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Capítulo 95 — Viagem a Bilbao

Seus olhos, treinados na leitura de mapas, localizaram rapidamente Bilbao. Era uma grande cidade situada a nordeste de Mendoza, a três dias de viagem da capital. De Calztela, que ficava a cerca de meio dia de Mendoza, a jornada totalizaria naturalmente quatro dias — talvez mais um, dependendo das condições.

Cássel baixou os olhos para o mapa e pensou que seria bom fazer uma viagem com Inês, uma viagem de verdade. Mesmo que não fosse para Bilbao. Mesmo que não houvesse razão ou justificativa para isso...

Eles haviam feito excursões curtas e impulsivas de meio dia a lagos na floresta ou pequenas praias, e recentemente passaram alguns dias nos campos de caça de seu avô, mas nunca haviam empreendido uma jornada que exigisse um mapa.

Nunca tinham ido juntos a uma cidade além de Mendoza ou El Tabeo, e nunca haviam realmente pegado a estrada. Ele imaginava como seria passar o dia todo viajando sob a luz do sol, numa jornada longa o suficiente para precisarem encontrar uma estalagem para pernoitar.

Como ambos gostavam de dispensar formalidades, seria divertido partir apenas com dois cavalos, sem carruagem... Ou talvez fosse melhor colocar toda a bagagem incômoda na carruagem e observar a paisagem mudar enquanto os dois se sentavam juntos no banco do cocheiro. Se chovesse, Inês simplesmente o empurraria para dentro da cabine.

— ... Mas seria muito desconfortavel para ela.

Para Bilbao, ele levaria quatro dias sozinho; com Inês, levaria mais dez. Quanto mais devagar viajassem, mais longa a jornada se tornaria, e quanto mais longa a jornada, mais o corpo dela sofreria naturalmente.

Talvez quando Inês ficasse mais forte...

Pensando nisso, os relatórios de Alfonso ultimamente tinham sido desanimadoramente vagos. Cássel instruíra certa vez: "Escreva para que quem receba a carta veja a cena com os próprios olhos". As cartas de Alfonso, que chegavam a Calztela a cada poucos dias, costumavam ser grossas como um livro, repletas de descrições detalhadas. No entanto, desde a semana passada, sob a desculpa de que a agenda de Inês estava "muito cheia", os envelopes recuperaram rapidamente sua espessura habitual — finos e decepcionantes.

"Sua Senhora está tão ocupada que mal tem tempo para si mesma." Era isso que Alfonso insinuava, mas era algo que Cássel dificilmente aceitava.

Se ela tem uma agenda tão cheia, não haveria muito mais para descrever e relatar? Onde ela foi? Como estava? Quão bonita Inês estava naquele dia? Onde e quanto ela brilhou? O que ela comeu e bebeu?

E se ela está tão ocupada, será que está dormindo bem? Será que dorme bem naquela cama enorme, sozinha, sem o marido? Será que perde o sono por causa de sonhos agitados? Será que está cansada a ponto de desmaiar? Está recebendo tratamento médico regular? Ela está se cuidando bem, como ele pediu? A mãe dela não está atormentando a nora sem que o filho saiba?

E, acima de tudo, não haveria nenhum traste flertando com ela no palácio à toa?

"O Jovem Lorde deseja saber cada detalhe da situação de Sua Senhora, o que demonstra um interesse louvável. Contudo, isso jamais deve ser confundido com desconfiança ou desejo de vigilância. Lembro-lhe, mais uma vez, que meu dever em Mendoza não é espionar Inês, mas servi-la, colocando o conforto e a conveniência dela acima de tudo..."

A introdução fora longa e floreada, mas a mensagem era clara: Pare de me fazer perder tempo com ciúmes infundados e me deixe trabalhar. Ou Cássel arranjava uma justificativa plausível para a vigilância, ou teria que admitir que estava agindo como um maníaco possessivo.

Mas era impossível. Mesmo longe, ele ansiava saber cada passo que ela dava, não por desconfiança, mas por uma necessidade visceral de conexão. De quem ele ousaria duvidar? Inês Escalante era a própria definição de negação.

Ela tinha uma personalidade incapaz de traição, não por virtude moral, mas porque achava o esforço irritante demais. Claro, ele a considerava nobre, mas, acima de tudo, ele conhecia seu temperamento. Ela não era do tipo que fazia coisas em segredo, que jogava tudo para o alto por uma paixão repentina. Inês detestava complicações, abafamentos e trivialidades.

