Capítulo 42 — Casa de Esquilo
O dia estava simplesmente perfeito.
Era um dia em que as flores silvestres brancas e as variadas flores rosa e roxas, que brotavam naturalmente sob o muro, estavam em plena floração, como se um pedaço dos campos selvagens tivesse sido transportado para ali.
E o dia, mesmo sem as flores, estava lindo. Graças à nova cerca que fora construída de propósito perto da encosta, mesmo antes de entrar no jardim, era possível contemplar o mar azul estendendo-se num relance até o horizonte distante; hoje o céu exibia-se limpo e alto.
Era uma paisagem tão admirável que, assim que um convidado entrava, parecia que até uma fada poderia surgir voando entre os ramos floridos. O clima, as flores, a brisa fresca... Tudo tinha que ser perfeito.
Ao virar para o lado do novo, porém ainda pequeno, jardim da residência do Capitão Escalante, era possível ver o recém-construído invernadero de vidro brilhando como joias sob a luz do sol. As trepadeiras de folhas verdes que começavam a escalar a base da parede exterior transparente da estufa já desenhavam um cenário idílico.
Por outro lado, fora do invernadero, fileiras de mesas estendiam-se para a festa. Sobre elas, uma tenda confeccionada em um luxuoso cetim azul-celeste claro fora estendida para proteger os convidados da claridade abrasadora do sol, e o toldo voltado para a residência oficial estava decorado com flores coloridas de fim de verão.
O espaço era grande o suficiente para acomodar cerca de vinte pessoas. Na mesa principal, que estava impecavelmente coberta por uma toalha de um branco deslumbrante e adornada com vasos elegantes em cada assento, o almoço já havia terminado e os servos e criadas cuidavam da limpeza.
Ao redor, pequenas mesas redondas exibiam taças de vinho, doces exóticos e caros, frutas secas e o queijo defumado vindo da região sul de Ortega, espalhados por toda parte.
Em torno de cada mesa, reuniam-se grupos de três a cinco oficiais uniformizados acompanhados de suas esposas.
Era a tarde após a missa matinal em Calstera. Os sinos da igreja ecoavam desde a base do morro Logorno. Passada a hora de maior calor, passava pouco das quatro da tarde. Tudo transcorria de forma relaxada, resultando em uma vista muito melhor do que ela esperava.
Aquela era a primeira festa que organizava em sua nova vida.
— Senhora Escalante, você viu meu marido? — perguntou Senhora Azevedo.
— Eu o vi pela última vez na estufa com o Coronel Barca e meu marido... — respondeu Inês. — Na verdade, o Capitão Salvatore também deve estar com eles.
Senhora Coronado soltou um suspiro de desprezo.
— Espero que ele não seja encurralado em outra aposta por aqueles dois.
— Duvido — disse Inês.
— Cuide do seu marido, Senhora Escalante. O Coronel Barca e o Capitão Salvatore são jogadores realmente problemáticos e notórios.
— Aqueles cavalheiros tão gentis? — Diante das palavras sussurradas, Inês respondeu mantendo o mesmo tom cúmplice.
— Naturalmente, por ser o Marquês de Barca, o Coronel em si tem bens suficientes para jogar o quanto quiser. Porém, ele tem uma veia competitiva e pode ficar obcecado com apostas.
Inês só viu o Marquês Barca agir de forma arrogante em Mendoza. Ela nunca imaginou que ele desperdiçaria seu tempo e dinheiro em entretenimento tão frívolo quanto apostas.
— Ele jamais aceita a derrota, por isso avalia minuciosamente as apostas e as vantagens antes de tomar uma decisão. Para ele, o jogo não termina até que saia vencedor de qualquer maneira.
Quando Inês sorriu, a Senhora Coronado também arqueou as sobrancelhas com seriedade, como quem enfatiza que não estava exagerando. Ela devia ser uns quinze anos mais velha que Inês, mas era uma pessoa adorável, de porte pequeno, rechonchuda e de expressões ricas.
— De fato. O Coronel Barca é incrivelmente tenaz… O meu marido não tem talento para os jogos de azar. A astúcia de Barca é equivalente à prataria dos Coronado. Eu tenho plena consciência disso, por isso vigio, mas se o Coronel o apanha… É como um cervo indefeso arrastado por um leão. É uma tolice.
— Seu marido é um homem impressionante demais para ser comparado a um cervo indefeso.
Senhora Coronado fez beicinho.
— A senhora não está zombando da estatura do meu marido, está? Quero dizer, sentado ao lado do Capitão Escalante, ele chega a parecer desprovido de graça… sem falar na diferença na atratividade deles... Meu marido parece grotesco perto do seu...
— Senhora Coronado, prometo que seu marido parece muito másculo. Sua altura é perfeitamente normal. — Inês enfatizou “perfeitamente” mais do que “normal” para ter certeza de que ela entenderia seu comentário como um elogio.
— Sim… Muito comum, de fato... Ele é tão sem graça quanto qualquer outro homem em Ortega.
Senhora Coronado soltou um suspiro profundo, mas seus olhos estavam cheios de afeição pelo marido.
— O Capitão Salvatore está prestes a arruinar o seu terceiro casamento por causa do vício do jogo. Ainda assim, não consegue abandonar o hábito e continua metido lá. E pensar na situação da Senhora Salvatore… No fim das contas, homens serão sempre homens!
— Sendo assim, que tal se nós interrompêssemos aquela partida por um momento? Antes que a Senhora Salvatore perceba.
Quando Inês fez a sugestão sem hesitar, a Senhora Coronado assentiu com entusiasmo, visivelmente satisfeita com a atitude da anfitriã. Naquele instante, como se tivesse encontrado alguém com quem finalmente partilhava a mesma sintonia, seus olhos redondos brilharam.
— Parece que o Capitão Escalante está perdendo por caridade para salvar aqueles homens de meia-idade indefesos.
Inês sabia que ela poderia estar certa. Cássel estava com seu comandante, o viciado em jogo, e seus pares, que eram iguais em patente, mas vários anos mais velhos. Ele não podia ser incomodado pela confusão que se seguiria depois se ele ganhasse o dinheiro deles, então ele preferia perder de propósito para satisfazê-los.
— Mas mesmo com esse tipo de caridade, não será fácil vencer o Coronel Barca. E se eu tentar intervir novamente… Eu já o interrompi deliberadamente em várias ocasiões, a ponto de ele nem sequer acreditar mais nas minhas desculpas.
— Deixe comigo, senhora. — ofereceu Inês.
Os olhos redondos da Senhora Coronado finalmente reluziram de pura empolgação.
— Senhora Escalante, qual será a estratégia?
— Eu a chamarei sob o pretexto de que uma nova sobremesa acabou de ser servida, ou farei com que o Coronel a guie primeiro para conhecer o interior da residência.
— Uma nova sobremesa? Isso é realmente importante.
— A atração principal é um creme brulée preparado ao autêntico estilo de Dubois. Fiz questão de mantê-lo bem resfriado.
— Creme brulée, pelos céus… Quando o Cavaleiro Sangsa esteve por um período em Mendoza, ele costumava saborear o que o cozinheiro de lá preparava! Ele ficava maravilhado… Não, não importava que ele ficasse atordoado com o sabor. Mas Coronel detesta os nativos daquele país por considerá-los pomposos… A senhora compreende o meu ponto?
— Então ele pode considerar um tour pela casa como algo pomposo também — disse Inês.
— Exatamente. Ele é um homem difícil de agradar... — suspirou. — Precisamos de mais algum tempo para planejar. Dê-me alguns minutos.
A Senhora Coronado afastou-se da conversa para localizar Sophie e, avançando rapidamente em direção à residência oficial, desapareceu de vista.
Se ela ainda fosse a Princesa Herdeira de sua vida anterior, ela teria desdenhado da ideia de classificar aquela pequena reunião como uma festa legítima, teria considerado a lista de convidados muito curta e o local muito humilde.
Além disso, o perfil dos presentes estava distante do núcleo do círculo social de Mendoza. Com exceção de Cássel, José Almenara e o Marquês Barca, a maioria dos convidados nem sequer tinha título e nada se pareciam com os socialites populares de Mendoza que ela convidara para suas festas em seu passado distante.
Embora a carreira naval fosse elogiada como uma missão honrosa, tratava-se, no fim das contas, de soldados. A maioria dos membros da Academia Militar Imperial pertencia à aristocracia, mas não eram muitos os jovens de famílias ilustres que se voluntariavam para o trabalho árduo das guarnições distantes.
Apenas alguns homens titulados se ofereceram para o trabalho extenuante de estar na Marinha. Embora a maioria dos alunos da Academia Naval Imperial El Ledequilla fossem de sangue nobre, muitos eram segundos ou terceiros filhos que não herdariam nenhum título. Os poucos primeiros filhos eram principalmente de famílias com um título, mas sem riqueza.
Infelizmente, os mendocinos eram obcecados por direitos de nascença e status. Segundo os padrões de Mendoza, o oficial mais trabalhador não teria o mesmo status social de um nobre, a menos que fosse um herói de guerra.
Talvez Inês não se importasse tanto com a festa de hoje quanto odiava os outros eventos sociais por causa da multidão humilde. Os convidados de hoje eram menos pretensiosos e mais honestos do que aqueles que ela conheceu em Mendoza. Ela não se sentiu tão enojada ou repelida pelo comportamento deles.
De fato, ali não era Mendoza. Tampouco era a corte instável da Imperatriz Cayetana...
Inês aproximou-se da esposa do Major Bardem e serviu o vinho diretamente na taça vazia que a mulher sustentava, conquistando um pequeno favor com o gesto. Em seguida, voltou a contemplar o resultado de seu trabalho simples.
