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Capítulo 88 — O Privilégio do Vencedor

— O que devemos dar de nome ao nosso filho? — murmurou Cássel.

Inês, imersa em seu foco no alvo, puxou o gatilho.

Bang!

O tiro retumbante perfurou a floresta. O final do disparo carregava um eco abafado, seguido por um farfalhar nos arbustos distantes.

— Esse foi um tiro impecável, Inês.

Fiel à sua promessa de assumir o papel de humilde servo durante a excursão, Cássel a aplaudiu ruidosamente. Ele a cobriu de elogios exagerados, mas sinceros, dizendo que ela era incrível, que a distância era incrível, que ela devia ser algum tipo de gênio para acertar algo tão longe na primeira tentativa, que deveriam fazer uma estátua de sua postura e colocá-la na entrada principal da academia naval em El Ledequilla, e assim por diante.

Além dos elogios e lisonjas do marido, Inês sabia que seu tiro havia atingido o alvo. Como caçadores experientes, ambos podiam reconhecer facilmente um tiro bem-sucedido pelo simples som do impacto.

Mas Inês achou sua confiança um tanto abalada após as repetidas falhas em seu primeiro dia de caça.

— Em homenagem à sua primeira morte bem-sucedida... — começou Cássel, passando um braço em volta dos ombros dela e chovendo beijos por toda a bochecha dela. Inês não lhe deu atenção, simplesmente permitindo-lhe acesso à sua bochecha enquanto prendia seu rifle de caça sob o braço.

Então ela se endireitou desajeitadamente, ainda olhando para o arbusto onde sua presa caíra, antes de caminhar em direção a ele.

— Eu pego para você, Inês.

— Quero ver com meus próprios olhos — insistiu ela.

— Por que você fala como se não confiasse em mim?

— Você pode esfaqueá-lo com sua lâmina e me dizer que foi meu tiro que o matou.

— Você acha que eu faria tal coisa?

— Sim, você não hesitaria, Cássel.

— Por quem você me toma?

— Um tolo.

A resposta de Inês foi curta e definitiva. Cássel apenas sorriu e a seguiu. Sua expressão dizia que a palavra dela era lei, e que ele não se importava nem um pouco com isso.

Inês tinha uma boa caminhada a fazer, pois atirara em sua presa de longe para pegá-la desprevenida. Ela se arrependeu de sua decisão de não montar em seu cavalo, enquanto Cássel, alguns passos à frente, logo abriu a vegetação rasteira densa.

— Esse foi um tiro limpo, Inês.

Era meio-dia agora, mas o orvalho da manhã ainda se agarrava a trechos da floresta intocados pelos raios do sol. Para garantir que as botas de montaria de Inês e seu único par de calças permanecessem imaculados, Cássel diligentemente limpava o caminho à frente onde quer que ela desejasse pisar.

Em uma floresta, era inevitável que alguma sujeira seca sujasse a roupa, e se molhasse, deixaria manchas difíceis. Era por isso que essas botas chegavam até os joelhos.

Inês olhou para as botas marrons de Cássel, que ficaram notavelmente mais sujas que as dela em apenas algumas horas. Seus cachos dourados cuidadosamente escovados e o resto de sua roupa estavam imaculados, e ainda assim suas botas pareciam que ele estivera caminhando pela lama de propósito. Eram momentos como esses que lhe rendiam o título de tolo aos olhos dela.

Como oficial da marinha, Cássel Escalante mantinha uma diligência implacável, e ele era especialmente meticuloso com a limpeza de seu traje. Ele era praticamente obsessivo.

Usar aquelas botas sujas pelo resto do dia seria, sem dúvida, uma experiência dolorosa para ele. Ontem mesmo, ele estava ocupado jogando água sobre aquele couro caro sempre que encontravam uma poça. E esta manhã, enquanto ela estava sentada na banheira, ele se acomodara na varanda e polira ambas as botas por um longo tempo, como se realizasse algum ritual sagrado.

