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Capítulo 76 — O Plano de Cássel

— A minha Senhora ficou extremamente perturbada. Pode não ter sido evidente para os outros, mas notei um olhar inconfundível de choque no rosto dela — confidenciou Raúl a Cássel.

— É mesmo?

— A expressão equilibrada e indiferente dela trai um toque de rigidez quando ela está inquieta — continuou Raúl. — Se o senhor observar atentamente, é perceptível. Embora ela possa falar com sua calma habitual, ela vacilaria quando bombardeada com perguntas inesperadas, e o senhor será capaz de dizer que ela não é a mesma de sempre.

— Então, eu teria que fazer uma enxurrada de perguntas a ela para mantê-la desequilibrada — disse Cássel.

— Exatamente. Será difícil dizer quando ela desmoronará, ainda assim. Nossa querida Lady Inês é impressionantemente sensata — respondeu Raúl.

— Corte o querida — disparou Cássel, sua expressão subitamente fria.

Suprimindo uma revirada de olhos, Raúl assentiu vagamente.

— Certo, sim, de qualquer forma, foi isso que aconteceu. Embora todos admirassem a atitude calma dela, ela estava tudo menos calma.

— Quem diria que a grande Inês Valeztena ficaria tão afetada pelo meu desmaio — ponderou Cássel, uma mistura de admiração e decepção colorindo seu tom por não ter podido testemunhar ele mesmo. Sorrindo de orelha a orelha, ele parecia perdido em extrema felicidade.

— Bem, foi totalmente inesperado — apontou Raúl.

— Então ela nem imaginou — murmurou Cássel para si mesmo, como se achasse a ingenuidade atípica dela cativante.

— Ninguém poderia ter imaginado, meu senhor.

— O quê? — Cássel piscou, evidentemente distraído agora que Inês não era mais o assunto. Era óbvio que sua mente vagara para sua esposa.

Familiarizado com essa tendência, Raúl respondeu:

— Me refiro ao senhor, meu lorde.

— O que tem eu?

— O senhor desmaiando — esclareceu Raúl.

— Ah.

— Quando o Tenente Maso chegou à casa, antes que Alfonso ou eu pudéssemos acompanhá-lo escada acima, minha Senhora o interceptou na porta e o conduziu ela mesma ao quarto — informou Raúl.

— Agradeço a preocupação genuína dela, mas não gosto que ela ande com ele — resmungou Cássel.

Este incidente ocorrera há mais de uma semana, mas ele permanecia descontente, como se estivesse falando de um inseto incômodo que pousara em sua esposa e precisava ser espantado.

— Isso reflete o quão impaciente ela estava na hora, meu senhor. Mas ao abrir a porta, ela empalideceu ao vê-lo inconsciente na cama e correu para o quarto, deixando a porta bater na cara do tenente.

— Fico feliz que ela tenha feito isso — comentou Cássel, assentindo em aprovação.

— Ela deve ter pensado que algo grave havia acontecido com o senhor, pois começou a esbofetear suas bochechas para a esquerda e para a direita... — Raúl se interrompeu, percebendo que deixara escapar algo que não deveria.

Um breve silêncio pairou no ar.

— Nós tentamos dissuadi-la, mas ela estava tão perturbada com a ideia de o senhor estar em estado crítico, meu senhor, que parecia incapaz de nos ouvir — explicou Raúl. — Ela deve ter ficado verdadeiramente perturbada para agir de tal maneira. Era como se ela estivesse tentando acordar alguém que quase se afogou. Foi o quão angustiada ela estava.

Raúl procurou sublinhar a profundidade da preocupação de sua senhora por seu marido. Sua descrição exagerada das ações incomuns dela fez a situação parecer comovente. Ele inteligentemente omitiu o detalhe sobre Inês encarando o marido e não derramando uma única lágrima.

— Não admira que minhas bochechas ardessem — murmurou Cássel, esfregando as mãos nas bochechas. — Você deveria tê-la impedido.

