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Capítulo 7 – “Cassel e Ines”


✽ ✽ ✽


— … Cativante? fofa?


De volta ao presente, Cássel Escalante, agora com vinte e três anos, desfez-se daquela memória. Ele estava sentado de qualquer jeito no quarto de sua noiva, correndo os olhos desconfiados por aquele aposento momentaneamente vazio.


"Depender de mim? Que piada. Ela é uma megera, isso sim", pensou, irritado com o seu eu de seis anos.


Fora o cenário idêntico daquele quarto que trouxera o passado de volta de forma tão vívida. Quando havia sido a última vez que pisara ali…? Ah, sim. Aos vinte anos, logo após se graduar na academia militar, pouco antes de ser comissionado para a Frota Costera de Calstera. 

E, naquele dia, ele tivera exatamente o mesmo pensamento de hoje: seria possível que o tempo simplesmente se recusasse a passar dentro daquele cômodo?


O quarto de Inês parecia ter congelado no tempo. Aos seis, aos dez, aos catorze, aos dezessete, aos vinte e, agora, aos vinte e três anos… A paisagem daquele aposento permanecia tão imutável quanto a própria expressão gélida de Inês ao longo das décadas.


Não deixava de ser bizarro. 


Uma menina de seis anos e uma jovem dama de vinte e três, prestes a subir ao altar, deveriam ter mudado drasticamente. Era quase impossível encontrar um denominador comum entre os gostos de uma criança e os de uma mulher adulta, mas ali, cada pequeno móvel e até a cor das cortinas permaneciam intocados. 

E Cássel sabia perfeitamente que aquilo não se devia ao fato de a Inês de vinte e três anos ter mantido o gosto infantil de uma garotinha.


"Ela já nasceu velha. Desde os seis anos."


Ainda assim, aquela era a mulher com quem ele estava prestes a se casar. Então, que se considerasse aquilo uma excentricidade de adulto.


— … Aquilo já era estranho desde aquela época — murmurou para si mesmo.


Tudo havia sido estranho desde o primeiro vislumbre. Fora estranho o momento em que ela ousara apontar para ele e escolhê-lo, e fora ainda mais bizarro quando ela insistira em dizer que gostava dele.


Pensando bem, aquela era uma relação que não possuía um único palmo de normalidade do início ao fim. Cássel continuava a encarar os cantos do quarto com extrema suspeita. Não importava o quanto procurasse, nada havia mudado.


Se o quarto imitava a dona a ponto de ser completamente sem graça, ele até poderia aceitar. No entanto, naquele exato momento, ele não estava apenas observando. Ele estava caçando algo.

Procurava, por exemplo, qualquer pista visual de que Inês Valeztena tivesse, finalmente, mudado de ideia em relação a ele.


'— Isso simplesmente significa que não tenho o menor interesse em seus assuntos. Não tenho interesse em você, Escalante.'


Bem, aquilo não era tolerância. Mas o que seria, então? Os pensamentos de Cássel continuavam a dar voltas, como se ele caminhasse por um labirinto sem saída.


Estaria errado? Seria uma ilusão de sua mente?

Pensando em todas as outras garotas que, aos sete, oito, nove, dez, onze anos e nos anos seguintes, haviam lhe enviado um mar de presentes e cartas apaixonadas, ele chegou à conclusão de que a atitude de Inês não fazia o menor sentido.


Será mesmo que as palavras descorteses e as expressões duras da infância não passavam de pura vergonha? Ao contrário do que fazia pessoalmente, sua prometida outrora adotara uma linguagem muito mais afetuosa. 

Sim, por escrito.

Inês sempre proferia palavras de admoestação, lições de moral ou comentários desdenhosos quando abria a boca — o que já era raro, pois ela quase não falava —, mas, ao menos através das cartas, ela deixava transparecer alguma sinceridade. Eram inúmeras linhas expressando preocupação e zelo por ele. Bênçãos ternas e palavras de carinho. Demonstrações de um afeto tão fervoroso que ele próprio, na época, não sabia como retribuir...


