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Capítulo 53 — Voltando a Normalidade

Nestes dias, Inês dedicava-se a transcrever a bíblia todas as noites. 

Ela manchava as mãos com tinta como um escriba e lhe dava sua atenção total como um monge enclausurado escrevendo suas orações e meditações. A tarefa repetitiva permitia que ela se esquecesse de tudo e se imergisse no projeto. Durante o dia, ela se ocupava com os outros; à noite, ela se fechava na biblioteca e se envolvia na transcrição.

Sentindo a brisa fresca da noite entrar, Inês levantou a cabeça e olhou pela janela para o céu que escurecia. Ela se perguntou se Cássel havia notado a mudança nela.

Quando ela olhou para fora momentos antes, o sol ainda não havia se posto, mas agora, estava completamente escuro. Ele deve ter chegado em casa há algum tempo, notado a porta fechada do escritório e decidido não perturbá-la. Então, ele provavelmente encontrou uma maneira de passar o tempo sozinho. Inês acreditava que ele não pensaria muito em sua ausência porque eles frequentemente faziam suas próprias coisas individualmente, mesmo quando estavam juntos.

Até algumas semanas atrás, eles passavam as noites juntos. Não havia nada de especial em sua rotina noturna. Todas as noites, eles jantavam juntos e compartilhavam os acontecimentos do dia. Ele bebia seu vinho enquanto ela bebia sua água. Em seguida, ele observava as ondas com um charuto entre os lábios enquanto ela lia um livro de memórias de viagem. Tarde da noite, eles exploravam os corpos nus um do outro na cama antes de adormecerem entrelaçados em um abraço. Logo, o sol nasceria, e eles se cumprimentariam com um bom dia. A vida de casados deles seguia o fluxo e refluxo das ondas. Todos os dias, todos os momentos — até agora.

Inês havia deslizado sem esforço por essas rotinas de sua vida de casada. Mas agora, ela tinha que admitir que estava secretamente saboreando a sensação de estabilidade e calma que essas rotinas lhe proporcionavam.

Em todo caso, ela não deveria ter baixado a guarda daquele jeito. Quanto mais ela lutava para evitar se afogar nas ondas intermináveis de pesadelos, mais fundo ela afundava na escuridão. Além disso, ela não podia mais negar que havia confundido a sensação temporária de tranquilidade com algo real.

A epifania tardia a desequilibrou. 

Ela sabia que não podia evitar vê-lo para sempre, mas só queria fugir por um momento. Talvez estivesse muito desnorteada por tudo. Quer Cássel percebesse ou não o fato de que ela estava tentando evitá-lo, ele não tinha feito nada até agora. Ele não a havia perseguido ou sequer a incomodado de forma alguma. Nada havia mudado em sua atitude para com ela. No entanto, ela era a única procurando desesperadamente por uma fuga, embora soubesse que não podia fugir. Se ela desistisse agora, todos os seus esforços teriam sido em vão e não sobraria nada para ela.

Essa era a própria razão pela qual ela havia resolvido não deixar sua ansiedade dominá-la. Ela continuava dizendo a si mesma que precisava de apenas mais um dia e evitou enfrentar a realidade até este ponto. Agora, era hora de ela cair em si. Ela sabia que acabaria tendo que enfrentar isso, a menos que planejasse desistir de seus objetivos finais. E ela sabia que não era tão frágil a ponto de desistir de tudo tão cedo. Nunca faria isso.

No entanto, a noite já havia caído, e ela não tinha feito nada para confrontar quaisquer desafios que estivessem por vir. Sua bíblia tremulou ao vento. Ela pressionou a página e mordeu o lábio. Ela havia falhado novamente em manter sua resolução. E por um segundo, ela duvidou que o amanhã seria diferente. Inês não queria admitir que Cássel poderia ter razão sobre ela. Os dois já haviam se permitido entrar na vida um do outro.

Assim como ela havia se acostumado com Cássel, ele havia se acostumado com a companhia dela. Embora ela tivesse se convencido de que estava apenas fingindo ser sua esposa amorosa, na verdade, ela poderia estar errada. Ela também teve dificuldade em vê-lo cuidar dela e se preocupar com sua vida diária como se tudo isso viesse naturalmente para ele.

Quando pensou que o casamento deles seria algo temporário, ela não se importou com a paz e o conforto que sentia. Parecia a progressão natural em seu relacionamento, e ela até achava isso um tanto divertido.

Inês enterrou o rosto nas mãos. Nada mais parecia divertido.

Em vez de chorar na minha frente como um tolo, ele deveria sair e encontrar uma mulher... Como ele sempre fazia... Mas quando ela se lembrou das lágrimas inocentes escorrendo pelo rosto de Cássel, ela sentiu uma pontada de culpa e alguma emoção sem nome.

Ela não queria saber nada além do que já sabia. Sentia-se como se estivesse segurando um presente meio desembrulhado com uma suspeita incômoda de que um coelho morto poderia estar dentro da caixa. Ela só queria deixá-lo onde o encontrou e esquecer tudo sobre ele.