— Bem, sim, mas não ousaríamos colocar as mãos nela para impedi-la... — Raúl parou.

— Você deveria ter intervindo de qualquer maneira. E se Inês tivesse machucado as mãos?

Raúl ficou momentaneamente sem palavras.

— Ela tem uma pele tão delicada e macia — disse Cássel. — Ela não me bateu tantas vezes, bateu?

Na verdade, ela desferira um bom número de tapas fortes. No entanto, Raúl balançou a cabeça lentamente, sabendo muito bem que seu mestre estava inclinado a correr imediatamente para sua senhora e cuidar das palmas das mãos dela.

— Muito bem. No futuro, seja mais vigilante e certifique-se de que Inês não se machuque.

Isso era algo que Raúl, que dedicara quase toda a sua vida a ser superprotetor com sua senhora, nunca fora instruído antes. Ele estava começando a achar Cássel ligeiramente fascinante. Era como se o homem estivesse completamente alheio ao fato de ter sido o receptor dos tapas de Inês.

— O que mais? — Cássel insistiu.

— Perdão?

— O que mais aconteceu? Que outras coisas adoráveis Inês fez porque estava tão preocupada comigo? Além de me bater.

Pelo menos ele está ciente disso, pensou Raúl consigo mesmo. Ainda assim, ele não pôde deixar de notar que a percepção de Cássel sobre as ações de sua esposa parecia perigosamente distorcida. Cássel falava da preocupação de Inês por ele da mesma forma que Arondra apreciava sua estatueta de anjo. O sorriso mal contido em seus olhos e lábios era suficiente para transmitir seu deleite. Parecia que Cássel ficaria feliz mesmo se tivesse perecido de alguma forma nas mãos de sua esposa.

Raúl estava perplexo com a extensão da devoção não convencional de seu mestre à esposa. Sua avaliação detalhada de Cássel evoluíra de "suponho que ele esteja bem" para "nada mal, na verdade" e "ele parece se importar com ela tanto quanto eu", antes de progredir para "eu nem pensei tão longe — ele é maravilhoso", e finalmente atingir o estágio de "isso é um pouco excessivo". A essa altura, Raúl estava simplesmente atônito com seu mestre.

— Ela até verificou se o senhor estava respirando e levantou suas pálpebras — acrescentou ele.

— Isso é adorável — comentou Cássel.

— Ela também ficou furiosa quando dissemos que o senhor estava apenas dormindo — continuou Raúl.

— Tão preciosa...

— E quando sugerimos que ela ficasse na outra casa durante a noite, como o senhor instruiu, ela insistiu em ficar para vigiá-lo.

— Ela não conseguia tirar os olhos de mim — murmurou Cássel.

— Ela estava zangada e preocupada que algo terrível acontecesse com o senhor por causa dela, meu senhor.

— Que cativante. Não acredito que ela pensou que eu poderia sucumbir a uma febre trivial... Ela é um amor — murmurou Cássel para si mesmo.

Raúl ficou sem palavras novamente, pensando que seu mestre soava quase delirante.

— Eu nem consegui ver isso. — A expressão de Cássel mudou de exultante para furiosa enquanto ele praguejava baixinho por um motivo tão frívolo.

Raúl hesitou antes de continuar.

— É por isso que me senti compelido a informá-la de que o senhor me dissera que se recuperaria em duas horas, mas...

O olhar de Cássel o silenciou.

— Por que você tem que tagarelar? Agora ela nunca mais se preocupará comigo.

— Porque... o senhor expressou preocupação com a paz de espírito dela, meu senhor.

— Não teria sido por muito tempo de qualquer maneira. Não posso saborear esse momento fugaz? Eu nem consegui ver a preocupação cativante dela — resmungou Cássel.

Raúl tinha certeza de que seu mestre mudara o tom apenas porque muito tempo havia se passado desde o incidente. Ele sentiu uma dor de cabeça chegando ao pensar em como seu mestre certamente mudaria de postura se uma situação semelhante surgisse novamente. Os caprichos da nobreza realmente o desconcertavam. Os dois Escalantes que ele servia eram exemplos perfeitos disso.

