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Capítulo 64 — Dom Afonso

— Minha senhora, ouvi dizer que me chamou.

— Sim. Por favor, sente-se. — Inês gesticulou em direção ao sofá à sua frente.

Alfonso sentou-se com uma postura impecável.

— Você deve ter pensado que demorei bastante para chamá-lo.

— Eu... esperava que Ballan não se reportasse a Senhora imediatamente. — Alfonso não ousava encarar olhos de Inês diretamente, mas manteve o olhar educado no seu pescoço e ombros. 

— Não o frustrou esperar por uma resposta? — perguntou Inês, um sorriso enfeitando seus lábios. — Você poderia ter me procurado diretamente.

A confusão brilhou no rosto de Alfonso, perguntando-se se Raúl havia entregue a mensagem corretamente. Inês sorriu de volta, o calor emanando de sua expressão, confirmando que ela de fato havia recebido a mensagem com precisão.

— A verdade é que acho ultimatos bastante agradáveis.

— Perdão?

— Especialmente quando vêm de homens inúteis como você. Eu os acho bastante divertidos.

Alfonso estremeceu internamente. Desaparecera qualquer traço de seu sorriso gentil ou da atitude recatada que ela ostentava em Calztela. Em vez disso, uma mulher desconhecida e arrogante o encarava de cima com desprezo.

— Aposto que você não ousaria repetir o que disse a Raúl na minha cara, Don Alfonso. Falta-lhe a "casca grossa" necessária para o seu próprio bem. E você possui consciência demais.

— Minha senhora, espero que não tenha interpretado mal minha intenção.

— Que intenção?

— Garanto-lhe, não tenho a intenção de lhe causar mal. A única razão pela qual encorajei fortemente Ballan a confessar a verdade foi unicamente...

— Você fez uma ameaça — corrigiu Inês com um tom de reprovação.

No silêncio que se seguiu, ela suspirou.

— Don Alfonso, seu coração é de fato muito mole. — Alfonso tinha se preparado para a repreensão iminente; agora, a incerteza nublava sua mente sobre o curso de ação apropriado. Com uma sutil inclinação do queixo, Inês dirigiu seu olhar para o bule. Em resposta, Alfonso, cumprindo seus deveres quase mecanicamente, como um cão bem treinado, encheu a xícara dela. 

Um segundo depois, ele parou abruptamente, uma percepção surgindo nele. Inês calmamente pegou a xícara meio cheia de debaixo da mão dele e continuou. 

— Você se consola, acreditando que tudo isso é para o benefício do pobre Tenente Escalante, enganado por ninguém menos que sua esposa. Talvez você me considere indigna dele e, assim, em sua mente, esteja justificado em buscar o que considera o caminho certo. No entanto, no fundo do seu coração, reside um cavalheiro que se recusa a abraçar a desonra de explorar a vulnerabilidade de uma mulher delicada, recorrendo a ameaças e coerção como um indivíduo sem escrúpulos. 

Alfonso permaneceu em silêncio, incapaz de conjurar uma única palavra de refutação.

— Não é verdade? Você não conseguiu nem suportar a menção de uma ameaça.

— Minha senhora, eu...

— Você não cogitaria expor a verdade para Arondra, muito menos para o público. Tudo o que consegue fazer é hesitar sobre revelar ou não a Cássel. Afinal, o cão leal de Escalante não ousaria morder seu mestre.

A vulnerabilidade de uma mulher delicada... Verdade, ele sempre percebeu Inês como uma dama delicada e frágil. No entanto, a mulher diante dele não se parecia em nada com uma dama lastimável em perigo. Lutando para mover sua mão rígida, Alfonso colocou o bule de volta na mesa.

— Ah, pensando bem, o que você disse a Ballan?

Alfonso fechou a boca novamente.

— Deixe-me adivinhar. Você o ameaçou dizendo que exporia a verdade a Mendoza para me ostracizar da sociedade e conseguir o divórcio. Ou revelar ao Duque Escalante para me trancar no asilo. Ou me colocar em um claustro, escrevendo orações e meditações pelo resto da minha vida. Qual deles?

Alfonso manteve o silêncio ouvindo suas palavras afiadas e educadamente baixou os olhos o máximo possível.

— Eu não ousaria falar sobre sua nobre vida.

— Oh, Alfonso. Tenho certeza de que você falaria bem diante do meu valete — disse Inês em um tom gentil, soando quase como se estivesse embalando uma criança. No entanto, seus olhos transmitiam uma mensagem completamente diferente.

Encontrando seu olhar dominador, Alfonso esqueceu os pensamentos em sua cabeça e não conseguiu dizer uma palavra. Ele instintivamente desviou o olhar, incerto se a mudança súbita de comportamento dela o havia pego de surpresa ou se ele procurava evitar o desdém praticado que desmentia seu semblante jovem.

— Perdoe-me, minha senhora — ele respondeu depois de se recompor — mas as complexidades de assuntos tão delicados estão entrelaçadas na consciência de meu senhor. Nossas ações estão atreladas aos seus desejos e conhecimento. Se ele permanecer na ignorância, nossas mãos estão atadas. Reconheço que a senhora percebe isso como sua falha, uma faceta de si mesma que pode não desejar revelar, e reconheço que o curso de seu relacionamento pode depender da resolução deste assunto.

— No entanto, você quer que eu o informe de qualquer maneira?

— De fato. Eu entendo o peso que isso coloca em seu coração, e eu também carrego o fardo enquanto falo. Apesar da relutância, imploro que revele a verdade ao meu senhor.

