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Capítulo 6 – Revisado

Seus passos rápidos ecoaram pelo corredor. Nenhum criado ousou parar as duas crianças em fuga. Quando chegaram a uma parte distante de seu estúdio, Inês disse:


— Você já pode me soltar agora.


— Mas você disse que estava tonta há pouco e que sua cabeça estava doendo.


Inês livrou-se da mão de Cássel.


— Você já sabe que nada daquilo era verdade.


Cássel lançou um olhar para trás, no caso de Oscar estar os seguindo, antes de perguntar nervosamente:

— E se o príncipe herdeiro ver você...?


Foi uma boa ideia ele não terminar a frase com “andando perfeitamente bem sozinha”, porque Inês já o olhava com olhos cheios de irritação.


— Quem se importa?


Era uma afirmação justa, considerando que Inês havia escancaradamente fingido uma tontura repentina e pedido a assistência de Cássel sem um único sinal de sofrimento ou dor em seu rosto. Andar sozinha, fora da vista do príncipe herdeiro, era o menor de seus problemas.


Mesmo assim, Cássel não pôde deixar de perguntar:


— … Você por acaso não teme o amanhã? O bem-estar da sua família?


Se ele tivesse aprendido a palavra "consequências" ou "retaliação" de antemão, certamente teria usado termos mais precisos. Inês, no entanto, respondeu com total indiferença:


— Seria uma vergonha tremenda para a família imperial se levasse um assunto desses ao Duque Valeztena.


De fato, era algo de que se envergonhar. Cássel recordou a expressão humilhada e esmagada de Óscar. A casa dos Valeztena era uma das linhagens mais poderosas entre os Grandes de Ortega; uma posição de tamanho prestígio que a família imperial jamais poderia punir levianamente baseando-se apenas em uma pequena briga entre duas crianças.


— O vexame seria todo dele. Além do mais, é o seu primo quem tem me importunado todo este tempo. Se alguém ousar abrir a boca para o meu pai ou para a minha mãe sobre o que aconteceu hoje, eu direi a eles que o Príncipe Herdeiro gaguejou para mim e tentou me tocar…


O rosto decidido de Inês obscureceu por um vislumbre. Ela devia estar se lembrando, com profundo nojo, da pompa com que o príncipe fizera aquela proposta absurda.


Ao mesmo tempo, as bochechas de Cássel inflaram ligeiramente, sentindo-se ultrajado. Ora, o príncipe herdeiro ter audácia de cortejar sua noiva bem na sua frente...

— … Eu escreverei cada uma daquelas palavras patéticas e vulgares, sem perder uma única linha, e as enviarei para o boletim confidencial da corte: Mendoza Times. Então veremos quem vai se meter no maior escândalo.


— Boletim? Mendoza Times?


Inês apenas acenou com a mão com desdém quando Cássel franziu o cenho, confuso diante daquela palavra desconhecida.


— O que eu ganho tentando conversar com você…?


A julgar pelo fato de que ela estava gastando saliva para lhe dar explicações — algo que normalmente não faria —, Inês até que estava sendo surpreendentemente paciente com o Cássel de hoje. 

Ele a acompanhou de volta pelos aposentos, remoendo o significado daquela palavra na esperança de decifrá-la, até que entraram juntos no quarto da menina. No fim das contas, ele havia perdido o momento exato de perguntar se já podia ir embora para sua própria casa.


— De qualquer forma, há uma coisa que você deve se lembrar sempre que vir o Príncipe Herdeiro — disse Inês.


— … — Cássel guardou silêncio, prestando atenção.


— É muito fácil viver confortavelmente quando se guarda um segredo vergonhoso sobre outra pessoa. Se aquele príncipe voltar a importuná-lo ou a humilhá-lo, lembre-o estritamente do que ele fez hoje.


Dito isso, Inês tirou o anel do dedo com um suspiro de frustração. 

Cássel, que permanecia parado junto à porta com uma postura tímida e desajeitada, observou-a caminhar de um lado para o outro, indo da escrivaninha até a cômoda, sem que ela parecesse notar sua presença ali.


Ele fechou a boca e correu os olhos com estranheza pelo quarto da noiva, onde acidentalmente pisava pela primeira vez. 

Não era o tipo de vergonha da qual Inês falava, mas ele se sentia estranhamente encabulado por estar no aposento de uma menina.


— Bella, água.


