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Capítulo 24 — Ciúmes

 Parte IV

Nada nunca sai como planejado


A cerimônia matrimonial foi conduzida em uma atmosfera solene.

No meio da Rua San Talaria, a capela de casamento exibia sua grandiosidade e beleza após um século e meio de reformas, mas contava com um número muito reduzido de pessoas, que mal bastava para preencher os primeiros assentos dos fiéis. Há apenas um ano, quando se celebrou naquela mesma capela o casamento do segundo filho de um grande aristocrata, cerca de mil convidados se sentaram ali; por isso, a atual vacuidade causava estranheza.

Sendo uma união entre a Casa de Escalante e a Casa de Valeztena, o vazio não podia ser descartado como mera indiferença do público. Afinal, tratava-se do casamento do herdeiro do Duque de Escalante com a única filha do Duque de Valeztena.


Quantos aristocratas não dariam tudo para se sentar mesmo no fundo do segundo ou terceiro andar da capela — onde os noivos pareceriam meros pontos à distância — só para testemunhar aquela visão rara com os próprios olhos e fofocar sobre ela pelo resto de suas vidas? Era o evento mais significativo do ano, e os direitos de ostentação acompanhando o convite eram enormes. 

Aqueles que vissem o casamento, o momento exato em que o homem mais bonito do império e uma mulher de excelente linhagem, mas com a reputação de um corvo, se ajoelharam diante do arcebispo para se unirem pelo resto da vida…… Todos eles, ao se dirigirem ao salão de banquetes do Duque de Valeztena, teriam feito uma aposta.

Ninguém apostaria que a monótona freira da família Escalante seria suficiente para mantê-lo em casa.

Naturalmente, mesmo para quem não fora convidado à missa, tais apostas já estavam correndo. Nunca houvera um romance mais barulhento na alta sociedade do que o do jovem casal Escalante. Estava claro que nem mesmo o Príncipe Herdeiro e sua noiva receberiam tanta atenção. Por isso, quando os convites para a missa nupcial foram restritos a pouquíssimas pessoas, era natural que a frustração dos nobres de Mendoza disparasse.


Como o casamento havia sido anunciado com antecedência, mas os convites gerais nunca foram enviados, os boatos e as especulações sobre a união tornaram-se ainda mais ruidosos do lado de fora.

No entanto, a razão pela que Inês e Cássel não se importavam com as más línguas era simples. Não importava sobre o que as pessoas falassem na rua, a cena que se desenrolava diante de seus olhos no altar sempre fora tranquila e silenciosa.


Fora uma cerimônia estritamente fechada, para a qual foram convidados apenas alguns membros da família imperial e representantes das dezessete famílias pertencentes aos Grandes de Ortega. A missa nupcial, celebrada pessoalmente pelo Arcebispo de Ortega, foi tão rigorosa e contou com tão poucos convidados que, se alguém ousasse sussurrar, o som ecoaria por toda a vasta capela. Embora o círculo social de Mendoza se orgulhasse de sua tenacidade implacável e muitas vezes antiética, não havia outra casta que vivesse a vida inteira com tanta dignidade quanto os Grandes de Ortega. Ninguém daria uma única palavra que pudesse manchar o rosto de sua própria família. 

Fora uma cerimônia tão suave que ninguém abriu a boca e, como esperado, ninguém apresentou objeções.

Para começo de conversa, tratava-se de um convite feito em uma data urgente, apesar do longo e arrastado período de noivado de dezessete anos. Em uma sociedade onde os filhos da alta aristocracia investiam pelo menos dois ou três anos planejando as cerimônias e trocando de vestido de noiva inúmeras vezes, eles agiram como heréticos, realizando um casamento que não estava planejado até uma semana atrás.


Mesmo que Inês Valeztena fosse conhecida por sua excentricidade, ninguém esperava que ela apressasse sua cerimônia de casamento a esse ponto. Afinal, aquele era o seu grande dia, e seu futuro marido não era outro senão o altamente desejável Cássel Escalante de Esposa.


Em vez disso, todos assumiram que algum motivo secreto os forçara, contra sua vontade, a realizar uma cerimônia tão privada. A duquesa Valeztena teria excluído a maior parte de Mendoza para evitar que sua filha feia a envergonhasse? A antipática Inês Valeztena teria recusado a companhia dos outros? Quem estivesse presente na cerimônia veria que essas especulações estavam longe de ser verdadeiras.


