Capítulo 41 — Eu estou apenas curioso
Raúl olhou pela janela da carruagem.
— De repente está chovendo muito, Senhora Inês.
— Eu sei.
— Devo ir à loja de vinhos sozinho?
— Apenas venha comigo.
— Receio que a senhora vá se molhar com a chuva. Podemos estacionar a carruagem o mais perto possível da porta, mas eu sei que você odeia se molhar.
Mesmo que Raúl segurasse um guarda-chuva sobre a cabeça dela e ela só tivesse que andar seis passos da carruagem até a loja, ele não conseguiria impedir que as gotas de chuva voassem dos lados.
Inês soltou uma breve risada diante de mais uma demonstração da superproteção sem limites de Raúl.
— Está tudo bem, de verdade.
— Por falar nisso, sei que a senhora ainda é nova em El Tabeo... Por que o tempo tem que estar tão péssimo logo na primeira vez que vem aqui?
Raúl estalou a língua e olhou pela janela, como se aquele clima deprimente fosse uma ofensa direta aos olhos de sua patroa. Era uma paisagem que ela observava de relance, sem muito interesse.
— É o suficiente se conseguirmos resolver o que viemos fazer.
— Venha ver, senhora. O porto é tão bonito... Já faz alguns meses que a senhora se mudou para Calstera, e o Capitão Cássel não a trouxe a El Tabeo nenhuma única vez?
— Bem...
— … Não me diga que ele foi indiferente ao que a senhora queria ver?
Se Cássel escutasse aquilo, consideraria a maior das injustiças. Sem entrar em detalhes sobre as circunstâncias em que o marido tentava zelar por ela, Inês simplesmente deu de ombros.
— Se ele tivesse tempo livre para isso, teria me trazido.
— O tempo livre depende de você mesma criar, senhora. El Tabeo não fica tão longe assim do porto naval de Calstera… — As sobrancelhas de Raúl franziram.
Cássel não parecia tão ocupado que não pudesse fazer uma viagem de um dia com ela. Ele chega em casa na mesma hora todos os dias e tem tempo suficiente para tocá-la todas as noites...
"Mesmo que ele não consiga resistir a uma mulher tão atraente quanto a Senhora, ele deveria ter se esforçado mais para passar mais tempo fora. Ele não deveria monopolizar todo o tempo dela fazendo atividades internas que lhe dão prazer."
— Se Cássel não me trouxe, eu teria vindo antes por conta própria se quisesse. Você sabe disso.
— Mas isso… é uma questão de princípio! Ele deveria ter se oferecido para levá-la aos pontos turísticos próximos antes da senhora levantar a questão. Ele poderia ter simplesmente perguntado, "você gostaria de passar um tempo de qualidade comigo fora de casa?" ou "Me dê a honra de permanecer ao seu lado em um passeio...". Teria sido a coisa cordial a fazer.
Inês balançou a cabeça e riu suavemente.
— Se Cássel me pedisse assim, eu o teria chutado nas canelas.
— Mas, por quê?! Às vezes você é tão difícil de entender. — Raúl soltou um suspiro frustrado.
— Porque o jeito que você disse foi nauseante.
Raúl apertou o coração.
— Você sabe como me ferir, minha senhora...
Raúl era tão leal à sua senhora que teria adorado o chão em que ela andava mesmo que ela aparecesse em seu vestido mais desbotado e cabelo despenteado. Ele teria aplaudido suas realizações se ela ao menos exalasse um suspiro.
A lealdade obsessiva de Raúl atingiu o auge depois dos poucos anos que Inês passou definhando até completar vinte anos. Naquela época, ele costumava bajulá-la por simplesmente existir. Mas agora, ele queria mais para sua Senhora. Ele queria apenas o melhor para ela, incluindo toda a felicidade, todas as riquezas e o melhor marido.
Como um cão de guarda superprotetor, Raúl examinou Cássel em sua mente.
"Cássel Escalante se qualifica para um papel tão distinto?"
Ele observou de perto as feições de Inês após ponderar suas dúvidas habituais, agindo como um cão de estimação que se posta diante do dono sem motivo aparente, apenas para ganhar atenção.
Agora, a mudança era perceptível no relaxamento dos lábios dela. O fato de que aqueles olhos verdes, que outrora pareciam sombrios, secos e distantes quando fixados em qualquer objeto, agora transmitiam uma quietude serena e calma. De qualquer forma, ela parecia muito mais confortável aqui do que no Palácio de Valeztena. E não se podia negar que Cássel Escalante tinha grande parcela de mérito nisso.