Embora tivesse realizado os preparativos por pura necessidade, ela jamais havia se dedicado a algo como decorar um jardim antes. Aquela tarefa seria considerada humilde demais para a princesa herdeira ou extravagante para a esposa de um artista pobre.
Seria esse um sentimento inevitável? Talvez assemelhasse-se ao orgulho… Obviamente, ela iniciara o projeto sem qualquer apego real, mas o resultado final acabou impregnado de suas próprias ideias. Era uma sensação estranha, mas não era desagradável.
Considerando que ela jamais se impressionara com a imensidão da mansão de Pérez ou com o magnífico jardim da residência Valeztena, aquela dedicação obviamente não vinha de uma aptidão natural. Não obstante, o resultado era satisfatório.
A abundância de vida que ela tanto almejara talvez residisse justamente no jardim daquela pequena casa. A riqueza excessiva por vezes debilitava o espírito do homem, enquanto a pobreza frequentemente o deprimia. Ela conhecia bem essas nuances por ter vivenciado ambos os extremos; sabia que aquela era uma existência que não secava e não desmoronava.
Inês sabia que o que tinha agora era exatamente a vida confortável que ela sempre quis. Se sentia confortável em sua pequena residência em Calztera. Claro, ela também sabia que isso era apenas uma fase passageira para Cássel. Eventualmente, ele teria que herdar a propriedade e fortuna da família Escalante, e ela teria que acordar desse agradável devaneio.
Inês desviou o olhar involuntariamente e fixou a atenção em Cássel. Ele permanecia sentado em torno da mesa de jogo com os coronéis Barca, Coronado e o Capitão Salvatore no invernadero, manipulando as cartas com a postura de quem se divertia sozinho.
O olhar dele, que estivera concentrado na mesa de jogo o tempo todo, subitamente voltou-se na direção dela. Ficava evidente que ele apenas ajeitara os cabelos loiros desalinhados e girara a cabeça para recuperar o fôlego, mas, ao descobrir a presença de Inês, seus olhos curvaram-se naturalmente em um gesto suave.
Ironicamente, ela hesitou sem saber como reagir por um breve instante. Em seguida, esboçou um sorriso brando, e Cássel acenou levemente com a mão, prolongando o contato até que o Coronel Barca lhe dirigisse a palavra, forçando-o a desviar a atenção.
O olhar de Cássel desapareceu, mas, de alguma forma, ela não conseguiu permanecer imóvel no mesmo lugar e girou o corpo. Exatamente naquele instante, vinda de um ponto ligeiramente reservado, ecoou a voz de Raúl, que servia a Marquesa de Barca:
— … Esta é a obra-prima da Senhora Escalante. Claramente foi um projeto que demandou longo planejamento. Exibe uma aparência modesta, mas não se imagina o empenho que minha Senhora dedicou a este espaço.
"Naturalmente que ele não imagina", pensou Inês, visto que a construção fora concluída antes mesmo da chegada de Raúl a Calstera, mas ele falou como se fosse uma testemunha em primeira mão de tudo.
A marquesa Barca fez uma rápida avaliação da casa.
— Certo, lembro-me de vir a esta residência antes do Capitão Escalante se mudar. Outro oficial morava aqui, e eu me lembro de ser bem diferente.
— E tinha que ser… Porque a Senhora Escalante mudou absolutamente tudo ao chegar. Dentro e fora da mansão, do primeiro ao décimo detalhe, não há um único espaço que a senhora Inês não tenha aperfeiçoado.
— Já era um local bonito na época, mas hoje a comparação é impossível. A paisagem que se contempla a partir deste ponto… Afinal, ela é uma filha da Casa Valeztena e possui um gosto excelente. Por menor que seja o jardim, ele não é capaz de ocultar a percepção refinada de sua dona.
— Com certeza. A nossa Senhora Escalante…
A Marquesa de Barca já utilizava a bandeja de Raúl como se fosse sua mesa de apoio pessoal há um bom tempo. Na bandeja, cada variedade de petisco estava disposta com elegância, acompanhada por diversas taças de vinho posicionadas com firmeza.
Enquanto sua boca tecia elogios a Inês, os olhos da Marquesa analisavam as feições de Raúl Ballan de cima a baixo, com uma intensidade predatória. A fisionomia do valete era do tipo que exercia um forte apelo visual.
O próprio Raúl tinha consciência dessa vantagem; ele facilmente conquistava a simpatia das damas com o serviço polido e aproveitava-se de qualquer distração para estender a conversa.
Contudo, naquele momento, Raúl exibia um entusiasmo genuíno após escutar os elogios direcionados a Inês, de modo que não havia qualquer brecha para as intenções maliciosas que a Marquesa alimentava em seus pensamentos.
"Eu não deveria deixar a marquesa continuar devorando-o em sua mente. Há sempre uma chance de ela tentar arrastá-lo para sua cama, então é melhor ir resgatá-lo."
Ela se aproximou deles e cumprimentou a marquesa Barca com um aceno de cabeça.
— Marquesa.
— Senhora Escalante! Estávamos justamente conversando a seu respeito. — disse a marquesa Barca com falsa alegria. Aborrecimento brilhou em seus olhos, insinuando que Inês deveria ir embora para que ela pudesse continuar falando com Raúl a sós.
Inês fingiu não ver suas intenções flagrantes e colocou a mão no braço inferior da marquesa.
— Eu estava à sua procura, Marquesa. Gostaria de apresentar o interior da residência aos convidados aos poucos…
Os olhares inicialmente desdenhosos direcionados à residência oficial pareciam questionar se haveria algo digno de nota naquele espaço reduzido, mas a Marquesa Barca logo esboçou um sorriso cortês. Naquele instante, sua expressão mudou com rapidez, assemelhando-se ao comportamento típico dos salões de Mendoza.
— Eu aguardava pela oportunidade de fazer uma inspeção. O Capitão Escalante sempre residiu sozinho em Calstera… Estava curioso para ver como a residência oficial se transformou após finalmente acolher a sua senhora.
"Em Calstera." Era uma observação sutilmente delimitada e capciosa, mas Inês também optou por desconsiderá-la.
— De qualquer forma, o resultado está aqui. Eu não mencionei que o local ficou belíssimo? A propriedade do meu Coronel não se compara à do jovem Capitão Escalante. Na nossa residência oficial, precisamos subir até o quarto andar para obter uma boa visão do porto militar, ao passo que aqui desfrutamos desta vista encantadora diretamente do topo de Logorño.
A marquesa foi educada o suficiente para bajular Inês, mas também arrogante o suficiente para mencionar que sua casa tinha quatro andares.
Como costumavam comentar os oficiais: o prestígio do Comando Naval de Calstera era proporcional à vista obtida dos morros de Logorño.
"Por mais infantil que seja, o tamanho da casa dela é um ponto válido para se gabar; a única maneira de os outros descobrirem é se ela mencionar."
Inês escondeu seu desdém e sorriu.
— Como nossa humilde morada pode se comparar à sua residência? Antes do tour pela casa, preparei presentes simples para mostrar minha gratidão às senhoras. Você poderia gentilmente me ajudar a convocar as esposas, marquesa?
Assim que Inês sugeriu que a Marquesa Barca fosse o centro das atenções, o sorriso da marquesa Barca tornou-se ganancioso. Por mais que ela se deleitasse com jovens bonitos como Raúl, ela se deleitava em ter controle sobre os outros ainda mais.
— E eu ficaria imensamente grata se a Senhora pudesse intervir pelo meu marido antes que ele perca todo o dinheiro na mesa do Coronel.
Inês não tinha a menor intenção de entrar no invernadero desde o princípio. Afinal, bastava delegar a tarefa a alguém com a autoridade adequada para que o assunto fosse resolvido.
✽ ✽ ✽
Dos quinze convidados da recepção, apenas cinco eram mulheres. Assim, formava-se ali um grupo de apenas seis pessoas, incluindo a anfitriã, Inês.
E se incluíssem Raúl, que continuava a lisonjear a Marquesa de Barca, e Kara, que aguardava de prontidão para o serviço doméstico, o número de presentes no aposento subia para oito. Caso acrescentassem Yolanda, que permanecia por perto supervisionando discretamente os demais funcionários, o total chegava a nove.
A grande vantagem de uma residência de proporções modestas é que ela parece perfeitamente preenchida mesmo quando há poucos convidados. Assemelha-se à atmosfera acolhedora de um teatro de ópera de dimensões estreitas, onde os atores jamais precisam lamentar o vazio dos assentos.
— Eu nunca havia contemplado uma biblioteca tão bela antes…!
— É possível vislumbrar as colinas de Logorño e, simultaneamente, desfrutar da vista do mar.
A Senhora Coronado foi a primeira a manifestar o seu encantamento, seguida pelo Marquesa de Barca, que fez uma avaliação puramente prática do espaço antes de caminhar em direção à janela. Contemplar a paisagem com os olhos enquanto tateava a textura das cortinas recém-instaladas para mensurar o valor do tecido era uma conduta aristocrática bastante familiar para Inês.
Ela engoliu uma risada silenciosa ao notar a esposa do Capitão Salvatore quase colando o nariz contra o vidro da janela, postada logo atrás da Marquesa. A postura daquela mulher exibia uma mudança drástica em relação ao início da tarde.
"… Quem teria lhe oferecido aquela dose de conhaque?"
Um líquido de coloração intensa — que definitivamente não pertencia à seleção de bebidas servidas na festa de vinhos — era sustentado de forma precária pelos dedos da mulher. O ponto de origem daquela irregularidade foi facilmente identificado por Inês. Ao atravessarem o salão principal no primeiro andar, havia uma mesa de console sobre a qual repousava uma garrafa de conhaque e outra de uísque estrangeiro de alta qualidade.
Fora a própria Senhora Salvatore quem se servira daquela bebida forte sem qualquer hesitação.
