Capítulo 93 — Opinião Forte
— Ah. Agora que penso nisso, ouvi dizer que há muitos divórcios acontecendo em Calztela hoje em dia?
Houve apenas uma palavra que mudou o fluxo da conversa. As tardes de vinho em Mendoza às vezes vinham com este tema. A história de outra pessoa. Assim, seja o povo das 17 famílias honradas pertencentes aos Grandes de Ortega ou as pequenas figuras influentes de El Tabeo, às vezes só muda o lugar.
Se ao menos houvesse algo diferente...
— Em Mendoza já é moda há muito tempo. Onde esse mundo vai parar...
— Todos eles não têm dignidade e os "acidentes" são um desastre. O casamento é algo sagrado para ambos, um homem e uma mulher fazem um voto juntos diante de Deus. Agoara querem ficar de pé em um tribunal aberto, como todos os comerciantes e plebeus humildes, sem discernimento. - disse uma das senhoras.
— Embora o divórcio seja quase tão vergonhoso quanto a infidelidade e a traição... Especialmente se você é mulher, tem que considerar sua própria honra. Quem se casaria inocentemente pensando apenas em felicidade? Às vezes, é preciso suportar. — disse outra suspirando antes de completar: — O que você faz com esse rótulo de divorciada pelo resto da vida? É uma pena que só estejamos discutindo esse tema agora.
— É o que fazem as pessoas que não se importam com dignidade. São egoístas o suficiente para pensarem apenas em si mesmos, sem coração para com sua família e parentes...
— Além disso, é mais uma opção para aqueles que não tem nada a perder em primeiro lugar.
Deve ser aquele nobre sotaque estrangeiro refletido nas palavras, e aquele desprezo distante, como se um deus olhasse para os humanos lá do céu. Inês escutava a conversa desejando estar em outro lugar. Elas se consideram a elite mas são apenas sapos em um poço.
— Mas... e se ninguém a admirasse em primeiro lugar, como você reagiria? É dificíl ignorar a tentação da infidelidade e consequentemente, em alguns casos, o divorcio.
Olhando aqueles rostos com uma expressão sincera e triste, outras vezes fingindo desinteresse, era uma postura que Inês mantinha com elegância em qualquer situação.
Para Inês, que já fora uma delas e, em grande parte, o centro de tudo, aquilo parecia tão insignificante quanto uma pedra rolando no fundo de um riacho límpido.
Naquela época e agora, ela não estava particularmente interessada em conversas como essa, mas antigamente costumava exibir a expressão mais elegante entre todas. Bastava deixá-las falar sobre o que quisessem e mudar a conclusão para a direção que ela desejasse. Para fazer isso, não havia necessidade de agitar o leque com tanta força, nem de se esforçar para introduzir um tema nobre. Porque, para começar, ela nem precisava exercitar a língua.
Se você quer ser nobre, não deveria falar sobre isso em primeiro lugar. Inês baixou o olhar indiferente e levou uma taça de vinho cheia de água aos lábios enquanto escondia os olhos com as pálpebras.
Homens e mulheres, em Mendoza é tudo a mesma coisa superficial.
Seus pensamentos vagaram para outro lugar que não ali. Como apenas Inês vinha de Calztela, era óbvio para quem eles olhavam e a quem analisavam.
O mais óbvio é que, apesar da atitude pouco sociável de Inês, sua aparência na missa nupcial e no banquete daquele dia fora muito impressionante. Ela pensou em simplesmente dar uma cutucada para ver a reação.
Inês Valeztena mostrou um aspecto completamente mudado e depois desapareceu de Mendoza. A curiosidade sobre ela inflava sem fim agora mesmo.
— Não entendo. Marido em Mendoza, esposa na propriedade. Ou o marido na propriedade, e a esposa em Mendoza. Que vida tranquila é viver assim? Se não querem estar juntos, tudo bem não estarem. Esse é o segredo da longevidade do casamento Ortegano.