✽ ✽ ✽


— ……


No esplêndido banquete dos Duques de Valeztena, celebrado desde o início da tarde até a alta madrugada, Cássel sentava-se na cabeceira da mesa principal, observando os dançarinos. Mais precisamente, ele mantinha os olhos fixos na noiva, que já deveria estar sentada ao seu lado.


Inês, que dançava com o irmão Luciano, aparecia e desaparecia repetidamente entre os casais na pista de dança. O olhar de Cássel movia-se junto com a silhueta dela. Seus movimentos eram tão fluidos quanto água corrente, seguindo perfeitamente a liderança de Luciano. A barra do vestido dela, que esvoaçava como um botão de flor em pleno desabrochar, atraía a atenção de todos os presentes.


Ao notar que Luciano sorria de leve para a irmã, algo queimou na garganta de Cássel por um instante, sem que ele soubesse o motivo. Ao perceber que todos no salão também admiravam aquela imagem, um sentimento incômodo surgiu em seu peito, sumindo logo em seguida de forma consciente.


Cássel pegou uma taça de água e a virou de uma vez, quase engasgando. Mesmo com a água descendo por sua garganta, a sede permanecia ali. A música era terrivelmente longa, e a dança parecia não acompanhar o fim da melodia. Ele semicerrou os olhos para não perder Inês de vista entre os homens e mulheres que giravam pelo salão, mantendo uma expressão fria e indiferente no rosto.


— A música está longa demais, não é?


"A música está tão longa assim…… "

Justo no momento em que ele começava a se questionar se tinha pensado aquilo alto demais, ouviu uma voz vinda do outro lado e hesitou. No entanto, sua própria voz sempre tivera um tom doce e grave desde a juventude, e a voz que acidentalmente o atingira agora era opaca e monocórdica.


É claro que, até o fim, fora isso que Cássel escutara.


— …… Ihar.


Dante Ihar. O herdeiro do velho Duque de Ihar, famoso por sua inteligência brilhante. Com um elogiável cabelo castanho-dourado e uma aparência impecável, este nobre, que era a imagem cuspida de seu pai, desfrutava de uma vida privada bastante libertina, ao contrário de sua reputação de homem culto e conservador.

Tendo a sólida imagem da Casa de Ihar como um escudo protetor, ele se escondia atrás da intimidade de Cássel — que era tão bonito que causava alvoroço apenas por existir. Dante era como um pássaro à espreita entre os galhos densos; um pássaro-palito parasitando o jacaré.


No que dizia respeito à vida privada de Dante, que mantinha amantes secretas por toda Mendoza, as inúmeras noites de farra que ele compartilhava com Cássel faziam qualquer um rir de sua suposta santidade. No entanto, o público não prestava atenção nele, pensando: «Ele não seria capaz disso»

Não importava quão devassa fosse a sua vida real, ela não ficava exposta. E como não era visível, ninguém o insultava.


Após retornar à residência dos Valeztena com Inês após a igreja, Cássel passara por um período que pareceu interminável a sós com o Duque de Valeztena, enquanto ela subia para trocar de roupa para o banquete.


Diferente do jantar de noivado, o Duque estava calmo e exibia uma dignidade que não se alterou ou elevou a voz por um único segundo. Mas aquela acusação silenciosa e controlada fora uma tortura pior do que se o velho tivesse perdido o juízo.


O Duque listara pretendentes melhores, dizendo coisas como: 

'Inês pretendia formar uma aliança com Enrique Osorno no futuro. Falando nisso, o único talento que você tem é correr pelo pátio de armas e, ao contrário de você, que parece ter apenas músculos no corpo todo, ele tem um cérebro brilhante e um alto nível de conhecimento. Ele sim me daria netos de quem eu realmente gostaria……'


Ou então: 'Olhe para Leonardo Helves. Os homens geralmente não vivem tanto quanto as mulheres e, especialmente sujeitos como você, que gostam de gandaia e de agir como estrangeiros arrogantes, morrem cedo. Teria sido melhor para Inês se casar com um rapaz jovem como ele para que ela o controlasse por aqui……'


E ainda: 'Dante Ihar teria sido perfeito. Até o pai dele, o Duque Ihar, é qualitativamente diferente do seu pai, que tem uma língua leve demais. Dante herdou tudo dele: um rosto sério e uma vida privada impecável…… Com certeza, se ele fosse o marido dela, ele nunca seria infiel, mesmo sendo tão inteligente e um pouco reservado……'


E assim por diante, os filhos mais velhos em idade de casar foram citados um por um, de casa em casa. O Duque rebaixara Cássel em comparação a todos os homens do império. O Duque de Valeztena fora sincero e metódico, percorrendo as dezessete famílias dos Grandes de Ortego apenas para esfregar na cara de Cássel quantas joias de genros existiam no mundo, ao contrário do "trapo imprestável" que ele havia levado......


