Capítulo 28 — Calztera
Assim que desceu da carruagem, a visão de Inês tornou-se branca por um instante devido a uma forte tontura. Aos poucos, as imagens ao seu redor recuperaram o contorno até que ela retomasse a clareza. Aquilo se deveu, em grande parte, ao fato de que ela, impaciente por natureza, despertara sobressaltada de seu sono e saltara diretamente para o chão a partir do estribo alto do veículo.
No entanto, a causa mais fundamental era que, logo antes do casamento, a Duquesa a forçara a jejuar por dez dias inteiros sob o pretexto de um controle corporal que mais parecia uma tortura……
Era como se ela ainda pudesse ouvir os insultos da mãe ecoando na nuca. Inês tropeçou, mas uma mão ágil segurou firmemente o seu corpo, que já tentava recuperar o equilíbrio por conta própria.
— Está tonta? Tudo bem? O que foi isso, o que está acontecendo? Ficou zonza do nada? É anemia? Você tem anemia?
— …… Você está fazendo muito barulho, Cássel……
Sua cabeça latejava enquanto ele colava os lábios em seu ouvido, despejando aquela voz baixa e incessante. Era um tom ressonante demais para o momento.
Inês pressionou as têmporas e balançou a cabeça, tentando afastá-lo.
Enquanto ela dormia profundamente no veículo, Cássel, que descera primeiro, virou-se e deparou-se com Inês seguindo-o sem emitir um único ruído; foi um vislumbre em que ela lhe pareceu assustadoramente precária e frágil.
Ele não conseguiu disfarçar a expressão de sobressalto ao puxá-la para trás em um abraço protetor, quase esmagando o nariz esculpido dela contra o seu peito, enquanto enterrava os lábios perto do ouvido da esposa.
— A culpa é minha?
Desta vez, os lábios dele roçaram de fato contra a pele dela. Foi uma sensação de formigamento que arrepiou o seu pescoço, exatamente como em certos momentos daquela madrugada……
Inês sobressaltou-se como um peixe que morde o anzol por acidente, mas logo virou o rosto para encará-lo com uma expressão fria e plácida, disposta a manter a sua dignidade. Afinal, mesmo naquele ambiente reservado, havia empregados por perto.
— Não.
— A culpa é minha.
Mas os lábios dele continuaram ali, perseguindo-a. Inês falou, visivelmente incomodada, embora mantivesse a voz contida:
— Mas que tolice, por que seria sua?
— Eu a forcei a passar a noite inteira em claro.
— …… É apenas o efeito de ter me levantado com pressa logo após acordar.
— O quê?
— Eu me movi rápido demais……
— E por que isso causaria tontura?
Cássel perguntou com genuína incompreensão, como se nunca tivesse ouvido falar de hipotensão ortostática. Todo o seu corpo era como uma imensa rocha de músculos e vigor, de modo que ele parecia incapaz de conceber as fragilidades triviais das pessoas comuns.
Inês suspirou, exausta.
— Isso acontece às vezes. Se você passa muito tempo sentada e se levanta de repente……
— Você não deveria consultar um médico sobre isso?
— Isso é comum entre as damas. — Inês não acrescentou que suspeitava que a verdadeira causa era a dieta forçada que seguira por dez dias antes.
Cássel assentiu.
Ele ainda acreditava que o esforço do sexo teria causado o que assumiu ser um quase desmaio. Puxou o corpo dela mais perto, fazendo com que seu peso repousasse em seu ombro.
Inês sentiu-se como uma prisioneira de guerra carregada pelos captores.
— Estou bem, então, por favor, me solte.
— Certo, mas você consegue andar sozinha?
Inês estava tentada a revirar os olhos, mas conteve-se.
— Fiquei tonta por dois um segundos, só isso.
— Você passou a noite inteira tendo relações comigo até o amanhecer — e —
— — Cássel Escalante! — Inês lançou um rápido olhar aos servos por perto. — Se alguém escutar essas barbaridades……!
— Ninguém está ouvindo, não há ninguém aqui. — Cássel dispensou rapidamente. — Lembre-se, você não dormiu sequer uma hora por causa disso——
— — Quem não conseguiu dormir foi você!
Mesmo assim, ele parecia tão revigorado e impecável como se tivesse descansado por uma semana inteira…… Inês o encarou fixamente, como se estivesse diante de uma criatura incompreensível.
— Eu dormi durante todo o trajeto na carruagem, ao contrário de você.