Agora ele a amava, às vezes com uma intensidade violenta o suficiente para querer matá-la... ou morrer por ela.

Mas, acima de tudo, Cássel confiava na preguiça dela. Além disso, se ela às vezes olhava para o rosto escultural dele — o próprio marido — e o achava irritante, que chance teriam os outros homens? Em comparação a ele, o mundo estava cheio de figuras medíocres, algumas que nem sequer pareciam humanas aos seus olhos.

Portanto, não era Inês a suspeita. O mundo é que era suspeito.

Na opinião de Cássel, se Inês tivesse olhos, ela saberia que não poderia ser mais bela. Se ela tivesse juízo, não conseguiria parar de pensar nele. E, com a castidade gélida dela, Mendoza jamais teria ousado se aproximar... Quão restritivo e frustrante devia ser o casamento para aquelas pessoas feias e comuns, comparado ao deles?

Ele sabia que sua Inês o chutaria cruelmente se soubesse desses pensamentos, mas não entendia por que ela tinha que passar pelo tormento de respirar o mesmo ar que aqueles trapos imundos de Mendoza. Por que o nariz fofo e adorável dela tinha que sentir o fedor da luxúria alheia? Ele não podia estar lá para desinfetar a visão e a audição dela com seu próprio rosto e voz, enquanto os olhos preciosos dela eram poluídos por rostos feios e ouvidos castos eram sujos por vozes cheias de intenções lascivas...

Ainda bem que ele mandara enterrar os rumores sobre sua própria "loucura" de amor, marcando território. Se a sociedade humana fosse mais primitiva e intuitiva, como a dos animais, ele não precisaria de boatos.

Inês estaria impregnada apenas com o cheiro dele.

Se ele pudesse, se tivesse tempo livre e a tivesse ali, ele a tomaria por dias a fio, sem pausa para respirar. Ele a abraçaria até que a pele dela se fundisse à dele. Imaginava o corpo nu e gracioso dela, a pele alva ficando vermelha sob o atrito áspero de seu desejo, as coxas abertas e trêmulas, manchadas e escorrendo com o sêmen dele, reivindicada repetidas vezes até que não restasse espaço para mais nada. Ele estava sedento, febril como num sonho, por um desejo que nunca ousara saciar completamente por medo de quebrá-la.

Ele não queria soltá-la nem por um segundo. Queria que apenas o cheiro da carne de Inês emanasse de seu corpo, e que o cheiro dele cobrisse cada centímetro dela. Como gravar o nome do mestre na testa de um escravo. Para que o mundo inteiro, ao sentir o aroma dela, soubesse instintivamente a quem Inês pertencia.

Para que ninguém, jamais, ousasse incomodá-los.

— ... Meu Senhor?

Cássel ergueu os olhos para Raúl quando este entrou na sala de jantar. Ele estava sentado calmamente, mas havia uma intensidade nele, como se estivesse em alerta máximo.

— Você me encontrou... — murmurou Cássel.

— O senhor ainda não jantou. E o que é esse mapa de repente?

— É necessário fazer uma viagem por um tempo.

— O Capitão vai viajar? — perguntou Raúl, surpreso.

— Não. Você vai, Ballan.

A julgar pelo mapa aberto e o tom sério, parecia que ele planejava enviar um recado para um lugar muito distante desta vez. Raúl assentiu com a cabeça, escondendo o incômodo, e caminhou em direção à mesa.

— Precisa de um mensageiro?

— Isso.

— Para onde...

— Para Bilbao. Você vai encontrar o Arcebispo.

— ... Perdão?

Os olhos de Raúl perderam o brilho instantaneamente, ficando turvos de preocupação.

— Literalmente. Encontrar o Arcebispo.

— ... Eu?

— Claro, em meu nome. Você o verá no meu lugar.

— Bom, a menos que o senhor queira que eu minta dizendo que o Jovem Duque de Escalante morreu subitamente, duvido que eu consiga uma audiência... Mas o que o senhor está tramando de repente?

— Peça ao pintor sob o comando do Arcebispo uma obra de arte. Diga que gostaria de encomendá-la em nome dos Escalante, como uma felicitação ao Arcebispo. Sei que não há tempo suficiente para reconstruir o santuário, mas a pintura servirá como um dos presentes de casamento para o Príncipe Herdeiro.

