Capítulo 77 — Fofocas
Na tarde após a missa, Raúl escolheu três figuras entre os poucos criados de alto escalão que tinham permissão para comparecer ao lado da nobreza. O critério para sua escolha era simples: a posição social de seus mestres, a propensão de seus mestres para fofocas e sua própria tendência a fofocar. Assim, ele reuniu Sergi, o idoso criado do Subtenente Almenara, Mario da Casa de Maso e um outro indivíduo.
— Você parece bem hoje, Ballan — observou Mario.
— Isso parece improvável — respondeu Raúl, parecendo perplexo.
— Por que diz isso? Eu também acho que você está ótimo hoje — concordou Sergi, sempre rápido em concordar com qualquer um.
Raúl soltou um suspiro profundo.
— Isso costuma acontecer quando não estou me sentindo bem.
— Você fica melhor quando não está bem? — Sergi soou perplexo.
— Cada um demonstra de um jeito — insistiu Raúl. — Não preguei o olho ontem à noite. Já perdi a conta de quantos dias faz.
— Por quê? O que aconteceu? — perguntou Mario ansiosamente.
Raúl suspirou pesadamente mais uma vez, passando a mão pelo rosto antes de lançar um olhar exagerado ao redor deles. Era evidente que ele estava prestes a divulgar algo que não era para ouvidos curiosos.
— Coloco minha confiança em você, Don Sergi, e acredito que vocês, meus amigos, podem guardar um segredo, e é por isso que gostaria de confidenciar a vocês.
— Vá em frente.
— A atmosfera na residência Escalante azedou ultimamente — Raúl quase sussurrou.
— O quê?
— Lorde e Lady Escalante, o relacionamento deles...
Quando Raúl parou, os três homens simultaneamente voltaram o olhar para as figuras distantes do casal Escalante, depois rapidamente redirecionaram a atenção para Raúl, inundando-o com perguntas.
— Aqueles dois? Sério?
— Seus mestres, você quer dizer?
— Claro. De quem mais ele poderia estar falando?
Os três homens pareciam confusos. Era natural, já que o mestre e a mestra de Raúl estavam socializando alegremente com outros nobres, com os braços firmemente envolvidos um no outro.
Embora fosse um momento de socialização após a missa, eles ainda estavam dentro do lugar sagrado onde demonstrações públicas de afeto eram malvistas. No entanto, o casal Escalante parecia inseparável. Mais cedo no verão, rumores haviam circulado sobre como eles eram bastante compatíveis, mas seu comportamento atual ultrapassava isso de longe. Cássel Escalante olhava com adoração para sua esposa, mal contendo o olhar apaixonado, enquanto Inês Escalante se apoiava em seu peito, sua expressão terna enquanto conversava com o Capitão Noriega.
— Mas eles parecem estar em perfeita harmonia — comentou Sergi.
— É tudo fachada. Eles estão cientes dos espectadores — insistiu Raúl.
— Se estivessem preocupados com as aparências, não se envolveriam em tais demonstrações de afeto dentro da capela — murmurou o criado idoso.
Assim como o braço direito de Cássel, José Almenara, muitas vezes se mostrava inútil, Sergi, seu criado, oferecia pouca ajuda a Raúl naquele momento. Seus mestres eram igualmente inúteis, exibindo um afeto tão pronunciado um pelo outro naquele momento preciso.
O braço em volta da cintura dela e a mão acariciando casualmente seu estômago pareciam inocentes, e os dois pareciam perfeitamente à vontade. No entanto, a facilidade deles apenas ampliava a impropriedade do gesto.
Raúl quebrou a cabeça em busca de uma explicação convincente.
— É um fingimento elaborado, projetado para minar quaisquer histórias que circulem entre a criadagem da casa. — Ele fingiu uma expressão séria para transmitir que sua intenção era buscar conselhos de seus confidentes de confiança, não espalhar rumores.
Os três homens foram instantaneamente convencidos pela postura de Raúl.
— O que poderia ser, então?
— Talvez as indiscrições juvenis de Lorde Escalante tenham ressurgido?
— Ou poderia ser que Lady Escalante realmente tenha uma falha de caráter, exatamente como se dizia em Mendoza?
— Não é isso — disse Raúl rapidamente, lançando um olhar fulminante para Mario por trazer à tona aqueles velhos rumores sobre Inês, e depois soltou outro suspiro. — Eles tiveram uma discussão acalorada sobre ela voltar para Mendoza. Bem, não exatamente acalorada, já que minha senhora é composta demais para levantar a voz, mas...
Implicitamente, Raúl transferiu a culpa para Cássel Escalante. Os três homens olharam mais uma vez para Cássel.
