Capítulo 105 — Vidas entrelaçadas
Em vez de cavalgar até Calstera em um impulso insano, Inês acabou adormecendo após receber as sucessivas cartas de lá. Na verdade, ela teve muitos sonhos.
Se não fosse pelo P.S. daquele idiota, teria sido um desastre; ela quase partira para Calstera. Somente depois Inês percebeu o quão estúpido seria chegar lá e confirmar que ele não estava, ou pior, ter que ver as costas dele partindo novamente, sentindo medo de abraçá-lo. Para ela, era aterrorizante quebrar dessa forma outra vez.
Aquele farsante mentiroso. Como ele ousava falar em morrer novamente? Se ele se atrevesse a dizer que ela deveria se casar de novo após sua morte... Se ele tivesse a audácia de tentar forçá-la a isso, ela bateria na cabeça dele. No entanto, Inês sentiu vontade de se punir por ter cogitado, mesmo que por um instante, encontrar um marido que não fosse ele.
Ela queria perguntar se ele estava bem.
— ...Você ficará bem.
Afinal, Cássel Escalante era um grande protetor. Inês já não sabia o que queria fazer; era difícil decidir por conta própria. Se ela se casasse dez ou vinte vezes, ou se vivesse ao lado do túmulo dele, faria o que bem entendesse... Mas se surgisse uma situação em que precisasse cuidar dele, ela não o deixaria escapar. De uma forma ou de outra, ela queria vencê-lo.
— Você fala assim porque quer apanhar...
Se isso não fosse implorar por uma surra, o que mais seria? Era como se Inês estivesse mergulhada em fúria enquanto caía no sono, encarando o travesseiro onde repousava a cabeça. E foi somente ao amanecer que ela se levantou novamente e releu a carta dele, repetidas vezes.
"Você não precisa de outro marido. Porque eu viverei por muito tempo."
Quem dera ele tivesse dito isso desde o início. Por causa daquela teimosia dele, ela nem esperava que ele revelasse a verdade tão de repente. "Minha Inês, sim. Na verdade, o assassino veio e se foi há muito tempo. Eu fiquei com um pequeno ferimento na lateral do corpo e doeu terrivelmente, mas agora a vida vale a pena..." Como Cássel Escalante pôde cair nas mãos dela desse jeito?
No entanto, ele escreveu: "Naturalmente, estou sempre impecável, não há nada com que se preocupar..."
Que trapaceiro... Inês pensou por muito tempo em um rosto que não combinava em nada com aquelas palavras. Então, como se fosse escrever uma resposta, sentou-se diante da escrivaninha escura e pegou a pena. A ponta, ainda sem tinta, bateu contra o papel.
"Assassinato"
"Ihar".
"Cássel Escalante"
"O Príncipe Herdeiro"
"Complexo"
"Período"
"Tangível"
"Especulação"
"Vinte e quatro"
"Vinte e cinco"
"Vinte e seis"
Não ficaram marcas de tinta no papel. Mesmo aquelas palavras eram todas traduzidas para línguas estrangeiras por puro hábito; Inês as escrevia como uma compulsão. Ela relembrava as palavras omicidas do principe enquanto avançava nela.
"Vou te matar. Vou matar aquele bastardo para que ele nunca mais te toque. Ah, sim. Escalante também. Aquele desgraçado do Montoro..."
"Escalante também."
Sua mente congelou ao escrever uma única palavra que a atingiu como se estivesse possuída. Algo que, há muito tempo, fora uma palavra ignorada.
Escalante também... Por que ele fora equiparado a Fernando Montoro no escândalo daquele dia?
Claro, se fora uma especulação unilateral vinda de Oscar, isso acontecera há muito tempo. Mesmo nos melhores dias de seu casamento com Oscar, o ciúme era algo que ele não conseguia esconder, então não era nenhuma novidade. No entanto, o mundo jamais dissera nada sobre a Princesa Herdeira e o primo do Príncipe Herdeiro, que sequer trocavam palavras de cortesia comum. Simplesmente não havia espaço para isso.
Havia o velho sentimento de inferioridade que Oscar sentia por ele, a posição heroica que Cássel construíra na marinha, ou algum inimigo incômodo que Oscar sutilmente sentira desde a infância... Exceto por coisas que estavam presas apenas na cabeça dele, como aquilo.