— ...

— A pintura a ser encomendada é... pode ser uma cena da Bíblia. Florencia e Aaron. Ah, o preço é provavelmente mais importante do que o tema. Diga a eles que o subsídio para a paróquia de Bilbao será de 500.000 petes, mas que deve ser repassado separadamente ao pintor.

— O valor da pintura não é excessivo? Sei que não há pintores famosos por lá... 500 mil petes é um desperdício enorme.

— Se eu comprar e o Príncipe Herdeiro receber, naturalmente o valor será associado ao meu nome e não parecerá estranho.

Era um fato natural, não arrogância. Considerando quem era o comprador e quem era o destinatário, o preço deveria ser desse nível alto para manter as aparências, não importava qual fosse o item... Mas havia outra razão para Raúl se sentir desconfortável.

— Deve ser assim, mas deve haver uma razão específica para escolher um pintor em Bilbao.

— A razão é que tenho que pagar o preço diretamente ao verdadeiro proprietário do item — explicou Cássel.

— Sim?

— O pintor sob a tutela do Arcebispo de Bilbao é o dono original do medalhão de olivina.

— ...

— Emiliano.

Raúl arregalou os olhos por um momento, o choque visível em seu rosto.

— A encomenda da pintura é apenas uma desculpa. O senhor vai pagar generosamente pelo medalhão através dessa comissão... Então, o senhor está falando do Emiliano que está em Bilbao?

— Exato.

— Em primeiro lugar, o senhor deve se lembrar que o preço do medalhão na loja já foi generoso demais, cerca de 6.000 petes.

— Aquele foi apenas o sinal que deixei para o joalheiro. O preço para me dar prioridade sobre Inês.

— ...

— A prioridade foi garantida, então aquele valor já foi gasto. Agora é o pagamento real.

— ...

— Por que essa cara?

— Não. É só... — Raúl tentou disfarçar, limpando o rosto. — Que surpresa. É que o mundo é bem pequeno...

Cássel captou o olhar dele, que se desviara nervosamente para o mapa. Raúl ainda passava a mão no rosto, incapaz de apagar sua expressão de incredulidade.

— Você conhece o pintor?

— Devo dizer que conheço? O senhor não acreditaria...

— Por favor, explique claramente.

— Pelo menos, eu sei quem é.

— Emiliano?

— Não pode haver dois pintores chamados Emiliano sob o Arcebispo de Bilbao. Se for assim, então é alguém que conheço, com certeza.

— Ele era originalmente de Oli Garcia.

— Sim. Exatamente. É aquele que eu conheço.

— O que aconteceu com esse pintor desconhecido de Oli Garcia?

Havia uma omissão significativa por trás das palavras de Cássel. O fato de Raúl saber quem era não significava necessariamente que Inês Escalante também soubesse — pelo menos na lógica de Cássel. Raúl assentiu devagar, entendendo onde o mestre queria chegar e decidindo a melhor forma de mentir.

Mesmo que os dias entrando e saindo do joalheiro e fazendo todo tipo de ameaças tivessem sido em vão...

— Claro, a senhora Inês também conhece Emiliano — admitiu Raúl, cauteloso.

— ...

— Assim como eu, ela o conhece apenas de nome. — Raúl mentiu, ou melhor, omitiu a profundidade da relação passada.

— Apenas o nome.

Cássel repetiu calmamente.

— É parte do investimento de longo prazo que Inês fez desde os tempos de Perez. Ela era excepcionalmente rica desde tenra idade, então investiu em vários campos com a herança que sua avó lhe dera; um desses campos era o mecenato de pinturas.

— Eu não tinha ideia.

— Visto que a identidade dela é o que é, ela é meticulosa ao usar "nomes de fachada" para garantir que nenhum rastro seja encontrado. Nem mesmo o Duque de Valeztena ou sua esposa sabiam disso. De qualquer forma, agindo como uma grande negociadora de arte em Mendoza, ela tem apoiado jovens e promissores artistas desconhecidos há muito tempo.

Raúl fez uma pausa, gesticulando.

— Já existem quatro artistas cujo valor de mercado saltou dezenas de vezes graças ao suporte de Inês. Os dois pintores de Oli Garcia receberão patrocínio oficial da diocese mais rica, a do Arcebispo de Bilbao, para a reconstrução do Santuário, então em alguns anos eles provavelmente serão os mais caros do mercado.