Embora assentisse obedientemente para seu sogro, não concordava com nenhuma das avaliações do duque. Apesar de suas falhas, Cássel sabia que era o melhor candidato a esposo para Inês. Se sua própria avaliação era tão objetiva quanto acreditava, isso era outra história.


Cássel desviou os olhos de Inês para encontrar o olhar de Dante. De todos os solteiros mencionados pelo duque, ele considerava Dante o mais ridículo. Não havia nada de agradável em seu rosto, e ele não apreciava sua hipocrisia.


— Você parecia nervoso — disse Dante. — Não sei se é porque não consegue tirar os olhos da noiva por um único segundo, se é porque quer que a música acabe logo para ficar a sós com ela, ou se quer apenas tirá-la da vista do público.


— De qualquer forma, por que isso importa para você?


— Havia pessoas apostando que você arranjaria uma nova amante ainda esta noite, em pleno banquete dos Valeztena. Mas vendo como você está olhando para ela agora, tenho certeza de que eles vão se arrepender. O prejuízo da aposta será grande.


— Esse não é o tipo de comentário que eu gostaria de ouvir no dia do meu casamento.


— Não estou dizendo que é um mau pressentimento. Só quero dizer que eles estão redondamente enganados.


— ……


Dante Ihar deu de ombros e sorriu. Aquilo era um sorriso virtuoso? Era o sorriso cínico de um libertino gasto quando se olhava de perto. Estava claro que não fora apenas o corpo de Dante que havia rodado pelo mundo das amantes, mas a sua mente também.


Dante enganava cada uma de suas amantes, fazendo-as acreditar que eram seu único amor. Cada mulher esperava pacientemente por sua proposta que nunca chegaria. Se alguém fosse verdadeiramente promíscuo, seria Dante Ilhar.


Duque Valeztena estava muito enganado ao chamá-lo de “o genro perfeito”. Cássel silenciosamente zombou de seu sogro, grato por Inês ter a força de vontade de fazer as escolhas certas e executá-las.


— Você não quer perder essa joia por nada, não é? Olhe só para a Inês — comentou Dante.


— ……


"Desde quando ele chamava Inês com tanta intimidade?" Dante a observava como se estivesse cobiçando um doce proibido. Vindo do mesmo sujeito que, sempre que via Cássel, zombava dele dizendo: 'Conte-me como é a trágica sensação de estar acorrentado a um corvo há mais de dez anos', a presença dele ali era irritante e repugnante.


Cássel virou o rosto com frieza, recusando-se a dar corda para o assunto, e cerrou os lábios mantendo a sua expressão severa. No entanto, Dante, que continuava com os olhos semicerrados e fixos em Inês, de repente soltou uma risada contida.


— Acho que agora entendo perfeitamente por que você não consegue tirar os olhos dela nem por um segundo.


— Eu já esperava que qualquer imbecil notasse. — retrucou Cássel.


Dante riu sozinho. — Duvidei dos meus próprios olhos na cerimônia. Não podia acreditar que estava olhando para a mesma jovem da família Valeztena.

Cássel se recusou a responder.

Inês, que agora dançava com uma graça estonteante em um vestido esplêndido e deslumbrante como nunca se vira antes, surgira na igreja usando aquele traje de noiva branco e antigo, deixando todos chocados, admirados e perplexos ao mesmo tempo.


Choque. Sim, aquela era a palavra exata.


Os nobres que ainda não haviam se recuperado do impacto agora dançavam de forma desajeitada na pista, apenas para tentar chegar um pouco mais perto de Inês; pisavam nos pés de seus pares, apoiavam-se nas paredes sem sequer pensar em procurar uma parceira, e a criticavam de cima a baixo enquanto, no fundo, estavam maravilhados. 

Do topo da mesa principal, Cássel observava aquela reação patética com profundo desdém.


Ele olhou para os homens que outrora haviam ignorado Inês e que agora pareciam vermes rastejando pela atenção dela, e então voltou os olhos para a sua esposa.


