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Capitulo 3 — A Posição de Cassel Escalante

Parte I

A Historia de Cássel



O noivado de Cássel e Inês não teve o início mais agradável.

Quando o Cássel de seis anos prometeu o resto de sua vida à Inês de seis anos, ele tinha apenas uma vaga ideia do compromisso no qual estava se metendo. À medida que o banquete de noivado se apresentava ao fim, ele perguntou a várias pessoas:


— Quantos anos duram uma vida inteira?


Cada pessoa sorriu de forma constrangida diante da pergunta. Ninguém parecia capaz de fornecer uma resposta. Cássel começou a se frustrar com a falta de retornos quando fez a pergunta à aparentemente inofensiva Duquesa Valeztena.


O Duque Valeztena, no entanto, interrompeu a esposa antes que ela pudesse responder e sinalizou com o queixo para sua filha, Inês, dar a resposta em seu lugar.


— Como você não sabe a resposta para uma pergunta tão óbvia? — perguntou Inês com profundo desprezo.


Cássel franziu a testa. Mesmo que a diferença de altura entre eles fosse de apenas alguns centímetros, ela de alguma forma conseguia olhá-lo de cima, como se ele fosse uma minhoca ou outra criatura insignificante. O Cássel de seis anos talvez não soubesse de tudo, mas certamente sabia quando alguém o estava menosprezando.


— Você não sabe. Claro que não saberia — zombou Inês.


— Eu sei. Todos sabem quanto tempo de vida têm.


— Então, vá em frente e me diga.


A confiança de Cássel desapareceu em um instante.


— S-serão muitos anos, por um lado — ele gaguejou.


— Quantos exatamente? — ela insistiu.


— Bem, bastante...


— Devo conversar com ele diretamente? — Inês resmungou, virando-se para os pais. — Deve haver uma maneira mais eficiente de fazer isso.


O Duque Valeztena inclinou-se para encontrar o olhar de sua filha e a cobriu com um sorriso gentil e dócil:


— Entendo sua frustração. Deve ser difícil para você tolerar seus colegas, pois é muito mais inteligente do que eles. Por isso, você deve praticar conversar com eles de maneira que não revele aos seus amigos a sua superioridade, e mantenha sua ignorância abençoada sobre sua inferioridade...


Cássel não podia acreditar no que ouvia. 

"Ele está sugerindo que sou inferior a Inês? Ele acha que sou... estúpido?"

Até então, Cássel se considerava bastante esperto para um menino de seis anos. Seus parentes, tutores e os anciãos de sua família sempre o elogiavam em uníssono por superar a maioria de seus colegas nos estudos, repetindo que o Jovem Mestre Escalante era brilhante.

Enquanto o cenho de Cássel se aprofundava, nem o duque nem Inês pareciam se importar com a presença dele ali. O Duque Valeztena parecia ocupado demais com o orgulho e a adoração por sua única filha.


— Não preciso de amigos. Na verdade, ele é meu noivo, não meu amigo — respondeu Inês ao pai. Seu tom sugeria que um noivo valia ainda menos sua atenção do que um amigo.


Cássel era jovem, mas já tinha idade suficiente para saber que um noivo era algo muito mais grandioso e importante do que um amigo. Afinal, Inês poderia ter vários amigos se quisesse, mas só teria um único noivo, Cássel Escalante de Esposa.

Embora já tivessem falhado várias vezes em desenvolver uma amizade, Cássel sabia que este noivado significava que agora ele tinha extrema importância na vida dela. Ele estalou a língua silenciosamente.


"Ela nem sabe um fato tão simples, mas se considera tão mais esperta!"


— Sim, Cássel é seu noivo. Por isso, você deve ser mais paciente e gentil com ele — insistiu o Duque Valeztena —, como uma menina deveria ser...


— Pai, meu temperamento não me faz menos menina.


Para ser franco, Inês Valeztena raramente agia como uma criança da sua idade; ela não tinha nada de infantil. Sua expressão era severa, sua aura geral era fria e exigente, e seu vestido preto simples parecia mais apropriado para o funeral de um desconhecido do que para sua própria festa de noivado.

Provocando nele um repúdio instintivo, Inês de repente se voltou para Cássel e percebeu que ele a encarava com desdém.

