Capítulo 98 — Luciano
— Inês?
Os passos que subiam a escadaria cessaram. Antes que Inês pudesse se virar, o som de passadas largas se aproximou.
— Ah, Luciano.
Seu irmão herdou o cabelo negro e os olhos verdes translúcidos do Duque de Valeztena, assim como ela. Fora isso, ao contrário de Inês, que se parecia mais com a mãe e tinha traços faciais delicados, ele herdou a impressão forte de seu pai.
Claro, ninguém em Mendoza argumentaria que o Duque de Valeztena tem uma aparência decente, mas qualquer um que conheça o Duque procurará e verá os traços dele em Luciano.
Ele não era refinado, mas tinha uma aparência forte e vigorosa, com olhos estranhamente ferozes que dominavam facilmente as pessoas, e sua estatura alta e esbelta era elegante. Como o Duque de Valeztena.
Mesmo que ele sorrisse um pouco ali, parecendo ser uma pessoa muito mais suave do que Inês — que tinha olhos de pavão e a sensibilidade de um gato —, era seu irmão quem realmente se parecia com o pai. Era bem diferente de Inês.
— Você veio sem avisar, e já vai embora? — perguntou Luciano, parando a alguns passos de Inês com aquele sorriso gentil de cortesia.
Havia uma distância muito antiga e desconfortável entre eles.
Era impossível saber se ele estava saindo ou voltando para o escritório, pois tinha uma grossa pilha de papéis nos braços. Eu nem sei como agradar as pessoas... Inês assentiu com a cabeça enquanto estalava a língua internamente.
— Por quê? O pai deve ter ouvido a notícia de que você já estava aqui e saiu do palácio.
— Antes disso, eu já estava de saída.
Como Inês respondeu sem ocultar suas intenções, ele riu suavemente.
— Jante e vá depois. A mãe também ficará triste.
Como era uma refeição com a mãe, não havia necessidade de deixar espaço para vomitar depois de comer novamente. Luciano também deve ter mencionado a mãe apenas por cortesia.
— Você evitou vir para Mendoza esse tempo todo por sua própria vontade. Nossos pais são pessoas que sabem que, se ficarem juntos no mesmo lugar por mais de sessenta dias no ano, o caos se instala. Então, se eles estão aqui suportando isso, mesmo depois de ver o nosso esforço...
— Deve ser por causa do genro deles. Não por eles mesmos, nem por mim — corrigiu Inês.
Luciano deu de ombros, sem negar que Cássel era o motivo da reunião familiar.
— Luciano, eu quero ver você, mas não quero fazer isso se tiver que suportar meus pais.
Era uma conclusão diferente da recusa inicial. Luciano olhou para ela sem esconder a expressão de arrependimento e depois assentiu.
— Você acha que vai acabar brigando por minha causa de novo — disse ele, referindo-se às discussões habituais sobre ele não se casar.
— Mesmo que não fosse por você, a briga aconteceria de qualquer jeito — respondeu Inês.
A conversa foi interrompida no meio e um silêncio desconfortável voltou a pairar. Inês olhou para o irmão como se esperasse que ele passasse primeiro e fosse embora. Embora Luciano não fosse o homem mais perspicaz do mundo, ele não era distraído; ele sabia claramente que ela queria que ele saísse.
Ainda assim, ele não se moveu. Diferente de qualquer outra vez, seus pés permaneceram plantados no chão.
Seu olhar não se desviou; ele a encarava fixamente. E Inês sempre se sentia desconfortável sob o peso daquele olhar.
Era um olhar de preocupação. Um olhar ansioso e carinhoso.
Houve um tempo em que isso era simplesmente a norma. Cuidar um do outro, confiar um no outro, amar-se mais do que amavam os próprios pais, brincar sem hesitação, correr para um abraço, sorrir e beijar a bochecha... Houve um tempo em que eram inseparáveis.
Naqueles momentos, pareciam ser a única família verdadeira um do outro.
Mas as memórias dessa época agora existiam apenas na cabeça dela. Assim como todas as memórias daquela vida passada.
Houve um tempo em que Luciano foi a figura mais constante na vida de Inês. Ao contrário de seus pais, que podiam viver separados e que poderiam nunca ter se encontrado se não quisessem, ele era o irmão, criado junto com ela.
Para onde quer que ela fosse, do Castelo de Perez à mansão de Mendoza, lá estava Luciano. Não havia como escapar; a criança estava sempre lá.
Ela foi alguém que o rejeitou, empurrou e odiou durante toda a sua nova infância; mas, por outro lado, tudo aquilo parecia um sonho ruim, fazendo-a desejar transformar o passado em algo que nunca aconteceu. No fundo, restava o amor absoluto de outrora.