— Exato. Se você mantiver os problemas do casamento em silêncio e viver sua vida separada da do seu cônjuge, não há motivo para haver desagrados.
Alguém mais estava compartilhando suas experiências. Inês tentou lembrar a leve impressão daquela voz sem olhar para o rosto, mas parou porque a incomodava. Uma voz próxima falou:
— No passado, o divórcio era algo que os plebeus com dinheiro faziam de vez em quando. Servia apenas para dividir novamente os bens combinados de ambas as famílias. "Certo" ou "errado" é apenas uma desculpa para eles; a verdadeira motivação está sempre em algum erro no cálculo do dinheiro.
— Pessoas que têm família, mas não têm linhagem, valorizam o dinheiro acima da honra. Não há nada menos sério do que uma promessa familiar para gente tão vulgar que só entende de finanças.
— É um incidente vulgar que acabou alcançando até os aristocratas. Como se a paciência nobre não fosse mais uma virtude.
— É realmente inimaginável para nós.
Agem como se ter muito dinheiro não é nada para se gabar, mas são essas pessoas que se tornaram miseráveis mais rapidamente sem dinheiro em primeiro lugar. Nobres e baixa nobreza entre nobres. A abundância era em grande parte inata a eles e extremamente natural então não compreendiam a importancia de cada moeda.
Estejam ou não cegos pela especulação, reunidos com os plebeus que obtiveram essa riqueza 'insignificante' às suas costas. Também havia muitas pessoas que tinham uma corrupção "respeitável" que valia a pena manter ou esconder apenas devido a essa posição. Pelo menos em sua memória.
A corrupção é o resultado da ganância, e a ganância é desprezada porque parece desesperada. Era o mesmo princípio pelo qual desprezavam o amor. O desespero era como a fome. Uma sociedade que é tolerante com a infidelidade que se prolonga por vários meses, mas para a qual o divórcio é impensável. Misturar corpos com alguém que não fosse o marido ou a esposa não era um problema.
A menos que fosse amor. Se ao menos pudessem descartar casualmente até o amor e ocultá-lo. Era assim que os Grandes de Ortega perseguiam resolutamente o sexo oposto.
Inês pensou em como deve ter sido agradável para eles que ela tivesse partido com Emiliano, e como seria divertido que seu filho, que vivera na pobreza apenas meio ano, permanecesse neste lugar por muito tempo. Uma mulher que traiu o Príncipe Herdeiro, traiu sua família e se apaixonou por um homem a quem até os comerciantes, a quem chamam de humildes, desprezam. A Senhorita que foi outrora o orgulho de Valeztena.
Palavras como as arrancadas da beira da fuga, a pobreza e o desespero se anexaram ao nome e teriam vivido mais do que a própria vida dela. Provavelmente essa seja a razão pela qual ela nem sequer podia sorrir como em El Tabeo. A contradição e o orgulho são inseparáveis de qualquer sociedade aristocrática, mas a contradição de El Tabeo era bastante bonita se levada a sério. Pelo menos as preocupações e inquietações eram reais.
— Quase não há verdadeiros aristocratas naquele porto, então é óbvio... Oh, não pretendo ofender aqueles que verdadeiramente servem ao Império. Entre eles o jovem Duque de Escalante, o sobrinho de Cayetana, o Marquês de Barca, o jovem senhor das famílias Almenara e Vervik... Também, ocasionalmente, os filhos de famílias nobres colocam sua vontade sincera e se dirigem a El Ledequilla. Mas a plebe, todo mundo sabe, é dominante.
É detestável traçar uma linha dizendo que há exceções. As caras nuas dos homens de Calztela estão meio sujas, então não há por que se irritar, mas separá-los assim de Mendoza só arranca risadas.
