Capítulo 14: O Fogo
Ali estava! Ela sabia. Equilibrando uma cesta de roupa em um braço, Maomao sorriu. Eram pinheiros vermelhos que cresciam num bosque perto do portão leste.
Os jardins do Palácio Interior eram habilmente cuidados. Uma vez por ano, as folhas mortas e os galhos murchos também eram removidos do bosque de pinheiros. E Maomao sabia que um bosque de pinheiros bem cuidado fomentava o crescimento de certo tipo de fungo.
Neste momento, ela tinha um cogumelo matsutake de tamanho pequeno na mão. Algumas pessoas não gostavam do cheiro deles, mas Maomao os adorava. Cogumelos matsutake fatiados, assados numa grelha com um toque de sal e uma pitada de frutas cítricas, eram a sua ideia de paraíso.
Era um bosque modesto, mas como encontrou um aglomerado conveniente de cogumelos, colocou cinco deles em sua cesta.
Devo comê-los na casa do velho caquético ou na cozinha?
Não podia fazer isso no Pavilhão de Jade; haveria perguntas demais sobre onde ela tinha conseguido os ingredientes. Não veriam com bons olhos uma serva admitindo que colhera os cogumelos do bosque por conta própria. Então Maomao foi ver o médico, o homem que era tão bom com as pessoas e tão ruim em seu trabalho. Se ele também gostasse de cogumelos matsutake, então tudo estaria bem; e se não, ela achou que ele seria gentil o suficiente para fazer vista grossa. Maomao já tinha caído completamente nas graças do homem de bigode.
Não podia se esquecer de passar pela casa de Xiaolan no caminho. Xiaolan era uma importante fonte de informação para Maomao, que de resto tinha poucos amigos.
Quando Maomao voltou da residência de Lihua, mais magra do que nunca pelo esforço de ajudar a consorte, as outras damas de companhia se comprometeram a ajudá-la. Por um lado, Maomao estava feliz com isso — demonstrava que não caíra em desgraça com as damas, apesar de ter ficado com uma consorte rival por quase dois meses —, mas por outro lado, era quase tão frustrante quanto gratificante. Ela tinha uma pequena cesta que começou a inchar com os presentes extras que recebia toda vez que serviam chá.
Xiaolan, no entanto, nunca recusava algo doce; seus olhos brilhavam ao ver o que Maomao lhe trouxera, e ela ficava mais do que feliz em fazer uma breve pausa, comendo doces e conversando com Maomao na mesma medida.
Agora elas estavam sentadas atrás da lavanderia em um par de barris, falando sobre isso e aquilo. Histórias de acontecimentos estranhos constituíam a maior parte, como sempre, mas entre outras coisas, Xiaolan disse a Maomao: "Ouvi dizer que uma das mulheres do palácio usou uma poção para fazer algum tipo de soldado durão se apaixonar por ela, e funcionou!"
Maomao começou a suar frio com isso. Provavelmente não tem nada a ver comigo, certo? Provavelmente.
Olhando para trás, ela percebeu que nunca pensara em perguntar para quem era aquela poção do amor. Mas será que importava? "O palácio" referia-se ao palácio real, não ao Palácio Interior, o que significava que acontecera lá fora, em segurança. O palácio propriamente dito tinha homens de verdade e funcionais, por isso a nomeação para lá era uma perspectiva popular pela qual a competição era feroz. Diferente das mulheres que serviam no Palácio Interior, estas eram elites que haviam passado por sérios testes para obter suas posições.
Digamos que, na medida em que os homens de verdade e funcionais estavam ausentes, o Palácio Interior podia parecer uma tarefa bem mais solitária. Não que isso importasse para Maomao.
Quando Maomao chegou ao consultório médico, encontrou o velho de bigode na companhia de um eunuco de rosto pálido que ela não reconheceu. Ele estava esfregando a mão continuamente.
"Ah, exatamente a jovem que eu queria ver", disse o médico com seu sorriso mais acolhedor.
"Sim, o que há?"
"Este homem desenvolveu uma erupção na mão. Acha que poderia preparar uma pomada para ele?"
Não eram palavras muito apropriadas para o homem que era o médico do palácio, pensou Maomao. Esperava-se que ele mesmo fizesse isso. Mas isso não era novidade, e Maomao contentou-se em entrar na sala cheia de armários de remédios e pegar seus ingredientes.
