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Capítulo 58 — O Início do Inverno e os Inimigos Amigáveis

Como resultado do seu incidente anterior e da proteção obsessiva de Cássel, Inês foi forçada a ficar de cama durante todo o festival da colheita. Somente com a chegada do inverno ela pôde participar de um evento adequado. Ela esperava por este banquete para dar as boas-vindas ao novo Almirante de Calztela. No entanto, ela rapidamente se decepcionou com o local. 

O salão de banquetes estava tão lotado que mal havia espaço para dançar. Poucos casais tentaram valsar, mas apenas se encontraram presos em um abraço desajeitado. Embora o conjunto clássico tocasse uma música melodiosa, os sons de risadas e conversas no salão rapidamente abafaram a melodia, e metade do salão não conseguia ouvir nenhuma música.

Vários centímetros mais baixa do que Inês, Leah Almenara ficou na ponta dos pés e espiou por entre a multidão. 

— Aqueles dois estão prestes a se tornar um, na velocidade com que estão espremidos. — Cobrindo seu rosto insatisfeito com o leque, Inês olhou para onde Leah estava apontando e murmurou: — Desse jeito, nunca vamos chegar a lugar nenhum.

— Perdão? — perguntou Leah.

— Não é nada — respondeu Inês com um sorriso elegante. Então, ela rapidamente escaneou o salão procurando Cássel, mas sem sucesso. Quer estivesse rodeado por outros homens mais feios ou estivesse sozinho como uma estátua grega, ele geralmente brilhava com uma aura distinta e se destacava na multidão. Apenas meia hora atrás, ele tinha entrado no salão de banquetes com ela. A última vez que ela o viu, o Marquês Barca o arrastara em direção aos assentos reservados para oficiais. Desde então, mais oficiais, seus filhos e suas esposas se juntaram à multidão, e o salão só ficou mais lotado.

Inês vinha tentando fazê-lo sair do seu lado e se juntar às outras mulheres. A princípio, ela se preocupou que ele ficasse obsessivamente grudado nela a noite toda, mas ela se livrou dele facilmente do seu lado. Agora, o problema era que ele também estava longe de outras mulheres, o que não estava nem remotamente perto de atingir o seu objetivo original.

Inês sabia que estava obcecada demais com cada movimento de Cássel. Seus olhos ansiosos varriam constantemente o salão em busca de um vislumbre do cabelo loiro, e seus pés começaram a andar pelo salão.

Leah perguntou: 

— Devemos mesmo continuar andando assim? José me disse para esperar aqui. Ele disse que traria o Tenente Escalante...

O ritmo de Inês ficou mais rápido. — Olhe, ali está Lady Salvatore. Precisamos cumprimentá-la. — Ela não queria que José encontrasse Cássel e o trouxesse de volta para o seu lado. Ela só queria Cássel na sua linha de visão, não ao seu lado.

— Mas nós já a cumprimentamos antes. Não precisamos falar com ela de novo...

Inês assentiu sem prestar muita atenção a Leah. Ela até se esticou na ponta dos pés para verificar acima do mar de cabeças balançantes.

— Lady Inês? Lady Salvatore está por ali, espere — nós acabamos de passar por ela! — Leah parecia confusa.

— Está tudo bem. Nós já a cumprimentamos antes. Não precisamos falar com ela de novo. — Inês não ouviu a contradição nas suas próprias palavras. Ela segurou os pulsos de Leah firmemente e abriu caminho pela multidão, sua mente focada em procurar Cássel. Ela não ficava separada dele por tanto tempo. Mesmo nas suas vidas anteriores, o rosto perfeito dele estava sempre em algum lugar à vista.

De repente, ela parou no seu caminho, com Leah a reboque. 

Quem se importa se eu não consigo ver Cássel Escalante? ela se perguntou. Por que eu deveria procurá-lo tão desesperadamente?

Inês concluiu que não estava obcecada pelo seu marido. De jeito nenhum. Ela só queria compensar as oportunidades perdidas no festival da colheita. Era só isso.

É claro que ela não teve a perspicácia de perceber que o seu comportamento se assemelhava ao de uma esposa desconfiada. A única diferença era que sua obsessão se centrava em Cássel não passar tempo com outras mulheres, em vez do oposto usual.


✽ ✽ ✽


Por acaso, Inês escutou dois oficiais falando mal de Cássel pelas costas.

Um oficial zombou: 

— Eles deviam tê-lo feito general quando ele conseguiu o posto. Você não acha?

