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Capítulo 89 — O Fim das Férias

— Não é um pouco cedo demais?

Inês deixou as pálpebras se fecharem e assentiu como se estivesse realmente ouvindo. O calor do braseiro que ele colocara mais perto da cama a deixava lânguida.

Cássel deitou-se ao lado dela e brincou com as mechas de seu cabelo preto, espalhadas pelos lençóis.

— Sempre imaginei que Ivana nasceria daqui a dois ou três anos.

— Como você sabe que será uma menina?

Inês murmurou, a voz grossa de sono. Cássel passara todo o jantar listando nomes em potencial para a primeira filha deles. Catalena, Rafaela, Alejandra, Natalia, Martina... Alguns deles já haviam sido escolhidos como os nomes de suas segunda e terceira filhas. Ele estava sendo bastante delirante, considerando que dissera que a ideia de ter apenas um filho era assustadora.

— Então três filhas e três filhos para equilibrar. Teremos seis filhos, então? — ela perguntara de brincadeira. Ele ficara pálido, murmurando algo sobre como isso a mataria. Ele parecera tão genuinamente aterrorizado com a ideia de ter tantos filhos que fizera Inês rir alto por um bom tempo.

— Tudo bem então, vamos ter apenas dois ou três.

No final, Cássel concordara com apenas dois filhos.

— Ricardo será tranquilo, porque puxará a mim, ao contrário de Ivana, que será exatamente como você.

E assim, Ivana e Ricardo passaram a existir sem nem mesmo terem sido concebidos, muito menos nascidos ainda.

Os dedos dele vagaram do cabelo dela para a palma aberta. Ele entrelaçou os dedos por um momento antes de sua mão percorrer o braço dela até o seio nu, acariciando-o levemente. Ela soltou um gemido baixo, os olhos ainda fechados.

Inês estava completamente nua deitada na cama, resultado de ele tê-la despido mais cedo, enquanto ele só estava sem camisa, que ela tirara dele. Eles haviam passado por outra rodada de amor antes de se deitarem juntos. O quarto estava quente o suficiente para ela não sentir frio, mesmo sem cobertor. Os olhos dele percorreram as curvas sutis dela como se estivesse estudando uma obra de arte antes de puxá-la para um abraço. Ele apoiou o queixo no topo da cabeça dela e semicerrou os olhos enquanto olhava para a fornalha antes de falar novamente.

— Não podemos esperar só mais um ano?

— Mesmo se eu engravidasse agora, a criança poderia não nascer antes do final do ano.

— E se mirarmos no próximo outono?

— Cássel, já temos vinte e quatro anos. Meus pais tiveram Luciano quando tinham dezenove...

— Inês?

Tudo o que ele ouviu foi a respiração regular dela.

Cássel puxou cuidadosamente o cobertor sobre ela e saiu lentamente da cama.

Ele caminhou até a parede, onde suas roupas estavam penduradas em ganchos. Abaixou-se para vasculhar sua bolsa no chão e tirou o pequeno recipiente de Tilidad. Mas em vez de tomar um pouco, ele simplesmente olhou para ele antes de conter um suspiro.

Ele não tomara naquela noite. Tinha certeza de que não mudaria nada, já que a chance de ela engravidar hoje era baixa, mas ainda estava preocupado com aquela noite.

— Eu realmente quero ter nossos próprios filhos agora.

Assim que a ouviu dizer isso, o futuro filho deles se tornou uma realidade em sua mente. Filhos? Nossos próprios filhos? A maneira como ela se referira a eles como seus filhos transformara a alegria dele em algo avassalador.

Ele só desejava ter um pouco mais de tempo.

Desejava poder cavalgar até Peral ele mesmo. Se ao menos pudesse tentar encontrar aquele médico ele mesmo, ou pelo menos ver por si mesmo que era impossível encontrá-lo... Se ele mesmo fosse quem gerasse os filhos, teria concordado com seis ou até uma dúzia, quantos Inês quisesse, mas infelizmente, ela teria que ser a única a dar à luz. Não havia garantia de que ela não teria outro daqueles derrames durante o parto.

