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Capítulo 69 — Memórias Sombrias

 Inês estava aprisionada no palácio de verão do sul, separado do palácio principal por um vasto jardim. Para chegar ao palácio de verão, era preciso cavalgar ou pegar uma carruagem da corte principal. Embora a arquitetura do palácio apresentasse uma fachada de harmonia à distância, cada edifício dentro do complexo do palácio de verão fora construído individualmente para propósitos distintos, muitas vezes extravagantes e desnecessários, evidentes em suas aparências luxuosas.

Monarcas anteriores haviam usado várias desculpas para essas construções — uma instalação recreativa para um príncipe herdeiro particularmente frágil, completa com um labirinto para seu entretenimento; uma vila rústica para satisfazer os desejos românticos de um imperador apaixonado, sua amante e seu filho ilegítimo; uma tentativa de uma imperatriz de entender as dificuldades dos plebeus através de uma extensa fazenda e uma cabana irrealisticamente grande. Estruturas adicionais incluíam uma estufa enorme comemorando o casamento do falecido imperador e uma capela secreta.

Apesar dos propósitos variados por trás do palácio de verão, cada monarca havia escolhido este local por uma razão crucial: isolar essas estruturas do resto do mundo.

Dentro dos enormes muros do palácio, tudo se concentrava ao redor da corte imperial. A leste e oeste ficavam os edifícios administrativos e a Corte de Justiça, onde os burocratas realizavam suas tarefas. Ao norte, um palácio de verão de trezentos anos entretinha delegações estrangeiras. O palácio principal e suas três áreas adjacentes sempre fervilhavam de atividade, mas a seção sul parecia um mundo inteiramente diferente. Parecia que o primeiro existia para grande exibição, enquanto o último era destinado à privacidade.

Do palácio de verão do sul, o palácio principal pairava à distância. Em vez de uma muralha fortificada, os palácios de verão do sul faziam fronteira com uma floresta, distante dos conflitos da vida cotidiana. Inês refletiu que quem quer que tenha projetado este palácio de verão devia ter buscado o luxo da reclusão.

De fato, este quarto específico em que ela estava confinada não foi projetado para encarceramento. Janelas voltadas para leste e oeste banhavam o espaço de luz solar o dia todo, e um terraço espaçoso oferecia vistas do jardim. Claramente, o príncipe herdeiro havia escolhido este quarto por sua afeição por sua esposa.

Notícias circulavam sobre como Oscar implorou à corte imperial para que Inês tivesse algum descanso após o recente aborto espontâneo, e a corte havia alocado um palácio de verão inteiro para a recuperação de Inês. Alguns elogiavam o príncipe herdeiro por sua misericórdia e dedicação à princesa herdeira, apesar de suas repetidas falhas em produzir um herdeiro, enquanto outros o criticavam por deixar suas emoções por Inês atrapalharem o cumprimento de seu dever.

Certo. Ninguém imaginaria que este prédio era minha prisão, pensou Inês cinicamente, apagando a vela com os dedos.

Afeição... Misericórdia... Pura repulsa surgiu dentro dela, e ela mal podia suportar dizer essas palavras em voz alta.

A noite começou a lançar suas sombras. A cera da vela deixou uma queimadura sutil em seus dedos, mas ela sacudiu os restos como se a dor mal registrasse. Até mesmo a sensação de ardor parecia pertencer a outra pessoa.

Em seus sonhos recorrentes, Inês sentia cada sensação vividamente. Ela não observava os eventos se desenrolando em seus sonhos como um espírito destacado ocupando o corpo da princesa herdeira; ela experienciava plenamente cada dor, desespero e alegria que a dona do corpo sentia. Essas sensações eram tão claras que ela mal conseguia manter sua sanidade durante suas horas de vigília.

A única razão pela qual ela não conseguia sentir a queimadura agora era que a dona do corpo havia se tornado insensível à dor.

Inês Valeztena Ortega de Perez.

Outrora portadora desse nome, Inês pensava que seu comprimento e dignidade meramente refletiam sua família atual e origem regional. Semelhante a uma etiqueta de nome em um objeto designando seu proprietário, seu nome revelava sua associação com a estimada família Valeztena no Império Ortega e sua cidade natal de Perez. Essencialmente, servia como um indicador de quem a possuíra antes e quem a possuía agora — assim como as pessoas a reconheciam como Inês Escalante de Perez em sua vida atual.

No entanto, reputação e nome tinham significado tanto para homens quanto para mulheres. Portanto, o nome desnecessariamente longo de Inês sempre angariava boas-vindas e adoração onde quer que ela fosse.

Na sociedade de Ortega, semelhante a muitas outras nações, as mulheres perdiam seus nomes de solteira após o casamento, independentemente de sua posição social. No entanto, as filhas dos Grandes de Ortega, as prestigiosas dezessete famílias que reinavam sobre o império, tinham permissão para indicar sua propriedade ancestral em seus nomes. 