Mas ela não conseguia esquecer as lágrimas dele. Sempre que tentava tirar a imagem de seu rosto choroso de sua mente, sentia-se tão culpada quanto alguém abandonando uma pequena criatura para morrer.

Inês olhou fixamente para a janela por um momento, então abaixou a cabeça novamente. De qualquer forma, hoje era uma causa perdida. Era tarde demais para consertar o dia, então ela voltou à transcrição. Ela adiaria o enfrentamento da realidade por mais um dia.

Se ela se concentrasse o suficiente em sua transcrição, acabaria adormecendo exausta, assim como fez durante todo o mês. Quando a manhã chegasse, seu inimigo inocente desapareceria para o trabalho, e ela também poderia se concentrar em seu papel. Ela deve continuar construindo sua influência e encontrar mulheres adequadas para Cássel. Ela resolveu mais uma vez que não agiria mais tolamente e voltaria ao seu eu normal e composto.

Sua caneta ganhou impulso. Outra brisa soprou novamente e agitou as páginas finas da bíblia.

Quando ela estendeu a mão para pressionar o papel, a mão de Cássel apareceu e colocou um peso de papel em forma de meia-esfera sobre a página. 

— Já chega, Inês. A noite está avançada. — Após seu sussurro suave, ela sentiu um beijo pousar no topo de sua cabeça.

Ela não o tinha notado entrar na biblioteca, mas ele deve ter se preparado para dormir enquanto ela estava preocupada com sua tarefa e seus pensamentos turbilhantes. Ele já havia trocado para seu loungewear e cheirava a sabão fresco. Talvez mais tempo tivesse passado do que ela percebera. Inês olhou para o peso de papel desconhecido, artisticamente trabalhado em vidro e marfim. Não porque parecesse muito luxuoso, mas porque parecia deslocado nesta biblioteca que carecia até de itens básicos como marcadores de página ou facas de papel.

Arondra lhe havia dito que Cássel raramente usava a biblioteca na mansão original ou na atual. Assim, ele nunca notou a necessidade de artigos de papelaria básicos, e Inês se virou sem eles até agora. Por exemplo, quando o vento soprava as páginas, ela sempre usava a mão para pressioná-las.

Inês traçou a borboleta de marfim gravada na superfície com o dedo. — De onde veio este peso de papel?

— Um presente para você — respondeu Cássel.

— Isso é inesperado.

— Você tem transcrito muito ultimamente. Você não fecha a janela enquanto trabalha, e o vento pode ficar irritante... Ou assim eu imaginei.

Improvável ser um pensamento passageiro. Inês imaginou Cássel esgueirando-se silenciosamente na biblioteca, observando sua esposa enquanto trabalhava em seu manuscrito antes de sair.

Na verdade, foi provavelmente o que aconteceu. Nas últimas semanas, Cássel dedicou toda a sua atenção a não incomodá-la. Então, sempre que tinha a chance, fazia tudo o que podia para cuidar dela.

Sem saber que Inês estava intencionalmente evitando-o, ele acrescentou: — Pensei em você quando vi isto hoje. Você gosta?

Inês parou de tocar a gravação da borboleta. — Não é... ruim. — Apesar de sua resposta morna, ele sorriu amplamente e segurou o rosto dela. Ele beijou suas bochechas e disse:

— Certo, levante-se agora. Você já marcou seu lugar no livro. Você pode continuar amanhã.

— Só mais um pouco, Cássel...

— Eu estive esperando todo esse tempo, tentando não incomodar você.

Sua voz era firme. Ele alcançou a cintura dela e a levantou facilmente de seu assento. Ele claramente pretendia levá-la para a cama assim, embora não necessariamente para qualquer troca sensual de desejo luxurioso. Antes que ela pudesse protestar, ele a levantou em seus braços sem um toque de implicações sexuais. 

Inês suspirou. — Cássel, eu lhe disse isso ontem e anteontem, mas eu tenho pernas perfeitamente funcionais.

— Eu sei. Elas são muito bonitas — ele murmurou como se saboreasse as palavras, então voltou ao seu eu inexpressivo.

— Se você sabe, por favor, não faça isso. A biblioteca fica a apenas alguns passos do nosso quarto...

— Quantos passos são? Quinze? Vinte? Trinta? Eu não consigo estimar porque você tem passadas adoravelmente curtas.

— Eu... sou bem alta para uma mulher. Você é o anormalmente alto, então não me faça parecer que sou eu quem está em falta.

Cássel mal deu atenção às palavras. — Caminhar vinte passos é muito para o seu corpo agora.

— De fato — disse Inês, esbanjando sarcasmo.

— Deixe-me carregar você assim até você melhorar.

— Eu estou totalmente recuperada.

Cássel gentilmente colocou Inês na cama. Em seguida, ele trouxe a bacia de água e lavou as manchas de tinta das mãos dela. Ele sabia que ela daria uma desculpa para sair, dizendo que precisava lavar as mãos.

— Ballan disse que não teve notícias do médico de Peraline.