Inês recordou a primeira vez em sua vida que Oscar e Cássel Escalante estiveram intimamente relacionados à morte. Antes, ela pensava que estava apenas tentando destruí-lo. "Não o deixe voar, que nenhum prestígio glorioso persiga mais meu primo..." Ela também recordou aqueles dias.
Tudo ainda pertencia à primeira vida.
Mas naquela vida, ela não era a esposa de Cássel Escalante. Inês voltou a bater nervosamente a ponta da pena contra o chão. A sensação era a mesma de antes; um impasse, exatamente como quando pensava "nele".
Ainda havia tanto que ela não sabia. Sobre o verdadeiro "Cássel Escalante", ela na verdade não conhecia muita coisa. Como ele agia como um libertino que parecia ver através de tudo, ela tentava pensar nele da maneira mais simples possível; por isso, o dia em que o escolheu, ainda criança, agora lhe parecia motivo de risos amargos.
Era assim que a regressão funcionava: o corpo jovem acabava por influenciar as decisões, apesar do peso das memórias. Quando se viu de volta aos dezesseis anos — faltando apenas três meses para o casamento com Oscar na primeira vida —, ela tomou cada decisão com a mentalidade de uma adolescente que fora levada ao seu limite.
Aos dezesseis, o corpo ainda buscava um romance onde o amor verdadeiro triunfasse sobre a riqueza e o poder. Enquanto contava os dias para evitar se casar novamente com Oscar, ela ansiou por uma vida radicalmente diferente. No início, pouco importava quem Emiliano era como homem; ela o enxergava primeiro como uma ferramenta do destino. "Este será meu novo destino. Minha vida mudará por completo", pensara ela na época.
Sua relação com ele foi como enquadrar uma tela em branco e pintar diretamente sobre o vidro protetor. Se aquela imagem de felicidade mútua persistiu na mente de ambos, foi apenas porque, por sorte, Emiliano era o tipo de homem que se adequava perfeitamente àquela ilusão adolescente.
Sim. Foi porque Emiliano, que demorou a pintar sobre o vidro, era belo. Mas a má sorte dela foi confundir uma pintura que deveria ser um desastre do início ao fim com algo belo. Também foi lamentável que Emiliano fosse um homem bom demais para não corresponder ao delírio de uma jovem de dezesseis anos enlouquecida. E, por isso, ela o destruiu.
Ela arruinou aquele bom homem, e como o arruinou, no fim tudo se perdeu.
Inês apertou a pena em sua mão e a soltou. A escolha por Cássel Escalante fora feita muito antes disso. Fora sua escolha mais fria, mas também a mais precoce. É claro que não era algo de que se arrepender. Cedo ou tarde, ela teria voltado a ser a noiva de Oscar como estava destinado, e teria passado outra vida tentando quebrar o jugo daquele nome...
De maneira alguma ela deixaria Cayetana entregá-la a outra família, então, na realidade, não escolhera Cássel porque houvesse muitas opções. Ela apenas desejava poder se enganar, fingindo que tivera escolha. E mesmo que Cayetana a deixasse ir...
— Seria bom se você me lembrasse um pouco mais das suas próprias coisas.
O rosto severo e imprevisível de Oscar surgiu em sua mente. Um sorriso repugnantemente amigável distorcia pensamentos que ainda não haviam tomado forma completa. Inês continuava fingindo que nada sabia; ela entendia que precisava agir diante deles como se não notasse coisa alguma. A menos, é claro, que as ameaças que cercaram Cássel em sua vida passada estivessem novamente à espreita, logo ali na próxima esquina.
No entanto, a imagem dos assassinos que o emboscaram em uma vida anterior não abandonava sua cabeça. Se Cássel se retirasse da marinha... Enquanto não chegasse ao ponto de matá-lo, Oscar não pararia de desejar que Cássel abandonasse seu posto.
A ansiedade de Isabella era lamentável, mas Cássel Escalante estava em uma posição muito mais precária fora da marinha do que no campo de batalha. Longe do mar, ele estaria ao alcance direto das mãos de Oscar — especialmente se o príncipe decidisse que a queria de volta. Inês recordou esse fato com uma frieza cortante.
Algum dia, ele precisaria se erguer novamente e alcançar o patamar onde seu avô estivera. Nem que fosse apenas por uma questão de sobrevivência.