— Não apenas um sucessor para fazer nossas famílias felizes, mas nosso próprio filho.

Mas Inês nunca dissera algo assim. Ela lhe mostrara aquela expressão pela primeira vez ao falar do futuro filho deles. Tomar mais remédio secretamente depois de vê-la assim seria um feito extraordinário. Cássel olhou para o recipiente de Tilidad por mais um momento antes de colocá-lo de volta na bolsa. Perguntou-se se deveria simplesmente queimá-lo, mas decidiu contra isso. Precisaria dele para as noites em que a gravidez fosse altamente provável.

Rezou para que sua interferência mínima fosse perdoada, nem que fosse apenas porque a mera possibilidade de ela morrer no parto era dolorosa demais para ele. Que Deus a protegesse, não importava o quê. Após a curta oração que repetia diariamente, Cássel se endireitou.

Naquele momento, um tiro ecoou à distância.

Um guarda florestal morava nas montanhas do outro lado do vale, mas o tiro soara na direção oposta. Mesmo se não fosse, era improvável que o guarda embarcasse em uma caçada àquela hora — o que significava que havia apenas uma explicação plausível.

Cássel olhou na direção do tiro com um olhar penetrante por um momento antes de olhar para a cama onde Inês jazia. Felizmente, seu sono permaneceu inalterado pela súbita perturbação.

Ele vestiu rapidamente uma camisa e um casaco. Então prendeu a velha espada do Almirante Calderon ao cinto e tirou a pistola da bolsa, inspecionando-a rapidamente. Enquanto estava na porta, Cássel lançou um último olhar para sua esposa dormindo pacificamente, o rosto banhado pelo brilho quente do braseiro, um leve sorriso agraciando seus lábios.

Assim que abriu a porta e saiu do chalé, qualquer vestígio do sorriso desapareceu.

Quando gesticulou em direção à extensão escura da floresta, vários soldados armados da Casa Escalante surgiram. Eles ficavam estacionados no antigo acampamento militar na orla do vale durante o dia e guardavam as fronteiras do vale à noite. Não deveriam ter se aventurado tão perto do pavilhão de caça do Almirante Calderon.

Cássel gesticulou para que alguns dos rostos familiares ficassem de guarda na cabana. Então passou por eles, e aquele que parecia ser o de mais alta patente começou a liderar o caminho. Aqueles que ele designara apressaram-se para ficar de sentinela na frente e atrás da cabana. O resto correu para se alinhar em fileiras organizadas e seguir Cássel.

— Vocês os capturaram?

— Pegamos dois. Um deles ficou gravemente ferido durante a perseguição, e os outros conseguiram nos escapar.

— Os outros? Quantos?

— Parecia haver mais dois, e eles se dispersaram para o nordeste. Nossos perseguidores estão em seu encalço; não demorarão muito.

— E quanto ao tiro agora mesmo?

— Foi disparado por nossos perseguidores.

— Então é altamente improvável que sejam caçadores das redondezas que invadiram acidentalmente.

— Estavam vestidos como tal, mas seus movimentos traíam um alto nível de treinamento.

Cássel designara alguns dos cavaleiros e soldados do Castelo de Esposa para patrulhar a área em caso de perigos, mesmo antes de sua viagem de caça começar, mas não desejara que fossem necessários. Ele frequentemente passava férias curtas aqui nas terras privadas de Pierre Calmas desde que fora nomeado para seu posto em Calztela.

Se não fosse por Inês, ele teria simplesmente vindo aqui sozinho, como sempre, sem nem pensar em tomar precauções. Afinal, este trecho de terra pertencera ao seu avô e permanecia isolado. Nem mesmo o Duque Escalante conseguia localizar este vale em um mapa.

— Pareceram surpresos com o número de soldados estacionados aqui, tentando escapar despercebidos.