Ao comando de Inês, uma criada que parecia brotar do nada surgiu trazendo uma bacia larga de prata. Não era água para beber, mas sim para o asseio.


Inês começou a lavar as mãos, esfregando-as com uma força que beirava o obsessivo. Pensando bem, aquela era a primeira vez que Cássel a via lavando as mãos. Ele a observava de soslaio, aproveitando que ela estava distraída para examiná-la com atenção.


"Não é que ela seja uma grande beleza…", pensou o menino. Mas havia algo peculiarmente fascinante em vê-la esfregar as mãos com tanta diligência, franzindo o cenho enquanto concentrava os olhos nos próprios dedos brancos.

Era quase… fofa. Claro que ela jamais diria palavras doces ou agiria de forma adorável perto de qualquer pessoa, nem mesmo dos pais, então Cássel guardou o pensamento para si.


As crianças costumam ser pequenas, e criaturas pequenas tendem a ser fofas, por mais estranhas e ranzinzas que sejam. Cássel finalmente admitiu para si mesmo aquela sutil e relutante ternura de Inês.


No entanto, embora o rosto dela não tivesse defeitos, ainda era um tanto ultrajante para o orgulho dele pensar que teria uma esposa tão mandona ao seu lado no futuro… Ele divagou, fitando o próprio reflexo no espelho de corpo inteiro fixado na parede próxima.


"Ela mal está à minha altura."


— Escalante?


Teria sido por causa de toda a sucessão de absurdos envolvendo o príncipe? Ao ouvir seu sobrenome, ele virou a cabeça num sobressalto, parecendo um cachorrinho cujo nome havia sido chamado pelo dono sem perceber. Notando que aquilo arruinava sua pose, recompôs-se rapidamente, endireitando os ombros com uma elegância artificial. Se ia se casar no futuro, independentemente de com quem fosse, sentia que precisava manter uma dose estrita de dignidade aristocrática.


— Já vou indo.


— Venha aqui.


— Eu sei que estamos noivos, mas ainda assim não devo andar livremente pelo quarto de uma dama sem estarmos casados...


— ... Você tem apenas seis anos, Escalante — disse Inês com um suspiro, como se ela mesma não tivesse seis anos. — Ninguém vai dizer nada, mesmo se você dormir na minha cama.


— Então, posso?


— Você enlouqueceu?


— Eu também não queria! — Cássel apressou-se em corrigir, as bochechas corando de leve.


Mesmo protestando, quando ela fez um sinal com a cabeça, ele acabou se aproximando dela de qualquer maneira. Bem a tempo, a criada trouxe uma nova bacia com água limpa. Inês apontou com o queixo:


— Lave as mãos.


— Por quê?


— Todos no meu quarto devem estar limpos.


— … Mas eu já não estava indo embora?


Mesmo resmungando a pergunta, suas mãos, por algum motivo misterioso, já estavam mergulhadas na água. Desde que a conversa começara, Cássel vinha obedecendo rigidamente a tudo o que ela mandava fazer, quase sem perceber.


— O seu primo ainda está na residência Valeztena — respondeu Inês com severidade. — Portanto, você deve ficar aqui comigo.


Sua prometida o estava usando abertamente como um escudo político contra o Príncipe Herdeiro, a quem ela se referia apenas como "o seu primo". Inês pegou a toalha seca das mãos da criada. Quando Cássel estendeu os dedos molhados para pegá-la, ela balançou a cabeça com firmeza e apontou novamente para a bacia.


— Esfregue direito.


— … Você não é a Duquesa.


— Esfregue. Eu gosto de tudo perfeitamente limpo.


Cássel quis retrucar o que os gostos dela tinham a ver com as suas mãos, mas achou que dar o braço a torcer seria menos cansativo do que iniciar uma discussão. Era um mistério... Por que ele continuava obedecendo àquela garota? Mesmo confuso com os próprios impulsos, ele esfregou as mãos com força até a água respingar e, finalmente, estendeu as palmas molhadas de novo.


— Pronto.


Sua intenção era apenas receber o pano, mas, para sua total surpresa, foi a mão de Inês, segurando o tecido, que pousou sobre as dele. Cássel estacou, completamente desarmado. Ela mesma estava secando as mãos dele.


Era como se, na cabeça dela, ele fosse incapaz de fazer uma tarefa tão simples direito sem a sua supervisão.


