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Capítulo 54 — Qualquer Gatilho

 PARTE IX 


O mensageiro de Esposa voltou rapidamente após a sua viagem a Perez.

— Todos parecem estar muito cautelosos. Eles têm sido bastante rigorosos com a segurança lá, e eu não consegui infiltrar-me na rede deles.

Alfonso assentiu. 

— O histórico médico é um tópico altamente confidencial para a nobreza, especialmente para a única filha do Duque Valeztena. Sua Majestade, a imperatriz, arranjou o casamento pessoalmente, então nem um único detalhe poderia estar fora do lugar...

— Mesmo assim, achei a segurança anormalmente rigorosa. Passei todo aquele tempo no castelo, mas só consegui persuadir duas criadas após um esforço tremendo. Ofereci a elas dinheiro suficiente para pagar cinco. Mas elas não eram próximas da camareira da Lady, então não sabiam muito. Estavam hesitantes em discutir qualquer coisa, fornecendo apenas informações esporádicas... No entanto, posso confirmar que dezenas de médicos tentaram tratar a condição de Lady Inês. Isso é certo.

— Todos os médicos eram de Mendoza?

— Não, metade era do estrangeiro. Quase todos foram inúteis... A maioria dos médicos fugiu quando não conseguiram fazer nada por ela.

Alfonso tamborilou no seu caderno com uma pena em branco. Assim que o mensageiro chegou com esta notícia, ele nem conseguia se lembrar das tarefas de que estava a cuidar antes. Agora, ele entendia porque todos os médicos de Mendoza se recusavam a ir à mansão Escalante em Calztela. Eles devem ter percebido que Inês era a paciente e que estavam destinados a falhar novamente no tratamento dela.

O mensageiro esfregou o queixo e hesitou por um momento antes de falar. 

— Por favor, considere... o que estou prestes a dizer com cautela. Penso que a criada pode ter exagerado por ganância.

— O que você está a tentar dizer?

— De acordo com ela... Lady Inês não sofria de alguma doença respiratória rara, mas sim...

Alfonso franziu a testa e o incentivou sem palavras a continuar.

— Aparentemente, ela sofria de uma condição mental — ou assim a criada sugeriu insolentemente. Ela disse que ouviu gritos algumas vezes e perguntou-se se Sua Senhoria tinha enlouquecido como a mãe dela... A criada não parecia ter má vontade, mas provavelmente exagerou. Ah, ela também disse que a Duquesa Valeztena é notória por abusar dos seus empregados e até dos seus filhos. Ela sugeriu que qualquer um enlouqueceria com uma mãe assim. Ah, e a outra criada mencionou ter visto lençóis ensanguentados do quarto de Lady Inês, então ela presumiu que Sua Senhoria poderia morrer por tossir sangue por causa da sua doença respiratória.

Alfonso ouviu sem responder.

— Apenas... Por favor, esqueça a doença mental. Eu lamento ter dito tal coisa sobre a minha querida Lady.

— Eu sei que você está apenas a retransmitir o que ouviu. Vá à cozinha para a sua refeição e prepare-se para o seu regresso a Esposa.

— Sim, senhor. — O mensageiro curvou-se. Quando ele saiu, Alfonso virou-se e olhou pela janela. Naquele momento, ele cruzou os olhares com Raúl Balan, que caminhava abaixo da janela em direção ao jardim. Raúl olhou para cima e sorriu educadamente. Alfonso sorriu de volta e perguntou-se se Raúl conseguia ver dentro da sala de onde estava. A sala ficava meio andar acima do chão, e a janela estava fechada. Mas Raúl poderia ter lido os seus lábios facilmente.

Assim que Raúl desapareceu no jardim, Alfonso suspirou profundamente e fechou as cortinas. Ele não se importava que Raúl descobrisse que ele estava a investigar Inês.

Mas ele se importava com o facto de que eles — incluindo Raúl Ballan — estavam a esconder algo crucial dele. Alfonso lembrou-se do que o mensageiro lhe havia dito: “Aparentemente... Lady Inês sofria de uma condição mental. Ou assim a criada sugeriu insolentemente.”

Alfonso nunca tinha considerado essa possibilidade até agora. Ele sabia que Cássel não teria ideia deste facto até que alguém lhe contasse.


***


Em frente ao estábulo, o tratador e a Senhora da casa estavam num impasse.

— Minha Lady, receio que não seja possível.

Inês levantou uma sobrancelha. — Mario.

— Não, eu não posso fazer isso... — A voz de Mario falhou enquanto o seu olhar caía para o chão.

Inês cobriu a testa e murmurou: 

— Então, meu marido disse-lhe para não me dar uma boleia ou um cavalo nos próximos dias?

— Sim... — Mario assentiu. — Ele disse que a senhora estava doente e precisava descansar.

Ela tinha tido uma ligeira febre na noite anterior, e Cássel tinha feito um grande alarido por uma ninharia. Inês apontou para si mesma e perguntou: — Eu pareço doente?

— Um pouco... Suponho?

— Isso é devido ao seu preconceito, Mario. Você só acredita nisso porque Cássel lhe disse de antemão. Agora, o seu cérebro está a tentar reconciliar o que observa com a informação anterior.

— Talvez... Mas ainda não posso permitir, minha Lady.

Ela já não sentia febre; não se sentia nem um pouco doente. Na verdade, sentia-se mais revigorada do que nunca, após ter sido forçada a não fazer nada além de comer e dormir bem durante semanas. Não era de admirar que tivesse conseguido expulsar a febre tão rapidamente.