O outro oficial assentiu. 

— Tenente Escalante, meu... Ele não vai enganar ninguém com esse título. Ele sabe que não pertence a uma patente tão baixa e apenas ridiculariza os outros que também se formaram em El Ledequilla (Academia Naval Imperial e a cidade portuária onde a academia está localizada). Depois de uma missão, ele foi promovido duas patentes. Ele provavelmente se tornaria superior do Capitão Noriega se perdesse um dedo num navio.

— Esqueça o Capitão Noriega; ele praticamente supera todos neste salão.

— Lady Inês? — Leah perguntou pela enésima vez, mas Inês continuou a ignorá-la. — Lady Inês...? José acabou de passar por nós... — Leah parecia confusa por ter deixado o marido passar quando ela o procurava até alguns minutos atrás. — José deve estar à nossa procura. Precisamos chamá-lo de novo...

Inês permaneceu imóvel e levou o dedo indicador aos lábios. Seu aperto no pulso de Leah apertou. Leah parou de conversar e espiou por cima do ombro de Inês.

Um oficial disse, com o tom escorrendo desdém: — Eles deviam ter plantado uma estrela na cara dele desde o nascimento. Capitão Cássel Escalante, o bebê. Na altura em que os outros entram na Academia Naval Imperial em El Ledequilla, ele devia ter sido general.

— Quer dizer que ele devia esperar dezessete anos por uma única promoção? Isso sim, é uma forma de amaldiçoar o seu inimigo. — O outro oficial riu sarcasticamente.

O barulho no salão de banquetes abafou grande parte das vozes dos dois homens, e Inês estava a alguns passos de distância. No entanto, ela estava tão obcecada por tudo o que tinha a ver com Cássel que os seus ouvidos ficaram fixos no nome Escalante, superando as barreiras físicas. Como o bate-papo animado de um grupo que passava obscureceu as vozes fofoqueiras, Inês inclinou-se para ouvir com mais atenção.

— Eu entenderia mais se alguém como o Duque Ihar, que não sabe gerir o seu próprio exército privado, adicionasse o seu nome à lista de participantes da batalha. Todos os outros nobres fazem isso. Eles adoram fingir que tiveram uma participação em qualquer batalha campal — eles sempre fazem.

— Os meus sentimentos exatamente. Eu não me importo que eles tentem reivindicar algum crédito pelas nossas vitórias... O que mais me enfurece é um homem de berço como ele se juntar à Marinha e se estabelecer como um oficial honrado. O sobrinho da Imperatriz fingindo ser um de nós... Olhem para ele. Os músculos dele são só para impressionar as damas. Quem olharia para ele e pensaria que é um verdadeiro homem da Marinha?

Inês estreitou os olhos e observou os dois homens fofocando. O oficial à direita era magro para um oficial, mas alto, e o da esquerda era musculoso, mas mais baixo do que Inês. Os dois formavam um par bastante peculiar, anulando qualquer credibilidade para avaliar o corpo de Cássel.

O oficial baixo continuou a reclamar: 

— Nada faz sentido. Como é que ele conseguiu graduar-se na Academia da Marinha Imperial em três anos, em primeiro lugar? Nas últimas duas décadas, apenas alguns conseguiram isso. Muitos passam de seis a oito anos naquela instituição, e não porque lhes faltem habilidades... Ele treinou menos da metade do que os outros, mas foi elogiado pela sua humildade e dedicação só porque é o herdeiro Escalante. Em seguida, outros o louvam pela sua suposta proeza excecional.

O outro oficial assentiu ansiosamente.

— Mesmo que ele tenha passado nos testes corretamente, não é nada para o aplaudir. Todos os outros também se formam na academia. Mas as mulheres Mendozanas e Calztelanas o elogiam como se ele fosse o único graduado...

— Bem, elas o aplaudem por ter passado pelos aborrecimentos, apesar do seu nascimento nobre.

— Ah, só porque ele teve de suportar os aborrecimentos e as dificuldades pelas quais apenas nós, de origem humilde, precisamos passar?

A atenção feminina. Deve ser isso que desencadeou o ressentimento deles.

Inês seguiu o olhar amargo dos homens. Os seus olhos pousaram em Cássel, sentado ao lado dos generais na mesa central, ao lado do novo Almirante.

Imediatamente, os olhos de Cássel encontraram os dela, mas Inês esqueceu as suas intenções iniciais e desviou o olhar de volta para os oficiais fofocando. Ela planeava observar por quanto tempo eles poderiam ser tão alheios.