— Aquilo não conta como um sono adequado.
Inês checou as horas ao puxar de relance a corrente do relógio que sobressaía ligeiramente do bolso do uniforme de Cássel. Já haviam se passado sete horas desde que deixaram a residência do Duque de Valeztena em Mendoza. Como ela apagara assim que subira no veículo, significava que dormira por todo esse período.
Originalmente, cinco horas teriam sido suficientes para o percurso, o que tornava evidente que Cássel ordenara ao cocheiro que conduzisse a carruagem de forma deliberadamente lenta.
Ele provavelmente se preocupara com o desgaste físico dela.
Era, na verdade, uma sucessão de atitudes contraditórias e inesperadas da parte dele.
— …… Já se passaram sete horas, Cássel.
— Uma carruagem em movimento não é uma cama.
Inês soltou uma risada curta, genuinamente surpresa com a teimosia dele.
— Sim, a culpa é toda sua. Agora, tire as mãos de mim.
Ela falou em um tom de comando, como quem dita a punição a um pecador. Ao ouvir aquilo, Cássel imediatamente recolheu as mãos com uma docilidade que revelava muito sobre o seu verdadeiro temperamento diante dela.
Inês avançou com um semblante mais leve.
Cássel seguiu-a de perto, exibindo uma expressão vigilante. Se ela tropeçasse um milímetro sequer por dar um passo em falso, ele estaria pronto para ampará-la e levá-la diretamente para o leito.
— Eu não sabia que viria com você para o local da sua patente.
— E o que você achava?
— Imaginei que, quando retornasse ao seu posto, eu seria levada para a residência dos Escalante em Esposa.
— Mas eu não moro lá.
— Pensei que não haveria necessidade de estarmos juntos o tempo todo……
Sendo honesta, a maioria dos oficiais navais não vivia com suas esposas. Os militares costumavam manter a residência oficial da família em sua cidade natal ou na capital, Ortega, onde as esposas permaneciam administrando o lar, e o casal se reunia apenas por curtos períodos durante as férias.
Se a relação fosse um pouco mais próxima, a esposa costumava viajar a passeio para visitar o posto do marido de tempos em tempos. Inês assumira que o arranjo deles seria exatamente esse.
— Calstera abriga muitas esposas de oficiais. É uma cidade tão bela quanto um balneário de luxo — Cássel comentou, dando de ombros ligeiramente. O sentido por trás de suas palavras era claro: a cidade era atraente o suficiente para que um casal convivesse em harmonia, mesmo sem a existência de amor.
Inês não pôde contra-argumentar. A residência oficial de Cássel ficava situada no topo de uma colina onde a brisa do mar soprava continuamente. Era um lugar onde o som fresco das ondas era trazido pelo vento, limpando o ar, em total contraste com o clima abafado e úmido que assolava Mendoza durante o verão. Abaixo da colina, as belas vilas navais construídas com paredes brancas e telhados vermelhos alinhavam-se ao longo da descida, compondo uma vista encantadora do imenso porto militar.
Calztera tinha a tranquilidade de um destino de férias, mas não possuía o ar antiquado que algumas cidades distantes da metrópole poderiam ter. Com o porto militar como ponto de referência principal, a cidade parecia carregar tanto a vibração à beira-mar quanto a ordem disciplinada da marinha.
Ela ouviu o som suave das ondas batendo na costa......
As ondas sempre lhe traziam memórias que tentava ignorar. Fragmentos do seu passado passaram diante de seus olhos, e ela se lembrou do som do mar, da respiração ofegante e da mão "dele" que escapava......
Ela odiava pensar naquela memória em particular. Pois "ele" havia compartilhado momentos muito melhores do que aquele desfecho trágico. Inês cerrou levemente as pálpebras trêmulas para se acalmar e voltou a abri-las.
Durante a viagem de carruagem até a costa, havia esquecido de se preocupar com isso, pois o sono a dominara. No entanto, o som das ondas despertava essas antigas lembranças.
Antes que o som do mar pudesse tragá-la por completo da realidade……
— Inês? — a voz de Cássel cortou seus pensamentos.
Ela sorriu, mas os cantos dos olhos estavam tensos.
— Não é nada. Vamos entrar.
O porto daquele "fatídico dia" na sua vida passada não fora, na verdade, o porto principal de Calstera, mas sim uma pequena enseada de pescadores localizada nos arredores da costa.
