você me pedisse dinheiro. 


Raúl engasgou. 

— Eu nunca seria tão desavergonhado!


Se tudo estivesse acabado, ele bem que gostaria de mandar o sujeito para o quinto dos infernos... Mas aquilo era um sonho impossível. Deixando os delírios de lado, se o camareiro tivesse simplesmente exigido uma quantia em ouro, Cássel poderia ter considerado o suborno.


Ele era Cássel Escalante de Esposa, um homem que não tolerava trapaças e não aceitava a derrota… E ele teria que provar a inutilidade dos sussurros de Raúl Ballan não arredando o pé dali até que Inês terminasse suas preces e deixasse a biblioteca por conta própria.


Se você não tem o talento necessário para trapacear, mas o jogo já começou, a história muda de figura. Agora que estava casado, ele ainda mantinha uma distância regulamentar dos criados e donzelas vindos de Pérez.


Portanto, ele preferia mil vezes pagar pelo silêncio ou pela cooperação. Raúl alegava que seu único objetivo era a felicidade de Inês, e exibia uma expressão tão nobre e virtuosa que chegava a dar azar.


Infelizmente, as negociações daquela noite fracassaram por completo.


No dia seguinte, Cássel observava Raúl Ballan postado ao lado de Inês, executando com uma agilidade irritante toda sorte de tarefas triviais e domésticas. De um a dez, a postura impecável daquele infeliz parecia devassar os hábitos mais íntimos de sua esposa...


— Ballan, o jornal.


— Sim, Capitão.


Como se já tivesse antecipado a ordem de Cássel, Raúl apanhou o periódico do dia sobre a mesa do vestíbulo antes mesmo que o pedido fosse concluído.


'Quando foi que você passou a aceitar esse serviço frívolo que tanto criticava?', Cássel quase podia sentir o olhar de Inês zombando dele em silêncio. Ela parecia extremamente satisfeita com a dinâmica...

Ele ignorou olimpicamente o semblante divertido da esposa. Ele sabia muito bem como mantê-la entretida sem precisar do auxílio de Raúl Ballan. Inês deveria exibir aquela expressão satisfeita por motivos mais plausíveis e legítimos, e, de preferência, o motivo deveria ser o próprio Cássel.


— Quem é o encarregado de Mendoza? Ele já chegou?


— Fui informado de que ele chegará à secretaria de ligação em frente ao quartel-general esta tarde, Capitão. Eu me anteciparei e irei ao centro de comando para organizar os relatórios, deixando tudo pronto para que o senhor possa revisá-los em seu horário livre esta noite.


De fato, o sujeito era útil. A ponto de fazer Inês arregalar os olhos e admitir implicitamente: "Ele não é de grande serventia?". Contudo, teria sido muito melhor se Cássel realmente necessitasse daquela eficiência, ou se o camareiro fosse um completo incompetente. 

Mas não era o caso.

Se Cássel não o sobrecarregasse com obrigações do quartel, o sujeito ficaria plantado ao lado de Inês o tempo todo. Se não o fizesse trabalhar até a exaustão, Raúl certamente permaneceria rondando a casa o dia inteiro como um crocodilo à espreita...


Cássel estava sabotando a si mesmo, exigindo serviços desnecessários de Raúl Ballan apenas para mantê-lo afastado. Para um soldado de sua estirpe, não havia tortura maior do que depender de terceiros para gerenciar sua rotina do amanhecer ao anoitecer.


Mas qualquer coisa era preferível a ver aquele bastardo grudado em Inês…


— Ah, Alfonso e Raúl vão preencher os convites para a recepção de vinhos e despachá-los entre hoje e amanhã — comentou Inês. — Se houver oficiais ou companheiros de farda que você queira incluir na lista…


— Não precisa.


— Tem certeza?


Ele não queria que seus colegas de regimento interferissem em sua vida doméstica, mas também não queria apagar o entusiasmo de Inês; afinal, era a primeira vez que ela se dispunha a organizar uma recepção na casa e parecia animada. Cássel apenas assentiu com a cabeça.


— Só não sei se temos vinho de qualidade suficiente na adega para uma recepção. — comentou Cássel.


O problema não era a falta de garrafas na residência oficial, mas sim o fato de que os vinhos disponíveis eram excessivamente caros e raros, inadequados para o consumo descontraído de uma festa de oficiais. Inês concordou com um aceno, como se já tivesse previsto o contratempo.


