Capítulo 02 — Família Frazier
"Como alguém consegue comer isso?"
O sanduíche consistia em um pepino murcho espremido entre duas fatias de pão duras como pedra. Para completar, uma camada de manteiga de cor duvidosa, que parecia estar a um passo de estragar. Aquele café da manhã não era apenas patético; era repulsivo.
"Eu não esperava um banquete com filé mignon, mas isso já é abuso."
Eu daria tudo por um copo de macarrão instantâneo ou um onigiri agora... Qualquer coisa seria melhor que essa gororoba fria e dura! Engoli aquela coisa à força apenas para não desmaiar de fome e fui para o banheiro. E, claro, a água estava congelante. Assim que mergulhei a mão na velha banheira, um arrepio percorreu minha espinha.
"Gelada!" Tenho certeza de que a família Frazier não lavaria nem seus cavalos em uma água tão gelada. Havia algo muito errado nessa história.
"Tulia sempre foi tão miserável assim?"
Eu até entenderia se o pai dela, o Marquês Frazier, fosse mesquinho a ponto de cortar os fundos. Mas Tulia estava vivendo na propriedade do Grão-Duque.
"Ela não deveria receber, no mínimo, uma verba básica para manter a dignidade?"
Não estou falando de luxo, mas não faz o menor sentido que a neta de sangue de um Grão-Duque viva como uma mendiga. Tinha alguma coisa muito estranha acontecendo aqui.
Era um pressentimento forjado por uma vida inteira pisando em ovos.
Não, nem mesmo quando joguei como Korico no início, a situação era tão miserável. E olha que a Korico era uma filha ilegítima, desprezada por ter sangue de escrava...
"Ugh, que frio..." Mal consegui lavar o rosto e meu corpo já tremia como uma folha ao vento. Devo ter adormecido enrolada no cobertor, esperando minha temperatura corporal voltar ao normal.
"...O quê?" Abri os olhos ao ouvir um ruído sutil, justo a tempo de ver uma criada escapulindo pela porta. Mesmo quando a chamei com a voz sonolenta, ela não olhou para trás — apenas bateu a porta na minha cara. Era a reação reservada a portadores de doenças contagiosas.
Estava claro que ela evitava abertamente sua patroa. Se Tulia tivesse o hábito de espancar ou vender as criadas, faria sentido. Mas, neste ponto da história, ela era apenas uma jovem miserável que sequer sabia como cometer tais atrocidades.
Resumindo: eles ignoravam Tulia completamente. Pouco importava se eu morresse congelada, de fome ou de negligência. Mas eu não planejava escolher nenhuma dessas opções. Ainda enrolada no cobertor, levantei-me de um salto.
'Okay'.
"Não subestimem alguém com anos de experiência." Graças a tantos anos jogando, eu sabia exatamente quem administrava os assuntos domésticos do Ducado Frazier. Eu estava prestes a sair para procurá-lo quando...
"...?!"
Congelei de choque. E por um bom motivo.
"O quê...?" Uma janela de status translúcida flutuava no ar diante de mim.
Objetivo: Alcance o Rank A antes que a "verdadeira" apareça!
Rank A? Antes da verdadeira aparecer? Então a ficha caiu.
"Será... a Korico?" Claro, devia se referir à Korico, a protagonista original de The Wheat Bun. A história do jogo começava justamente quando ela entrava nesta casa. Ou seja, eu precisava alcançar o Rank A e garantir minha sobrevivência antes da chegada dela. Isso não era pedir demais? Olhei para a janela de status novamente, desesperada.
[Sistema: Janela de Status]
Tulia Frazier (15 anos)
Moedas: 1.000
Personalidade: -10
Beleza: 8
Habilidade: -10
Riqueza: -9
Sorte: -10
Classificação Geral: F-
"Como vou sobreviver com esses status horríveis? Quem dirá alcançar o Rank A?"
Korico, a protagonista original, teve a vida muito mais fácil. Não apenas seus atributos iniciais eram melhores, como sua classificação geral já começava no Rank C.
A menos que o jogador estivesse mirando em um final oculto muito específico, era quase impossível cair para o nível F-.
E para alcançar o Rank A, eu inevitavelmente teria que me envolver com os protagonistas masculinos... Bang! Bang! De repente, alguém esmurrou a porta do quarto com uma força que parecia capaz de estilhaçar a madeira.
"Ei, mendiga." O rosto daquele moleque gritava que ele estava procurando briga — seu nome era Tedric Frazier. Eu não esperava encontrá-lo tão cedo. Ele era primo de Tulia; seu pai, o Visconde Lilius, era o irmão mais novo do pai de Tulia, o Marquês Frazier.
E quem cuidava dos assuntos domésticos da propriedade era ninguém menos que o próprio Visconde Lilius.
'Como ele sabia que eu estava indo procurar o pai dele e apareceu primeiro?'
Tedric Frazier nutria uma hostilidade óbvia e imensa contra Tulia. 'Ah, é mesmo.' Mesmo no jogo, Tulia e ele não se davam bem. Tulia atormentava Korico, e Tedric constantemente entrava em conflito com ela para proteger a protagonista. Mas a Korico nem estava aqui ainda... Então por que ele estava se esforçando tanto para brigar agora?
Pela cara dele, Tedric Frazier poderia facilmente passar pelo vilão da história. Quando permaneci em silêncio, apenas encarando-o, ele franziu a testa.
"O que foi, mendiga? Por que está com esses olhos arregalados?" Graças às memórias de Tulia, eu podia prever facilmente o que ele diria em seguida. Primeiro, ele zombaria das condições de vida dela: "Aliás, seu depósito... ops, quero dizer, seu quarto... parece prestes a desabar toda vez que eu passo por aqui."
Depois, ele diminuiria a situação dela: "Bem, o que você pode fazer quando o Vovô te colocou em confinamento indefinido?" E, por fim, atacaria sua dignidade: "Sério, o que te deu na cabeça para fazer aquela birra no banquete logo quando seu pai te abandonou? Você não tem vergonha? Não é à toa que vive como uma mendiga."
'Ugh, esse desgraçado.' O mesmo padrão de sempre. Para ser sincera, eu nunca tinha notado isso enquanto jogava.
Mas agora, na pele de Tulia, nada daquilo fazia sentido.
Por que todos os membros da família Frazier eram retratados como coadjuvantes gentis no jogo — exceto a Tulia? Até caras como esse agiam como anjos com a Korico? O "buff" da protagonista era tão forte a ponto de transformar um lixo como ele em santo? Mesmo esse cara, que zombava constantemente de Tulia por ela morar em um "depósito" caindo aos pedaços?
"Ei! Está me ignorando? Até lixo abandonado tem um pouco de orgulho, é?!" Talvez pela minha falta de reação, Tedric levantou a voz, achando que eu o estava desdenhando.
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