Capítulo 2 - A Sala de Inês
A chuva acabara de parar.
Em qualquer outro dia, a Via Santalaria estaria cheia de pedestres e carruagens exibindo sua riqueza. Hoje, a principal avenida de Mendoza estava incomumente vazia por causa do clima abafado. Apenas algumas carroças de carga, carruagens governamentais em serviço oficial e poucos veículos particulares passavam pela via, transitando com extremo cuidado.
A umidade grudava nos tecidos, apenas aumentando a frustração.
A carruagem do Duque de Escalante não era exceção e tropeçava nas poças de lama que se formavam na estrada. Cássel arrancou o casaco do uniforme e praguejou baixo quando sentiu o veículo cambalear ao atingir mais um buraco.
Depois de xingar seu inútil cocheiro, seus pensamentos rapidamente voltaram aos acontecimentos daquela noite. Ele se recostou no banco, deixando que seus cabelos loiros caíssem para trás. Batia distraidamente no estofamento enquanto se lembrava das palavras que a Condessa Porteo sussurrara na noite em que Inês os descobrira.
'— Lorde Cássel, sua presença graciosa não combina com a simplicidade dela. Ela se daria melhor em um convento do que no baile imperial. E ela nunca esconde seu orgulho diante das outras damas... O senhor ficaria repugnado se visse tamanha arrogância em plena exibição.'
"Se você tivesse um mínimo de perspicácia, saberia que o traje discreto de Inês vale muito mais do que o seu colar, condessa. O Duque Valeztena jamais hesitaria em mimar sua única filha", pensou.
Mas, como a condessa havia afirmado, Inês de fato não era conhecida por sua simpatia, tampouco por ter uma lista de amigas.
Pensar que ela tinha ouvido toda aquela fofoca... Cássel foi tomado por uma pontada de culpa ao saber que Inês escutara tudo e, ainda por cima, testemunhara seu noivo envolvido com outra mulher.
Culpa.
Um sentimento assim era completamente fora do caráter de Cássel Escalante de Esposa. Ele não deveria estar se sentindo culpado por aquela mulher fria.
A imagem da silhueta de Inês estava brilhantemente clara em sua mente, mas, por alguma razão, ele não conseguia se lembrar da expressão exata no rosto dela no momento em que descobriu o caso. Era tédio? Não era incomum para ele empurrar memórias indesejadas para fora da mente, mas esse não era o caso.
Ele simplesmente não conseguia recordar o olhar dela.
— Meu senhor, chegamos ao destino — anunciou o servo, interrompendo seus pensamentos.
Cássel balançou a cabeça levemente e desceu da carruagem. A imponente mansão do Duque Valeztena o recebia, erguendo-se no lado sul da via, no topo de uma colina, como um castelo. Era uma réplica menor da colossal propriedade da família no Ducado de Pérez, proporcionando uma vista panorâmica de Mendoza a qualquer convidado que ali pisasse. De fato, seu próprio pai já havia desprezado aquela mansão no passado, considerando-a excessivamente imponente, ao ponto de parecer tola.
No entanto, Cássel estava pouco impressionado com a paisagem luxuosa. Cada vez que pisava ali, ficava tão sufocado com a obrigação de desempenhar o papel de noivo perfeito e escoltar Inês Valeztena que mal notava os arredores. Apenas pensar nas próximas horas na presença dela, ou no futuro distante que passaria ao seu lado, fazia com que sua garganta se fechasse.
— A Señorita Valeztena está esperando por você no salão de recepção.
"Vejam só. Já está difícil até de respirar."
Apesar de seu ilustre e devasso histórico de casos amorosos, Cássel acreditava firmemente que sua promiscuidade deveria terminar no dia de seu casamento. Trair uma noiva arbitrariamente designada a ele quando tinha apenas seis anos era uma coisa; mas ele jamais aceitaria trair um casamento abençoado pelo arcebispo de Mendoza.
Ironicamente, esse senso inflexível de moralidade o fazia tanto ansiar quanto temer suas núpcias iminentes. Ele não nutria a menor esperança de um casamento feliz, mas, ainda assim, acreditava que deveria ser fiel, feliz ou não. Assim, sentia uma fúria e irritação indescritíveis pela Inês de seis anos que o havia escolhido como noivo e o condenado a uma vida de casado, mas também era ferozmente devotado à Inês de vinte e três anos que em breve seria sua esposa.
