Capítulo 104 — O Altar de Obsessão de Alicia
— Sinto muito. Sinto muito, Oscar.
— Pelo quê?
— Se não fosse pelo filho mais velho dos Valeztena hoje...
Oscar limpava o suor de seus cabelos ruivos, encarando o próprio reflexo no espelho com um olhar sombrio. Ele despiu a túnica como se Alicia nem estivesse ali e a entregou ao criado atrás dele. Era sempre assim: ele raramente respondia às suas palavras.
Involuntariamente, Alicia fixou o olhar no corpo nu de Oscar, baixando a cabeça apressada quando ele se virou. Suas orelhas ficaram vermelhas de timidez — para qualquer outro amante, seria uma visão adorável, mas Oscar passou por ela em direção à janela sem lhe dar a mínima atenção, como fizera durante anos.
A luz do sol realçava os músculos das costas largas de Oscar. Alicia ergueu os olhos marejados para admirá-lo em segredo. Ele tinha um corpo muito mais imponente do que na última vez que o vira. Ganância, amor e um sentimento que não podia ser definido por nada além de uma obsessão avassaladora a preenchiam.
Só mais um pouco. No final, eu vencerei.
Ela queria colocar sob seus pés todos aqueles que a menosprezavam. Tudo que Alicia queria era continua a olhar para ele.
— Oscar. Meu Oscar.
Recordando o nome que não ousava pronunciar em voz alta, Alicia aproximou-se cautelosamente. Agora, ele não a afastava mais. Ele a desprezava, sim, mas não a evitava como antes. Ele não havia se enfurecido com ela hoje.
Desde a infância, o mundo dela orbitava ao redor de Oscar. Mais do que desejar amor, ela se contentava se ele apenas sorrisse para ela de vez em quando. Ela pensava: "Estaremos juntos para sempre. O amor pode vir depois". Ela desejava que ele fosse satisfeito, que qualquer coisa, da menor à maior, o fizesse rir — mesmo que não fosse para ela. Mesmo que fosse por outra mulher.
Até mesmo pela mulher que ela odiava a ponto de querer matar: Inês Escalante.
Alicia seguiu o olhar de Oscar pela janela e viu Inês. Após o jogo de Formente, Inês estava nas arquibancadas, conversando e sorrindo lindamente para o irmão.
— "Tudo bem se for apenas por um momento. Tudo bem se ele olhar para aquela maldita cadela", pensou Alicia, rangendo os dentes.
Por um segundo, Alicia imaginou a cena repugnante de Oscar e Inês emaranhados naquela cama, exalando calor. Era nojento... mas, ao mesmo tempo, uma parte dela aceitava isso. Ela odiava os olhos verdes de Inês que a olhavam de cima, odiava o corpo voluptuoso que Inês possuía — para Alicia, o corpo de Inês era "vulgar", feito apenas para satisfazer os desejos de homens ou "aquecer a cama".
Se Oscar queria aquele corpo "saboroso", ele deveria tê-lo. Oscar era um homem precioso que merecia tudo o que desejasse.
Alicia lembrou-se de uma conversa passada com Oscar:
"Eu farei qualquer coisa que Vossa Majestade desejar — dissera ela. — Por favor, não me veja apenas como uma mulher qualquer que o deseja..."
" ... Qualquer coisa?" — perguntou Oscar.
"Sim. Qualquer coisa. Apenas acredite no meu amor. Uma lealdade como a de um cavaleiro que morreria por seu mestre..."
Ele sorrira para ela pela primeira vez, como se a achasse adorável em sua ingenuidade.
"... E se eu quiser outra mulher além de você?"
"Eu serei a mulher que se tornará a esposa da família real — respondera Alicia com firmeza. — Contanto que o senhor mantenha as formalidades comigo, eu terei a dignidade de tolerar qualquer número de amantes que o senhor precise para satisfazer seus desejos."
"Mesmo que eu ainda queira Inês Valeztena?"