Para a festa, o cabelo dela, que antes estava rigidamente puxado e preso para trás na igreja, fora parcialmente solto; as mechas laterais estavam trançadas de forma elaborada e decoradas com algumas joias na parte de trás, conferindo-lhe uma aura estranhamente inocente, bem diferente da postura aristocrática e severa da capela.


O vestido exibia um decote sedutor que deixava os ombros expostos e delineava a parte superior de um colo voluptuoso, seguido por uma linha justa que descia por sua cintura esguia, abrindo-se em uma saia volumosa que flutuava como pétalas de flores em movimento. Era impossível associar aquela mulher à figura que sempre andava coberta por vestidos negros abotoados até o queixo. A barra do traje, os fios de cabelo que balançavam quando ela girava e a expressão digna e imponente que ela mantinha — sem demonstrar o menor desconforto — eram hipnotizantes.


Ela sorria de forma amável, sem responder diretamente aos olhares alarmados ou cobiçosos das pessoas; fingia não ouvir os sussurros e não ver a comoção, mas sem parecer arrogante. Tudo nela estava completamente diferente de seu comportamento habitual, mas o verdadeiro problema era que ela agia com tanta naturalidade que parecia ter dominado o mundo social a vida inteira.

Chamar a atenção como a mulher mais deslumbrante da noite, ser o centro das atenções de um banquete daquela magnitude, atrair e repelir as pessoas com naturalidade e conduzir conversas graciosas com qualquer um…… Era a primeira vez que Cássel via esse lado dela.


De acordo com a própria Duquesa, até para ela, como mãe, aquela era a primeira vez que via a filha agir assim.


Contudo, tudo parecia se encaixar perfeitamente nela, do um ao dez. Cássel sabia que Inês provavelmente detestara a obrigação daquele banquete, mas o resultado final fora impecável. Inês brilhava. 

Não havia razão para não admitir isso.


Cássel voltou a tomar um gole de água para aliviar a garganta seca e desviou o olhar para o rosto animado de Luciano.


"…… Que tolice."


A única coisa que havia mudado eram as roupas e o penteado. Um rosto sorridente era algo raro vindo dela, mas, no fim, era apenas uma expressão. No entanto, para o restante do mundo, parecia que tudo havia mudado. Aquilo era ridículo. Até um pouco irritante.

Fosse flertando com a atenção geral em um vestido deslumbrante, ou abotoada até o pescoço parecendo uma freira solene, Inês era, afinal de contas, a mesma Inês de sempre.


Cássel era o único constantemente atormentado pela vontade avassaladora de rasgar qualquer vestido que ela vestisse, fosse um traje elegante ou um saco de lixo. Ele já estava impactado pelo seu charme; não importava se ela estivesse sem maquiagem ou adornos. 

Independentemente de Inês Valeztena estar mais bonita ou radiante, ver o salão subitamente transformado em um ninho de abutres cobiçando a sua esposa não era agradável. Ele sentia um impulso genuíno de arrancar os olhos daqueles sujeitos.


Dante Ilhar era um exemplo claro desses incômodos recém atraídos. Mudara rapidamente de comportamento ao ver Inês neste dia. Se Dante estava tentando conseguir uma chance de se aproximar de Inês através do novo marido, devia estar fora de si.


— Que joia — murmurou Dante. — Mal percebi seu rosto quando ela se vestia como uma diretora de funerais, mas agora… — Ele lambia os lábios.


"Esse bastardo..."


Cássel fez uma careta, xingando internamente Dante por ser um homem tão desprezível.

Dante alheio a sua crescente irritação acrescentou: 


— Ainda assim, ela não faz o seu estilo de qualquer forma. Você parece estar um pouco impressionado agora por ser a novidade do momento, o "gosto do novo"……


— ……


— Você não fazia ideia de que um corpo que andava sempre tão escondido seria tão magnífico. É claro que o que se mantém oculto sempre tem um sabor mais instigante, mas, pelo que conhecemos da Inês, ela deve ser muito


— Muito o quê? — Cássel inclinou a cabeça ligeiramente, interrompendo-o com um tom de voz perigosamente baixo, exigindo uma explicação.


Dante sorriu, tentando amenizar o clima.


— Não quis dizer nada com isso. Só estou pensando que este casamento acabou sendo uma sorte inesperada para você. Eu achei que você ia cair em um pântano sem conseguir se mover, mas……


— Eu já imaginava tudo isso. Não estou surpreso.


— ……?


Cássel respondeu de forma enigmática. Os olhos de Dante traíram uma curiosidade confusa. Logo, seu sorriso astuto se alargou. Ele se inclinou e sussurrou: 

— Devido nossa amizade de longa data— 


— ......Nunca fomos amigos, Ihar. — corrigiu Cássel.