Seu coração se aqueceu um pouco com a percepção da consideração dele para com ela, mesmo às custas de suas botas. Esta manhã, ela notara que as botas dele estavam consideravelmente mais sujas que as dela. Na época, ela se perguntara por que ele fora tão descuidado, mas agora, a razão era evidente. Apesar de sua obsessão por limpeza, ele estava disposto a ir a tais extremos por causa dela.

Mas o pensamento de seu gesto gentil desapareceu num piscar de olhos no momento em que Inês pisou nos arbustos.

— Santo Deus! Eu realmente consegui! — Involuntariamente ecoando Arondra em sua exclamação, ela se viu arrebatada por seu próprio entusiasmo.

Cássel caiu na gargalhada com o entusiasmo de Inês — algo que ele nunca vira antes. Exatamente como ela pretendia, ela pegara uma raposa com seu tiro. Parecia ter sucumbido instantaneamente, a bala encontrando seu alvo na garganta.

— Isso mesmo. Você a pegou, Inês.

— Nossa primeira captura do dia, não é?

O que ela realmente queria dizer era que ela fora a primeira a garantir uma presa hoje. Inês sorriu com alegria desenfreada. Ela nunca sentira tamanha exaltação com uma caçada bem-sucedida, mesmo quando caçava na juventude ao lado do irmão. Isso ressaltava o quão desapontada ela ficara com seus fracassos no dia anterior.

Eles só se aventuraram a caçar no final da manhã, tendo passado a maior parte da manhã com mais amor antes de se revezarem no banho e no preparo do café da manhã. Fazia apenas uma hora desde que partiram. Esta raposa fora a primeira presa que encontraram, então Cássel nem tivera a chance de atirar em nada, mas nenhum dos dois se importava com esse detalhe.

— Você está certa. Sem você, teríamos voltado de mãos vazias.

— É bastante considerável — devemos conseguir uma boa quantidade de couro.

— Sim, mais do que suficiente para Arondra.

— Devo reservar a próxima para Raúl, então?

— Você deve dar a próxima para mim. Por que priorizar Balan a mim?

Mas você está atrás de Arondra de qualquer maneira, pensou ela consigo mesma. A ordem dos presentes não parecia importar. Além disso, tanto Cássel quanto Inês tinham uma abundância de artigos de couro finamente trabalhados feitos por artesãos estrangeiros, bem como peles de todos os tipos no Castelo de Esposa.

— Bem, já que comecei com Arondra, pensei em pegar algo para o valete, depois para o mordomo...

— Enquanto Arondra merece consideração, Balan não.

— Por que a distinção?

Cássel acariciou o queixo, as sobrancelhas franzidas, enquanto olhava para a raposa.

— Sem perceber, pensei nela como sua criada pessoal de Perez.

Arondra passara a vida inteira no Ducado de Esposa antes de se mudar para Calztela para servir Cássel.

— Então talvez você possa dar isso para mim — concluiu ele.

— Não, é para Arondra.

— Inês, quando você rejeitar minha sugestão, pelo menos finja ponderar.

— Mas não há necessidade de sequer considerar.

— É precisamente por isso que peço que finja.

— Tenho sorte de ter atirado nesta raposa. Quem sabe qual será a qualidade do couro?

— Em outras palavras, você não quer que eu use nada menos que seu padrão de qualidade, já que me valoriza tanto, hmm?

Ele sorriu, distorcendo rapidamente as palavras dela a seu favor.

— Eu quis dizer que seria um desperdício dar a você quando você tem itens muito superiores à sua disposição, mas... claro, interprete como quiser.

— Mas não há nada como o couro de uma raposa que você mesma pegou.

— Pare com a lisonja.

— Mas é verdade. — O rosto dele brilhou com sinceridade, exibindo um sorriso radiante mesmo na sombra das árvores. — É verdade para mim, pelo menos, então, por favor, me dê algo que você caçou.

Ela o encarou sem palavras.

— Por favor, Inês?

