Capítulo 27 — Tecnicamente recém-casados
— Eu sabia que um dia como o de hoje chegaria, mas nunca imaginei que seria assim……
Inês observava a Duquesa de Valeztena, que chorava copiosamente enquanto hesitava em levar um pedaço de pão à boca. Ao seu lado, Cássel mastigava o alimento em absoluto silêncio.
O temperamento selvagem e instável da Duquesa já era há muito tempo familiar para os membros de sua própria casa; porém, para um homem de fora como Cássel, aquela cena deveria parecer no mínimo bizarra. Sobretudo considerando as inúmeras excentricidades que haviam testemunhado naquele palácio apenas uma semana antes do casamento.
"Não chega a ser uma surpresa, mas……"
A Duquesa, que manifestava todo tipo de sintoma neurótico — oscilando entre crises extremas de ansiedade, alcoolismo, depressão crônica e manias obsessivo compulsivas dependendo da estação do ano —, jamais perdia a pose diante de estranhos, não importava o quão degradada estivesse. Para ela, demonstrar fragilidade emocional em público era uma tolice imperdoável, o equivalente a entregar o controle de sua própria vida nas mãos de terceiros.
Por ser uma mulher extremamente exclusivista, era impossível que ela já considerasse Cássel como parte da família. Se na semana anterior ela precisara recorrer ao álcool para tolerá-lo, agora, às sete horas da manhã, com o canto dos pássaros ecoando pela janela, ela estava em seu estado mais sóbrio e lúcido.
— O dia de ontem foi tão irreal que pareceu um delírio. Mas ao ver os dois sentados lado a lado hoje, finalmente compreendo que isto é a realidade. É como se um peso de cem anos estivesse sendo removido dos meus ombros…… Eu me perguntava que pecado terrível havia cometido para merecer tamanho castigo, mas hoje, finalmente……
Aquilo era a prova cabal de que o casamento de Inês embriagava a Duquesa mais do que qualquer vinho. Com os olhos banhados em lágrimas, ela piscava sem parar, alternando o olhar entre a filha e o genro.
— Realmente, ver isso era tudo o que eu mais queria, Inês……
— Eu sei, mãe — respondeu Inês, soltando um suspiro discreto.
Se a Duquesa de Valeztena fosse uma mãe comum, e Inês uma filha comum, aquela cena seria um momento comovente, incapaz de ser encenado sem lágrimas legítimas.
Se assim fosse, a postura do Duque de Valeztena — que desde a alvorada mastigava a sua carne defumada em silêncio, ignorando o pranto da esposa —, o visível incômodo do genro, obrigado a engolir a comida em meio àquele espetáculo, e a atmosfera grotesca que pairava sobre a mesa de café da manhã jamais teriam existido.
— Eu ainda mal posso acreditar que você finalmente se tornou uma mulher casada. Quem diria? Você, que pretendia passar o resto da vida vestida com esses trapos pretos, como se estivesse em um eterno luto, e que quase arruinou o seu compromisso com o herdeiro dos Escalante……
— Já basta, Olga — cortou o Duque.
— …… Exatamente como a corte inteira andava murmurando! Se você continuasse isolada daquele jeito, como se vivesse em uma ilha remota, sem um lugar adequado na sociedade…… Assim como a comida se estraga se não for consumida a tempo, o mesmo acontece com o matrimônio de uma mulher. Por acaso a filha de um Valeztena poderia se casar fora do círculo dos Grandes de Ortega? Quem mais ousaria desposá-la? Se passassem mais três anos nessa teimosia, as pessoas diriam que até um viúvo seria bom demais para você, mas não……
Naquela manhã clara, a Duquesa, ébria de puro rancor sem ter tocado em uma única gota de álcool, despejava as suas habituais maldições disfarçadas de conselho sobre Inês. As feições do Duque de Valeztena fecharam-se imediatamente.
Ele parecia estar calculando os seus passos.
Indagava-se se seria melhor arrastar a esposa para fora do salão diante dos recém-casados — que haviam descido cedo como se fossem culpados de algum crime — e calar a boca dela à força, ou se conseguiria encerrar o desjejum sem expor ainda mais a decadência de seu ambiente doméstico.
— Teria sido muito melhor passar o resto de seus dias trancada em um mosteiro do que manchar o nome dos Valeztena e se tornar alvo de piadas por conta de um noivado tão vulgar. Ao menos lá, você poderia ter dedicado sua alma a Deus.