Normalmente, aquelas garrafas eram reservadas para o consumo exclusivo dos proprietários da mansão ou de seus convidados mais íntimos. Como a Senhora Salvatore era a convidada de honra do dia, não haveria qualquer inconveniente naquilo, exceto pelo fato de ela ter se servido por conta própria... E, fazendo jus ao propósito de uma "festa de vinhos", o deslize agravava-se por ocorrer logo após ela ter consumido o vinho ao máximo.
A noiva do Tenente José Almenara, que adentrara a biblioteca logo atrás da Senhora Salvatore, percebeu o estado da mulher, deteve seus passos e recuou sutilmente. Talvez ela tivesse sido repelida pelo odor forte da bebida ou pela visão daqueles olhos pesados e semicerrados que expressavam um profundo desânimo.
Ou, quem sabe, pelo aroma decadente de um matrimônio que desmoronava como uma propriedade abandonada...
— Senhorita Gormas, venha dar uma olhada daquele lado!
Se a esposa do Tenente Anaya não a tivesse puxado pelo braço, a jovem teria permanecido estática por muito mais tempo.
Clara Gormas, sobrinha do Conde Gormas e prestes a contrair matrimônio com José Almenara, passou pela Senhora Salvatore lançando-lhe um olhar repleto de uma compaixão melancólica. Embora Inês permanecesse por perto para monitorar a Senhora Salvatore caso ela demonstrasse algum sinal de mal-estar, a jovem noiva ainda olhou para trás, demonstrando uma preocupação genuína com o ambiente.
Observando que a mulher continuava compenetrada em consumir o conhaque enquanto passava a ser tratada pelos presentes como uma presença potencialmente inconveniente, era evidente que a Senhora Salvatore em breve estaria completamente embriagada.
Inês esboçou um sorriso brando na direção da jovem de dezoito anos que, ao retribuir o gesto com um sorriso contido, voltou a atenção para o exterior diante da insistência da Senhora Anaya — que era apenas um ano mais velha que ela. Os olhos pequenos da jovem noiva arregalaram-se o máximo que podiam.
— Este lugar é verdadeiramente esplêndido, senhora! Não é verdade, Senhorita Gormas? Em um dia de céu limpo como o de hoje, é possível contemplar o pôr do sol sobre a linha do mar diretamente desta janela.
— Conseguimos ver o entardecer daqui? Ah, sendo assim, esta fachada está voltada para a direção sul! Que fascinante…
— Não, não… De forma alguma, Senhorita Gormas.
A Marquesa Barca, que até então observava a jovem nobre com condescendência, mudou de postura instantaneamente; estalou a língua com desdém e balançou a cabeça negativamente. A Marquesa jamais demonstrou paciência diante da ignorância daqueles que considerava inferiores.
Inês observou a interação delas silenciosamente. Ela não sentiu desprezo pela Marquesa Barca, embora ela agisse como uma nobre Mendocina estereotipada. A cena toda parecia teatral, exatamente como o povo comum imaginaria que a nobreza agisse. O antigo eu de Inês teria se encaixado perfeitamente com a Marquesa Barca, e ela teria se juntado à farsa.
Clara Gormas demonstrou uma fresta de mágoa ao perceber a indiferença com que o Marquesa a tratara e passou a sussurrar algo ao ouvido da Senhora Anaya. Provavelmente questionava a respeito da mecânica celeste do pôr do sol — leste, oeste, norte ou sul —, a julgar pela expressão de dúvida que se desenhou no semblante da Senhora Anaya...
Bastara uma breve interação no jardim para que Inês percebesse as lacunas evidentes na instrução daquelas jovens. Contudo, naquele instante, o que trazia uma real melancolia ao espírito de Inês era o cenário que se desenhava fora da casa, e não as interações internas.
A sobrinha do Conde Gormas revelava-se, na verdade, uma jovem bastante graciosa. O único detalhe era que sua beleza não possuía a magnitude necessária para arrebatar o coração de Cássel de forma imediata... E Inês alimentara grandes expectativas de que a moça pudesse se tornar uma admiradora fervorosa de seu marido.
O círculo social composto pelas famílias dos oficiais da marinha era extremamente restrito; a maioria das esposas preferia permanecer na capital, em Mendoza, dedicando-se à criação dos filhos, de modo que a presença de cada uma daquelas mulheres em Calstera representava um recurso valioso. Fosse para servir de combustível ou de mero adorno…
Inês observou a jovem Anaya, de dezenove anos, que permanecia atenta ao lado de Clara Gormas. A presença dela também se mostrava útil. Em seguida, avaliou o perfil das demais presentes: a Marquesa, no início de seus quarenta anos; a Senhora Coronado, caminhando entre o meio e o fim da casa dos trinta; e a Senhora Salvatore, na transição para os trinta anos.
Onde mais ela poderia encontrar uma base tão diversificada para os seus planos logo de início?
Aquilo era apenas o princípio de suas articulações. Naquela primeira recepção, havia a presença de poucas esposas, mas ela sabia que, em dois ou três dias, assim que as notícias sobre o evento se espalhassem, outras tantas damas da sociedade viriam às pressas para se estabelecer em Calstera. Portanto, aquela recepção funcionava como o primeiro degrau estratégico para consolidar sua influência na região.
Oficiais de patentes variadas, as esposas dos militares, suas filhas debutantes, a organização de grandes e pequenos eventos navais, bailes de caridade e as recepções de Ano Novo… A simples listagem dessas possibilidades fazia com que o coração de Inês acelerasse de entusiasmo, assemelhando-se à expectativa de uma criança que projeta seus presentes.
Se Cássel decidisse desfrutar de uma noite ou de múltiplos encontros com qualquer uma daquelas mulheres, as portas da residência estariam abertas. Se a pretendente estivesse distante, ela mesma facilitaria o caminho; se a mulher permanecesse estática, agindo com timidez, Inês daria o impulso necessário para que a aproximação ocorresse...
— … Senhora Salvatore, a senhora se sente bem?
Apesar de seus planos estratégicos, Inês não pôde deixar de experimentar uma ponta de compaixão ao aproximar-se da mulher. A Senhora Salvatore, que parecia prestes a perder os sentidos, ostentava feições belas, contrastando com o visível rancor que nutria pelo marido.
As damas de Ortega costumavam buscar o consolo de outros cavalheiros quando o casamento atingia aquele nível de desgaste. Havia uma verdade oculta no antigo provérbio de Mendoza que aconselhava: “Cubra o ódio com amor.” O conselho não era encontrar maneiras de amar o homem atual que você odeia, mas encontrar outro homem para amar para esquecer o homem que você odeia. Portanto, Senhora Salvatore era uma candidata para o plano de Inês.
— Eu estou perfeitamente bem, porque eu…
Lamentavelmente, a Senhora Salvatore, já sob o efeito severo do álcool, vacilou nos passos e estendeu os braços na direção errada, afastando-se de Inês. Ser interpelada naquele estado causava-lhe evidente incômodo, deixando-a irritada e hesitante. Ela não estava bem de forma alguma.
"O tempo dela está se esgotando..."
Naquele ambiente formal, permitir que os demais convidados escutassem comentários como: "Por qual razão a senhora bebeu tanto?" ou discussões sobre variedades de bebidas que a anfitriã optara por não servir representaria uma afronta à etiqueta da casa.
Em vez de repreendê-la, Inês agiu com discrição: amparou a mulher firmemente pela base do cotovelo sem que os outros percebessem e atraiu-a para perto de si, sustentando o seu peso para evitar que ela tropeçasse novamente.
A visão daqueles que se embriagavam para ocultar suas amarguras nos bastidores dos salões correspondia exatamente às fraquezas humanas que Inês testemunhara com frequência em seu passado. Não demandava grande esforço lidar com aquela situação... Inês retirou sutilmente a taça das mãos da convidada, iniciando uma conversa casual sobre o acabamento da fita de seu vestido para distraí-la.
Raúl observava a cena à distância; ele testemunhara a destreza com que a patroa confiscará a bebida e piscou os olhos, duvidando da própria visão, até que Inês lhe lançou um olhar severo que sinalizava: "O que você está olhando, seu tolo?".
Em seguida, ela fez menção para que ele trouxesse os presentes que haviam sido organizados previamente no interior da biblioteca.
— Oh, vejam só tudo isso…
— Senhora Escalante. Realmente não havia necessidade de tamanha generosidade…
Num instante, as damas que antes contemplavam a paisagem exterior voltaram-se para o centro do aposento, reunindo-se em torno da mesa. Enquanto a atenção se dispersava, Inês entregou a taça de conhaque da Senhora Salvatore para Kara, posicionando a mulher embriagada entre as demais convidadas de modo que ela sentisse que havia se integrado ao grupo por conta própria.
Sobre uma bandeja de madeira de bordo trazida por Raúl, repousavam cinco frascos de perfume de fabricação turca, exibindo um design exótico e refinado.
O perfume representava um luxo tradicional da aristocracia, mas as essências vindas do Império Turco situavam-se em um patamar de preço e sofisticação completamente distinto. A embalagem externa transmitia um requinte raramente visto nos comércios de Ortega, liberando uma fragrância característica que combinava notas doces e frescas de frutas silvestres.
Inês selecionou o frasco de acabamento mais elaborado e entregou-o primeiramente a Marquesa de Barca. Os lábios antes severos da aristocrata curvaram-se em um sorriso de satisfação. O agrado funcionara perfeitamente.
— Trata-se apenas de uma essência simples, de modo que peço que não se sintam constrangidas com o gesto.
— Qual é o propósito de oferecer uma lembrança de tamanha distinção para as esposas, enquanto os cavalheiros permanecem no jardim? — comentou uma senhorita.
— O que os senhores merecem receber já lhes foi oferecido, visto que continuam a consumir o vinho da melhor safra sem qualquer restrição de quantidade. — rebateu suavemente outra.