Talvez fosse porque, ao olhar para ele, ela via apenas o menino de nove anos, e não o homem de vinte e três que a reencontrou no dia em que matou Emiliano. Com os olhos de uma criança que não sabia de nada, ela passou a olhar para a mão dele — a mão que naturalmente a segurava e a levantava — como se o assassinato nunca tivesse acontecido, como se fosse uma realidade separada.
Era como se ela estivesse repetindo loucamente para si mesma que aquela mãozinha indefesa não poderia matar nada, que aquele menino não poderia ser um assassino. Esta criança não poderia ter matado o meu amor bem na frente dos meus olhos...
E assim, no final das contas, foi porque cresceram juntos novamente.
— Luciano, eu...
— Quando cheguei a Mendoza e a vi pela primeira vez, seu rosto estava corado e saudável. Aconteceu alguma coisa? Você me parece mais abatida agora do que da última vez.
— Não é nada. Acho que só estou um pouco cansada.
— Não consegue dormir?
— Durmo muito bem. Juana pode garantir isso. Certo?
Inês perguntou, buscando apoio, mas Juana, que se mantivera afastada desde o momento em que vira Luciano, fingiu não ouvir e não respondeu. Inês manteve um sorriso forçado, fingindo uma timidez que não sentia para disfarçar o silêncio constrangedor.
— Eu dormi bem. Antes.
— Mas você chamou sua médica hoje — insistiu Luciano.
— Eu tinha assuntos para resolver, aproveitei para fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
— Se fossem apenas "assuntos", você teria enviado Juana. Você a chamou pessoalmente porque não está se sentindo bem, não é?
À medida que as perguntas de Luciano se tornavam mais detalhadas, a expressão de Inês se tornava mais irritada. Eles não tinham mais intimidade para sustentar longas conversas.
Desde a infância, ela mantivera seu coração longe dele, tentando não amar nem odiar mais o irmão. Mas, à medida que Luciano crescia, ele se aproximava perigosamente da idade que tinha no dia em que matou Emiliano...
Na vida passada, foi aos dezesseis anos que ela rompeu completamente com Luciano, a quem não conseguia evitar totalmente, por mais que tentasse. Ele ia a Perez de vez em quando, preocupado com a irmã doente, mas Inês nunca se encontrava com ele voluntariamente. E, na única vez em que viu o rosto dele, provocou uma briga.
Quando Luciano tinha exatamente vinte e três anos — quase a mesma idade de agora —, ele matou Emiliano naquela outra vida.
Na época, Luciano não sabia o motivo do ódio dela, e sua frustração era evidente. Ele nunca mais viu Inês depois daquilo.
Vinte anos se passaram [nas memórias dela], e a dor gradualmente se transformou em dormência. Agora que eram adultos, sem nada para cultivar entre si, podiam viver sem se ver. Eram como conhecidos distantes, como alguém que você encontra em um evento social no qual não teve escolha a não ser comparecer.
Familiares, mas não muito amigáveis.
— Era um assunto que eu tinha que cuidar sozinha. Apenas isso.
— Deve ter sido importante. Se você tivesse enviado uma mensagem, eu mesmo teria levado o recado até a casa dos Escalante.
— Como se atreve? Nossa mãe teria um ataque se você agisse como um mensageiro.
— Teria sido uma boa desculpa para ver você lá.
Inês se perguntou por que Luciano estava bloqueando o caminho dela em vez de recuar, como de costume. Ela sabia que a relação entre a mãe e Luciano havia azedado, e se perguntava se aquilo era, no máximo, um pedido do pai...
— Não há nada para ver. Estou bem.
— De repente, você aparece na residência Valeztena e chama uma médica às pressas. Sua aparência não está boa.
— É a médica que sempre vi, por cortesia, desde a minha primeira regra. Nossa mãe, sempre preocupada com o que aconteceria se a filha não pudesse "fazer seu trabalho" devido à infertilidade, a designou para mim desde pequena.
À medida que a menção ao seu ciclo era seguida por explicações explícitas, as orelhas de Luciano ficaram levemente vermelhas. Certamente não era um assunto para uma conversa casual no corredor. Inês sorriu suavemente e acrescentou:
— Felizmente, o casamento não será um mau negócio para os Valeztena. Pode ficar em paz
— Não fale assim, Inês.
— Qual é o valor de uma linhagem que não se perpetua? Se eu não tiver filhos, posso acabar voltando para os cuidados do meu irmão, como uma divorciada miserável.
— Você sempre pode voltar. Tudo o que me preocupa é...
Luciano secou lentamente o rosto com a mão que não segurava os papéis. O rosto, que já não sorria, engoliu a ternura sem deixar rastro, assumindo uma expressão fria e feroz, apesar da cortesia. No entanto, Inês sabia que aquela expressão do irmão só aparecia quando ele estava nervoso e ansioso.