Ela desviou os olhos para a mão de Cássel, que mais uma vez a amparava delicadamente sob o braço, e fixou o olhar nas feições do marido.
"Você…… Naquele dia, por que estava lá? Por que você ajudou Emiliano a fugir?"
Mesmo fazendo essas perguntas em sua mente, ela sabia que jamais poderia perguntar a Cássel.
✽ ✽ ✽
A residência oficial do Capitão Escalante era, na verdade, praticamente uma desconhecida para ele próprio.
Em Calstera, o prestígio e o poder de um oficial costumavam estar diretamente atrelados ao modesto Monte Logorño, situado a oeste do porto militar, ao longo de cuja crista as habitações dos oficiais haviam se estabelecido. Poder contemplar toda a frota ancorada de uma só vez, avistar os grandes e pequenos quartéis dispostos pela costa e, de relance, vislumbrar o imponente Comando Central Naval — esplêndido como um palácio —, era o maior privilégio que a residência de um oficial naquela base poderia oferecer.
Naturalmente, por se tratar de uma colina onde as antigas mansões já se amontoavam densamente, não havia terrenos disponíveis para a construção de palacetes satisfatoriamente aristocráticos. Por essa razão, generais da alta nobreza e oficiais de alta patente que não se contentavam com habitações de escala reduzida tendiam a comprar terras no interior, longe do quartel-general, para erguer as suas próprias propriedades. Excluindo esse círculo à parte, o valor supremo em Calstera residia, incontestavelmente, na vista para o mar.
Cássel Escalante, no entanto, era neto do Almirante Calderón Escalante, o Senhor de Esposa, cujo nome ficaria gravado na história naval de Ortega por um milênio, e o primogênito destinado a herdar o título ducal.
Ignorando olimpicamente a disputada zona residencial de Logorño — onde os demais oficiais se digladiavam por espaço —, Cássel vivera com certa arrogância primeiro nos alojamentos militares à direita do Comando Naval e, mais tarde, na antiga mansão de um coronel reformado, localizada no interior.
Isso desde que fora comissionado como segundo-tenente, há menos de um ano.
A vista marítima que tanto tirava o sono dos mais velhos não possuía o menor valor para ele; Cássel simplesmente não olhava para o mar. Do interior de sua antiga mansão, a perspectiva era tão plana e comum que seria difícil discernir se estavam em uma cidade litorânea ou em um feudo no interior do país, a cinco ou seis horas de viagem da costa. Era uma propriedade grandiosa demais para um jovem solteiro.
Após os primeiros dez meses da Conquista de Tala, Cássel já estava farto da vida no mar. Não podia deixar o navio por dias quando estava em combate. Nem mesmo podia pisar em terra quando os navios estavam atracados no porto. Essas experiências o levaram a detestar a ideia de ter que ver as águas temidas mesmo quando voltava para casa. Ele preferia o conforto dos jardins tranquilos ou das cidades pacíficas, principalmente porque tudo estava sobre chão firme.
Por que, então, ele decidira se mudar repentinamente para uma residência oficial simples e compacta, localizada no topo de uma colina com vista direta para o porto naval de Calstera?
Tudo começou porque, enquanto fumava um charuto no convés do navio, Cássel recordou-se subitamente de uma conversa que ouvira por acaso entre seus subordinados:
— Major, a sua esposa ainda continua na residência oficial?
— Como se livrar de uma mulher que se recusa categoricamente a ir embora?
— Mas vocês dois brigavam todos os dias em Mendoza. Duas semanas atrás, você disse que preferiria se jogar de um navio a viver sob o mesmo teto que sua esposa.
— Você tem um dom para se lembrar das coisas mais inúteis.
— Bem, senhor, espero que não se jogue do navio tão cedo. Como vão as coisas?
— Na verdade, estão excelentes. Veja bem, Julieta se tornou uma pessoa totalmente diferente.
— Uma pessoa diferente? Como assim?
— Sinto como se estivesse conhecendo-a pela primeira vez.
— Talvez seja porque vocês nunca se veem. Afinal, se casaram há mais de dez anos e—
— Seu imbecil que não entende uma metáfora! Por acaso você só desenvolveu músculos na cabeça durante os treinos na academia militar? Esta é a primeira visita da minha Julieta a Calstera. É a primeira vez que ela se hospeda comigo. Orense, você já esteve na minha residência?