Sem que ela soubesse, ele chegara perto o suficiente para se inclinar sobre ela e fazer bico para um beijo. Que cativante e irritante, pensou ela, levantando-se na ponta dos pés como se fosse beijá-lo. Em vez disso, ela mordeu a ponta do nariz dele de brincadeira.

— Muito bem, então. Você pode ficar com esta.

Ele não pareceu nem um pouco abalado pela mordiscada brincalhona dela e tentou se inclinar para um beijo. Girando nos calcanhares, Inês acrescentou:

— Você deveria estar satisfeito com a raposa de Arondra. Pare de tentar conseguir outro rabo.

— Inês... você entende o que "conseguir um rabo" implica?

— Entendo.

— Então por que me provoca tanto?

— Porque não me importa nem um pouco.

Ela não tinha motivos para ser atenciosa com os desejos dele, que podiam ser despertados por meras palavras ou respiração escapando de seus lábios. Não era como se ela pretendesse se envolver intimamente com ele o dia todo.

Enquanto Cássel pegava a raposa, murmurando sobre como ela era fria, Inês o deixou para trás, tratando-o como um carregador, e saiu dos arbustos.

Pouco depois, Cássel emergiu dos arbustos, seus lábios elegantes curvados em um sorriso deslumbrante, como se estivesse completamente satisfeito.

— Este é o primeiro presente que recebo de você. Estou encantado, Inês.

— Você esqueceu todos aqueles presentes de sua jovem noiva? E as incontáveis cartas de Perez? — perguntou Inês descaradamente, olhando em volta com uma sobrancelha erguida.

Tecnicamente, aqueles presentes que ela enviara na juventude não haviam sido escolhidos por ela; tinham sido mais como trocas comerciais entre a Casa Escalante e a Casa Valeztena. Da mesma forma, as cartas detalhando o amor não correspondido da jovem Inês Valeztena por ele continham pouca sinceridade.

Cássel soltou um escárnio divertido.

— Aqueles mal contam.

— Lembro-me de trocarmos alguns presentes quando nos casamos. E aqueles?

— Os presentes trocados entre nossas famílias também não contam.

— Mandei até construir uma área de lazer para você no jardim para que não jogasse xadrez sozinho — ela o lembrou.

— Não sou uma criança — ele retrucou. — Além disso, Arondra estava exagerando. É que... Eu estava com pressa para realocá-lo para nossa residência atual.

Quando ele começou a se explicar em um leve pânico, Inês não pôde deixar de cair na gargalhada.

— Eu sei. Você é perfeitamente sociável, Escalante.

— Você mandou construir um arsenal para mim — ele admitiu.

Embora tenha sido financiado pelas próprias finanças dele, Cássel deu crédito a ela por isso. Inês disse com um leve encolher de ombros:

— Não consigo me lembrar de nenhum exemplo no momento, mas tenho certeza de que comprei algumas coisas para você com meus próprios fundos. Não concorda?

— O fato de você não conseguir se lembrar de nenhum deles diz muito, mas... independentemente disso, este é o primeiro presente genuíno que recebo de você — respondeu ele, sua euforia palpável.

Inês se viu um pouco nervosa. Ela não conseguia se lembrar de ter selecionado pessoalmente um presente para ele.

O aniversário de Cássel Escalante era na primavera, e até se casarem, Inês não prestara muita atenção aos presentes que sua família lhe enviava.

— Você realmente é corajosa e incrível, Inês. Presentear seu marido com um troféu que você matou a tiros.

— Por favor, refira-se a isso como algo que cacei. Você faz parecer que cometi um pecado grave.

— Você é extraordinária. Verdadeiramente notável. O que devemos fazer com esta captura? O que devo mandar fazer? Mais importante, devemos erguer uma estátua sua em El Ledequilla.

— Reconheço minha habilidade, mas você está exagerando, Cássel.

— A marinha poderia se beneficiar de alguém tão talentoso quanto você.

— Quer eu nasça homem ou nasça em um mundo onde as mulheres possam entrar para a marinha na minha próxima vida, eu nunca levaria uma vida como a sua.