Inês estava convencida de que a estranha inveja de Oscar em relação a Cássel, como se o príncipe tivesse nascido com um sentimento intrínseco de inferioridade, era algo muito mais profundo do que ela imaginava. Mas ela não acreditava que essa percepção fosse fruto de ter compreendido Oscar por completo. Havia algo mais, algo visceral. Ela sentia que era como uma maldição que se sobrepusera a ambos por uma trágica coincidência.
— ... Eu sou uma maldição para você.
A mão de Inês, subitamente consciente do que escrevia, largou a pena devagar sobre a mesa.
Ela enxugou o rosto com suavidade e voltou a ocultá-lo entre as mãos.
Então, eu deveria viver? Se sua vida estava arruinada, e nada além de arruinada, por que precisava vivê-la de novo e de novo? Por que ela... outra vez...
— ... Estou fadada a destruir o que amo.
Amor. A mão que cobria seu rosto caiu, como se ela estivesse retirando uma máscara. Amor... Inês murmurou a palavra desconhecida com o olhar perdido. Para ela, termos como aquele soavam como uma maldição.
Vinte e quatro.
Vinte e cinco.
E vinte e seis.
O fim da primeira vida.
Restavam menos de três anos até aquele penhasco.
✽ ✽ ✽
Ao contrário do dia anterior, quando tentou montar um cavalo às pressas, Inês subiu com graça na carruagem que seguia para a Via San Talaria.
— Por que San Talaria? Se precisa de joias, chamarei o joalheiro que costumo solicitar à minha residência oficial. Sei que você é uma mulher exigente.
— Não. Vou comprar um presente para Cássel. Joias, relógios ou algo assim... Coisas bonitas que os homens usam — Inês respondeu de forma breve.
A gentil Isabella franziu o cenho, como se visse a nora lutar contra algo desnecessário.
— Seria o bastante chamá-los aqui, mesmo que deseje escolher pessoalmente.
— Quero comprar o que vejo e o que me atrai. Quando estava em Calstera, a residência oficial era pequena, então era bom ir eu mesma a El Tabeo e fazer essas coisas.
— Cássel choraria de alegria se você apenas lhe desse um galho arrancado de lá.
Não havia como Isabella não ter ouvido os boatos de que seu filho fora à residência oficial há poucos dias. O filho lastimável, que aparecera de repente na noite da corte apenas para ver a esposa por algumas horas — exibindo todo aquele seu romantismo descabido —, e depois retornara à residência oficial, desaparecendo novamente sem sequer ver o rosto da própria mãe.
— Escalante tem um coração estranhamente simples, então deve ser verdade; mas o meu coração não é assim — Inês respondeu, sem negar a afirmação.
Um simples galho que eu arrancaria com meu esforço lamentável enquanto pensava nele? Inês imaginou a cena. Ele certamente encontraria ali alguma metáfora teológica ou literária profunda onde não existia nada. Para um homem como ele, não haveria nada de estranho em emoldurar um pedaço de madeira seco e apreciá-lo pelo resto da vida como se fosse uma relíquia. Era um amor tolo, vindo de alguém que chegara ao ponto de implorar por uma carta de meras três ou quatro linhas.
— De qualquer forma, você está fofa agora também.
— Seu filho é fofo, eu não. Com licença.
Após responder timidamente à sogra e deixar a residência oficial, o primeiro lugar onde Inês desceu, na Rua San Talaria, foi em um armeiro.
Era natural. Cássel Escalante poderia até gostar dos galhos que ela colhesse para ele, mas galhos não podem matar ninguém.
✽ ✽ ✽
A maior vantagem da riqueza é que, às vezes, a ira pode ser canalizada para o consumo. Pode-se gastar tanto dinheiro quanto se queira; comprar na mesma medida da raiva.
Inês comprou as armas de fogo mais modernas e armamentos diversos no primeiro armeiro de luxo na Rua San Talaria. Não era comum uma dama de uma grande família nobre entrar pessoalmente em uma loja de armas e escolher dezenas de peças, incluindo as mais caras. Ela percorreu o interior da loja com calma, ignorando os olhares curiosos que vinham de fora.
O pretexto era: "Vou escolher um presente para o meu marido". E isso não deixava de ser verdade. Mendoza era a capital mais combativa por ser o coração de Ortega — uma cidade onde duelos de vingança privada eram tão comuns quanto a missa semanal na capela. Para eles, o presente de uma arma vindo da família ou do cônjuge carregava um sentimento romântico de afeto intenso e apoio total, como se dissesse: "Está tudo bem matar todos eles, apenas sobreviva".