— Se têm um nome, são filhos de ramos distantes que não podem figurar na genealogia de sua família de origem, e as mulheres com as quais se casam também são as mesmas. Em uma sociedade onde a maioria das pessoas que não tinham títulos para herdar nem terras para governar, e que tinham que ganhar a vida ganhando dinheiro com trabalhos de baixo nível como médicos e advogados, se tornaram soldados em busca de sua honra...
— De alguma forma, é natural que quando se reúnem pessoas de baixa qualidade, se produzam resultados de baixa qualidade. Como ocorreu o famoso divórcio de Calztela? Sua esposa informou ao jornal sobre a intolerância do marido?
Que tipo de expressão fariam com essas caras nobres se soubessem que a melhor linhagem liderou a coisa de "baixa qualidade"?, Inês pensou irônica.
Esses comentarios... transformar os maridos, que tem nome e linhagem mista, em meros engadores, e fazer do casamento uma fraude natural. Uma coisa tão tola.
Não sabiam que, no final, estavam cuspindo na minha cara.
— Quando o Almirante Calderon dirigia a marinha, Calztela era a cidade mais estrita moralmente; como a maré baixou tanto.
— Houve várias acusações desse tipo recentemente. Um homem foi acusado pela esposa de Mendoza e pela esposa de Calztela ao mesmo tempo.
— Esses homens sujos não têm desculpas, mas são as mulheres que não conhecem a vergonha. Se é a mulher de Mendoza, de qualquer forma não há por que acusar-lo da verdade; se é a mulher de Calztela... Não, já manchou a honra da sua família ao se tornar concubina. Ela tem mesmo que divulgar ao mundo? Se conhecia a vergonha, deveria tê-la levado a sério.
— Senhora Escalante, realmente há tantas amantes em Calztela?
Inês, que ouvia distraidamente, percebeu que alguém estava checando com ela uma pergunta. Inês levantou a vista e olhou fixamente para a dona da voz.
A melhor amiga da imperatriz, a Marquesa de Algaba. Mesmo na ausência da Imperatriz, ela era uma mulher que observava a "Princesa Herdeira" assim como os outros olhos da Imperatriz. É uma das poucas pessoas que pode evocar em Inês o cheiro nojento daqueles dias apenas olhando em seus olhos.
Todos olhavam em silêncio para o rosto de Inês. A Imperatriz, que estava tendo uma conversa diferente com outro assistente em um assento superior distante, também olhava para este lado. Isabella estava conversando com sua mãe, a Duquesa de Valeztena, perto da janela.
Como se estivessem curiosas sobre sua reação.
— Não muitas.
Inês descartou facilmente as expectativas da esquerda com uma resposta concisa. Apenas dois homens e quatro mulheres se divorciaram por causa dela, e Calztela tinha uma infinidade de oficiais e casais. Mesmo que a Senhora Salvatore, que se divorciou bem em seus próprios termos, ficasse de fora. Depois, houve vários outros casos de esposas acusando o marido de infidelidade, como se tivessem criado coragem.
O lamento pela situação continuou, ecoando o conservadorismo de El Tabeo. Era algo novo por lá, mas a arrogância dessa postura — que partia da premissa de que Inês estava "fazendo algo de classe baixa" ao ajudar nos divórcios — era particularmente repugnante.
— Mas ouvi dizer que houve apenas cinco ou seis julgamentos de divórcio. E metade deles eram casos de bigamia.
— Isso não se baseia na tendência vulgar de Calztela?
— Não. Baseou-se na promiscuidade de Mendoza.
Quando Inês respondeu com um sorriso pela primeira vez, a Marquesa de Algaba parou a mão que agitava o leque. Pensei que seria melhor manter a boca fechada, pensou Inês, mas enquanto olhava aqueles olhos, uma irresistível sensação de vitória transbordou. Ali estava o cão da imperatriz. A feia mão esquerda de Cayetana.
— Senhora, o que significa isso? — perguntou a Marquesa, ofendida.