— De fato, contanto que os homens tenham bebida à disposição, eles não demandam mais nada.
A Marquesa sorriu enquanto aproximava o frasco do nariz com uma postura visivelmente descontraída. Inês distribuiu os presentes individualmente para as demais convidadas, que já não conseguiam ocultar o entusiasmo com a delicadeza do agrado. Quando chegou a vez da Senhora Salvatore — que em seu torpor alcoólico fez menção de erguer o frasco em direção à boca como se fosse um cálice de licor —, Inês deteve o movimento com um toque sutil e firme.
A validação social também dependia de elementos tangíveis, e os artigos de alto valor justificavam o investimento que demandavam. Além disso, por mais onerosa que parecesse aquela recepção, quando comparada às somas de dinheiro distribuídas entre os nobres nos salões da corte da Imperatriz Cayetana em Mendoza, o luxo daquela pequena casa reduzia-se a uma postura simples e frugal.
Em poucos instantes, a tensão entre as mulheres dissipou-se por completo e logo começaram a expressar seus pensamentos sinceros. Clara Gormas foi a primeira:
— De todo modo, como é possível para a senhora residir em um espaço tão limitado? Tendo passado a vida inteira nos vastos domínios da mansão de Pérez... Basta caminhar poucos passos em qualquer direção para se deparar com um muro...
— Senhorita Gormas, você também teve a oportunidade de avaliar a vista da biblioteca mais cedo. A amplitude do espaço perde a importância diante de tamanha beleza, não concorda? Jamais haverá outra propriedade com o encanto desta residência. Falo com total sinceridade. — disse a senhora Anaya.
Enquanto dialogava com a jovem ao seu lado, a convidada girou a cabeça na direção de Inês, buscando sua validação sem hesitar.
— Afinal, tratando-se dos descendentes diretos das Casas Escalante e Valeztena, é perfeitamente compreensível que estejam imersos no idílio de recém-casados, agindo como se estivessem em uma casa de brinquedos. A modéstia do espaço torna-se um elemento divertido para os jovens esposos, não acham? No entanto, vocês não poderão residir para sempre confinados de forma tão graciosa como dois esquilos numa toca...
No fim das contas, a analogia reduzia a rotina do casal à vivência de dois pequenos animais confinados.
— ... Deixe-me dizer uma coisa.
Seria possível que aquela atmosfera de descontração tivesse alcançado até mesmo a mente entorpecida da convidada embriagada? Foi exatamente naquele momento que a Senhora Salvatore direcionou uma pergunta abrupta a Inês.
Inês havia posicionado estrategicamente Senhora Salvatore um pouco distante do grupo, para que ela pudesse puxar suavemente Senhora Salvatore para uma conversa privada.
— Você está falando comigo, Senhora Salvatore?
— Sim, Senhora Escalante... — A julgar pelos murmúrios, Senhora Salvatore ainda não estava em seu melhor estado, mas o fato de ela ter iniciado a conversa era um sinal promissor.
— Então, essa de casa es-esquito...
— Você quer dizer um esquilo? — corrigiu Inês.
— Sim, quero dizer esta casa... que é como uma linda roda de esquilo...
Não parecia haver lucidez suficiente na mente da convidada para recordar o movimento contínuo de uma roda de esquilo. Como se um mal-estar súbito a estivesse acometendo, ela cerrou os lábios por um instante e apoiou a cabeça de forma pesada contra o encosto do sofá. Inês limitou-se a torcer mentalmente para que aquela indisposição não resultasse em um incidente desagradável sobre o móvel.
Olhando desde aquele estofado até o tapete de padrão Stega que decorava o piso, Inês foi invadida pelo pensamento de que absolutamente toda a mobília daquele aposento havia sido substituída recentemente...
— Nada disso era do Capitão Escalante, veja bem...
Inês ainda não conseguia entender uma palavra do que Senhora Salvatore dizia.
— Desculpe? — perguntou Inês.
— Originalmente, quero dizer... Não importa... — Senhora Salvatore murmurou e se inclinou, como se estivesse prestes a vomitar.
— Tudo bem, Senhora Salvatore. Eu ouvi o que você está dizendo. Só me diga quando se sentir enjoada.
Inês sussurrou aquelas palavras em um tom de voz tão baixo que se tornava inacessível para qualquer outra pessoa presente no aposento. Independentemente do teor confuso daquela conversa, os pensamentos de Inês convergiram rapidamente para a preservação da tapeçaria.
A urgência justificava-se pelo movimento da Senhora Salvatore, que se inclinou abruptamente para a frente, apoiando o corpo contra a estrutura do sofá. Ela adotara exatamente a postura mais propensa e confortável para alguém que está prestes a vomitar.
E não se tratava meramente de uma alfombra de alto custo monetário. Aquela peça representava um trabalho de valor inestimável, cuja aquisição a estimulara a retomar os velhos hábitos após um longo período de apatia... Uma obra de arte têxtil que as tecedeiras da região de O'Nilla haviam levado cerca de meio ano para concluir... Mulheres pertencentes a uma comunidade de artesãos tradicionais que iniciavam o ofício logo aos treze anos de idade.
— Eu não estou embriagada.
— Eu tenho plena ciência disso, senhora. Eu compreendo. — Inês concordou, tentando não irritá-la ainda mais.
— A senhora compreende? Não estou bêbada de jeito nenhum. Portanto, não há absolutamente nada em meu estômago para ser expelido.
— Eu sei.
— É o maldito do meu marido que se encontra alcoolizado… Aquele homem não demanda uma justificativa ou uma ocasião para beber. Ele está sempre fora de si, mesmo sem álcool. A realidade é que eu permaneço em um estado de torpor contínuo por preservação... A senhora compreende perfeitamente essa sensação, não é verdade?
— Naturalmente que sim.
Inês jamais partilhara a rotina doméstica com o Capitão Salvatore, de modo que lhe seria impossível conhecer aquela realidade por experiência própria. Contudo, não demandava grande esforço analítico decifrar os sentimentos que afligiam a mulher. A perspectiva de conduzir a existência equilibrando-se na decadência de um matrimônio fracassado, sendo forçada a contemplar diariamente uma face repulsiva...
Seu casamento com Oscar desmoronou tão rápido que ela sentiu vontade de rolar de um penhasco. Sob essa ótica, ela de fato compreendia a essência daquela dor. Embora a preservação do tapete ainda ocupasse o topo de suas preocupações imediatas, Inês fitou a Senhora Salvatore com uma fresta de genuína compaixão, observando o semblante da mulher contrair-se em uma expressão de pura cólera.
— A senhora tem enfrentado um período de severa provação.
— Sempre fui eu quem necessitou do auxílio do álcool. A presença da bebida torna-se uma condição indispensável para que um indivíduo de mente sã consiga tolerar a convivência com uma criatura desprovida de normalidade…
— Sim.
Compreender... ou não compreender... Inês deteve seus movimentos enquanto girava a taça preenchida com água pura contra a palma de sua mão, repetindo um gesto que se tornara habitual. Ela conduzia a sua encarnação atual de maneira diametralmente oposta às vivências de seu passado; nesta vida, ela agia como uma mulher de temperamento firme e sem qualquer histórico de ter consumido sequer um gole de bebida alcoólica.
Não obstante, era intrigante observar como certos hábitos arraigados mostravam-se imutáveis diante do tempo. Aquele movimento específico constituía uma herança impressionante deixada por anos de dependência severa do alcoolismo, uma época em que ela abria os olhos pela manhã recorrendo à bebida e encerrava o dia sob o mesmo efeito para conseguir repousar.
Atualmente ela desenvolveu um novo hábito de beber constantemente algum tipo de líquido, embora apenas água ou suco. Talvez ela só tenha conseguido se defender do vício por causa desse hábito — segurar um copo de água e se enganar pensando que não era diferente do álcool.
— Mas me diga, adivinhe quem foi o verdadeiro responsável por dilapidar uma herança por conta do vício da bebida? Quem foi?
— … Porventura teria sido o Capitão Salvatore?
— Embora este seja o meu segundo casamento por conta da morte prematura do meu noivo, aquele homem já está em seu terceiro! E afirmo que há uma razão bem clara para que ele acumule divórcios sucessivos. Ele destrói a existência de todas as mulheres que se aproximam dele. O patrimônio financeiro, os anos dourados da juventude, a vitalidade dos cabelos, a firmeza da pele, a oportunidade legítima de partilhar a vida com um cavalheiro decente, a própria expectativa de longevidade… Aquele indivíduo maldito faz com que a esposa perca absolutamente tudo. A senhora tinha ciência disso?
— A senhora permanece detentora de uma grande beleza.
— Eu poderia manifestar uma formosura muito mais expressiva. A senhora compreende o meu ponto? Por essa razão, todas as anteriores optaram por fugir. É preferível buscar o exílio a definhar nesta união... Eu sei que encontrarei o meu fim desta maneira. Eu vou morrer.
— O mais provável é que a senhora não venha a falecer por conta disso.
— ... Ou eu mato aquele homem. — Os olhos de Senhora Salvatore brilharam entre os fios de cabelo.
Inês abriu um sorriso tão brilhante que os outros não conseguiam imaginar o quão mórbida sua conversa privada havia se tornado. Ela abaixou a voz e aconselhou:
— … A senhora demonstrou uma grande resiliência ao suportar essa conjuntura até o momento presente. Sendo assim, para o seu próprio bem, seria melhor conter esse desejo.
— Seja pela morte daquele homem ou pelo meu próprio fim, é uma certeza que um de nós deixará de existir. Somente sob essa condição este matrimônio terrível encontrará o seu desfecho…
A Senhora Salvatore finalmente deixou a cabeça pender por completo em direção aos próprios joelhos, murmurando suas lamentações. Naquele estágio da recepção, as demais convidadas já haviam percebido a gravidade do estado da mulher. Contudo, em estrita observância à etiqueta, abstiveram-se de se aproximar para inspecionar a situação de perto, optando por iniciar uma troca de sussurros discretos entre si.