— É mesmo? — Inês respondeu, fingindo ignorância.

— Se você não se importa, eu quero encontrar outro médico de Mendoza.

— Eu posso... fazer isso sozinha. — Inês evitou respondê-lo e puxou as mãos para fora das dele.

Seus dedos longos e hábeis escorregaram para os espaços entre os dedos esguios dela. Ela não conseguia escapar de seu aperto firme. Segurando as mãos dela no lugar, ele gentilmente esfregou as manchas de tinta.

— Você não precisa fazer isso. Você não é algum servo... — murmurou Inês.

Cássel sussurrou com uma voz terna: 

— Se você deixar um servo fazer isso com você, eu o destruirei. — Ele combateu a súbita onda de ciúmes e se concentrou em remover as manchas de tinta nas mãos dela com um toque delicado.

Inês engoliu uma respiração ansiosa e conseguiu um sorriso fraco. — Então, o que você fará comigo por ordenar que ele faça isso?

— Eu lavarei qualquer vestígio do toque dele em você, assim... Exatamente da maneira que você o teria instruído.

Ela achou Cássel ainda mais difícil de lidar quando ele agia com tanta ternura em relação a ela. Quando ele exigia sexo, ela só precisava satisfazer seu pedido. Mas quando ele a tratava como uma peça de porcelana frágil e seu olhar azul insondável penetrava profundamente nela, a confusão nublava sua mente.

Cássel beijou as pontas dos dedos limpos dela e olhou para ela com carinho. — Você encontrará um médico melhor e receberá um tratamento mais eficaz. Então, você não estará mais doente.

Ele a puxou para seu abraço, e Inês não resistiu. Como ela poderia lhe dar a notícia decepcionante de que isso nunca aconteceria?

Não importava a distância entre eles durante suas rotinas diurnas e noturnas, no final de cada dia, eles se deitavam juntos em sua cama como se nada tivesse acontecido. Com Inês nos braços de Cássel. 

Ela tolerava esta parte de sua rotina diária por uma razão egoísta — quando ela adormecia assim, ela dormia a noite toda sem sonhos.

— Por que você comprou tantas coisas inúteis? — perguntou Inês.

Cássel ficou desapontado com a reação inicial dela, mas rapidamente recuperou o bom humor. O mercador havia apenas disposto as caixas de veludo até então. Assim que ele começasse a abrir as caixas, ele pensou que talvez ela apreciasse seus presentes e esforços.

Infelizmente, Inês continuou a se maravilhar apenas com seus gastos extravagantes, não com as joias. — Eu lhe disse, Cássel, eu não preciso de nada disso... Eu já tenho o suficiente. — Em seguida, ela lhe deu uma breve palestra. Ela o lembrou que tanto os Escalante quanto os Valeztena tinham uma montanha de ouro e joias em seus tesouros. Se ela precisasse de alguma, ela ou ele poderiam tirar algumas escondido de suas respectivas casas. Como única filha dos Valeztena e herdeiro dos Escalante, ninguém os acusaria de roubo. Cássel não cedeu. — Elas todas pertenceram a outra pessoa. Eu não quero dar a você itens de segunda mão como presente. — Ou bens roubados, nesse caso. Ele não poderia dar a ela algo que havia roubado de sua família. Seria completamente vergonhoso.

Inês ficou sem palavras por um momento. — Cássel... Eu não consigo acreditar no absurdo que você acabou de me dizer... Eu não ouvia tamanha idiotice há um tempo. Ninguém pensa em joias como você.

Ainda assim, Cássel insistiu. — Eu sei que as heranças Valeztena e Escalante são ótimas, mas estas também são boas.

— Eu não disse que são ruins. São todas lindas. Embora eu não veja rima ou razão em suas escolhas... — Inês ergueu os brincos de diamante que haviam chamado a atenção de Cássel na loja.

Cássel resmungou: — Você poderia ter dito isso antes... exceto pela última parte.

— Bem, é verdade que você esbanjou seu dinheiro. O que você faz com seu dinheiro não é da minha conta, mas importa quando você o gasta comigo. Veja? Eu posso não gostar das coisas que você compra para mim. É por isso que você não deveria gastar seu dinheiro comigo, Cássel.

— Se você não gosta, por que está colocando-os? — Cássel apontou para os brincos de diamante que Inês estava colocando.

Inês se encolheu, mas rapidamente recuperou a calma. — Porque são bonitos.

— E os outros? Você não gosta de nenhum deles? — Cássel estava muito ocupado determinando qual deles não conseguiu despertar o interesse dela para apontar que as ações dela não correspondiam às palavras. Então, ele sorriu para si mesmo. — Contanto que você goste de um, é tudo o que me importa. Experimente o outro lado.

— Uma orelha é o suficiente. Olhe. — Inês virou a cabeça para mostrar um brinco.

O rosto de Cássel se abriu em um sorriso. — Bonita. Muito bonita.

Ela desviou o olhar para evitar ver o sorriso dele. — Certo... É bonito. Eu gosto deste.