— Eu só estava preocupado com a sua saúde. A sua situação na família Escalante é tão desconfortável a ponto de você não poder sequer chamar um médico lá? Talvez você se sinta vigiada o suficiente para temer que, se chamar um médico, a notícia chegue aos ouvidos dos pais do seu marido...
— ...?
— É por isso que você veio à nossa residência oficial, não é? Para esconder isso deles.
— Não.
Inês respondeu com um suspiro. A pergunta de Luciano a fez sentir que seus esforços eram em vão.
Ela tocou a mão vazia, como se ainda estivesse segurando a carta de Cássel.
— E a família Escalante...? — perguntou Luciano, hesitante.
— Eles são bons comigo.
— Graças a Deus.
A mão de Luciano, que pairava no ar prestes a acariciar o rosto dela, recuou. Um sorriso amigável formou-se novamente em seus lábios, emanando um calor humano que contrastava dolorosamente com a frieza calculada da irmã.
— Estou realmente feliz — disse Luciano, sincero. — Eu achei que você...
— Achou que não iríamos nos dar bem? Por causa da minha personalidade difícil? — completou Inês.
— Você é muito inocente, Luciano.
Manter aquela atuação exigia esforço e a estava exaurindo. Inês soltou um leve bufo de escárnio, mas Luciano não se importou e continuou falando com seriedade.
— Mas o casamento não é fácil. Tornar-se família de um estranho de um dia para o outro é complicado.
— Até agora, está tudo bem, Luciano — cortou Inês.
— ... E quanto a Cássel Escalante?
— Ele também está bem e—
Inês começou a afirmar que ele estava bem, como se quisesse encerrar o assunto rapidamente. Mas, de repente, ergueu os olhos que mantivera baixos, interrompendo a própria mentira.
— Não, na verdade... não é que esteja "apenas bem" — corrigiu Inês.
— Ei, espere — interrompeu Luciano, alarmado. — Não me diga que seu marido já se meteu em problemas?
— Não foi isso que quis dizer. Não está apenas "bom o suficiente", está muito bem.
— ...
— Nós nos damos muito bem em Calztela. Se eu parecia melhor quando cheguei a Mendoza, foi apenas por causa disso... Claro, também se deve à tenacidade e ao cuidado de Cássel.
— ... Eu nunca vi você sorrir assim, Inês.
O rosto dela, que nem percebera que estava sorrindo, endureceu desajeitadamente. Luciano, que murmurara aquilo por pura curiosidade, percebeu que Inês ficara imediatamente desconfortável e umedeceu os lábios, como se lamentasse o comentário.
Inês voltou a mexer nas mãos vazias, como se ainda segurasse a carta de Cássel. Era como se tentasse encontrar uma resposta naquelas folhas de papel imaginárias.
Emiliano está bem em Bilbao, sonhando com um futuro muito mais promissor, e o Luciano de hoje é inocente. O Oscar atual também é "inocente", mas como ouso compará-los?
Ao contrário de Oscar, as ações de Luciano ainda estavam dentro dos limites da compreensão. Analisando friamente — ou seja, sob a ótica da Inês aristocrática, e não da Inês apaixonada que fugira com um pintor três meses antes do casamento real —, ela conseguia entender a decisão de Luciano na vida passada.
Diante da culpa pela morte de Emiliano, qualquer um poderia desmoronar facilmente. Mas o esforço que ela fazia agora para não amar Luciano demais, e ao mesmo tempo não odiá-lo o suficiente para matá-lo, nascia, em última análise, desse entendimento fundamental: ele agira por dever, não por malícia.
Quando ela era jovem, o irmão era tudo no mundo e lhe deu mais amor que seus pais juntos. Para a irmã dele, o humilde artesão teria sido um oponente indigno até de riso, mas mais do que isso, a situação da filha de Valeztena fugir com um homem antes de se casar com o Príncipe Herdeiro deve ter sido um problema insuperável.
Quanta pressão Oscar exerceu sobre Luciano? O que ele ameaçou fazer com ela, com os Valeztena...? Então ela entendeu, e se desiludiu porque entendeu. Diante de um penhasco do qual nada pode voltar atrás.
Afinal, foi ela quem matou Emiliano. Porque arrastou aquele homem inocente e bondoso para uma vida de sarjeta diante de Oscar.
""Eu poderia morrer por você, Inês."
O irmão que matara o marido dela era a única família que morreria por ela se tivesse a chance de viver novamente.
"Então está tudo bem. Faça o que fizer, eu assumirei a responsabilidade. Faça o que quiser. Não pense no pai, nem na mãe. Nem sequer pense..."
A mão trêmula de Luciano colocou secretamente a bala na mão dela, como se soubesse exatamente do que ela precisava. Sua voz era um sussurro conspiratório:
"Certo. Mate o Príncipe, Inês. Vingue-se com suas próprias mãos. Como uma Valeztena."
