Capítulo 27 — Tecnicamente recém-casados
Seus olhos se fixaram na filha e no novo genro, e a Duquesa Valeztena refletiu:
— Eu sabia que este dia chegaria, mas não percebi que seria hoje... —
Imperturbável, Inês encarou as lágrimas da mãe, depois lançou um olhar para Cassel, que mastigava silenciosamente a comida. A família Valeztena estava acostumada aos humores caprichosos da Duquesa Valeztena, mas Cassel não estaria. Pensando melhor, Cassel já havia visto coisas piores... Até o jantar antes da cerimônia de casamento havia sido horrível.
A duquesa era muito boa em esconder o quão bipolar, ansiosa, alcoólatra, depressiva ou obsessiva era, para manter sua posição social na sociedade refinada. Assim, ela não estava tentando se envergonhar diante do novo genro.
A Duquesa Valeztena soltou um suspiro dramático.
— O dia todo de ontem, temi que estivéssemos em um sonho. Mas vendo vocês lado a lado, finalmente percebo que isso é real. Meus sonhos de toda a vida estão se realizando...
Inês ponderou por um momento se a mãe estava bêbada, mas concluiu que sete horas da manhã era cedo demais até mesmo para uma alcoólatra como ela.
— Eu temia ter sido amaldiçoada, mas finalmente me livrei da desgraça e da vergonha... — suspirou a Duquesa Valeztena novamente, com um alívio quase eufórico. Ela estava nas nuvens após a noite de núpcias da única filha. Seus olhos marejados se moviam entre Inês e Cassel, e ela murmurou entre soluços:
— Inês, você sabe que isso é tudo o que sempre quis para você... —
Inês suspirou.
— Eu sei, mãe. — Ela não se comoveu com a demonstração de orgulho maternal.
Por outro lado, seu pai roía a carne seca na outra ponta da mesa, e seu marido mantinha o olhar fixo no café da manhã como se sua vida dependesse disso.
— Não posso acreditar que você finalmente se tornou uma mulher. Todos achavam que Sir Escalante anularia o noivado depois que você começou a andar com aqueles trapos pretos ridículos —
Ao ouvir sobre anulação, o Duque Valeztena decidiu intervir.
— Já basta, Olga.
A duquesa não deu atenção ao marido.
— Eu temia que você acabasse vivendo como uma solteirona. As mulheres são como comida, sabe. Estragam se você as deixar sozinhas por muito tempo. —
— Olga — tentou novamente o Duque Valeztena.
— Você teria perdido totalmente sua chance em alguns anos! E com quem você teria ficado então? Viúvos e homens velhos! Esse teria sido o destino a que você estaria condenada, e isso jamais seria aceitável! —
A cada palavra, Olga continuava a empilhar insultos sobre a filha, e o rosto do duque ficava mais tenso. Ele ponderava suas opções. Não queria arrastar a esposa para fora da sala e se envergonhar diante da filha e do novo genro.
A duquesa prosseguia, alheia à expressão desagradável no rosto do duque.
— Se você tivesse que se contentar com um marido tão patético, eu teria preferido mandá-la para um convento. Pelo menos, assim, poderíamos usar Deus como desculpa para a vergonha que você trouxe à nossa família.
Inês mastigava os feijões sem se mover, mas o rosto de Cassel ficou rígido, quase uma máscara.
— Afinal, você já estava vestida para o trabalho. Andando por aí como uma freira ou um corvo horrível... Não é, Sir Escalante?
O Duque Valeztena exclamou: — Olga! Já basta!
Cassel limpou a boca e afastou elegantemente o prato meio cheio.
— Vossa Graça, não tenho certeza do que quer que eu concorde.
Inês soltou um suspiro discreto. Seu marido estava respondendo à mãe dela. Isso não era um bom sinal.
A duquesa piscou surpresa.
— Oh, você está preocupado que minhas palavras possam ferir os sentimentos de Inês? Não se preocupe. Minha filha é tão sensível quanto uma pedra e completamente imune a qualquer coisa que eu diga. Na verdade, é surda para minhas palavras.
— Se continuar a dizer tais coisas para mim, também farei ouvidos de mercador, Vossa Graça — retrucou Cassel.
A Duquesa Valeztena ficou atônita e confusa.
— O que quer dizer com “tais coisas”? Está falando sobre o quanto me preocupo com minha filha?
O rosto de Cassel ficou frio e sério.
— Se eu fosse você, me preocuparia mais com a dor que minhas palavras podem causar à minha filha do que com o que os outros dizem sobre sua roupa.