No entanto, estava confinada à casa. Um suspiro frustrado, mal audível, escapou-lhe.

Cássel nunca diria isso na cara dela. Em vez de lhe dizer para descansar ou ficar em casa, ele proibira Mario de lhe dar acesso a um cavalo ou a uma carruagem. Inês ficou irritada ao saber que ele tinha tomado a decisão sem a consultar e, pior, pelas suas costas.

Há algumas horas, ela dissera-lhe: 

— Eu vou ao clube do livro na casa dos Azevedo esta tarde. Provavelmente voltarei antes do jantar, mas se não, vá em frente e jante sem mim. — Ele apenas se virou para ela e colocou uma mão suave na sua testa. — Vamos ver... A sua febre quase desapareceu.

— Exatamente.

— Certo, então. Tenha uma viagem segura — Cássel respondeu com um sorriso.

Inês esperava que ele se cansasse em algum momento, mas, infelizmente, ele ficava mais superprotetor a cada dia que passava. Agora, Cássel até recorria a subornar o seu próprio cocheiro. Sabendo que Inês não reagiria favoravelmente, ele decidiu não lhe dizer nada na cara e apressou-se para o seu escritório para evitar a reação dela quando descobrisse o que ele tinha feito. É claro que ele ainda teria que a ver eventualmente ao jantar. O que ele estava a pensar? Seria ele ousado o suficiente para enfrentá-la depois do que tinha feito?

Ela teria-o esbofeteado e feito-o recuperar o juízo se ele lhe tivesse dito diretamente que a proibia de sair de casa. Ele merecia esse tapa, embora parecesse mal sentir dor quando ela lhe batia. Se os seus tapas doessem, ele teria evitado fazer algo que merecesse a sua reação violenta.

— Quanto ele lhe pagou? — Inês perguntou.

— Perdão? — Os olhos de Mario arregalaram-se.

— Quanto o meu marido lhe pagou para seguir a ordem dele?

— Eu... disse-lhe que ele me ofereceu dinheiro?

— Não, mas é óbvio que o fez.

— Sim, eu... aceitei o dinheiro. Veja bem, eu quero comprar um presente para a minha namorada...

Inês assentiu. — Aposto que agora você quer comprar-lhe algo ainda melhor.

— Não, eu já lhe comprei algo bom. Então, é o suficiente...!

Quando é que ele teve tempo para fazer isso? ela pensou consigo mesma.

— Deixe-me ser honesto... Eu não tenho escolha, minha Lady. Ele já me pagou.

Mario era demasiado honesto e fiel para voltar atrás na sua palavra. Inês engoliu um suspiro profundo e perguntou novamente: — Quanto ele lhe pagou?

— Dez tarsas... — admitiu Mario.

Ela não podia acreditar que estava confinada à sua casa por meras dez tarsas. — Eu posso oferecer mais.

— Perdão?

— Eu disse, eu posso oferecer mais.

— Mas...

— Não há problema. Eu pago-lhe cem tarsas.

— Eu não posso aceitar uma oferta tão generosa...! — Cem tarsas equivaliam a várias semanas de salário para ele. Mario entrou em pânico como se nunca tivesse ouvido falar de uma soma tão elevada.

Inês curvou os lábios num pequeno sorriso, a sua mente decidida a convencê-lo a aceitar a sua oferta. 

— Veja, Mario? Agora, você pode tratar Raúl Ballan como a sua carteira. Imagine só; aquele homem arrogante dar-lhe-á dinheiro sempre que você quiser.

— Mas... eu prometi aceitar dinheiro apenas de um lado. — A voz de Mario ainda estava hesitante.

— Quem se importa? Você não precisa de lhe contar sobre isso — disse Inês, controlando a sua frustração.

— Mas ele acabará por saber que a senhora saiu de casa...!

Mario tinha razão. Inês concedeu: — E se você lhe disser que eu não lhe paguei?

— Mas eu ainda terei desobedecido às ordens dele...?

Inês suspirou. 

— São apenas dez tarsas. Não se prenda tanto por uma migalha. Eu pagarei dez vezes essa quantia... Apenas ignore as ordens mesquinhas do seu mestre.

— Mas eu fiz uma promessa com ele primeiro, e eu já aceitei o dinheiro dele...

Para alguém que tinha aceitado um suborno, Mario era um homem desnecessariamente honesto.

No final, Inês teve que regressar à residência amargurada. Cássel deve ter previsto que ela também tentaria subornar Mario, e ainda assim não se importou. Ele sabia que Mario era demasiado honesto para cair na oferta dela. Foi por isso que ele apenas ofereceu meras dez tarsas. Mesmo que ela tentasse argumentar, ele apenas lhe diria para usar o dinheiro da mesma forma que ele, sabendo que Mario nunca o trairia.

Todos nesta casa eram tão bondosos que isso às vezes aborrecia Inês.

Arondra avistou Inês e apressou-se na sua direção. — Minha Lady, eu não notei que a senhora tinha saído. Quando foi que saiu?

— Eu nunca saí... Eu só fui ao estábulo — respondeu Inês.

— Por que ao estábulo? A senhora parece vestida para sair... — Arondra fez uma rápida inspeção da cabeça aos pés. — Por que é que a senhora continua a sair de casa sem avisar ninguém? Se continuar a fazer isso, não conseguiremos despedir-nos da senhora.

— Kara despediu-se de mim.

— Ela devia ter-me dito que a senhora tinha saído... Então, por que é que está a voltar?