Inês viu Luciano chorar pela primeira vez naquele dia.
"Se estiver com medo, eu posso fazer isso por você."
"Luciano. Você não tem nada a ver com isso."
"Minha mão é a sua mão. Porque somos Valeztenas. Se eu o matar, é você quem mata. Se você o matar, fui eu quem matou. Portanto, somos responsáveis juntos."
"... Mate Oscar e depois disso... Tenho que salvar minha irmã."
"De que maneira? Mesmo que cause uma guerra?"
Foi tão absurdo que ela se lembrava de chorar e rir ao mesmo tempo. Ao lembrar daquele rosto desesperado do irmão, Inês virou a arma no último minuto para si mesma, não para Oscar.
Eu queria que Luciano sobrevivesse.
Mesmo nesta vida de poucas memórias afetivas, havia um menino que a abraçava, protegendo a cabeça dela cada vez que a mãe a batia. Mesmo pensando no fato de que ele matara Emiliano, mesmo lamentando o próprio suicídio, ela não se arrependia de não ter matado Oscar naquele momento. Matar Oscar teria sido o mesmo que matar Luciano e destruir os Valeztena.
E ela era uma Valeztena.
— ... Luciano.
Inês virou-se num impulso e chamou o irmão.
— Sim?
— Depois que terminar o casamento do Príncipe Herdeiro, pegue um navio para Calztela.
A oferta foi um impulso ainda maior do que o chamado. Os olhos de Luciano se arregalaram de surpresa.
A cabeça dela girava, estranha, como se ela ainda estivesse segurando a carta de Cássel. Ela nem sabia como havia dito aquilo. Tudo isso é culpa de Cássel Escalante. Você continua me deixando estranha...
— Você gosta de caçar — afirmou ela.
— ... Sim.
— Cássel também... gosta muito de caçar. Conheço um bom local perto de Calztela, o cenário é muito bonito. Portanto...
Inês falava desajeitadamente, como se estivesse testando uma língua estrangeira pela primeira vez.
— Pensei que seria bom você vir caçar conosco.
— ... Inês, você está me convidando?
— ... Sim.
A garganta dela se apertou. Inês disse, juntando as mãos para esconder o tremor.
— Vamos caçar juntos.
Como quando éramos jovens... Ela não conseguiu cuspir o resto das palavras. No entanto, a máscara fria que cobria seu rosto caiu, assim como no dia em que se confessou para Cássel.
— Inês... Você sabe caçar?
— Cássel me ensinou.
Ela sabia que bastaria Luciano dizer a Cássel: "Foi Inês quem convidou", e seu marido cuidaria de todos os preparativos sem questionar. Inês deu sua resposta de uma forma impulsiva, muito diferente de sua cautela habitual, e olhou para Luciano, aguardando ansiosamente pela reação dele.
— Eu... Sim, isso seria muito bom — gaguejou ele, os olhos subitamente brilhantes.
— Certo.
— Eu irei. Com certeza. Inês.
A voz de Luciano tremeu levemente, traindo seu esforço em vão para esconder a alegria que iluminava seu rosto. Inês assentiu e virou-se ligeiramente, incapaz de encarar tamanha gratidão.
✽ ✽ ✽
— Capitão, recebi uma carta esta manhã cedo da senhora em Mendoza.
Cássel, que estava pulando do cavalo e entregando as rédeas a Mario, virou-se para Raúl e franziu a testa.
— Por que do nada? Algum acidente em Mendoza?
— Não. É que...
— Onde Inês está machucada? Ela se meteu em algum problema?
— Não a abri, então não tenho certeza, mas não ouvi nada alarmante da criada dela. A senhora Inês ordenou o envio ontem à tarde, mas como Don Alfonso chegou tarde devido a outros assuntos, ele pediu a compreensão do Capitão pelo atraso na entrega.
— Ele deveria pedir perdão a quem deu a ordem, não a mim.
— Fora isso, não creio que haja mais nada a relatar...
— Inês não escreveria uma carta sem um motivo grave.
Cássel franziu a testa e subiu as escadas da residência oficial. Seus passos eram largos e rápidos. Raúl e os outros servos seguiram o senhor apressadamente. A porta principal foi escancarada por ele mesmo, sem dar tempo para que os criados a abrissem para o proprietário.
Arondra, que saíra ao vestíbulo para recebê-lo, arregalou os olhos de surpresa. Cássel, que normalmente teria brincado com a velha governanta, cruzou o corredor e dirigiu-se às escadas do segundo andar sem nem sequer olhar para ela.
— O que está acontecendo?
— Ele recebeu uma carta de Mendoza esta manhã. É só isso.