Embora o comportamento das damas de não se aglomerarem para observar o declínio da convidada representasse uma conduta de alta polidez, a atmosfera do aposento foi impregnada por uma nítida sensação de relutância — um desconforto similar ao que se experimenta diante da presença de andarilhos marginalizados pelas vias públicas.
Inês percebeu que as nuvens sombrias que pairavam sobre o matrimônio dos Salvatore começavam a estender sua influência sobre a harmonia de sua primeira festa de vinhos.
— Senhora Salvatore, por favor, lembre-se de que o Império de Ortega tem uma instituição maravilhosa chamada divórcio. Se você se divorciar de seu marido, nenhum de vocês terá que morrer.
— Divórcio é para pessoas como ele! Não para mim. Eu não sou esse tipo de mulher... Se ao menos meu ex-marido não tivesse morrido...
— Lembre-se de que o assassinato é um assunto mais sério do que o divórcio...
— Certamente. Mas o que uma pessoa na sua posição saberia a esse respeito? A filha direta do Duque de Valeztena... A futura Duquesa de Escalante…
"Eu sei mais do que você pode imaginar", Inês retrucou interiormente. Ela já havia tentado assassinato e, no final, se matou em um acesso de raiva.
— A senhora uniu-se em matrimônio com Cássel Escalante…
Inês escutou os murmúrios repletos de rancor da Senhora Salvatore mantendo um silêncio sepulcral. Em seguida, quando a mulher ergueu a cabeça para fitá-la, Inês esboçou um sorriso amplo e radiante.
Para os observadores posicionados no restante do salão, o cenário limitava-se à visão das costas da Senhora Salvatore e ao semblante sorridente da anfitriã, sugerindo a existência de uma interação amistosa e cordial entre as duas. Sob a ótica do senso comum, a impressão vigente seria a de que a Senhora Salvatore também compartilhava daquela alegria.
Na realidade, o panorama mostrava-se inverso: a face da convidada exibia os traços evidentes da degradação decorrente do excesso de álcool.
— … O que um indivíduo de existência perfeita como a sua poderia compreender? A senhora mal completou os seus vinte anos de idade, não é? Se houvesse alguma preocupação real de sua parte, seria se a figura perfeita de seu marido sorrir para outra mulher na data de hoje, e isso resume tudo. Ou por ventura a senhora prefere ficar atenta as inúmeras antigas pretendentes que ele manteve nos salões de Mendoza?
Diante da imutabilidade do sorriso de Inês, que parecia blindado contra qualquer tentativa de provocação, a Senhora Salvatore esboçou um riso selvagem e descontrolado, denotando consternação, enquanto estreitava as pálpebras com desdém.
— Ou sua única preocupação é em como lidar com seu esposo vigoroso todas as noites?
— Senhora Salvatore.
— Se eu dispusesse de um consorte com tais atributos e fosse submetida a essa rotina, eu demonstraria uma tolerância cem vezes maior. Diante de uma constituição física daquela magnitude, eu relevaria os deslizes por mil vezes. Contudo, a minha realidade é distinta. A senhora já se deteve para observar o semblante desgastado do meu marido? Contemple aquela postura mesquinha e decadente. Pois bem, a conduta das outras mulheres não constitui o cerne do problema. Se eu desfrutasse de uma união minimamente digna, eu conduziria a minha vida com um sorriso diário nos lábios.
— Senhora…
— … Houve um tempo em que os meus cabelos ostentavam essa mesma vivacidade... A senhora tinha ciência disso?
A mulher estendeu a mão e desalinhou as mechas do cabelo de Inês, murmurando com uma ponta de amargura. Ela questionou a anfitriã a respeito do tempo demandado para cultivar uma cabeleira daquela qualidade e, em seguida, forçou os dedos contra os fios de Inês, gesticulando de maneira brusca enquanto relembrava a época em que fora compelida a manter os cabelos longos, os quais acabaram danificados. Ato contínuo, passou a proferir novas imprecações direcionadas ao próprio marido.
"Se ao menos o divórcio unilateral fosse mais aceito em Ortega, eu não teria que passar pela miséria de viver com Oscar... ou pela miséria de lidar com a Senhora Salvatore agora."
As demais esposas mantinham a postura de ignorar o declínio da convidada, delegando a gestão do problema aos cuidados de Inês, e reuniram-se na área da varanda externa para contemplar o espetáculo do pôr do sol. Embora a atitude das damas tangenciasse a falta de polidez, Inês avaliou que a conjuntura mostrava-se propícia para providenciar o retorno da Senhora Salvatore à sua própria residência. Aproveitando a distração geral, ela girou a cabeça sutilmente enquanto tentava desvencilhar as mechas de seu cabelo das mãos da mulher.
A situação apresentava dificuldades adicionais pela ausência momentânea de Raúl e de Kara no aposento. Foi exatamente naquele instante que a solução se manifestou.
— Inês?
Cássel adentrou o recinto através da porta que se abriu em um momento oportuno, revelando que cruzara os salões com o propósito específico de localizá-la. Inês realizou um aceno discreto com as mãos, indicando para que ele se aproximasse sem alarde.
A Senhora Salvatore permanecia com a cabeça apoiada contra a estrutura do sofá, absorta em seu ressentimento contra o mundo, de modo que sequer registrou a aproximação de Cássel.
Como se fizessem parte de um universo isolado, Cássel contemplou a calmaria das demais esposas reunidas na varanda externa para o crepúsculo, contrastando com a imagem de Inês, que tinha um punhado de seus cabelos retidos pelos dedos da convidada embriagada. Em seguida, avaliou o semblante exasperado da Senhora Salvatore, que parecia iniciar um pranto silencioso, e fixou o olhar diretamente na face de sua esposa.
Era evidente que a condução daquela cena não representava uma tarefa simples. Cássel indagou em um tom de voz moderado:
— Servimos tanto álcool assim aos convidados?
— Nós não fizemos, mas alguém fez.
Em vez de estender a discussão com uma resposta evasiva, Inês direcionou o olhar do marido para a mesa de console onde repousavam as garrafas de destilados. Cássel liberou um suspiro contido.
— De qualquer forma, a sua presença aqui mostra-se oportuna. Onde se encontra o Capitão Salvatore?
— Ele está no mesmo lugar que o deixei.
— Então traga-o aqui — disse Inês.
— O local pode ser diferente, mas a situação é a mesma. É uma bagunça parecida.
— ......
Ironicamente, Cássel tinha vindo pelo mesmo motivo que Inês estava lutando.
Aparentemente, a intenção inicial de Cássel consistia em delegar os cuidados do embriagado Capitão Salvatore à respectiva esposa, ao passo que o intuito de Inês baseava-se em transferir a responsabilidade da mulher alcoolizada para o marido.
Cássel chamou uma criada que cruzava o corredor adjacente e ordenou-lhe em voz baixa que solicitasse a presença do cocheiro e dos demais funcionários de apoio. Então, ele cuidadosamente desenrolou os dedos de Senhora Salvatore e removeu o cabelo de Inês de sua mão.
Sem que ela mesma soubesse, Inês caiu numa risada suave. O contraste entre sua figura imponente e o toque delicado de seus dedos enquanto ele resgatava seu cabelo era bem cômico.
Cássel ainda tinha uma expressão séria e a fez ficar quieta. Mesmo meio adormecida, Senhora Salvatore continuou a xingar o marido. Cássel resgatou cada fio de cabelo de Inês de suas mãos em completo silêncio.
Então, ele graciosamente se ajoelhou, colocando um joelho aos pés dela.
— Senhora Salvatore, o Capitão Salvatore encontra-se à procura de sua esposa neste momento.
— Morra... Deixe-o morrer...
— Eu farei a gentileza de conduzi-la até o seu esposo.
A despeito do estado de severa alteração alcoólica da convidada, Cássel dispensou-lhe o tratamento formal devido a uma dama da alta aristocracia que estivesse em pleno gozo de suas faculdades mentais; ele cumpriu estritamente os deveres de etiqueta esperados de um nobre refinado, notificando-a sobre a situação enquanto lhe oferecia o apoio físico necessário. A mulher amparada por seus braços continuava a recitar imprecações contra o cônjuge, conferindo à cena o caráter de uma representação teatral trágica.
Inês soltou uma risada involuntária. Cássel orientou a Senhora Salvatore a colocar-se de pé, agindo com destreza e mantendo a postura respeitosa, e, em seguida, curvou sutilmente os lábios na direção de Inês.
"Somos tão divertidos assim?" Diante do questionamento silencioso formulado pelo movimento dos lábios do marido, Inês assentiu positivamente com a cabeça e articulou sem emitir som: "Imensamente". De repente, ele curvou os cantos da boca com tristeza exagerada e sussurrou "Você é cruel ao rir da nossa desgraça..."
Inês optou por não emitir uma nova resposta e apoiou o queixo sobre a mão, adotando a postura de uma espectadora perfeitamente confortável com o desenrolar dos fatos. Aquela atitude sinalizava o seu contentamento com a ironia da situação. Cássel esboçou um riso contido. Naquele breve fragmento de tempo, os dois estabeleceram uma comunicação silenciosa que parecia isolá-los em um universo particular.
A Senhora Salvatore, buscando um ponto de apoio para substituir os fios de cabelo que antes retinha, estendeu a mão às cegas e agarrou as as borlas penduradas na dragona do uniforme militar de Cássel.