— Porque eu não posso usar a carruagem nem andar a cavalo.

— Perdão?

Arondra estendeu a mão e Inês colocou as luvas na palma de Arondra. Inês então caminhou em direção à sala de visitas e atirou-se para a chaise longue.

Arondra perguntou novamente, com a cabeça inclinada: 

— O que quer dizer com não poder usar a sua carruagem? O Tenente só precisa do seu próprio cavalo, e a senhora fica com a carruagem para si. Ele levou a carruagem para o quartel-general da marinha esta manhã? Mas porquê? — Arondra parecia tão perturbada que poderia culpar Cássel por usar a sua própria carruagem.

— Não, a carruagem está em casa.

— Então, qual é o problema? Espere, foi aquele Mario tolo...? — Arondra franziu a testa, tirando conclusões precipitadas.

— Cássel subornou Mario.

— Perdão?

— Ele fez isso pelas minhas costas e depois foi descarado o suficiente para sorrir para mim antes de ir para o trabalho.

— O Tenente Escalante subornou Mario...? — perguntou Arondra.

Inês suspirou. — Ele disse a Mario para não me levar na carruagem e para não me deixar andar a cavalo.

— Mas por que ele faria isso? — O rosto de Arondra contorceu-se num choque confuso.

— Por favor, faça a mesma pergunta a Cássel mais tarde, com a mesma expressão no rosto, Arondra.

— Ele deve ter as suas razões para fazer algo tão ridículo, a menos que esteja preocupado com algum sonho sinistro.

— Eu só tive uma ligeira febre na noite passada — concedeu Inês.

— Febre?! — Arondra sobressaltou-se, deixando cair as luvas na chaise longue, e segurou o rosto de Inês nas suas mãos. Com preocupação a transbordar nos seus olhos, ela verificou a testa de Inês, depois levantou os pulsos para verificar o seu pulso.

— Eu-eu estou bem agora, Arondra. — Inês soube imediatamente que tinha cometido um erro ao contar a Arondra, mas percebeu isso tarde demais.

— A senhora não devia ter febre... Ainda nem sequer está frio...

— Deixe-me primeiro, e eu posso explicar.

Mas Arondra não parecia registar as palavras de Inês. 

— Por que isso aconteceria? Ah, o seu vestido na noite passada era muito fino, e a brisa estava um pouco fria demais.

— Cássel cobriu-me com o casaco dele, e eu mal tive tempo de sentir a brisa. Eu parecia tão ridícula — queixou-se Inês.

— Isso me lembra — devo ligar para a costureira para que a senhora faça provas de vestidos de inverno.

É claro que Ortega era um país quente, e Calztela era uma das regiões mais quentes. Mesmo que a brisa da manhã ou da noite se sentisse fresca, o clima permanecia bastante quente.

Todos na casa estavam a ficar mais parecidos com Cássel, superprotetores e atentos ao seu bem-estar. Às vezes, a vergonha e o embaraço invadiam Inês ao vê-los fazer um alarido por nada.

Com a preocupação a vincar o seu rosto, Arondra acrescentou: — A senhora devia pedir ao Tenente Escalante para caçar um ou dois coelhos. Ouvi dizer que os divaluanos usam a pele para fazer chapéus ou cachecóis.

O rosto de Inês empalideceu. — Isso é nojento...

— Mas não pode ser evitado quando fica muito frio.

— Nem sequer está assim tão frio aqui, Arondra.

— Mas por que mais a senhora apanharia febre? — Arondra sentiu a testa de Inês novamente com a palma da mão e afastou o cabelo de Inês.

Inês sentiu-se tão mimada quanto a sua ama de leite a tinha mimado. A sua ama de leite sorria para ela sempre que acordava de uma febre. A sua ama de leite era o mais próximo que ela tinha de uma mãe.

Por um momento, ela esqueceu as suas frustrações com Cássel e sorriu para Arondra. — Foi uma simples dor de cabeça. Eu estou a sentir-me melhor do que nunca agora, então não se preocupe comigo.

— Não é de admirar que o Tenente a tenha proibido de sair. Agora eu entendo... Fique quietinha hoje.

— Mas, Arondra, eu estou realmente bem...

— Sim, eu entendo que está bem. Mas pode ficar dentro de casa por um dia, pelo menos por causa dele.

Mesmo quando Inês era a princesa herdeira, ela nunca recebeu tanto amor e atenção. Cássel começou a influenciar todos na casa. Agora, todos os empregados observavam cada movimento dela e se preocupavam com o menor indício de tosse. Ela teve que se perguntar o quanto o seu desmaio deve ter preocupado os outros.

Em Perez, ela só tinha que interagir com alguns selecionados que mantinham uma relação estrita de empregador-empregado com ela. Agora, todos na casa interagiam com ela diariamente, e os empregados não tinham problemas em expressar abertamente os seus pensamentos. Eles eram mais honestos sobre as suas preocupações. Inês nunca se tinha sentido tão cercada por esmagadora bondade e afeto genuíno na sua vida.

Inês franziu as sobrancelhas. 

— Eu posso ficar em casa por um dia, mas isso não pode tornar-se um padrão recorrente.

Arondra assentiu. — Eu sei que deve ser frustrante. E a senhora já melhorou.

— Exatamente.

— Então, o Tenente vai começar a recuperar o juízo em breve.

Ela está a insinuar que ele está fora de si neste momento? Inês perguntou-se.

Arondra sorriu calorosamente e encontrou o olhar de Inês. 

