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Capítulo 25 — Preparação

Após a festa de casamento Inês estava exausta e com fome. 

Inês gemeu. 

— Estou faminta. Não podemos comer alguma coisa antes de subir para o quarto?


— Não — respondeu Juana com voz firme enquanto penteava o cabelo de Inês. — Você não vai querer parecer inchada na sua lua de mel.


— É humano inchar depois de uma refeição. — Inês olhou para Juana no espelho, com um olhar suplicante nos olhos.


Juana colocou as mãos nos quadris. 


— Eu vi a senhorita comendo um pouco no banquete antes…… Digo, "Senhora", agora que é uma mulher casada. Mesmo assim, a Duquesa a vigiava com os olhos, como se fosse engoli-la viva.


— Bem, ela não pode fazer muito a respeito. Agora faço parte da família Escalante. — Inês soltou um suspiro misturado a um riso autodepreciativo.


Quando percebeu as sobrancelhas franzidas de Juana, Inês sorriu novamente para aliviar sua ansiedade. 


— Toda a dança queimou as calorias. Então não se preocupe, Juana.


— Sim, eu a vi dançando. O que aconteceu com você? Normalmente você até evita falar com aristocratas.

— É um casamento.


— Os olhos dos cavalheiros estavam todos arregalados…… Depois daquilo, houve um verdadeiro alvoroço para ver quem conseguia uma vaga na fila para dançar com a senhora. Tanto o Duque quanto a Duquesa ficaram encantados no início, mas depois começaram a se perguntar: «Será que está tudo bem ela continuar dançando assim?». O Duque até brincou se deveria começar a distribuir senhas por ordem de chegada. No fim, ele acabou mordendo a própria língua de tanto orgulho……


— Você está feliz com isso? Afinal, o trabalho sobrou para você.


Inês falou como se elogiasse Joana, mas a criada não exibia uma expressão totalmente contente. Inês deu de ombros.


— O seu trabalho como estilista foi bem recebido, o meu desempenho é que não.


— Senhora, você sempre foi linda. — apontou ela, dando um riso alto. — Aquelas pessoas é que eram grosseiras. Como puderam mudar de atitude em um único dia só porque a senhora usou um pouco mais de maquiagem? E agir de forma tão absurda logo com a mulher que acabou de se casar hoje?


— As pessoas são realmente superficiais, Juana. E os homens são assim, especialmente os jovens.


— Ainda assim, para eles agirem de forma tão aberta e descarada…… Como se sentem agora os "melhores cavalheiros" de Mendoza? E aquelas jovens damas? De repente, todas ficaram tão amáveis.


— Esqueça-as. Eu já fui igualmente superficial. Talvez, ainda mais.


— Quando você se refere a isso? — perguntou Juana.


Em vez de responder, Inês limitou-se a esboçar um sorriso suave.


Sua primeira vida como Princesa Herdeira fora uma existência de pura fachada. Talvez, quanto mais vazia a sua vida se tornava, mais distante ela ficava de Óscar, mais traída, enganada, desprezada e menosprezada pela família imperial…… E, para preencher aquele sentimento de vazio, Inês transformava-se na protagonista de todos os banquetes. Vestia roupas que pareciam asas e atraía desesperadamente a atenção do mundo.


Ela gostava de se sentir deslumbrante da cabeça aos pés. Quando os elogios à sua beleza e à sua posição como a mulher mais sofisticada de Ortega preenchiam o seu coração por um breve momento, a dor era esquecida. Coisas como a atenção passageira do público, a humilhação daqueles que bajulavam para cair em suas graças e o poder que o seu halo exercia sobre o seu pai e sobre o odiado Óscar eram o seu refúgio.


No entanto, quando ela apontou a arma contra a própria garganta no fim daquela vida, haveria ali sequer um vislumbre de arrependimento por essas futilidades? Nada daquilo fora motivo suficiente para fazê-la querer viver mais.


— De qualquer forma, eu poderia tê-la deixado ainda mais bonita — resmungou Juana. — Suportei todas as exigências incômodas porque sabia que todos odiariam se saísse errado…… Foi um casamento sem um único vestido feito sob medida para a senhora. Se tivéssemos nos preparado com tempo, imagine o quão radiante a Senhora estaria.