— Foi Lorde Escalante, então?
— Ele nunca levantaria a voz para a esposa. Ele a preza profundamente demais.
Mario lançou a Raúl um olhar intrigado.
— Espere. Então, eles brigaram ou não?
— Geralmente, eles não levantariam a voz um para o outro, mas desta vez... — Raúl fez uma pausa, sua expressão traindo uma sensação de desconforto com a perspectiva de divulgar os assuntos privados de seus mestres. Ele parecia sofrer, como se estivesse pesando suas opções. — Vejam bem, não foi exatamente uma briga, mas minha senhora expressou descontentamento em viver em Calztela desde o início. Ela acabou nesta cidade apenas porque Lorde Escalante insistiu que ela se mudasse para cá com ele.
Sergi assentiu.
— Ah... Suponho que Calztela possa não ser do agrado de Lady Escalante.
— Isso é verdade, mas ela sempre foi bastante contrária à ideia de casais vivendo juntos em aposentos tão próximos — explicou Raúl.
— E quanto a Lorde Escalante?
— Ele conseguiu persuadi-la a ficar implorando e suplicando a ela... A obsessão dele por ela tem mantido o relacionamento deles. — Raúl balançou a cabeça, um gesto carregado de piedade.
— Lorde Escalante? Sério?
— Implorando e... suplicando?
— Ela só concordou em se casar com ele em primeiro lugar por causa dos apelos desesperados dele... oh. — Raúl cobriu a boca com a mão como se tivesse revelado demais.
Os olhos de Mario brilharam de curiosidade enquanto ele se inclinava para mais perto.
— Bem, isso é certamente diferente do que ouvi.
— E quanto àqueles sussurros sobre as dificuldades de Lady Escalante para garantir... quero dizer, para se casar com Lorde Escalante?
— Como estranhos poderiam compreender as complexidades do relacionamento de um casal? — Raúl apontou sabiamente, descartando os rumores com um escárnio. — Apenas aqueles a serviço deles detêm as chaves da verdade.
Raúl estava alegando que ele sozinho, como alguém servindo o casal de perto, conhecia a verdadeira história, e que todos os outros rumores eram bobagens.
— Lady Escalante agora se adaptou à vida em Calztela e se apegou a este lugar. Mas como uma nobre de alta posição, ela tem assuntos urgentes aguardando sua atenção em Mendoza. — Inês não teria responsabilidades significativas até que o Ducado de Esposa se tornasse seu domínio no futuro, mas esses homens não tinham como saber disso. — É por isso que ela deseja retornar a Mendoza por um tempo, mas Lorde Escalante se recusa a deixá-la sair de seu lado nem por um único dia.
— Suponho que ainda estejam envolvidos na felicidade conjugal. Mas isso parece um tanto extremo...
— Nem um único dia — enfatizou Raúl.
— Deve ser um exagero dramático.
— Ele disse que acabaria com a própria vida se ela o deixasse. Ele tem feito essas ameaças chorosas há vários dias.
Um momento de silêncio se passou antes que Sergi expressasse suas dúvidas.
— Certamente, deve haver outra razão. Isso parece improvável...
Raúl balançou a cabeça decisivamente.
— Não, tudo gira em torno da presença dela. Lorde Escalante insiste que não pode suportar um dia sem ela.
— Talvez o afeto dele pela esposa seja um toque excessivo — murmurou Sergi.
— De fato. O afeto do meu mestre pela esposa não conhece limites. Ouso dizer que ele perdeu o juízo — completamente apaixonado por ela.
✽ ✽ ✽
Hoje, o objetivo de Raúl era se envolver com a criadagem da Casa de Vicedo, uma das famílias proeminentes em El Tabeo. Ao chegar à Mansão Vicedo, ele foi conduzido à ampla mesa de jantar ao lado da espaçosa cozinha, onde os funcionários faziam suas refeições.
Rosa, uma criada com a idade de Raúl servindo a Casa de Vicedo, emergiu da cozinha carregando uma bandeja de frutas caras.
— Céus, Lorde Escalante realmente implorou a Lady Escalante para se casar com ele? — perguntou ela, seu tom uma mistura de descrença e intriga.
— Shh. — Raúl a calou com um gesto brincalhão, seus olhos correndo para os lados como se a alertasse contra bisbilhoteiros nas sombras invisíveis da escadaria.
Pressionando os lábios com um brilho curioso nos olhos, Rosa pousou a bandeja. Estava claro que ela havia roubado as frutas do prato de sobremesa da Viscondessa Vicedo. Raúl começou a se deliciar com as iguarias como se estivesse acostumado a ser tratado como um convidado especial.