Ao passar por ela, Raúl jogou a resposta para Arondra e continuou seguindo o mestre.
Fazia menos de um mês que Inês partira. Uma esposa não poderia enviar uma carta ao marido sem motivo urgente? Apenas para cumprimentar e falar sobre trivialidades...
Seria algo tão grave assim?... Raúl queria acreditar que não, mas era difícil imaginar Inês enviando uma carta inútil ou apenas para jogar conversa fora. A simples ideia de Inês desempenhando o papel convencional de "esposa escrevendo para o marido" parecia, de certa forma, desconfortável e fora de seu caráter.
Quando Raúl entrou pela porta aberta do quarto, Cássel já estava encostado na janela à luz do entardecer, rompendo o selo da carta. O sol brilhava enquanto ele apoiava as costas nas ombreiras douradas de seu uniforme.
— Espere um minuto, Capitão. Coloquei meu abridor de cartas aqui...
Ele até rasgou o envelope, como se não tivesse ouvido o aviso de Raúl. Seu rosto, que abriu a carta rapidamente, endureceu como se fosse trincar.
O que realmente aconteceu em Mendoza, como as preocupações sensíveis de Cássel sugeriam. Raúl, aterrorizado, aproximou-se cautelosamente da mesa e olhou pela janela.
— ... Capitão? O que há de errado com a Senhora Inês?
— ...
— Capitão?
Mesmo após o chamado de Raúl, ele continuou olhando para a carta por muito tempo. A carta é tão longa assim? Raúl olhou para o verso da carta com os olhos semicerrados. Então, mesmo que o conteúdo não fosse visível, as marcas de tinta refletiam na luz do sol para que ele pudesse saber se a carta era curta ou longa.
A carta era extremamente curta. Parecia mais um bilhete deixado às pressas antes de sair do que uma correspondência formal.
— ...
Que diabos é isso? Raúl sentiu-se inquieto ao ver as sobrancelhas do dono se unirem em um cenho profundo, o olhar fixo e tenaz sobre a escrita. Mesmo na noite em que ele quase fora assassinado, Raúl não se lembrava de vê-lo com uma expressão tão grave.
— ... Ah, maldição.
O palavrão escapou com peso no final. Raúl contornou a mesa e caminhou com cautela em direção à janela.
— Aconteceu algo realmente ruim? Eu não suportaria ouvir más notícias...
— Isto é um desastre, Ballan.
— Oh, Dios Mio... — O bordão de Arondra, ecoou na mente de Raúl. — O que está acontecendo? Alguém está ferido? O que...
— É um verdadeiro desastre — repetiu Cássel.
— ... Por que o senhor está rindo?
Raúl parou a alguns passos de distância, franzindo a testa, perguntando-se se a loucura finalmente tomara conta de Cássel. Cássel ergueu os olhos da carta com um sorriso radiante no rosto, como se nunca tivesse estado sério um dia na vida.
— "Sinto sua falta."
— ...
— Assinado: Inês Valeztena — leu Cássel, e então corrigiu a si mesmo com prazer: — Não. É Escalante.
— ...
— Ah, sim. Inês Escalante.
A tensão se dissipou instantaneamente. Raúl relaxou os ombros tensos e fez uma careta involuntária. Cássel, agindo como se não visse a expressão do valete, voltou os olhos brilhantes para a carta.
— Inês Escalante é um nome perfeito. Encaixa nela como se tivesse nascido uma Escalante.
— Sim...
— Mas isso não significa que o nome Valeztena não lhe caia bem.
— Se a senhora Inês tivesse nascido Escalante, os dois não teriam se casado — pontuou Raúl, pragmático.
— "Sinto sua falta"... — repetiu Cássel, ignorando a lógica. — Eu poderia morrer... ela é tão fofa, minha Inês.
— E pensar que ainda há assassinos correndo por aí tentando matá-lo... — murmurou Raúl, incrédulo.
Ouvindo os murmúrios blasfemos de Raúl, Cássel murmurou em seu próprio mundo. Sinto sua falta... Venha me ver... Um momento...
Raúl observou-o, atônito. Será que alguém já se referira a Inês como uma "coisa fofa", nem que fosse uma única vez na vida? Talvez ninguém, desde a morte de sua avó, Belinda Valeztena.
Por mais irreverente que Raúl costumasse ser em seus pensamentos, ouvir o mestre murmurar aquilo sobre a esposa era perturbador. Para a estrita Inês, ser chamada de "fofa" era um assunto sério, quase uma ofensa à sua dignidade.
... Ele já não sabia de mais nada. Ainda parecia inacreditável que Inês fosse o tipo de pessoa que agarrava o marido no meio do corredor da residência oficial. Embora fosse natural que houvesse muitos rumores sobre o casamento de Cássel Escalante, o fato era que a relação deles não tinha nada da frieza ou estagnação que as fofocas sugeriam.