Ela mexeu no outro brinco, mas ele o pegou da mão dela e o colocou contra a orelha restante. Ele a observou e sorriu novamente. — Muito bonita.

O libertino perfeito é generoso com seus elogios, como esperado. Apenas ouvindo pela metade seus elogios, Inês lhe deu um aceno superficial. — Sim, eu disse que é bonito...

— Não, eu quis dizer que você é bonita — ele esclareceu.

Ela não sabia como responder.

— Combina com você ainda mais do que eu imaginei. Parece que pertence a você.

— Não pertence a mim...? Você acabou de me dar.

— Eu quero dizer que parecem feitos para você... Como se tivessem sido desenhados especificamente para você.

Inês ficou sem palavras novamente. — De qualquer forma... Eu gosto destes. Então, você pode devolver o resto.

— Alfonso já pagou por tudo. Então, são todos seus. — Cássel gesticulou para as dezenas de caixas no chão.

— Não se os devolvermos agora.

— Você não gosta de nenhum deles? Você não os aceitaria nem de graça? Você prefere se livrar deles?

— Eu nunca disse isso... São todos bons e bonitos. Estou apenas dizendo que não preciso de nenhum deles.

— Certo, você não gosta deles. Tudo bem. Você pode encontrar um uso para eles. Embora eu não entenda, você parece gostar de dar presentes a outras mulheres.

— Espere, você espera que eu dê itens tão caros como se estivesse distribuindo lembrancinhas de viagem?

Cássel assentiu. — Se você precisar de mais, eu posso conseguir mais.

Ele ainda seria tão compreensivo se soubesse por que eu tenho dado presentes a outras senhoras...? Inês se perguntou. Uma vaga culpa a picou.

Mesmo que o custo fosse insignificante quando comparado à vasta riqueza dos Escalante, ela ainda via cada presente que recebia dele como uma obrigação. Quando ela finalmente o deixasse, sentiria o peso de todos os presentes que ele havia esbanjado nela sobre sua consciência.

Eu eventualmente os devolverei a ele, mas ainda assim... Inês lançou um olhar de aviso a Cássel. — Não vou deixar você comprar mais nada. Isso é o suficiente.

— Como eu disse antes, essa não é sua decisão, Inês. — Cássel sorriu e estendeu a mão para esfregar o lóbulo da orelha dela e o brinco. Seu rosto bonito se iluminou de satisfação. — Apenas as joias mais finas combinam com você.

— Sim, eu fico ótima nestes. E vamos devolver estes de os últimos. Entendido?

— Se você realmente não quiser mais, claro.

— Você gasta demais, Cássel. Eu posso ver agora quantos presentes você deve ter dado a outras mulheres... Mas eu já sou sua esposa. — Mais precisamente, Inês era a esposa que planejava arruinar o casamento dele em alguns anos. — É por isso que você não precisa me comprar nada.

— Devo pedir para você se explicar? Deixa para lá. — Cássel esfregou o queixo e murmurou para si mesmo: — Ou isso só vai me fazer sentir pior...?

— Você não precisa mais investir em mim porque eu já sou sua esposa — explicou Inês.

— Seu ponto é?

— Meu ponto é... você não precisa me dar tanta atenção quanto deu às outras mulheres. Você não precisa se esforçar para ganhar minha afeição. — Inês não disse em voz alta, mas pensou que ele provavelmente não precisaria implorar pela afeição de alguém com um rosto como o dele. — Na verdade, eu sei que eu disse que você gasta demais, mas eu não me importo com o quanto você gastou ou gastará com outras mulheres. Contanto que você não gaste seu dinheiro comigo, eu não me importo... Na verdade, meu problema não é com você, mas comigo. Eu me sinto desconfortável quando você faz isso comigo, então...

Cássel zombou. 

— No máximo, eu imaginei que você diria que eu não preciso investir em alguém que eu já tenho. Isso já teria sido suficiente para arruinar meu humor... Mas você nunca falha em me surpreender, Inês.

— O quê...?

— Você conseguiu desconsiderar meus sentimentos completamente. — Ironicamente, Cássel então segurou o rosto de Inês entre as mãos e apertou suas bochechas como as de uma criança adorável. Ela não conseguia descobrir se ele se sentia bem ou péssimo com o que ela disse. Cássel continuou a apertar seu rosto confuso por um tempo e depois mordeu a ponta do nariz dela.

Inês se perguntou se ele tinha enlouquecido.

Logo, ele recuperou a calma. 

— Você pode fazer o que quiser com os itens que comprei. Mas pegue estes brincos, pois eles ficam perfeitos em você.

— Eu ia pegar... — murmurou Inês.

De fato, os brincos de diamante eram exatamente do seu gosto. Eles a lembravam de como ela costumava ser muito interessada em se vestir e usar joias requintadas há duas vidas atrás.

— Você ia? Excelente! Boa menina! — Cássel a elogiou, um sorriso alegre iluminando seu rosto. Sua voz encantada se assemelhava à de um dono elogiando seu cão após um truque bem-sucedido.