— Não se preocupe com isso. Raúl e eu decidimos visitar os mercadores de bebidas em El Tabeo hoje à tarde.


A preocupação de Cássel evaporou em um segundo, sendo substituída por uma ponta de ciúmes. Fazia meses que eles haviam se mudado para Calstera, e aquela seria a primeira visita dela a El Tabeo.


El Tabeo era o principal porto da costa de Calstera, um distrito próspero e o núcleo urbano mais movimentado das redondezas. As ruas eram repletas de mercados, tavernas e tapeçarias; Cássel vinha planejando levar Inês até lá pessoalmente para lhe mostrar a região. O problema era que Inês raramente demonstrava interesse por passeios ou excursões, e ele vinha adiando o convite para não incomodá-la…


— Eu posso acompanhá-la após o término do meu turno no quartel.


— Não quero incomodá-lo com assuntos domésticos, Cássel.


— Você não incomoda.


— Eu agradeço, mas não quero interferir nos seus horários de treinamento… Além disso, como Raúl bem mencionou, o paladar dele para a seleção de vinhos é bastante refinado. Tudo o que preciso fazer é deixar a degustação a cargo dele.


— A senhora me superestima, Senhora Inês — Raúl interveio com modéstia.


Aquilo era o resultado inevitável de ter perdido a rédea da situação. Um mundo onde os homens de bem apenas acumulavam derrotas. Era um cenário onde a proteção excessiva mostrava-se completamente inútil.

Cássel encarou Raúl fixamente, mastigando o último pedaço de carne com a boca cerrada. O camareiro, que se ocupava em servir um pouco mais de água para Inês em silêncio, sequer tomou conhecimento daquele olhar hostil e exclusivo.


— Você não deveria estar a caminho do quartel agora?


Quando Inês olhou para o relógio de parede e proferiu aquela ordem velada, o ambiente recuperou a formalidade. Era a consideração típica de Inês, lembrando-o de suas obrigações, mas a dispensa trazia um gosto amargo.


A contragosto, Cássel levantou-se da mesa, deixando Inês e o maldito cão de guarda para trás. Antes de sair, ele se aproximou da esposa, abraçou-a pela cintura, esboçou um sorriso e plantou um beijo demorado em sua têmpora e, depois, perto da orelha... A expressão de Raúl Ballan permaneceu petrificada, sem qualquer alteração.


"Perfeito". 

A pior paranoia que Cássel alimentara quando vira Raúl Ballan pela primeira vez — a suspeita absurda de que o camareiro pudesse ser o amante secreto de Inês — não passava de um delírio de sua mente ciumenta.

No fim das contas, Raúl Ballan era apenas um subordinado com um nível de lealdade doentio e exagerado… E era exatamente isso o que tornava a situação tão bizarra.


Fora a primeira vez em sua vida que Cássel experimentava um sentimento tão mesquinho: sua razão entendia perfeitamente a natureza burocrática daquela relação, mas seu coração recusava-se a aceitá-la. Estava claro que o criado não nutria qualquer pretensão romântica em relação a Inês, mas apenas essa constatação não bastava para aplacar sua ira.


Se Raúl fosse um rival comum, Cássel poderia simplesmente resolver a questão em um duelo de honra no futuro; mas o que se faz com um servo cuja única falha é ser fiel demais? Ele deveria estourar os miolos do sujeito e puni-lo por excesso de zelo?


Na última vez em que se enfrentaram nos corredores, as palavras daquele oportunista de boas intenções ecoaram em sua mente: "Estou do lado da patroa intermitentemente".


"Como uma pessoa cheia de boas intenções conseguia ser tão irritante? Aquela subserviência cínica é de enlouquecer qualquer um."


Cássel ainda não conseguira decifrar a natureza exata daquela repulsa que subia de seu peito direto para a cabeça. Agia como os cães de guarda que, por mais dóceis que fossem com os donos, intimidavam e, às vezes, até atacavam outros animais que disputassem a atenção do tutor… Obviamente, Cássel nunca fora um homem dócil por natureza, tampouco alguém propenso a impulsos assassinos por motivos torpes. 

Mas ele sentia que estava prestes a perder o controle.


Quando ele estava saindo de casa para o trabalho, ele parou no meio do caminho na varanda.


— Alfonso.


— Sim, Capitão.