Raúl assentiu para si mesmo com satisfação.
"Seu título é apenas o segundo depois do príncipe herdeiro, e ele é uma beleza inacreditável. Minha Senhora teve a visão em uma idade precoce para saber que Cássel Escalante cresceria não apenas como um rosto bonito, mas também como um homem alto e musculoso. Apesar de seus músculos, ele não tem nada do machismo arrogante e sabe tratar as mulheres com gentileza. Ele até parece devotado a Senhora. Ela sempre sabe como escolher os melhores investimentos."
Raúl catalogou mentalmente os resultados de suas observações sobre Cássel Escalante.
Embora Cássel desprezasse Raúl, Raúl gostava dele porque seu único critério era se Cássel seria um ótimo marido para Inês. Raúl pode não ser capaz de conquistar Cássel com bajulação, mas ele tinha o que Cássel mais desejava — informações privilegiadas sobre Inês. De acordo com os cálculos de Raúl, Cássel se aliará a ele em breve.
Raúl estalou a língua quando outro pensamento surgiu do fundo de sua mente. "Se só ele pudesse manter as calças e não retornar aos seus velhos hábitos mulherengo..."
Raúl nunca baixaria a guarda. Mesmo que os dois recém-casados parecessem felizes agora, ele sabia que um casamento poderia desmoronar num piscar de olhos. Se Cássel traísse Inês, Raúl, o servo leal, pularia nisso antes de qualquer outra pessoa.
"Vou precisar de uma isca melhor para testá-lo," pensou Raúl, seu olhar se voltando para Inês. Ele precisava fazer um pequeno sacrifício pelo bem maior antes de poder se aliar a Cássel Escalante. A felicidade de Inês era tanto o objetivo de longo prazo quanto a ferramenta que Raúl usaria para atrair Cássel.
— … Qual é o propósito dessa falta de respeito de ficar revirando os olhos na minha frente, Raúl?
Inês, exercendo seu papel de autoridade, suspirou de forma contida. Raúl sorriu, curvando os lábios com suavidade.
— Eu estava apenas cogitando que um bom vinho de sobremesa acompanhado de um almoço leve, em vez de um jantar pesado, combinaria perfeitamente com os baklavas de Vitalya. Ou quem sabe um creme brulée legítimo de Dybalois para o encerramento?
As iguarias luxuosas de reinos estrangeiros fluíram de sua boca em sequência, como se estivessem aguardando o momento exato para serem sugeridas. Inês franziu levemente as sobrancelhas, exatamente como ele previra.
— É uma sugestão grandiosa. Mas seria difícil encontrar os ingredientes corretos na província, e mais difícil ainda localizar um confeiteiro capaz de executá-los.
— El Tabeo é um porto comercial próspero, senhora. Conseguir os mantimentos dependerá apenas da nossa insistência. Se for o caso, podemos requisitar o cozinheiro chefe de Pérez por um período…
— Yolanda é uma excelente cozinheira. Podemos delegar os preparativos a ela.
— Sim, com certeza, Yolanda costuma preparar a culinária local com maestria… Mas não haverá um grande número de oficiais nativos da província na recepção? Oferecer uma sobremesa sofisticada que eles só encontrariam nos salões de Mendoza certamente causará uma excelente impressão em todos.
— Você acha?
Diante de uma lógica tão bem articulada, Inês foi rapidamente convencida.
— E fingindo que não nos importamos com aparências, fingindo que organizamos tudo de forma despretensiosa e leve, demonstrando que o requinte é algo natural na rotina da Senhora Inês, nós iremos subjugar os convidados apresentando as últimas tendências da corte de Mendoza…
— Raúl, quantas vezes eu já lhe disse que não estou me preparando para um duelo de etiqueta? Isto é apenas uma recepção de vinhos simples.
— É também a primeira recepção organizada formalmente pela Senhora Inês nesta casa. Se houvesse um livro de crônicas sobre a sua trajetória, eu abriria uma nova página dedicada a esta seção e registraria o evento com letras maiúsculas.
— … Espero que você não esteja realmente trabalhando na minha biografia. Um diário desses… — Inês murmurou com uma ponta de desconfiança na voz. Raúl respondeu com um orgulho evidente:
— A senhora acha que eu deixaria qualquer evidência em papel comprometedora ao alcance de terceiros?