— Dois pintores.

— Sim. Emiliano é um deles. Mas pensar que logo ele... O mundo é realmente muito pequeno.

Raúl esfregou os braços, como se sentisse um calafrio com a coincidência. Cássel cerrou o queixo e encarou com indiferença o ponto de Oli Garcia no mapa distante. Então seus olhos viajaram para Bilbao, depois Mendoza, depois Calztela, até que ele finalmente desviou o olhar.

De repente, ele se levantou e saiu da sala de jantar. Raúl o seguiu apressadamente, com o olhar intrigado.

Cássel parou no corredor entre a sala de jantar e a sala de charutos, fixando os olhos na pintura pendurada na parede.

— Esta pintura também veio de um dos artistas apoiados por Inês?

— Ah, sim. Esta é uma obra de uma jovem artista feminina em quem Inês via um futuro particularmente brilhante.

— Entendo.

Ele permaneceu imóvel, encarando a moldura com um olhar límpido, como se estivesse apenas analisando as cores da imagem. Na pintura, uma menina de seis ou sete anos segurava uma maçã vermelha madura e sorria.

Não, não era assim naquela época. Certo. Ele se lembrava de ter visto aquela pintura no escuro um dia. No primeiro dia em que Inês chegou a Calztela.

"— Cássel. Isto também é El Tabeo?"

"— Este aqui?"

Um pequeno porto rural em algum lugar familiar. A velha pintura que estivera pendurada naquela parede por décadas, muito antes de os proprietários mudarem várias vezes.

"— El Tabeo é o principal porto de Calztela. Este é um dos portos menores que mencionei antes..."

"— ... Sevilha?"

Ele se lembrou do nome que recordara vagamente, da maneira como Inês o murmurara, com a voz pequena.

"— ... Chamam este lugar de Sevilha."

O rosto dela que afundara em silêncio.

— Você gosta desta pintura? Quer colocá-la na sua estante?

— Não. Eu odeio esta pintura.

A emoção desconhecida e o desprezo que tremeluziam nos olhos dela naquele dia.

— Tire isso da minha frente. Não quero vê-la nunca mais.

Por um instante, uma sensação estranha o percorreu da ponta dos pés até o topo da cabeça.

Cássel respirou fundo. Sua visão ficou subitamente turva, vertiginosa. Como se um maremoto invadisse sua cabeça, como se todos os seus pensamentos fossem submersos pela água; nada podia ser visto, apenas o transbordamento. Ele agarrou as têmporas e inclinou-se para frente, lutando para se manter de pé.

Raúl se assustou e tentou amparar o mestre, mas Cássel foi mais rápido em soltar a mão dele.

— Talvez seja por causa daquele tiro da última vez...

— Não é nada disso, então pare de me tratar como um inválido.

— Mas por que sua cor sumiu de repente?

— Se você cometer o erro de mencionar um "ferimento de bala" na frente de Inês, será enviado de volta para Perez no mesmo instante.

— Mas chamam um tiro de tiro, o que mais eu diria...?

— Fique sabendo que você não verá Inês novamente até o dia em que eu morrer.

— Que tipo de ameaça é essa, afinal?

Raúl resmungou injustiçado, mas Cássel pareceu não ouvir; virou-se para o outro lado e começou a andar. Então, parou de repente.

— ... Eu irei a Bilbao.

— Não há tempo para o capitão ir a Bilbao pessoalmente.

Raúl testemunhara várias vezes seu mestre pressionando e importunando os superiores por não ter tempo para ir a Mendoza ver Inês, nem que fosse brevemente. De qualquer forma, ele vinha esperando a ferida cicatrizar há algum tempo; mesmo que lhe dissessem para ir agora, ele recusaria até que as cicatrizes estivessem menos visíveis...

— Vou usar a licença que consegui para daqui a dez dias. Então poderei ir.

— Mas essa licença era para Mendoza, aquela que o senhor lutou tanto para conseguir para ver a Senhora Inês por um tempo...

— Não importa.

— E o jantar?!

— Esqueça isso também.

Raúl observou-o subir as escadas a passos largos, desistindo de argumentar e balançando a cabeça. Falar sobre o ferimento era estritamente proibido e, francamente, era uma daquelas coisas que só podiam ser contadas pessoalmente. A cota para o relatório que Inês exigira receber em Mendoza estava agora escrita pela metade. Depois de remover isso e aquilo [os perigos], não restava muito o que escrever, então o conteúdo ficava cada vez mais escasso...