— É um casamento, então, mesmo que seja por pura superficialidade, um ambiente amigável é melhor.


A inveja das mulheres nobres, o cortejo e o desejo dos jovens aristocratas…… Eram memórias distantes que ela não experimentava desde a sua primeira vida, e revivê-las, mesmo que por um curto período, já se revelava exaustivo.

Não era apenas pela hipocrisia daqueles que outrora fingiam ser seus amigos. Era porque ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, voltaria a conviver entre eles.

Mas até o menor fragmento que a fizesse recordar de sua primeira vida às vezes a cortava por dentro, como se tivesse engolido uma lâmina afiada.


A presença de Óscar diante dela agora era apenas ridícula, mas, apesar desse desdém, Inês ainda não conseguia sequer forçar um sorriso genuíno na direção dele. Ela mal sabia se guardava apenas desprezo……


Cada dia daquela primeira existência fora uma sucessão de golpes e uma sobrevivência miserável. O fato de Óscar agora parecer patético não apagava a desesperança e a ira que ela sentira dia após dia. Embora tudo tivesse desbotado com o tempo…… o peso permanecia.


E era ainda pior quando aquela vida enfadonha a fazia recordar da vida seguinte, que fora muito mais desesperada.


Inês olhou para si mesma no espelho e relembrou seus dois casamentos anteriores. No primeiro casamento, passou a noite de núpcias encarando o espelho, obcecada com a ideia de que pudesse haver a menor mancha ou grão de pó em sua imagem perfeita. No segundo casamento, a noite em que tomara emprestado o véu da velha estátua da deusa em uma pequena capela de campo para se casar.


Naquela segunda vez, ela não tinha um espelho, de modo que sequer podia ver o próprio reflexo; limitava-se a observar a expressão no rosto de Emiliano para adivinhar se o véu estava devidamente ajustado. Emiliano, contudo, apenas a olhava com tamanho êxtase que não servia de muita ajuda……


Havia noites em que aquilo bastava.


Seu longo cabelo, que ainda estava meio úmido, exalava o perfume do óleo aromático, e a camada única do negligé escolhido para a noite de núpcias ressaltava a linha delicada de seus ombros.


Sua aparência atual era diferente daquela de sua segunda vida, época em que estava excessivamente magra porque mal conseguia levar comida à boca. Agora que recuperara o peso ideal, sua silhueta parecia bonita e saudável.

— …… Eu estava preocupada se a Senhora agiria com a frieza de sempre no casamento, mas fico aliviada que tenha corrido tudo bem. Deve ter sido a primeira vez que o Capitão viu a senhora tão dócil e gentil. E com um sorriso tão vivo no rosto. Claro, a Duquesa também disse que era a primeira vez que via a Senhora assim, mas……


— É verdade.


— Talvez por isso ele não tenha conseguido afastar os olhos do rosto da Senhora durante todo o banquete. Bem, e a Senhora dançou maravilhosamente bem.


— É mesmo?


— …… A razão pela qual a Senhora continuou dançando sem demonstrar qualquer desagrado foi porque estava pensando na reação do Capitão, não foi? — perguntou Juana, cheia de expectativa.


Inês respondeu à criada com um sorriso ligeiramente seco.


— Pelo menos ele merece isso por seu primeiro casamento.


— Que jeito estranho de falar! Este também é seu primeiro casamento, senhora.


Até onde Inês se lembrava, Cássel nunca se casara. Quando ela morreu na primeira vez, ele havia passado o ducado para o irmão, Miguel, e evitado o casamento. Ou talvez ele tivesse evitado o ducado ao abrir mão do casamento. Inês não sabia ao certo, mas sabia que Cássel havia partido muitos corações femininos com essa liberdade.

Fora o fato de que ela estava preparando o terreno para o divórcio de propósito, Inês nutria um afeto por Cássel à sua própria maneira, e por isso não negligenciaria os sentimentos dele agora.


Ela não traria a vergonha e o desprezo de seu primeiro casamento para esta nova união. Não importava quão rompido o final pudesse ser no futuro, tudo seria resolvido em silêncio, de forma pacífica, estritamente entre os dois. Bem diferente daquela primeira cerimônia pomposa, que começara reunindo todas as celebridades da alta sociedade de Mendoza em um único lugar.