— Ah, sim. Eu me lembro, Major. A vista dali é de tirar o fôlego.
— Rapaz, se o Visconde de Orense tem apenas você como filho, e se no melhor dos cenários você entregou a sua cabeça à Marinha Imperial, trate de usar um linguajar mais digno e respeitoso. O que quer dizer com "de tirar o fôlego"? Diga que é excelente, magnífica, avassaladora, uma verdadeira obra de arte……
O Tenente Orense sabia o que devia fazer. Rapidamente mudou o tom e elogiou seu comandante:
— Atrevo-me a afirmar que a residência oficial do Major ocupa a melhor localização de Logorño. É uma perspectiva quase sagrada do topo da colina, com uma vista panorâmica completa do Porto Militar de Calstera, do edifício do Comando, dos quartéis, da zona franca e até das Ilhas de La Plana no horizonte.
— Excelente. Gosto de ver como você corrige a postura imediatamente. Enfim, como eu dizia, a bela vista claramente agradou ao senso estético de Julieta.
— Senso estético? Lembro-me de você ter chamado sua esposa de insensível, que não reconheceria arte nem que ela a atingisse no rosto, e de que ela desperdiçava dinheiro por onde passava.
— Tenente Orense, por acaso o senhor está insultando a esposa de seu superior agora? Está sugerindo que ela é uma mulher excessivamente extravagante?
— Eu ousaria? Jamais, Major! Estas foram as palavras que o próprio Major proferiu anteriormente……
— Está tentando transferir a culpa para o seu superior após proferir bobagens?
— Seria isso possível? Jamais faria tal coisa, senhor.
A conversa dos subordinados havia divagado bastante, mas a conclusão era o que importava para Cássel: o Major Elba e sua esposa, que se detestavam a ponto de viverem separados por dez anos, haviam transformado radicalmente a sua relação após coexistirem no espaço reduzido daquela casa em Calstera.
As razões para isso eram simples. Primeiro, aquela era uma residência compacta, diferente de tudo o que a esposa conhecia em sua cidade natal ou em Mendoza, oferecendo uma vista deslumbrante do oceano ao alcance de um olhar; segundo, a escala reduzida da habitação militar forçava uma proximidade física que simplesmente não existia em uma mansão aristocrática típica. Havia ali uma elegância frugal, despida de grandiosidade nobre.
Naquele espaço limitado, os dois passaram a se enxergar sob uma nova luz. Com o número reduzido de criados à disposição, desfrutaram de um tempo a sós e em tranquilidade, e o antigo rancor acabou cedendo lugar à tolerância.
Quando Cássel se lembrou desse diálogo, há cerca de dez dias, o Major Elba havia acabado de iniciar as suas férias de verão e encontrava-se hospedado em Mendoza. No instante em que confirmou esse fato, Cássel sentiu que tudo operava sob o desígnio do destino. Ele concluiu que valia a pena suportar até mesmo o estigma de desalojar um superior de sua própria residência oficial.
Como o Major Elba buscava estreitar laços com o Conde Carpio — que atuava em estreita colaboração com o Duque de Valeztena no Conselho dos Grandes —, a tarefa não se provou excessivamente complexa para Cássel. No entanto, para evitar que o Major guardasse ressentimentos que pudessem causar qualquer inconveniente futuro a Inês, Cássel precisava de uma estratégia que fizesse o casal esvaziar a casa no menor tempo possível, sem deixar mágoas.
No fim das contas, Cássel recorreu ao subsolo da mansão dos Escalante e confiscou diversos documentos oficiais assinados por seu avô, o Almirante Calderón. Não havia um único oficial naval que não reverenciasse o nome de Calderón Escalante. Junto aos papéis, ele ofereceu um rifle de caça com o nome do almirante gravado e um bastão de comando de gala, relíquias preciosas que herdara do velho herói de guerra.
O resultado foi imediato. O Major Elba, que era oito anos mais velho que Cássel, faltou pouco a rastejar de joelhos para aceitar os presentes das mãos do jovem capitão, chorando de gratidão e perguntando se tudo o que Cássel desejava em troca era apenas a cessão da residência oficial.
Tudo o que Cássel precisou oferecer para convencer a esposa do Major comandante, Julieta Elba, foi uma carta manuscrita do próprio punho, de sete linhas, desejando felicitações. Dos dez dias que restavam para o casamento, o casal Elba levou apenas cinco para empacotar todos os seus pertences e desaparecer da colina.