Não haveria outras mulheres após o casamento.
Todas elas logo se tornariam parte de seu passado. Isso significava que ele precisava aproveitar ao máximo agora; não queria ter arrependimentos quando proferisse seus votos matrimoniais. As memórias de suas muitas aventuras românticas teriam que ser o combustível para sustentá-lo na sufocante castidade de sua futura vida de casado.
Cássel Escalante precisava de memórias desgastadas para, um dia, ter do que se lembrar.
Cada dia o aproximava do momento em que ele e Inês seriam abençoados pelo arcebispo. Ele já havia feito o possível para adiar o casamento, frequentando a academia militar e depois alistando-se na marinha. Agora, não lhe restavam mais cartas para jogar a fim de postergar o inevitável.
— Lorde Escalante, por favor, entre. — A voz calma, mas monótona de Inês o saudou.
— Lady Inês. — Cássel se curvou e deu um beijo educado em sua mão. Ele estava tomado pelo pânico e por uma culpa desconhecida. Sua noiva, de todas as pessoas, jamais deveria tê-lo visto com outra mulher.
Quando ergueu a cabeça, a mulher à sua frente era a mesma de sempre. Seu vestido estava abotoado até o topo e o cabelo preto firmemente preso para trás. No geral, sua aparência era simples e dificilmente memorável.
Agora, ele finalmente conseguia se lembrar de como ela estava naquela noite. Mesmo quando o surpreendeu no meio de um caso, seu olhar permaneceu completamente impassível, exatamente como estava agora. Sim, era tédio.
— Imagino que você tenha assuntos a tratar comigo — disse ela.
— Tenho tido negócios com você nas últimas vezes em que a procurei. Cinco dias atrás, e duas semanas atrás...
— Não queria que você fizesse uma viagem na chuva apenas por minha causa.
A resposta polida de Inês ocultava de forma tênue seu desdém pelas visitas dele. Afinal, ela acabara de ignorar o fato de tê-lo deixado esperando duas vezes nas últimas duas semanas. Embora fosse a primeira vez que Inês o tratava assim, ele deveria ter previsto.
Qualquer noiva ficaria furiosa ao descobrir seu noivo com uma mulher seminua.
Cássel fez uma careta.
— Inês, sei o que deve ter passado pela sua mente naquela noite.
Cássel e Inês costumavam ser companheiros de brincadeiras quando eram crianças. Mesmo que Inês não quisesse brincar com ele nem o considerasse um “amigo” nos últimos dezessete anos. Talvez fosse por isso que ela o condenou a uma vida entediante de casado ao escolhê-lo como noivo em vez de seu primo, o príncipe.
Ele tentou afastar o peso da culpa, concentrando-se puramente em sua irritação. Sim, Inês Valeztena era a única razão pela qual ele estava sendo arrastado para um casamento que nunca desejou, obrigado a carregar um remorso que jamais pediu. Ela era o motivo pelo qual o restante de seus dias seria tão casto e monótono quanto a vida de um monge.
— Não entendo o que quer dizer, Lorde Escalante.
— Você sabe exatamente do que estou falando…
— De jeito nenhum.
Inês o interrompeu com uma voz calma e plácida. Ela mantinha os olhos baixos, a personificação perfeita de uma jovem recatada e submissa. "Quanta ironia", pensou ele, afinal, uma mulher verdadeiramente obediente jamais ousaria interromper o noivo daquela maneira.
— Inês.
— Nenhum de nós quer ter esta discussão — ela disse, levantando os olhos e abandonando de vez a falsa timidez. — Precisamos mesmo continuar com isso?
Infelizmente, Inês Valeztena gostava dele. Ela gostava dele o suficiente para escolhê-lo em vez da coroa imperial, rejeitando a posição mais cobiçada do império, que seria o destino óbvio para alguém de sua linhagem. Ela tivera inúmeras oportunidades de mudar de ideia ao longo dos anos, mas sempre o escolheu, sem hesitar, nos últimos dezessete anos. Ela sempre estivera ali, esperando por ele.