— Presumindo que eu chegaria a Pierre Calmas sozinho, como de costume?

— Sim. Ou talvez com apenas um punhado de soldados.

Logo, chegaram a uma clareira um pouco distante da cabana. Os soldados haviam acendido uma pequena fogueira, iluminando a área onde os dois homens capturados estavam amarrados. Um deles estava de joelhos, a cabeça baixa, enquanto o outro jazia inconsciente no chão. As armas que carregavam estavam dispostas ao lado deles.

Cássel bateu levemente no rifle de caça no final da fila com a ponta da bota. O sentinela, captando a deixa silenciosa, deu seu relatório.

— Exatamente como o senhor esperava, senhor. Os rifles de caça que eles carregavam nos ombros não estavam carregados.

— Então, eram decorativos?

— Sim. Suas outras armas de fogo eram todas pequenas pistolas feitas em Derval.

O olhar de Cássel varreu os cinco revólveres alinhados no chão.

— Claro. Quando assassinos astutos como estes estão à espreita, furtividade e agilidade são suas principais preocupações.

O sentinela permaneceu calado.

— Mas estas armas são requintadas e caras demais para os plebeus de Pierre Calmas. — Cássel estreitou os olhos. — Isso deve significar que seu mestre está nadando em dinheiro, hm? — Seu olhar penetrante estava agora no intruso ajoelhado. — Você. De onde você vem?

O homem não ofereceu resposta.

Cássel olhou para o assassino quase desapaixonadamente antes de chutá-lo na cabeça. O intruso desabou no chão como seu camarada inconsciente e começou a se contorcer freneticamente para lá e para cá, tentando alcançar algo na barra da camisa com as mãos amarradas.

Era óbvio que ele estivera aguardando essa oportunidade. Cássel imediatamente pisou nas mãos dele, prendendo-as ao chão. Um grito estrangulado escapou do intruso enquanto seus pulsos se contorciam de forma não natural sob o pé de Cássel.

Cássel parecia determinado a quebrar os pulsos do homem, pressionando com mais força enquanto trocava um olhar com o sentinela. O sentinela prontamente avistou uma pequena agulha que caíra do aperto do intruso.

— Está envenenada, tenha cuidado.

— Já confiscamos todo o veneno que eles tinham. Não esperávamos que houvesse mais...

Embora pudessem não ser extremamente leais, assassinos que falhavam em suas missões frequentemente permaneciam fiéis aos seus empregadores, mesmo que isso significasse tirar as próprias vidas. Não importava o quanto tentassem permanecer vivos, a morte era inevitável, fosse pelas mãos de seus captores ou de seus empregadores.

Portanto, era preferível perecer, deixando para trás uma quantia miserável para seus parentes. Mesmo se não tivessem família, um fim rápido era mais desejável.

Cássel pressionou com mais força o calcanhar da bota, quebrando o pulso do homem completamente. Houve um curto gemido de dor. Cássel então chutou o ombro do homem para forçá-lo a ficar de bruços.

— Foi o seu pulso esquerdo que acabei de quebrar? Devo quebrar o direito a seguir?

— Por favor, apenas... me mate. Não tenho informações para o senhor de qualquer maneira...

— Não tenho inclinação para assassinatos sem sentido. É muito incômodo me arrepender. Simplesmente quero saber suas origens.

— Aargh! — gritou o homem com a dor súbita e inesperada. Cássel colocara o pulso quebrado do homem nas costas dele e começara a esmagar seus dedos com o calcanhar. As pernas do homem se debatiam impotentes sob ele.

— Mais uma mão e mais dois pés. Tenho que me dar ao trabalho de quebrar todos eles?

— Por favor, eu não sei de nada...

— Se o problema for o preço da sua vida, eu mesmo pagarei ao seu mestre. Mas você deve primeiro me revelar a identidade dele.

— Meu senhor, por favor...