Por mais que fosse para o bem do dono, o cão leal sentia o coração apertar ao ver que estava omitindo os fatos e encobrindo os detalhes, inflando o trivial. "Deve ser relatado"... Mas depois que todos os incidentes graves eram removidos, tudo o que restava era um Cássel Escalante movendo-se de um lado para o outro, entre o quartel-general e a residência oficial, como uma máquina.

A rotina de Cássel Escalante era exata, cortada com a precisão de uma faca. Trabalho. Treino. Mansão. Trabalho. Treino. Mansão. Ocasionalmente, a missa. Algum evento feriado esporádico... Recentemente, ele só tinha ido a El Tabeo algumas vezes para visitar o joalheiro, mas mesmo isso fora apenas um breve desvio em sua rotina espartana.

Cássel estava assim desde que Inês partira. Se havia alguma diversão na vida, ou se ele simplesmente não tinha os nervos para sentir tédio desde o início, era impossível dizer. Ele apenas mantinha um rosto inexpressivo e calmo, seguindo a rotina diligentemente, matando-se em treinamentos solitários de manhã e à noite que ninguém mais fazia. Segundo Arondra, ele sempre vivera assim antes do casamento.

Então, em certo sentido, ele voltara ao ponto de partida. Mudara por causa de Inês, depois mudara de novo por causa da ausência dela, retornando ao mesmo lugar.

No momento em que a vida de um mestre aristocrático é vista como desinteressante aos olhos do funcionário que o serve, é porque ela é surpreendentemente vazia. E, no entanto, ele recebera aqueles que queriam matá-lo duas vezes seguidas... Era como se nada tivesse mudado, de forma tão discreta e assustadora.

Como se a única coisa que tivesse mudado fosse o fato de que Inês desaparecera de Calztela.

Ele estalou a língua enquanto olhava para as escadas onde Cássel desaparecera. Antigamente, mesmo quando não havia nada para observar, ele encontrava algo a dizer; agora, cheio de notícias graves, não tinha nada que pudesse escrever. Além disso, a própria patroa já lhe confiara segredos, como a gestão de sua fortuna oculta dos Valeztena, o que aumentava o peso de sua lealdade.

Às vezes, é necessário expor os fatos crus para alimentar lealdades famintas. Mas Raúl hesitou ao imaginar a reação dela. Ao contrário da indiferença que Inês alegava ter, se ela soubesse, seria rude com o marido. Raúl podia quase ouvir a queixa de Cássel ao longe: "Isso dói". Em suma, estava claro que a reação dela seria de impiedade, não de consolo.

Talvez ela fosse até capaz de esbofetear o rosto de um homem que já estava caído no chão.

✽ ✽ ✽

"... Não sei explicar exatamente, mas o dia tem sido particularmente ruim desde o anoitecer. Não há uma razão óbvia para isso. Hoje, como de costume, ele cumpriu o treinamento intensivo de manhã e à noite. Eu estava pelo quartel-general quando o Capitão Coronado comentou: 'Seu mestre não parece humano hoje.' Ele disse isso como um elogio. A rotina continua a mesma, não importa o que aconteça. Aquela mulher não entra em contato há um bom tempo."

Parecia que Raúl estava enfatizando a fidelidade dele, como se tivesse desenterrado um grande feito. Ao lembrar do rosto de Raúl, aquele sorriso de quem "sabe de tudo", a irritação de Inês aumentou. Quem ele pensa que é? Um conselheiro sentimental?

"Três dias atrás, a Senhorita Maria Noriega visitou a residência oficial a pretexto de um recado do avô, mas ele a fez esperar lá embaixo e a mandou embora sem recebê-la. Mandou dizer que, como não há uma anfitriã na casa, não pode receber senhoritas como convidadas. De fato, ele só vive para o treinamento. Arondra confirma que ele não tem feito nada impróprio e que ela está sempre por perto, então não há necessidade de preocupação quanto a isso. Portanto, Senhora Inês, por favor, não se preocupe."

Quem se importa... Era absurdo ele se justificar com tanta antecedência, como se ela fosse entrar em pânico por ciúmes.

"No entanto, esta noite, ele estava com a tez particularmente pálida. Perguntei a razão várias vezes, mas não consegui obter uma resposta adequada."