— Foi difícil para todos nós concordarmos com o divórcio, mas cuspir na minha cara é ridículo. Agora que estamos falando de homens e mulheres, como pode ser que a culpa de outra pessoa [do marido] se torne a vergonha dela [da esposa]?
— ...
— No entanto, o casamento duplo [bigamia] é um crime que vai além de meras infidelidades. A lei nacional solene de Ortega pune severamente quem reduz uma esposa legítima a nada, mesmo que ela receba propriedades. Se você realmente se preocupa com a honra de sua família, não deveria tolerar que sua filha seja tratada pior do que uma mercadoria. Como ousa um genro, que deveria temer seu sogro, enganar a filha dele, fingindo que ela é esposa enquanto a trata como concubina?
— O que a senhora diz não está errado, mas é uma verdade dura.
— Sim, e como sabe, essas pessoas são descaradas mesmo depois de serem descobertas. Algumas dessas mulheres já colocaram o destino delas em minhas mãos, como todo mundo sabe. — Inês revela calmamente seu envolvimento no assunto tão debatido.
— ...
— Por isso digo que são esses criminosos [os maridos] que não conhecem a vergonha. Portanto, por favor, não use a palavra "vulgar" para descrever a vergonha de uma mulher que foi enganada.
Seus olhos se encontraram no silêncio desconfortável. Significava que Inês tinha uma opinião diferente da deles. Não era qualquer reunião social; era uma festa de vinho celebrada no quarto da Imperatriz.
Inês pensou que havia feito algo bastante ousado, mas não se arrependeu muito. Não defendeu desconhecidas; eram as mulheres que ela havia separado daqueles maridos inúteis com as próprias mãos. Elas ainda estavam sob sua proteção.
Então, pelo menos, não deveria ter permitido que fossem insultadas assim na frente de seus olhos. Mesmo que aquelas pessoas não soubessem o nome de nenhuma delas.
— Claro, se houvesse uma mulher que fizesse o mesmo que esses homens, seria uma sem vergonha, não é mesmo?
Inês passou levemente a ponta da língua pelos lábios e desviou o olhar com indiferença. No entanto, aquele olhar, que parecia desprovido de propósito, era, na verdade, carregado de significado.
Ela percorreu o recinto com os olhos: desde uma dama ali, famosa nos bastidores por ter vários jovens como amantes — aproveitando-se de ser bela mesmo sem um marido fiel —, até uma certa senhorita distante na sala, uma mulher engenhosa que desfrutava de relacionamentos promíscuos com todo tipo de homem casado e, ainda assim, conseguia manter os homens sob controle.
Alguns entenderam a indireta literalmente, sem capitar tudo, enquanto outros a receberam como uma intuição duvidosa. Inês sorriu levemente para uma mulher que parecia aterrorizada em cruzar seu olhar, e então fixou os olhos na Marquesa de Algaba.
A Marquesa de Algaba riu.
— ... É a coisa certa a se dizer.
— Devo ter contado uma história muito chata, Marquesa. Todo mundo parece entediado — disse Inês.
Todos olharam para elas com cara de desconcerto, mas Inês fingiu não saber. O constrangimento se aprofundou. Parecia absurdo para eles que a filha dura e mimada dos Valeztena, ignorante do mundo e simplesmente impiedosa, falasse como qualquer dama em um tom elegante, como se tivesse a língua untada de mel.
Ainda assim, a Imperatriz apenas observava a multidão com um rosto ilegível, e Isabella sorria feliz ao lado da Duquesa de Valeztena, que mantinha o rosto endurecido.
Talvez pelo menor senso de responsabilidade de incluir Inês na conversa, a Marquesa de Algaba respondeu de má vontade, com um sorriso.
— De jeito nenhum. Sempre vale a pena ouvir uma história de uma nova perspectiva. Talvez porque a senhora ainda seja jovem, parece estar tendo uma ideia um pouco... arriscada.
— Na verdade, sempre penso que sou antiquada. Sou conservadora, rigorosa e fechada demais, porque não tenho tolerância com os outros.