— O facto de a senhora ter ficado doente realmente o aterrorizou. Ele pode ser grande, mas o coração dele pode ser frágil... E eu também fiquei chocada. Ele está apenas preocupado consigo. A senhora devia ter visto a cara dele naquela noite.

Na verdade, Inês conhecia o rosto dele quando todo o sangue escorreu dele. A memória lentamente focou-se na sua mente. Talvez seja por isso que ele está tão impaciente.

— Ele está realmente preocupado consigo...

Embora as palavras de Arondra tivessem esmorecido, Inês sabia exatamente do que ela estava a falar. Inês soltou um suspiro pesado e cheio de culpa.

Arondra ponderou por um momento e disse: — A senhora não precisa de sair de casa. Eu tenho uma ideia melhor.

— Hmm?

— A senhora pode ligar para outros virem cá. Pode fazer isso sempre que ele a incomodar. — Arondra sorriu como uma adolescente.

De facto, ela podia. Inês piscou e percebeu que Arondra estava certa.

Certo... Por que é que eu esperei passivamente que alguma coincidência ocorresse? A mente de Inês girou a uma velocidade supersónica. É claro. Ela podia convidar inúmeras mulheres para a sua própria casa sem ir a lugar nenhum.

Inês impediu a sua boca de formar um sorriso astuto. Ela assentiu. — Afinal, todos esses passeios estavam a tornar-se um incómodo.

Arondra bateu palmas. — Perfeito! Devíamos pedir a Raúl para enviar os convites?


***


A partir desse dia, Inês mergulhou de cabeça na organização de eventos sociais. Todos os dias, o riso de mulheres enchia a casa. Ela fez questão de evitar realizar esses eventos nas horas das refeições, de modo a evitar sobrecarregar os empregados com almoços diários.

Arondra estava entusiasmada com o horário agitado, sentindo que finalmente estava a ganhar o seu sustento. Enquanto isso, Yolanda queixava-se de nunca ter tido a oportunidade de servir um menu completo aos convidados. Ela resmungava afetuosamente que as suas habilidades eram boas demais para serem desperdiçadas apenas em snacks.

Tudo estava a correr de acordo com o plano de Inês. As várias reuniões abrangiam uma ampla gama de convidadas e funções. Um dia, ela recebeu as mulheres idosas, mas influentes de El Tabeo. No dia seguinte, ela recebeu as jovens esposas de oficiais subalternos. Depois, ela recebeu mulheres plebeias ricas, filhas de empresários, filhas de oficiais de alta patente e até mesmo as esposas ou filhas de nobres locais relativamente desconhecidos. A faixa etária das convidadas variava dos vinte aos sessenta anos. Inês usou estas ocasiões não só como um meio para se familiarizar e socializar com as outras senhoras da cidade, mas também para convidar qualquer pessoa que pudesse chamar a atenção de Cássel. Qualquer que fosse a ocasião, o objetivo final de Inês permaneceu o mesmo. E, até agora, o seu plano tinha sido muito bem-sucedido.

Da noite para o dia, ela transformou a mansão Escalante no topo da Colina Logorño no centro da alta sociedade desta região. Tudo isto tinha sido muito fácil para Inês. Mesmo que a nobreza de Calztela pudesse parecer inocente em comparação com os escalões superiores de Mendoza, eles não eram ingénuos. Calztela não tinha escassez de pessoas arrogantes, movidas pela ganância e avareza.

Mesmo em Mendoza, Inês não teve problemas em gerir os aristocratas astutos e maquiavélicos. Em Calztela, ela nem sequer precisava de se esforçar tanto para ponderar cuidadosamente as probabilidades. A rivalidade das mulheres era tão previsível que era quase adorável. Inês ofereceu de bom grado o nome Escalante como presa para elas e tirou vantagem da sua vaidade e admiração para manipular a situação.

Embora não se demorasse na exaustiva vida social do seu passado, ela sentiu a sua disposição natural para controlar os outros a regressar. Ela tinha que desempenhar o papel de uma anfitriã virtuosa agora, então não podia ser tão arrogante quanto tinha sido. No entanto, ela ainda se pegava a gostar tanto do processo que às vezes se esquecia do seu motivo original para receber.

O encontro de hoje era destinado às senhoras praticarem caligrafia — Inês não conseguia evitar rir das desculpas absurdas que tinha inventado para receber outras mulheres. A observação lisonjeira de Lady Acevedo sobre a sua caligrafia requintada tinha levado Inês a ter a ideia um dia. Como a caligrafia de Inês rivalizava com a de um escriba profissional, a ideia rapidamente se transformou num pequeno evento vespertino. 

Como resultado, várias mulheres sentaram-se à volta da mesa de jantar com uma pena na mão. Ao contrário da transcrição da bíblia de Inês, esta prática de caligrafia envolvia rabiscar algumas linhas de poesia em papel caro. Inês sorriu ao ver a cena, mas não percebeu o quão mais próximas ela e as outras senhoras se tinham tornado. Inês aconselhou uma das senhoras: — Arraste a ponta aqui, Lady Conde.

— Assim? — perguntou a outra mulher.

— Sim. Baixe a ponta da sua pena. E adicione mais força quando traçar na horizontal... Ótimo. Isso parecerá mais confiante.

— Oh, meu Deus! Fui eu quem escreveu isto? É tão impressionante... — Lady Conde ofegou e murmurou como uma menina e maravilhou-se com o seu próprio trabalho. Ela era pelo menos uma dúzia de anos mais velha do que Inês, mas idade à parte, parecia adorável.