— O senhor não precisa ficar desapontado, meu senhor. Sua Senhora desconsiderou tanto minhas palavras quanto o diagnóstico do Tenente Maso — assegurou Raúl. — Na verdade, ela estava desnecessariamente preocupada com o senhor. Prevejo que a preocupação dela persistirá caso o senhor desmaie novamente.

— Desmaiar novamente? Isso soa como uma maldição — retrucou Cássel.

— Minhas desculpas.

— Serei capaz de desmaiar novamente? — ponderou Cássel.

Raúl escolheu não responder.

— Porra. — A maldição caiu de Cássel com um suspiro. — Sou robusto demais para o meu próprio bem. Eu deveria ter acordado quando Inês me esbofeteou.

A única razão pela qual ele desejava estar consciente era para poder testemunhar sua esposa preocupada com ele.

— Quando o Tenente Maso garantiu a ela que não havia nada de errado com o senhor, Sua Senhora se recusou a acreditar nele, conjurando uma dúzia de razões para o erro dele.

— Ela até se recusou a acreditar nele?

— Sim — confirmou Raúl. — Ela insistiu que o senhor deve ter se esforçado demais e pegado a febre dela. Eventualmente, o Tenente Maso concordou que esse poderia ser o caso, mas também sugeriu que o senhor estava simplesmente sensível ao estresse...

— O quê? — Cássel interrompeu, a descrença brilhando em seus olhos.

— Oh, ela não lhe contou? O Tenente Maso sugeriu que a preocupação excessiva pode ter levado à sua condição, já que o senhor geralmente não tem muito com que se preocupar.

Todos os vestígios de vertigem desapareceram da expressão de Cássel.

— Você está dizendo que ele insinuou que sou um tolo?

— Não, ele disse que pensar excessivamente pode ter sido a causa, e...

Cássel o interrompeu bruscamente.

— Então ele disse que sou um tolo de cabeça vazia?

Em essência, sim, mas havia mais do que isso. Raúl balançou a cabeça apressadamente.

— Ele indicou que foi porque o senhor esteve tenso e se preocupando demais, meu senhor. Entendi que isso significa que o senhor é vulnerável ao estresse...

— Vulnerável ao estresse? — Cássel zombou. — Quer dizer que sou tão frágil quanto aquele vaso de vidro ali? Destinado a se estilhaçar sob pressão?

— Ninguém ousaria pensar assim — garantiu Raúl, abstendo-se de comentar sobre a estatura imponente de seu mestre. Um momento de realização lhe ocorreu; talvez isso fosse algo que ele devesse ter guardado para si mesmo, não a parte sobre sua senhora esbofeteando seu mestre.

— E Inês ouviu tudo isso? — perguntou Cássel por entre os dentes cerrados.

— Sim — respondeu Raúl relutantemente. — Ele também mencionou que a exaustão física desempenhou um papel.

— Ballan, eu não o instruí a acompanhar Inês para fora do quarto para poupá-la da preocupação? — O olhar de Cássel gelou o ar enquanto repreendia seu valete por sua incompetência.

Ele estava sorrindo de orelha a orelha momentos atrás... ele está apenas envergonhado por ela ter ouvido tudo, pensou Raúl consigo mesmo.

— Não há necessidade de se preocupar, meu senhor. Sua Senhora prontamente o mandou embora, chamando-o de charlatão.

— Aquele charlatão desprezível... — murmurou Cássel, fervendo.

Raúl concordou com a cabeça, e um breve silêncio os envolveu.

Ele não conseguia nem imaginar o quão devastado seu mestre se sentiria ao descobrir que mais tarde naquela noite, quando Arondra comentara sobre a competência do Tenente Maso apesar de sua infidelidade, Inês simplesmente assentira.