Esse privilégio, embora não oficial, tinha um peso particular. 

Apenas as filhas dos cinco duques, os mais eminentes entre os dezessete, recebiam o direito excepcional de incluir a propriedade da família em seus nomes oficiais. Mesmo após o casamento, essas mulheres tinham a liberdade de afirmar sua conexão com sua família de solteira e terra de nascimento. Assim, o registro de sua linhagem de solteira no nome era um símbolo do mais alto pedigree, uma distinção reservada a uma elite seleta, mesmo entre os Grandes de Ortega. Também servia como um marcador da natureza estimada das famílias de seus maridos.

Quanto a Inês, ambos os nomes de sua família carregavam o peso da herança imperial. O nome de família Ortega, pertencente ao imperador, era exclusivamente concedido às mulheres do palácio, e apenas descendentes diretos do imperador tinham o privilégio de anexar a nação, Ortega, ao seu nome. 

Essa honra rara se estendia unicamente à esposa do imperador e suas filhas. No caso de Inês, seu nome representava a união entre o palácio e os Valeztenas, bem como a união entre Inês e Oscar. Seu nome provava seu status como a mulher mais preciosa da nação.

Além de Inês, apenas uma outra mulher carregava o profundo significado de Ortega em seu nome e sua linhagem de solteira: Cayetana Escalante Ortega de Esposa, a imperatriz e filha do falecido Duque Escalante.

Inês se lembrou do nome completo da Imperatriz Cayetana. Não lhe passava pela cabeça há anos, até agora.

Era uma vez, ela se iludiu acreditando que seu nome carregava o mesmo peso que o da mãe de Oscar. Em sua ingenuidade, ela também pensara que seu corpo era precioso e digno, até mesmo se considerando a mestra de sua própria forma. Naqueles dias, ela orgulhosamente carregava o nome Inês de Perez.

Então, a recordação dos anos passados inundou de volta — todos aqueles anos durante os quais ela fora tratada como nada mais que um objeto. As coisas não eram tão ruins quando ela recebeu pela primeira vez seu nome de família, Valeztena. Talvez, naqueles primeiros momentos, ela pudesse ter tido alguma aparência de controle sobre si mesma, ou pelo menos ela se iludiu pensando assim.

Mas foi essa realmente uma existência miserável? Ninguém se daria ao trabalho de nomear ou reivindicar a propriedade de algo sem valor. Se sua única outra opção era ser um objeto, ela preferia ser um objeto útil a ser rotulada de inútil, indesejada e abandonada.

Sentindo o ar frio roçar seus lábios, Inês soltou uma risada oca.

Valor... Utilidade...

A essa altura de sua primeira vida, ela era a vergonha da família Valeztena. Nem os Valeztenas nem os Ortega desejavam dar a ela seus nomes. Não importava o quanto Oscar tivesse contribuído para os abortos espontâneos, Inês permanecia uma princesa herdeira inútil, incapaz de produzir um herdeiro. Uma égua supervalorizada. A Imperatriz Cayetana frequentemente zombava do Duque Valeztena, acusando-o de enganar seu filho.

— Você nós passou está garota como se fosse uma mulher de verdade, mesmo ela não podendo ter um filho? — ela provocava.

Portanto, Inês considerava este casamento um erro lamentável que precisava ser anulado. Se ela fosse uma plebeia, o divórcio teria sido uma opção, mas dentro dos confins do palácio, a anulação era o único recurso. Inês Valeztena-Ortega deveria ter vivido o resto de sua vida em um convento, arrependendo-se pelo pecado de desperdiçar o tempo do príncipe herdeiro e rezando por um herdeiro de outra mulher.

— Você não tem o direito de empunhar seu título para controlar o palácio quando não pode nem produzir um herdeiro vivo — a Imperatriz Cayetana a repreendera uma vez. — Quão desavergonhado é se exibir e tentar influenciar as tendências entre as mulheres. Você deveria ser mais modesta. Você precisa buscar a atenção dos homens tão descaradamente? Que bestial.

Torcendo os lábios em um sorriso zombeteiro com a lembrança, Inês refletiu ironicamente: Ela não estava errada; eu era, em essência, a cortesã de Oscar.

— Nem a própria mãe dele pode competir com sua conversa de travesseiro. Embora seu útero não possa gerar um filho, você deve ter alguns truques na manga no quarto para Oscar ainda se apegar a você.

Inês queria retrucar: Seu filho é tão obcecado por seus desejos que eu nem preciso fazer esforço. Tudo o que tenho é minha aparência elegante, mas não sou melhor que uma cortesã. Ainda sim, devo ser a esposa mais satisfatória para aquele devasso.

Mesmo assim, a Imperatriz Cayetana exigia:

— Encontre uma maneira de persuadir Oscar do contrário.