— Por que não?

— Eu nunca quero acordar de madrugada como você.

Mesmo enquanto Inês franzia o nariz com nojo do pensamento, sua mente permanecia no fato de que ela nunca dera um presente ao marido. Ela não podia acreditar que havia mais uma coisa que tinha que compensar.

— Por outro lado, suponho que nascer homem possa ter suas vantagens, contanto que eu não viva como você.

— Por que você continua pintando minha vida como indesejável?

— Porque sua vida é muito cansativa. Prefiro ser ainda mais indolente do que sou agora. Exatamente como os homens típicos de Mendoza.

— Não tenho certeza se conseguiria viver como um marica...

Ela soltou uma risada seca com as reflexões dele sobre ambos serem homens em outra vida. Enquanto isso, sua mente zumbia com pensamentos sobre o que ela poderia comprar para ele assim que chegassem a Mendoza. Ela precisava de algum pretexto, a menos que quisesse que o tolo abnegado à sua frente ficasse excessivamente extasiado.

— Vamos fazer uma aposta — sugeriu Inês.

— Que tipo de aposta?

— Vamos nos revezar atirando na próxima presa que encontrarmos. O perdedor deverá...

— Tudo bem. O vencedor terá a honra de nomear nosso filho.

Inês se viu subitamente sem palavras. Ela o olhou com uma expressão confusa no rosto.

— O quê?

— Ainda não engravidei.

— Estou ciente de que é prematuro... Ainda temos que descobrir o sexo da criança... — ele ponderou.

— Cássel, você nem me engravidou ainda.

— Então, proponho que o vencedor ganhe o privilégio de nomear nosso futuro filho. — Um brilho triunfante, nunca visto antes, dançou em seus olhos enquanto ele sorria brilhantemente para ela.

— Eu pretendia sugerir que o perdedor deve conceder o desejo do vencedor.

— Você é bem-vinda para prosseguir com sua sugestão; eu aderirei ao meu próprio curso.

Ele colocou a raposa no chão perto da árvore onde haviam amarrado seus cavalos e soltou o rifle de caça do ombro.

O cano do rifle de caça de Cássel se estendia pelo menos um palmo além do de Inês. Enquanto a arma que ele lhe dera era mais curta que a maioria dos rifles de caça, o dele ostentava um comprimento e circunferência superando o usual. O alcance de ambos os rifles era quase o mesmo, mas o forte recuo do rifle de Cássel era formidável. O peso da arma dele era muito maior também.

Inês se lembrou de como seu braço tremia apenas por segurar o rifle dele e mirar uma vez por curiosidade. Talvez o fardo pesasse mais sobre ela porque seu corpo não estava acostumado a tanta atividade física. Ainda assim, o rifle de Cássel provou ser notavelmente mais pesado do que o rifle de caça médio, então seu físico destreinado dificilmente era o culpado.

Ele deve estar realmente confiante em sua própria força para carregar aquele monstro por aí...

Não era como se a arma maior e mais pesada dele fosse muito melhor ou mais poderosa, e ela achava que a diferença minúscula no desempenho não justificava o peso. Ela observou enquanto ele habilmente levantava a arma pesada e mirava em um alvo.

— Inês, cuidado com os ouvidos.

Ela cobriu rapidamente os ouvidos, agora acostumada aos avisos dele. Ontem mesmo, ele pararia em seus esforços para cobri-la de admiração por sua resposta encantadora, dizendo que ela parecia incrivelmente cativante, incrivelmente bonita e coisas do gênero. Mas agora, ele nem se virou para olhar para ela.

A luz do sol acentuava o contorno esculpido de seu nariz, conferindo um ar de precisão ao seu perfil. De repente, um sorriso malicioso brincou em seu rosto concentrado, como se ele tivesse tomado uma decisão em questão de segundos.