Embora a caligrafia fosse uma marca de nobreza, algumas famílias nobres abastadas do campo ainda não ensinavam as mulheres a escrever. A sociedade não esperava que as mulheres tivessem essa habilidade ou oferecia a oportunidade de a praticar. Portanto, muitas mulheres nobres aqui comportavam-se com graciosidade, mas escreviam como uma criança. Lady Conde, a esposa do Comandante Tenente Conde, era uma dessas senhoras.

— Não consigo acreditar que escrevi como o meu neto de seis anos a vida toda, quando poderia ter escrito assim — gemeu ela.

— Isso só prova o quão brilhante o seu neto é — sugeriu Inês.

Lady Conde abanou a cabeça. 

— Não, ele é mediano. Eu simplesmente nunca tive a oportunidade de aprender. Olhe para o quanto talento eu tenho...

Inês riu baixinho.

Lady Conde de repente deu um tapa no joelho. — Este deve ser o motivo pelo qual o meu marido me desprezava!

— Perdão?

— Ele provavelmente nunca levou a sério nenhuma das minhas cartas quando a minha caligrafia parecia a de uma criança de seis anos...

— Ah... — Inês assentiu.

— Não importa o quão forte eu argumentasse contra ele em Mendoza, ele nunca pestanejava... Agora eu entendo.

Lady Azevedo olhou para a escrita de Lady Conde. — Verdade. Com esta nova caligrafia elegante, você poderia fazer uma piada parecer séria.

Então, Lady Azevedo olhou para Inês, implorando por alguma atenção. Inês moveu-se para ajudar a melhorar a caligrafia de Lady Azevedo.

Leah Almenara, esposa de José Almenara, mastigava a ponta da sua pena, parecendo distraída. Então, ela começou a falar de repente. — Ah, acabei de me lembrar. Lady Etura e Lady Muñoz não foram convidadas? Ouvi dizer que você convidou as esposas de todos no departamento de logística. — Leah saltou para o primeiro tópico que conseguiu pensar, como uma criança entediada com o estudo e ansiosa para se afastar. Ela também era a pessoa mais jovem presente.

Inês levantou a cabeça com um sorriso fraco e irónico. — Eu convidei toda a gente.

Leah inclinou a cabeça. — Elas não foram as únicas que faltaram da última vez que tomámos o pequeno-almoço também?

— Elas devem ter estado ocupadas — respondeu Inês.

Com as sobrancelhas curvadas numa carranca confusa, Leah olhou de soslaio para Lady Anaya, sentada ao seu lado. Era um absurdo total rejeitar o convite de Inês Escalante.

Sem tirar os olhos da sua caligrafia, Lady Salvatore sorriu. — Aposto que não foram elas que recusaram o convite.

Os olhos de Leah arregalaram-se curiosamente. — O que quer dizer?

Lady Salvatore pousou a pena. — Sem dúvida, os maridos delas impediram-nas de vir. Na verdade, aposto que elas nem sequer sabem que foram convidadas.

— Por que não?

Lady Conde e Lady Azevedo trocaram um olhar de cumplicidade. Mesmo numa sociedade implacável como esta, falar fora de hora sobre a família de outra pessoa era inaceitável. Afinal, quem se importa com as coisas terríveis que outras pessoas fazem com as suas vidas?

Lady Salvatore explicou: 

— Muñoz e Etura são descarados, então eles trazem as suas esposas para eventos sociais como a sua receção de casamento.

— Sim, eu me lembro... — assentiu Leah. — Eu as vi algumas vezes, mas nunca nos encontros mais íntimos como este.

— Eles não deixam as suas mulheres participar em eventos sem eles.

Confusa, Leah inclinou a cabeça e perguntou ingenuamente: — Porque eles amam demais as suas esposas?

Lady Conde sussurrou: — Normalmente, não se engana a pessoa que se ama...

Inês também estava ciente de que o Primeiro Tenente Muñoz e o Tenente Etura deixaram as suas esposas oficiais em Mendoza, mas viviam com as suas segundas esposas em Calztela. A falta de vergonha deles excedia em muito a média dos trapaceiros. O maior problema era que todas as suas esposas ignoravam a existência de outro casamento.

Lady Salvatore censurou: — Se eles pretendiam enganar as suas esposas, não deviam sequer trazer as suas esposas em público. Eles não têm vergonha...

— O quê? Como é que eles estão a enganar as suas esposas? — perguntou Leah, de olhos arregalados.

— Eles chegam ao ponto de apresentar estas donzelas inocentes como as suas esposas na frente de pessoas que sabem a verdade — explicou Lady Conde.

— Donzelas inocentes...? — Leah parecia confusa.

— É por isso que eles nunca deixam as suas esposas ir a qualquer evento só com outras mulheres.

Ambos os homens agiam com tanta confiança que os outros não conseguiam proferir uma palavra, especialmente numa sociedade que desaprovava intrometer-se nos assuntos alheios. Ninguém podia expressar o seu desgosto, mesmo que o mesmo homem apresentasse a sua primeira esposa em Mendoza e depois apresentasse a sua segunda esposa em Calztela. A única coisa que se podia fazer era acenar educadamente. Da mesma forma, Inês enviou convites a ambas as esposas, embora soubesse que elas não viriam. Tecnicamente, Muñoz e Etura apresentaram estas mulheres como as suas esposas, então ela não tinha escolha senão fingir que cada uma era a sua respetiva esposa.