Ele esboçou um sorriso brilhante e confiante, semelhante ao de um cúmplice que acabara de incinerar os registros de uma organização clandestina.
— É claro que tomei nota de alguns detalhes apenas para celebrar a ocasião, mas…
— … Eu realmente deveria ter mandado você embora de uma vez, não deveria?
— Por favor, senhora. A partir de hoje, a senhora constatará o quão útil a minha permanência será para os seus negócios.
"Não há como voltar atrás."
Enquanto Raúl calculava com devoção os desdobramentos da rotina de Inês, ela observava o semblante polido e inegavelmente atraente do camareiro, fazendo uma avaliação prática mental: "É um rosto que agradará às damas da sociedade, não importa o ângulo pelo qual o vejam".
O tipo de beleza de Cássel intimidava e atraía os olhares de forma avassaladora, sem trazer calmaria; já uma fisionomia dócil e refinada como a de Raúl possuía uma grande demanda nos salões aristocráticos. Seria muito mais simples delegar o gerenciamento da criadagem e dos banquetes aos especialistas de cada área.
Inês acenou com a mão, num gesto que autorizava Raúl a agir conforme seus próprios critérios.
Raúl registrou as instruções detalhadamente em seu caderno de notas. Ao mesmo tempo, ele olhou pela janela da carruagem, mantendo o foco em suas dúvidas constantes sobre as reais intenções de Cássel, nos interesses legítimos de Inês e na firmeza de caráter dela que serviria como sua melhor salvaguarda. Ele gerenciava múltiplos interesses em sua mente, enquanto o veículo começava a reduzir a velocidade.
Como quem inspeciona o movimento da rua em busca de qualquer anomalia, Raúl segurou o cabo do guarda-chuva e analisou os transeuntes um a um através do vidro. De alguma forma, aquele parecia um dia em que a vigilância precisava ser redobrada. Agia como um cão farejando um território desconhecido.
No entanto, através da pequena portinhola que dava para o assento do condutor, ele foi incapaz de notar o cocheiro Mario desviando os olhos discretamente, fingindo ignorar a conversa lá dentro.
✽ ✽ ✽
— Sim. Então, no caminho, eu espiei para dentro da carruagem por um momento... No que o senhor acha que o Sr. Ballan estava pensando tão profundamente? Parecia que a Senhora Inês nem sequer dizia nada.
— Oh, meu Deus, Mario. O que deu em você para ousar olhar para trás enquanto conduz uma carruagem com a senhora? Se o Capitão descobre...
Alfonso expressou espanto e reprovação ao mesmo tempo.
— Não havia nenhum obstáculo na estrada à frente. E o senhor mesmo me disse para observar tudo o que pudesse, mordomo…
— Embora olhar para a frente seja o básico do básico de um condutor…!
— Caso contrário, eu mal teria um minuto para vê-los. Devo ter parecido suspeito espiando na vitrine da loja de vinhos. Alguém poderia ter me denunciado aos agentes da Vigilância do Bairro...
— El Tabeo é um lugar caótico, então você não precisa se preocupar com isso. E depois?
— Quando eles desceram, o Sr. Ballan abriu o guarda-chuva primeiro, saltou rapidamente por cima de uma poça e depois apoiou o pulso da senhora para ajudá-la a descer. Ballan disse para ela pisar no pé dele, dizendo: 'A senhora não deve molhar a borda do vestido, Senhora Inês'.
"Ele seria bem capaz disso mesmo."
Alfonso já havia escutado aquela história várias vezes de Cássel, que sempre reclamava do quanto achava aquela proximidade repugnante e incomum. O velho mordomo cerrou os lábios com severidade e assentiu.
— Pensando bem, eu nunca imaginei uma mulher pisando no pé de um homem em um dia chuvoso. Realmente, o que diferencia as pessoas de Mendoza? Será que eu deveria tentar isso com a Clara também? Será que a Clara seria resistente a isso?
— Volte ao ponto principal, Mario.
— Sim… Depois, antes de entrarem na licoraria, a senhora riu de algo que o Sr. Ballan disse. Dentro da loja, ela não bebeu um gole. Em vez disso, ele pareceu fazer muitas perguntas ao lojista.
— E?
— Eu simplesmente continuei observando… O Sr. Ballan parecia realmente atarefado na licoraria.