Inês não soube como reagir àquele elogio estranho. Uma leve carranca enrugou suas sobrancelhas. Em seus olhos, era ele quem estava agindo como um cão excitado, lambendo seu rosto e abanando o rabo. — Você... perdeu o juízo?

Cássel não deu atenção à pergunta dela e continuou tagarelando. — Você pode jogar fora o resto. Você sabia que há um lixão atrás do morro? Será divertido jogá-los no incinerador um por um. Ou você pode jogá-los no oceano como se estivesse pulando pedras. Quer apostar quem consegue mais pulos?

— Você... deve ter perdido a cabeça. — Inês tentou se desvencilhar do aperto dele. — Solte-me.

— Se você não quiser, não precisa. — Ele deu de ombros e continuou a lamber e mordiscar partes do rosto dela.

— Você está tentando comer meu rosto? Pare! Pare! — Ela deu um tapa no ombro dele, tentando repreender este cão gigante e indisciplinado. Se ele tivesse um rabo, estaria abanando loucamente. Depois de se satisfazer, Cássel finalmente pareceu satisfeito. Ele estendeu a mão para a pequena toalha de rosto ao lado da bacia e delicadamente enxugou seu rosto borrado com a toalha úmida.

— Agora, você está limpa... E, acredite ou não, Inês, você é a única até agora.

— O quê?

— Você é a primeira e única mulher para quem eu já comprei um presente. E a última, é claro. E sim, estou dizendo isso para fazer você se sentir desconfortável.

Ela sentiu que ele estava jogando uma maldição sobre ela com a voz mais gentil.

— Inês, todos os meus péssimos hábitos de consumo são por você — ele disse. Então, ele deu um beijo barulhento no lóbulo da orelha dela, logo acima do brinco.


***


Vários dias depois, Inês tirou um par de luvas e um anel que Cássel lhe havia presenteado antes de ir visitar os Azevedo. Embora ele tivesse dito que ela poderia jogar tudo fora, ele pareceu eufórico quando ela colocou os presentes na carruagem.

— Vejo que você não os enviou de volta para a joalheria, afinal.

Inês não conseguia entender por que ele parecia tão encantado quando sabia que ela os daria a outra mulher. Talvez ele acreditasse que era uma opção melhor do que se livrar deles completamente. — Pensei que você queria que eu os guardasse. Você agiu como se tivesse enlouquecido, quase deixando marcas no meu rosto.

— Viu, eu disse que você encontraria utilidade para eles — disse Cássel com um sorriso inocente.

Inês olhou para ele, perplexa. Ele estava satisfeito com muita facilidade. Ela se sentiu um pouco culpada por re-presentear Lady Azevedo com seus presentes.

Depois disso, eu não vou re-presentear mais ninguém... Eu vou apenas guardar o resto e devolvê-los a ele no final. Eu também não vou usar nada, então ele não vai reclamar que são itens de segunda mão.

Lady Azevedo gostou imensamente dos presentes, para a satisfação de Inês. Inês ainda tinha que ganhar perdão pelo que fez da última vez. Quando ela mencionou que Cássel havia pago pelos presentes, Lady Azevedo ficou muito feliz e alegou que foi a melhor coisa que lhe aconteceu naquele ano. Antes que Inês tivesse a chance de explicar, Lady Azevedo anunciou os presentes como heranças da família Azevedo — selecionados com o gosto perspicaz de Inês Escalante e comprados por Cássel Escalante.

O Tenente Azevedo também ficou eufórico ao receber um presente do neto do Almirante Calderon. Ele provavelmente trancaria as heranças de família em uma caixa de vidro e colocaria a seus pés uma placa de metal gravada que diria: "Neto do Almirante Calderon e herdeiro do ducado Escalante, Tenente Cássel Escalante", e "a única filha do Duque Valeztena, Lady Inês Escalante". Ele poderia se gabar de seu conhecimento com três figuras famosas usando um único presente.

Ele continuou a importunar Cássel com perguntas sobre sua carreira, como quanto tempo Cássel ficaria na marinha e a qual posição ele estava almejando. Eventualmente, ele decidiu gravar "Vice-Almirante Cássel Escalante" com base em suas previsões sobre o futuro de Cássel e sorriu triunfantemente.

Lady Azevedo recusou-se a experimentar o anel ou as luvas para não manchar os presentes preciosos.

O jantar foi perfeito. Ambos os Azevedos eram pessoas bondosas e os presentes os deixaram de bom humor. Embora os Escalante tivessem ido pedir desculpas, os Azevedos os trataram como convidados reais, tanto que Cássel ficou tentado a trazer outro anel no futuro. A comida também era exatamente do agrado deles — pratos de carne para Cássel e frutas caras para Inês.

Com o tempo, Inês gradualmente começou a se deixar levar pela atmosfera agradável. Mesmo sem um gole de vinho, ela sorriu junto com os outros que estavam meio embriagados depois de alguns copos, até que ela não estava mais fingindo estar gostando da noite.