Ele até a vira tomar a iniciativa [física]. Raúl também ficara surpreso ao ouvir aquelas palavras de saudade saindo daquela boca geralmente tão dura... O que mais poderia surpreendê-lo agora? Exausto de tantos choques, Raúl desenvolvera um talento para aceitar rapidamente essas novas realidades absurdas.
Portanto, mesmo que Inês puxasse o marido pelo colarinho sem aviso... Ou se logo nascesse um pequeno herdeiro... Se ele encarasse as coisas assim, conseguiria olhar para seus mestres sem se sentir desconfortável. Estaria preparado até para o dia em que Inês tratasse Cássel como um capacho e ele apenas risse, feliz.
— Mendoza sem mim é chata.
— Certo.
— É seca. É sombria.
— Aham...
— "Todos os dias são cansativos e a cidade sem mim não tem sentido..." — murmurou Cássel, interpretando o texto.
— Bem, eu costumo sentir que Mendoza não tem sentido de qualquer forma, mas... — comentou Raúl, cético.
A julgar pelo que Raúl vira antes, quando a luz do sol atravessou o papel, aquela carta era curta demais para conter tantas frases poéticas. A menos que as letras estivessem se multiplicando magicamente dentro da cabeça apaixonada de Cássel.
— "Então, não pode vir a Mendoza por um momento?." — Cássel leu a frase final.
A bela orelha de Cássel ficou vermelha assim que ele tocou o canto do papel. Era como se aquelas simples palavras fossem a coisa mais vergonhosa e íntima do mundo.
Quem olhasse para aquela timidez estúpida jamais a associaria ao grande libertino que supostamente teve todas as mulheres do mundo. Exceto pela aparência irreal, não havia nenhum ponto em comum entre a lenda e o homem à sua frente.
Raúl compreendeu novamente que os boatos eram falsos. Até ele, Raúl, que nunca tivera um relacionamento sério, recebia cartas de amor das criadas do castelo ou de damas ricas com muito mais naturalidade do que seu mestre.
— "Ela sente a minha falta" — repetiu Cássel, fascinado.
— Sim. Eu ouvi, Capitão.
Agora ele está enterrando o rosto na carta. Raúl parou por um momento, como fazia quando olhava de longe para seus mestres e sua esposa, e depois voltou a olhar com seus olhos finos para o verso da carta que cobria o rosto infeliz de Cássel.
Justo quando estava prestes a lê-lo em segredo, Cássel levantou a cabeça. Raúl cambaleou para trás.
— Droga, isto tem o cheiro de Inês.
Cada vez que ele enterrava o rosto no papel, sua expressão se contorcia, como se estivesse sendo torturado pelo prazer. Raúl esqueceu por um momento o que ia dizer e depois respondeu:
— ... Talvez, por cortesia, ela tenha borrifado o perfume dela na carta.
— Não é cheiro de perfume. É o cheiro de Inês.
Parecia que Inês tinha abandonado de repente os bons modos; a carta era tão curta quanto um bilhete informal... Raúl refletiu por um momento sobre que palavras usaria para defender a falta de etiqueta dela, mas não foi necessário. Cássel acrescentou:
— É porque não há necessidade de formalidades entre nós.
— Sim... Claro.
— Devo responder também? Posso enviar uma carta?
— O senhor vai vê-la em breve, de qualquer maneira... Ah, lembre-se que vamos a Bilbao nestas férias.
— Mas Inês enviou primeiro... Posso enviar também?
Mesmo se Raúl dissesse para não enviar, parecia que ele já estava ansioso para escrever. Raúl nem entendeu por que ele perguntou, para começo de conversa.
— O senhor pode enviar a qualquer momento.
— Tenho medo que Inês se incomode.
Era por isso que ele não tinha enviado nada antes. E agora, assim que recebeu aquele bilhete curto, estava reagindo exageradamente, como se esperasse por isso há anos...
— Como ela poderia se incomodar? A senhora Inês gosta do senhor, não gosta?
— Eu sei que Inês gosta de mim, mas isso não significa que eu não a irrite.
Isso também era verdade. Na maioria das vezes, Cássel sabia que era apenas tolerado.
— Mas não é preciso ter tanto cuidado entre marido e mulher — argumentou Raúl.
— Deve-se ter cuidado com Inês. Com quem mais eu teria cuidado se não com ela?
Raúl esforçou-se para não demonstrar o pensamento de "O senhor está perdido" que ameaçava transparecer em seu rosto.
— Ainda assim... A julgar pelo fato de que ela enviou a carta primeiro, parece que ela estava esperando secretamente uma resposta do senhor.