Em Ortega, onde o clima era ameno o ano todo, as frutas eram algo que os servos podiam ocasionalmente pagar, mas aquelas fora de época eram uma iguaria reservada para seus mestres. Esse era especialmente o caso nos meses estéreis de inverno, quando nenhuma árvore dava frutos. Nem todos podiam pagar pelo luxo de uma adega subterrânea que pudesse preservar alimentos por meses, afinal.
Mas Raúl Balan parecia ser uma rara exceção. Ele estava acostumado a ofertas de uma bela bandeja de frutas onde quer que fosse, mesmo no frio do inverno. Além disso, ele frequentemente era presenteado com iguarias como carnes defumadas e pão recém-assado. Isso era prova de quão amado ele era entre os outros funcionários domésticos — governantas, cozinheiras e criadas igualmente. Seu status como valete da estimada Casa de Escalante lhe concedia tais privilégios.
O povo de Calztela conhecia a história do Almirante Calderon melhor do que o mito de fundação de Ortega, e Cássel Escalante, que entrara na marinha imperial seguindo os passos de seu avô, era tido em consideração semelhante ao príncipe herdeiro ou até mesmo a um filho de Deus. Como seu valete, Raúl era alguém próximo ao herdeiro da linhagem divina. Mesmo que vazasse a notícia de que iguarias destinadas a seus mestres encontraram o caminho para o prato de Raúl, nenhum nobre em Calztela repreenderia sua equipe doméstica por tratar o valete da Casa de Escalante com uma boa refeição.
A aura da Casa de Escalante não era o único fator em jogo. Raúl Balan possuía um charme que lhe teria garantido tais favores mesmo se ele tivesse sido o valete de um nobre menos conhecido.
— Quem diria que o casamento deles nasceu de uma adoração tão desesperada? — ponderou Rosa em voz alta.
Nunca Raúl imaginara que seu mestre o instruiria a espalhar tais rumores. Tempos drásticos exigem medidas drásticas, pensou ele. Seu mestre de fato parecia bastante desesperado e estranho ultimamente.
— Que romântico... Se alguém tão bonito me perseguisse tão desesperadamente, eu venderia minha alma para estar com ele — suspirou Rosa sonhadoramente.
— A que preço? Estou interessado, Rosa.
— Você tem dinheiro suficiente?
— Pareço não ter?
— Você é ridículo — repreendeu Rosa, seu tom traindo sua diversão. — Um verdadeiro mestre da conversa fiada, sabia?
— E você é uma mestre em acender falsas esperanças, Rosa — respondeu Raúl, sorrindo para ela. Ela deu um tapa no ombro dele timidamente.
De fato, Raúl tinha não apenas boa aparência e lábia, mas também a postura polida de um atendente de alto escalão, cativando sem esforço aqueles que encontrava, independentemente de quão casualmente se comportasse. Assim, não apenas ele fazia com que quem quer que estivesse falando se sentisse bem tratado, o sorriso amigável que ele oferecia livremente era um alívio bem-vindo em uma tarde agitada. Ele também tinha aquele ar de confiança característico de um homem que alcançara proeminência no início de sua carreira, o que era mais do que suficiente para ganhar o favor e o afeto das funcionárias de todas as idades, desde jovens mulheres como Rosa até cozinheiras idosas e até criadas mal saídas da adolescência.
— Seu mestre não era um grande mulherengo em Mendoza, Don Raúl? — interveio outra criada, a amiga mais próxima de Rosa, trazendo-lhe um pão de figo quente que ela aquecera secretamente no fogão.
Raúl agradeceu polidamente, aceitando o pão como se fosse um item precioso antes de responder:
— Isso tudo é passado agora. — A reputação passada de seu mestre era certamente problemática.
— Eu esperaria que um homem com a reputação dele escondesse uma série de amantes descaradas de sua casta esposa, muito parecido com Lorde Vicedo.
— Ele frequentemente é confundido com um mulherengo; sua boa aparência convida a tais rumores — concedeu Raúl com um aceno de conhecimento.
— Se fosse apenas uma questão de boa aparência, meu mestre não conseguiria atrair uma única mulher.
As duas criadas caíram na gargalhada enquanto sutilmente zombavam da falta de charme do Visconde Vicedo. Raúl fingiu não reconhecer o significado delas, saboreando o pão de figo com compostura tranquila.
— Não é isso que todos os homens com poder e dinheiro fazem? Eles nunca se satisfazem com apenas uma esposa.
— Suponho que o problema seja que meu mestre é exatamente o oposto — disse Raúl.
— Por que isso seria um problema?
— Confio que isso ficará entre nós. A devoção do meu mestre à esposa... beira a obsessão.