Houve um tempo em que Inês Valeztena gostara tanto dele que chegara a sufocá-lo. Claramente.


"… Houve um tempo?"


Cássel sentiu-se subitamente atordoado com as próprias conjecturas. Sim... Conforme se aproximavam da puberdade, tudo aquilo havia minguado até desaparecer.


Seria culpa da puberdade?

Não era natural que as vozes mudassem, que os corpos amadurecessem e que rapazes e moças em fase de crescimento começassem a se sentir desconfortáveis na presença mútua? É claro que, para Cássel, lidar com garotas nunca fora um problema, mas Inês sempre fora a sua grande exceção.


Naquela época, o clima entre os dois tornou-se tenso. Era natural que a distância aumentasse. E, a partir de certo momento, ela deixou de chamá-lo pelo primeiro nome, e logo em seguida…


Cássel murmurou sozinho, afundando o rosto confuso na palma da mão:


— Foi desde aquela época? Ou antes de eu ingressar na academia militar…?


Havia indícios demais espalhados pelo passado para que ele conseguisse apontar um momento exato. Inês sempre fora sombria e intratável, o que tornava qualquer mudança difícil de notar, mas se ele analisasse a situação com um pouco mais de delicadeza, a diferença ficava evidente.


Não, isso não pode ser, pensou Cássel. Inês era conhecida por sua devoção ao noivo. Todas as socialites Mendoza diziam isso.


Enquanto os pensamentos de Cássel se dispersavam, Inês entrou em seu quarto.


 — Por que me chamou?  — perguntou ela.


"Ao menos ela não fala mais comigo de forma tão formal…"


Ele não tinha intenção de parecer que estava esperando por ela. Seu orgulho não permitiria isso. Embora estivesse impaciente pela entrada dela, agora se recostou com um ar despreocupado. Tirou um momento para observá-la e se certificar de que não responderia rápido demais. 


Como sempre, ela estava vestida o mais discretamente possível. Seu vestido azul escuro estava abotoado até o pescoço. Seus cabelos negros estavam presos firmemente, sem um fio fora do lugar.


A única coisa que havia mudado desde que ela tinha seis anos eram suas curvas atraentes, surgindo sob as roupas simples. Seu corpo era a única razão pela qual Cássel mantinha um mínimo de esperança em seu casamento. Especialmente aqueles seios fartos... Suas sobrancelhas se franziram. 


Ele parecia tão sério quanto um homem ponderando sobre uma crise nacional. Sua aparência impecável certamente ajudava sempre que precisava esconder seus pensamentos atrevidos.


Afinal, ser bonito era útil para um homem…


— … Por que você não está interessada em mim?


Contrariando sua postura descontraída, o que brotou diretamente dos lábios esculpidos de Cássel foi o cerne da questão. Inês, que lavava as mãos de costas para ele, como se tivesse esquecido completamente a existência do noivo, soltou um suspiro sem sequer se dar ao trabalho de virar o rosto.


— Inês.

Cássel não iria recuar.


— Por que essa curiosidade repentina? — disse irritada.


— Por que você não se importa com o que viu na outra noite? — Decidiu mudar ligeiramente a pergunta. Que desperdício de esforço para não parecer desesperado por sua aprovação.


Ela continuou a lavar as mãos calmamente, ignorando a insistência dele. O hábito compulsivo do asseio permanecia idêntico. Cássel decidiu armar-se de paciência e esperou que ela terminasse, em silêncio.


— Sua aventura não significa nada para mim. Nada importante.


Finalmente, Inês virou-se, secando as mãos. Mais do que a resposta evasiva, foi o olhar enigmático que ela lhe lançou que fez Cássel sobressaltar-se.


Por força do velho hábito da infância, ele sentiu-se intimidado por um instante. Mas ele já não era o menino daquela época; era um robusto oficial militar em seu terceiro ano de serviço. Cássel colocou-se de pé.


— Essa não é uma resposta satisfatória.


— Se é satisfatória ou não, francamente, não me importa…


— Inês Valeztena de Perez.