Por um momento, reinou um silêncio absoluto.
Inês já estava exausta. Estava cansada desse silêncio desconfortável, dessa família estranha e imprevisível. Uma mãe que um dia desprezara e um marido que de repente desafiava as palavras amargas da mãe... Infelizmente, aquelas pessoas eram sua família.
Embora estivesse acostumada às palavras dolorosas da mãe, Inês não estava acostumada a ter um marido. Estava em território completamente desconhecido. Quem poderia imaginar que a criança de seis anos, Cassel Escalante, cresceria e se tornaria seu marido, defendendo-a diante dos pais? Inês não sabia o que fazer. Sentia-se totalmente sobrecarregada.
Apenas algumas horas antes, Cassel a havia sobrecarregado de outras maneiras. Na noite anterior, ele a acariciara, tocara e provocara até ela mal conseguir manter os olhos abertos. Só encontrou descanso ao escapar dele, refugiando-se na banheira. Após tudo isso e com pouco sono, mal conseguia levantar os talheres, quanto mais ter energia para enfrentar a mãe. Já estava estressada com a lembrança do rubor da equipe ao vê-los pela primeira vez depois da noite agitada.
A duquesa era amarga e maldosa com todos, não apenas com a filha. Inês aceitara que, ocasionalmente, era alvo da amargura da mãe e, sempre que possível, evitava-a. Portanto, exceto nos feriados, não precisava suportar sua mãe com frequência.
O Duque Valeztena passava a maior parte dos dias em Mendoza, enquanto a duquesa supervisionava suas terras em Perez. Isso significava que eles podiam evitar-se na maior parte do tempo. Cassel e Inês fariam o mesmo, sumindo em algum lugar do vasto território Valeztena para não ver os pais. A família só passava tanto tempo junta por causa do casamento. Em breve, ela estaria livre dessa situação que lembrava demais sua infância.
A duquesa se voltou para o marido.
— Você ouviu, Leonel? Seu genro me dá conselhos sobre como falar com minha própria filha.
— Sir Escalante não está errado. Esta é nossa última refeição juntos antes de nossa filha deixar a cidade, então mantenha a calma.
— Você não ouviu como ele disse que eu não me importo com minha filha? Como ousa insinuar que não a amo?!
— Olga — repreendeu o duque.
— Foi você quem a chamou de “lixo inútil”! — interrompeu Cassel. — Minha esposa, Inês, não é surda, na verdade. Posso garantir que ela ouvirá suas palavras, mesmo que você adote um tom mais respeitoso, Vossa Graça. — Com esse comentário, ele se levantou e estendeu a mão à esposa.
Inês ficou olhando para a mão por um instante, depois lançou um olhar para o pai.
O Duque Valeztena fez um breve aceno, indicando que permitia que saíssem.
Cassel viu o aceno e gentilmente levantou Inês pelo pulso. Com uma mão apoiou suas costas, como se esperasse que ela tivesse dificuldade em se levantar. Quando Inês ficou ao lado dele, Cassel fez uma reverência aos sogros em sinal de cortesia.
— Desculpem-nos. Não podemos mais atrasar nossa viagem para Calztela.
A atenção de Inês voltou à conversa. Calztela? Do que ele está falando?
— Inês? — Cassel se inclinou na direção dela, incentivando-a a também se retirar.
Quase contra sua vontade, Inês disse de repente:
— Perdoem-nos por sair tão abruptamente. Voltarei a Mendoza em breve para vê-los.
A duquesa ainda queria ter a última palavra.
— Viu? Ela já deve ter falado às minhas costas com o novo marido! Vejam como ele trata grosseiramente a própria sogra?
Cassel não estava disposto a tolerar mais um segundo dessa insanidade.
— Sei que estou sendo rude, Vossa Graça, mas realmente precisamos ir.
Inês não teve escolha senão seguir o marido, ligeiramente atordoada com o que acabara de acontecer.
Inês observava Cassel enquanto ele a conduzia para fora da sala de jantar. Ela desviou o olhar, olhou para Cassel novamente e depois voltou a desviar o olhar. Entreabriu os lábios para dizer algo, mas não tinha certeza do que falar.
Cassel quebrou o silêncio primeiro.
— Peço desculpas se ultrapassei os limites.
Inês suspirou levemente e disse:
— Você não precisava me defender diante dos meus pais. —
— Era isso que imaginei que você diria. — Cassel estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dela. Sua mão a sustentava como a base de um castelo de areia.