— …

Era a primeira vez que Cássel se sentia tão terrivelmente encabulado. Sua mãe, sua ama e dezenas de criadas já haviam lavado e secado suas mãos incontáveis vezes ao longo de sua vida pomposa, mas agora... suas orelhas estavam queimando. Ele abaixou a cabeça, tomado por um súbito temor de encarar os olhos escuros de Inês.


As mãos dele eram pequenas, mas as dela conseguiam ser ainda menores. O toque meticuloso com que ela limpava o vão entre os seus dedos e o interior de suas palmas não era bruto, mas firme... Era, inegavelmente, a mão de uma menina.

Uma garota.

Cássel manteve os olhos baixos para evitar qualquer contato visual acidental, mas fixar a vista nas mãos alvas de Inês apenas piorava as coisas. Ele sentia uma preocupação absurda, como se não houvesse nenhum lugar seguro no quarto para onde pudesse olhar sem se queimar. 

Aquela era a primeira vez que reparava de verdade na mão de Inês, ou na mão de qualquer garota. Eram tantas sensações novas em um único dia que sua mente de seis anos operava em total confusão. Tudo era a primeira vez.


Quando ela terminou a tarefa simples e se afastou, Cássel finalmente conseguiu erguer a cabeça e respirar direito.


— O que foi? — perguntou Inês, adotando aquele tom frio que desfazia qualquer traço de fofura. — Escalante?


"Ela nem é tão bonita assim."


— … Você não me chamava pelo meu sobrenome antes — murmurou ele, surpreso com o fato de sua própria voz soar estranhamente ressentida.


De repente, Inês, que acabara de se sentar no sofá sob a janela, esboçou um sorriso curto e enigmático.


— Você quer que eu o chame pelo seu nome de batismo?


— …


— Eu sei que você me odeia, então...


— Não… Não é isso.


A negação foi dupla: um protesto confuso de que não fazia questão de ser chamado pelo nome, misturado à mentira de que não a odiava. Mas Inês apenas deu de ombros, sem dar a mínima importância ao orgulho ferido dele.


— Você chorou e fez um escândalo porque não queria se casar com Inês Valeztena.


— Quando foi que eu chorei…?!


Ele havia chorado, sim. No primeiríssimo dia em que as famílias selaram o acordo e Inês o escolheu diante de todos.


— E vai chorar de novo quando perceber que terá que viver comigo até o dia da sua morte.


— …


— E porque teremos que gerar um herdeiro no futuro…


— Pare com isso! Valeztena!


As orelhas de Cássel explodiram em um tom vermelho vivo. Por que ele tinha que ser tão tímido diante daquelas palavras? O dia de hoje estava sendo um fiasco absoluto. Era uma certeza límpida: onde quer que fosse, cada ser humano que cruzava seu caminho — fosse o primo imperioso ou a noiva sarcástica — parecia determinado a testar seus limites, zombar de sua dignidade e fazê-lo de bobo.


— Tudo bem. Eu o chamarei de Cássel.


Ao ouvir seu nome pronunciado por aquela voz, até mesmo suas bochechas esquentaram. Ele se sentia patético, como um jovem cavalheiro que nunca havia trocado duas palavras com uma mulher na vida. 

Estava claro que fora enfeitiçado por alguma força oculta.


Exausta e sem forças para prolongar o assunto, Inês deu dois tapinhas leves no assento vazio ao seu lado no sofá, sem desviar os olhos da barra de seu próprio vestido.


— Então, sente-se aqui.


Lá estava aquela voz de comando novamente... Como se estivesse chamando um bicho de estimação. Mas, estranhamente, não soava tão fria quanto de costume.


Com passos rígidos e o corpo tenso, Cássel cruzou o quarto e sentou-se ao lado de Inês. No instante em que ele se acomodou, a indiferença dela retornou com força total: ela simplesmente o ignorou, pegando um livro pesado que surgiu do nada e começando a folheá-lo.


Verdadeiramente, Cássel jamais havia experimentado um tratamento tão ultrajante em toda a sua existência. Ao menos até onde a memória de um herdeiro dos Escalante de seis anos conseguia alcançar.


Apenas Inês Valeztena era capaz de tratá-lo assim.


—Você é estranha 


—Eu sou?


—As pessoas dizem que você gosta de mim — continuou Cássel com um ar óbvio de constrangimento, sem acreditar no que estava dizendo. Quando Inês não respondeu àquela afirmação que surgira do nada, ele ficou um pouco nervoso e continuou a falar com falsa naturalidade: — Mas se você gosta de alguém… Não pode tratar essa pessoa desse jeito.