— Os Escalantes não fariam grandes esforços pelo seu jovem lorde de qualquer maneira. Mesmo que não movam um dedo, todos os generais da Marinha rastejam de quatro por ele por respeito ao falecido Almirante Calderon. Ele provavelmente nunca se esforçou em El Ledequilla, também.

— A reputação da família dele não significa nada. Tudo o que ele sabe é seduzir mulheres. Ele está fadado a desgraçar o nome do seu falecido avô... Eu aposto que ele só se alistou para ver quantas mulheres ele conseguiria seduzir com aquele uniforme.

O oficial mais alto esticou o queixo, apontando para Cássel. 

— Olhe só para ele sorrindo ali.

— Não é ridículo como ele finge obedecer a generais com patente social inferior à dele? Que insincero. Se eu fosse um deles, eu o ignoraria. Mas aqueles velhos estão felizes por conseguir uma conexão em Mendoza.

— Todos eles fingem ser gentis com ele por causa do status social, mesmo que ele seja apenas um tenente. Ele devia perceber que apenas as mulheres se importam com o rosto bonito dele, mas os outros homens não podiam se importar menos...

— Ele não percebe que o sorriso dele apenas agrava e irrita os outros homens. Bem, ele provavelmente não tem a mínima ideia de nada. Ele sempre foi privilegiado, então não sabe de nada. É um sem noção.

— Escalante devia ter tido mais bom senso do que se alistar na Marinha. Ele é um verme inútil, e tudo o que ele tem é o seu prestigiado historico familiar...

Pessoas que vivem sob os olhos do público sempre se tornam o assunto de conversas unilaterais. Assim como Inês Valeztena de Perez era amplamente discutida, o mesmo acontecia com Cássel Escalante de Esposa.

Inês pôde perceber instantaneamente que as fofocas deles nasciam da inveja. Homens mesquinhos como estes gostavam de negar quaisquer feitos antes de testemunhá-los por conta própria. Assim, Inês devia ter se afastado do disparate, como ela normalmente faz. Mas ela não conseguia se afastar daqueles homens nojentos por algum motivo. 

— Durante toda a vida, ele viverá à sombra do avô. Mesmo depois de receber uma medalha pela sua falsa contribuição para a missão de eliminação da pirataria em Tala, ele ainda foi estacionado na logística. O que mais...

Quando os seus olhos encontraram os de Inês, o oficial com a testa brilhante parou de tagarelar a meio da frase. Ele parecia estar paralisado, com a boca ainda aberta. Inês voltou a sua atenção para o outro oficial, ainda falando sem parar sobre Cássel.

Os dois oficiais falavam em volume normal e estavam a alguma distância de Inês e Leah.

Os ouvidos de Leah não conseguiam ouvir o que Inês ouvia, então ela rapidamente perdeu o interesse nos dois homens e agora estava a procurar José Almenara novamente. Inês ignorou Leah conversando com ela e estudou os dois homens de cima a baixo. 

O segundo oficial finalmente viu Inês e tentou lentamente perceber por que o seu companheiro parecia tão maravilhado. Mas o segundo oficial não parecia pensar que Inês podia ouvir a conversa deles ou sequer reconhecer Inês e a sua relação com o assunto da sua fofoca amarga. Em vez disso, ele quase corou com a atenção dela antes que o seu companheiro lhe desse um pontapé nas canelas para o fazer voltar a si.

Os dois homens sussurravam um para o outro, à vista de Inês. Após um breve momento de culpa, eles voltaram a parecer calmos e confiantes. 

Mesmo quando ambos finalmente reconheceram Inês, eles ainda se mantinham eretos, sem vergonha de estarem espalhando falsos rumores. Por um momento, Inês sentiu-se tentada a agir como o seu eu formal e envergonhar os oficiais mesquinhos na frente de todo o salão de banquetes. Como os Mendozanos eram conhecidos por fazer, ela poderia publicamente apontar as suas muitas falhas sob o pretexto de cumprimentos educados. Se o fizesse, sentiria uma satisfação momentânea, mas estes homens podiam ser demasiado obtusos para entender a sua crítica velada. 

Eles provavelmente são demasiado estúpidos para entender, de qualquer maneira.

As várias possibilidades surgiram na sua cabeça, mas a maioria dos métodos de vingança era demasiado sofisticada para aqueles homens ignorantes ou demasiado baixa para ela se envolver.