Às vezes, o presente não era a arma em si, mas a munição dentro dela, embora na maioria das vezes fosse o conjunto completo. Mesmo as armas mais simples eram caríssimas, e era necessário acumular uma pequena fortuna para comprar algo minimamente decente. Dar algo assim como presente, mesmo gastando o equivalente a uma herança, era considerado puro romance, por mais cruel que parecesse.
Mas o que Inês comprou era muito mais caro do que "caro". Não foi uma, nem duas peças... na verdade, os números perderam o sentido. Ela praticamente esvaziou metade do estoque daquela grande loja. Quando questionada sobre onde os produtos deveriam ser entregues, a resposta foi curta:
— Enviem tudo para a residência do Capitão Escalante em Calstera.
Todos na loja ficaram sem palavras.
Assim como um apaixonado anexa um cartão a um presente, Inês pegou um cartão com Don Alfonso, incluiu uma fita de seda e escreveu a mensagem ali mesmo, no meio da loja, usando as costas do mordomo como mesa improvisada.
[Seu corpo não é diferente do meu, portanto, cuide sempre dele. Sua esposa, Inês Escalante de Pérez.]
— Don Alfonso, certifique-se de que a embalagem fique bonita, incluindo este cartão.
— Com licença, senhora, mas como devemos embrulhar uma armadura? — perguntou o armeiro, confuso.
— Se ler o cartão, encontrará a resposta.
— ...
— Amarre fitas em tudo. Qualquer coisa com uma fita costuma parecer fofa.
— ...
— Ah, e existem duas residências do Capitão Escalante em Calstera. Aquela pistola ali, aquele talabarte e o coldre... enviem para a residência oficial na colina de Rogorgno. O resto... como explicamos isso, Alfonso?
— Deixarei tudo claro por escrito. Não se preocupe, senhora.
— Ótimo.
O próximo destino de Inês foi outro armeiro. Era uma loja bem menor que a anterior, mas com preços ainda mais altos, especializada apenas em pistolas. Havia uma grande quantidade de objetos belos, usados principalmente por nobres para vestimenta cerimonial; peças que priorizavam a aparência sobre a utilidade e eram, consequentemente, caríssimas.
Inês escolheu as armas uma por uma e, como se estivesse entediada, simplesmente apontou para um lado inteiro da parede e ordenou que entregassem tudo.
Juana sussurrou para Alfonso: "Don Alfonso, a senhora pretende recrutar um exército particular?". Então, como na primeira loja, Inês pegou outro cartão e escreveu rudemente:
[Viva uma vida longa. Sua esposa, Inês Escalante de Pérez.]
Dessa forma, Inês "saqueou" vários armeiros ao longo da Rua San Talaria, ocasionalmente exigindo fitas especiais para que os pacotes se destacassem. Às vezes, comprava armas de fogo em grandes quantidades que nem eram tão especiais.
[Você não deve usar estas coisas; dê-nas aos seus soldados. Sua esposa, Inês Escalante de Pérez.]
Era como pagar pelo armamento de um almirante inteiro. Ela consumia com a mesma calma com que sentia raiva. Comprou espadas e adagas afiadas que poderiam ser escondidas em lugares que apenas o portador conheceria... Ela nem se importava com o fato de Cássel já possuir um arsenal vasto.
Inês conhecia o hábito dele de ir sozinho a El Tabeo para comprar armas raras quando estava de mau humor. Não seria má ideia criar um espaço para que ele se isolasse e mergulhasse em sua coleção, como se tivessem trazido uma loja inteira para dentro de casa.
Exceto pela pele de raposa que ele roubara dos campos de caça de Calderón, ela percebeu que nunca lhe dera nada parecido com um presente. No joalheiro, encomendou abotoaduras de ouro puro gravadas com o emblema da marinha e braceletes para roupas informais. Botões de diamante para casacos, alfinetes de colarinho, relógios de bolso...
Então, ela se perguntou por que nunca havia escolhido as roupas dele até agora e encomendou dezenas de peças ao alfaiate. Em seguida, encontrou um artesão que fazia trabalhos belíssimos em couro e ordenou tudo o que pudesse ser fabricado para o uso dele.
Somente então Inês conseguiu encontrar estabilidade e se acomodou no banco da carruagem.