Raúl então procedeu a recitar a história que recontara uma dúzia de vezes — Sobre o quão obcecado Cássel Escalante era por sua esposa, seu longo e desesperado cortejo e proposta, finalmente conseguindo que ela se estabelecesse em Calztela depois de implorar e suplicar a ela, e como ele ameaçara se matar se ela partisse para Mendoza por apenas um dia, bem como o quão pateticamente dependente ele era dela.
Raúl, atento para preservar a honra de Inês, embelezou a narrativa um pouco mais, suavizando os tons mais sombrios da obsessão de Cássel com uma pincelada de fervor cortês. Para aqueles que amavam histórias românticas, os aspectos mais sombrios precisavam ser deixados de lado.
Ele, portanto, as presenteou com anedotas sobre como Cássel passava dias sem comer sempre que sua esposa estava doente para cuidar dela, como ele virava a casa inteira de cabeça para baixo quando ela apenas espirrava, como se pensasse que ela poderia morrer de uma doença pulmonar a qualquer momento, e como ele assumia voluntariamente os deveres dos servos por sua esposa, transformando a residência Escalante em um teatro de adoração. Segundo Raúl, Cássel era mais parecido com um servo devotado e um discípulo do que um senhor e marido. Ele também recontou os grandes gestos de Cássel, como comprar vitrines inteiras de uma joalheria na esperança de agradar sua esposa, regozijando-se com sua menor aprovação. Em suma, Lorde Cássel Escalante estava absolutamente apaixonado por sua esposa.
Embora esses relatos não estivessem longe da verdade, Raúl não pôde deixar de ser lembrado de que os comportamentos de seu mestre eram de fato bastante excessivos. No entanto, aos olhos daquelas extasiadas pelo charme e fascínio de Cássel Escalante, tais peculiaridades não importariam. Raúl conhecia o poder da boa aparência de seu mestre, e estava certo.
— Que tipo de nobre age como um servo para sua esposa?
— Um nobre que venera sua esposa — respondeu Raúl.
— Isso é incrível... Ele é o sonho de toda mulher.
— Como Lady Escalante pode ser tão indiferente a ele?
Segundo o conto de Raúl, Inês Escalante nunca quisera se casar com Cássel Escalante, e ela não estava interessada no fato de que seu marido era a obra-prima de Deus. Foi apenas através do amor desesperado, inflexível e unilateral de Cássel Escalante que o casamento deles se concretizara.
Pelo menos, essa era uma verdade firmemente acreditada pelas duas criadas da Casa de Vicedo neste momento. E também era verdade para aqueles nas dezesseis casas pelas quais Raúl já havia passado.
Ao longo de suas visitas, ele habilmente escolhera as conhecidas com línguas particularmente soltas, então era apenas uma questão de tempo até que a história se espalhasse por todos os cantos de Calztela. Viajaria para seus mestres, para outros servos, para os comerciantes visitantes e assim por diante.
— Lady Escalante é tão deslumbrante assim? — perguntou Rosa. — Ouvi sussurros sobre a beleza dela entre as nobres, mas é o suficiente para Lorde Escalante ser tão obcecado por ela?
— Indubitavelmente. A beleza dela é inigualável — afirmou Raúl com orgulho. Aos seus olhos, não havia ninguém mais bonito do que Inês. Sua firme convicção acrescentou credibilidade às suas palavras.
— Então, um homem que parecia improvável de se casar está agora enredado nas garras de uma trágica história de amor... Ele a ama ardentemente, mas ela nunca acreditará nele... — a outra criada recitou, tendo recuperado um pequeno romance que escondera debaixo da mesa. — E esse homem por acaso é Lorde Escalante, o homem mais bonito de todo o continente. Seu amor desesperado por sua esposa doente permanece não correspondido, e claro que ela é uma dama de beleza inigualável...
— Lá vai ela de novo.
Raúl sorriu, limpando algumas migalhas do canto da boca enquanto se levantava.
— Lembrem-se, isso fica entre nós. Coloco minha total confiança em vocês duas.
— Claro! Não ousaríamos falar sobre um assunto privado de nobres de alto escalão — asseguraram as criadas.
Raúl sabia que a lealdade delas era tão inconstante quanto os ventos. Nada era discutido com mais avidez entre os servos do que os assuntos privados dos nobres estimados.
Riscando mentalmente a Mansão Vicedo de sua lista, Raúl preparou-se para seu próximo destino: Mansão Corbert.
Oficialmente, ele estava visitando outras casas nobres para entregar presentes de Ano Novo. Mas por baixo dessa fachada havia uma agenda clandestina: a disseminação de sussurros sobre a fervorosa devoção de seu mestre à sua esposa.
Ambos, ele pensou, eram presentes por seus próprios méritos.
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