— Falando naquele canalha adúltero — começou Cássel.

— O senhor está se referindo ao Tenente Maso, meu senhor?

— Preciso de um plano — continuou Cássel, ignorando a pergunta.

— É sobre o que o senhor mencionou no quartel-general da marinha? — perguntou Raúl.

Cássel assentiu.

— Precisamente.

— Sim, meu senhor. Por favor, prossiga.

— Quero que você comece um boato de que perdi o juízo.

Raúl piscou de surpresa.

— Perdão?

— Preciso que se espalhe a notícia de que perdi o juízo por Inês.

Ah, louco por ela, não apenas louco, Raúl percebeu um segundo depois e assentiu para si mesmo. Mas em vez de expressar sua linha de pensamento, ele simplesmente respondeu com o que seu mestre poderia querer ouvir.

— Para evitar mais distúrbios, presumo?

Cássel assentiu enfaticamente.

— Especialmente para manter longe mulheres desequilibradas como a do incidente recente.

— Sim, de fato. Bastante desprezível.

— Não é só ela — disse Cássel. — Há várias outras mulheres que acho um incômodo. Juro que há, mas, pelo amor de Deus, seus rostos inexpressivos somem da minha mente assim que saem de vista.

Não eram as feições medíocres, mas sim seu desinteresse que o fazia ter dificuldade em lembrar seus rostos. No entanto, Cássel Escalante não tinha motivo para examinar o rosto de nenhuma mulher além do de Inês — especialmente quando aquelas mulheres eram de má reputação, empenhadas em arruinar o casamento de outra pessoa.

Raúl, satisfeito com o desinteresse absoluto de seu mestre por outras mulheres, perguntou:

— O senhor poderia se lembrar de algum detalhe sobre as roupas delas? Vou me esforçar para identificá-las prontamente e seus maridos ou pais e relatar ao senhor. — Havia algumas mulheres que ele já suspeitava.

— Você certamente tem um talento para tais empreendimentos nefastos, Ballan — comentou Cássel.

— Se confrontado com pessoas mais nefastas do que eu, posso colocar todo o meu esforço e sinceridade no meu trabalho sem qualquer remorso — explicou Raúl.

— Uma atitude louvável. Continue assim, Ballan.

— Obrigado, meu senhor.

— Aquela do vestido verde — especificou Cássel.

O teste de suas habilidades veio imediatamente após uma palavra de elogio, mas Raúl respondeu, imperturbável:

— Senhora Almo, rumores dizem ser a amante do Tenente Almo, vem de uma família de comerciantes em El Tabeo. A esposa legal do tenente está atualmente em Mendoza. — Sua resposta foi rápida e confiante.

Cássel assentiu em aprovação antes de franzir a testa quando a lembrança dessa mulher azedou seu humor novamente.

— Aquela mulher sempre me olha com lascívia, como se eu fosse uma presa pronta para ser abatida. Hoje não foi diferente.

Certamente, ela era apenas uma entre muitas. Em meio ao recente influxo de convidados, Raúl podia contar numerosas mulheres que agiram de maneira semelhante. Havia várias jovens, misturando-se com as outras damas perfeitamente normais, que exalavam uma ânsia palpável por todo tipo de atividades lascivas, se lhes fosse dada a chance. Seu desejo beirava uma forma estranha de ambição — uma luxúria inconquistável dirigida ao homem mais bonito e desejável do império.

— Elas devem ter mal conseguido uma oportunidade de estar na mesma sala que Inês, alavancando cada conexão que têm. Elas deveriam se sentir honradas por sequer terem permissão para vislumbrar o rosto dela. Como ousam... A cobiça delas é infundada; elas deveriam saber o seu lugar — disse Cássel, as sobrancelhas franzidas em descontentamento.

Sua indignação não era apenas sobre os desejos deslocados delas por ele, mas sim a busca audaciosa pelo que inequivocamente pertencia a Inês: o próprio Cássel.