Na verdade, o seu olhar frio foi suficiente para impressionar os dois homens. Mas Inês queria fazer muito mais do que fazê-los sentir-se ansiosos; em vez disso, ela queria eliminá-los. Ela não sabia ou não se importava porque as fofocas deles a incomodavam tanto. Ela apenas se sentiu péssima. Inês ardia de vingança pela Duquesa Escalante, que ela mal conhecia. A mãe dele colocou tanto esforço em criar o seu filho, apenas para estes homens mesquinhos desonrarem o seu nome. Assim, ela instintivamente procurou um informante ansioso na multidão próxima. 

O Primeiro Tenente Vervik, o infame libertino de Calztela, passou, e ela agarrou a oportunidade.

Vervik sorriu amplamente. 

— Lady Inês Escalante? — O seu sorriso brilhante não revelava nada da sujeira na sua alma.

Inês sorriu de volta para ele. Infelizmente, ela não tinha ideia de que o olhar mortal de Cássel estava queimando a sua bochecha. — Que surpresa agradável! Eu nunca esperei que o senhor me cumprimentasse primeiro.

Um brilho lascivo cintilou nos belos olhos cinzentos de Vervik.

Apenas algumas palavras da boca dele foram suficientes para enojar Inês. Mas ela escondeu a sua repulsa atrás de um sorriso mais brilhante. 

— Primeiro Tenente Vervik. — Ela também manteve qualquer escárnio fora do seu tom, apesar de pensar: como um libertino desprezível como ele se atreve a lançar olhares para mim.

Embora os planos óbvios de Vervik para iniciar as suas jogadas fizessem Inês rir sarcasticamente, ela também sabia que um tolo iludido como ele era o mais fácil de usar para seus próprios ganhos. Tais homens consideravam-se mentores e nunca imaginavam uma mulher a usá-los.

Vervik arrastou as palavras: — A senhora está tão linda como sempre.

— Espero não incomodá-lo quando está ocupado — disse Inês.

— De modo algum. Eu estava bocejando quando a senhora me resgatou do tédio.

É claro que ele estava mentindo. Inês acabara de o ver apressar-se para algum lugar com tanta pressa que ele nem sequer se incomodou em falar com ela até que o cumprimentou primeiro.

Inês baixou os olhos. 

— Como o senhor sabe, eu não estou familiarizada com ocasiões como esta. O meu marido está ocupado falando com os seus colegas oficiais, então eu procurei um rosto familiar na multidão.

— Não importa o quão urgente seja o assunto, pode-se sempre arranjar tempo para Inês Escalante.

Inês zombou em silêncio. 

Sem dúvida, ele recusaria de bom grado todos os negócios do mundo para se atirar em cima de mim. Ela expressou em voz alta: — Primeiro Tenente, o senhor é sempre tão gentil. Não é de admirar que seja tão popular entre as damas.

Quando Vervik se inclinou ligeiramente, ela recuou e manteve a sua distância dele. Ele notou o gesto sutil, e os olhos dele curvaram-se.

Inês sorriu de volta. 

— O senhor sempre sabe como respeitar as damas e nos deixar confortáveis. — Em outras palavras, ela tinha acabado de lhe ordenar para ficar longe e garantir o seu conforto.

Em vez de sentir o seu orgulho ferido, Vervik pareceu honrado com o seu comando, formulado como um pedido gentil. Ele levou as pontas dos dedos dela aos lábios e beijou o dorso da mão dela. — Mesmo assim, nem toda lady é igual. Por exemplo, algumas ladies são excecionais, como a Senhora.

— O senhor já está abrindo uma exceção para mim? — ela perguntou.

— Eu gostaria de dizer que sou o único, mas tenho certeza de que qualquer homem nesta sala ficaria feliz em estar ao seu serviço.

— Mas eu não sou assim tão popular entre os homens.

— A senhora quer dizer que eles não ousam abordá-la por respeito. Os oficiais da marinha entendem a sua posição na vida.

— Isso não pode ser verdade — respondeu Inês. Por exemplo, você não conhece o seu lugar na vida e mal me respeita, pensou ela.

— É claro que eles não esqueceriam quem a senhora é ou quem é o seu marido — acrescentou Vervik.

— Ah, entendo.

— Independentemente disso, todo homem, incluindo eu, ainda se atiraria à chance de passar um tempo consigo.

Verdadeiramente, Vervik tinha poucos padrões ou honra. Cada palavra que saía da boca dele soava cafona e revoltante. Geralmente, Inês sentiria o estômago revolver-se ao ouvir a sua bajulação nauseante, mas ela estava demasiado distraída hoje e apenas assentiu.