Infelizmente, Inês vinha tentando fazer isso em vão. Ela o golpeava e chutava, mas nada funcionava. A imperatriz nunca poderia imaginar o quão desesperadamente Inês desejava que Oscar a descartasse, ou como ela rezava para que ele pelo menos arranjasse para si uma cortesã cara e pura.

A Imperatriz Cayetana às vezes se preocupava com o temperamento ciumento de Inês, mas ela nada sabia sobre o verdadeiro caráter de seu filho. Seu rosto benigno não revelava nada de suas perversões ocultas. No entanto, quando Oscar percebeu que Inês estava a par de seus segredos, ele abandonou todas as pretensões. Ele dormia com meretrizes de baixo valor. Ele voltava para casa depois de uma orgia no distrito da luz vermelha e levava o mesmo órgão que havia entrado em um prostituto direto para sua esposa grávida. Às vezes, Oscar intencionalmente não se limpava após intimidades anteriores, forçando Inês a atendê-lo com a boca. 

A excitação e satisfação dele dependiam mais do desespero e da destruição de Inês do que de qualquer toque físico.

Oprimida por memórias repugnantes, Inês se dobrou sobre o terraço. Era desconcertante para ela como pudera ter esquecido essa sensação nauseante. O chão abaixo ficou borrado diante de seu olhar instável. À medida que as memórias ficavam mais claras, ela sentiu que logo saltaria do terraço.

Ela só havia expressado sua raiva através da violência contra Oscar até agora. Então, ele provavelmente permanecia alheio à possibilidade de ela tentar escapar ou acabar com sua vida saltando de um terraço de três andares como alguma ingênua sem noção. Afinal, ele sempre tivera sua inteligência em alta conta. Lamentavelmente, a essa altura de seu passado, ela mal conseguia reunir pensamentos inteligentes.

Impassível e composta, ela não tremeu de medo como da primeira vez. Calmamente, ela perscrutou o chão, endireitou as costas, então escalou o parapeito, ficando com os calcanhares na borda.

Ela não perdeu uma batida do coração.

Envolta pelo silêncio da noite, ela se jogou no chão. A grama que cobria os jardins não era tão macia quanto parecia; o farfalhar que acompanhou sua aterrissagem foi inesperadamente alto, deixando-a mais surpresa do que com dor.

Da primeira vez, ela deveria estar mais distraída pelo som sinistro ecoando em sua mente — um estalo desconcertante de seu tornozelo esquerdo, desabando sob ela com o impacto súbito. Mas desta vez, Inês sabia qual tornozelo iria quebrar. Ela se concentrou no silêncio ao seu redor em vez da dor surda que percorria sua perna.

Isso era apenas um sonho, e saber o que aconteceria não oferecia alívio do inevitável. 

Ela conseguiu se levantar e começou a andar mancando um pouco, um arrepio percorrendo sua espinha enquanto o orvalho umedecia seus pés descalços a cada passo cambaleante. A grama estava ligeiramente úmida pela névoa que havia se instalado.

Que tola eu fui, ela pensou desapaixonadamente, então voltou sua atenção para o olhar nervosamente errante de seu eu do sonho. Surtos intermitentes de dor aguda em seu tornozelo disparavam através de seus sentidos entorpecidos. Mas Inês Valeztena, a dona deste corpo, parecia determinada a escapar deste lugar horrível.

Em retrospecto, a ideia de mancar de volta ao palácio principal com um tornozelo fraturado era pura loucura. Inês absorveu o cenário ao seu redor com indiferença, suportando a dor, como se assistisse a uma charada óbvia. Foi logo além daquela árvore florida que Inês Valenza desabaria, e então...

— Vossa Alteza!

O som distante de passos rápidos cortando a grama molhada se aproximou. A testa pressionada no chão, as sobrancelhas franzidas de dor, Inês soltou um gemido dolorido. Um desejo irresistível de soltar uma risada exasperada surgiu dentro dela — ela havia reconhecido a voz.

Por que ele estava aqui? Por que ela não havia notado antes? Ela ponderou melancolicamente.

Uma mão pousou em seu ombro enquanto essas perguntas vinham à sua mente. Seus lábios entreabertos não fizeram nenhuma tentativa de formar palavras. Mesmo depois que as mãos frias do homem a puxaram para cima e seus olhos encontraram os dela, ela permaneceu em silêncio. Estritamente falando, seus olhos não se encontraram realmente; estava escuro demais para discernir seu rosto imediatamente. No entanto, Cássel Escalante estava, sem dúvida, olhando diretamente em seus olhos.

Inês exalou lentamente, como se o olhar intenso que ela podia sentir a tivesse deixado momentaneamente sem fôlego. A respiração dele alcançou seus ouvidos antes que sua figura surgisse, e ela sentiu sua grande estrutura se aproximando. Ele parecia ansioso para dizer algo, mas vacilou, lutando para encontrar as palavras certas.