Primeiro, no entanto, ela deixou a cesta e mostrou o matsutake.
"Tem carvão?", perguntou.
"Oh ho, que belos espécimes você encontrou!", disse o curandeiro jovialmente.
"Também queremos pasta de soja e sal."
Parecia ter encontrado um vencedor. Isso facilitaria as coisas. O doutor quase saiu dançando da sala a caminho da despensa para encontrar os temperos adequados. Se ele colocasse tanta paixão em seu trabalho...
Lamentavelmente para o paciente, ele ficou sozinho.
Talvez eu lhe dê um cogumelo de consolo, se ele gostar, pensou Maomao, observando o eunuco desconsolado enquanto misturava os ingredientes. Quando o curandeiro voltou com as especiarias, uma pequena grelha de carvão e uma grade, ela já tinha uma pomada boa e espessa pronta. Pegou a mão direita do eunuco, espalhando suavemente o produto sobre a erupção vermelha e irritada. O bálsamo não era a coisa mais cheirosa do mundo, mas ele teria de aguentar.
Quando ela terminou, o rosto dele, antes pálido, parecia ter recuperado um pouco de seu brilho. "Nossa, mas é uma jovem muito gentil." Havia algumas entre as mulheres que serviam que olhavam com desprezo para os eunucos. Viam-nos como coisas estranhas, nem mulheres nem homens, e não escondiam isso em seus rostos.
"Não é? Ela sempre me ajuda com pequenas coisas como esta", disse o médico com um pouco de orgulho.
Houve momentos na história em que os eunucos foram tratados como vilões sedentos de poder, mas na realidade apenas alguns deles foram assim. A maioria era tranquila e agradável, como estes dois.
Talvez nem todos eles, no entanto... Um rosto indesejado passou pela mente de Maomao, e ela deliberadamente o espantou. Acenderam o carvão, colocaram a grade no lugar, depois quebraram os cogumelos em pedaços com as mãos e deixaram cozinhar. Maomao tinha pegado uma pequena fruta cítrica sudachi do pomar, e agora a cortou em fatias. Quando começaram a sentir aquele cheiro único dos cogumelos matsutake cozinhando, o cogumelo delicadamente tostado, colocaram-no nos pratos e temperaram com sal e suco cítrico.
Maomao esperou para dar sua primeira mordida até ter certeza de que os outros dois tinham começado a comer: no momento em que os homens mais velhos deram as mordidas, tornaram-se cúmplices de Maomao. Ela mastigava enquanto o curandeiro conversava satisfeito. "Esta jovem tem sido de grande ajuda para mim. Ela pode fazer qualquer coisa, sabe. Mistura todo tipo de remédio sob o sol, não apenas pomadas."
"Hã! Muito impressionante."
O velho falava como se estivesse se gabando da própria filha. Maomao não tinha certeza se achava isso ideal. De repente, viu-se pensando em seu pai, a quem não via há mais de seis meses. Perguntava-se se ele estaria comendo bem. Esperava que o custo de manter seus remédios estocados não o estivesse fazendo passar necessidade.
Foi bem quando Maomao estava sentindo esse tom emocional que o curandeiro teve de ir e dizer algo especialmente sem noção.
"Nossa, acho que ela pode fazer qualquer tipo de remédio."
Guh?
Mas antes que Maomao pudesse dizer ao velho para guardar suas hipérboles para si mesmo, o eunuco sentado à frente deles disse: "De qualquer tipo?"
"Sim, qualquer coisa que você precise." O doutor deu um pequeno bufo triunfal, o que na mente de Maomao só confirmou seu charlatanismo. O outro eunuco olhou para Maomao com novo interesse. Ele tinha algo em mente, ela tinha certeza.
"Nesse caso, você poderia fazer algo para curar uma maldição?"
Ele estava esfregando sua mão inflamada pateticamente. Seu rosto estava mais uma vez pálido.
⭘⬤⭘
Aconteceu anteontem à noite.
A última tarefa dele era sempre recolher o lixo. Ele recolhia todo o lixo em uma carroça ao redor do Palácio Interior e o levava para o bairro oeste, onde havia um grande fosso para a queima. Normalmente, fogueiras não eram permitidas após o pôr do sol, mas como o ar estava úmido e não ventava, foi considerado seguro e a permissão foi concedida.