"..."
"Aquela sombra sobre a sua cabeça, do começo ao fim, Alicia. A filha dos Valeztena que sempre faz você parecer trivial. Ela é a única mulher que eu realmente quis."
Oscar a estava testando. Alicia não se chocou; sua vontade de que Oscar tivesse "tudo o que deveria ter" era maior que seu ciúme pessoal.
Ao olhar para Inês lá embaixo, Alicia sentiu as pontas dos dedos esfriarem ao lembrar da humilhação do dia. Inês ousara rejeitar Oscar publicamente. Ela ouvira a voz altiva de Inês dizendo às damas: "Eu já recusei... Não quero fazer nada por homem nenhum que não seja meu marido".
Alicia queria esmagar aquela arrogância. Ela sentia nojo só de imaginar Inês nos braços de Oscar, mas, ao mesmo tempo, desejava que Inês fosse destruída. Queria que aquela fidelidade ridícula de Inês por Cassel fosse quebrada. Queria ver Inês descartada como uma prostituta à beira da estrada, para que finalmente Inês não fosse nada para Oscar.
Alicia bateu os dentes nervosamente, um hábito de infância.
— "No final, eu serei a esposa dele. Não importa se ela é a filha de Valeztena ou a esposa de Escalante... ela terminará como nada mais que a amante de Oscar. Ela estará sob os meus pés."
Ela lembrou-se do que Oscar lhe dissera quando aceitou o noivado:
— Sinto muito, Alicia. Eu ainda não preciso de você.
— ... Isso significa que precisará de mim algum dia?
— Sim.
— Eu só preciso que Vossa Alteza segure minha mão algum dia. Não agora... mas um dia...
— Depois que Inês se casar.
Alicia sempre soube que, se Inês Valeztena não tivesse se casado com Cassel Escalante tão tarde, o seu destino já estaria selado. Ela se sentia amargurada; Mendoza era um lugar implacável para uma órfã como ela, que perdera os pais em um acidente súbito. Se não fosse por seu valor estratégico para Oscar, ele teria dito "não" ao noivado sem hesitar, pois Oscar exigia apenas o melhor.
— A única mulher que ainda tem significado para mim é Inês, Alicia — disse Oscar, com sua habitual frieza. — Sem ela, você não tem utilidade para mim.
Aquelas palavras cortavam, mas Alicia as aceitava. Ela orbitava ao redor dele como um satélite. O mundo inteiro sabia que Oscar a rejeitara a vida toda, mas foi ele quem a acolheu quando a Imperatriz Cayetana quis descartá-la.
— Eu... eu deveria ter servido à Lady Inês adequadamente hoje — murmurou Alicia, fingindo arrependimento. — Se eu tivesse me esforçado mais... mas não me senti desconfortável, Majestade. O gesto de compartilhar a coroa... não tinha o significado que ela imaginou.
— Inês foi apenas sensata — interrompeu Oscar, com um sorriso gélido. — É por isso que eu sou o "esquisito" e você é a minha mulher sem brio.
— Não me importo com nada disso, contanto que eu possa ser sua esposa — Alicia agarrou o pulso dele.
Oscar a observou com olhos distantes antes de sorrir de forma doce e severa.
— Certo. Você é o meu fardo.
— Da próxima vez serei mais cuidadosa. Tive medo de agir demais e arruinar a face de Vossa Alteza. Por favor, perdoe minhas falhas por não ter convencido Inês a aceitar sua vontade...
— Não há nada a perdoar, Alicia. Pois eu já sabia que você era uma mulher medíocre.
Alicia estancou. Oscar continuou sorrindo:
— Como você poderia convencer Inês? Ela é uma mulher inteligente. Ela não entrega sua dignidade de forma tão barata quanto você. Ela nasceu para ser arrogante.
Ele envolveu o rosto de Alicia com as mãos, em um gesto que parecia carinhoso, mas era opressor.