Um silêncio constrangedor se instalou entre eles. A silhueta, mesmo em sua obscuridade, parecia confusa. Cada respiração trêmula que ele dava ressoava através de seu ombro onde seu braço repousava.

— Por que... — ele começou, apenas para parar rapidamente.

Ela sabia que ele queria perguntar sobre seu salto ousado. A pergunta não dita pairava no ar. Ele muito provavelmente não conseguia se forçar a expressar suas suspeitas — de que ela poderia ter tentado tirar a própria vida.

O suicídio era um dos pecados graves proibidos por Deus desde tempos imemoriais; era uma blasfêmia profunda demais para acusar a futura princesa herdeira de cometer tal ato. Mesmo que testemunhas a vissem saltar da torre de penitência e seu corpo ser esmagado em pedaços ao atingir o chão, poucos ousariam chamar isso de suicídio.

No entanto, o silêncio de Cássel Escalante se estendia além de uma hesitante demonstração de respeito. Parecia que ele fora abalado até o âmago pelo simples fato de ela ter caído da varanda. Se foi um acidente ou intencional, parecia menos importante para ele.

Ele realmente se assusta com muita facilidade para o seu tamanho, Inês ponderou, traçando seu rosto familiar na escuridão pela memória.

Embora ele mostrasse pouca preocupação com sua própria segurança, ele sempre exibia uma preocupação excessiva por qualquer coisa que a envolvesse. Então uma percepção a atingiu: o Cássel Escalante diante dela não era o Cássel com quem ela havia se casado em sua vida atual. Ele não deveria se preocupar com ela...

A mão em seu ombro tremeu antes de escorregar. Ele esfregou as mãos no rosto em clara frustração antes de passar a mão pelos cabelos. Então, ele deu meio passo para trás, colocando uma distância educada entre eles.

Certo, pensou Inês. Este não é ele.

Seu cabelo loiro desgrenhado parecia brilhar mesmo na escuridão. Uma lembrança repentina pintou uma imagem vívida em sua mente — o sol brilhante de Calztela refletindo na cabeça de Cássel. Ela se lembrou do jeito que ele sorria para ela debaixo de seus cabelos despenteados pelo vento e do brilho de seus olhos azuis.

O Cássel real parecia mais um sonho distante do que aquele que ela estava enfrentando em seu sonho atual. Isso pesava sobre ela, como se ela nunca mais pudesse ver o Cássel real novamente.

Um sonho tão vívido quanto este raramente terminava com uma nota positiva.

Inês Valeztena finalmente proferiu:

— Comandante Escalante.

Seu eu passado, também, parecia tê-lo reconhecido pela voz. Uma sensação estranha a invadiu com a percepção de que seu eu passado o identificara pela voz porque ela mal falara com ele naquela época. No entanto, a sensação rapidamente se dissipou quando ela notou a mão dele, delicadamente colocada sob seu cotovelo para ajudá-la a se levantar.

— Sim, Vossa Alteza. Sou eu — ele disse a ela, seu tom rígido e formal.

Havia um toque de hesitação desajeitada até mesmo no modo como ele apoiava o corpo dela. Ele não parecia um homem versado na arte da sedução.

Finalmente, seu rosto apareceu, ou porque seus olhos haviam se ajustado à escuridão ou porque suas belas feições estavam tão arraigadas em sua memória que ela podia imaginá-las mesmo de olhos fechados. O rosto diante dela, no entanto, parecia um pouco mais magro, com olhos fundos e mais escuros, tornando-o um tanto desconhecido.

Ela queria examiná-lo mais de perto, mas sua voz soou contra sua vontade, carregada de tensão palpável.

— Por que está aqui a esta hora?

— Está ferida em algum lugar? — ele perguntou em vez de responder, tentando ajudá-la a se levantar.

Inês Valeztena tentou empurrá-lo em vão, mas Cássel continuou firme. Após várias tentativas recebidas com resistência, ele parou de tentar e afrouxou o aperto. Só então ela cessou sua luta.

Outro momento de silêncio se estendeu.

Ela cerrou os punhos com tanta força que as unhas cravaram em suas palmas antes de abri-los.

— Ele... Oscar... — ela começou, detestando seu estremecimento involuntário à mera menção de seu marido. — Ele incumbiu você, o duque, de uma tarefa tão desagradável? Ele ordenou que você espionasse sua esposa enquanto ele passa a noite em um bordel?

O Duque Escalante, irmão da imperatriz, havia desmaiado e falecido subitamente. No entanto, como nem Cássel nem Miguel eram casados, a questão de quem se tornaria o próximo duque permanecia pendente a essa altura de sua vida passada. Tecnicamente, Cássel não havia ascendido a Duque Escalante mesmo quando Inês morrera, mas por volta dessa época, não havia dúvidas de que ele acabaria sucedendo seu falecido pai.