O que adianta dizer "não se preocupe" e logo em seguida falar sobre a palidez dele? Isso não é o mesmo que dizer "por favor, preocupe-se"?

"Creio que ele estava preocupado que, se o médico fosse chamado à residência oficial, a notícia chegaria aos ouvidos da Senhora Inês. Talvez ele relute em mostrar seu lado fraco à senhora."

Então, por que você mencionou a palidez no relatório...?

Inês sentiu-se manipulada. A partir daquele momento, não conseguia parar de pensar na "tez" de Cássel Escalante. Era difícil imaginar a cor desaparecendo daquele rosto sempre saudável.

Mesmo quando ele desmaiou de febre naquela noite, todos disseram: "Não importa como se olhe, parece que ele está apenas dormindo." Não foi à toa que disseram isso em uníssono. Ele só começou a parecer um homem doente depois que Inês ficou tão desesperada a ponto de esbofeteá-lo para que acordasse.

Por que se preocupar se a notícia vai chegar aos meus ouvidos quando eu nem estou lá? Por que simplesmente não chamam o médico? E que tipo de gente deixa de chamar ajuda só porque o paciente pediu para não chamar?

"Talvez seja porque o senhor tem pensado demais? Vamos observar por mais alguns dias e relatar. Ele parece muito pensativo ultimamente. A causa provavelmente é a Senhora Inês, mas nunca se sabe... Hoje ele até pulou o jantar. Também teve uma breve tontura, o que provavelmente..."

Já faz cinco dias desde que recebi aquela carta inconclusiva. Raúl não enviou mais nada desde então.

Portanto, Cássel deve estar morto.

Arondra também enviava cumprimentos breves de vez em quando, então seria natural que ela informasse se Cássel estava vivo ou não. No entanto, Arondra não é fácil de manipular como Alfonso ou Raúl, e, para começar, ela sempre foi ignorante demais sobre a real condição de seu Senhor. Como uma mãe negligente que simplesmente solta o filho no pasto e esquece.

"Está tudo bem, se um menino bater a cabeça, ele não morre." "Está tudo bem, menino não morre só de febre." "Está tudo bem, se desmaiar, não morre."... Claro, é uma crença baseada na confiança ilimitada no corpo robusto de Cássel Escalante, mas também é verdade que lhe falta observação cuidadosa.

A audácia de Arondra diferia da capacidade de pensamento delicada de Alfonso e dos olhos tenazes de Raúl. Ela ignora todos os pequenos sinais. É exatamente o tipo de coisa que ela diria: "Nosso Senhor está cheio de vitalidade hoje também".

Então, onde está doendo...?

No final, era isso que eu me perguntava. Onde diabos aquele corpo enorme está ferido...? "Ele não vai morrer." Ao contrário da crença habitual de Arondra, dizer isso não garante que as pessoas não morram de verdade.

Certo. É natural estar preocupada. Disseram que, quando eu estava em Calztela, ele treinava apenas uma vez, de manhã ou à noite, mas agora estava abusando de si mesmo em ambos os turnos. Disseram que eu não tinha nada a ver com aquele autoabuso ignorante...

— Inês. A Imperatriz a chamou.

De repente, Isabella despertou gentilmente sua mente. Inês olhou diretamente para Cayetana, incapaz de esconder o fato de que estivera pensando em outra coisa.

— Perdão, Vossa Majestade? Se puder repetir...

— Não foi nada, eu só queria seus olhos emprestados por um momento.

— O que quer que Vossa Majestade escolha, será seu rosto que brilhará mais.

Mantendo o rosto indiferente, Inês ofereceu uma resposta sem sinceridade. Não sabia há quantas horas estava sentada ao lado da Imperatriz olhando para joias. Não eram para a marcha nupcial, nem para a missa ou o banquete, mas, na melhor das hipóteses, a pré-seleção de acessórios para alguma das tarefas menores que ocorreriam na semana após o casamento.

— Claro que esse elogio se aplica a nós duas, mas e quanto a Alicia?

— Ah... Se for para a Senhorita Barca...

Como era para a noiva, ela teve que fingir ponderar por um tempo. Ela estrangularia o pescoço de Alicia Ilhar com as próprias mãos; pouco importava se haveria uma safira ou uma coleira de cachorro naquele pescoço, mas sua sinceridade ia até o ponto de querer "abençoar" a união daqueles dois cães.