Cássel estendeu a mão, e um cavaleiro próximo colocou uma espada nela. O cavaleiro estendeu a própria mão para segurar a bainha, mas Cássel golpeou rapidamente as pernas do homem com a espada, bainha e tudo.

O impacto provou ser severo, arrancando lágrimas dos olhos injetados de sangue do homem, a boca aberta em um grito silencioso. Estava claro que sua perna fora fraturada com um único golpe. Os queixos dos soldados caíram ao observar a postura estóica de Cássel.

— Não tenho desejo de fazê-lo sangrar. Isso estragaria meu traje. Fale enquanto lhe concedo misericórdia, porque não posso ser incomodado por muito mais tempo. Se a morte o aguarda, que ela o encontre em paz.

O homem soluçou em agonia.

— E pare de choramingar.

— Meu senhor, eu... eu realmente não...

— Sua lealdade não importará quando um de vocês quebrar. Todos vocês serão considerados traidores. Faça-me um favor antes que suas vidas sejam arruinadas. Seja o primeiro a divulgar suas origens e seu empregador. Então garantirei a segurança de sua família em Esposa antes que seu mestre saiba de sua traição.

O homem ficou em silêncio, perdido em pensamentos. Apenas o estalo do fogo pontuava o silêncio na clareira noturna cheia de soldados.

— Não tenho família... Então...

— Você deseja morrer de uma morte difícil. Entendo. — Cássel desviou o olhar para um dos cavaleiros. — Sir Herrera.

— Sim, senhor.

— Devo retornar para minha esposa agora. Assim que os perseguidores voltarem, dispam esses homens e enviem-nos para o Castelo de Esposa. Revistem-nos minuciosamente.

— Entendido.

Os soldados que haviam revistado os homens e confiscado suas armas mais cedo coraram de vergonha. Quase permitiram que o intruso se matasse porque não viram a agulha envenenada. Mas Cássel não os culpou enquanto continuava suas ordens.

— Vai demorar um pouco até eu chegar a Esposa. Até lá, tranquem-nos na masmorra e certifiquem-se de não matá-los enquanto os torturam.

— Sim, senhor.

— E Sir Armen, venha comigo.

— Sim, senhor.

Um jovem cavaleiro acompanhou Cássel enquanto ele corria de volta para a cabana. Não havia hesitação em seus passos enquanto ele deixava para trás a luz do fogo e cortava a floresta na escuridão quase total.

Cássel murmurou com uma carranca:

— Quem você acha que era o alvo deles? — Sua voz foi abafada pelo assobio selvagem do vento.

— Peço perdão, senhor, não entendi bem. Poderia repetir...

— Eu ou Inês?

— Oh... — Armen franziu as sobrancelhas em contemplação.

— Poderia ser qualquer um de nós. Há motivo para ambos.

— De fato, senhor.

— Mas como eles se infiltraram no campo de caça do almirante e tentaram perpetrar o ato secretamente...

O campo de caça do Almirante Calderon tinha significado simbólico. Era evidente que havia intenção política por trás da tentativa. Porque, se tivessem tido sucesso, o nome do almirante estaria inevitavelmente envolvido.

Calztela era, de fato, um cenário muito mais fácil para tal ato. A residência deles no topo da Colina Logorño era vulnerável, perfeita para disfarçar um assassinato como um acidente, lançando suspeitas sobre todos os presentes. Ao contrário do Castelo de Esposa fortemente guardado e da mansão do duque em Mendoza, a residência deles em Calztela não tinha um único guarda de serviço.

— Eles não tinham intenção de disfarçar como um acidente. Tinha que ser assassinato.

Quando aqueles homens chegassem a Esposa para serem interrogados, isso se provaria verdadeiro. Eles podiam nem saber quem os contratara.

— Quer tenham planejado assassinar nós dois e incriminar outra pessoa, ou simplesmente eliminar um de nós... Talvez o objetivo deles fosse lançar suspeitas sobre um de nós. Poderiam ter matado Inês e dirigido acusações contra mim como o culpado, ou vice-versa.