Logo, o estrondo trovejante ecoou pela floresta enquanto a bala rasgava a espessa copa de galhos. A julgar por sua postura e mira deliberada, ela podia dizer que ele estava totalmente engajado na caçada hoje, ao contrário de ontem.

Em vez do cervo caído, os olhos de Inês foram atraídos para os dois pés dele, firmes e completamente imóveis, sem nem mesmo recuar meio passo. Ela olhou admirada.

Apenas um homem de imensa estatura poderia controlar o recuo punitivo de seu rifle. Não é à toa que ele nunca se cansava.

— Garanti uma morte também, Inês.

— Sem dúvida, garantiu.

Ela não começara essa aposta com a intenção de ganhar. Fora um pretexto para dar um presente a ele. Mas, de alguma forma, ele mudara isso para obter o privilégio de determinar o nome do futuro filho deles. De qualquer forma, Inês o deixou retomar sua perseguição fervorosa, voltando seus pensamentos para como poderia usar o couro de suas mortes para Arondra, Raúl e até Juana em Perez.

— São três.

Ela o olhou em silêncio.

— Ah, meu erro. Isso faria quatro agora, eu acredito? — Cássel lançou um sorriso na direção dela.

Inês sentiu sua veia competitiva subir. Ele conseguira acender o fogo que jazia adormecido dentro dela.

✽ ✽ ✽

— Oito a quatro.

Era óbvio quem ganhara. 

Inês sentiu uma pontada de irritação enquanto Cássel dispunha suas mortes na frente do pavilhão de caça e começava a contá-las. Era tudo em nome da justiça, desprovido de zombaria, mas isso só a irritava mais.

— Isso é incrível, Inês. Você disse que faz um tempo desde a última vez que caçou, não disse?

Ela não ofereceu resposta.

— Você sempre foi tão proficiente?

Ele até lhe fez um elogio sincero. E, de fato, ele estava certo. A maioria ficaria enferrujada depois de anos e anos sem tocar em suas armas. Mas, ao contrário de ontem, quando Inês ficara consternada com o quão enferrujada estava, hoje, ela aproveitara cada oportunidade com determinação resoluta. Seu sucesso hoje era semelhante ao de seu antigo eu em sua primeira vida, quando sua destreza estava no auge. Era uma conquista notável, considerando que ela saíra naquela manhã esperando conseguir uma ou duas mortes.

Com oito chances cada, Inês conseguira garantir uma morte a cada dois tiros — isso por si só era um feito impressionante. O mundo abundava de nobres inúteis de Mendoza que podiam disparar vinte rodadas sem um único tiro bem-sucedido durante a temporada de caça. Tudo o que faziam era se divertir, viajando por toda Ortega, e a caça servia como uma desculpa esfarrapada.

Pelo menos, ela superava aqueles tolos ociosos por uma margem considerável.

Mesmo os decantados campeões de caça entre aqueles homens precisavam de uma dúzia de tiros ou mais para garantir uma morte. Quando ela era a princesa herdeira, não tinha escolha a não ser aplaudi-los, fingindo admiração por suas habilidades medíocres. Este momento agora, no entanto, oferecia um contraste satisfatório.

Realmente, não havia como se comparar ao atual Cássel Escalante, que fora um caçador melhor do que ela desde que eram crianças, e também viajara o mundo como oficial naval. A cabeça dela estava ciente disso, mas seu coração era de mente estreita e cego por um orgulho insaciável.

Toda vez que ela falhava em atirar em algo, ele estava bem ali, e cada um de seus tiros fora um sucesso.

Um provérbio de Ortega ecoou em sua mente: "Quando nada está errado, olhar para baixo traz alegria, mas olhar para cima gera descontentamento."

Certa vez, alguém mencionara o ditado na presença dela, e ela respondera com desdém: "Se olhar para baixo o alegra, é apenas porque você é uma pessoa desprezível que encontra alegria na desgraça alheia. E se olhar para cima o deixa descontente, é apenas porque você é tolo e cobiçoso."

Ela não conseguia acreditar que era aquela tola gananciosa agora.