Talvez fosse por isso que ela deu um pequeno passeio em vez de voltar para casa. O resto da trilha seguia a leve colina até o cume da Colina Logorño. Até mesmo o superprotetor Cássel a deixou caminhar a curta distância. Um pouco meio embriagado, Cássel seguiu Inês alguns passos atrás e observou os pés dela para garantir que ela não tropeçasse.

Quando Cássel estava distraído, ouviu Inês soltar um grito de surpresa. Ela quase tropeçou em uma pedra. Ele saltou em direção a ela e a agarrou pela cintura. 

— Eu sabia que isso ia acontecer.

— Estou bem. Me ponha no chão, Cássel.

— Não.

— Eu não cheguei a cair de fato — Inês lembrou.

— Mas você poderia ter caído — ele retrucou.

Cássel a ergueu para o seu lado e terminou a trilha com o braço preso à cintura dela. Inês rapidamente desistiu de resistir e se deixou pender em seu braço, tentando colocar mais peso nele. Mas ele não parecia nem um pouco incomodado com o peso extra.

Só músculos... Inês suspirou, seus pés ainda balançando no ar. — Você está sendo superprotetor.

— Às vezes eu olho para você e me pergunto como uma pessoa pode ser tão fraca — disse Cássel.

— As pessoas ririam de você se ouvissem você dizer isso.

Inúmeras mulheres ostentavam cinturas ainda mais esbeltas que a dela — pelo menos nesta vida. Embora ela nunca tivesse um apetite saudável, ela estava em muito melhor forma do que seu eu mais velho, quando costumava passar fome diariamente e tinha tonturas regulares.

Mas nada disso importava para Cássel. Em sua mente, Inês era a delicadeza personificada.

— Você é tão pequena e frágil.

Inês optou por não responder. Ela não se incomodaria em explicar novamente que tinha um tamanho médio e que Cássel era quem tinha uma estrutura corporal incomumente grande.

— Quem sabe o que pode acontecer com você se seu corpo frágil atingir o chão de pedra?

Sufocando um suspiro, Inês desistiu de discutir com ele. Seu andar desajeitado apenas aumentou sua preocupação desnecessária. A culpa era toda dela, então ela escolheu envolver os braços em volta do pescoço dele. Ele a puxou para mais perto de seus ombros.

Logo, uma agradável pracinha surgiu à vista. Uma pequena fonte de água repousava no centro, fileiras de arbustos floridos adornavam a cerca baixa que cercava a área, e postes de luz curtos pontilhavam a praça. No meio da fonte, uma bela estátua de sereia brilhava na luz do poste refletida na água.

Inês e Cássel tinham tropeçado neste local há pouco tempo, quando Mario desviou a carruagem para subir a colina para dar a volta. Se ela não tivesse olhado pela janela naquele momento exato, o desatento Cássel nunca teria reparado. É claro que ele também não estava familiarizado com o bairro da Colina Logorño. Ainda assim, Inês deixou-o dar desculpas longas e elaboradas sobre o porquê de nunca ter encontrado este lugar depois de supostamente morar no bairro por tanto tempo. Ele ainda não sabia que ela tinha descoberto o segredo dele há muito tempo.

Ela não queria interromper a mentira dele para explicar como sabia que ele não estava a dizer a verdade. Tudo o que ela queria era manter o fingimento até que as desculpas dele se tornassem parte da realidade aceite por eles.

— Este lugar parece melhor à noite — comentou Cássel.

— Sim, eu queria passar a noite a passear devagar pela praça. Mas você estragou o meu plano — respondeu Inês.

— Podemos sentar-nos ali e desfrutar. — Ele caminhou até à fonte e colocou-a no muro de pedra grosso e baixo que rodeava a água. O muro era surpreendentemente confortável, e Inês aliviou a sua carranca.

O vestido dela era demasiado fino e as mangas demasiado curtas para a manter aquecida, mas ela apreciava a brisa fresca da noite a acariciar as suas bochechas. Ela também gostava do som da água a correr e das ondas a quebrar ao longe.

— Gostaria de ter sabido antes — murmurou Inês.

— Sobre este lugar?

— Sim. Eu adoraria passar mais tempo aqui enquanto posso — respondeu ela.

— Você vai para algum lado? — perguntou Cássel.

— Eu não vou para lado nenhum. — A carranca de Inês voltou enquanto ela acrescentava: — Você nem sequer me deixa andar com os meus próprios pés.

— Mas parecia que está a planear deixar Calztela em breve.

— Bem... O seu pai disse que talvez você tenha que voltar para Esposa no inverno e também temos que visitar Mendoza para celebrar o início de um novo ano.

— Podemos voltar — disse Cássel, ansiosamente. — Aonde quer que você vá, podemos sempre voltar para Calztela.

A voz confiante dele fez Inês se virar para encará-lo. Ele sorriu em resposta. — Você pode vir a esta praça e desfrutar de um passeio até se cansar. Certo?

— Não é como se você fosse ficar em Calztela para sempre — disse ela.