Quando o duque estava vivo, Miguel, noivo na época, fora publicamente reconhecido como o herdeiro do título, mas as coisas mudaram desde o falecimento do duque. Miguel perdeu sua noiva para uma doença e se recusou a pôr os pés fora de Esposa por dois anos. Enquanto isso, Cássel, que havia subido nas fileiras militares, foi inesperadamente dispensado por causa de um ferimento. O resultado antecipado parecia claro para todos.

Não havia como Cássel Escalante, por mais livre de espírito que se dizia ser, se recusar a sossegar, dadas as circunstâncias. Mesmo que ele tivesse evitado o casamento e a herança do título de seu pai até aquele ponto.

Inês Valeztena o encarou nos olhos, seu olhar firme.

Por um longo tempo, ele a encarou em silêncio, parecendo atordoado e incapaz de formar uma resposta, suas sobrancelhas franzidas traindo sua confusão. Então ele lentamente pareceu voltar a si.

— Peço perdão, Vossa Alteza, mas não herdei o título de meu pai — disse ele.

Um sorriso torto repuxou os lábios dela. Aparentemente, até mesmo seu eu passado parecia achar a resposta dele divertida.

— Ah, porque você ainda não é casado — ela respondeu.

— Sim, Vossa Alteza.

— Isso não significa muito. Se você se casasse amanhã de manhã, herdaria o título de seu pai ao meio-dia.

— E seu marido não me ordenou a fazer nada, Vossa Alteza — ele acrescentou, descartando o comentário dela.

— Está sugerindo que simplesmente estava aqui a esta hora da noite? Bem, suponho que com seu status, nenhuma parte do palácio está fora dos limites — ela zombou.

Apesar de seu tom mordaz, ele permaneceu sem resposta.

Ela bufou.

— Você parece ansioso para esclarecer os fatos, mas vejo que não nega que meu marido esteja em um bordel.

Um olhar de desprezo inconfundível passou pelo rosto dele.

— Você é um livro aberto — observou Inês Valeztena.

Seu nojo parecia cru, como se ele tivesse acabado de descobrir sobre a infidelidade de Oscar. Ela supôs que o homem diante dela era do tipo que se revoltava com tal comportamento. O ódio em seus olhos era tão claramente destinado a Oscar que beirava a traição. Isso a fez se preocupar se ele conseguira esconder sua aversão óbvia pelo príncipe herdeiro após a morte dela.

Apesar da expressão em seu rosto, sua voz permaneceu estóica enquanto ele lhe oferecia um conselho.

— Por favor, abstenha-se de dizer qualquer coisa em público que possa prejudicá-la de alguma forma.

Seu tom transmitia que ele não a estava advertindo para preservar a reputação de seu marido. Era como se ele soubesse ou pelo menos tivesse um palpite sobre como Oscar distorcia suas palavras e a atormentava — como se estivesse estritamente preocupado com a segurança dela.

Inês se perguntou se a passagem do tempo havia embotado seu senso de vergonha de sua vida passada. Afinal, este Cássel Escalante era agora uma pessoa de seu passado distante.

— Você acha que terei problemas se alguém ouvir o que acabei de dizer, Comandante? — ela perguntou.

— A senhora deve saber que há ouvidos em toda parte — ele respondeu solenemente.

— Mas não aqui.

A parte sul do palácio, acessível apenas à família imperial e a alguns nobres selecionados com privilégios irrestritos, exalava um ar secreto. Desprovida de guardas estacionados, exceto por aqueles além da floresta guardando os muros do palácio, tinha apenas alguns postos de guarda fora de vista, e as patrulhas eram mantidas no mínimo.

O quarto em que Inês se via aprisionada não era diferente. Sua varanda se abria para o jardim dos fundos, e os únicos dois cavaleiros encarregados de guardar seu quarto ficavam na extremidade do corredor, estrategicamente posicionados para impedi-los de acidentalmente vislumbrar seu corpo nu. Oscar, em sua tentativa desesperada de manter a ilusão de que sua esposa não estava realmente trancada naquele quarto, dispensara a maioria da já escassa equipe antes de deter Inês. Ele chegara ao ponto de instruir os dois cavaleiros a ficarem de olho um no outro, para que um deles não fosse seduzido por ela e compartilhasse sua cama. O local nunca fora muito bem guardado para começo de conversa, mas as ações de Oscar, impulsionadas por seu desejo de sigilo, haviam deixado o local ainda mais mal guardado.

— Os olhos percebem as coisas mais rápido que os ouvidos, então você deveria se preocupar mais em sermos vistos — ela aconselhou Cássel. — Não importa o que eu diga a você. Se alguém me vir com você, acabou, Comandante.