Ele era um homem de notável virtude, disposto a se objetificar pelo bem de sua esposa. Raúl não pôde deixar de pensar que aquelas mulheres eram meras mariposas atraídas imprudentemente para uma chama que nunca poderiam possuir.

Estalando a língua silenciosamente em desdém, ele disse:

— De fato, meu senhor. Tal comportamento é intolerável.

— Mas Inês tem deixado acontecer — apontou Cássel.

Raúl ficou em silêncio.

— Suspeito que ela até manteve aquela mulher desequilibrada por perto de propósito — murmurou Cássel, o olhar subitamente afiado como uma navalha novamente.

Raúl desviou o olhar casualmente, lembrando-se da atitude suspeita de Inês.

— Isso parece improvável. Por que ela manteria conscientemente alguém de intenções duvidosas? Ela deve ter estado alheia à verdadeira natureza dela.

Raúl só conversara com Inês sobre essas mulheres enquanto discutiam os preparativos para a reunião. Mas ele acreditava que elas serviam ao mesmo propósito que aquele amante inexistente de Perez: ajudar Inês a criar rachaduras em seu casamento e afastar ainda mais a si mesma de seu marido.

Não havia como Inês não estar ciente de algumas de suas convidadas olhando para o marido ou daquelas mulheres que alegavam ter tido casos clandestinos com Cássel. Embora Inês tivesse inúmeras conhecidas, ela reservava seu afeto para poucas selecionadas. E essas amigas, retribuindo sua atenção com lealdade inabalável, muitas vezes lhe entregavam fofocas sensíveis mais rápido do que Raúl podia.

Evidentemente, ela devia ter ouvido falar sobre essas mulheres escandalosas. Mas ela escolhera não apenas ignorar, mas também permitira que elas vagassem livremente pela residência Escalante. Isso sugeria uma agenda oculta, uma intenção além da mera indiferença — como se ela quisesse que algo acontecesse...

Este era um enigma que Raúl ainda não decifrara. Ele concluiu que sua senhora já deveria ter percebido a futilidade de seu estratagema. Caso contrário, por que ela recorreria a medidas tão drásticas para acordar o marido como se ele estivesse no leito de morte quando, na verdade, ele estava apenas dormindo?

— Inês pode ser indiferente às outras pessoas, mas ela é astuta. Assim como o incidente com aquela ladra de joias — apontou Cássel. Tecnicamente, foi a mulher que ele acusou de roubo para encobrir seu propósito mais nefasto, mas parecia que ela já havia sido arquivada como nada mais do que uma ladra de joias na mente de Cássel. — Aquela mulher lançara olhares lascivos para mim antes como um mendigo faminto faria com uma carne recém-cozida... É inconcebível que Inês não tivesse notado alguém tão abertamente desequilibrada entre suas convidadas.

— Talvez o pensamento nunca tenha passado pela cabeça dela. As pessoas muitas vezes falham em antecipar comportamentos que elas mesmas nunca considerariam...

— Mas Inês não é qualquer pessoa. E não ouso especular sobre seus funcionamentos internos, pois minha querida Inês é brilhante e complexa.

— Claro, mas... — Raúl lutou para pensar em uma resposta melhor.

— Independentemente de suas intenções, as mulheres de Inês entram e saem da residência sob vários disfarces, e algumas delas são verdadeiramente... — Cássel fez uma careta com as memórias de encontros passados.

— Não lhe parece peculiar referir-se a elas como 'mulheres de Inês', meu senhor?

— Não vejo onde quer chegar. De qualquer forma, esses indivíduos em particular... — Cássel fez uma pausa, como se enojado e tentando se distanciar delas. Ele estava deixando claro que nenhuma dessas mulheres tinha nada a ver com ele, fossem boas ou más, sãs ou loucas. Ele parecia estremecer com o mero pensamento de mencionar outras mulheres.

— Não posso mais ignorar a presença delas. Seus olhares lascivos me perturbam, deixando-me sentindo violado e de alguma forma vulnerável. Devemos nos livrar delas completamente — ele insistiu.