Quando ela abriu a boca para ir direto ao ponto, Vervik interrompeu.

— Ah, eu devia corrigir-me — todo homem, exceto o seu marido, que parece preocupado com outros assuntos.

O novo almirante era a figura mais importante, sem questionamento, num banquete para celebrar a sua nomeação. Inês esqueceu a sua pretensão por um momento e olhou para ele, confusa com o seu comentário maldoso mal colocado.

Mas Vervik permaneceu imperturbável. — Se eu fosse o seu homem, eu nunca esqueceria onde reside a minha primeira prioridade.

Inês respondeu friamente: — O meu marido parece saber exatamente onde a sua primeira prioridade deve residir.

— Algumas coisas são mais importantes para um homem do que uma promoção.

Como os dois oficiais invejosos disseram anteriormente, Cássel Escalante nunca teve que procurar promoção. Embora ele possa ser o único tenente na mesa, ele acabaria por reinar sobre todos os generais e até mesmo o almirante com o tempo. O falecido avô de Cássel era conhecido como Almirante Calderon em vez de falecido Duque Escalante, não porque o seu título ducal fosse menos significativo do que a sua patente naval. Em vez disso, era porque ele escolheu a sua vida como um grande homem de guerra em vez de uma vida como nobreza, e as suas conquistas individuais ofuscaram o seu nome de família. Cássel Escalante prestava atenção ao almirante e a outros oficiais comandantes porque ele era um homem diligente e um oficial cumpridor do dever, assim como o seu falecido avô.

Bajulação só importa para terceiros filhos como ele. Lá vai ele, como se ele sequer tivesse tido escolha de estar sentado naquela mesa. Que imbecil... Inês tentou arduamente controlar as suas feições novamente. 

— Vamos falar sobre outra coisa que não o meu marido ausente. Falando em promoção, estou curiosa sobre eles.

Vervik inclinou a cabeça para o lado.

— Quero dizer aqueles dois cavalheiros ali. — Ela fez um gesto para os dois oficiais fofoqueiros. Vervik ainda parecia perdido. Infelizmente, o salão estava lotado, e os dois homens eram totalmente comuns. Suspirando interiormente, ela acrescentou: 

— O senhor vê o par ali, um notoriamente baixo e o outro notoriamente magricela?

— Ah, eu os vejo. — Ele finalmente assentiu.

— O senhor saberia os nomes deles? Ou os seus cargos?

— Eu não me lembro onde eles estão estacionados... Mas eu sei os nomes deles. Primeiro Tenente Herso e Primeiro Tenente Domingo — eles são três anos mais velhos do que eu. Por que a senhora pergunta...?

— Era tudo o que eu precisava saber — ela respondeu, ignorando taticamente a sua pergunta. — Então, de qual coorte o senhor faz parte?

— 176ª coorte da Marinha Imperial...

— Então, eles devem fazer parte da 173ª coorte.

Vervik perguntou cautelosamente:

— Eles ofenderam a senhora de alguma forma? — Se ela assentisse, ele parecia pronto para atirar as luvas na cara deles por ela.

Inês pensou se devia cortá-lo agora, antes que ele começasse a ter mais ideias, mas ela não podia recusar a chance de obter as suas respostas de forma tão conveniente. Fingindo estar chateada, ela beliscou a manga dele para pará-lo. — O senhor não precisa se envolver. Este é um assunto que só diz respeito aos Escalante.

— Mesmo que Cássel Escalante devesse ser o único a duelar por sua causa, qualquer verdadeiro cavalheiro se apresentaria para abordar ameaças a uma lady.

Com os Escalante, ela estava apenas a referir-se a si mesma, Inês Escalante, mas ela deixou Vervik interpretar como ele quisesse. Ela observou o seu corpo bem construído e perguntou-se o que mais ameaçaria o bem-estar das damas em todo o mundo do que o próprio homem à sua frente. De acordo com a inteligência de Ballan, Vervik não tinha competição na Marinha pelos inúmeros escândalos sexuais em que se tinha envolvido.

Inês abanou a cabeça. — Está tudo bem. Eles só parecem muito ambiciosos e ansiosos por serem promovidos...

— Parece? — Vervik levantou uma sobrancelha.

Agora, os dois homens estavam mais longe. O oficial magricela espreitou-a, depois encolheu-se quando ela apanhou o seu olhar furtivo.