A Duquesa, alheia à fúria contida do marido, continuava a vomitar o seu amargor, inebriada pela própria encenação. Inês engoliu uma porção de grãos tostados como se estivesse ouvindo uma velha história de ninar. Em contrapartida, a expressão de Cássel tornava-se cada vez mais rígida.
— Ora, até vê-la vestida como uma mendiga teria o mesmo efeito. Não acha, Senhor Escalante?
— Olga!
— — Não compreendo a razão pela qual a Duquesa busca o meu consentimento para tais absurdos.
Cássel pousou os talheres sobre o prato meio consumido, tomou o lenço de linho e limpou os lábios com uma elegância impecável. Inês soltou um suspiro baixo, pressentindo o pior.
— Oh, por acaso teme que Inês se ofenda com as minhas palavras? Veja só quão delicado ele é! Mas fique sabendo que a minha filha possui a resistência de um tendão de aço e a sensibilidade de uma rocha; ela sequer finge escutar o que a própria mãe diz. Portanto——
— — Se a maior parte do que a senhora diz possui esse teor, eu também me colocarei no direito de não escutá-la. Duquesa.
— O que quer dizer com "esse teor"? Por acaso insinua que as minhas preocupações com o futuro da minha filha são infundadas?
— A ansiedade legítima baseia-se no afeto. Se o amor da senhora por sua filha fosse sincero, temeria mais provocar-lhe magoa do que ver as suas palavras ignoradas.
Nenhum ruído de talher ou louça ousou quebrar o silêncio sepulcral que se instalou no salão após aquela declaração.
Inês desviou os olhos, exausta, sentindo o peso daquele ambiente familiar hostil. O que a incomodava mais? Aquela nova configuração de "família" ou o silêncio sufocante?
Uma mãe a quem ela odiara com todas as suas forças em memórias de vidas passadas, e um marido que agora rebatia os insultos que ela própria mal se dava ao trabalho de ouvir…… Como cônjuge, a postura dele era um tanto desconcertante. Inês sentia o impacto da presença de Cássel, que se transformara em seu "esposo" da noite para a manhã, muito mais do que os comentários venenosos da mãe.
Ela o olhava quase como uma criança diante de algo irreal: o mesmo homem que, até duas horas atrás, a atormentara na cama de uma forma tão selvagem, agora erguia-se para protegê-la como se defendesse o próprio clã.
Inês sentia-se sem norte.
Fosse como fosse, ela acabara adormecendo na banheira nas primeiras horas daquela manhã de final de verão, e mal tivera tempo de se recuperar antes de ser arrastada para a mesa.
A razão de seu esgotamento era simples: os aposentos nupciais haviam se tornado um cenário de pura luxúria. Sempre que ela tentava pegar no sono, era despertada pelas carícias persistentes dele, e o ciclo se repetia…… Em certo sentido, parecia que ele tivera a intenção deliberada de exauri-la.
Com o relatório oficial já enviado a ambas as famílias atestando que "o vigor do jovem casal fora excessivo", e diante dos rostos corados dos servos no corredor, Inês perguntava-se se teria forças para lidar com aquela situação com a mente tão cansada. Sem mencionar o próprio corpo. Manejar os talheres parecia exigir o esforço de erguer barras de ferro.
Os surtos e as fofocas da Duquesa nem sempre eram direcionados a Inês. O acordo tácito da casa ditava que o melhor a fazer era ouvir tudo com indiferença, esperando a tempestade passar até que o alvo mudasse. E a estratégia mais eficaz de todas era simplesmente evitar cruzar o caminho da matriarca.
Para manter a fachada de unidade familiar, eles viviam o mais distantes possível uns dos outros, tolerando-se apenas nos banquetes de dias santos ou em refeições obrigatórias. O Duque de Valeztena passava a maior parte do ano na residência oficial em Mendoza, enquanto a Duquesa se isolava na província de Pérez. Ao contrário do palácio da cidade, a mansão de Pérez era vasta o suficiente para que Luciano e Inês existissem ali como fantasmas, sem nunca encontrar a mãe se assim o desejassem.
Se não fosse pelo casamento, a família jamais passaria por um período de convivência tão sufocante. Para Inês, aquilo era como reviver os fantasmas da infância. Um pesadelo incômodo, embora previsível.
— Você ouviu, Leonel? Seu genro me dá conselhos sobre como falar com minha própria filha.
— …… Não há qualquer erro nas palavras do Senhor Escalante, Olga. Esta é a nossa última refeição juntos nesta residência. Portanto, porte-se com a dignidade que o seu título exige.