Leah parou de entender, mas Lady Anaya acabou por lhe sussurrar a fofoca. Mesmo a gentil Leah parecia furiosa ao saber a verdade.

Lady Salvatore de repente sorriu maliciosamente. — Devemos escrever uma carta cáustica ao editor?

— Uma carta ao editor?

— Sim, no Daily Calztela! — exclamou Lady Salvatore.

— Mas não devemos intrometer-nos... — A voz de Leah falhou.

— É claro que nunca o faríamos. Mas alguma fonte anónima pode estar disposta a fazê-lo.

— Vamos usar isto como uma oportunidade para praticar a nossa caligrafia. Podemos fazê-lo juntas — sugeriu Lady Conde.

Leah bateu palmas. — Ah! Ninguém descobrirá quem escreveu se nos revezarmos a escrever.

De repente, as mulheres sentaram-se mais juntas, entusiasmadas com a perspetiva.

Embora Muñoz e Etura exibissem o seu comportamento antiético por agora, eles ficariam chocados e envergonhados se toda a sociedade soubesse do seu segredo sujo através de um anúncio oficial. Eles eram homens simples, e a vergonha seria suficiente para os chocar.

Inês lembrou-se do quanto Oscar se afligia com o que os jornais escreviam sobre ele. A única coisa de que se arrependia de se ter matado pela primeira vez era não estar viva para ver os jornais revelarem o comportamento terrível de Oscar. O meu suicídio tornou o escândalo possível, então acho que nunca o pude ver com os meus próprios olhos.

Inês virou-se para Lady Conde e finalmente juntou-se à conversa.

— As mulheres não deviam saber disso antes do resto do mundo?

Lady Conde corou com o tom educado de Inês. — Por mulheres, a senhora quer dizer...?

— Refiro-me às segundas esposas de Calztela — respondeu Inês.

— Certo... — Lady Salvatore assentiu. — Se elas souberem a verdade através do escândalo, elas serão as que mais sofrerão.

— Imaginem o seu embaraço... É terrível sequer pensar nisso. Talvez devamos manter isto em segredo?

Inês sugeriu: — Vamos abordá-las dizendo que queremos ajudar.

— Mas como é que poderíamos ajudá-las?

— Temos que lhes fazer saber que este não é o fim dos seus mundos — respondeu Inês.

Todas as senhoras olharam para Inês em silêncio.

— Os únicos mundos a acabar serão os dos seus maridos.

Inês estava no centro das senhoras, compenetrada na sua nova ideia, esquecendo o seu plano original sobre Cássel Escalante ou o fortalecimento das suas redes.

— Então, o que acontecerá às senhoras depois que a verdade for revelada? — perguntou Leah Almenara.

— Ter isso anunciado oficialmente no jornal seria muito diferente de um rumor... — A voz murmurante de Lady Anaya falhou.

— Elas terão que se separar, é claro — respondeu Lady Conde.

Leah piscou, com a cabeça ligeiramente inclinada para o lado. — O que quer dizer com separar-se?

— Se me permite falar em nome de Lady Conde, os casais têm de se divorciar — esclareceu Lady Salvatore.

— Elas seriam capazes de lidar com a questão sozinhas? — Lady Anaya perguntou em voz alta, preocupada.

— Espere... Divórcio? Divórcio?! — Os olhos de Leah arregalaram-se em choque, como se as outras senhoras lhe tivessem dito que estavam à espera do iminente Apocalipse. Sendo a única das Grandes de Ortega, além de Inês, e a esposa do terceiro filho do Conde Almenara, Leah nunca tinha sequer imaginado o divórcio como uma opção.

Embora o divórcio fosse bastante comum entre a nobreza Ortegana, aqueles com a mais alta patente raramente recorriam ao divórcio. Na verdade, crimes passionais ocorriam mais frequentemente do que o divórcio entre os Grandes de Ortega. Por medo de manchar as suas reputações, a classe titulada nunca se divorciava e continuava o seu casamento com cônjuges que odiavam até serem levados a esfaquear um cônjuge. Os Orteganos de temperamento explosivo nunca conseguiam viver sob o mesmo teto com o seu inimigo, e os Grandes de Ortega eram exatamente como qualquer outro Ortegano a esse respeito. 

Mais uma prova de que o divórcio é uma catástrofe inimaginável para aquelas pessoas, pensou Inês.

As senhoras mais velhas riram-se com cumplicidade. Lady Salvatore explicou: 

— Eu sei que o divórcio pode parecer impossível para Lady Inês ou para si, Lady Almenara, mas certamente não é impossível para nós — embora eu suponha que seria uma tarefa bastante desafiadora.

— Lady Inês nunca consideraria a possibilidade, com um marido como o dela... — Lady Conde assentiu. — De facto. Quem quereria mais alguém com um marido como o dela?

— Nenhum outro homem pode ser tão perfeito quanto ele. Ele é tão gentil e dedicado a Lady Inês...

— De qualquer forma — Inês interrompeu, tentando impedir que a conversa descambasse para o seu marido e a sua vida conjugal. — O divórcio não é tão difícil quanto se pode pensar — contanto que se consiga resolver tudo.

Leah ainda parecia perplexa. — Então... O que elas farão após o divórcio?

— O meu nome pode ajudar nessa parte — respondeu Inês.

As outras senhoras ofegaram e viraram-se para ela.

— A senhora está disposta a arriscar o seu nome por isto?

— Parece demasiado arriscado para a senhora se envolver pessoalmente...