— Você não precisa superar suas diferenças inatas. O que lhe falta tem significado justamente por estar ausente. Sua persistência cega e devotada é sua melhor característica. Você sabe sacrificar os outros pelo que deseja.
Oscar apertou o queixo de Alicia com força, mudando o tom:
— Mas faça os cálculos novamente. Não se iluda achando que pode controlar Inês. Você a chama de "Inês, Inês" de forma tão polida, como se fosse capaz de colocá-la sob o seu comando.
O sorriso desapareceu.
— Que ousadia.
— ...
— Você será minha esposa, Alicia. A mulher mais nobre de Ortega ao meu lado. Mas entenda: colocar você no lugar mais precioso não significa que eu entregarei a coleira de Inês nas suas mãos.
— Certamente... a coleira deve estar apenas nas mãos de Vossa Majestade — sussurrou Alicia, aterrorizada.
— Exato. Ela deve estar na minha mão. Minha dama. Minha esposa. Minha Inês.
Sentindo o impulso de ferir Oscar de volta, Alicia decidiu contar a verdade sobre o que ouvira lá fora.
— Majestade... Inês não usou a coroa de Luciano apenas por consideração a mim. Ela disse que não queria fazer nada por homem nenhum que não fosse o marido dela.
Oscar estacou.
— Ela professou o seu amor por Cassel Escalante na frente de todas as senhoritas.
Uma rachadura surgiu na calma de Oscar. Alicia sentiu um prazer sombrio ao ver o desespero dele. Ela continuou, provocando:
— Teria sido melhor se o senhor tivesse impedido o casamento. Ou se a tivesse tomado à força antes, para que ela não pudesse se casar com Cassel. Assim, ela seria completamente sua, de corpo e mente.
Oscar voltou-se para a janela e sorriu de forma oblíqua:
— Não. Inês deveria ter se casado desde o início.
— O quê?
— Ela é inteligente e sua memória está cada vez melhor. E ela precisa do sobrenome de um marido honrado.
Alicia não entendeu de imediato. Oscar concluiu com uma malícia profunda:
— Afinal, não se pode dar à luz ao filho ilegítimo do Imperador sendo uma virgem, não é mesmo?
Alicia sentiu o sangue fugir do rosto. Ela entendeu que Oscar planejava engravidar Inês enquanto ela estivesse casada com Cassel, para que a criança passasse por um Escalante ou apenas para destruir a honra de Inês da forma mais suja possível.
Isso era amor. Um amor terrível que nem a morte poderia perdoar.
✽ ✽ ✽
Inês segurava a carta com força. O perfeccionismo patológico de Raúl havia desaparecido; as rasuras no papel eram a prova cabal de sua urgência e pavor. Normalmente, ele reescreveria uma página inteira do zero antes de enviar algo com um único erro, mas desta vez, ele sequer se importou em ser limpo.
[“Prezada Senhora Inês Escalante de Pérez.
Por favor, perdoe este servo desleal. Meus pensamentos foram curtos. Esqueci, por um momento, que o julgamento não pertence ao meu domínio.
Eu deveria ter vigiado o Senhor — não, eu deveria tê-lo observado e reportado tudo exatamente como aconteceu... Sinto muito. Inês, por favor, perdoe-me. Sou um cão que sempre desejou apenas a felicidade de vocês dois, não, um cão fiel...」
Havia uma linha riscada sobre "cão" e duas sobre "cão fiel". Inês sentiu um desprezo amargo.
Rato maldito. Deveria ter sido honesto desde o início.
Sem perceber, ela aplicou força e amassou o papel. A carta seguia com um banquete de desculpas intermináveis, palavras inúteis feitas para ganhar tempo e implorar por simpatia. Ela pulou as partes onde ele choramingava sobre seu passado.
「...O que significaria a vida de Raúl Ballan, renascido pela graça de Inês Valeztena, se não fosse pelo seu trabalho? Minha vida lhe pertence. Foi a senhora quem me deu este nome; até o sobrenome Ballan foi dado a este mero órfão por suas mãos. Se não fosse pela senhora, eu estaria roubando nas ruas agora...