Armen soltou um suspiro baixo, prendendo a respiração involuntariamente.

— De qualquer forma, a suspeita sozinha poderia destruir a aliança entre as Casas Escalante e Valeztena. A vítima dependeria de quem eles pretendiam implicar. Ou talvez, eles apenas tivessem um rancor e quisessem matar um de nós.

Tanto a família de Cássel quanto a de Inês tinham uma história rica, o que significava que havia muitos adversários.

— Encontramos algo preso no interior do colarinho do homem ferido. Pode estar escuro demais para o senhor ver, mas...

— Apenas me mostre.

— É uma marca de visco que os identifica como soldados particulares do Duque Ilhar.

Na escuridão, Cássel aceitou o pequeno artigo.

Cássel passou a ponta dos dedos pelo pequeno artigo, mal discernível na escuridão, e o enfiou no bolso. O envolvimento do Duque Ijar poderia parecer altamente provável, considerando sua rivalidade contínua com o Duque Escalante, mas...

— Ilhar, hm?

— Sim, meu senhor.

— Eles certamente escolheram um culpado plausível.

Os pais dos atuais duques — o Almirante Calderon e o Duque Ilhar anterior — estiveram envolvidos em conflitos amargos por anos. Seus filhos certa vez prometeram deixar essa inimizade entre suas famílias para trás, fazendo um grande gesto de reconciliação diante dos olhos de toda Mendoza. No entanto, nem um ano depois, o Duque Ilhar atirou um peso de papel no Duque Escalante durante uma sessão do conselho, destruindo a ilusão de paz.

Para ser justo, o Duque Escalante tinha alguma responsabilidade por provocar o Duque Ijar, que geralmente era tão calmo e controlado, a tal explosão violenta. Até Cássel teve que admitir que seu pai era bastante dissimulado e propenso a pequenos atos de traição política.

O Almirante Calderon, desaprovando as tendências do filho, muitas vezes agarrava o jovem Cássel pelo ombro e o instigava a viver uma vida digna como ele. Ele dissera a Cássel que seu pai sem dúvida faria inimigos demais por questões inconsequentes.

No entanto, um mero rancor não poderia justificar ferir o herdeiro da principal casa nobre dos Grandes de Ortega — especialmente um ligado à imperatriz e ao príncipe herdeiro. Enquanto o povo de Mendoza, ciente da animosidade de longa data entre a Casa Escalante e a Casa Ijar, pudesse ser convencido, aqueles familiarizados com os dois duques inclinariam a cabeça em confusão. Os duques nem se desprezam tão intensamente quanto seus pais, pensariam.

— O senhor considera improvável que o Duque Ilhar esteja por trás disso, meu senhor?

— É desafiador determinar os verdadeiros motivos de alguém. Cada um tem uma bússola moral diferente. Há santos que poupam os culpados dignos de morte, enquanto alguns matam pela menor ofensa.

O culpado poderia ter explorado a rivalidade entre os duques, contando com a confusão que isso semearia. Cássel soltou uma bufada de riso ao lembrar da aparência desagradável de Dante Ijar.

— Ele era o único com tal marca?

— Sim, pelo menos entre os dois que apreendemos. Não tenho certeza sobre o resto.

— Parece orquestrado.

Armen aguardou a elaboração de Cássel.

— Para fazer parecer que um deles falhou em escondê-la, caso fossem apreendidos.

— Então, a marca foi colocada deliberadamente?

— Não sei se eles estavam mirando em mim ou em Inês, mas está claro que eles buscavam transferir a culpa para um indivíduo específico se falhassem ou fossem rastreados. Ijar.

— Há uma chance de ele ter planejado isso para fazer parecer que está sendo falsamente incriminado?

— Reputação negativa tende a soar como a verdade indiscutível, particularmente para aqueles de posição elevada. Considerando a disposição rígida do Duque Ijar, ele consideraria uma grave desonra ser sequer mencionado como um possível suspeito.