— Esse garoto dos Escalante ousou me peitar! Eu? Isso é uma afronta! Como ele se atreve a dizer que não amo a Inês——
— — Olga.
— O marido dessa menina, o mesmo rapaz que você chamava de libertino! No entanto, agora……!
— — A minha esposa possui ouvidos, Duquesa, de modo que ela escuta perfeitamente cada uma de suas ofensas. A senhora não precisa destilar o seu veneno na mesa.
Ao pronunciar essas palavras, Cássel levantou-se e caminhou até o lado de Inês. Ela o fitou sem compreender por um instante e, em seguida, olhou para o Duque de Valeztena.
O pai assentiu discretamente com a cabeça, exibindo uma expressão de alívio, como se estivesse grato pela oportunidade de retirá-los dali o quanto antes.
Como se estivesse apenas aguardando por aquele aval, Cássel estendeu a mão para Inês. Em vez de segurar os dedos dela, ele a amparou delicadamente por baixo do pulso. Era o ápice da etiqueta aristocrática, mas executado com uma cortesia excessiva — como se ele soubesse perfeitamente o quão doloroso e difícil seria para ela o simples ato de se levantar. Quando Inês firmou-se de pé ao seu lado, Cássel inclinou a cabeça em direção ao Duque com uma postura impecável e reverente.
— A viagem para Calstera é longa, portanto, perdoem-nos por não permanecermos mais tempo.
"… Calstera?", pensou confusa.
— Inês?
Cássel chamou-a suavemente pelo nome, indicando com o olhar que ela também deveria acrescentar algo à despedida. Inês falou, sentindo-se compelida pelas circunstâncias:
— …… Perdoem-me por partir com tanta pressa, mãe, pai. Espero que nos reencontremos em breve em Mendoza.
— Como você ousa cochichar para o seu marido sobre sua própria mãe……? Sir Escalante, que tremenda falta de educação tratar a mãe da noiva dessa maneira logo após a noite de núpcias——
— Esposa. E, me desculpe, mas posso ver por mim mesmo a situação.
— ……
— Duque Valeztena, com sua licença, nos retiramos.
Ao cruzarem a porta do salão, Inês sentiu-se como se estivesse sob o efeito de um feitiço. Ela olhou para Cássel, que a escoltava em silêncio com uma cautela exagerada, depois voltou os olhos para a frente, e tornou a fitá-lo, umedecendo os lábios em um silêncio pensativo.
Cassel quebrou o silêncio primeiro.
— Peço desculpas se ultrapassei os limites.
Inês suspirou levemente e disse:
— Você não precisava me defender diante dos meus pais
— Era isso que imaginei que você diria. — Cássel estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dela. Sua mão a sustentava como a base de um castelo de areia.
— Mas não há necessidade de se desculpar. Minha família consegue ser deplorável às vezes…… Sinto muito que, logo no dia em que precisa retornar ao seu posto, você tenha que passar por tamanha inconveniência logo pela manhã. — disse Inês.
— Você fala disso com muita facilidade. — Cássel murmurou, parecendo ligeiramente chocado, e soltou um suspiro pesado. — Não há absolutamente nenhuma razão para você ouvir crueldades e insultos unilaterais, Inês.
— Eu não chamaria de “cruéis”, mas...
— Pais normais não rebaixam as filhas dessa maneira. O silêncio seria melhor do que despejar tanto desprezo.
— ……
— Eu jamais arruinaria a dignidade da minha filha diante do homem com quem ela acabou de se casar.
— No fundo, minha mãe estava apenas entusiasmada com o nosso casamento. Se você tivesse ouvido o discurso dela até o fim, provavelmente a veria dizer: "Ainda bem que o pior não aconteceu, graças ao Escalante".
Contudo, raros eram os momentos em que se desejava ouvir a Duquesa até o fim. Para Inês, que de qualquer forma não esperava uma despedida calorosa, o desfecho abrupto fora conveniente e oportuno.
Cássel franziu o cenho, o que levou Inês a acrescentar com seu habitual tom aristocrático:
— Isso não acontece com frequência. Não somos o tipo de família que convive muito……
— ……
— Meu pai passa a maior parte do tempo em Mendoza e minha mãe na mansão de Pérez, de modo que é uma raridade toda a família se reunir assim. Eu não me importo com o que ela diz……
— — Eu vi o seu rosto, Inês.
— O meu rosto?
— Era óbvio que ela fala com você desse jeito o tempo todo. Você não deveria permitir que ela te tratasse assim. Você já passou por tantas situações assim que está exausta.