— O que quer dizer?


— Você parece não se importar comigo, quase nunca sorri, nunca fica feliz em me ver, e me acha irritante... —murmurou Cássel enquanto enquanto batia a ponta dos pés contra o chão, mas foi interrompido de imediato:


— Não murmure. Fale claramente.


— … Viu só? É exatamente disso que estou falando…


— Pare de murmurar e fale claramente.


— Isso... é um bom exemplo.


— E termine o que você tem a dizer.


— Isto também.


Cássel agora parecia completamente derrotado. Quem seria tão ranzinza e desagradável com a pessoa de quem supostamente gostava?


— Estranha. Muito estranha.


— É estranho eu gostar de você?


— Não, você é estranha —respondeu Cássel firmemente, e depois perguntou novamente enquanto suas bochechas ficavam rosadas:


— Então, isso quer dizer que você gosta de mim?


Ele tinha uma expressão completamente perplexa. 


Inês simplesmente deu de ombros com uma fisionomia implacável. A expressão de Cássel se contraiu. O que significava aquele gesto…?


— Eu não teria concordado em me casar com você se não gostasse.


Sua resposta foi bastante enigmática, mas soou positiva no contexto. Cássel sentiu uma onda de satisfação antes de rapidamente se perguntar por que se sentia satisfeito com essa resposta; ele já não sabia mais o que pensar.


— As pessoas dizem que você é jovem demais para entender a importância do papel de consorte do príncipe herdeiro. E que você me escolheu por causa da minha beleza —Cássel disse cada palavra, alto e claro, sem uma pitada de hesitação.


— Sei.


— Então, conclui que você me escolheu porque eu sou bonito, só de olhar para o meu rosto. — Cássel falou de si mesmo sem qualquer hesitação.


Inês apoiou o queixo na palma da mão e o encarou por um momento antes de admitir casualmente:


— Correto. Eu só olhei para o seu rosto.


— …


— Existe alguém que não goste de coisas bonitas?


— Então você realmente gosta do meu rosto?


— Sim. É útil.


— … ?


"Útil? Que tipo de utilidade? Por acaso ele era um objeto?"

 Sem que nenhuma pergunta coerente conseguisse se formular em sua mente de imediato, Cássel apenas a encarou.


Apesar de ter dado uma resposta impactante, Inês já exibia novamente sua típica atitude de indiferença. Ele ficou observando-a folhear as páginas do livro com o cenho franzido e começou a refletir.


"Quando se é criança, tem-se um rosto bonito, e quando se cresce, a tendência é ser atraente."


Independentemente do gênero, suas feições eram perfeitamente simétricas, mas já carregavam os traços marcantes e altivos de seu pai e de seu avô. Portanto, aquilo seria mais do que suficiente para que ele se tornasse um homem tão bonito que chegaria a ser cansativo.


Certo… Se era assim, aquela promessa de beleza futura seria algo de fato útil para a sua noiva avaliar. De qualquer forma, ser útil para as pessoas era algo bom.


— … Ser útil significa algo bom, não é?


— Sim. Certamente.


— Já que você gosta de mim, por que é tão arrogante? Não quer causar uma boa impressão?


— O que me falta para que eu precise me esforçar diante de você?


Faltar algo nela…? Cássel piscou, sem saber o que responder.


— N-não, é que… já que você gosta de mim, se quiser que eu goste de você também, é claro que deveria…


— Não, não é assim. Não funciona desse jeito, Cássel. — Inês balançou a cabeça com paciência. — Você não precisa gostar de mim.


— …


— Eu não preciso disso, Cássel.


— … ?


— Porque o amor é assim. Não espera nada em troca.

Aquela expressão dela estava a milhas de distância de qualquer sentimento parecido com o amor. Mas Cássel já a escutava com total seriedade.


— Então, o que você quer dizer é que, já que você gosta de mim, eu não tenho a obrigação de gostar de você?


— Exatamente.


— … E você me… ama?


Inês deu de ombros novamente.

Era uma forma muito conveniente de pensar. "Ela deve estar com vergonha de admitir isso pessoalmente… Afinal, ela é uma menina tímida", concluiu Cássel.


No espelho distante, os rostos de Cássel e Inês apareciam parcialmente refletidos. Ele olhou para a sua metade e pensou que, de fato, aquele era um rosto que qualquer um amaria.


— … Ainda não entendo. Se você diz que gosta de mim, suas atitudes não provam nada.