— E quanto à Senhora Escalante?
— … Não sei… O senhor não mandou eu vigiar o Sr. Ballan?
— … Sim, sim.
Alfonso não podia culpar o cocheiro por focar os olhos apenas em Raúl Ballan, já que essa fora a ordem expressa. Ele também não sabia se faria alguma diferença caso o condutor tivesse fixado o olhar em ambos. Era natural que não houvesse nada de extraordinário para relatar desde o início.
— E depois disso?
— O Almirante me disse para tirar a carruagem da via principal por um instante porque ele estava passando por ali, então eu guiei os cavalos e dei uma volta no quarteirão.
— …
— Na avenida principal, foi só isso… Ah! A fita do vestido da senhora enroscou na maçaneta da porta, e o Sr. Ballan tentou o máximo que pôde para soltá-la da porta. Você realmente quer ouvir sobre esses pequenos detalhes?
— E o que ela fez?
Mario lançou um olhar acusador a Alfonso, pensando consigo mesmo que Alfonso foi quem saiu do assunto.
— Por que você continua perguntando sobre a Senhora Inês...?
Alfonso tinha 48 anos de idade e mais de 30 anos de experiência na profissão. Aquela era a primeira vez em sua longa carreira que se sentia genuinamente constrangido com o papel que desempenhava. No entanto, ele limpou a garganta com firmeza e logo recuperou a dignidade habitual de um mordomo chefe.
— É apenas para averiguar se a senhora não está desconfortável. Raúl Ballan acabou de se instalar em Calstera.
— O senhor não disse que o Ballan serve à Senhora Escalante desde a infância?
— … É a primeira vez que ele é formalmente contratado no papel de camareiro, então preciso monitorar se há algo de errado com a rotina da Senhora Inês…
Mario foi ingênuo o suficiente para acreditar na resposta de Alfonso e concordou. Ele franziu a testa e tentou se lembrar do que aconteceu. Então, ele suspirou:
— Ah! Nada. Nada mais a dizer.
— Esse é o veredito?
Para proferir apenas essa palavra, o cocheiro precisara pensar tanto, revirando suas lembranças?
— Sim. A senhora não parecia nem um pouco desconfortável na presença dele.
— Que evidência você tem disso?
— Bem… Em primeiro lugar, ela sorria com bastante frequência.
"Com frequência… Ela sorria…". Alfonso rabiscou a resposta de Mario em seu caderno com uma cara séria, mas imediatamente se sentiu bobo.
Mario apertou os olhos.
— Sr. Alfonso... Você está escrevendo minhas palavras?
— Estou apenas registrando alguns pontos para refletir depois.
— Bem, os dois pareciam bem à vontade de qualquer forma… É a primeira vez que vejo criados de Mendoza tão sofisticados, então não entendo muito dessas etiquetas. Mas me diga, Alfonso, eu terei que continuar fazendo essa espionagem toda vez que a carruagem sair?
— Por quê?
— Eu continuo vigiando as pessoas e isso me dá uma sensação de culpa… O Ballan não parece esconder nada.
— Você só precisa confessar os seus pecados e se arrepender na capela.
No dia seguinte, o informante da vez foi o jovem servo Hugo.
— Como era de se esperar, a senhora estava deslumbrante hoje.
Ao contrário das instruções que recebera, o rapaz perdera todo o tempo da observação apenas contemplando o rosto da Senhora Inês.
— O clima estava radiante ao meio-dia, com o sol brilhando intensamente…
O relato ganhava um tom poético e romântico. Alfonso estalou a língua antes mesmo que o jovem continuasse.
— "Que tal plantarmos algumas trepadeiras de flores no picadeiro do invernadero?", ela sugeriu. Ela chamou o José e estava conversando sobre isso. A ideia de colocar trepadeiras floridas no invernadero é de uma genialidade sem igual.
— … Quando construímos um invernadero, a jardinagem ornamental é uma consequência comum, Hugo.
— Não é comum de forma alguma! Oh, ela queria plantar uma flor que era chamada de bug-alguma coisa...
— Bougainvillea? — ofereceu Alfonso.
— Isso. Após conversar um pouco com o José, ela disse que aquela espécie de flor ficaria belíssima ali.
— E o que Raúl Ballan estava fazendo enquanto isso?
— O quê? Quem? O Ballan?