Cássel apressadamente deu um passo para trás. Mas ela estendeu a mão e agarrou seu braço. Enquanto ela se perguntava se este era o braço que fora permanentemente ferido por um tiro, seu eu do sonho soava despreocupado enquanto continuava a falar.

— Sabe, Oscar te despreza tanto que se eu apenas falar com você conversou comigo por um instante... ele me violaria a noite inteira depois.

Inês sentiu o braço dele enrijecer sob seu toque.

Quando ela o puxou pelo braço, sua grande estrutura se inclinou, lembrando uma estátua balançando à beira de uma queda. Se o luar tivesse iluminado a cena, sua sombra imponente a teria engolido inteira. Qualquer um que testemunhasse isso poderia ter entendido mal, pensando que ele estava tentando se forçar sobre ela.

Rapidamente, Cássel recuperou a compostura e recuou, como uma criança se afastando de uma chama. Endireitando-se, ele buscou uma distância apropriada entre eles mais uma vez.

Por outro lado, Inês parecia uma criança que acabara de perceber que escalar este homem imponente diante dela poderia ser mais fácil do que puxá-lo com sua força insignificante. Antes que ele pudesse se afastar completamente, ela se ergueu de joelhos, passando uma perna entre as dele, erguendo-se para encontrar seus olhos. Sua mão encontrou o colarinho dele, e ela se agarrou a ele com todo o seu peso, como se o instigasse a se aproximar.

Prendendo a respiração em silêncio, ele olhou para ela.

Ela sentiu o pulso dele latejar descontroladamente contra sua pele. Sua mão grande, pousada em seu ombro esguio, tentou contê-la, mas faltava força, como se ele temesse que o menor empurrão pudesse machucá-la.

Suponho que algumas coisas nunca mudam, pensou Inês consigo mesma. Um sopro silencioso de riso exasperado subiu por sua garganta, mas não escapou de seus lábios.

O Cássel com quem ela se casou a percebia como alguém de fragilidade requintada, delicada como a mais fina porcelana; mesmo com uma vitalidade incomparável à de seu passado, Inês se via sujeita ao seu cuidado inabalável. Da mesma forma, o Cássel à sua frente se recusava a exercer qualquer força contra ela.

Ela refletiu que ele poderia ter abordado todas as mulheres com tal cautela, dada sua natureza inerentemente gentil. A curiosidade a levou a especular sobre a mulher que poderia ter capturado seus olhos em sua vida passada, perguntando-se se ela a conhecera. 

Inês parou para refletir sobre as mulheres que encontrara durante esse tempo: as damas nos bailes, as donzelas desmaiando com um mero olhar de Cássel Escalante, os olhares quase obsessivos direcionados a ele. Apesar dos numerosos rumores rodopiantes, ela lutou para identificar um indivíduo em particular. Sua falta de interesse provavelmente contribuiu para essa dificuldade.

Sua mente divagante retornou à cena atual, sem respostas. Um sentimento estranho e desnecessário persistia. Inês tentou afastá-lo, mas os pequenos fragmentos de ciúme se agarraram a ela como areia molhada.

Ciúme? ela pensou, incrédula. A emoção parecia comum demais, como se sua vida fosse normal. Ela teve que se lembrar que estava no corpo de seu eu passado, dentro de seu sonho, e que ela até pretendia tirar vantagem de Cássel em sua vida atual.

Pareceu-lhe cômico o quão diferente ela se sentia das palavras devastadoras que Inês Valeztena dissera alguns momentos antes. Talvez o estado de espírito de seu eu passado estivesse passando para ela. Nunca Inês provara um momento mais libertador do que agora, especialmente durante este período em que ela balançara à beira da loucura.

Libertador. Sim, era isso.

Inês Valeztena havia escondido a humilhação esmagadora que a assolava, abstendo-se de compartilhar com alguém a dolorosa verdade de que estava sofrendo estupro — até que ela atirou aquela palavra em Cássel Escalante, que não tinha responsabilidade por seu sofrimento.

Despindo-se das expressões eufemísticas como "as exigências do marido" ou "relações conjugais" que velavam a dura verdade, ela confrontou a terrível realidade de que Oscar Ortega a vinha violando nos últimos dois anos.

Essa verdade inegável persistia, independentemente dos maravilhosos primeiros dias de paixão ou dos dias que haviam sido agradáveis o suficiente antes que esse tormento começasse. Houve um tempo em que ela adorara Oscar; naquela época, seus olhos inocentes brilhavam ao vê-lo. No entanto, tudo isso empalidecia em comparação com a realidade sombria que ela agora enfrentava.

Inês Valeztena sentiu um peso sair de seu peito. Ela se sentiu como se estivesse pronta para abraçar a morte em paz.

— Se Oscar nos pegasse assim, ele finalmente acabaria com a minha vida — ela sussurrou.