— Eu não vou atrapalhar os seus bons momentos com ela. Claro que eu nem conseguiria, mesmo se quisesse. Como eu poderia competir com esse seu corpo e esse seu rosto?


— Se você sabe disso, pare de falar asneiras.


— Mas veja bem, se você se cansar da rotina de recém-casado, me dê uma oportunidade também. Eu ficaria mais do que feliz em consolar a sua esposa…… 


— Me avise quando você se cansar de viver — Cássel o cortou, a voz gélida. — Eu mesmo farei o favor de matá-lo.


— Ora, vamos. De qualquer forma, sempre que você estende a mão, as mulheres parecem cair nos seus braços como mágica. Não seria justo exigir que a Inês fique trancada no quarto enquanto você faz tudo o que bem entende por aí, seria? Se a Inês arranjar um amante, você se livra facilmente da culpa que carrega por causa daquele noivado arranjado desde os seis anos de idade.


O estômago de Cássel despencou com o falatório incessante daquele sujeito, e uma irritação aguda, como se tivesse engolido uma espinha de peixe, perfurou o seu peito ao ouvir a menção ao noivado de infância.


Como a cerimônia na capela havia sido extremamente restrita, o banquete havia se tornado o verdadeiro palco para a alta sociedade. Por mais que quisesse, não podia socar seu convidado no próprio casamento, na casa da noiva.

Cássel massageou as têmporas e gesticulou novamente para afastar o homem.


— Meu Deus, você viu como ela girou agora há pouco? Como a Inês aprendeu a dançar tão bem?


— Suma da minha frente.


— …… Mas você já dançou com ela? Eu nunca o vi admirar ninguém dançando assim comigo. Será que é por causa do Lorde Luciano?


— Cale a boca e caia fora. — Cássel repetiu, esperando que a terceira vez funcionasse.


Dante deu de ombros e finalmente se afastou, deixando para trás um último comentário cínico sobre Luciano que se perdeu no barulho do salão. Era óbvio que Inês jamais faria algo assim.


Ainda assim, Cássel voltou a olhar para Inês, com uma expressão profundamente intrigada e perplexa no rosto. Contrariando a sua personalidade pouco sociável, Inês exibia um desempenho perfeito demais na dança, o ápice dos eventos sociais. E pensar que ela mesma já havia dito no passado: 'Dançar na frente dos outros significa que você quer se transformar em um espetáculo'.


Ela sempre fora assim, desde a infância.

Inês não era o tipo de criança que seguia fielmente as instruções dos adultos, mas quando desobedecer se tornava mais irritante do que ceder, ela frequentemente satisfazia as vontades deles. Um exemplo disso eram os eventos em que ela era forçada a comparecer acompanhada por Cássel e, ocasionalmente, a dançar com ele.


Embora ela repetisse que odiava dançar em público e ignorasse os convites em oito de cada dez vezes, as outras duas ela aceitava periodicamente, apenas para que os adultos não explodissem de raiva.


Naturalmente, o seu par nessas raras ocasiões era quase sempre o seu noivo, Cássel. Fora ele, as únicas exceções eram o seu pai, o Duque de Valeztena, e o seu irmão, Luciano; Cássel era, portanto, o único homem com quem ela realmente havia praticado.


Como o restante dos homens da família estava afastado por não serem considerados adequados, e Cássel era o único e mais antigo par de Inês, uma estranha dúvida o assolava sempre que a via executar aqueles passos de dança impecáveis.


A maioria das mulheres aristocráticas aprendia tudo o que era necessário para se tornarem nobres dignas ainda na infância, tendo como tutora uma mulher estrita da família, e dançar em eventos sociais era uma dessas obrigações.

Mas, no caso de Inês, havia mais de cinco registros de tutoras que haviam sido expulsas da propriedade após apenas três dias.

A maioria delas tentava ensinar coisas como "obedecer ao futuro marido com a dignidade de uma mulher de Ortega", e como o mundo mental de Inês estava a anos-luz da obediência, a demissão em massa era um desfecho natural. 


"…… Onde diabos ela aprendeu a dançar assim?"


A velha pergunta voltou à mente de Cássel, e ele desviou o olhar novamente, questionando-se se havia algum segredo por trás daquilo.