Suas palavras eram nobres, mas o conteúdo era tão radical quanto o de qualquer agitador, e ela era arrogante o suficiente para fingir que estava sendo conservadora.
O sorriso casual da Marquesa de Algaba se distorceu ligeiramente. Que tipo de merda ela vai dizer agora?
Como se fosse tímida, Inês franziu ligeiramente os lábios, sorriu e continuou:
— É exatamente por isso que sou tão rigorosa com os erros alheios. E, se minha postura causar algum desconforto, espero que a encarem com um coração generoso.
Com um coração "generoso"? — pensou Inês, observando a reação delas. — Aquele mesmo tipo de generosidade usada para fingir que não veem a promiscuidade dos maridos? Ou seria a generosidade de quem tolera tudo, desde que as noções inquietantes de castidade sejam mantidas?
Olhares confusos vagaram de uma pessoa para outra. O discurso escandaloso de Inês sobre generosidade soava como um pedido clichê de desculpas, mas, não importava o quanto tentassem analisá-lo, percebiam que havia camadas de significado oculto. Não importava o ângulo, parecia um ataque.
Não restava nenhum vestígio de expressão no rosto de Inês, que voltara à sua indiferença habitual. O problema, porém, era que sua polidez era tão fria que mal podia ser considerada civilidade.
— Acho que entendo o que quer dizer — interveio a Senhora Guimera. — Mas, como a Senhora Escalante ainda não conviveu muito tempo casada com o futuro duque, parece desconhecer a natureza da tribo masculina.
— Senhora Guimera, como eu disse, sou incapaz de pensar com essa "mente aberta" — respondeu Inês, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Tenho dificuldade em diferenciar o certo do errado baseando-me apenas na distinção entre homens e mulheres.
Um silêncio tenso se instalou.
— Adultério é adultério, e fraude é apenas fraude.
O que eu quis dizer foi: não se deem ao trabalho de tentar me persuadir. É óbvio.
Ter um passado ruim, às vezes, é muito útil. Ninguém se surpreende, ninguém se enfurece; Inês apenas os via suspirar, resignados, como se pensassem: "Bem, Inês Valeztena Escalante sempre foi assim..."
Houve um tempo em que ela era abertamente grosseira, mantendo palavras e ações rudes não importasse a situação. Se agora ela era cortês na forma, ainda que desrespeitosa no conteúdo, isso não seria uma evolução?
Por alguma razão, nem mesmo a Duquesa Valeztena parecia querer matar a própria filha naquele momento. Talvez a presença de Isabella logo ao lado a estivesse contendo.
Foi então que a idosa parente do Conde Gomez estalou a língua, quebrando o silêncio.
— É isso mesmo. Contanto que ninguém cometa um erro público, não haverá vergonha.
Ela era a esposa de José Almenara, assistente de Cássel, e avó de Lea Almenara. Alguns dias antes de partir para os campos de caça, Inês ouvira dizer que a senhora logo partiria para Mendoza. Lea Almenara, apavorada, já havia enchido a mãe e a avó — esta figura da alta sociedade — de elogios sobre Inês, numa tentativa desesperada de apaziguá-la.
Inês lembrou-se de como a garota tremia em sua presença e sorriu suavemente. Mesmo que não fosse pelo pedido da neta, aquela senhora era uma mulher que distinguia claramente o certo do errado.
— No entanto — continuou a idosa —, também é verdade que os comentários da Senhora Escalante minimizam a santidade do casamento. Pensei que a senhora fosse uma pessoa muito devota diante de Deus...
Foi nesse momento que a jovem filha do Marquês Karlsada teve a coragem de dizer algo, mas a imperatriz, que estivera observando Inês o tempo todo, de repente caiu na gargalhada, lançando uma palavra de admiração no silêncio onde a conversa fora interrompida.
— Ou seja, meu belo sobrinho está cego por uma mulher.
— ...