Mesmo assim, ela ergueu o nariz e disse com um ar arrogante:


— Escute, Escalante.


"Será que mataria ela me chamar pelo meu nome próprio?", Cássel se perguntou, irritado com aquela teimosia dela. Como poderia se casar com alguém que se recusava a chamá-lo pelo primeiro nome?


— Somente uma pessoa morta pode dizer com certeza quanto tempo durou sua vida — afirmou ela.


A confusão de Cássel só aumentou.


— Mas... como uma pessoa morta poderia dizer qualquer coisa?


— Ela não pode. É por isso que ninguém vivo aqui pode responder à sua pergunta.


— Então, como a pessoa morta descobriria isso?


— Porque alguém já morreu — respondeu Inês com absoluta certeza, como se estivesse explicando algo óbvio que qualquer criança de seis anos deveria ter entendido.

Cássel se contorceu, desconfortável. 

Ele só havia compreendido o conceito de morte há cerca de quatro meses. Sentiu-se perdido nessa conversa mórbida; Inês, com seu vestido preto, parecia a própria ceifadora.

Ele olhou ao redor em busca de algum adulto que pudesse mediar o diálogo ou uma saída para a conversa, mas os Valeztena já haviam abandonado os dois recém-noivos para se misturarem aos coquetéis. Cássel decidiu mudar o rumo do assunto por conta própria.


— Então, você também não sabe quantos anos lhe restam de vida? — ele perguntou.


— Claro que não. Ainda não estou morta — respondeu Inês com uma voz distante.


A conversa rapidamente voltou ao tema fúnebre em apenas uma troca de palavras. A tática de Cássel não estava funcionando.


— Por que é preciso morrer primeiro para descobrir isso?


— Porque sua vida termina com a morte — disse Inês.


Cássel não sabia o que dizer. Sua mente estava confusa com as afirmações que ela lançava de todos os lados.


— Então, alguém contaria os anos até a própria morte para calcular quantos anos durou sua vida — explicou ela.


— A vida termina... com a morte?


— Claro. Ou você imaginava que sua vida continuaria para sempre?


Aha! O fim da vida era um conceito bem-vindo para ele. Cássel ficou satisfeito em saber que esse casamento com Inês acabaria eventualmente, já que diziam que deveriam ficar juntos "pelo resto de suas vidas". Para que o matrimônio terminasse, a vida também precisaria terminar.

No entanto, a ideia de morrer era assustadora.


— Por que... a vida precisa continuar até a morte? Por quê?


— Porque essa é a natureza de uma vida inteira. Todos os anos entre seu nascimento e sua morte compõem sua vida. Então, você só pode saber a duração de sua vida após a morte.


Cássel abriu a boca para responder, mas percebeu que não sabia o que dizer. Inês suspirou, exasperada, apoiando a testa com a mão.


— Por favor, não me pergunte quando você vai morrer.


— Quando vou morrer?


Inês soltou outro suspiro e balançou a cabeça. Era um gesto que a mãe de Cássel, a Duquesa de Escalante, costumava fazer sempre que o filho a colocava em apuros. Sentindo um nó incômodo e sinistro no estômago, Cássel insistiu com urgência:


— Quando eu morro? Por que eu morro?


— Como eu saberia isso? — retrucou ela. — Ninguém sabe quando ou como você morrerá no futuro. Você por acaso me confunde com uma cartomante?


— Meu avô disse que a perna dele apodreceu por causa de um ferimento de bala que ele recebeu em Nuñera. Minha perna também apodreceria...?


— Se você seguir os passos dele, poderia. Mas você não precisa de um ferimento de bala para morrer. Todo mundo morre por diferentes razões. Poderia morrer de doença, fome, abuso de álcool ou por ser esfaqueado.


O belo rosto de porcelana de Cássel ficou ainda mais pálido.


— Existem tantas maneiras assim de morrer?


Inês suspirou novamente, aparentando cansaço.


— Você poderia tomar cuidado e prevenir esses desfechos o máximo possível. Tente.


— Posso evitar a morte se eu for cuidadoso o suficiente?


— Não.


— Então, vou morrer não importa o quanto eu seja cuidadoso?