A mão no ombro dela apertou em um instante com suas palavras. Cássel tentou empurrá-la novamente, mas tudo o que conseguiu foi agarrar sua manga com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos.

Ignorando seu esforço para colocar alguma distância entre eles, ela se inclinou para mais perto, impulsionada por sua necessidade de descontar sua raiva em alguém.

Seu corpo tenso e rígido revelava incerteza sobre o próximo curso de ação; uma mistura de inquietação e culpa parecia oprimi-lo. Era como se ela estivesse confrontando um padre ingênuo em uma capela, em vez de um libertino renomado.

Os lábios de Inês Valeztena se curvaram em um sorriso afetado antes de ela cair na gargalhada.

— Mas não posso arrastar alguém tão inocente quanto você comigo.

Ele simplesmente a encarou, sem palavras.

— Então, por que não compartilha alguns de seus truques de libertino para garantir que não sejamos notados? Ouvi dizer que você é incrivelmente talentoso com mulheres — ela sugeriu.

Ninguém os veria naquela noite, e quando Oscar voltasse ao amanhecer, ele permaneceria sem noção. Inês Valeztena estava bem ciente disso, e Cássel não era ingênuo o suficiente para não perceber isso também. Em outras palavras, sua rejeição era totalmente independente da preocupação de alguém testemunhar esta cena.

Seus rostos estavam a meros centímetros de distância agora, perto o suficiente para Cássel sentir o cheiro do álcool que pairava em seu hálito.

— A senhora deve estar bêbada, Vossa Alteza — ele observou.

Inês deu de ombros.

— Ultimamente, eu me sinto mais eu mesma quando estou bêbada.

— Vou acompanhá-la até seu quarto, Vossa Alteza — ele insistiu.

— Eu não tenho um quarto aqui, mas tenho uma cela de prisão — ela lhe disse.

Cássel soltou um suspiro estrangulado e gentilmente a afastou dele, levantando-a para acompanhá-la.

— Que surpreendente. Pensei que você teria aceitado ansiosamente minha oferta — ela ponderou.

Era mentira. Ela sabia que ele não aceitaria.

Sempre houvera uma distância firme entre eles desde que ela se lembrava. Era flagrantemente evidente que ele não tinha desejo por ela, embora parecesse o tipo de homem que poderia atrair qualquer mulher no mundo sem esforço. 

Se era por causa de sua lealdade inabalável a Oscar ou seus estranhos padrões de se abster de qualquer envolvimento com mulheres casadas ou virgens, apesar de viver no antro de casos que era Mendoza, permanecia um mistério. Ao longo de seus encontros, ele nunca mostrara o menor indício de interesse nela.

— Não é por isso que você estava vagando nesta parte do palácio, em primeiro lugar? — ela perguntou.

Ele não respondeu.

— Homens que desejam ser meus amantes sempre aparecem em cena como você fez — ela continuou.

— Minhas desculpas, Vossa Alteza — foi tudo o que ele disse.

— Ah, eu não devo ser boa o suficiente para atender aos seus altos padrões, Comandante — ela concluiu.

Seus olhos azuis brilharam mesmo na escuridão enquanto ele se fixava nela.

A mente de Inês vagou de volta aos momentos em que seu olhar penetrante encontrara o dela no passado, como se atraído para ela por alguma força irresistível. Naqueles momentos, ele parecia pronto para lhe dizer algo; às vezes, aqueles olhos suprimiam algo profundo, enquanto em outras vezes, eram sombreados pelo esgotamento.

Gradualmente, ela captou a linguagem não dita em seus olhos. Ela percebeu por que seu coração afundava sempre que seu olhar escurecia, perdendo o brilho azul vibrante, ou quando a angústia nublava seus olhos. Era porque ela vira aquele olhar antes, em uma memória distante.

Cássel hesitou antes de confessar com um toque de relutância:

— Eu normalmente não ousaria expressar tais sentimentos, Vossa Alteza, mas a senhora enche meu copo até transbordar... Qualquer um que tenha um par de olhos e respire seria atraído por sua beleza.

— E, no entanto, você escolheu apenas me acompanhar de volta. — observou Inês Valenza.

— Porque o que a senhora disse antes estava além da razão — ele explicou.

— Além da razão? — ela ecoou. — Está sugerindo que sua audácia deriva de um desejo de parar minha autodepreciação?

— Minhas desculpas — ele murmurou.

— Se seu copo transborda, Cássel, você deve aprender a saboreá-lo — ela aconselhou, prática.

Inês reconheceu as profundezas de sua afeição em seu olhar desanimado. Seus olhos se iluminavam com a mera menção de seu nome, apenas para escurecer rapidamente de novo. Era tão radiante e efêmero quanto uma flor, desabrochando e murchando em beleza fugaz. 

Aqueles olhos, sem dúvida, pertenciam a um homem apaixonado.