A incapacidade da mulher de sustentar o próprio peso corporal constituía um resultado esperado diante de seu estado. Contudo, Cássel não demonstrou qualquer sinal de embaraço; segurou a mão da convidada com firmeza e abriu os dedos dela com delicadeza, desfazendo o aperto sobre as insígnias de seu uniforme.
Em seguida, ele reuniu ambos os pulsos da mulher com apenas uma de suas mãos, mantendo as articulações suspensas no ar para impedir que ela continuasse a tatear o seu corpo ou a desequilibrar-se.
— A senhora estará em sua residência em breve, Senhora Salvatore.
— Salvatore… Eu nutro um profundo rancor por Salvatore…
— Naturalmente, a locomoção nesta situação manifesta-se desconfortável, mas peço que a senhora colabore por um breve instante.
A gestão da convidada alcoolizada — uma mulher que tentava tatear a estrutura física do oficial com uma expressão de incredulidade, estendendo as mãos em direção às dragonas — foi conduzida por Cássel com uma naturalidade impressionante, evidenciando uma postura limpa e controlada, como se ele proferisse mentalmente: "Eu jamais presenciei um estado de tamanha desordem".
Mesmo sob o efeito severo do conhaque, a Senhora Salvatore ensaiou uma nova tentativa de delinear o contorno do corpo firme do capitão, mantendo as pálpebras abertas como se tivesse reconhecido a identidade de Cássel até certo ponto. Contudo, como o oficial retinha os pulsos da mulher com uma das mãos, funcionando como uma espécie de contenção segura, as investidas da convidada resultaram em fracassos sucessivos.
Poderia parecer um curso de ação mais simples acomodá-la diretamente contra o corpo para evitar uma queda iminente, mas Cássel inviabilizou essa proximidade ao sustentar a integridade física da mulher à força, utilizando apenas o apoio de sua mão robusta posicionada contra as costas dela.
Não havia a menor possibilidade de ele permitir qualquer tipo de envolvimento ambíguo com uma convidada embriagada diretamente diante dos olhos de sua esposa; e, mesmo que tal incidente ocorresse por motivos de força maior, a postura dele blindava-o contra suspeitas.
Inês avaliou que não havia necessidade de ele demonstrar uma eficiência tão meticulosa na condução daquele contratempo...
— A sua destreza na gestão dessas situações é verdadeiramente notável.
Inês externou o comentário acompanhado de uma admiração genuína, onde talvez houvesse também um traço de ironia. Os olhos de Cássel, que monitoravam o corredor externo da varanda à espera do retorno dos funcionários e do cocheiro, estreitaram-se por um instante como se ele tentasse decifrar o real sentido das palavras da esposa, retornando à serenidade logo em seguida.
— O que você quer dizer?
— O que eu quero dizer? Literalmente, o que eu acabei de dizer. Você é habilidoso — respondeu Inês.
— …...
— Quero dizer, você é bom em qualquer coisa que tenha a ver com mulheres — acrescentou Inês.
O elogio de Inês não caiu bem para o marido, não quando ele tinha um braço em volta de uma mulher embriagada e o outro braço empurrando o corpo dela para longe do dele. As palavras dela soaram mais adequadas para alguém que tinha acertado um alvo ou passado por um salto desafiador.
Cássel protestou:
— Não estou fazendo isso porque quero...
— Mas não funciona para sua desvantagem. Na verdade, não é bem agradável?
Cássel parecia profundamente confuso.
— Afinal, ela é bonita — esclareceu Inês.
Claro, Senhora Salvatore era meramente passável comparada à beleza das mulheres com quem Cássel dormiu em Mendoza, sem falar de sua própria beleza perfeita. Ainda assim, Inês considerava Senhora Salvatore uma candidata adequada, dada a disponibilidade limitada de mulheres em Calztera e o fato de que seu casamento estava desmoronando.
De repente, Cássel jogou Senhora Salvatore por cima do ombro como se fosse um saco de batatas.
— O que você está fazendo?
Até a mulher mais leve podia ser pesada como uma pedra quando mole, mas Cássel a carregou sem suar a camisa e saiu da sala de recepção, ignorando a pergunta de Inês.
Com certeza, as outras senhoras correram para a sala de recepção assim que Cássel saiu com a mulher no ombro. Começaram a tagarelar tão rápido que Inês mal conseguia acompanhar quem dizia o quê.
— Senhora Escalante! Era seu marido agora mesmo?
— Pare de perguntar o óbvio. Você viu o Capitão Escalante com seus próprios olhos. Senhora Salvatore perdeu a consciência no final? Vocês dois pareciam perdidos sobre o que fazer.
— O que Senhora Salvatore estava bebendo antes?
Outra senhora balançou a cabeça confiantemente. — O que quer que ela estivesse bebendo não era vinho. Eu vi com meus próprios olhos.
— Você acha que ela bebeu a bebida do armário?
— De jeito nenhum! Isso é incivilizado! Ela não poderia se servir com as coisas da casa quando a anfitriã nem sequer ofereceu.
— Mas você viu como o Capitão Escalante levantou Senhora Salvatore?
— Sim! Seus movimentos eram tão rápidos e sem esforço! — Uma das moças quase desmaiou ao pensar em seus braços musculosos.
Inês percebeu que essas senhoras consideravam Senhora Salvatore nada mais que um saco de batatas ou algum enfeite adornando o ombro de Cássel.
— Eu poderia jurar que, em um primeiro vislumbre, não identifiquei a Senhora Salvatore; assemelhava-se apenas a uma peça de vestuário que havia sido deixada de lado.
— Quem deixaria vestimentas dispersas dessa maneira na mansão de seus anfitriões, especialmente onde vivem recém-casados? Que escandaloso!
— Trata-se meramente de uma metáfora. Assim como uma serpente que se desfaz de sua antiga pele, ou uma borboleta que abandona o casulo. Ele a transportou com tamanha leveza que se torna difícil conceber a presença de um corpo humano ali dentro.
— Como alguém pode ter ombros tão largos? — A senhora Coronado virou-se para Inês e agarrou-lhe ansiosamente as mãos. — Oh, você deve estar encantada. A força do seu marido é realmente espantosa.
Inês tentou sorrir. — Bom, acho que é porque ele é jovem.
— Não fomos todos jovens um dia? Mas nossos maridos não eram todos assim.
— Ninguém se compara ao Capitão Escalante. Tudo nele, especialmente sua aparência, é incomparável.— Outra senhora acrescentou.
Até a orgulhosa Marquesa Barca concordou com os elogios a Cássel. Então, a voz de Cássel ecoou na sala mais uma vez.
— Inês.
Desta vez, ele encontrou sua esposa cercada pelas mulheres. Seus lábios se separaram como se ele tivesse algo a dizer, mas ele rapidamente os selou.
Senhora Coronado aproveitou a oportunidade para se aproximar dele e perguntar:
— Como está Senhora Salvatore?
— Infelizmente, ela se sentiu mal. — Sua resposta civilizada mascarou a verdade que todos na sala sabiam.
— Nós imaginávamos isso — ela murmurou.
— Eu a escoltei até a carruagem junto com o Capitão Salvatore — explicou Cássel.
— O Capitão Salvatore apresenta uma condição estável?
Diante do questionamento, Cássel limitou-se a esboçar um sorriso contido e reservado. A Senhora Coronado interpretou o gesto como uma resposta plenamente satisfatória, assentindo com entusiasmo enquanto suas feições redondas ganhavam uma tonalidade ruborizada.
— Oh. O senhor encontrava-se à procura de sua esposa?
— Não se trata de uma urgência de grande magnitude, contudo…
— Senhora Escalante! Senhora Escalante!
Como outrora fora mencionado que o casal assemelhava-se a dois esquilos habitando uma mesma toca devido às dimensões modestas da residência, a área do salão tampouco dispunha de grande amplitude. Portanto, não havia necessidade real de clamar pelo nome de Inês em um tom de voz tão elevado; contudo, a Senhora Coronado, plenamente satisfeita por desempenhar o papel de intermediária da recepção, sentia a obrigação de corresponder às expectativas ao contemplar o semblante da anfitriã.
Antes que Cássel pudesse dizer uma palavra, Senhora Coronado deu a ela uma versão embelezada de sua declaração.
— Ele disse que voltou correndo para o salão só porque, como recém-casado, não aguentava de saudade da esposa!
Mesmo que Cássel não tivesse dito nada disso, as palavras daquela mulher serviam como uma desculpa perfeita, como se quisessem dizer: "Você sumiu e não ouviu o chamado dele".
— Pelo visto, ficar longe da esposa, mesmo que por um minuto, virou um fardo pesado demais.
— Bem, a vida de recém-casados…
— É sempre assim no começo…
— No quartel-general não se fala em outra coisa. É que ninguém tinha tido a chance de ver essa paixão toda com os próprios olhos…
— Sério? E o que andam dizendo? Que o amor entre eles está transbordando?
— Exatamente. Dizem que o Capitão Escalante finalmente tomou jeito logo depois do casamento…
A jovem esposa do Tenente Anaya tagarelava empolgada, mas parou de repente ao perceber o que tinha acabado de falar. Ela humedeceu os lábios, mergulhando em um silêncio sem graça.
A expressão "finalmente tomou jeito" deixava claro que, antes disso, o capitão vivia pulando de galho em galho. E, naquela época de farras, não havia uma única alma no salão que não soubesse que Inês já era a noiva oficial dele.
No meio daquele silêncio constrangedor que tomou conta do lugar, Inês passou pelas convidadas e parou na frente de Cássel.
Aproveitando a deixa, Cássel segurou Inês pela cintura e a puxou para fora do salão. Bastou deixar a parede entre eles e as visitas para que o peso daquele mal-estar ficasse um pouco mais suportável.
— … Se eu soubesse que seria assim, não teria voltado.
Ele murmurou aquilo bem baixinho, só para Inês ouvir. Ainda desconfortável, ele não conseguia decidir se a soltava ou se a trazia para mais perto. O clima estava um tanto abafado.