— Sim. Você poderia até morrer amanhã.


O rosto impecável de Cássel, como a encarnação de um anjo bebê esculpido em uma pintura sacra, lentamente se transformou em uma careta, e seus trêmulos olhos azuis se encheram de lágrimas antes de começarem a transbordar. Um olhar de profundo desdém e comiseração surgiu novamente nos olhos de Inês.


— Minha perna... vai apodrecer como a do vovô? — ele murmurou, tomado pelo medo.


Inês olhou para ele com desdém.


— Seu avô viveu mais dez anos depois que a perna dele foi amputada.


— Então, eu tenho que viver com você até alguém cortar minha perna?


— Não, estou tentando explicar que sua perna não precisa ser destacada do seu corpo, nunca. Isso não é uma condição prévia para a morte. Embora, eu suponha, você poderia acabar com uma doença que infectasse sua perna...


— Então, eu realmente preciso cortá-la! Preciso continuar casado com você a menos que corte minha perna! — Cássel gritou, em pânico.


Enquanto seu grito perfurava a sala, todos os olhos no salão se voltaram para ele.


Seus cabelos loiros reluziam à luz das velas, e suas pupilas azul-pálidas também brilhavam com as lágrimas escorrendo pelo seu rosto angelical. O jovem Cássel parecia esplêndido em sua camisa social branca, gravata carmesim, colete bege e casaca cor de avelã.

Em contraste, Inês era a personificação da simplicidade e apatia, vestida de preto da cabeça aos pés e olhando para o choroso Cássel, impassível diante da bela cena à sua frente.

Todos estavam observando os dois. Inês não suportava mais ver Cássel zombando dela. Ela precisava fazer algo para deter aquele imbecil.


— Nossa responsabilidade inclui não apenas o casamento, mas também gerar um filho entre nós — disse ela, cerrando os dentes.


— Não! Eu não quero! — gritou Cássel.


Inês tentou persuadi-lo com razão.


— É por isso que é melhor você parar de chorar agora. Se continuar a berrar, não terá outra escolha a não ser ter um filho comigo. Você não quer isso, quer? Afinal, você me odeia. Certo?


Cássel assentiu lentamente. Relutante, Inês limpou as lágrimas de seu rosto. Assim que ela aparentou demonstrar algum cuidado por Cássel, os adultos por perto pararam de prestar atenção.

Assim que se certificou de que os adultos não os observavam mais, Inês se afastou dele. Cássel imaginou que as nuvens negras da morte que circulavam Inês também haviam se afastado dele.


— Na verdade, pode haver uma maneira de encurtar isso — ela sussurrou.


— Encurtar... o quê? — ele perguntou.


Inês sorriu com um ar de malícia por um segundo antes de voltar à sua expressão estoica.


— Nosso casamento.


Cássel não conseguiu entender exatamente o que ela queria dizer com isso e olhou de volta, sem expressão. Inês murmurou algo incoerente sob a respiração, e Cássel supôs que ela não estava dizendo nada agradável sobre ele.


Naquele momento, a tia de Cássel, a Imperatriz Cayetana, ergueu seu copo para um brinde.


— Vamos brindar à futura união de Cássel Escalante de Esposa e Inês Valeztena de Perez. Sem dúvida, este belo casal fortalecerá o vínculo entre ambas as famílias.


— Salve, salve! — respondeu a multidão.


A Imperatriz Cayetana retomou seu discurso.


— Que estes dois apaixonados cuidem um do outro por toda a vida e se apoiem nas dificuldades. Cássel Escalante, como futuro genro da família Valeztena, e Inês Valeztena, como futura senhora da Mansão Escalante, servirão ambas as famílias esplendidamente para sempre. Esta futura união traz grande alegria à casa imperial...


O brinde da imperatriz soou como uma maldição para Cássel.

Para sempre.

Pelo resto de suas vidas.

Até que a morte os separasse. 

As palavras ominosas ecoaram nos ouvidos de Cássel. Independentemente do que ele quisesse, estaria inextricavelmente ligado à sua noiva de seis anos — rude, arrogante e de aparência simples.

Naquele dia fatídico, Cássel estava condenado a uma vida com Inês.

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