Por isso, o que a paz e a segurança do Senhor Cassel Escalante significariam para mim, se não fosse por você? A felicidade dele é a sua felicidade, e a paz dele é a sua paz...」
— Ah, poupe-me... — murmurou Inês.
Ela sentia um novo senso de traição. Seu "cão fiel" agora dividia sua lealdade com Cassel, a ponto de esconder a verdade dela. Sua mente, antes turva pela dúvida, agora estava fria e afiada. Ela já sabia o que encontraria, mas ver a confirmação era um golpe diferente.
「...Como eu poderia ignorar o perigo de que a senhora se tornasse uma viúva? No entanto, o Senhor realmente só se importa com a senhora. Ele seguiu sua própria vontade... Mais do que eu ouso fazer pela senhora, ele faz por si mesmo. O Senhor decidiu, e este servo humilde não ousou desobedecer ao coração dele.
Acreditei que seguir a decisão dele era o caminho para proteger a minha mestra. Se a senhora já não tivesse percebido a verdade, eu teria mantido minha boca fechada até o fim, seguindo as ordens dele. Por isso, mesmo que não possa me perdoar, imploro que entenda o coração do Senhor.」
Inês não conseguia mover os lábios. Suas mãos tremiam violentamente enquanto ela avançava para a parte final, onde o veneno e a verdade se misturavam.
「...Rezo para que a verdade não cause discórdia entre vocês. Não houve mentiras nos meus relatórios anteriores, apenas uma única omissão. Naquela noite em que o Senhor foi baleado pelo intruso...」
— Esse estúpido... — sussurrou ela, com a voz embargada.
O sangue parecia ter secado em suas veias. As pontas de seus dedos ficaram gélidas.
Um ferimento de bala. Foi realmente um tiro.
Enquanto ela encarava o tédio de Mendoza como uma punição, enquanto sentia falta de sua casa e pensava em Cassel com uma ponta de saudade... ele estava sangrando em segredo. Ele quase morrera, e a fizera acreditar que tudo estava bem.
「...Os relatórios dos dias seguintes foram baseados na realidade. O Senhor não apenas proibiu que a senhora soubesse, como agiu como se nunca tivesse sido ferido. Ele não teve problemas com o trabalho ou treinamentos. Eu apenas relatei o que vi: ele agindo como se estivesse ileso, escondendo a dor apenas para não perturbar a sua paz.”」
— ...
Inês sentia os dentes trincarem. A raiva borbulhava em seu peito conforme lia os detalhes da teimosia autodestrutiva de seu marido.
「Ele parece tão resoluto em relação aos próprios ferimentos que mal demonstra dor. A razão para ele ter escondido o ferimento de bala de forma tão minuciosa — mesmo dentro da residência oficial, onde a invasão daquela noite quase o derrubou — foi para preparar o seu retorno a Calztera, senhora. Ele temia que, se a senhora soubesse da falha na segurança, os funcionários a tratassem com uma cautela excessiva ou que a senhora perdesse o encanto pelo lugar.
Nem mesmo Arondra sabe sobre o tiro. A hemorragia e o tratamento foram feitos imediatamente por ele mesmo. O Capitão Maso chegou depois e lidou com o intruso. Apenas José e eu vimos a cena, e mesmo Jose acredita que o Senhor saiu ileso, sem um único arranhão」
Ele não ousou chamar um médico.
Ele não se permitiu descansar por um único dia. Ele escondeu as feridas de Arondra e permaneceu vigilante, mesmo sangrando. Seu corpo ferido não teve um momento de conforto em sua própria casa — em lugar nenhum do mundo.
Naquele lar que Inês considerava pequeno e pacífico...
Enquanto ela sentia falta do som das ondas e acreditava que aquela casa era o lugar mais seguro do mundo, Cassel estava lá, sangrando em silêncio.