Sua persistência sufocava Cássel, porque ele não tinha sentimentos por ela. Ele não tinha nada a oferecer além de algumas desculpas e mentiras bonitas. Essa impotência o sufocava mais do que seus trajes simples, seu rosto imóvel ou a fúria por ela tê-lo condenado a uma vida de casado.
Sua culpa só aumentava a cada dia que passava.
— Posso explicar — disse Cássel.
Na verdade, ele não podia explicar, mas podia inventar desculpas apropriadas. Afinal, Inés sabia pouco sobre o mundo, apesar de sua atitude superior e distante. Ele preferia que ela permanecesse ignorante sobre assuntos entre homens e mulheres, especialmente antes do casamento.
Preferia mantê-la no escuro sobre sua promiscuidade.
Inês deu de ombros antes que Cássel tivesse a chance de apresentar suas desculpas.
— Não preciso de explicações. Meus próprios olhos puderam decifrar o que aconteceu, e não fiquei perturbada com o que vi.
— Mesmo? Isso é tudo que você tem a dizer? — ele resmungou.
— Senhor Escalante.
— Estou pronto para quaisquer palavras de fúria que você possa ter para mim, Inês.
— Mas não tenho nenhuma.
Ela certamente parecia longe de estar furiosa. Na verdade, estava exibindo seu raro sorriso.
— Certamente... Você deve estar um pouco brava comigo? — Ele não conseguia acreditar nesta mulher.
— Não estou.
— Que besteira. Você deve ter ficado chateada, já que se recusou a me ver por duas semanas.
— A chuva atrapalhou. Não queria que você chegasse encharcado e pingando — ela explicou.
Cássel percebeu a sinceridade dela no desgosto por receber um convidado molhado em sua casa, mas ela parecia indiferente a qualquer outra coisa. Um suspiro cansado escapou de Inês.
— Essa conversa prolongada está ficando monótona muito rápido. Nunca fomos um par muito falante, para ser justo. Não estou habituada a conversas tão longas.
— ...
— Afinal, devo talvez lembrá-lo de que ela não foi sua primeira mulher? E, muito provavelmente, não será a última.
Cássel permaneceu em silêncio.
— Você realmente achou que eu seria tão ingênua a ponto de não perceber sua promiscuidade? — ela perguntou sem piscar. Sua voz calma e familiar o trouxe de volta à infância, quando eram companheiros de brincadeiras.
Inês era muitas coisas, mas não era tola. Cássel ergueu as sobrancelhas, intrigado.
— E mesmo assim você ainda não está brava?
— Por que eu estaria? As mulheres com quem você se associa são da sua conta, não da minha.
— Mas estamos noivos, Inês. Em breve nos casaremos!
Assim que as palavras saíram de sua boca, Cássel percebeu a contradição: estava argumentando contra seus próprios interesses ao apontar a falha no raciocínio dela. Ele afastou o cabelo do rosto, tentando conter a irritação crescente. Em vez de se render àquela discussão, Inês continuou a falar em voz baixa:
— Esse noivado não precisa constrangê-lo. Ainda não estamos casados. Portanto, de agora em diante, faça o que quiser, com quem quiser. Não se preocupe comigo, e também não precisa se dar ao trabalho de se explicar para mim.
— Estou pasmo com tamanha "generosidade" de espírito para com o seu noivo — Cássel zombou, o sarcasmo pingando de suas palavras. — Mas isso não tem a menor graça, Inês. Você está sendo ridícula. Eu…
Inês o interrompeu no meio da frase.
— Não, eu não estou sendo generosa como você disse. Nem mesmo compreensiva ou tolerante.
Em vez de desviar o olhar, ela ergueu os olhos, revelando suas suaves pupilas verdes que encontraram as dele. Os cabelos escuros de Inês tremularam de leve com o vento úmido que entrava pela janela distante. Ela abriu a boca em silêncio:
— Isso simplesmente significa que não tenho o menor interesse em seus assuntos. Não tenho interesse em você, Escalante.
No verão de seus vinte e três anos, aquelas palavras contundentes ecoaram nos ouvidos de Cássel. Foi o choque necessário para lembrá-lo de que, até aquele momento, tudo o que ele acreditava sobre os sentimentos dela não passava de uma completa ilusão.
Aquela mulher não tinha qualquer interesse por ele.
Comentários
Postar um comentário