Em seguida, a governanta idosa que administrava os bens de Cássel mobilizou vinte operários para, em um tempo recorde de dois dias, mobiliar o local com tudo o que fosse essencial para a nova vida. Os três dias restantes foram dedicados a decorar a casa de modo que parecesse que Cássel sempre residira ali.
Ao todo, foram dez dias de uma verdadeira operação de guerra.
Infelizmente, Cássel só percebeu que dera à criada uma tarefa impossível quando entrou na nova casa. Ela tinha que acomodar todos os pertences de sua antiga residência em um espaço que era apenas metade do tamanho.
Inês perguntou:
— Por que você comprou tantos móveis para um lugar tão pequeno…?
Um antigo baú ocupava o meio do hall, parecendo perdido e fora do lugar. Claramente, não havia espaço para colocá-lo em outro lugar. Tinha que encolher os ombros para passar por ele. Inês suspirava sempre que via outro móvel colocado de forma estranha.
Cássel, que assumira a postura de guiar Inês pela residência oficial, inspecionava a casa junto com ela, mas encontrava-se secretamente desconcertado com a exiguidade do espaço.
Olhando ao redor, Inês acrescentou:
— Creio que seria mais sensato devolver parte desses móveis ao ducado de Esposa, Cássel.
— ……
— É possível viver aqui?
— Por que não seria?
Apesar de responder com firmeza, Cássel pensou consigo mesmo: "Talvez seja impossível viver aqui". A casa era tão compacta que ele sentia que seria arremessado para fora se fizesse um movimento mais brusco.
— Não possuo grande apego por bens materiais, mas não parece haver espaço sequer para acomodar a minha própria bagagem. Afinal, é natural que os familiares dos oficiais não costumem residir juntos durante as missões…… — Inês murmurou com um tom de desconforto, como se de repente se sentisse uma convidada indesejada.
Aquela habitação de teto baixo representaria a casa dos sonhos para qualquer cidadão da classe média abastada de Ortega; porém, para os filhos da alta aristocracia, nascidos e criados como senhores de feudos imensos e habituados a transitar de um castelo a outro, aquela residência assemelhava-se às acomodações anexas de uma estalagem de estrada.
Era um edifício pequeno.
O jardim da nova casa era modesto e simples, para dizer o mínimo. A criada, Arondra, aproveitou a oportunidade para encontrar alguma característica positiva no lugar. Ela tentou convencer seu Senhor e Senhora de que a vista do pôr do sol a partir do pequeno terraço era de tirar o fôlego, mas o céu nublado arruinava qualquer esperança de impressionar naquele momento.
Arondra, no entanto, não desistiu.
— Senhora, há espaço mais do que suficiente para você ficar. Prometo que minhas pobres habilidades de decoração são as culpadas por isso. Com seu toque, este lugar ficará muito melhor. Se houver algo que a incomode, sinta-se à vontade para descartar. Exceto o nosso capitão, é claro.
Arondra sorriu de maneira afável ao dizer isso.
Inês retribuiu com um sorriso ligeiramente sem jeito e murmurou:
— Acabei de me casar com ele há alguns dias, e não acho que tenho o direito de jogar fora os pertences dele……
— Os bens do marido pertencem à esposa, Dona Inês. Pode jogar fora tudo o que não desejar ver. Ah, este cômodo aqui é a sala de jogos, onde fica a mesa de bilhar que o capitão tanto apreciava. Há também uma mesa de cartas e uma mesa de xadrez junto à janela.
A mesa de bilhar, que por regra deveria ocupar o centro do salão, encontrava-se com um dos lados encostado contra a parede; a mesa de xadrez sofria do mesmo mal, com duas de suas laterais pressionadas contra a estrutura, tornando quase impossível que dois jogadores se sentassem frente a frente. Apenas a mesa de cartas mantivera certa funcionalidade, embora contasse com somente duas cadeiras espremidas lado a lado.
A menos que alguém pretendesse jogar contra a própria parede ou contra um fantasma……
— Devido ao temperamento reservado e focado do capitão, ele raramente traz os seus colegas da Marinha para a residência oficial. Portanto, este espaço é utilizado apenas quando ele deseja clarear e organizar os pensamentos a sós, em vez de compartilhar o tempo com outras pessoas……
— Entendo. Então quer dizer que o Capitão Escalante costuma jogar sozinho contra a parede aqui dentro — observou Inês com uma seriedade cortante.