Seus subordinados despejaram o lixo no poço. Ele mesmo ajudou, ansioso para terminar a tarefa. Aos poucos, jogaram as coisas da carroça no buraco.
Então, algo na pilha da carroça chamou sua atenção. Era um traje feminino. Não de seda, mas certamente de alta qualidade. Um desperdício jogar aquilo fora. Quando o levantou para inspecionar, uma coleção de escritos em madeira caiu de dentro. Havia uma marca de queimadura notável na manga do traje que os envolvia.
O que isso poderia significar?
Mas ele sabia que seu trabalho não terminaria mais cedo se ficasse matutando sobre aquilo. Pegou os pedaços de madeira um por um e atirou-os no poço.
⭘⬤⭘
"E então você diz que o fogo ardeu em cores não naturais?"
"É isso mesmo!" Os ombros do velho tremiam como se a lembrança fosse horrível.
"E diz que as cores eram vermelho, roxo e azul?", perguntou Maomao.
"Sim, eram exatamente essas!"
Maomao assentiu. Então essa era a fonte dos rumores que Xiaolan lhe contara naquela manhã.
Quem diria que algo do bairro oeste chegaria até aqui?
Aparentemente era verdade o que diziam: os rumores entre as mulheres viajavam mais rápido do que um skandha de pés ligeiros.
"Tem que ser a maldição da concubina que morreu numa fogueira aqui há muitos e muitos anos. Foi errado da minha parte fazer uma fogueira à noite, agora eu sei! Foi por isso que minha mão ficou assim!" A erupção na mão do eunuco aparecera depois do incidente com o fogo.
Ele estava pálido e trêmulo quando disse: "Por favor, senhorita. Faça-me um remédio que possa curar uma maldição." O homem olhou para ela de forma suplicante. Ela pensou que ele poderia se jogar de cara no tapete de junco a qualquer momento.
"Não existe tal remédio. Como poderia haver?", disse Maomao friamente.
Ela se levantou e começou a vasculhar as gavetas dos armários de remédios, ignorando o ancião e o médico, que pareciam estar completamente desorientados. Finalmente, colocou algo sobre a mesa. Vários tipos de pós e pedaços de madeira.
"Essa é a cor que você viu naquele seu fogo?", perguntou Maomao. Ela colocou os pedaços de madeira entre as brasas de carvão e, quando estavam queimando, pegou uma colherinha e espalhou um pouco de pó branco nas chamas. O fogo assumiu um tom vermelho.
"Ou talvez isto?" Ela adicionou um pó diferente, e o resultado foi uma cor verde-azulada. "Posso até fazer isto." Ela pegou uma pitada do sal que tinham colocado nos cogumelos e jogou nas chamas, que ficaram amarelas.
Os dois eunucos olharam para ela, assombrados.
"Senhorita, o que é isso?", perguntou o médico, atônito.
"É o mesmo princípio dos fogos de artifício coloridos. As cores mudam dependendo do que é queimado."
Um dos visitantes de seu bordel tinha sido um fabricante de fogos de artifício. Supostamente jurara nunca compartilhar os segredos de seu ofício, mas no quarto, os segredos comerciais viravam simples conversa de travesseiro. E se uma criança inquieta escutava do quarto ao lado, bem, ninguém percebia.
"E quanto à minha mão, então? Está dizendo que não está amaldiçoada?", perguntou o velho eunuco, ainda esfregando o membro aflito.
Maomao pegou um pouco de pó branco. "Se essa coisa encosta na pele nua, pode resultar numa erupção. Ou talvez houvesse laca nas tiras de madeira. Quem sabe? O senhor já é propenso a erupções, para começo de conversa?"
"Agora que você menciona..." O eunuco ficou tão mole como se os ossos tivessem saído de seu corpo. O alívio estava estampado em seu rosto.
Devia haver alguma substância como esta nas tiras de madeira que ele manuseara no dia anterior. Foi isso que causou o fogo colorido. Foi só isso — não uma maldição ou bruxaria.
De onde vêm todas essas substâncias misteriosas, no entanto?
As reflexões de Maomao foram interrompidas pelo som de palmas. Ela se virou para descobrir uma figura esbelta encostada na porta.
"Magnífico."
Quando tinha chegado esse convidado tão inoportuno? Era Jinshi, parado ali com o mesmo sorriso de ninfa de sempre.
Comentários
Postar um comentário