Inês abanou a cabeça. — Eu não quero intrometer-me nos assuntos alheios. Eu só quero impedir que as duas esposas sejam prejudicadas ou enfrentem escárnio mais tarde, quando a culpa é claramente dos maridos. Pelo menos, eu posso ser a fiadora delas após o divórcio para as ajudar a ganhar mais respeito do que como esposas desses idiotas.

Lady Salvatore mordeu o lábio. — Eu não tenho tanta certeza...

— De qualquer forma — disse Inês com um sorriso matreiro. — O meu nome não é melhor do que o desses homens enganadores? — Ela sentiu-se confiante de que ser amiga de Inês Escalante daria a uma mulher mais respeito do que ser a segunda — e ilegal — esposa do Primeiro Tenente Muñoz.

Todas as senhoras, até a ingénua Leah Almenara, assentiram em concordância.

A nobreza estava dividida em muitas classes, e a marinha não era exceção. Embora os oficiais trabalhassem juntos, os poderosos e os menos titulados não se misturavam, como água e azeite. Muitos veriam duas partes de classes diferentes como um benfeitor e um beneficiário, mesmo quando as duas partes não pretendiam que a sua relação parecesse dessa forma. Assim, Inês estava agora a anunciar a sua intenção de ajudar estas duas esposas e tomá-las sob a sua proteção. Os rostos de todas as senhoras iluminaram-se de prazer. Só numa base naval e cidade portuária remota como Calztela é que elas poderiam tornar-se tão próximas de alguém de uma patente tão alta quanto Inês.

— De facto, de facto... Uma carta com a sua assinatura poderia abrir qualquer porta no mundo.

Ainda preocupada, Leah murmurou: — Mas e se as duas senhoras acabarem numa situação infeliz?

— Eu partilho o sentimento. Eu sei que o casamento delas é miserável, mas como é que elas sobreviveriam sozinhas como mulheres?

— Elas podem casar novamente, tornar-se governantas, ou tornar-se freiras — respondeu Inês. — Podemos ajudá-las a encontrar um novo refúgio, o que quer que escolham.

Na verdade, ela queria dizer que podia ajudar as duas senhoras a fazê-lo, mas a linguagem inclusiva do podemos ajudou as outras senhoras a sentirem-se parte da equipa. Além disso, embora ela nunca tivesse conhecido a oficial Lady Muñoz ou Lady Etura em Mendoza e mal se lembrasse dos rostos das duas senhoras em Calztela, ela sabia que elas não mereciam ter apenas metade de um marido ou ser enganadas.

Inês ainda não tinha pensado bem nas suas palavras, mas deixou-se levar pelo seu próprio discurso motivador. Ela sorriu desafiadoramente e disse: 

— Se elas quiserem construir novas famílias, encontrar trabalho, ou não fazer quase nada, podemos ajudá-las a fazê-lo. Se elas saírem com uma pensão de alimentos considerável, poderiam comprar um pequeno pedaço de terra para viver como proprietárias.

Ser proprietária de terras — embora de um grande pedaço de terra, não um pequeno — era o seu próprio sonho.

Os olhos de Lady Azevedo brilharam. — De repente, tenho um desejo de divórcio.

— Não tente enganar o Tenente Azevedo para ficar com o dinheiro dele. Ele é um homem honesto.

— Eu também não quero fazer nada. Se, por acaso, eu me divorciar de José... Eu faria os Almenaras pagarem-me o dobro do dote que a minha família lhes pagou — disse Leah.

— O que é que Almenara fez de errado?

— Se ele alguma vez me traísse... — Leah ficou furiosa com o pensamento.

— Você sabe que aquele homem, um urso de pelúcia gigante, nunca faria isso!

Risos e gargalhadas encheram a sala.

— Mal posso esperar para ver Muñoz despojado de toda a sua riqueza.

— Etura teria ficado Primeiro Tenente a vida toda se não fosse pelo seu sogro. Então, ele merece regressar ao seu devido lugar.

— Se ao menos ele pudesse ter a promoção negada e ficar tão envergonhado que decidisse deixar a marinha.

— Então, ele poderia tornar-se um alcoólatra e ver a sua família falhar!

Imediatamente, elas começaram a redigir o relatório para enviar às vítimas. Usaram um tom neutro, focado em apresentar os factos concisamente para implicar que apoiariam qualquer decisão que cada esposa pudesse tomar. Elas também insinuaram que fazer a escolha corajosa e não convencional as beneficiaria significativamente e lhes daria uma vantagem legal no tribunal.

Depois de se revezarem para escrever as cartas às esposas, elas fizeram um brainstorming sobre o que escrever nas cartas aos editores das principais publicações em Calztela e Mendoza. O objetivo era incluir o máximo de factos sujos possível para provocar a raiva das pessoas e descrever as penalidades que os trapaceiros enfrentariam se este caso se transformasse numa batalha legal. Elas também enfatizaram que a fraude matrimonial era muito mais grave do que a infidelidade, que as pessoas costumavam ignorar.

Além disso, escreveram que os criminosos eram soldados em Calztela. Se algum dos seus colegas de trabalho valorizasse a sua honra, não devia permanecer como um espetador deste crime e devia ter vergonha de usar o mesmo uniforme que os criminosos. As senhoras pretendiam forçar a Marinha a agir, implicando que a instituição seria vista como cúmplice destes criminosos se os dois homens não perdessem os seus empregos.

— Eu gostaria que pudéssemos obter permissão das duas senhoras para enviar esta carta — sugeriu Inês.

— Mas será que elas permitiriam? Esta carta também expõe o segredo delas...