Talvez, graças aos relatórios insignificantes de Raúl, não houvesse muitas novidades para perguntar... Ainda assim, era uma questão diferente receber uma carta escrita pelo próprio punho dela.
Cássel, que recebia informações de Alfonso através do quartel-general (pensando que Raúl não sabia de nada), parecia emocionado, como se tivesse recebido uma revelação divina daquela breve carta de Inês.
— Quando se recebe uma carta, tem que responder. Mas pensei que ela consideraria incômodo se o marido ficasse mandando mensagens sem motivo...
— Claro, é verdade que a Senhora Inês se incomoda com tais rituais...
— Certo. Inês não é o tipo de pessoa que se importa com bobagens.
— Mas vocês dois não trocavam saudações regularmente durante o noivado?
— Era diferente naquela época.
Raúl não conseguia entender o que era diferente.
— Já não é uma obrigação. Não temos nem sequer adultos nos vigiando para forçar isso. Isso deve ser preservado.
Ah, não há justificativa política, pensou Raúl.
— Ainda assim, veja o caso do Duque Valeztena, por exemplo. Ele parece ser uma exceção... Ele não a obrigava a escrever cartas assim — argumentou Raúl.
— O que quer dizer?
— E quanto à sua esposa... bem... O senhor não acha que ela acharia isso um exagero? Ela não pensaria dessa maneira sentimental.
— Claro que não. Minha Inês é nobre. Tudo o que ela faz é importante.
— Ah, sim, muito nobre — concordou Raúl, tentando ficar sério.
— Tenho que preservar este papel, exatamente como está.
— ... O senhor quer uma moldura?
Você vai pendurá-la em uma moldura? Aquela carta de três ou quatro linhas?
— Se não exigir um toque profissional, como uma pintura grande, eu mesmo posso colocar um vidro na frente, Capitão.
— Preciso de ajuda profissional.
— ...
— Isso não é a sua cara, senhor.
— Não importa como olhe, este sou eu agora.
— Esta é a primeira carta que recebo de Inês. — Ele sorriu, radiante. — Ah, uma carta de amor. Será um registro da família Escalante, uma relíquia a ser transmitida de geração em geração; por isso, devemos prestar atenção à sua preservação desde o início.
Raúl pensou que nada mais poderia surpreendê-lo, mas, para seu espanto, aquilo superou tudo.
Por que Arondra não está aqui num momento desses?
Na verdade, Arondra era uma pessoa sensata que jamais usaria palavras pesadas como "descendentes" ou "gerações" para um simples bilhete. No entanto, se fosse ela ali, provavelmente teria corrido para escolher o design da moldura imediatamente, validando a loucura dele, em vez de questionar a exigência.
Então, ironicamente, Raúl sentiu falta de Alfonso de Mendoza. A única pessoa com quem ele podia trocar olhares de exasperação em segredo.
Em meio a essa saudade efêmera, Cássel ergueu a "Carta de Amor" de Inês, segurando o papel como se fosse uma grande pintura a ser admirada. Quando Raúl tentou agir com naturalidade, fingindo que aquilo era normal, Cássel ergueu as sobrancelhas, insatisfeito, como se não conseguisse acreditar na falta de reverência do servo.
— Olhe com atenção — ordenou Cássel.
[Cássel Escalante.
É realmente cansativo e exaustivo todos os dias aqui.
Sinto sua falta. Não pode vir a Mendoza por um momento?]
— É prestigiosa.
— Isso é realmente tudo?
— É tudo.
Embora esperasse pouca coisa no verso da carta, Raúl ficou surpreso mais uma vez com a frieza de Inês. Já Cássel, que encarava aquele pedaço de papel como se fosse uma obra-prima, parecia ter perdido o fôlego de tanta emoção. Claro, considerando o temperamento original da remetente, aquilo era, de fato, uma evolução histórica.
— Se o senhor cavalgar agora, chegará lá tarde da noite — alertou Raúl.
— ... E daí? Eu vou.
— Mas... assim, de repente?
— Inês disse para eu ir. Ela escreveu: "venha por um momento". Um momento basta.
Raúl, que pensava que a viagem a Mendoza seria adiada por causa da missão em Bilbao, inclinou a cabeça, confuso com a mudança de cronograma. Hoje?
— Mas se o senhor sair de lá à noite para voltar... terá que chegar a Calztela antes do treino da madrugada.
A ideia era assustadora e ignorante. Cássel planejava ir a Mendoza, ver a esposa e voltar a cavalo na mesma noite. Até os mensageiros que apenas entregam cartas recebem permissão para dormir quando chegam ao destino à noite...
E ele ainda dizia que começaria o treino assim que chegasse. Era um evento oficial, diferente dos treinos solitários que ele fazia para se atormentar. Raúl lembrou-se amargamente de que, da última vez que Cássel abusara do corpo assim — treinando de madrugada após passar a noite em claro cuidando de Inês —, ele acabara desmaiando de febre.