Ela exibiu aquela velha expressão enfadada, como se estivesse profundamente incomodada com a interrupção, antes de recuperar a compostura com precisão aristocrática.


— Eu estava apenas tentando deixá-lo à vontade.


— … Como é?


— Sua promiscuidade não é novidade para mim. Já te disse que não precisa se preocupar comigo ou me dar explicações. Pode fazer o que quiser.

— …


—  Algum problema com alguma dessas condições?


Cássel franziu o cenho. Um breve silêncio instalou-se no quarto. De repente, como se tivesse alcançado uma epifania, ele murmurou:


— Entendi. Você está com raiva.


— …


— É por isso que está sendo tão sarcástica.


— Eu? Quando?


Para Cássel, aquela era a única explicação lógica possível.


— Do contrário, você não estaria me forçando a engolir um argumento que não faz o menor sentido nem para você mesma.


— O que não faz sentido?


— Você diz que isso não é tolerância, mas na prática é exatamente o que parece. E, no fundo, sabemos que não se trata de tolerância legítima.


A fisionomia polida de Inês obscureceu ligeiramente. Ela não deu sinais de querer saber que tipo de asneira ele estava desfiando, mas Cássel, interpretando as reações dela sob o seu próprio ponto de vista, prosseguiu:


— Inês Valeztena, você preza demais a sua dignidade. Por isso, considera humilhante demonstrar ciúmes, exigir compreensão, gritar comigo ou se enfurecer.


— Absolutamente não.


— Se não for isso, talvez seja porque você teme a minha reação…


Havia histórias de sobra na alta sociedade sobre damas lamentáveis que, definhando em silêncio diante das infidelidades dos maridos, sufocavam os próprios sentimentos por puro temor do cônjuge. Claro, eles ainda não eram casados, mas estavam prestes a ser. Além do mais, era Inês quem nutria um afeto unilateral por ele, ou ao menos costumava nutrir…


Contudo, Cássel percebeu o absurdo de suas próprias palavras assim que as proferiu, interrompendo o raciocínio no meio. Inês temendo as reações dele? Quem estava brincando com quem…?


Inês soltou um riso nasalado, como se tivesse lido perfeitamente a súbita autocrítica no semblante do noivo.


— Vejo que você mesmo percebeu que está dizendo bobagens.


— Sim.


— Seja como for, Escalante, qual é o propósito desta inquisição?


— …


— Se alguém nos visse agora, pensaria que sou eu quem mantém um amante.


— … E você tem?


— Isso por acaso importa?


Cássel segurou com força o próprio pescoço, impedindo-se de assentir mecanicamente. Ele era um hipócrita.

Inês soltou um suspiro brando.


— Eu sou apenas a flor decorativa de parede que ninguém nota, o corvo dos Valeztena. Como o seu primo, o príncipe herdeiro, bem pontuou uma vez.


— … A razão pela qual os homens não a cortejam é porque você já possui um prometido excessivamente atraente. E…

Era natural que ela passasse despercebida na maior parte do tempo por se vestir de forma tão austera, mas, ocasionalmente, ela se destacava no salão justamente como um corvo pousado entre aves exóticas e coloridas. Com um corpo soberbo daqueles, os nobres estúpidos da corte simplesmente não tinham visão…


Cássel umedeceu os lábios, prestes a soltar um comentário ultrajante, mas optou pelo silêncio. Diante daquela postura altiva e nobre de Inês, ele não podia rebaixar a conversa ao nível da pura luxúria, elogiando os seios ou a cintura dela com base no argumento fútil de que "eu sou bonito demais, mas você também não é de se jogar fora".


— E a razão pela qual as mulheres o cercam dessa maneira é porque, ao contrário de você, os meus encantos não são uma ameaça intimidadora — continuou Inês.


— …


— Eu tenho plena consciência disso. E, na verdade, não dou a mínima… Escalante, de verdade, do fundo do coração. Se houvesse motivos para cobranças entre nós, eu seria muito melhor nisso do que você, mas eu simplesmente não quero me dar ao trabalho. É enfadonho… Estou exausta.