— ……
— Não importa se você é uma Valeztena ou uma Escalante, não deveria ser tratada assim……
De repente, ele passou a mão livre pelo rosto várias vezes, um hábito que demonstrava a sua extrema frustração. Sob os dedos que pressionavam a sua testa, formou-se um vinco profundo. Inês chamou-o em voz baixa:
— Cássel.
— …… Sinto muito. Me desculpe.
— Pelo quê?
— Não era minha intenção pressioná-la tanto.
— …… Pressionar-me? De onde tirou isso de repente……
— …… Eu agi como uma besta. É natural que você esteja exausta de mim depois do que aconteceu a noite passada.
— — Então é por isso que, de repente…… Ah……
Demorou um instante para que ela compreendesse o verdadeiro significado por trás das palavras dele. Inês limitou-se a acenar com a cabeça, sem emitir resposta. Cássel parecia estar remoendo o mesmo remorso repetidamente. Mas a última lembrança dela — de quando saíra da banheira e vestira as roupas novas — era uma névoa confusa; ela estivera tão exausta que mal conseguira processar o tom de voz dele, quanto mais o conteúdo de suas palavras.
«“Já que você não precisa de prazer, quer que eu simplesmente a estupre?”»
«“Estupro...?”»
«“— Porque é a única coisa de que você continua falando. Você age como se eu estivesse prestes a violá-la. Nem sequer pensa em como se sente, não se importa se pode ou não me aceitar; quer apenas que eu fique sozinho na minha própria mente, use o seu corpo como me agrada, termine o serviço e vá embora.”»
«“E eu estou de pleno acordo com tudo isso. Portanto, não há como ser um estupro.”»
«“Você é realmente uma mulher deturpada.”»
Inês tomou um momento para avaliar a natureza da culpa que transparecia de forma tão evidente nas feições belas de Cássel. Os fragmentos daquela conversa afiada da noite anterior retornaram à sua mente. A forma como a expressão dele mudara drasticamente ao pronunciar a palavra "estupro". Aquele semblante tão estranho……
— Não tenho direito de criticar sua mãe depois de ter sido tão bruto com você ontem à noite.
— Na verdade……
Inês escolheu as palavras com cautela.
"Ele achava que havia me violado?"
Aquilo era um absurdo completo, e certamente não era o tipo de assunto que deveria surgir no momento idílico em que um casal deixava a residência da noiva após a primeira noite.
Embora tivesse sentido uma força impositiva e implacável vinda dele — como água fria sendo despejada sobre uma bigorna em brasa —, Inês também se lembrava de que ele mantivera uma linha de cuidado, uma consideração que talvez devesse à sua nova posição como esposa.
Portanto, ela não acreditava que ele a possuíra por mera luxúria. Talvez aquela conversa amarga tivesse despertado nele um orgulho ferido…… De qualquer forma, Cássel Escalante pertencia à Marinha Imperial, o que fazia dele a própria personificação do dever e do valor militar, muito distante do temperamento de um playboy descompromissado. Ele era, como as aparências demonstravam, um homem dotado de um senso de fidelidade inesperado.
Diante de olhos que já haviam se tornado indiferentes após encontros secretos com as mulheres mais belas do império, ela não sabia que tipo de desejo o corpo dela — longe de ser perfeito — havia despertado nele. Para Inês, ele estava apenas cumprindo o dever do primeiro rito matrimonial com um entusiasmo excessivo.
— …… Você nunca me tratou mal. O que aconteceu ontem à noite foi apenas o cumprimento do dever de um casal.
Diante da resposta leve e despretensiosa de Inês, a expressão de Cássel, antes obscurecida pela culpa, tornou-se sutilmente irônica.
— Então você chama aquilo de "dever de um casal".
— Nada me foi forçado……
— — Por acaso você se lembra do que fez comigo na banheira há apenas duas horas?
Ela estava semicerrada pelo sono, de modo que a memória já parecia turva, mas era evidente que o que acontecera ali fora muito além de um simples banho de higiene.
Cássel inclinou-se sobre o ombro de Inês, sussurrando de forma provocativa:
— O que foi que você fez por mim ali dentro?
— …… Não me recordo de ter feito nada extraordinário.
Mesmo tendo ocorrido há poucas horas, aquela era uma lembrança luxuriosa que ela dificilmente desejaria reviver em uma manhã clara como aquela; não era um assunto adequado para debate. Quando Inês respondeu com indiferença, Cássel repuxou os lábios em um meio sorriso, misto de irritação e diversão.
— Não acha que foi nada de mais?