Arondra tentara justificar a utilidade de um cômodo que claramente perdera o seu propósito original devido ao excesso de móveis, mas o comentário preciso de Inês transformou a imagem de Cássel na de um sujeito socialmente desajustado, isolado em um quarto bizarro encarando as paredes.
Desistindo de formular qualquer desculpa, Cássel pressionou as têmporas com força e conduziu-a para o cômodo seguinte.
No momento em que abriu a porta, ele empacou por um instante diante da cena que se revelou aos seus olhos. Ainda assim, Cássel conseguiu forçar a voz para anunciar:
— … Este é o nosso quarto.
— ……
Era inevitável que o espaço também sofresse com o mesmo problema.
A imensa cama de Cássel, trazida diretamente de sua luxuosa mansão anterior, exibia a sua majestade colossal preenchendo quase a totalidade dos aposentos do casal.
Aquele quarto conseguia ser ainda menor do que os aposentos nupciais onde haviam passado a noite anterior em Mendoza. Não havia espaço para acomodar qualquer outro móvel de grande porte; as únicas peças que a governanta conseguira espremer ali foram uma penteadeira para Inês, uma pequena escrivaninha rente à janela, um divã estreito e militar para o descanso diurno e uma mesa de cabeceira — provavelmente a menor da antiga mansão, mas ainda assim excessiva para o espaço restante —, acompanhada por duas cadeiras compactas.
O único elemento que verdadeiramente compensava as dimensões do quarto era a longa janela disposta sobre o divã, que dava acesso a uma sacada estendida. Dali, era possível contemplar uma vista panorâmica do mar azul e do tranquilo jardim que se estendia abaixo da colina escarpada.
Era uma cena um tanto ridícula, pois as dimensões do quarto e a escala dos móveis colidiam de forma grotesca, mas a perspectiva geral que se descortinava da sacada era inegavelmente bela. Tanto que Inês, ao cruzar umbral da janela, permaneceu ali fora por um longo tempo, contemplando o horizonte.
Atrás dela, aproveitando que a esposa estava de costas e o espaço ali era tão exíguo que mal comportava os três, Cássel lançou um olhar severo e inquisidor em direção à sua leal governanta, apontando o queixo de forma rígida. A velha ama, cuja lealdade à família era inquestionável, mas que guardava pouquíssimo respeito formal pela figura de Cássel, franziu o cenho em súplica e gesticulou de volta, como quem dizia: «E o que eu poderia fazer?».
Aquele excesso de bagagem entulhado pelos cantos era o reflexo do ressentimento da governanta por Cássel ter escolhido, do dia para a noite, uma casa minúscula, ordenando uma mudança repentina sem lhe dar tempo para planejar onde acomodar os pertences de uma mansão inteira. Era uma discussão silenciosa, travada apenas por esguelhas e caretas.
No entanto, no instante em que Inês se virou para retornar ao quarto, Cássel e Arondra relaxaram a expressão imediatamente, recompondo a postura.
— Sendo assim, onde fica o meu quarto? — perguntou Inês.
Ela não questionou em tom de exigência ou declaração de que dormiriam separados, mas indagou com genuína perplexidade, como se custasse a acreditar que aquele cubículo pudesse ser compartilhado por duas pessoas da alta aristocracia.
Cássel finalmente começava a compreender as reais limitações da antiga residência oficial do Major Elba. Originalmente, a opção de manter dormitórios separados sequer havia passado por sua mente, mas só agora ele se dava conta de que, naquela casa, simplesmente não havia espaço físico para acomodar dois quartos principais.
— Se continuarmos por aqui…… — Vendo que ninguém se apressava em responder à pergunta anterior, Inês caminhou a passos rápidos em direção à outra porta do aposento. — Esta porta leva a um cômodo conectado?
Ao abri-la, deparou-se com um closet que já estava com mais da metade de sua capacidade tomada pelas fardas e roupas de Cássel.
— …… Este é o nosso closet — acrescentou ele, a contragosto, oferecendo uma explicação que lhe pareceu lamentavelmente desnecessária.
Inês inclinou a cabeça, pensativa:
— Cássel, creio que este espaço já é inteiramente seu. Será difícil conseguir espremer as minhas coisas aqui dentro……
— De forma alguma, Senhora Dona Inês! — Arondra interveio prontamente. — O closet anexo aos aposentos nupciais pertence legitimamente à senhora. Que tipo de cavalheiro ousaria entulhar suas próprias roupas junto às da esposa, sem o menor refinamento? Retirarei tudo daqui imediatamente.