— Você não precisa se desculpar. Na verdade, eu deveria ser quem pede desculpas pelo comportamento da minha família. Sinto muito por você ter que lidar com isso justamente no dia em que volta ao seu posto. — disse Inês.
Cassel suspirou.
— Isso é ridículo. Você não precisa se desculpar pelo quão cruéis foram com você. —
— Eu não chamaria de “cruéis”, mas...
— Um pai amoroso nunca deveria falar com o filho assim. Nem envergonhá-la diante do novo marido.
— Minha mãe está apenas animada com nosso casamento. Tenho certeza de que estava se encaminhando para um elogio sobre como você me salvou do destino miserável de uma solteirona. — Na verdade, Inês não se importava com a mãe. Nunca esperou muito dela desde o início.
No entanto, Cassel não parecia impressionado. Sua expressão fechada só se intensificava.
Inês acrescentou:
— Não veremos minha família com frequência. Meu pai passa o tempo em Mendoza, e minha mãe em Perez. E minha mãe é assim com todos, então não estou sendo alvo especial.
— Eu vi seu rosto, Inês.
As sobrancelhas de Inês se ergueram levemente. — Meu rosto?
— Eu percebi pelo seu rosto que você não dá a mínima para o que ela disse. Era óbvio que ela fala com você desse jeito o tempo todo. Você não deveria permitir que ela te tratasse assim. — Cassel passou a mão pelo rosto. Um franzir profundo marcava sua testa.
— Cassel... — disse Inês.
Ele sussurrou: — Desculpe...
Agora era a vez de Inês franzir a testa.
— Pelo que você está pedindo desculpas?
— Não queria te pressionar daquele jeito agora há pouco.
— O quê? Você nunca me pressionou a fazer nada — disse Inês.
Cassel parecia genuinamente arrependido.
— Não, fui um bruto. Tenho certeza de que você não me suporta, especialmente depois de ontem à noite.
— Quero dizer que você nunca... Ah, você quer dizer... — Em vez de completar a frase, Inês apenas assentiu. Ele havia sido bastante agressivo na noite anterior.
Inês lembrava vagamente de ter ouvido um pedido de desculpas semelhante de Cassel várias vezes na noite passada. Mas ela estava longe de estar totalmente acordada no final e, portanto, mal registrou o que ele disse.
— Então você não quer sentir prazer comigo e, em vez disso, quer que eu te estupre? —
— De jeito nenhum! Isso não é...
— Tudo o que você diz leva a isso. Você quer que eu ignore seus desejos. Quer que eu entre em você antes de estar pronta, ejacule e depois te abandone.
— Eu consinto com o ato. Portanto, isso não pode ser considerado estupro.
— Você é uma mulher doente e pervertida, Inês.
Inês revisitou a conversa que tiveram na noite passada. O rosto dele havia ficado frio como pedra quando mencionou “estupro”. Ela nunca tinha visto aquele lado de Cassel.
Cassel continuou com as desculpas.
— Não tenho direito de criticar sua mãe depois de ter sido tão bruto com você ontem à noite.
— Quero dizer, você não... — Inês procurou as palavras certas para terminar a frase. Afirmar que ele não a havia estuprado não parecia apropriado naquela situação.
Ela sabia que Cassel se conteve na noite passada. Sentiu sua força relaxar sempre que ele percebeu que a segurava com excesso, e seus movimentos desaceleraram quando notou que estava sendo rápido demais. Cassel teve cuidado para nunca ultrapassar os limites.
E assim, ela sabia que ele era movido por mais do que apenas desejo animal. Cassel Escalante podia ter nascido com um alto apetite sexual, mas também possuía o forte senso de dever e perseverança de um marinheiro da marinha. Ele era um homem honrado à sua maneira.
Inês não conseguia imaginar que seu corpo imperfeito pudesse tê-lo seduzido muito, então suspeitou que ele simplesmente havia agido por dever e desejo.
Finalmente, começou a pronunciar palavras cuidadosamente escolhidas:
— Você nunca me tratou como um bruto. Aquela foi nossa noite de casamento, e apenas cumprimos com nossos deveres.
Um canto da boca de Cassel se curvou em um leve sorriso.
— Cumprimos nossos deveres, como você disse.
— De fato, e você nunca me forçou a nada — confirmou Inês.
— Você não se lembra do que aconteceu na banheira há duas horas? — perguntou Cassel.
Francamente, Inês estava meio adormecida nesse ponto, mas podia se lembrar de que haviam feito muito mais do que apenas lavar os corpos.
Cassel se inclinou sobre o ombro de Inês e sussurrou:
— Você não se lembra do que fez comigo na banheira?