— Mesmo que eu seja destacado para outro lugar, posso insistir em ficar aqui para que você possa saborear a atmosfera pelo tempo que quiser. Eu sei que você se afeiçoou a Calztela, Inês.

Surpresa pela suposição precisa dele, ela franziu os lábios e fez uma careta antes de rapidamente controlar as suas feições. — E como é que você vai fazer isso?

— Como diz o estereótipo, eu sou parente de sangue da imperatriz e posso influenciá-la como eu quiser. Eu também poderia fazer um protesto em frente ao quartel-general da marinha...

De facto, Cássel tinha voz nas suas designações. Embora ele geralmente obedecesse às ordens dos seus superiores, ele tinha a liberdade de recusar os seus comandos. Afinal, a marinha era uma organização estritamente hierárquica, e ele era da mais alta classe social.

Infelizmente, Inês tinha em mente os outros destinos dele. Ela lembrou-se de como a sua avó, Velinda, e outros morreram exatamente como tinham acontecido nas suas outras vidas. Ela pensou noutras tragédias que tinha testemunhado, especialmente a que atingiu a família Escalante, mas imediatamente afastou a memória desagradável quando encontrou o olhar dele.

Ela sabia que meditar sobre tais pensamentos mórbidos enquanto estava sentada ao lado dele era desrespeitoso, então tentou pensar noutra coisa. Independentemente disso, Cássel Escalante acabaria por perder a vida que desejava, tal como nas suas vidas anteriores. Mesmo que Inês o tivesse forçado a um casamento que ele não queria, ela poderia pelo menos deixar a vida dele depois do casamento ser como ele desejava.

Mas como seria a vida dele depois de deixar a marinha...? Depois de algumas semanas em Calztela, Inês rapidamente percebeu que tinha feito a falsa suposição de que Cássel usava o seu uniforme de oficial como um cartão de visita para seduzir mulheres. Ele amava genuinamente a marinha e admirava o seu avô. Agora, ela tinha uma ideia melhor da vida que ele sempre quis. No entanto, ele não podia continuar a viver assim. Como herdeiro do título Escalante, ele era obrigado para sempre a servir Oscar. Ele não tinha escolha nesta matéria.

Mesmo na vida anterior, Cássel Escalante acabou por regressar ao seu lugar de direito, apoiando Oscar, após anos a evitar o casamento e o seu título. Nesta vida, ele acabaria na mesma situação, independentemente do seu casamento com Inês e de como casar com ela o havia forçado a assumir o título. Por agora, ele pode pensar que todas essas responsabilidades estão longe no futuro e apenas procurar a liberdade através do prazer na cama.

Pelo menos, ele terá o seu herdeiro sem a restrição de uma esposa. Isso também deve ser conveniente para ele... Ela tentou engolir um sentimento persistente de culpa. No devido tempo, ela o deixaria e a vida dele continuaria sem ela, então ela não precisava de se sentir culpada por mudar a vida dele para sempre. Mas ela ainda não conseguia livrar-se da culpa que carregava por saber demais...

Inês olhou para o chão. — Você planeia ficar na marinha?

— Pelo menos enquanto você concordar. Eu quero continuar a servir na marinha.

— A minha opinião não deve importar — disse ela.

Cássel abanou a cabeça. 

— É claro que importa. Se eu não fizer de você Duquesa Escalante, o seu pai vai ou me matar ou levá-la de volta. Eu não posso desejar que Miguel acabe com o peso do título de alguma forma para que eu possa continuar na marinha... Mas eu posso desejar que o meu pai viva uma vida longa e saudável.

Enquanto Inês escolhia as suas palavras com cuidado, Cássel também estava absorto nos seus próprios pensamentos que não podia expressar. Por exemplo, ele queria dizer-lhe que apreciava a companhia dela e o tempo que passavam juntos na sua residência acolhedora — apenas os dois, livres de quaisquer distúrbios externos. Mas o seu instinto disse-lhe para não dizer nada que pudesse incomodá-la, assim como os seus presentes a tinham deixado descontente. Em vez disso, ele puxou os cantos da boca e forçou um sorriso. Depois, ele envolveu as mãos geladas dela com as suas, esperando que as suas ações não a incomodassem tanto. A brisa levaria a inquietação dela.

— Oh, eu ouvi dizer que você sabe andar a cavalo — disse ele.

Inês assentiu após uma breve pausa.

— Você é boa nisso?

— Não, sou uma cavaleira inexperiente. Eu só andei a cavalo umas poucas vezes.

— O meu palpite é que você tem um talento natural para isso.

Ela abanou a cabeça. — Se eu fosse cavalgar novamente, eu provavelmente precisaria de mais aulas.

— Ótimo. Então vamos andar a cavalo quando você se sentir melhor. Eu vou te ensinar.

Os olhos de Inês brilharam de antecipação. — Eu já estou a sentir-me muito melhor, então podemos ir agora?

Cássel riu. — Agora não. Mais tarde.

— Tudo bem.

— E você também parece ter interesse em caça.

— Caça?