Ela sorriu e continuou: — Eu não pretendia ouvir, mas eu não posso deixar este assunto passar como esposa de um oficial.

— O que a senhora ouviu...? — Vervik perguntou.

— O Primeiro Tenente Herso e o Primeiro Tenente Domingo mencionaram alguns comentários blasfemos sobre o novo almirante. Eu queria informar o Comandante Barca, mas não sabia os nomes deles. Então, eu estava a procurar alguém em quem eu pudesse confiar, então...

— Então, a senhora me encontrou — ele disse com um sorriso orgulhoso.

— Não só eles insultaram o almirante, mas também insultaram quase todos os oficiais comandantes na sala, espalhando falsos rumores e zombando abertamente dos seus superiores. Eu me preocupo que a insubordinação deles acabe por levar a um motim nas tropas...

Inês sabia a arte do exagero tão bem quanto eles. Ela também gostava de se vingar desproporcionalmente à ofensa. E, é claro, ela nunca planeou contar ao Comandante Barca pessoalmente.

Ela acrescentou: — Afinal, eles estão atualmente armados e os oficiais comandantes estão vulneráveis a ataques. Eu não sei muito sobre regulamentos da marinha, mas a minha frágil constituição naturalmente me leva a preocupar-me com os cenários mais assustadores...

— De fato, uma lady frágil como a senhora pode sentir isso. — Vervik olhou para ela com preocupação.

Inês conseguiu assentir solenemente.

— Em Calztela, mesmo as mais leves inclinações são punidas com várias repercussões. Não se sobrecarregue com preocupação. Eu reportarei isto aos meus oficiais comandantes — ele disse.

Ele era obrigado pela lei marcial a reportar quaisquer sinais de insubordinação, mas agiu como se estivesse a fazer-lhe um favor.

Tendo alcançado a sua missão, Inês sorriu inocentemente. Finalmente, ela o tinha convencido a ajudar Cássel, apesar do ciúme dele.

Vervik desapareceu para encontrar uma autoridade superior para denunciar os oficiais que falaram mal pelas costas de Cássel. Enquanto isso, sentindo um pressentimento, Herso e Domingo esgueiraram-se para o canto mais distante do salão de banquetes.

Inês tinha terminado de armar a sua armadilha, então o seu interesse por Herso e Domingo diminuiu drasticamente. Agora, ela mal conseguia lembrar-se dos rostos deles. Ela varreu o salão e encontrou um grupo de mulheres num local perfeito, mas foi parada por um grupo de jovens oficiais.

— Minha lady, por favor, desculpe a nossa intrusão. O meu colega aqui queria falar com a senhora desde que a viu na grande capela — disse um oficial.

Inês procurou o oficial em questão.

Um homem de cabelo preto deu um passo à frente. — Minha lady, eu sou o Subtenente José Iglesias. Eu tenho o seu marido no mais profundo respeito...

Mais um José.

Ele era quase uma cabeça mais alto do que os seus pares quando levantou a cabeça. A sua pele bronzeada, músculos esguios, rosto bonito e olhos penetrantes davam a impressão de um predador equilibrado, mas as pontas das suas orelhas estavam vermelhas. A sua mão tremeu enquanto segurava a dela para plantar um beijo educado no dorso.

Inês não conseguia entender por que ele coraria tanto na frente dela. Ela também se sentiu divertida que um homem inexperiente como ele tivesse a ousadia de sonhar com um caso com uma mulher casada. Calztela era de fato uma cidade bizarra.

— Eu não conseguia parar de pensar na visão sagrada da senhora no seu véu na missa... — ele gaguejou.

Que curioso, pensou Inês. Ele mal conseguia encontrá-la nos olhos, mas não tinha vergonha de proferir tal comentário constrangedor. Ela achou os seus avanços desajeitados bastante refrescantes em comparação com o flerte descarado dos homens Mendozanos. Ela mal suportava Vervik, mas achou José divertido, pelo menos.

— Eu esperei por uma chance de ver o seu rosto no festival da colheita, mas a senhora nunca apareceu... E eu também não a vi na missa. Então, preocupei-me se algo tinha acontecido com a senhora...

— Ah, eu estava um pouco indisposta. Estou perfeitamente bem agora, como pode ver — ela respondeu.

— Estou feliz que a senhora tenha recuperado as suas forças. Por favor, perdoe a minha intrusão no seu valioso tempo... Eu simplesmente queria estender os meus cumprimentos e melhores votos à senhora pessoalmente.