Como o Duque de Valeztena vivia repetindo até a saliva secar, dizia-se que Inês fora um prodígio extraordinário em muitos aspectos desde muito jovem. Cássel sempre achara que aquilo era apenas a lavagem cerebral que o Duque tentara fazer em sua cabeça ao longo de uma década. 


"No fim das contas, ela parece mesmo ser um gênio……"


Luciano parecia ser o único homem com o direito de guiar os movimentos daquela mulher. Não fazia o menor sentido que seu cunhado — que tinha um físico comum e uma aparência meramente aceitável se comparado a ele — conseguisse deixar a dança de Inês ainda mais deslumbrante.


Sem perceber, Cássel gravou na mente as palavras audaciosas de Dante Ihar, repetindo internamente suas próprias refutações desdenhosas. Até pouco tempo atrás, ele e Inês, vestindo-se como se estivessem em um funeral, afastavam a atenção do mundo com olhares sombrios, como se fossem amaldiçoar qualquer um que ousasse fazer contato visual……

Mas, olhando para ela agora, quem seria capaz de se lembrar daquela versão recatada? Ele compreendia a mudança racionalmente, mas era difícil alinhá-la com o que via bem diante de seus olhos. Não que ele passasse os dias e as noites pensando nela, mas o choque diante daquela transformação era, sim, inevitável.


E aquilo o enfurecia novamente.


Vestir-se daquele jeito, dançar daquele jeito, sorrir daquele jeito…… Ele não gostava de nada daquilo. O pressentimento sinistro que sentira desde o momento em que abriram o primeiro baile deste banquete comemorativo se confirmou quando Luciano convidou a irmã para dançar diretamente na pista.


O modo como ela movia os pés com leveza nos braços do irmão, o rosto que exibia um sorriso doce — mesmo que claramente fingido —, as piadas casuais que ele sussurrava ao encostar os lábios no ouvido dela…… Se Inês não estivesse ostentando habilidades de dança tão impecáveis, Cássel teria cruzado o salão de banquetes em pleno casamento para interrompê-la, um fato sobre o qual ele remoeria pelo resto da vida.


A linha da clavícula que corria perfeitamente reta, o colo que se elevava logo abaixo e o decote tentador que se estendia diante de sua vista o atormentaram durante toda a dança, como se ela o estivesse provocando de propósito. O fato de que todos no salão assistiam àquela mesma cena o deixava à beira da loucura.


Cássel soltou um suspiro baixo. Só de pensar nisso, sentia o sangue ferver e subir à cabeça. O tempo parecia se recusar a passar. Desejava apenas que o banquete terminasse para que pudessem finalmente deixar o salão e seguir para os aposentos nupciais, onde passariam a primeira noite……


— Você parece entediado.


Óscar, surgindo de repente por trás dele, pegou com total naturalidade a taça de vinho que fora colocada à frente de Cássel. Era uma taça nova, que Cássel ainda nem sequer havia tocado.


Tratava-se de uma safra rara produzida nos famosos vinhedos do Duque de Valeztena há quarenta e três anos, em um período em que o sol fora excepcionalmente generoso. Restavam apenas três garrafas daquele vinho no mundo, e qualquer homem comum deveria saborear cada gota com profunda gratidão durante todo o banquete — uma bebida que o próprio Duque de Valeztena servira e decretara o uso.


Pelas tradições de casamento de Ortega, a melhor bebida da noite era reservada exclusivamente aos noivos, sendo costume que nem mesmo os pais da noiva ou do noivo pudessem partilhar do mesmo cálice. Mas, dentre todos os mortais, haveria alguma regra ou costume capaz de conter o Príncipe Herdeiro, que se considerava a criatura mais valiosa do império?


Cássel olhou ostensivamente para a taça vazia que o primo deixara no lugar da nova e, em seguida, voltou os olhos para a frente, julgando que o herdeiro do trono não merecia o desgaste de uma resposta.


Enquanto o convidado indesejado se servia, a música mudou na pista. Inês, que ele supunha estar prestes a retornar à mesa, agora conversava com Enrique Osorno. Ela parecia ter notado a presença de Óscar à distância e decidira desviar o caminho.


Enrique era neto do Duque de Osorno, o homem que o Duque de Valeztena listara como a prioridade número um caso o noivado com Cássel tivesse fracassado.


— Afinal de contas, os vinhos de Valeztena são incomparáveis — comentou Óscar, girando o líquido na taça. — Mesmo que eu implorasse por uma garrafa, o velho não me daria nem se estivesse morrendo. Mas agora que você é o genro dele, ele a entrega de bandeja.