Como ele parecia perdido, Inês tomou a iniciativa e pediu para ele soltá-la, mas Cássel continuou segurando sua cintura.
O silêncio voltou a reinar entre os dois, quebrado apenas pelas risadas distantes dos oficiais no jardim e pelo murmúrio das esposas no salão, que já mudavam de assunto às pressas.
Cássel soltou um suspiro pesado.
— … Sobre o que a Senhora Anaya acabou de falar.
— Não se preocupe. Esse é o meu papel.
— … Seu papel?
— Desde o momento em que me casei com você, ouvir esse tipo de comentário e conviver com o seu passado virou um dever meu.
— …
Para Cássel, aquilo soou como uma acusação amarga, como se ela estivesse dizendo: "Esse é o castigo que sou obrigada a aguentar pelo resto da vida por ter me casado com um homem como você". Mas, por mais calma que Inês estivesse, ela estava apenas constatando a realidade.
O braço de Cássel relaxou por um instante, mas logo ele a puxou com mais força, afastando-a ainda mais do corredor para garantir que nenhum sussurro dos convidados chegasse até ela.
Se não fosse pelo volume da saia de Inês, não haveria um milímetro de espaço entre os dois. O rosto dele transbordava culpa, mas suas mãos agiam ao contrário, mantendo-a presa.
— Ouvir você falar assim me faz sentir que ainda está me culpando… Você não se importa nem um pouco comigo, não é?
— Só o que esta me incomodando é você ainda não para de me apalpar... Me solte.
— Se eu deixar você ir, não terei chance de fazer as pazes... de consertar as coisas.
— Cássel, não há nada que você possa fazer para apagar o passado, a menos que consiga voltar no tempo.
Inês falou de forma curta e grossa. O rosto de Cássel se contraiu de um jeito estranho, como se as palavras tivessem cortado sua carne. Ela acrescentou, aliviando o tom, logo em seguida:
— E não precisa consertar nada… Eu gosto do seu talento.
— … Que talento? O de ser um libertino?
— Não quis dizer isso, mas…
Inês tocou o queixo do marido com o dedo, como quem diz: "Se você quer pensar assim, vá em frente". Depois, mudando para uma expressão mais séria, continuou:
— Vamos colocar de outra forma: você fica muito bem quando vive de acordo com as suas inclinações naturais. Afinal, é bonito ver as pessoas agirem como nasceram para ser… Quando você é você mesmo…
— Pare com essa bobagem. Nem um cachorro engoliria essa conversa.
— Sendo bem sincera, ouvir essas coisas não me incomoda, Cássel. Não tenho raiva do seu passado, é só um fato que você teve muitas mulheres.
— …
— Eu não guardo rancor por isso.
— …
— Então não preciso me sentir insultada, e você não precisa se martirizar.
— …
— Agora, me solte.
A mão de Cássel deslizou devagar pelas costas dela até o quadril, mas, ao contrário de antes, já não tinha força. Ele parecia ter murchado... De qualquer forma, estava quente demais ali. No momento em que Inês tentou se esquivar friamente dos braços dele, ele falou:
— … Nenhuma delas era bonita.
— O quê?
— Inclusive a esposa do Capitão Salvatore. Ela não era bonita.
"Justo." Ela pensou. "Qualquer um que acorda toda manhã e vê um rosto como o dele no espelho naturalmente sofreria de um padrão de beleza ridiculamente alto."
Inês balançou a cabeça concordando e tentou sair, mas a mão dele no seu quadril a puxou de volta com firmeza.
— … Você é muito mais bonita. Era a mais linda daquele salão. Talvez a única mulher verdadeiramente linda.
— Francamente, ser a única mulher bonita nesta sala não é um título difícil para alcançar. — A voz de Inês era prática e sem falsa modéstia. — Se você pretendia me bajular com tais palavras, lamento lhe dizer...
— Estou dizendo que ela não tinha motivo nenhum para se jogar em cima de mim. Não achei ela bonita, nem interessante.
— …
— Na verdade, não importa se as outras são bonitas ou não. Mas ela com certeza não era. Eu não vi nenhuma mulher bonita além de você hoje. Nenhuma. E não falo só de hoje, mas de todos os dias. Mas isso não importa, porque eu não ficaria feliz com nenhuma mulher que fosse mais bonita que você. Até porque não existe mulher mais bonita que você… Entendeu?
Cássel despejou as palavras com um tom irritado e nervoso. No fundo, eram elogios, mas o jeito como ele falava era tão rabugento que nem parecia.
Inês ergueu as sobrancelhas e assentiu bruscamente.
— Você entendeu?
— Entendi, claro…
— Se você acha que eu gostaria de ter uma mulher bêbada me abordando na sua frente...
— …
— Você está me enxergando do jeito totalmente errado, Inês.
Inês piscou em silêncio, encarando-o. Ela queria perguntar se ele realmente precisava levar aquela conversa tão a sério, mas percebeu que só de tocar no assunto já colocava um peso enorme sobre Cássel. Era impressionante como um homem tão grande conseguia parecer tão frágil por dentro...
— … Talvez a oportunidade de estar com ela fosse mais atraente se eu não estivesse aqui?
O rosto de Cássel pareceu se despedaçar como porcelana com a pergunta. Inês tentou consertar rápido:
— Sabe, assim como aconteceu muitos meses atrás.
Foi pior. Ele cerrou os dentes, engolindo a seco a pouca paciência que lhe restava, e perguntou:
— … Você não lembra de tudo o que eu tive que fazer para que você pudesse viver aqui comigo?
— Somos casados, é claro. — Inês assentiu para apaziguá-lo. — Eu estava brincando antes. É natural que você brinque também, já que não tem nada a perder. Uma diversão boba dessas não é grande coisa.
— Por que você chama isso de diversão? Que droga, Inês, você nem se dá ao trabalho de ficar brava comigo.
— Bem, os homens normais…
— Não preciso disso. Não quero e não aceito esse tipo de "brincadeira". Eu não faço essas coisas. Mesmo que outras mulheres se jogassem em mim, eu as rejeitaria.
— Muito bem, você não precisa. — Inês deu de ombros e abanou a mão. Ela soou como se ele tivesse rejeitado seu presente atencioso.
Cássel agarrou a mão dela, mordendo a ponta do dedo. Ela gritou de dor. A cena toda era cômica e infantil.
— Ah…!
— Você não merece passar por isso, Inês.
— E você não tem o direito de se sentir a vítima, Cássel.
— … É verdade.
Toda a pose de discussão dele sumiu de repente, substituída por um arrependimento pesado, como se tivesse levado um balde de água fria.
Ao ver a reação dele, Inês — que até então estava levando tudo na brincadeira — ficou um pouco sem jeito.
— … É, eu sou um lixo e você está sendo humilhada por minha causa.
— Ninguém me humilhou aqui.
— No fim das contas, a culpa é só minha. Minhas indiscrições passadas lhe causaram grande insulto — murmurou, derrotado.
— Eu já disse que não fui humilhada.
Cássel finalmente afrouxou os braços. Mas, mesmo livre, Inês não conseguiu sair correndo. Ela ficou parada, olhando para ele com uma ponta de preocupação. Era muito mais difícil lidar com aquela cara de cachorro abandonado do que com o aperto físico dele.
Como pedir para ele parar de fazer aquela cara de culpado sem soar cruel?
— Sinto muito. Eu deveria ter me desculpado com você há muito tempo.
— Você já se desculpou antes de nos casarmos — ela o lembrou.
— Peço desculpas por ter sido um miserável por tantos anos.
— Lembre-se, você já se desculpou, Cássel.
— Eu sei que você não se importa e não sente nada por mim, porque você não gosta de mim nem um pouco, então tudo bem... Mas ainda lamento ter insultado você com meu comportamento.
— ...
— Não percebi que minhas ações influenciariam você dessa forma.
Inês tentou silenciá-lo antes que ele alegasse fazer algo mais extremo. O tom dele era tão lamentável que Inês não se surpreenderia se ele ameaçasse pular do penhasco mais próximo para limpar a honra dela.
Inês respirou fundo e o interrompeu:
— Por favor, não leve isso tão a sério. Estamos no meio de uma festa, esqueceu? Há convidados por toda parte…
— Inês, eu não posso voltar no tempo como você disse, então não tenho como consertar o que fiz.
— Mas não precisa consertar. Lembra do que eu te falei?
— Mas eu quero me redimir.
— Sério, não precisa.
— Eu vou compensar você.
— Por favor, não compense nada.
Ela não fazia ideia do que ele planejava fazer como "compensação", então achou melhor cortar a ideia pela raiz. Inês falou com uma voz doce e firme:
— Se eu não puder me redimir, prefiro morrer, Inês.
— Não há o que redimir. Não precisa.
— Então eu posso morrer?
— Não.
Muitos anos atrás, ela teria aceitado de bom grado um marido que morresse jovem, mas estava muito envolvida nesse relacionamento para desejar sua morte precoce. Em vez disso, ela queria que ele vivesse muito e dormisse com o máximo de mulheres possível durante sua longa vida.
— Não importa quanto tempo leve, eu te pagarei de volta — insistiu Cássel.
Ela queria dizer que esperava que ele persistisse no erro e resolvesse traí-la com muitas mulheres que ela não se vingaria, mas Inês imaginou que isso poderia ser muito óbvio. Inês nunca o tinha visto tão decepcionado e derrotado.
Ela olhou para cima e inclinou o rosto dele para baixo para encará-la.
— Cássel, eu só espero uma coisa de você. — Ela suspirou e continuou: — Tudo o que eu quero é que você continue parecendo tão bonito pelo resto dos seus dias. Mantenha os mesmos olhos, nariz e boca. Todo mundo envelhece eventualmente, mas um homem como você deve envelhecer bem. Só tome cuidado com muita exposição direta ao sol.