— Obrigada. Eu nem sequer sabia o seu nome, no entanto, o senhor tinha votos tão gentis para mim.

Quando Inês sorriu, José desviou o olhar apressadamente com a honra imerecida de encontrar os olhos dela.

À primeira vista, ele parecia um libertino, mas na verdade, ele era tão inocente. O seu desajeito lembrou Inês de alguém. A pontada breve no seu coração dissipou-se rapidamente, enquanto os outros oficiais se apressavam em direção a ela para expressar os seus sinceros votos de bem-estar e beijar a sua mão. Mesmo na sua primeira vida, ela nunca tinha experimentado este tipo de atenção.

As palavras de Vervik ecoaram nos ouvidos de Inês: 

“Eles não ousam abordá-la por respeito. Os oficiais da marinha geralmente têm uma compreensão justa da sua posição na vida. É claro que eles não esqueceriam quem a senhora é ou quem é o seu marido. Independentemente disso, todo homem, incluindo eu, ainda se atiraria à chance de passar um tempo contigo.”

Até agora, ele estava na maior parte certo. Inês percebeu o impacto da sua conversa anterior com Vervik. Ela viu relances de outros rostos, ansiosamente à espera das suas vezes para falar com ela.

Para estes homens, ela falar com o licencioso Vervik sinalizou uma nova oportunidade. A aparência perfeita de Cássel e o peso dos nomes Valeztena e Escalante tinham afastado estes homens até agora, mas agora a barragem tinha rompido. Inês não se importou, já que tudo o que eles faziam era ficar animados com a oportunidade de beijar a sua mão.

Pelo resto do dia, Inês ouviu mais elogios sobre a sua beleza do que tinha ouvido no dia do seu casamento. Alguns até declararam a sua beleza como divina. Após tantos beijos, ela olhou para a sua mão e sentiu-se duvidosa sobre a higiene da sua luva. Ela sentiu que tinha se tornado uma líder de alguma religião estranha, adorada como uma mensageira divina. O caso todo foi desconcertante; ela conheceu mais de trinta oficiais, incluindo quatro Josés, três Juans e dois Fernandos. Além de José Iglesias, ela não conseguia lembrar-se do nome de mais ninguém. 

Inês tentou em vão escapar da crescente multidão de oficiais ao seu redor e começou a procurar Cássel novamente. Ela o avistou numa conversa com o Capitão Noriega e sua neta, Maria Noriega.

Finalmente, ela o encontrou passando tempo com outra mulher. Embora ela tivesse sonhado com este momento por tanto tempo, ela não estava exatamente encantada com a visão. Ela ressentiu o momento inoportuno. Se ele tivesse flertado com outras mulheres antes, ela teria sido mais feliz. Em vez de Cássel, os seus olhos encontraram os de Maria.

Inês chamou: 

— Subtenente Iglesias. — Os olhos de José acenderam-se com esperança. Ele não tinha ideia de que ela o tinha escolhido apenas porque o seu nome era a única coisa que ela lembrava com certeza.

— Embora eu deva agradecer a todos pelo vosso caloroso acolhimento, estou ficando cansada.

— Minha lady, por favor, perdoe os meus colegas por mantê-la... Devo acompanhá-la até a sua carruagem? Ou a seu marido? — ofereceu José.

— O meu marido parece ocupado... Eu gostaria de ir para o terraço e apanhar um pouco de ar.

— O seu desejo é a minha ordem. — É claro que Inês nunca tinha realmente ordenado a José que a levasse ao terraço, mas ela deixou-o acompanhá-la. Tudo o que Inês queria era que José mantivesse os outros aborrecimentos longe dela, mas José seguiu-a para o terraço e colocou o seu casaco sobre os ombros dela, preocupado com o fato de ela poder apanhar um resfriado no ar frio da noite.

A princípio, José Iglesias lembrou-a de Emiliano, mas agora ele a fez pensar em Cássel. Era estranho porque a sua aparência física não tinha nenhuma semelhança com nenhum dos homens.

Os seus olhos de cachorrinho pareciam lamentáveis, como os de Cássel outrora. Então, ela manteve o casaco dele nos ombros, embora fosse pesado. Então, José sorriu, o que a lembrou de Cássel novamente. Inês franziu a testa, percebendo com que frequência ela pensava em Cássel.

Usando esta chance para descobrir mais informações, ela perguntou: 

— O senhor disse que respeita o meu marido, certo?