Mesmo após ter sido rejeitado de forma humilhante por Inês quando ela tinha apenas dez anos de idade, Óscar continuara a cortejá-la em segredo por anos. Era uma obsessão lamentável que ninguém ao redor, muito menos o Imperador e a Imperatriz, conseguia compreender. Tratava-se de um homem que não enxergava nada além do próprio umbigo e a quem não restava nada exceto o orgulho ferido; Cássel não sabia se aquilo era pura teimosia ou uma ambição desmedida.


Tentar compensar o primeiro fracasso sofrido na infância àquela altura o tornava um ser humano deplorável…… Como sempre fazia, Cássel escutou o sarcasmo mesquinho de Óscar por um ouvido e o deixou sair pelo outro.


No ano em que Cássel ingressara na academia militar, Óscar fizera questão de ir pessoalmente a Pérez mais uma vez, tentando exibir uma postura imponente para impressionar a moça. Mas Inês lhe dera as costas, e o Príncipe acabou não se casando com ninguém até os seus vinte e sete anos atuais.


A neta do Marquês de Barca, que estava prometida a Óscar, já completara vinte e dois anos e há muito passara da idade ideal de casamento para os padrões da corte. Ela tolerava dia após dia a pressão da família imperial devido ao sofisma do Príncipe, que alegava que a noiva — a quem conhecera quando ele tinha vinte e um anos e ela apenas dezesseis — ainda parecia jovem demais para o matrimônio.


E quanto mais o tempo passava, mais o Príncipe descontava suas frustrações em Cássel, expressando seu rancor sempre que podia. Ele não se conformava com o fato de ter sido enxotado por Inês no passado, sem ter conseguido arrancar dela uma única palavra amigável.


Cássel limitava-se a lançar respostas desinteressadas como "sim" e "compreendo" diante das provocações de Óscar, enquanto seus olhos vasculhavam o salão em busca da esposa. Inês não estava onde ele esperava, mas ela era tão chamativa que foi fácil localizá-la. Cássel semicerrou os olhos.

Ela estava, sem sombra de dúvida, conversando com Enrique Osorno, um pouco mais afastada dos demais dançarinos.


— …… Se ela tivesse escolhido Enrique Osorno, eu até teria entendido — murmurou Óscar de forma maliciosa. Suas palavras não passaram de raspão pela nuca de Cássel como de costume; em vez disso, perfuraram o seu canal auditivo como uma agulha bem afiada. — Por que Inês escolheria alguém como você?


— ……


— Veja só, ela parece se dar muito bem com o neto do Duque de Osorno.


De repente, os dois começaram a dançar no meio do salão ao som de uma melodia animada.


— Ele tem o defeito de parecer um pouco afetado, mas existem mulheres que gostam desse tipo de tipo…… Ao contrário de você, que é apenas um sujeito excessivamente bronzeado pelo sol militar, ele tem modos.


— ……


— O que foi? Você deve ter entendido o que quero dizer.


— Agora que entendi, decidi que não vale a pena responder — rebateu Cássel friamente.


— Está com ciúmes?


— Não.


— Qual o problema de uma dança? Uma dama que sequer consegue dançar corretamente em um banquete onde ela é a protagonista não tem qualquer atrativo. Inês raramente dança com outras pessoas, então até eu poderia perder o juízo com isso, mas esse é apenas um ritual que todos cumprem. Você é muito limitado por dentro, sabia?


O tom de Óscar parecia o de um tutor tentando ensinar alguém a quem faltava intelecto, o que irritava Cássel profundamente. Talvez ele tivesse se alistado na marinha não apenas para adiar o casamento, mas para manter distância daquela voz insuportável. O fato de ter de tolerar aquele homem arrogante em vez de desfrutar de sua nova vida com a esposa o fazia se sentir pessimista em relação ao futuro.


— Inês é tão deslumbrante quanto se esperava, e você não tem o menor estômago para lidar com a corte. Vai querer mantê-la trancada só para você? Desse jeito, o seu casamento não vai durar — provocou Óscar.


— O que um homem solteiro saberia sobre casamentos?


— Existem coisas que se pode compreender perfeitamente sem a necessidade de vivenciá-las.


Óscar deu um tapinha condescendente no ombro de Cássel para encorajá-lo, agindo como se fosse um primo benevolente.


— Está tudo bem, Cássel. Afinal, Enrique Osorno está fazendo a sua esposa feliz por você neste momento.