— Não há necessidade, Arondra. Eu não trouxe tantas vestes comigo. Podemos compartilhar o espaço.
— …… E por que a senhora haveria de descartar o que é seu?
Cássel encarou Arondra com indisfarçável perplexidade diante da audácia da velha. A governanta, contudo, ignorou olimpicamente o patrão; com as mãos já estendidas nos cabides, parecia perfeitamente disposta a arrancar as fardas de Cássel dali e jogá-las no lixo se fosse preciso para agradar a nova patroa, sendo contida apenas por um novo gesto de Inês.
Para acrescentar uma dose de comédia à situação, Arondra — que possuía metade da altura de Cássel, compensando na largura — movia-se desajeitadamente entre os móveis que ela mesma havia mandado dispor, resfolegando e fazendo caretas como se estivesse perdida no próprio labirinto. Inês, por sua vez, esquivava-se com elegância e atravessava os obstáculos sem esforço. Cássel era o único que colidia continuamente contra tudo.
Em um movimento em falso, ele chutou o braço de uma cadeira pesada. Sua expressão distorceu-se não pela dor física, mas pela irritação latente que se acumulava a cada tropeço. Antes que ele pudesse sequer resmungar, Arondra acenou com a mão de forma desdenhosa, como se o bem-estar do patrão não fosse uma prioridade, e chamou Inês para o lado oposto.
— Minha senhora, esta passagem conduz diretamente à biblioteca do Capitão.
— Ah, esta? — Inês olhou ao redor e voltou-se para o marido. — Cássel, importar-se-ia se eu compartilhasse as estantes com você?
— Claro, Inês, você pode—
— — Não há com o que se preocupar, senhora! — Arondra cortou Cássel antes que ele terminasse. — Seja em Mendoza ou no ducado de Esposa, esta velha criada jamais viu o Capitão abrir um único livro. Na verdade, creio que esta biblioteca será de uso exclusivo da senhora.
Cássel não se importou com as interrupções de Arondra.
Ela agia como uma sogra preocupada que temia que a nora fugisse à noite ao ver a realidade daquele lugar, mas ele tentou ver o lado positivo. A governanta queria que Inês ficasse e se esforçava ao máximo.
— Ainda assim, presumo que ele leia de vez em quando…… — ponderou Inês.
— Que nada! Para ser perfeitamente honesta, nunca o vi folhear uma página sequer.
— Ora, Arondra, eu possuo alguns livros…… — Cássel, envergonhado, tentou defender-se em voz baixa. — Eu leio de vez em quando alguns textos… — murmurou.
— Não dê ouvidos a ele, senhora. É apenas um modo de falar. Passo os meus dias espanando teias de aranha daquelas prateleiras, porque o capitão simplesmente não as utiliza.
Para Arondra, o crucial era bloquear qualquer rota de fuga de Inês, mesmo que para isso tivesse que destruir a reputação do patrão. O discurso da governanta equivalia a dizer: "O seu marido pode ser um tanto peculiar, mas a casa em que vai morar não é tão ruim, então por favor, acomode-se".
Até aquele momento, na narrativa de Arondra, Cássel Escalante emergia como um autêntico desajustado social naquela residência: um homem sem amigos, que passava o tempo jogando bilhar e cartas contra a própria parede, disputando xadrez sozinho e que jamais abrira um livro na vida.
Cássel fixou os olhos em Arondra com um olhar que prometia consequências. A velha, contudo, sustentou o olhar e assentiu com uma confiança inabalável, como se dissesse que assumia a responsabilidade por suas mentiras.
Os presságios não eram bons para o capitão.
— Afinal, as estantes não servem apenas para a leitura. Um capitão também poderia utilizá-las para organizar os papéis do seu trabalho ou tratar de negócios da Marinha…… — tentou argumentar Cássel.
— Qual trabalho, milorde? Qual seria o propósito do senhor usar esta estante para o serviço? As pontas dos seus dedos estão secas e descascando de tanto passar o tempo longe dos relatórios……!
— ……
Cássel soltou um longo suspiro diante daquela resposta cortante, exatamente como previra.
— Mesmo que estivesse prestes a morrer, o senhor insistiria em terminar os seus deveres dentro do edifício do Comando Central. Sempre disse que, mesmo sob decreto de morte, jamais traria trabalho para dentro de casa.