Armen assentiu.

— Desvendaremos a verdade no devido tempo. Atualmente, minha preocupação reside na situação entre nossos soldados. — Cássel se virou, de costas para o pavilhão de caça. — Quem mais sabe da marca da Casa Ilhar?

— Ninguém mais, meu senhor. Encontrei-a depois que o sentinela inspecionou ambos os homens e conduzi uma busca minuciosa para garantir. Consegui recuperá-la despercebido, já que ninguém estava prestando atenção no homem inconsciente.

— Presumo que você reteve essa informação por um motivo.

A testa de Armen franziu, como se lutasse com um dilema.

— Pensei ser prudente exercer cautela, meu senhor.

Cássel deu um passo à frente, sua altura apenas alguns centímetros maior que a do cavaleiro, mas o suficiente para exercer uma presença intimidadora.

— Você entreteve as mesmas suspeitas que eu, não foi? De que isso poderia vir de dentro.

Alguém devia estar observando-os em Calztela. Mas a criadagem da casa nunca poderia imaginar que eles estavam indo para um vale isolado aninhado no sopé das montanhas Pierre Calmas. Além disso, eles não sabiam que essa propriedade costumava pertencer ao almirante.

Este incidente não era um assunto interno confinado à vida deles em Calztela, mas algo que envolvia o Ducado de Esposa. Em algum ponto da linha de Cássel selecionando soldados para serem estacionados em Pierre Calmas, alguém deve ter ficado sabendo dessa viagem de caça.

— Você suspeita de um dos nossos?

— Eu... não tenho provas, meu senhor.

— Em outras palavras, você abriga suspeitas.

Armen ficou em silêncio.

— Alguém deve ter apenas dado a eles uma direção vaga na bússola, já que instruções detalhadas têm pouco significado aqui. Devem ter falhado porque não tiveram tempo de reconhecer a área.

Se Cássel não conhecesse um atalho pela floresta, não marcado nem mesmo por uma trilha, ele e Inês teriam chegado ao pavilhão tarde da noite no primeiro dia.

— Enquanto Sir Herrera torna a vida deles miserável, você deve ficar perto dele e vigiar o perímetro.

— Entendido, meu senhor.

Com isso, Cássel girou nos calcanhares e caminhou em direção ao pavilhão. Os cavaleiros de guarda na porta e em cada canto dispersaram-se silenciosamente.

Subindo os degraus para a varanda, Cássel removeu a munição real de sua pistola. Quando abriu a porta com um estalo suave, um calor acolhedor o envolveu, um forte contraste com o ar frio lá fora. O cheiro familiar de Inês o saudou, atraindo seu olhar imediatamente para a cama.

Ela ainda estava em sono tranquilo. Ele se preocupara que ela pudesse acordar na ausência dele, tremendo de medo por ser deixada sozinha no meio da noite. Mas suas preocupações foram em vão.

É tão diferente dela ter um sono tão pesado. E ela tem tanta dificuldade para acordar também, pensou ele consigo mesmo. Desaparecera a atitude meticulosa e distante que ela lhe mostrara no passado, ou sua personalidade assídua e temperamento sensível. Agora, ela se assemelhava a um gato preguiçoso, muito distante de todos os traços listados acima.

Parado na porta, ele olhou para ela com a adoração habitual. Mas ao desviar o olhar dela e entrar no quarto, todos os vestígios desse afeto deixaram seu rosto.

Ele guardou a pistola e pendurou a espada do almirante de volta na parede, uma lembrança querida. Ele a trouxera consigo apenas porque não tinha nada além de uma adaga de caça, mas a espada era uma lâmina fina demais para empunhar contra subordinados tão insignificantes. Era uma das favoritas do almirante. Cássel olhou para a espada, como se buscasse uma resposta, passando a mão por suas feições cansadas.