Finalmente, a verdade raiou para ela: Ele estivera apaixonado por Inês Valeztena nessa época também. Sempre.

— Você me ouviu. Oscar te odeia. O suficiente para desejar que você morra no campo de batalha. O príncipe que você serve te despreza o suficiente para colocá-lo deliberadamente em perigo — disse Inês a ele.

Ele permaneceu em silêncio, mas seu rosto dizia tudo.

— Você já sabe disso, não é? — ela perguntou.

— Sua Alteza pode ter sido o primeiro a declarar guerra, mas isso é meramente uma coincidência — ele insistiu.

— Você sabe que não foi.

— Vossa Alteza...

— É uma pena que sua lealdade seja desperdiçada em alguém tão malévolo quanto ele. E assim é sua competência, Comandante. — Após uma breve pausa, ela continuou: — Corte os laços com Oscar. Caso contrário, você perecerá.

— Inês... — ele murmurou.

— Estou dizendo isso como a amiga de infância que você costumava chamar por esse nome. Quanto mais cedo você desertar, melhor será seu futuro. E o mais longe que você pode ir para abandonar sua posição é passar a noite com a esposa de seu superior.

— Inês, por favor.

— Sei que você não quer se manchar com alguém suja como eu, mas a longo prazo isso será benefíco para o senhor. — ela concluiu.

— Por favor, não... não fale de si mesma como se não tivesse valor — ele implorou a ela.

Inês Valeztena piscou para ele, sem oferecer resposta.

— Por favor, não diga tais coisas, Vossa Alteza — ele implorou, falando com mais formalidade desta vez. — Eu lhe suplico...

Mas ela o interrompeu.

— Este é o ombro que foi estilhaçado em batalha? Este é o braço que você quase perdeu?

Ele ficou em silêncio.

— Mesmo que seu braço tivesse sido decepado, Oscar não ficaria satisfeito. Ele quer que você morra. Da próxima vez, não será apenas uma questão de perder o uso de um braço por um tempo — ela o avisou. — Ele não aprecia seus sacrifícios, embora você tenha sofrido um ferimento grave por causa dele e teve que deixar a marinha por causa da devoção de sua mãe, acabou reduzido a um mero cavalheiro de Mendoza. Ainda sim, está disposto a servir ao lado dele com lealdade eterna.

Uma onda de raiva intensa fez o estômago de Inês revirar por um momento. Ela de repente sentiu uma necessidade impulsiva de ajudá-lo. Eles todos estavam fadados a morrer de qualquer maneira, ela pensou, e estava claro que alguém tão sincero quanto ele, incapaz de mascarar seu nojo por assuntos tão triviais, seria inevitavelmente encurralado até a morte. Ele era uma pessoa valiosa demais para ser arruinada por causa das inseguranças de Oscar.

Assim como seu nome completo exibia os muitos mestres que a possuíam, Cássel Escalante de Esposa também tinha um mestre que o possuiu desde o nascimento. Valeztena e Escalante. Havia uma longa história por trás daqueles nomes assombrosos — séculos de poder, obsessão, ambição e renome. Além disso, um senso de inferioridade, inveja assassina e aversão.

— Foi tudo por causa dele, e ainda assim Oscar é levado à loucura por isso. Sempre que você estabelece uma reputação em Mendoza em nome dele, sempre que expande sua influência, ganha credibilidade e se torna tão renomado que todos sabem seu nome — disse ela, puxando uma respiração ruidosa. — Meu marido é um tolo que odeia e teme aqueles que são mais valiosos para ele. Ele sofre da ilusão de que o filho ilegítimo de Sua Majestade ainda está por aí em algum lugar, e ainda assim ele corta conexões com aqueles que o ajudariam. Um império liderado por tal imbecil — é realmente isso que você quer? Você deseja permanecer como o servo de um degenerado? — ela o questionou.

Na verdade, não era simplesmente a ilusão de Oscar de que o filho ilegítimo do imperador ainda estava vivo. Era a lealdade daqueles ao seu redor que o fazia acreditar que não passava de uma ilusão. Mesmo com a sombra de sua morte iminente pairando sobre ela, o pensamento do adorável filho ilegítimo do imperador trouxe um sorriso ao seu rosto. Era por isso que ela achava que Cássel Escalante também merecia momentos de alegria — uma esperança de um futuro melhor, diferente do dela.

No entanto, seus pensamentos cessaram quando ela ouviu sua resposta absurda.

— Eu simplesmente não desejo que a senhora morra, Vossa Alteza. Estou ciente de que feriu a perna. Seu lado esquerdo parece estar incomodando — disse ele, como se essa fosse a preocupação mais premente. As palavras lhe faltaram.

— Vou acompanhá-la até seu quarto, garantindo que ninguém nos veja, é claro — ele assegurou.

Cássel Escalante de Esposa era diferente de todos que ela já conhecera.


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