Como se estivesse ouvindo aquele nome pela primeira vez no dia, a voz do rapaz demonstrou uma completa surpresa. Alfonso levou a mão à testa, impaciente.
— O Senhor Ballan, o camareiro… Agora que penso sobre isso, acho que ele estava bem ao lado dela… Não consigo me recordar com clareza.
— Céus… Eu lhe ordenei expressamente que vigiasse os passos de Raúl Ballan.
— Foi mesmo? De alguma forma, a minha atenção foi atraída naturalmente para a patroa…
Estava claro que a presença de Raúl Ballan sequer havia sido registrada pela mente do jovem lacaio enquanto ele tentava resgatar suas memórias. Aquele tipo de funcionário deslumbrado sempre sofria de uma visão terrivelmente estreita.
No entanto, Clara, uma jovem criada que servia à Senhora Inês de perto, mostrou-se uma informante completamente diferente.
— Ao meio-dia, Raúl estava acompanhando a Senhora Inês para continuar supervisionando os cuidados com o jardim. Como eu tinha obrigações a cumprir nos aposentos do segundo andar, não pude me aproximar, mas observei tudo detalhadamente através da janela. O sujeito parecia extremamente atarefado, segurando uma sombrinha com uma das mãos para protegê-la do sol e usando um leque com a outra para refrescá-la. Devido a esse esforço, ele estava suando profusamente, a ponto de a própria Senhora Inês atirar um lenço de linho contra o rosto dele para que ele se limpasse.
— É mesmo?
Clara compreendera perfeitamente a essência da missão secreta. A percepção dela era infinitamente mais ampla e aguçada do que a de qualquer lacaio estúpido da residência.
A precisão do relato era impressionante.
— E depois houve um pequeno impasse porque a Senhora Inês, que retornou para os aposentos por volta de uma hora da tarde, recusou-se a almoçar. Raúl tentou persuadi-la persistentemente, recorrendo à ajuda de Yolanda. Ele organizou todos os doces que a cozinheira havia assado na noite anterior em uma bandeja e insistiu para saber se ela não provaria ao menos um pedaço. Aquele rapaz é de uma astúcia impressionante… De qualquer forma, a Senhora Inês acabou cedendo e comeu, mas em vez de demonstrar apetite, ela parecia genuinamente irritada com a insistência... Enquanto isso, Raúl exibia um semblante satisfeito. E, por volta de uma e vinte da tarde, Raúl desceu em direção às cozinhas…
O nível de detalhes era surpreendente. Aquilo era minucioso até demais.
— Espere um momento, Clara. Um pouco mais devagar… Não. Que tal se nós resumíssemos um pouco essa declaração antes de anotá-la?
— Como o senhor sugere que eu a resuma?
Alfonso hesitou por um breve instante, calculando como deveria sintetizar aquelas minúcias para apresentar o relatório ao Capitão.
— Por exemplo, quantificando as ações por número de vezes…
— A Senhora Inês recusou o alimento por 3 vezes, e Raúl usou de persuasão por 7 vezes… É esse tipo de resumo que o senhor deseja?
— Perfeito! Excelente. Limpo, objetivo e agradável de ler.
— A Senhora Inês sorriu 4 vezes, a Senhora Inês riu em 3 ocasiões, Raúl expressou orgulho por 6 vezes, Raúl insistiu verbalmente por 7 vezes, a senhora o repreendeu em 2 momentos e Raúl preencheu o copo vazio da Senhora Inês por 4 vezes…
— Você… você possui uma memória e uma capacidade de cálculo impressionantes, Clara.
— Eu costumo ouvir isso com frequência, Sr. Alfonso. Ah, e anote também: a Senhora Inês ajeitou o cabelo de Raúl por 2 vezes, e Raúl exibiu um sorriso satisfeito em 11 oportunidades…
— A sua inteligência me impressiona de verdade… Você teria competência para servir como secretária em uma corte de justiça.
— Lamentavelmente, eu não sei ler nem escrever. Então, me diga, Sr. Alfonso: qual será a quantia do bônus que receberei por realizar esse trabalho de espionagem todos os dias?
— … Quem disse que haveria um pagamento extra para isso?
— Se não houver dinheiro envolvido, por qual outro motivo eu me prestaria a executar um papel tão questionável quanto este?