— Ah, é verdade — assentiu Inês, parecendo compreender a lógica. Não era uma mentira total por parte da governanta, mas o cenário pintado deixava Cássel sem qualquer defesa.
— E o verdadeiro orgulho desta biblioteca, minha senhora, reside nesta janela…… — Arondra gesticulou com entusiasmo, apontando para o vidro. — Daqui se pode contemplar metade do oceano e, do outro lado, veja ali! Consegue avistar todas as residências navais espalhadas pela colina de Logorño? Observe aqueles graciosos telhados vermelhos. É um encanto que só se pode desfrutar de dentro desta biblioteca.
Por algum motivo, a velha ama de Cássel, que tivera apenas cinco dias para conhecer a propriedade, demonstrava uma habilidade muito maior para "vender" as qualidades da casa do que o próprio Major Elba, que residira ali por cinco anos. O desespero da governanta era quase palpável.
— O pôr do sol é magnífico no dormitório, mas deste lado da biblioteca a senhora poderá apreciar o crepúsculo enquanto desfruta de uma boa leitura sob a luz solar. Posicionei a poltrona de modo que a luz não incida diretamente sobre os livros, então……
O subtexto de todo aquele falatório era claro: «Portanto, por favor, não regresse à capital».
Como toda fiel anciã de Ortega, Arondra — que fora trazida do Castelo de Esposa há três anos para supervisionar a residência de Calstera — era extremamente conservadora. Tratava-se de uma mulher de convicções religiosas antigas e arraigadas, que acreditava piamente que um homem nascido forte e saudável deveria se casar de acordo com a vontade divina assim que atingisse a idade ideal, gerando uma descendência abundante.
Para ela, a conduta pregressa de seu perfeito senhor — cuja beleza física parecia ter sido esculpida por Deus sob cálculos milimétricos, desde a proporção dos músculos até a envergadura dos membros — era o principal motivo de seus profundos suspiros de frustração.
Sempre que se encontrava a sós com Cássel e o notava indiferente aos assuntos matrimoniais, Arondra não hesitava em disparar sermões amargos:
«Por que tens uma noiva e não te casas?»,
«Por que insiste nessas excentricidades?»,
«Quem são essas mulheres estranhas que andavam circulando?»,
«Deus lhe deu um rosto tão magnífico, e é assim que retribui o favor divino?»,
«Por que não vai confessar-se em segredo na capela hoje?»,
«Por que vive dessa maneira?».
Embora mantivesse o tom de voz cuidadoso de uma criada, o vocabulário que empregava era implacável.
Se o tempo permitisse, era evidente que a governanta gastaria muito mais saliva repreendendo o patrão do que organizando os móveis da casa.
Suas irmãs, seus pais, seu falecido marido e os irmãos deste — além de seus próprios filhos e netos — haviam dedicado suas vidas inteiras à Casa Escalante. A lealdade daquela linhagem de servos era indiscutível, e a velha senhora de cabelos grisalhos gozava de profundo respeito no ducado, independentemente de sua condição social.
Por essa razão, quando ela costumava dizer na cara de Cássel:
'Capitão…… Se profanares esse semblante sagrado com os seus pecados, ele se transformará no rosto do próprio Satanás', ele não conseguia evitar o riso. Ouvir um sermão atrás do outro para que ele assentasse cabeça com a noiva acabava por diverti-lo.
— …… É fascinante como o proprietário desta casa conseguiu planejar uma disposição tão harmoniosa sem jamais ter aberto um livro — comentou Inês, e o final de suas palavras foi acompanhado por um leve sopro de riso.
O humor dela estava claramente melhor.
Para Cássel, ver que ela achava graça da situação e que aquele vislumbre de riso parecia suavizar o ambiente foi o melhor desfecho possível, transformando-o de bom grado no alvo da piada.
— Mas apenas porque o nosso capitão prefere não ler este tipo de literatura, minha senhora, não significa que ele seja iletrado — defendeu Arondra, com uma pitada de ironia. — De todo modo, esta escrivaninha também pertence à senhora a partir de hoje. Espero que seja do seu agrado.
— Eu adorei. De verdade.
Inês olhou alternadamente para Cássel e para Arondra, e conseguiu esboçar um sorriso genuinamente alegre.
Naquelas circunstâncias, o início da vida em comum parecia, afinal, bastante promissor.
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