— A senhora realmente andou vagando por El Tabeo? Deve ter sido perigoso, mesmo com os homens de Escalante seguindo a Lady Inês por toda parte — comentou Juana, tentando puxar assunto dentro da carruagem.
— Não foi muito perigoso — respondeu Inês, indiferente.
— A senhora às vezes se recusava até a sair do quarto, e realmente não sabe nada sobre as pessoas... Como o Raúl encarou isso?
— Ele reagiu bem.
— Pela forma como o Raúl falava da residência, parecia que ela era ridiculamente grande... Tudo o que eu sabia era que ele dizia isso por ser muito arrogante.
— Era estreito demais para ser chamado assim. Era o suficiente para vivermos.
Inês olhava pela janela que passava lentamente, com o queixo apoiado na mão, tomada pelo tédio. Don Alfonso havia ficado para trás para finalizar os trâmites na última loja, e os cavaleiros e soldados escoltavam a carruagem, enquanto Juana estava ao seu lado. Como em qualquer dia normal antes do casamento.
Talvez fosse porque ela não conseguira dormir profundamente; se ficasse um pouco distraída, sua visão embaçava. Gastar dinheiro de várias formas durante metade do dia também contribuíra para o seu cansaço. Por um momento, Inês pensou ter cochilado sem perceber que seus olhos estavam fechados.
— ... ...
Como se observasse uma cena sem sentido em um sonho, os olhos verdes que miravam a rua subitamente se arregalaram, como se tivessem sido capturados por algo.
— ... Pare.
— Sim? — Juana perguntou, assustada.
— Pare agora mesmo!
Seu olhar estava direcionado à multidão aglomerada na estrada que levava à Rua Mercedes. Para ser preciso, ela avistara um cabelo branco-prateado que aparecia e desaparecia repetidamente entre as pessoas.
— Lady Inês!
O cavaleiro demorou a descer do cavalo para abrir a porta da carruagem, e Inês não podia se dar ao luxo de esperar. Ela escancarou a porta como se estivesse possuída e saltou do veículo, quase rolando para o chão. Os cavaleiros, ainda montados, ficaram com os rostos pálidos diante da imprudência da senhora.
Ela correu rapidamente em direção à Rua Mercedes. Realmente parecia estar sob o efeito de algo. Ela nem sabia quem estava seguindo... mas era, definitivamente, um rosto familiar. Familiar a ponto de ser irritante; tão familiar que ela não conseguia suportar o fato de não conseguir recordar o nome.
Inês estava sem fôlego e seu coração batia com força. Enquanto corria entre a multidão, a pulsação se estendia por todo o seu corpo, da cabeça aos pés. Você. É você. É você... Era como se um demônio tivesse entrado em sua mente e falasse por ela. Por que eu...?
Ela ouviu um sussurro estranho sobrepor-se à sua própria voz novamente: Não o perca. Desta vez, não o perca, Inês. Corte esse...
— Rogelio!
O nome que saiu como um grito, no limite de seu fôlego, soava estranho, como se ela não soubesse nada sobre ele. Inês olhou fixamente para a multidão, mas as costas daquela pessoa já não eram visíveis.
E então, como se as cortinas de um palco tivessem se erguido, a multidão ao redor pareceu recuar diante da clareza súbita daquela visão. Aquela mentira, enterrada sob camadas de tempo, ressurgiu...
A cena na Rua Mercedes distorceu-se como um espelho estilhaçado. Em um instante, o mundo mudou: Inês sentiu o cheiro das velas em uma igreja na penumbra, viu o tecido gasto que pendia como um véu em sua memória e sentiu o toque fantasmagórico do anel de prata, fino como um fio, que um dia envolveu seu dedo anelar.
Então, uma voz familiar e solene ecoou, chamando por ela.
— Juana.
Inês ficou estática, o fôlego travado na garganta.
— ...
— É você. Suponho que se lembre de mim.
O sacerdote em sua batina a chamou por aquele antigo pseudônimo. Juana — o nome que ela adotara secretamente aos dezesseis anos, a identidade da mulher que celebrara sua missa nupcial com um artesão desconhecido na pequena capela do vilarejo de Biedma.
Desculpem a demora nas postagens mas estou sem notebook a um tempo então até o proximo mês deve se normalizar... Espero.
ResponderExcluirOoi! Muito obrigada pelo capítulo traduzido!
ExcluirTomara que dê tudo certo!!! Estarei aqui esperando novas atualizações ❤️❤️❤️