A audácia daquele homem assemelhava-se à de Dante Ihar; nenhum dos dois sabia quando parar ou se recolher à sua própria insignificância.


— Olhe só, ela está sorrindo.


— ……


— Eu nunca a vi sorrir assim quando dançava com você. Será que é por causa da excelente conversa de Enrique? Ou será que a sintonia deles é melhor do que se tivessem praticado de antemão?


Que primo desgraçado…… Mesmo mantendo o mesmo nível de baixeza de Dante Ihar, as palavras de Óscar causavam uma irritação muito mais profunda. Ah, o que Cássel daria para ter o direito de mandar Oscar se danar, como fez com Dante Ilhar…

Se pudesse amarrar os dois e jogá-los no fosso mais profundo de Herda, não hesitaria por um segundo.


— Na primeira vez em que dançamos, nós rimos — declarou Cássel, firme.


— Ah, sim. Na primeira vez. Algo puramente para os convidados.


Óscar soltou uma risada satisfeita, como se mal conseguisse conter o deboche, e estendeu a mão furtivamente para pegar a taça de vinho restante que pertencia ao assento vazio de Inês.

Cássel arrancou a taça da mão de Óscar como se empunhasse uma espada. Diferente da sua, aquele era o cálice que os lábios de Inês já haviam tocado. Ele virou o líquido, bebendo tudo de uma única vez.


Sua cabeça palpitou por um instante enquanto o vinho corria por sua garganta sem que ele pudesse sequer saboreá-lo. Aquilo era, obviamente, uma reação pura ao estresse.


— Você está exagerando — comentou Óscar.


— Se o problema é meu, não vejo por que se importar.


— Então, o que Dante Ihar estava dizendo para você agora há pouco?


— Não disse nada.


— Não foi o que pareceu pela sua cara.


— ……


— Você parecia um miserável de dar pena.


Cássel lutou contra o impulso de suspirar em exasperação. 


— Alteza, você não ajuda em nada. Pode, por favor, ir embora?


— Cássel, você me serve. Não o contrário. Não tenho obrigação de ajudá-lo. Estou aqui apenas porque o noivo tem o melhor lugar para o espetáculo.


— Então assista ao espetáculo sozinho.


— Não se preocupe com Dante Ihar — desdenhou o Príncipe, mudando de assunto. — Tenho certeza de que ele ficará calvo como o pai, o velho Duque. Perderá qualquer atratividade que tenha agora e não valerá a pena se preocupar.


Pela primeira vez, Cássel concordou com Oscar.


Aquelas foram, sem dúvida, as palavras mais reconfortantes que Óscar já havia proferido em toda a sua vida.


— É claro que você também deveria ter um pouco mais de cuidado, Escalante. Você faz parte do grupo de risco hereditário. Sabe que seu pai já está perdendo o dele.


— De novo, nada útil.


— Olhe para a testa de Dante. Não lembra a entrada da calvície do pai dele?


— De fato. A semelhança é impressionante, assim como você se parece com seu tio e meu pai, Duque Escalante — retrucou Cássel.


Ele sabia exatamente como irritar Oscar.


— Como ousa!


— Só lembrei que meu pai também tem entradas na cabeça, e, seguindo sua lógica, o formato da linha capilar seria um bom indicador de genes herdados relacionados à calvície. — Cássel se afastou para sinalizar que não tinha mais interesse na conversa, deixando Oscar a ferver em sua própria raiva.

Voltou a olhar para Inês, murmurando um xingamento inaudível para si mesmo. Como esperado, ela estava sorrindo novamente na pista de dança. O que diabo Enrique Osorno estava dizendo para fazê-la ter tantas reações repentinas? Enquanto a observava com pensamentos distorcidos, parecia-lhe que ela estava quase rindo alto, e não apenas sorrindo educadamente.


Ele odiava aquilo. Para piorar a sua irritação, os olhos sonsos de Enrique Osorno se estreitavam em satisfação a cada giro.


Era uma regra não escrita na alta sociedade que Inês Valeztena jamais dançava com qualquer homem que não pertencesse à sua própria família ou ao seu noivo. Como ela já havia recusado os convites do próprio Príncipe Herdeiro publicamente inúmeras vezes, o restante dos jovens nobres — intimidados pela aura severa de Inês ou temendo a fúria das duas grandes casas — sequer ousavam se aproximar. 

Limitavam-se a revirar os olhos, frustrados e distantes.


E Enrique Osorno acabava de se tornar a primeira exceção.


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