✽ ✽ ✽
— «… Ele sugeriu que a senhora pisasse em cima dos próprios pés dele, temendo que a borda do vestido se molhasse com a água acumulada no chão. Não é realmente um servo de uma devoção tocante? »
Os olhos de Alfonso estavam grudados na página enquanto ele lia em voz alta suas anotações.
— …
— A senhorita Clara relatou que a patroa pareceu extremamente à vontade durante todo o tempo em que foi servida por Raúl Ballan. Ela não perdeu o sorriso em momento algum.
— …
Mantendo os olhos rigidamente fixos no caderno de notas, Afonso fingia ignorar a tensão evidente que emanava de Cássel.
— Sendo assim, o Capitão não tem absolutamente nada com que se preocupar…
— Prossiga.
— Como?
— Você deve ler o próximo capítulo.
Como ele descobrira que o mordomo estava tentando pular aquela parte secretamente? Cássel ordenou com firmeza, enquanto seus olhos cortantes varriam a lateral do caderno, que exibia marcas sutis de manuseio.
"Ele é astuto demais para um homem tão jovem, e um tanto obstinado...", Alfonso fez uma avaliação silenciosa e ligeiramente desrespeitosa de seu patrão. O trecho seguinte continha o depoimento detalhado de Clara. O mordomo recuperou o fôlego antes de iniciar a leitura; uma preparação psicológica era estritamente necessária.
—« Pela manhã, a senhora permaneceu na biblioteca e Raúl Ballan esteve na cozinha com os demais funcionários. Por volta do meio-dia, a senhora dirigiu-se ao jardim, chamou o jardineiro e debateu várias ideias de ornamentação. Nesse ínterim, Raúl Ballan suava profusamente enquanto sustentava a sombrinha da patroa com uma das mãos e usava o leque com a outra; contudo, a senhora, penalizada com a situação de Raúl Ballan, entregou-lhe um lenço... »
— Ela entregou o quê?
Cássel interrompeu o longo relatório de forma abrupta. Alfonso esforçou-se para manter uma expressão cautelosa e neutra.
— Um lenço de linho, Capitão. Por acaso eu me equivoquei na leitura e disse que ela lhe entregou barras de ouro?
— … Não ouse fazer piada com isso. Apenas continue a leitura.
— Pois bem…« Em seguida, a senhora insistiu em pular o almoço, de modo que Raúl providenciou todos os doces preparados por Yolanda, levou-os até a presença da patroa e a seduziu com as iguarias...»
— Ele fez o quê?!
— Por favor, Capitão, não me interrompa. — Alfonso respondeu com um suspiro contido. — Essa foi a expressão exata utilizada por Clara: «Ele a importunou com tanto entusiasmo que ela acabou cedendo e comendo... Depois disso, o depoimento de Clara tornava-se extenso demais, por isso tomei a liberdade de sintetizá-lo em números. Vamos aos dados: a Senhora Inês recusou o alimento por 3 vezes, Raúl usou de persuasão por 7 vezes, a Senhora Inês sorriu em 4 momentos e a Senhora Inês riu a ponto de soltar gargalhadas por 3 vezes...»
"Não bastava sorrir o tempo todo... Ela riu a ponto de soltar gargalhadas três vezes na presença dele...?"
Cássel, cuja imaginação fértil e enciumada recriava a cena de forma distorcida e obsessiva, percebeu que estava se desgastando miseravelmente por causa daqueles detalhes e levantou-se da cadeira, visivelmente contrariado.
Estava mais claro do que a luz do sol que Raúl Ballan não era amante de Inês; em um cenário onde qualquer dúvida racional era impossível, aquilo reduzia-se a puro despeito.
Ciúmes... Será que ele já havia experimentado um sentimento mais mesquinho e desconfortável do que aquele em toda a sua vida?
Naturalmente, nada no mundo superaria o desejo obsessivo de Cássel de despir o vestido de Inês com as próprias mãos sempre que estivessem a sós, mas a situação atual parecia exigir que ele subisse um degrau em sua escala de possessividade.
Considerando o histórico de conquistas e a postura libertina que ostentara no passado, até mesmo um cão que passasse pela rua riria de seu comportamento atual, sabendo que ele não tinha o menor direito de exigir pureza de sentimentos. Cássel tinha plena consciência de que não merecia aquela exclusividade.
E, se deixasse de lado os fragmentos mais rígidos de seu orgulho como um Escalante, ele considerava a si mesmo um homem perfeito e sofisticado demais para se rebaixar a humores, condutas e motivações tão deploráveis.