— Por que você está me encarando, Inês?

— Você me irrita.

Ela chutou uma pedrinha na direção dele, e ele desviou instintivamente. Então ele olhou para a pedra a seus pés com uma inclinação intrigada da cabeça.

— Você acabou de mirar esta pedra na minha direção?

Quando ela chutou outra nele em vez de responder, ele ficou parado e deixou que o atingisse. A pedra ricocheteou em sua bota e rolou para longe até que ele pisou nela.

— Por que você não desviou? — ela perguntou.

— Porque você pretendia que me atingisse.

Era tão exasperante que a sensação de derrota em que ela estava chafurdando pareceu derreter. Quando ela balançou a cabeça para ele em descrença, ele caminhou para frente, diminuindo a distância.

— O que está te incomodando? Fiz algo errado de novo?

— Não.

— Por que tão irritada, então? Hm?

A maneira como ele abaixou a cabeça e virou para lá e para cá tentando encontrar o olhar dela era tão carinhosa que a fez se sentir culpada novamente. Ela lutou com seus pensamentos. Ela não podia expressar as razões infantis que atormentavam sua mente: Porque você é superior? Porque suas habilidades de tiro superam as minhas? Admiti-las em voz alta a assombraria por noites a fio.

— A razão pela qual ajo assim é por causa da minha disposição desagradável, então é melhor não se aprofundar muito — ela finalmente respondeu.

— Mas eu quero saber.

— Não é nada.

— É como você se sente, Inês. Como pode não ser nada? — ele perguntou, as mãos segurando gentilmente o rosto dela.

Inês sentiu o peso das mãos dele em suas bochechas, instigando-a a encontrar o olhar dele. Não fazia muito tempo desde que ele se lavara, então seu toque estava frio contra a pele dela.

— Eu quero saber. Especialmente se for sobre como você se sente agora — ele persistiu seriamente.

Uma onda de vergonha a invadiu. Ela passara o dia fingindo não ser afetada e escondendo seu espírito competitivo. Ela não podia admitir sua irritação por perder para ele depois de todos os seus esforços. Não para o homem que estava tão preocupado com os sentimentos dela.

— Por favor, Inês? — ele implorou, cobrindo o rosto dela de beijos leves.

Ela sentiu o rosto corar, apesar da castidade dos beijos dele. Houve um brilho em seus olhos azuis assim que ele percebeu que ela estava corando. Inês reconheceu isso como um dos muitos sinais de que ele estava excitado. Mas Cássel permaneceu casto ao retirar os lábios dela. Era como se ele estivesse deixando claro que não se agarraria a ela quando ainda não sabia o que a irritara.

Incapaz de resistir ao apelo dele, Inês confessou:

— Porque... eu perdi. Estou irritada por ter perdido o jogo. Pronto, eu disse.

Os lábios de Cássel se curvaram em um sorriso enquanto ele provocava:

— Pensei que você fosse indiferente.

Inês balançou a cabeça, escapando do aperto dele.

— Eu estava apenas fingindo indiferença.

Ele riu.

— Que cativante. Você realmente é minha alegria.

— Você está me provocando? Acha divertido que eu tenha perdido?

— Não. Eu garanto, você foi muito bem. Especialmente considerando que já faz um tempo. Da próxima vez, você definitivamente...

— Nem cogite a ideia de pegar leve comigo na próxima vez. Não ouse me mostrar piedade.

Inês não suportava a noção de ele perder para ela de propósito. Isso apenas aumentaria sua frustração. Enquanto ela o avisava, Cássel riu e jogou os braços em volta dela em um abraço apertado. Ela se viu presa nos braços fortes dele, incapaz de se libertar.

— Inês, você sempre vencerá contra mim. E eu nunca serei capaz de superá-la — disse Cássel, pressionando um beijo terno no topo da cabeça dela.

Silenciosa e contemplativa, Inês levantou o olhar para encontrar o dele. Ela sentiu como se ele tivesse deixado algo de fora daquela declaração.


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