O Almirante Calderon legara esta terra, o segredo mais bem guardado e o refúgio mais seguro, a Cássel. Estendia-se por quase metade de toda a cordilheira além do vale.

O atual Duque Escalante ficara bastante chateado com a decisão do pai, argumentando que tudo o que ele possuía eventualmente cairia nas mãos de Cássel. Mas o Almirante Calderon descartara seus protestos.

— Esta terra é perfeita para um filho da Casa Escalante — dissera o almirante ao jovem Cássel. — Você encontrará consolo aqui. Talvez um dia, trará sua esposa e desfrutará de momentos de solidão livres de interferência.

— E o papai?

— Aquele inútil não precisa disso.

As memórias do tempo que Cássel passara aqui com seu avô enfermo aos cinco anos existiam apenas através das histórias dos cavaleiros que se juntaram a eles e das recordações de sua mãe, a quem haviam contado sobre aquelas viagens.

As únicas coisas de que Cássel se lembrava sobre seu avô eram pequenos fragmentos: o rosto enrugado do veterano perdido em reflexões nostálgicas perto da lareira, a forma curvada de seu avô enquanto terminava sua última peça de taxidermia, o sorriso que ele mostrava ao entregar ao jovem Cássel um pedaço de carne assada. Eram todas meras formas e cores que permaneciam em sua mente como pinturas inacabadas.

Em meio às recordações do tempo passado com seu avô, certas conversas se destacavam na memória de Cássel.

— Você se parece comigo, Cássel. É um sinal de que Deus não abandonou este velho. Só gostaria que você fosse um pouco menos bonito, para evitar tentações desnecessárias... Mas você se tornará um homem bom, ao contrário de Oscar.

— Papai disse que Sua Alteza se tornará um líder excelente.

— Apenas porque seu pai tem um julgamento ruim em tais assuntos.

— Mas ele disse que Sua Alteza é muito inteligente e que eu deveria obedecê-lo pelo resto da minha vida.

— Não admira que o menino já seja tão mimado quando sua tia e seu pai o cobrem de tais elogios. Ele não deve se casar com a filha da Casa Valeztena. Ele nunca deve exercer tal poder absoluto.

Cássel lembrava-se de olhar para seu avô em confusão.

— Às vezes, desejo que o filho de Cayetana fosse você. É um pensamento terrível, especialmente considerando sua própria mãe. Mas ouça, criança. As pessoas nem sempre nascem em posições adequadas para elas. Você será um grande homem, digno de sua posição, mas seu senhor pode não ser digno de sua lealdade.

— O senhor está se referindo ao... príncipe herdeiro?

— Mas Cássel, não abandone Oscar. Apesar de seus esforços, será difícil para ele encontrar verdadeiros aliados. Ele suspeitará até daqueles leais a ele. Ele não tem a capacidade de engolir seu senso de inferioridade e usar aqueles melhores que ele. Ele pode, portanto, testá-lo e abrigar suspeitas contra você por anos. Sem você, no entanto, ele estará completamente sozinho.

Cássel ouvira seu avô em silêncio.

— Lealdade não é sobre certo ou errado, Cássel. É um dever inato, um juramento cego. Oscar é aquele a quem você servirá. Mesmo que não cresça para respeitá-lo, fique ao lado dele em nome da Casa Escalante. Assim como trato aquele patético Valenza de Mendoza como o imperador de Ortega, em vez de como um mero genro.

— Isso não parece muito divertido...

— Você terá muita diversão com as mulheres, dada a sua aparência. Entende o que venho lhe dizendo? Sua aparência lhe proporcionará amplo entretenimento, então tudo bem que outros aspectos de sua vida sejam menos agradáveis.

— Mas Oscar sempre me intimida.

— Nesse caso, siga meus passos e aliste-se na Armada Império Ortega.

— O que isso fará?

— Você escapará da vista de Mendoza. Não terá que encontrar aqueles bastardos imperiais o tempo todo.

— Oh.

— Você muito provavelmente se sentirá da mesma maneira. Você puxou a mim, afinal.