— ... O senhor está dizendo que vai a Mendoza, volta na mesma noite e ainda participará do treinamento?
— Se não fosse pelo treino, eu não teria motivo para voltar correndo. Todos os oficiais devem participar.
Se ele usasse o status que tem para folgar, evitaria tanto sofrimento... Raúl sentiu-se frustrado com a resposta simples, dada como se fosse apenas uma obrigação natural. Cássel cobria o rosto e escondia sua identidade [nas missões], mas fazia esses sacrifícios sem se importar com quem via ou deixava de ver.
No fim das contas, não fazia sentido tentar argumentar. Havia alguma coisa no mundo, além de Inês, com que ele realmente se importasse a ponto de se poupar?
— Seria melhor me enviar a Bilbao e aproveitar as férias com calma. Faltam poucos dias... Não, nem sequer alguns dias depois.
Não havia lógica naquele cálculo. Chegar a Mendoza tarde da noite, ver o rosto de Inês por um instante, voltar na escuridão para o treino da manhã seguinte... Sem dormir, trabalhar até a noite e, poucos dias depois, partir para a distante Bilbao... Uma viagem de ida e volta a Bilbao a partir dali levaria, no mínimo, nove dias.
— Tenho que ir a Bilbao — insistiu Cássel.
— Eu sei o que o senhor disse, mas pense bem. Muito dinheiro passará pelas mãos do Arcebispo, e ele não poderá recusar... Mesmo que o pintor enlouquecesse e rejeitasse o dinheiro, como um simples artesão poderia se opor aos desejos do Arcebispo?
— Você conseguirá o medalhão de qualquer forma — continuou Raúl.
— Não é isso...
Como se o medo de não conseguir o medalhão não fosse o motivo principal, Cássel murmurou com uma expressão vaga.
— Não é isso...?
— Tenho algo a verificar pessoalmente.
Raúl inclinou a cabeça novamente, perplexo.
— Isso é algo que o senhor tem que fazer pessoalmente?
— Sim.
— Então não posso fazer nada a respeito quanto a Bilbao... Mas, nesse caso, seria melhor enviar apenas uma resposta por escrito a Inês agora. O senhor poderá vê-la com calma nas suas próximas férias...
— Inês não deve ter que esperar — cortou Cássel.
Céus...
— ... O coração do senhor pela Senhora Inês sempre me toca profundamente, mas essa agenda é um ato suicida, Capitão.
— Eu não vou morrer, então está tudo bem.
— Duvido que a Senhora Inês ache que "está tudo bem" vê-lo nesse estado. Apenas escreva a carta. Ela chegará a Mendoza pela manhã. O senhor nem sequer considerou minha sugestão?
— Considerei. Por isso decidi que vou levar a carta.
A expressão de Raúl tornou-se um retrato do absurdo.
— O senhor vai até lá pessoalmente só para entregar uma carta e voltar imediatamente?
— Sim. Porque posso entregar a carta, mas não posso ficar.
— ...
— Como não posso ficar muito tempo em Mendoza, a carta fica no meu lugar.
A menos que ele tivesse perdido o juízo...
A menos que estivesse louco demais de amor...
— Ah. E aquela pintura de que falamos antes? — perguntou Cássel, mudando de assunto.
— José Malraux, por ordem de Dom Alfonso, colocou-a no armazém.
— Traga-a amanhã.
— O lugar para um presente rápido?
— Não. Preciso dela para minha viagem a Bilbao.
— Vou empacotá-la para o senhor.
Ele era uma pessoa simples que não precisava expressar desacordo. Enquanto Raúl assentia fielmente, viu que os cantos dos olhos de Cássel se contraíam sutilmente. Numa temperatura diferente da do momento em que leu a carta e expressou vana admiração.
E o leve brilho de luz novamente nos olhos olhando a carta.
Cássel colocou cuidadosamente a carta de Inês sobre a mesa e dirigiu-se à estante em busca de papel e caneta. Dez minutos depois, chamaram Raúl, que esperava na porta, para selar cuidadosamente a carta. Ele não se esqueceu de recolher as folhas das flores que Inês deixara perto da janela da estante e guardá-las.
Cássel, que as guardou no bolso do uniforme, desceu rapidamente as escadas. Deixando o comando mais uma vez de deixar a carta de Inês que ele deixara no quarto nas mãos dos especialistas, não nas dele.
Então montou seu cavalo por aquele caminho e partiu para Mendoza. Raúl ficou sozinho no lugar onde a tempestade parecia ter passado, e balançou a cabeça enquanto via seu mestre se afastar dos pontos.
É um esforço excessivo fantástico, mas pelo menos a Senhora Inês ficará satisfeita.
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