— Mas eu já faço isso.
— Então, tudo o que você precisa fazer é continuar. Isso é tudo o que preciso...
— Você... Isso não faz sentido! — Cássel interrompeu, chocado. — Você está realmente falando bobagens.
— Quando eu tinha seis anos, eu gostava do seu rosto. Agora que tenho vinte e três anos, eu ainda gosto do seu rosto. Quando eu tinha sentimentos por você e mesmo quando eu parei, eu ainda olhava o seu rosto. Em geral, um homem tão bonito quanto você tem mais facilidade em viver uma vida de promiscua, e isso não é culpa sua.
O argumento dela exigia a mesma falácia lógica de um ladrão que cresceu pobre tentando justificar suas ações alegando que seus crimes não eram culpa dele, mas da sociedade.
No entanto, Inês estava determinada.
— E isso porque o mundo está cheio de homens feios. Mesmo em um mundo tão decepcionante, as mulheres ainda não perderam a esperança e têm olhos para discernir homens bonitos... É por isso que seu corpo deixou muitas mulheres muito contentes.
— Mais uma vez, Inês, isso é mais um absurdo. — Afinal, ela estava argumentando que sua maior contribuição ao mundo foi como libertino.
— Junte a felicidade das outras mulheres à culpa que você sente por mim, e o resultado vai ser zero… Na verdade, a boa influência que o seu rosto tem no mundo vai ser infinita daqui para frente. Eu mesma nunca cheguei a sofrer por sua causa, sofreria?
— A sua lógica é realmente bizarra.
— Repito: cuidar desse rosto é a única compensação que me deve.
E, com esse rosto, ele continuaria fazendo felizes as mulheres que ainda nem o conheciam. O que também ajudaria nos planos de Inês.
Não havia um pingo de falsidade na expressão dela. Cássel achou que tudo aquilo era um tremendo absurdo, mas acabou cobrindo o rosto com as mãos.
— … Se eu ficar feio com o tempo, você vai me jogar fora?
— Claro que não.
— …
— Eu nunca deixaria você primeiro.
Afinal, era dever dela dar o fim naquele casamento no momento certo. Ela deu um tapinha leve no queixo dele para que ele se concentrasse na festa, pois tinha visto o Coronel Barca passando ao longe.
Assim que Cássel se recompôs e piscou para voltar à realidade, a Senhora Coronado surgiu apressada do salão.
— Senhora Escalante, lamento interromper o momento íntimo do casal, mas o pôr do sol já começou! Sei que vocês vão ver isso todos os dias daqui para frente, mas não seria especial assistir ao primeiro crepúsculo com os seus convidados? Estão todos encantados e querem agradecer…
Cássel recuperou sua pose de oficial perfeito num piscar de olhos e acompanhou Inês até a saída do corredor. Antes de se afastar, ela viu o Coronel Barca interceptar Cássel novamente com um copo de bebida na mão, e seguiu a Senhora Coronado até a varanda.
Inês achou que o chamado era só uma desculpa para puxá-la de volta para as fofocas, mas as mulheres na varanda estavam realmente hipnotizadas pelo horizonte.
Depois de receber os agradecimentos sinceros das convidadas, Inês sentou-se quietinha ao lado da Marquesa de Barca, apreciando o mar que se estendia além do jardim.
O brilho quente e avermelhado pintava o jardim em vários tons enquanto o sol começava a se pôr. Os servos tinham acendido lâmpadas como flores desabrochando por todo o jardim, e cada nuvem que passava acima do horizonte escaldante carregava as cores dos diferentes céus. Era um cenário verdadeiramente encantador. Inês silenciosamente absorveu tudo, cativada pela beleza diante dela.
— Finalmente entendi.
Inês virou-se para a Marquesa Barca e perguntou: — Perdão?
— É isso que o Tenente Escalante queria mostrar a você. Este cenário.
Antes que Inês pudesse processar essa informação, Senhora Azevedo entrou na conversa. — Sim, ele deve ter desejado viver em um lugar tão bonito com sua linda esposa. Quem imaginaria que um homem tão impressionante teria um lado tão romântico?
Inês inclinou a cabeça em confusão. — Senhora Azevedo, não estou entendendo.
— Você não sabia? O Tenente Escalante comprou esta casa bem antes do seu casamento. Ele tinha uma casa muito maior, mais perto do quartel-general da Marinha...
A marquesa Barca assentiu. A Senhora Azevedo continuou: — Sim, ele tinha a mesma casa que um dos almirantes costumavam viver. Ele viveu lá sozinho desde que começou sua comissão em Calztela.
A marquesa Barca acrescentou: — Lembro-me de meu marido mencionando o quão arrogante ele era por viver em um lugar destinado a um almirante.
Inês não conseguia entender. "Por que Cássel se mudaria para uma casa menor, mais distante do seu local de trabalho...?"
— Para ser sincero, ouvi alguém dizer que seu marido queria trancar sua nova noiva em uma casa minúscula para tentar fazer você fugir. Afinal, você é filha do duque Valeztena e deve estar acostumada a um estilo de vida muito melhor...
— Eu teria reclamado que a casa era muito pequena se eu estivesse no seu lugar.
— Isso não foi logo antes do seu casamento? Ele praticamente extorquiu esta casa do Tenente Comandante Elba.
"Por que Cássel extorquiria esse pequeno ninho de esquilos de alguém?"
Embora Inês não conseguisse entender a lógica, ela ainda achava a casa bonita, aconchegante e até de tirar o fôlego em momentos como esse pôr do sol. "Mesmo assim, por que ele...?"
— Ouvi dizer que era mais uma troca de benefício mútuo do que uma extorsão. Dizem que Elba recebeu alguns itens do falecido Almirante Escalante.
— Nesse caso, Elba provavelmente implorou ao Tenente Escalante de joelhos pela honra. Todos os homens da Marinha adoram o falecido Almirante como seu deus.
Antes que Inês pudesse descobrir o que estava acontecendo, o Comandante Barca gritou do jardim: — Senhoras!
Quando ela olhou para baixo, viu Cássel ao lado do Comandante Barca, ainda sorrindo um sorriso falso. "Quando ele desceu aos jardins?" Então, as palavras da marquesa Barca ecoaram nos ouvidos de Inês. — "Isto é o que o Tenente Escalante queria lhe mostrar. Este cenário."
Por um momento estranho, ela pensou que o Comandante Barca estava prestes a contar a ela as mesmas palavras confusas. Em vez disso, ele gritou: — Escalante quer nos mostrar seu arsenal! Aparentemente, esta pequena casa tem até um arsenal!
Todos os homens riram como se estivessem no comando. Inês fixou os olhos em Cássel, e ela não teve a chance de se sentir confusa antes que os homens o atacassem. Eles subiram rapidamente as escadas e incitaram as mulheres a se juntarem a eles no passeio pelo arsenal.
— Vamos todos juntos para uma visita!
À medida que todos se aglomeravam ao redor, a pequena casa parecia ainda mais apertada. Em meio à confusão, Inês sentiu um braço forte em volta de sua cintura.
Por algum motivo, Inês pulou de surpresa. Então, Cássel ficou surpreso com a surpresa de Inês. Eles se encararam com um olhar estranho. Claro, ele não podia segui-la como um convidado. Cássel e Inês tiveram que liderar o caminho como anfitrião e anfitriã. Mas inexplicavelmente, Inês ficou mais chocada do que se ele a tivesse arrastado para fora do sala para pedir sexo.
— Até uma casa pequena como esta tem tudo o que se pode pedir.
— O que é esse rifle de caça? Nunca vi nada parecido antes.
— Ah, Inês me presenteou com esse rifle quando construímos este arsenal — respondeu Cássel.
— Você quer dizer que a Senhora Escalante projetou o arsenal para esses rifles? Isso é verdade, senhora? — perguntou um dos oficiais.
— Eu... revisei a casa, desconsiderando a opinião dele. Então, eu precisava apaziguá-lo com alguns presentes de gratidão. — Inês tentou sorrir da própria piada, mas sua garganta apertou.
— É verdade que a mesa de jogo na estufa também foi ideia sua, Senhora Escalante?
— Escalante! Como você conseguiu uma esposa tão brilhante?
— Aquela mesa de jogo foi uma ótima ideia. Quando me sentei, não consegui parar de jogar!
— Tenho certeza de que essa era a intenção dela. Os homens se divertem facilmente com álcool e um baralho de cartas — bufou a marquesa Barca. Mas os homens riram novamente em uníssono, ansiosos para bajular a esposa de seu oficial comandante.
— O arsenal era muito apertado para acomodar dez pessoas, então alguns convidados tiveram que ficar de pé no corredor. Inês se perguntou onde estavam o resto das armas e a coleção de armas estava agora. Ele deve ter tido muito mais antes de se mudar para esta casa...
Ela voltou seu olhar para Cássel novamente e se sentiu inquieta. Os convidados ao redor deles estavam bajulando Inês por suas ideias engenhosas, e Cássel estava ocupado fingindo ser um recém-casado feliz, mas humilde.
"Talvez ele não esteja fingindo...?"
— Falando nisso, por que não organizamos uma caçada com esse grupo e as armas? Em algumas semanas, a temporada de caça à raposa vai começar. Que tal, Escalante?
Para Inês, as vozes de todos foram desaparecendo lentamente. Ela também não conseguia ouvir a resposta de Cássel. Apenas as palavras de Senhora Azevedo ecoavam em sua cabeça: “Ele deve ter desejado viver em um lugar tão bonito com sua linda esposa.”
De jeito nenhum. Não tem como ele... Por mim... Não tem como esse Cássel Escalante fazer algo tão bobo e ingênuo, certo?
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