— …


— Cobranças são perfeitamente inúteis entre nós dois.


— …


— Portanto, pare com essa obsessão de me interrogar só porque eu não o interrogo ou não o importuno.


Inês balançou a cabeça e passou por Cássel. Ele fixou os olhos no ponto onde ela desaparecera e, ficou ali por um momento, processando suas palavras. Ele se virou para ela um instante depois.


— Quer dizer que nós—


— Você é um homem razoável para casamento.


Ele nunca tinha ouvido uma declaração tão absurda. Cássel Escalante de Esposa era muito mais do que apenas um homem razoável para casamento. Seus inúmeros amores passados concordariam com isso.


— Não tenho objeções a este matrimônio. E creio que você também não… Não há razão para arruinar a nossa aliança por um assunto tão trivial.


— Minha... infidelidade é trivial? — Cássel perguntou em voz alta. Sua deslealdade para com a noiva não era de forma alguma um assunto trivial. Inês quase o fazia implorar por seu próprio castigo neste momento. Ele franziu a testa, tomado por uma súbita preocupação. 


— Está... acontecendo algo com você? — ele gesticulou discretamente para a própria cabeça, mas rapidamente abaixou a mão quando Inês se virou para ele.


Quanto mais ele insistia no assunto, quase implorando por uma punição, por críticas ou por uma cena de ciúmes, mais Cássel se via genuinamente preocupado com a sanidade dela diante daquela resignação gélida. 


"A mente dela poderia estar seriamente danificada…"


— A minha cabeça está perfeitamente bem. — Inês virou-se abruptamente, interrompendo os gestos dele. Ela soltou outro suspiro resignado e aproximou-se de Cássel. — Eu sei exatamente o tamanho do ciúme que você espera que eu sinta. Sei o quanto você gostaria de me ver enfurecida. E eu até que sou uma excelente atriz.


— … Ah, é?


— E quanto a esmurrar você… — Ela olhou para as próprias mãos. — Suponho que eu faria um bom trabalho com um pouco de treino. Normalmente, sou talentosa em tudo o que me proponho a fazer.


Lá estava o orgulho aristocrático dela emergindo do nada. Cássel assentiu, quase divertido.


— Estou ciente.


— Mas isso seria uma tolice monumental. Se eu o golpeasse com uma mão delicada como esta, o quanto realmente machucaria?


Em suas memórias de infância, os raros tabefes que levara dela há mais de uma década nunca haviam sido de fato dolorosos; eram apenas os tapas de uma menina frágil. Cássel assentiu novamente.


— Portanto, se você me trair após o casamento, eu simplesmente o mato.


— … Essa é a sua conclusão?

As palavras que saíram da boca de Inês foram de uma crueldade inacreditável. Para ela, aquilo parecia ir de um extremo ao outro sem qualquer transição: em um momento, as infidelidades dele eram tratadas como um "assunto trivial", e no segundo seguinte, ela afirmava com a maior naturalidade que o mataria. Não havia uma escala de ira no meio do caminho? Falhas graves não mereciam gradações, apenas o veredicto definitivo?


Cássel inclinou a cabeça, genuinamente desconcertado e perplexo com aquela lógica implacável. Percebendo a confusão dele, Inês aproximou-se, segurou-o pelo braço e umedeceu os lábios antes de disparar:


— Para o homem de quem eu gosto, a punição seria essa.


— …


— Escalante. Você sabe muito bem que a minha personalidade não tem nada de dócil.


"Eu sei", pensou ele de imediato. A personalidade de Inês não era apenas difícil; era genuinamente terrível.


No entanto, toda a linha de raciocínio de Cássel estacou e travou em uma expressão específica: "o homem de quem eu gosto".


Mais precisamente, na implicação por trás de "para o homem de quem eu gosto".


— Portanto — continuou Inês, desferindo o golpe de misericórdia —, eu não pretendo desperdiçar minhas forças desnecessariamente com um homem de quem eu não gosto, como você.


Foi uma execução perfeita. O golpe de confirmação de que ele já não significava absolutamente nada para ela.


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