Inês pressionou o canto dos olhos, tentando conter as lágrimas de puro ódio. Ele ousara fazer aquilo apenas para mantê-la na ignorância.
— Eu odeio você, Cassel Escalante. Eu simplesmente não suporto isso...
Ele fez tudo isso para que ela não ficasse nervosa? Para que ela não se preocupasse? Que lógica era aquela? Inês sentia que tinha o direito de se preocupar por ele. Um dia, ela se sentira radiante apenas por segurar a mão dele quando ele se machucara levemente; agora, descobrir que ele levou um tiro a fazia sentir-se uma completa idiota.
Como você pôde fazer isso comigo? Como pôde me deixar aqui em Mendoza, pensando que você estava seguro, enquanto você escondia a própria morte de mim?
「Tarde da noite, houve um estrondo no segundo andar. Tiros ecoaram no momento em que subíamos as escadas. Quando cheguei ao topo, o Senhor já estava sozinho no terraço. O intruso fora empurrado após uma batalha feroz.
O quarto estava horrivelmente coberto de sangue, como se uma carnificina tivesse ocorrido sobre a cama. Pela cena, seria um milagre se ele tivesse sobrevivido com apenas dois ou três ferimentos, mas não havia sequer um arranhão menor, exceto pelo tiro que ele levou de raspão na lateral do corpo.
Ele foi dramaticamente rápido ao se esquivar no último segundo. Não é realmente impressionante?」
Inês sentia que ia enlouquecer.
「Ele disse que houve uma tentativa de assassinato anterior que falhou. Parece que o alvo dos dois atentados era ambíguo e precisava de confirmação.」
Ao ler as palavras que Raúl tentou omitir, Inês lembrou-se instantaneamente da temporada de caça em Calderón. A última noite em que dormiram juntos... e o modo abrupto como ele disse: "Volte para Mendoza amanhã, Inês".
Ele a mandou embora para confirmar quem era o alvo. Ele caminhou em direção ao perigo como se a própria vida não valesse nada, apenas para testar uma teoria.
「Ele ficou muito feliz com o resultado. Disse que estava confirmado: o alvo não era a Senhora Inês. Eles não queriam ferir você. Ao saber disso, ele sentiu que tudo valera a pena. Como eu poderia ir contra a vontade de um homem que pensa assim?」
As lágrimas finalmente caíram sobre o papel. Inês estava sem fôlego, o coração apertado por uma agonia que não conseguia explicar.
— Por que... por que você é tão estúpido quando se trata de mim?
「Portanto, Senhora Inês, por favor... tente entender o coração do seu marido.」
Entender? O estômago de Inês fervia. Ela se sentia humilhada pela devoção absurda dele. Ele a amava de uma forma tão absoluta que a fazia parecer pequena, uma criança protegida de uma realidade cruel que ela já conhecia bem demais.
— Eu estou com tanta raiva... Escalante... Seu estúpido...
O amor e a raiva ferviam dentro dela, uma mistura volátil pronta para explodir. Sentia uma vontade avassaladora de abraçá-lo — mas um abraço que beirava o estrangulamento, como se quisesse prendê-lo a si mesma com os próprios cabelos. Queria beijar cada centímetro de seu rosto agora mesmo, mas também morder seus lábios até que sangrassem.
Ela queria arrancar as roupas dele, encontrar cada cicatriz, cada marca de onde ele fora ferido. E, mesmo que Inês soubesse que desabaria em lágrimas ao ver a ferida, queria atormentá-lo por ter lhes deixado tão transtornada. Ela sentiu o impulso de montar em um cavalo e galopar até Calztera imediatamente, apenas para desferir um golpe naquele rosto — aquele rosto lindo que agora chamava de "feio" em plena fúria. Queria agarrá-lo pelo colarinho, dominá-lo e lembrá-lo de quem era sua mestre e sua esposa.