Era curioso como ele assumia uma postura tão sensível quando havia — sem um pingo de hesitação — acusado a mulher que entrara furtivamente no quarto deles de roubo, efetivamente ostracizando-a da alta sociedade de Calztela.

Mas Raúl também notara o número crescente de indivíduos desagradáveis cercando Inês à medida que ela expandia seu círculo social e recebia convidados na residência Escalante.

Entre eles espreitavam um punhado de indivíduos desprezíveis. Uma mulher explorava a hospitalidade de Inês para frequentar a casa, fabricando contos de casos clandestinos com Cássel durante cada visita. Outra mulher alegava que a pequena residência era perfeita para seus encontros secretos, enquanto outra ainda roubava alguns dos pertences de Cássel quando a equipe estava ocupada e os exibia como prova de seu suposto caso.

Aquelas mulheres eram relativamente benignas. Nenhuma ousava colocar suas fantasias em prática; eram ingênuas demais para imaginar que suas falsidades chegariam aos ouvidos de Cássel e Inês Escalante. Na verdade, elas admiravam o casal, colocando-os em um pedestal, por mais irônico que fosse. Elas apenas satisfaziam sua vaidade contando mentiras plausíveis para aqueles próximos a elas. Eram preferíveis em alguns aspectos, exceto pela falha fatal de que suas mentiras eventualmente se transformavam em rumores.

De qualquer forma, o jovem casal Escalante estava em um nível tão diferente do que qualquer um poderia esperar que aqueles que os conheciam nunca entreteriam tais rumores. E graças à vasta rede de conexões de Inês, estendendo-se das famílias de oficiais em Calztela aos nobres e até comerciantes em El Tabeo, havia muitas pessoas no meio para abafar tais rumores antes que pegassem fogo. Então, depois de um tempo, esses rumores diminuíam para nada mais do que anedotas contadas por algumas mulheres individuais, descartadas pela maioria como absurdas. Mas elas persistiam.

Em comparação com o comportamento ultrajante daquela louca invadindo o quarto do casal — um incidente desafiando toda a razão e imaginação — as travessuras daquelas outras mulheres pareciam quase risivelmente triviais. Talvez um dia, um incidente semelhante pudesse escalar para um escândalo genuíno em vez de um mero boato. Se uma mulher fosse encontrada despida no quarto junto com Cássel, e as testemunhas se espalhassem por Calztela, a perspectiva parecia inteiramente plausível.

— Por que não começar identificando essas mulheres e filtrando-as lentamente, uma por uma? — sugeriu Raúl.

— Escolher os vermes lentamente pode funcionar... mas pretendo esmagar suas malditas ilusões primeiro, antes que possam ser colocadas em prática.

— Mas o fato de vocês dois serem um casal muito unido dificilmente é novidade — apontou Raúl.

— E, no entanto, essa crença amplamente difundida ainda nos colocou nessa situação — respondeu Cássel. — Você sabia que eu tinha supostas amantes por toda Calztela cujos nomes eu nem conheço? Ultrajante.

— Suponho que elas presumiram, dado o seu histórico, que as mentiras delas não se destacariam. Provavelmente é por isso que ousaram abrir a boca daquele jeito.

Cássel permaneceu em silêncio, sua expressão tão chocada como se tivesse acabado de ser esfaqueado.

— Um equívoco flagrante, é claro — ofereceu Raúl cuidadosamente, uma pontada de culpa o incomodando por cutucar a fraqueza de seu mestre. — Que tal voltar para sua antiga residência, meu senhor? O senhor normalmente nunca encontraria essas mulheres em eventos públicos. O senhor e Sua Senhora sempre pareceram inalcançáveis, mas mudar-se para esta casa pequena com apenas um punhado de servos pode ter dado a elas a impressão de que o senhor não é diferente delas, daí seus comportamentos audaciosos. Elas podem estar pensando que vale a pena tentar.