Ele não se sentia daquela forma quando pensava no número indeterminado de pretendentes que haviam cruzado o caminho de Inês no passado. Na verdade, ele preferia que tivessem sido muitos, em vez de um único rival doméstico e constante.
Seria aquilo verdadeiramente ciúme?
"Não pode ser..."
Cássel permaneceu em negação por alguns instantes. Inês era uma boa esposa. Será que ela o amava? Ele simplesmente gostava dela, e isso deveria bastar. Era infinitamente melhor do que nutrir aversão mútua, visto que teriam de compartilhar o mesmo teto pelo resto de seus dias... Embora a reciprocidade de Inês ainda se mostrasse escassa, ele tinha convicção de que, com o passar dos anos, ela se convenceria da verdade de seus sentimentos. Ele aguardava por esse momento, mas seria aquilo amor?
"Se isso for amor, então qualquer um ama", Cássel repetiu para si mesmo, imerso em pensamentos cínicos.
O ciúme nada mais era do que o subproduto miserável do amor.
Sendo assim, por qual razão ele precisava sentir ciúmes da criadagem? O sujeito era, no máximo, um camareiro barulhento e inconveniente... nada além do animal de estimação de sua esposa.
Se faltavam justificativas nobres para o seu ciúme, bastava que ele se recordasse de seu próprio passado negligente e devasso para encontrar inúmeros motivos para ignorar a situação. Para se sujeitar a uma existência tão amargurada, ele era belo demais, não lhe faltavam atributos, possuía uma linhagem impecável e uma posição social invejável... Racionalmente, ele conseguia compreender cada um desses fatores.
No entanto...
— « Raúl demonstrou orgulho por 6 vezes, Raúl causou alvoroço por 7 vezes, a Senhora Inês o repreendeu em 2 ocasiões, o copo vazio foi preenchido com água por 4 vezes, a Senhora Inês afagou a cabeça de Raúl por 2 vezes e Raúl exibiu um sorriso feliz em 11 oportunidades…»
Ficava evidente que aquela contagem ultrapassava os limites do ciúme comum; era algo muito mais profundo. Tratava-se de uma repulsa instintiva ao imaginar o criado sorrindo satisfeito... Uma presença que desafiava sua autoridade de forma intolerável.
Quem poderia questionar as ações da patroa quando ela decidia afagar os cabelos de seu servo como se ele fosse um cão? Ele detestava o animal, mas tratava-se de uma questão pessoal? Não, não era... Cássel viu-se subitamente enredado em uma profunda crise de identidade.
Em seguida, até mesmo o tom do relatório de Alfonso passou a lhe causar irritação.
— Por que você está me relatando detalhes tão inúteis? Você acha que sou tão obcecado pela minha esposa que quero detalhes tão sem sentido?
— Claro que não! Eu apenas resumi os pontos-chave porque Clara forneceu um relatório detalhado. Eu o aborreci?
— Sim, você fez. Da próxima vez, escreva tudo o que Clara disser e me informe.
— Oh...? — A pergunta inacabada de Alfonso pairava no ar.
— Sem resumos. Entendido?
Se, conforme a lógica de Cássel, relatórios minuciosos estavam associados à mesquinhez da rotina, registrar todos os comentários detalhados de Clara sem qualquer filtro representaria o ápice daquela obsessão.
— … O discernimento de Clara é superior ao de muitos tolos nesta casa. Raramente encontramos alguém com tamanho talento para a observação.
A espionagem e o monitoramento contínuo não figuravam entre as atribuições tradicionais dos empregados domésticos, de modo que aquela precisão era um ponto fora da curva. Clara necessitara apenas de um incentivo financeiro para colocar seus talentos extraordinários em prática.
— É um tanto constrangedor mencionar, Capitão, mas Clara questionou a respeito dos custos por esse serviço, e quanto a essa parte…
— Pague a ela a quantia que ela estipular. Não dispomos de outro gênio com tamanha percepção nesta residência.
Enquanto proferia aquelas palavras, a expressão de Cássel suavizou-se instantaneamente ao avistar Inês aproximar-se do salão principal bem naquele momento. Seu semblante iluminou-se de forma espontânea, embora, a partir de certo ponto, fosse mais conveniente para o seu orgulho acreditar que aquela reação havia sido puramente intencional.
Ele desejava apenas manter-se informado. Jamais admitiria que aquilo era ciúme.
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