Mesmo com todo esse ódio, Inês sentia-se estúpida chorando. As lágrimas escorriam pelo seu rosto sem controle. O que você é, Cassel, para me deixar assim? Que tipo de nova tolice é essa?
Começou a imaginar o rosto dele olhando para ela, com aquela expressão confusa de quem está prestes a chorar. No fim, ele sorriria brilhantemente, com os cantos dos olhos franzidos de forma doce... Ele lhe pediria para não chorar e beijaria o rosto dela inteiro. Ele pediria desculpas, mesmo sem ter feito nada de errado. Aquele era Cassel Escalante: um homem sem orgulho quando se tratava de Inês Escalante.
Inês tremia de raiva só de imaginar. Como aquele "cão" ousava...
Subitamente, a lembrança dos cabelos ruivos de Oscar a atingiu, e a náusea voltou com força. Inês arranhou o próprio pescoço — um gesto instintivo de repulsa — e sentiu vontade de vomitar. Mas logo o pensamento voltou para Cassel, e ela sentiu-se vazia, uma casca oca que só queria ser preenchida pelo abraço dele.
Ela só precisava conferir. Queria tocá-lo, senti-lo e perguntar, olho no olho: Você estava realmente bem naquele momento?
✽ ✽ ✽
「Sol de Mi Vida, minha Inês.
Graças a você, cheguei em segurança a Calstera pela manhã. Talvez seja porque dormi ao seu lado na noite passada antes de galopar, mas ainda me sinto revigorado nesta noite.
Fiquei aliviado e feliz, pois nunca imaginei que receberia uma carta sua tão depressa. Perdoe-me por não ter escrito no instante em que cheguei; pedi a Raúl Ballan que anunciasse minha chegada apenas porque precisei sair para a residência imediatamente. Tive que me apresentar para a patrulha do almirante sem demora. Se eu soubesse que você desejava a confirmação pela minha própria caligrafia, teria enviado esta carta primeiro, mesmo que isso significasse desobedecer às ordens do almirante.
Inês. Eu juro que gozo de excelente saúde e não sinto dor alguma.
Digo isso porque não suportaria ver você com um segundo marido se eu estivesse morto. É claro que, se eu morrer prematuramente e te deixar... não quero que você se sinta obrigada a guardar meu túmulo para sempre. Eu apenas não quero te ver com outro.
No fim, o que eu sempre quero é a sua felicidade. Quero que viva da maneira que desejar. Mas, mesmo deitado em um túmulo, eu odiaria te ver como uma viúva. E odiaria ainda mais aquele maldito segundo marido.
Que você sempre alcance tudo o que deseja, meu Sol. E que, em tudo o que você desejar, eu esteja sempre ao seu lado.
Enquanto você me quiser, não precisará de outro marido. Pois eu viverei por muito, muito tempo. Enquanto você não me deixar ir, ficarei grudado em você. Inês, você não precisará de outro homem por perto... Maldição, a verdade é que não suporto a ideia de que outro bastardo como eu possa existir. Já quebrei duas penas só de pensar nisso... Pode rir do seu marido por ser tão enfadonho. Mas o fato é que não suporto que ninguém além de mim seja seu marido. Eu voltaria do tumúlo se tivesse que matá-lo.
É por isso que estou sempre impecável, Inês. Sem dor em lugar nenhum. Sem nenhum arranhão novo.
Por isso, quero te dizer: não tem nada com que se preocupar. Sempre será assim. Por favor, continue a cuidar deste seu marido humilde e desajeitado.
Em nossa casa de praia,
Cassel Escalante de Esposa.」
P.S.: Tive que deixar Calstera por cerca de dez dias, desde a madrugada, por ordens de meus superiores. Enquanto isso, avise-me caso queira me enviar outra carta. Minha linda Inês. É claro, provavelmente não será o caso, mas deixe-me sonhar com isso.
— ... ...
Ai gente, quero maais!!!!
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