— Deve ser difícil escolher. A beleza dela não é tão marcante quanto a sua.

A senhora diz isso apenas para me usar. Além disso, ela não tem esse tipo de talento.

— É apenas porque estou bem na sua frente agora que Vossa Majestade é gentil comigo.

Inês desviou o olhar, minimizando o peso das palavras. Sabia que, se Alicia estivesse ali em seu lugar, a situação seria exatamente o oposto. Cayetana ofereceu-lhe um sorriso deslumbrante e fechou seu leque com um estalo seco.

— Não posso simplesmente dizer a verdade, já que ela não está aqui?

— ...

— Com o passar dos dias, aquela garota parece cada vez mais... insuficiente. Não há um único ângulo nela que prenda meu olhar. Ainda assim, contanto que Oscar goste da "embalagem", não importa o que eu vejo...

— ...

— Mas eu não consigo me conter. Não é, Isabella?

— Claro, a questão principal é entre os dois, não cabe aos olhos de mais ninguém.

Isabella deu uma resposta habilmente discreta. Ela também evitava se juntar à calúnia contra Alicia. Inês lembrou-se de que Isabella sempre fora boa para ela.

Era por isso que, embora fosse uma das principais damas de companhia de Cayetana, ela conseguia lidar com a Imperatriz há décadas sem qualquer hesitação.

— Agora, se eu cobiçasse sua nora, você me odiaria?

— O que posso fazer se minha Inês é tão bonita? Estou tão feliz que meu filho se casou bem.

— "Inês"... Tenho inveja de você até hoje. Eu mesma arranjei o casamento do meu "adorável" sobrinho, mas ultimamente ele só me dá dor de estômago.

A Imperatriz suspirou, olhando para Inês com um sorriso afiado.

— Lembro-me bem de quando você, aquela coisinha feroz, ousou rejeitar o Príncipe com essa boca. Cássel não parece ter um temperamento muito dócil, então eu estava hesitante em ver como ele lidaria com uma esposa... especialmente porque você tem um temperamento tão forte...

Pensando no quão ridícula era aquela situação, Inês zombou internamente do termo "sobrinho adorável". "Ela atua muito bem", pensou Inês com desprezo. "Vamos ver como a mãe dele lida com isso agora."

— Esta criança está apenas dizendo o que deve ser dito — interrompeu Isabella, referindo-se a Inês. — Em alguns casos, a franqueza é uma virtude.

Isabella deu um tapinha nas costas da mão de Inês e sorriu para a Imperatriz, suavizando o clima. Estava claro que, se não fosse pela intervenção rápida de Isabella, Inês não teria conseguido esconder nem um pouco de seu humor sombrio e arrepiante diante daquelas provocações.

— Certo. Entendo agora. Pensava-se que seria necessário para Oscar alguém que o apoiasse com devoção, como se fosse capaz de arrancar as próprias entranhas por ele, deixando tudo o mais de lado... Mas essa garota não tem presença para influenciar as pessoas. Quando se trata de atrair aliados, nem se fala. Ela era tão tímida que até chamar minha criada era um constrangimento para ela. Uma esposa devotada não é a única coisa de que o Príncipe Herdeiro precisa.

— Vai melhorar com o tempo.

— Desde o início... Ela é diferente da sua nora, que já nasceu com postura de soberana. Foi Oscar quem teve olhos para ver isso em tão tenra idade. Como se pode ensinar isso a alguém?

Inês olhou de relance para o familiar colar de rubis que outrora lhe fora concedido entre as joias. Cayetana a "amava", mesmo quando lhe entregou aquele colar no passado.

Parecia que riso e náusea estavam prestes a sair de seus lábios ao mesmo tempo.

— ... Que tal aquele rubi? Combinaria muito bem com o exuberante cabelo loiro da Senhorita Barca.

— Mais uma vez, seus olhos são muito aguçados. Você procura o melhor.

À medida que os dias passavam, a corte se acostumava, e quanto mais Inês se acostumava, mais nojento era. Como ela podia vender sua opinião enquanto via aquele colar ao redor do pescoço de Alicia? Aquele lugar era podre.


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Comentários

  1. Acordei e a primeira coisa que fiz ( como todos os outros dias kk) foi vir aqui verificar se tinha capítulos novos. E que alegria de ver que tem ❤️❤️❤️❤️ muito obrigada !!!

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