— Sim, eu o tenho na mais alta consideração. Eu treinei com ele brevemente na Academia Naval Imperial, e todos em El Ledequilla o admiravam. Assim que ele recebeu o seu posto, ele foi reconhecido pelas suas contribuições na sua primeira batalha, ganhando cinco medalhas e uma promoção dupla... — Os olhos de José brilhavam de orgulho, provando o seu respeito genuíno por Cássel.

Inês ficou surpresa com o louvor fervoroso. — Eu ouvi dizer que ele se graduou excecionalmente cedo.

José assentiu. 

— Sim, ele se graduou em três anos, mas todos disseram que ele só precisaria de dois. O seu terceiro ano parecia supérfluo para a maioria.

— Alguns parecem acreditar que ele recebeu favores injustos das autoridades.

— Favores injustos?! — O rosto de José caiu primeiro em choque com a acusação e depois franzindo a testa. — Eu sei que alguns espalham tais rumores. Eles têm inveja do herdeiro do Almirante Calderon.

— Com toda a honestidade, eu não entendo muito sobre a Marinha, nem mesmo assuntos que dizem respeito ao meu marido. Mas por acaso me deparei com alguns rumores desagradáveis hoje...

— Ouvir isso deve tê-la perturbado muito.

Inês concordou em silêncio. Embora ela não soubesse o motivo, ela estava profundamente irritada.

— Eu aposto que o seu marido não se importa, mas eu imagino que a senhora deve ter ficado chocada ao ouvir tais coisas sobre ele...

— Quero dizer, eu não iria tão longe a ponto de dizer choque, mas...

José continuou: 

— Eu não consigo imaginar o imenso choque... Mas tais homens são poucos e raros. Muitos louvam o Tenente Escalante pelas suas conquistas, incluindo a sua graduação antecipada e a derrota dos piratas Talanos. Vários homens devem as suas vidas a ele, e incontáveis piratas devem as suas mortes a ele. Ele é tão dedicado à sua causa...

De fato, era evidente que o respeito de José era profundo. Agora, Inês não conseguia imaginar por que José tentaria fazer as suas jogadas nela. 

Por quê? Porque eu sou a esposa do seu modelo?

— Apesar das suas conquistas, ele acabou estacionado no departamento atual porque desobedeceu a uma ordem irracional durante uma missão tática... Todos criticaram esta decisão.

— Mas a sua promoção dupla não reconheceu as suas conquistas ao mesmo tempo?

José assentiu. — Sim. No entanto, a mudança ainda equivale a uma despromoção em afiliação.

— Ah, entendo.

— O nome Escalante é sagrado nas nossas tropas, então muitos acreditam que ele não devia ser tratado assim, independentemente dos seus feitos. Rebaixá-lo é uma blasfêmia para o Almirante Calderon.

Inês quase riu da comparação com a blasfêmia religiosa. — Então, o senhor considera o meu marido o filho do filho de Deus.

— A senhora não está errada.

— Então, como puderam tratar o desta forma?

— Porque ele é o filho do filho de Deus. Ele é tão magnífico quanto o neto de Calderon devia ser, o que deve ser a coisa mais dececionante de todas para os caluniadores.

Inês levantou uma sobrancelha. — Dececionante?

Os olhos de José não pareciam mais ingénuos ou tímidos, mas brilhavam com determinação e convicção. 

— Os grandes homens cujos nomes estão registados na história frequentemente têm filhos dececionantes. Se se esperava um filho assim, o Tenente Escalante dececionaria as expectativas.

— O senhor quer dizer que Cássel não teria sido criticado se ele fosse realmente inútil?

— Exatamente. Na Marinha, qualquer um pode ver as verdadeiras capacidades de alguém. Nem mesmo os títulos podem superar as limitações pessoais. O seu marido é uma ameaça para todos os que sofrem de limitações tanto no seu status social quanto nas suas habilidades individuais. Por isso, ele deve sempre ter cuidado com os inimigos amigáveis.

As palavras de José soaram sinistras nos ouvidos de Inês. 

Isto parece estranho e desconfortável... Inês ponderou por um momento e soltou: — O senhor gosta do meu marido, por acaso?

— Perdão?

— Espero que o senhor não se ofenda. Eu sei que o meu marido parece perfeito para qualquer um, e os homens podem naturalmente desenvolver algumas tendências homossexuais...

— O quê? — Outra voz interrompeu Inês. Ela virou-se e piscou para Cássel, fumegando enquanto ele entrava no terraço. 

Que situação delicada, de fato.


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