— Quero que você coloque alguém para vigiá-lo.


Cássel acrescentou as últimas palavras em um sussurro imperceptível. Naturalmente, o honrado Alfonso não compreendeu de imediato a ordem do patrão.


— Como disse?


Os dois homens estavam postados no alpendre silencioso da entrada, onde as colunas de pedra sustentavam o pequeno teto da fachada.


— Raúl Ballan. Quero que vigie os passos dele.


— … Ballan?


Era impossível que Alfonso nunca tivesse ouvido falar do camareiro de Pérez; portanto, o velho mordomo não era o alvo daquela desconfiança. Cássel pesou as palavras por um instante antes de continuar.

Duvidar dos dois daquela maneira… Na verdade, ele sequer duvidava da fidelidade de Inês. Ele apenas desejava descobrir alguma vulnerabilidade na conduta daquele sujeito petulante; não buscava uma falha fatal que justificasse uma demissão, queria apenas entender o que ele realmente fazia pelas costas de Inês, fingindo ser apenas um acessório inofensivo ou um animal de estimação.


A simples ideia de espionar o criado fazia Cássel hesitar, mas aquilo era melhor do que passar o dia no quartel sofrendo com o delírio de imaginar o quão prestativo e íntimo aquele bastardo estaria sendo na ausência do dono da casa. Contudo, Cássel optou por ignorar o fato de que mandar vigiar os passos alheios era uma conduta um tanto questionável para um oficial de sua estirpe.


— … Ele não está usando trajes adequados para alguém que vai apenas comprar vinhos no porto — justificou Cássel.


Ao perceber que nem mesmo aquele pretexto parecia levantar suspeitas reais na mente de Alfonso, Cássel perguntou-se se queria de fato descobrir um podre de Raúl ou se era apenas pirraça. Alfonso assentiu, como se compreendesse a preocupação do jovem mestre.


— Ah, entendo o seu ponto, Capitão. Quando a senhora sair esta tarde para o porto, posso designar um dos rapazes da estrebaria para acompanhar a carruagem à distância.


— … Não, eu quero uma vigilância em tempo integral. O dia todo.


— Como?


— Amanhã também. E depois de amanhã. Todos os dias.


— …


— Quero um relatório detalhado de todos os movimentos dele. Especialmente quando ele estiver a sós com Inês…


Cássel cerrou os dentes abruptamente, engolindo o nome de Inês que escapara de seus lábios sem que ele percebesse.


Alfonso, contra todas as expectativas, soltou uma gargalhada contida.


— Alfonso, não vejo graça. Isso é um desrespeito.


— Peço perdão, Capitão… É que, de alguma forma…


— De alguma forma, o quê?


— O senhor estava olhando para o rapaz lá dentro como se fosse destrinchá-lo membro por membro com o olhar…


Alfonso não alimentava nenhuma suspeita sombria sobre a honra da patroa; ele simplesmente achava graça do ciúme possessivo e territorial de Cássel. Cássel encarou o velho mordomo com uma ponta de espanto. Era apenas o riso franco de um funcionário antigo, mas parecia uma audácia desmedida para um homem que sempre exercera suas funções com uma expressão severa e aristocrática.


— Pare de rir.


— Não, me desculpe, milorde… É que, em todos os meus anos de serviço para a Casa Escalante, eu nunca imaginei que veria o jovem mestre demonstrar esse tipo de comportamento por causa de um camareiro de província.


Alfonso sustentou o olhar de Cássel, ainda com um sorriso complacente nos lábios. O velho mordomo indicou que cumpriria a ordem, garantindo que não haveria nada de errado nas condutas da casa, mas o brilho em seus olhos velhos parecia dizer: "Eu entendo perfeitamente os seus ciúmes mesquinhos, rapaz". Ele observaria os passos de Raúl e reportaria os fatos conforme o solicitado.


De qualquer forma, não havia motivo para Cássel se sentir envergonhado, visto que ele era o dono da casa e sua palavra era a lei. Cássel ergueu os olhos para o céu por um breve instante antes de descer as escadas da residência oficial. Como se quisessem refletir o humor sombrio do Capitão, nuvens pesadas e escuras começavam a avançar do mar distante, cobrindo o horizonte daquela manhã.



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Comentários

  1. Muito obrigada pelos capítulos, estava atualizando a página toda a hora ansiosa por mais atualizações ❤️❤️❤️❤️

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