— Bem, nada de notável na minha memória. — Inês não estava interessada em relembrar os detalhes lascivos daquela noite tão cedo pela manhã.
As sobrancelhas de Cassel franziram-se e depois relaxaram em um arco de dúvida.
— Então você chamaria isso de nada de notável?
— Por um lado, sei que não fui muito habilidosa — respondeu Inês.
Quando ela sugeriu que evitassem buscar prazer em sua vida sexual, Cassel claramente ficou perturbado. Depois de ver sua reação, Inês mudou sua abordagem para encontrar um meio-termo. Agora, seu objetivo era alcançar o equilíbrio perfeito entre copular o suficiente para gerar descendência, mas não tanto a ponto de fazer Cassel desfrutar do sexo com ela. Ela nunca lhe daria satisfação completa, mas cooperaria o suficiente para manter o ato. E pelo que podia se lembrar, havia alcançado o equilíbrio perfeito na noite passada.
Para sua surpresa, Cassel soltou uma risada suave pelo nariz e disse:
— Você foi bastante habilidosa, Inês.
Os olhos de Inês se arregalaram por um instante. Já não se sentia tão certa.
Cassel continuou, a voz carregada de sarcasmo:
— Não tive reclamações sobre suas habilidades. Você subiu sobre mim e moveu os quadris na água da banheira, mas imagino que você não considere isso notável.
Agora, Inês nem tinha certeza se sua memória estava correta.
— Depois que você me esgotou, me empurrou de lado como um brinquedo usado. Imagino que nada disso conte como notável no seu livro, Inês.
— Cassel, acredito que esta conversa não é apropriada para o corredor.
— Por que não? Estamos apenas discutindo o cumprimento de nossos deveres, não é?
Inês bufou diante do comentário dele.
Cassel não se intimidou e acrescentou:
— Afinal, nossos deveres envolvem horas de êxtase e nossas coxas escorrendo fluidos corporais. Certo?
Inês estreitou os olhos. — Qual é o seu ponto?
— Nossos deveres foram cumpridos nos primeiros dez minutos. Nossa noite de casamento, por outro lado, durou dez horas. Fizemos muito mais do que apenas nossos deveres, Inês Escalante.
Quando Inês pisou no primeiro degrau, o pé escorregou. Cassel a segurou firmemente nos braços. Primeiro esperou que ela recuperasse o equilíbrio, mas logo perdeu a paciência e decidiu carregá-la.
Inês ficou constrangida. Mal estava doente a ponto de não poder andar, e os funcionários estavam observando. Não podia empurrá-lo na frente deles. Em vez disso, colou um sorriso falso e sussurrou em seu ouvido:
— Você sabe que não gosto desses gestos. Me deixe no chão.
— Recuso — respondeu Cassel.
— Cassel, preciso que me deixe no chão agora.
Ele fingiu considerar o pedido. — Hmm.
— Cassel. — A voz de Inês estava cheia de irritação.
— Finalmente, você aprendeu que chamar meu nome me faz ouvi-la.
— Exceto que não está ajudando agora, já que você não está me ouvindo.
— Aqui está — disse ele, abaixando-a no topo da escada.
Inês percebeu que os funcionários mais jovens os observavam de relance, com o rosto corado. Isso a fez lembrar de como a equipe em frente ao quarto corara pela manhã. Depois, lembrou-se de como haviam relatado aos pais sobre a “intensa consumação” na noite de núpcias.
Constrangida, mal conseguia erguer a cabeça.
A Duquesa Valeztena, por outro lado, mal conseguia conter a alegria ao ouvir o relato. Foi por isso que fora tão dura com Inês durante o café da manhã. Quando a duquesa se via tomada pela emoção, frequentemente a expressava descontando nos outros. Afinal, ela era alérgica à própria felicidade. Afastava as pessoas ao redor e acreditava que todos a isolavam; estava presa em um padrão de comportamento prejudicial, sem saída. Talvez, se Luciano se casasse em breve, era certo que ela também tentaria destruir o espírito dele.
Com um suspiro contido, Inês apressou os passos. Cassel a seguia de perto, com a mão sobre suas costas para evitar que perdesse o equilíbrio novamente.
"Fizemos muito mais do que apenas nossos deveres, Inês Escalante."
As palavras de Cassel ecoavam em sua mente. Sua voz grave a assombrava a cada passo, tanto que ela esqueceu de perguntar ao novo marido por que estava acompanhando-o até seu posto em Calztela. Adormeceu assim que encostou a cabeça no colo de Cassel na carruagem.
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