Havia também o peso da responsabilidade de que ela não poderia causar danos a ele desde o início, além de sua obsessão crônica com a "culpa unilateral". Ela jamais traria qualquer prejuízo explícito a Cássel neste casamento, jamais abandonaria suas obrigações como esposa e não criaria qualquer pretexto que o desqualificasse perante a sociedade. Como parte dessa resolução, por mais incômodo que fosse, ela sorriu e dançou conforme a etiqueta exigia. Independentemente da curiosidade ou do desejo que os nobres nutrissem por ela, eles eram os convidados, e ela era a anfitriã do banquete.


Inês não sabia o motivo de Cássel ter permanecido sentado em seu lugar durante toda a festa vigiando-a, mas, já que as coisas se desenrolavam assim, ela não tivera escolha senão se esforçar……


— O Capitão Cássel…… imagine o quão surpreso ele deve ter ficado? Até a Duquesa estava em choque. E os cavalheiros que a convidaram para dançar, todos disseram que eram homens de grandes famílias. Por que a senhora não agia assim antes?……


— A obsessão da minha mãe com as aparências terminou. Eu só precisava me vestir de acordo com a ocasião por hoje.


— Ah, senhora. Só mais um último toque e terminamos. — Juana esfregou óleo perfumado no pescoço de Inês.

Inês era a personificação da tranquilidade. Não tinha nada da garota nervosa e animada antes da primeira noite com Oscar, em seu passado distante. Naquela época, ela passou quatro noites em jejum em preparação ao grande evento; ou com a época em que passara a noite fitando o rosto de seu amado Emiliano sem precisar de um espelho, caindo na gargalhada por pura felicidade.


Inês repetiu o plano meticulosamente em sua mente.


— Está bom assim, Juana. Eu só preciso terminar o que comecei.

Juana suspirou e seus lábios se curvaram em bico. 

— Sinceramente, a senhora fala disso como se fosse um romance frio como o gelo……


O casamento havia transcorrido sem grandes problemas, mas o comportamento de Cássel Escalante nesses últimos dias exigia atenção, pois ele vinha escapando gradativamente de suas expectativas.

Talvez as palavras que ela usara no passado para tentar distraí-lo e mantê-lo afastado tivessem sido apressadas demais. Ao contrário de como os eventos haviam flutuado estritamente sob a sua vontade durante todo o noivado, logo antes do casamento, a premissa de seu plano começara a falhar.


"Seria problemático se eu despertasse um interesse genuíno nele agora…… "

Inês encarou o próprio reflexo no espelho, tentando organizar os seus pensamentos.


Como ela havia dito a ele que aquele noivado fora apenas um impulso de infância, ela precisava provar que estava entrando neste matrimônio sem qualquer segunda intenção ou sentimento oculto. Precisava provar que Cássel estava enganado em suas suspeitas. Precisava provar que ela estava no controle de sua própria razão.


A verdade era que ele não estava errado em suas desconfianças, mas, para evitar que Cássel descobrisse a verdade sobre o que ela pretendia fazer no futuro……


— Bem, vamos para os aposentos nupciais agora.


— Está nervosa, senhora?


— Você sabe como ele é. Vou apenas me deitar como um cadáver e deixar o profissional fazer o que precisar.

Juana suspirou novamente. 


— Você não tem um pingo de romance na alma…


— A lua de mel faz parte do contrato matrimonial, Juana. Não há motivo para se preocupar.


De acordo com seu plano, Inês apenas obedeceria ao que Cássel quisesse. Afinal, sexo era apenas sexo. Embora esta noite fosse a primeira para ela em sua vida atual, sua mente já conhecia tudo sobre intimidade sexual. Estava familiarizada com todas as técnicas e posições íntimas, graças ao desprezível Oscar.

Inês planejava ser uma esposa exemplar e responsável, mesmo na cama. 

Na verdade, planejava ser a dama mais submissa e entediante que Cássel já tivesse experimentado. Permaneceria ali, tão rígida e imóvel quanto um pedaço de madeira. Assim, o infeliz marido não seria capaz de extrair o menor vislumbre de prazer ou diversão dela.


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