Lady Salvatore tinha sido a mais ansiosa para escrever palavrões que o jornal nunca imprimiria e agora respondeu ansiosamente à sugestão de Inês. 

Ela argumentou: — Não, o segredo sujo pertence aos patifes. Como se pode culpar a vítima pelo golpe? — Na verdade, Lady Salvatore tentou recentemente estrangular o seu marido bêbado enquanto também estava bêbada. Depois, Inês ligou-lhe para dar conselhos sérios e apresentar um advogado capaz. Agora, ela estava em processo de resolver o caso, mas não tinha intenção de resolver de todo. Cássel também disse a Inês que o Tenente Salvatore se queixava constantemente de precisar de mais dinheiro.

— Mas devemos entender que as senhoras podem não querer o escrutínio público. Existem muitas soluções viáveis para este problema...

— Se elas não se divorciarem deles, não podemos despojar Etura e Munoz do seu dinheiro.

— Mas a vontade delas é o mais importante agora... Então, vamos esperar — disse Inês.

Leah perguntou a Inês: — Os Eturas teriam algum dinheiro sobrando depois de pagar o dote que receberam há cinco anos?

A voz de Inês era determinada. 

— Mesmo que eles não tenham o dinheiro, eles devem materializá-lo de alguma forma. O sistema de justiça de Mendoza é rigoroso em relação às sentenças e aos reembolsos.

As senhoras em redor fantasiaram sobre serem as divorciadas, como uma pessoa comum poderia fantasiar sobre encontrar uma fortuna inesperada. Cheias de fantasias felizes, esqueceram as suas boas maneiras e riram-se sem graça.

Só de pensar nos dois golpes de casamento em ruínas encheu-as de prazer. Cássel regressou à residência enquanto elas tagarelavam com entusiasmo sobre a perspetiva de divórcio e os dois homens a desmoronarem-se.

— Oh, o Tenente Escalante já voltou — observou Lady Anaya.

— O tempo passou tão depressa?

Cássel manteve uma distância respeitável e fez uma vénia às convidadas da sua esposa. — Parece que a senhora estava a desfrutar de algo empolgante. Pude ouvir a sua gargalhada desde o corredor.

— O riso pode ser assim. Se alguém começa a rir, eu acabo sempre a rir junto também, mesmo que não haja nada assim tão engraçado.

— Certo. O riso pode ser contagioso... — Lady Conde espreitou as outras e cobriu a carta com o cotovelo. Todas pareciam satisfeitas por ter outro vislumbre do rosto bonito de Cássel. Vestido com uma camisa arregaçada até aos cotovelos e as suas calças de linho, ele ainda não tinha trocado as suas roupas de treino e parecia mais despenteado do que o seu eu habitual. O seu cabelo loiro desalinhado caía sobre a testa, parecendo delicioso.

Todas as senhoras esqueceram os seus esquemas com a sua beleza. Inês observou as outras senhoras a olhar para Cássel com satisfação. Embora este grupo de senhoras não fossem as melhores candidatas para ele, ela sempre gostava de ver o efeito dele nas mulheres. Inês sorriu com satisfação. 

De facto, ele é atraente.

Cássel deu um beijo rápido nas bochechas de Inês. 

— Eu vou subir para me lavar primeiro.

— Você cheira a suor... — sussurrou Inês.

— Eu? — Cássel apontou para si mesmo. — Eu sabia. Eu cheiro mal?

— Não está muito mau.

— Não está nojento?

— Eu disse-lhe, não está assim tão mau... — suspirou Inês.

— E o jantar? Devíamos recebê-las. A Arondra sabe disso? — perguntou Cássel.

Inês abanou a cabeça. — Ainda não.

— Eu posso avisar Arondra — ofereceu Cássel.

— Claro.

— Então, continue a rir com as senhoras. Eu volto depois do meu duche.

Cássel não deu mais atenção à mesa, mas inclinou-se para beijar a bochecha dela novamente antes de sair da sala. Inês não pensou muito sobre as suas ações e simplesmente virou-se para encarar as suas convidadas novamente, mas as senhoras encararam-na de volta, a corar. Elas apanharam os seus papéis e começaram a levantar-se.

Inês ficou ali, confusa com a reação delas.

— Parece que é hora de partirmos — disse Lady Salvatore.

Inês franziu a testa. — Mas planeámos recebê-las para o jantar, especialmente porque está tarde.

— Não importa o jantar...

— Peço desculpa pela intrusão... Nós não devíamos ter ficado sentadas por tanto tempo — disse Leah.

— Por favor, transmita as nossas desculpas ao Tenente Escalante — disse Lady Anaya.

— Desculpas? Pelo quê? — Inês ficou ainda mais confusa. — E nós estávamos a discutir o assunto de...

— Vamos discutir novamente depois de enviarmos a carta.

— Quando? Daqui a quatro ou cinco dias?

— Cinco dias parece um bom momento.

— Quem a enviará? — perguntou Lady Conde.

Lady Salvatore levantou a mão no ar. 

— Eu enviarei! — Então, ela acenou para que a multidão saísse pela porta. Logo, Inês ficou sozinha na sala de visitas.

Intrusão em quê...? Inês perguntou-se por um momento se estava a agir lentamente agora.

Arondra estava parada à porta, perplexa, a observar as convidadas a sair apressadamente pela porta e Inês a despedir-se delas.


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Comentários

  1. Obrigada! Obrigada e obrigada!!!!! Adorei o combo de capítulos!!! Meu coração ficou quentinho 🥰

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