— Certamente. Creio inclusive que devo ter deixado a desejar por conta da minha falta de experiência.
Quando ela sugeriu que evitassem buscar prazer em sua vida sexual, Cássel claramente ficou perturbado. Depois de ver sua reação, Inês mudou sua abordagem para encontrar um meio-termo. Agora, seu objetivo era alcançar o equilíbrio perfeito entre copular o suficiente para gerar descendência, mas não tanto a ponto de fazê-lo desfrutar do sexo com ela.
Nunca lhe daria satisfação completa, mas cooperaria o suficiente para manter o ato. E pelo que podia se lembrar, havia alcançado o equilíbrio perfeito na noite passada.
— Você não foi nem um pouco desajeitada. Longe disso. — Cássel soltou uma risada abafada. A falsa indiferença dela desmoronava diante dele. — Foi mais do que suficiente para me preencher. Você é muito boa nisso, Inês.
— ……
— Você subiu no meu colo dentro da água. Naturalmente, não foi grande coisa abrir as pernas sobre mim, nem mover os quadris daquele jeito. Mas a forma como você puxou o meu corpo para dentro do seu……
— ……
E os fragmentos da memória de Inês começaram a se encaixar com nitidez.
— Não foi grande coisa me apertar deliberadamente até o fim e depois me afastar como se estivesse entediada, não é?
— Esta não é uma conversa digna de ser mantida fora dos aposentos privados, Cássel.
— Estávamos apenas cumprindo o dever de um casal, não foi? Agora estamos apenas conversando como um casal.
— Não importa como você olhe para a situação——
— Desde o início da noite até o amanhecer, mesmo que você termine banhada na minha semente, isso é apenas o seu dever como minha esposa. Acredita mesmo, nisso?
— …… O que quer dizer com isso?
— Os deveres comuns de um casal terminam em dez minutos. A nossa madrugada durou mais de dez horas.
— ……
— Nós já fizemos muito mais do que o nosso dever, Inês Escalante.
Inês, que subia os degraus em direção à carruagem, tropeçou levemente devido ao cansaço. Cássel envolveu a cintura dela com o braço, trazendo o corpo da esposa contra o seu, amparando-a a cada passo com uma firmeza da qual parecia não querer abrir mão.
Para qualquer observador desavisado, pareceria que ela sofrera uma grave lesão física. Consciente dos olhares atentos dos criados no pátio, Inês não pôde empurrá-lo e limitou-se a sussurrar com um sorriso forçado nos lábios:
— …… Eu odeio esse tipo de exibicionismo. Coloque-me no chão, Escalante.
— Não.
— Solte-me.
— Hum.
— Cássel. — A voz de Inês estava cheia de irritação.
— Vejo que você finalmente aprendeu que chamar-me pelo nome surte algum efeito.
— Não me pareceu muito eficaz até agora.
— Pronto.
Ele falou como se estivesse apenas obedecendo às ordens dela, depositando-a no chão somente após terminarem de descer a escadaria externa.
Os rostos corados das criadas que vigiavam os aposentos nupciais agora pertenciam aos jovens empregados do pátio. O relatório de que "o vigor do casal fora excessivo" havia se espalhado…… Sentindo um leve desconforto no estômago, Inês não pôde deixar de experimentar uma pontada de humilhação.
Aquele relatório fora o motivo pelo qual a sua mãe se inflamara de uma alegria doentia na mesa. Quando a duquesa se via tomada pela emoção, frequentemente a expressava descontando nos outros. Afinal, ela era alérgica à própria felicidade. Afastava as pessoas ao redor e acreditava que todos a isolavam; estava presa em um padrão de comportamento prejudicial, sem saída. Talvez, se Luciano se casasse em breve, era certo que ela também tentaria destruir o espírito dele.
Com um suspiro contido, Inês apressou os passos. Cássel a seguia de perto, com a mão sobre suas costas para evitar que perdesse o equilíbrio novamente.
'Fizemos muito mais do que apenas nossos deveres, Inês Escalante.'
Uma voz profunda e ecoante, como se viesse do fundo de uma caverna, vagava pela consciência de Inês, tão sufocante quanto as amarras invisíveis que prendiam o seu corpo.
Por conta desse torpor, ela sequer conseguiu questionar o cocheiro sobre o motivo daquela partida repentina rumo a Calstera, a base militar de Cássel. Em primeiro lugar, porque ela mal tivera tempo de processar a informação; e em segundo, porque assim que se acomodou no banco da carruagem, o seu corpo cedeu ao cansaço e ela adormeceu profundamente sobre o colo do marido.
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