— O que vocês fariam se eu dissesse que vocês estão, na verdade, minimizando a situação? Aquele homem, que se manteve excepcionalmente fiel desde o início do casamento... É bem sabido, devido à sua aparência, que o Capitão Escalante está absurdamente apaixonado pela esposa. Todos esses rumores "frívolos" são verdadeiros.
— ...
— Mas o que se pode fazer para quebrar um juramento sagrado? Não existe casamento construído sobre uma rocha tão sólida quanto o deles. É amor.
Nessa sociedade, às vezes classificava-se como "absurdo" o fato de um marido se apaixonar pela própria esposa, como acrescentou Cayetana. Mesmo que uma esposa mudasse o comportamento do marido dessa maneira, não deveria ser considerado absurdo. Para eles, porém, o casamento costumava ser uma tática tão preciosa que o amor romântico era a última coisa a ser levada em conta.
Portanto, mesmo se alguém traísse, isso não significava simplesmente que havia renunciado ao amor. Eles costumam falar de fidelidade, lealdade, respeito e aparências.
Não é assim, Inês?
Por isso, falar de amor na frente deles não era uma fórmula muito bem vista. No entanto, Inês concordou com isso com um sorriso tranquilo.
— É isso mesmo, Sua Majestade, a Imperatriz.
Não importa quais fossem as intenções de Cayetana, os rumores de que Cássel Escalante estava louco por sua esposa foram professados pela boca da Imperatriz como verdades absolutas.
Também era verdade que Inês nem sequer estava em seu juízo perfeito.
Não sei como o boato se espalhou em Calztela e chegou até a corte de Mendoza...
No início foi um pouco incômodo, mas agora muitas explicações podem ser omitidas, o que é bastante útil. Basta saberem que Cássel Escalante e Inês Escalante são mais do que um casal comum.
Não havia necessidade de lidar com olhares curiosos desde o início. Aqui não é Calztela, e não há razão para que ela seja gentil com todos.
Graças a isso, pude pelo menos evitar que alguma fanática de Cássel Escalante me imitasse e se escondesse no quarto do casal antecipadamente, e pude matar pela raiz as ideias arrepiantes de se aproximarem de uma esposa que estava longe do marido com a intenção de conseguir algo.
— Então, não há com o que se preocupar. A prova não se faz com algumas palavras, mas com ações e tempo.
Era divertido, porque soava como se ela estivesse dizendo aos outros para se divertirem assistindo a Cássel e a mim, como se fôssemos um espetáculo. Inês tomou um gole de água, olhando diretamente nos olhos de Cayetana, que falava como se estivesse narrando uma peça.
Se algo como o incidente daquela tarde na cabana acontecesse em plena Mendoza, com todos dizendo "vejam só" dessa maneira... Num país onde todos os seus planos originais já haviam sido arruinados, era um risco que Inês não queria mais correr. Não era apenas uma questão de imaginação; em Mendoza, a situação nunca se resolveria de forma limpa o suficiente para que ela pudesse simplesmente abrir a porta no momento certo.
Era um mundo barulhento, onde quando Cássel Escalante fazia uma coisa, as histórias se multiplicavam umas sobre as outras. Ninguém se lembra do que um homem qualquer faz, mas com ele era diferente. Como resultado, aos olhos de Inês, a razão pela qual ele era um libertino tão "decepcionante" devia-se precisamente a esse exagero estridente. Ela pensara que ele fosse um grande "pano de chão" que arrastava todas as mulheres, mas, como a realidade sugeria, ele não era lá grande coisa. Apenas um trapo qualquer...
Logo que chegou a Calztela, imaginando que seria devorada por esse grande sedutor, o futuro se iluminara com tantas possibilidades de traição. Mas descobriu-se que, no campo onde passava a maior parte do ano, ele havia perdido bastante dessa fama; que decepção foi saber que ele só vinha a Mendoza uma vez por ano e só conhecia algumas mulheres... A autoconsciência dele como um grande conquistador provavelmente não passava de excesso de confiança.