Seu avô não poderia ter previsto como aquelas observações aparentemente casuais moldariam o futuro do menino. Ninguém apoiara a decisão de Cássel de entrar para a marinha — exceto, talvez, Inês.

Cássel tirou as roupas e vestiu uma calça limpa. Então lavou as mãos novamente antes de subir na cama ao lado de Inês, envolvendo-a com os braços sobre as cobertas. Ela franziu as sobrancelhas durante o sono, parecendo um pouco irritada. Ele plantou um beijo gentil nas sobrancelhas dela, achando a expressão dela cativante. Quando as feições dela suavizaram em sono tranquilo novamente, ele sentiu o coração palpitar.

Com o casamento de Oscar se aproximando em alguns meses, mensagens da mãe de Cássel e do Duque e da Duquesa Valeztena chegavam tanto à residência deles quanto ao quartel-general naval. O casal ducal instava Cássel a enviar a filha deles para Mendoza para a ocasião.

Ele estivera escondendo essas mensagens de Inês, relutante em apressar a partida dela. No entanto, ela soubera da notícia recentemente, graças à carta da duquesa que fora poupada de ser usada como lenha.

Agora que isso acontecera, enviar Inês para a Mansão Escalante em Mendoza seria definitivamente uma maneira de garantir a segurança dela. Embora o fato de ter começado com alguém de Esposa vazando informações o preocupasse, o incidente ocorrera em Calztela. Além disso, a Mansão Escalante na capital era ferozmente guardada para acalmar a natureza excessivamente suspeita de seu pai.

— Ainda odeio a ideia de me separar de você. E quanto a você? — murmurou Cássel.

Ele se perguntava se ela ainda não se importaria em se separar dele. Ela nutria algum afeto por ele agora, mas... Talvez ela sentisse uma pontada de tristeza. Mas como ela mantinha sua vida privada e pública separadas, seus sentimentos não influenciariam sua decisão.

Ainda assim, ele se agarrava à esperança de que ela se sentisse um pouco triste.

— Talvez eu simplesmente me aposente — ponderou ele em voz alta.

Dessa forma, ele poderia acompanhá-la aonde quer que ela fosse.

Seu desejo por ela o fazia querer negligenciar o senso de dever que ele incutira em sua mente inúmeras vezes em El Ledequilla. Mas ele sabia que não podia agir conforme seu desejo. E mesmo se não fosse pelo casamento de Oscar, que despertava pouco interesse nele, parecia prudente que se separassem por enquanto.

De alguma forma, Cássel estivera instintivamente certo de que ele era o único alvo, e que a presença de Inês em Calztela a colocaria em perigo desnecessário. Enviá-la para Mendoza confirmaria suas suspeitas.

Visar a filha da Casa Valeztena no coração da capital apresentaria desafios, mas Cássel sozinho em Calztela era um alvo fácil. Logorño era considerada segura devido aos numerosos oficiais que viviam lá, mas não havia guardas estacionados em suas residências, tornando-a longe de ser segura.

Se ele não fosse o alvo pretendido, ninguém tentaria prejudicá-lo, mas se fosse, esses tipos de ameaças persistiriam.

Nesse caso, não havia necessidade de envolver Inês.

✽ ✽ ✽

Cássel passou a longa noite observando o rosto adormecido de sua esposa, até que a pálida luz do amanhecer espiou pela janela.

Inês abriu lentamente os olhos quando sentiu a mão dele acariciando gentilmente sua cabeça.

— Cássel? Por que você já está acordado? — ela murmurou.

— Porque não quero desperdiçar o tempo que temos.

Suas pálpebras pesadas se abriram e fecharam novamente enquanto ela lutava contra a névoa do sono. Cássel plantou um beijo terno em suas pálpebras fechadas, silenciosamente instigando-as a descansar.

— O que você quer dizer? — ela perguntou.

— Você precisa voltar para Mendoza amanhã, Inês.


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