— Está sugerindo que elas pensam que somos presas fáceis?

Raúl silenciou, percebendo as implicações de suas palavras.

Cássel passou a mão grande pelo rosto e murmurou amargamente:

— Não posso deixar esta casa.

— Perdão?

— Pelo menos dentro de Calztela, tem que ser esta casa — disse Cássel.

— Mas por quê?

— Porque Inês pode cair em si assim que sairmos.

Raúl se viu momentaneamente sem palavras. Ele se perguntou se havia algum tipo de superstição em torno desta casa que ele desconhecia.

— O que devo fazer se ela cair em si e voltar imediatamente para Mendoza sem mim? Então, apenas espalhe o boato de que perdi o juízo. Pode não ser crível...

Não poderia ser mais crível, pensou Raúl, mantendo um olhar educado no rosto.

— Espalhe a palavra, não importa o quanto você tenha que exagerar.

Não há necessidade de exagerar... Tudo o que ele tem a fazer é mostrar ao mundo seu verdadeiro eu, pensou Raúl interiormente. Mas Cássel estava sério e resoluto.

— Não falo apenas de nosso relacionamento harmonioso e demonstrações de afeto, mas de minha completa paixão por Inês Escalante. Por exemplo... sim, espalhe a notícia de como eu implorei e supliquei para que ela se casasse comigo até que ela consentisse, e como ela se dignou a viver no campo apenas porque eu não suportava um momento sem ela. Além disso, mencione como ela não pode nem sugerir visitar Mendoza sozinha porque eu persistentemente ameaço me jogar da Colina Logorño se ela me deixar sozinho, e...

A intensidade em seus olhos levou Raúl a intervir, a suspeita vincando sua testa.

— Mas não é verdade?

— Você me toma por louco?

Raúl se viu em um dilema, incapaz de pensar em uma maneira de dizer que seu mestre de fato parecia louco sem ser óbvio demais.

Enquanto Raúl hesitava, Cássel soltou um suspiro frustrado.

— Inês se cansaria de mim.

Raúl ponderou a implicação das palavras de seu mestre. Ele queria dizer que seguiria tais medidas extremas contanto que isso não a irritasse? Eram um reflexo de seus desejos mais íntimos? Piscando, Raúl coçou distraidamente o queixo, um sinal revelador de sua perplexidade.

— Invoque seu espírito inventivo. Canalize esse patife interior — instou Cássel.

Raúl o olhou sem palavras.

— Não importa se isso manchar minha imagem, contanto que fique claro que meu amor pertence a Inês e apenas a Inês. Você não precisa me pintar sob uma luz favorável — insistiu Cássel.

— Entendido, meu senhor — respondeu Raúl finalmente. — O senhor pretende declarar que essas mulheres não têm chance, independentemente do preço que isso possa cobrar de sua dignidade.

— Mas não exagere. Não posso deixar Inês ficar envergonhada por minha causa.

Num minuto ele instruíra Raúl a fazer o que pudesse, mas agora suas exigências estavam se tornando rigorosas. Isso era, no entanto, exatamente o tipo de coisa em que Raúl se destacava. Além disso, tudo isso era pelo bem de Inês.

— Deixe comigo, meu senhor. Começarei na missa desta semana.

— Muito bem.

— Devo informar Alfonso sobre isso e solicitar a ajuda dele? — perguntou Raúl.

Cássel deliberou brevemente antes de responder:

— Não. Ele tem agido como se tivesse jurado lealdade a Inês ultimamente, então... estou cauteloso.

— Foi exatamente o que pensei — concordou Raúl. — Não é estranho? Ele de repente é leal a ela como uma craca traiçoeira.

Mal sabiam eles que Inês nutria suspeitas semelhantes sobre eles ultimamente. Nem estavam cientes de como Alfonso oferecera obedientemente a ela uma resposta filosófica sobre como a vida era irônica e apenas ganhara risadas zombeteiras de Inês.


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