No entanto, a decepção e o alívio eram, em última análise, responsabilidade de Inês. Assim como ela um dia não soube a verdade, o mundo também não a conhece. Especialmente os homens bonitos de Mendoza.
Teria sido o mesmo que naquela tarde. Mesmo se ele não tivesse tocado na intrusa, em Mendoza, Cássel teria sido pintado como um bastardo que se divertia com a amante no quarto da esposa e, depois de um tempo, o público estaria alardeando nas manchetes que havia pelo menos seis ou sete amantes entrando e saindo da casa do tenente Escalante.
Quem se importaria com a inocência de Cássel Escalante? Mesmo que a negação fosse verdadeira, não haveria obstáculo algum para a união "sagrada" e política deles. Podia-se imaginar que a filha dos Valeztena viveria um pouco em desgraça, mas apenas no senso comum dos mendocinos. Se fosse assim, qual seria o significado dessa tal inocência?
— Todos conhecem os velhos hábitos do meu sobrinho, e ele sabe melhor do que ninguém que os sentimentos entre um homem e uma mulher são temporários... — continuou a Imperatriz.
— ...
— No final, o tempo dirá. Seja o que for que ele sinta agora.
Bem. Tal inocência tinha significado apenas para Inês Escalante. Sempre teve. Tanto quando ela ousava pesá-lo como um bode expiatório para seus planos, ou, pelo contrário, agora que não conseguia colocar a cabeça dele na balança.
Era compreensível que Cayetana estivesse incomodada, já que era raro alguém responder ao chamado da Imperatriz de forma tão direta. No entanto, Inês não conseguia entender a razão pela qual a Imperatriz desmerecia a história de seu sobrinho, a quem tanto amava, apenas para humilhá-la ou diminuir seus sentimentos. Mesmo em suas memórias distantes, Cayetana sempre se preocupara com Cássel. Apesar daquela disposição cruel que apenas o próprio filho conhecia...
Mas Inês sorriu, fingindo não entender a insinuação. O sorriso que pairava no canto dos lábios de Cayetana se alargou ao mesmo tempo.
— Então, em vez dessa história trivial, tenho curiosidade por outras histórias de Calztela, Inês. Coisas como paisagens costeiras e navios.
Incapaz de expressar aborrecimento na frente da família real, Inês simplesmente pousou a taça e buscou uma palavra adequada.
A paisagem que dominava a costa a partir da Colina Logorño, as árvores floridas penduradas no caminho entre os muros de pedra das residências oficiais, a pracinha e o romântico centro antigo de El Tabeo... descrever tudo isso a deixava ainda mais cansada daquele lugar.
— Estamos ouvindo sobre a residência oficial pela boca de Inês, mas Cayetana, você já ouviu falar disso? — Isabella interveio oportunamente. — Cássel até mudou a residência dele para uma menor só para manter Inês mais perto. Pergunto-me se não foi o suficiente para ele levar essa criança para Calztela, teve que implorar e obrigá-la a passar a noite com ele...
Sem a ajuda natural de Isabella, estava claro que a descrição de Inês sobre as cores de tijolo do edifício do Quartel-General Naval teria saído sem alma.
Deus, aquele Cássel Escalante se agarrando a uma mulher, e logo à sua esposa, fazendo isso de forma tão patética... — era o que os olhares ao redor diziam.
Seguiu-se uma mistura de sinceridade e simulação no ar.
Eles se amam de verdade? Todos os olhos estavam reunidos ali pareciam perguntar isso. No entanto, Inês era uma pessoa egocêntrica o suficiente para ignorar unilateralmente qualquer quantidade de atenção que recebesse.
Graças a Isabella, Inês sorveu a água como se fosse vinho, aliviada.
Então, de repente, seus olhos se encontraram com os de Alicia Barca, que a observava em silêncio.
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