Cássel acenou com a cabeça e perguntou: — Quer que eu te ensine a atirar?

— Claro.

— Certo. Da próxima vez, você pode juntar-se ao grupo de caça em vez de ficar para trás com as senhoras.

Inês assentiu.

No silêncio confortável, o olhar de Cássel desviou-se dela para fitar a parte da estátua da sereia que estava escondida debaixo de água. Da última vez que ele espreitou a água com Inês, ele notou uma escultura semi-submersa de um soldado a embalar a sereia. 

Ao contrário das decorações típicas pela cidade, esta estátua representava uma lenda local. — Inês... você se lembra da história sobre a sereia?

— Você quer dizer a história que você me contou? Eu me lembro de você ter dito que o soldado era um idiota e o quão terrível contador de histórias você é.

— Certo. Yolanda acabou por lhe explicar a história naquela noite.

Como muitas outras lendas populares, esta lenda brega era baseada em Calztela. De acordo com a lenda, as belas sereias não tinham coração, não sentiam emoções, nunca amavam ninguém e, portanto, nunca tinham o coração partido. As sereias frequentemente tentavam e testavam os humanos que se apaixonavam por elas. Quando um jovem soldado resgatou uma sereia da praia, ele se apaixonou por ela. Como sempre fazia, a sereia não confiou nas suas confissões de amor e decidiu testar o seu amor. Na sua mente, as palavras humanas eram insignificantes, e o conceito de “amor” pouco significava para ela. Ela pediu-lhe para deixar a terra e viver com ela no oceano.

Cego pelo amor, o soldado quis segui-la para o mundo dela, então ele seguiu-a fundo, fundo no oceano até que não conseguiu mais respirar. A sereia tinha esquecido que os humanos não conseguiam respirar debaixo de água, e o soldado estava cego pelo amor. Mais tarde, ela tirou o corpo morto do soldado da água. Presumindo que ele pudesse respirar novamente quando estivesse de volta à terra, ela puxou-o para cima de uma rocha, mas ele continuava a afundar. Confusa, ela chamou por ele, mas ele não respondeu. Por fim, o soldado acabou por afundar nas profundezas do mundo da sereia, mas também fora do alcance dela.

— Como você disse, ele era um idiota. — Inês virou a cabeça para trás e examinou a escultura do soldado debaixo d'água. — Ele se apaixonou perdidamente por uma mulher estranha e nem sequer percebeu que estava a morrer lentamente.

— Você tem razão. — Cássel assentiu.

— O que é tão atraente numa meio-humana, meio-peixe, afinal?

— Talvez a sua boa aparência?

— Os homens são tão simplórios... — Inês murmurou sarcasticamente.

Cássel soltou uma risada fraca ao perceber que estava a enfrentar a mesma situação que o soldado da história. Inês virou a cabeça parcialmente para olhar para ele, confusa. Ele não conseguia evitar achá-la insuportavelmente adorável. Cássel olhou uma vez para a sereia e depois para Inês. Ela se assemelhava à bela sereia, mas não o testava nem queria o amor dele. Ela nunca perguntou sobre os sentimentos dele por ela e não pediu para ele ir embora com ela. Ela nunca fez nada tão desconsiderado quanto o que a sereia fez. Na verdade, ela provavelmente não se importava o suficiente com ele para brincar com ele. Realmente, ela não era nada parecida com a sereia, e ainda assim, ela o lembrava da sereia.

A única coisa que elas têm em comum é a beleza... — Talvez ele não fosse um idiota, afinal. — As palavras escaparam da boca dele.

— Então, por que ele escolheria segui-la?

— Ele estava provavelmente tão profundamente apaixonado por ela que não se importou de se afogar.

— Só um tolo pensaria assim — disse Inês categoricamente.

— Você tem razão. Ele é um idiota — concordou Cássel.

Ela enrugou o nariz e sorriu, divertida com o quão facilmente ele era persuadido.

Por alguns segundos, ele imaginou ter um escultor a esculpir uma estátua a retratar este momento. Ele desejava ter o sorriso dela arquivado perpetuamente.

Talvez a sereia o lembrasse dela porque ele a amava exatamente da mesma forma que o soldado amava a sereia. Ele não se importava de se afogar para passar o resto da vida com ela. Ele se esquecia de respirar às vezes quando estava com ela. Ele estava tola e apaixonadamente apaixonado por ela. Mas — ela não tinha sentimentos por ele, assim como a sereia não amava o soldado de volta.

Cássel imaginou o futuro onde ela nunca retribuía o seu amor e sentiu-se como se estivesse a afogar-se. Sufocado. Mas ele também conseguia aceitar essa realidade.

Inês salpicou um pouco de água da fonte e sorriu novamente. Ele viu o sorriso dela e sentiu um vislumbre de esperança.

Ele estimaria para sempre este momento no seu coração.

Por isso, ele não se importava de se afogar de todo.


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Comentários

  1. Ela já percebeu que ele amava ela na vida passada! Acorda Ines, para de pensar em divorcio

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