— Nobres sofisticados dos Grandes de Ortega não devem expressar emoções sensíveis e pessoais. Anote isso em algum lugar.


— Então isso significa que você está escondendo de propósito o que sente por mim? — perguntou Cássel, tentando entender.


— Exatamente.


— Mas você tem certeza de que não me escolheu mesmo sem gostar de mim?


— Sim, tenho certeza. Por que eu faria uma coisa dessas?


Inês concordava prontamente com as perguntas dele, mas, por trás daquela fachada fria, ela parecia um pouco confusa. Era o choque de ser pega de surpresa: ela não estava nem um pouco preparada para aquela discussão, simplesmente porque sempre havia subestimado a inteligência de Cássel.

Ver aquele garotinho abordar o assunto com uma lógica tão madura e direta desarmou completamente as expectativas dela.


No entanto, Cássel era jovem demais para notar; estava ocupado demais tentando esconder as próprias bochechas coradas, achando que tinha desvendado o coração da noiva.

Por que ele estava tão encabulado?


Ao longo de seus curtos, mas intensos seis anos de vida, Cássel já havia recebido confissões, atenção excessiva e o afeto exagerado de jovens damas mais de cem vezes, desde a sua primeira memória.


Uma menina dizer que gostava dele já não tinha nada de especial. Era demais, um verdadeiro excesso. A essa altura, aquilo costumava ser apenas embaraçoso e entediante.


Mas por que Inês Valeztena — que não era especialmente dócil, nem simpática, nem gentil — o afetava tanto? Como uma garota como ela podia gostar dele daquele jeito?


— Cássel Escalante. Lembre-se.


— … O quê?


— De que eu gosto muito de você.


Ela repetiu, quase como se estivesse fazendo uma lavagem cerebral nele. 


'Eu gosto de você, entendeu? Trate de se lembrar disso.'


Cássel olhou para Inês como se estivesse hipnotizado, assentindo com a cabeça de forma mecânica.


Se era para sofrer uma lavagem cerebral, não seria melhor que ela tentasse convencê-lo a gostar dela? Cássel pensou que Inês não era tão astuta assim. Havia momentos em que ela fingia ser uma adulta ou agia como uma crescida com gênio difícil, mas, no fim das contas, criança era criança.


Ele sentiu que não havia necessidade de lhe ensinar aquele truque de conquista. Deixaria que ela simplesmente gostasse dele por enquanto. Afinal, quão difícil devia ser para ela disfarçar? Embora o amasse tanto, estava claro que Inês precisava de uma paciência sobre-humana para tratá-lo com tanta rispidez.


Se tratar Cássel com desdém era apenas a maneira dela de expressar sua timidez profunda, então ele não precisava entrar em pânico. Com aquele único pensamento de condescendência, Inês perdeu seu significado ameaçador e tornou-se comum, exatamente como as outras inúmeras garotas que gravitavam ao seu redor.


No mundo pacífico de Cássel, onde todas as meninas eram dóceis, Inês só havia sido uma exceção porque parecia não dar a mínima para o próprio noivo que havia escolhido. Mas aquilo havia acabado. Ele certamente se casaria com ela, mas nunca mais se deixaria abalar por aquela voz. Nunca…


— Cássel? Você pode trazer algumas almofadas daquela cadeira ali?


Cássel levantou-se reflexivamente e então estacou no lugar.


— Onde está a sua criada?


— Ela acabou de sair.


— Quando a criada voltar…


— A criada não vai voltar agora.


Era um absurdo óbvio: ele não deveria fazer o trabalho de um servo.


— Você é o meu prometido, afinal.


Cássel não sabia o que fazer com o próprio rosto, que esquentava a cada segundo.

Se ele estivesse prestando atenção de verdade, teria percebido o insulto nas entrelinhas: naquele momento, Inês estava tratando sua criada e seu prometido exatamente como iguais.


Mas Cássel estava ocupado demais tentando esconder as bochechas vermelhas. Ele simplesmente foi até lá e fez o que ela mandou. Entregou a almofada, e logo ela pediu que fizesse outra coisa. Quando ele resolveu a segunda tarefa, ficou com medo de se sentar e acabar tendo que trabalhar de novo.


Ainda assim, havia algo quase cativante em ver Inês sentada ali, imóvel, lendo e aceitando os objetos sem mover um único dedo, como se, de alguma forma secreta, estivesse dependendo dele.


"Ela até que é fofa..."



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