— Então, você me cutucaria por trás, encorajando-me a saltar do penhasco, sabendo que eu nunca me aventuraria lá sozinha?

— Como a senhora bem sabe, o comportamento do meu senhor pode parecer estóico, mas por baixo existe um coração sensível. Ele está inclinado a estender bondade, especialmente à senhora.

— O ato de estender bondade é um luxo raramente concedido a alguém. — O pequeno sorriso de Inês desapareceu enquanto ela delicadamente pousava a xícara na mesa. — O que eu ofereço agora é uma aparência disso, Alfonso — uma patroa permitindo que seu servo fale audaciosamente em sua presença. É um gesto normalmente reservado aos inferiores.

Alfonso permaneceu em silêncio, lábios selados, sentindo um leve arrepio na espinha.

— Eu não sou sua criada, mas sua esposa e filha do estimado Valeztena. Ele não ousa estender qualquer bondade a mim, e vice-versa. É absurdo da sua parte sugerir o contrário.

Recuperando tardiamente sua calma habitual, Alfonso perguntou:

— Isso pode ser a norma para casais comuns. No entanto, temo que haja algo pelo qual a senhora deva implorar o perdão do meu senhor, não há?

— Perdão, você diz.

— Minha senhora, a senhora o enganou desde o início. Ele merece outra chance de fazer uma escolha adequada.

— Se fôssemos buscar uma união duradoura como casal, seria assim.

Alfonso franziu o cenho em confusão com a resposta de Inês.

Inês deixou escapar, irritada:

— Não estou tão desesperada a ponto de implorar voluntariamente por seu perdão e esperar por sua escolha. Na verdade, não tenho desejo de viver com ele por um período prolongado.

— Perdão?

— Portanto, não há razão para eu suplicar por seu perdão.

Os olhos de Alfonso se arregalaram, tremendo em um turbilhão tumultuado de confusão.

— Você não precisa ficar ansioso. Não me darei ao trabalho de lembrá-lo da devoção de seu mestre a este casamento, das consequências que você enfrentará por ousar ameaçar sua esposa, ou como meu marido lidará com você se tentar abrir uma fenda em seu relacionamento. A Casa Escalante há muito tempo domina sua família, e eu sou Escalante agora. Não preciso da autoridade do meu marido para me livrar de você.

— Certamente, minha senhora. Independentemente da decisão que a senhora tomar, não tenho escolha a não ser aceitá-la.

Inês estalou a língua, sua expressão mudando abruptamente.

— Que desinteressante.

Os olhos de Alfonso ficaram ainda mais perplexos do que antes.

Ela inclinou a cabeça com desdém e disse:

— Depois de expor audaciosamente meu suposto defeito, agora você afirma que aceitará minha decisão e irá embora sem explorar minha fraqueza? — Ela parecia quase desapontada por Alfonso não ter a audácia de fazê-lo.

Alfonso endireitou as costas como um homem parado em uma rocha enfrentando corredeiras que o levariam embora se ele baixasse a guarda por um momento sequer.

— Estou ciente do que fiz. Embora feito com intenções sinceras para com meu senhor, entendo que ele nunca ficará satisfeito.

— Oh?

— Reconheço o grande desrespeito que demonstrei à senhora, minha senhora. Minha intenção nunca foi prejudicá-la ou perturbar seu casamento.

— Você descobriu que eu era uma louca, mas resistiu ao impulso de suplicar ao seu mestre para se separar de mim. Em vez disso, você tomou o assunto em suas próprias mãos.

— Eu não tenho autoridade para fazer isso. Eu meramente desejava que ele obtivesse um entendimento mais profundo da senhora como futura Duquesa. O conhecimento da mulher com quem ele se casou é essencial para que a união seja considerada adequada.

— Você está gravemente enganado se acredita que me entende melhor do que ele. Você não passa de um velho tolo, estremecendo à menor mudança em minha expressão.

Alfonso piscou lentamente em choque absoluto.

— Você deveria estar ciente de que seu semblante trai um nível surpreendente de estupidez cada vez que eu digo algo inesperado.

Inês estava feroz, incorporando um lado de si mesma irreconhecível de seu comportamento habitual. No entanto, essa ferocidade diferia da anterior, quando ela falou com um aviso intimidador e sem sorrisos.

— Don Alfonso, você é apenas uma pessoa fraca e indecisa.

Alfonso ficou estupefato enquanto as avaliações desconhecidas continuavam, cada uma um afastamento significativo de qualquer coisa que ele ouvira ao longo de sua vida.

— Você estava disposto a arriscar cair em desgraça com Cássel, mas não conseguiu se forçar a divulgar meu segredo. Você pode parecer leal, mas lhe falta a coragem de sacrificar sua consciência e boas maneiras. Você também não é terrivelmente desprezível. Você até ousou mostrar misericórdia por mim — você me deixou saber que está ciente da minha fraqueza e manteve a boca fechada, pensando ingenuamente que eu tremeria de medo e buscaria o perdão e o favor de Cássel. Que aspecto seu você acredita que eu acho mais indesejável?

A pergunta de Inês foi bastante clara, mas a expressão de Alfonso permaneceu tolamente vazia.

Como um mordomo que ousara ameaçar a senhora da casa, especular sobre o que ela achava mais desagradável nele parecia um exercício fútil.

Inês insistiu, descartando sua linha de pensamento simplista com um bufo.

— Você prova ser um servo bastante inadequado para Cássel. Eu desprezo servos tolos e incompetentes. Se Raúl tivesse descoberto as vulnerabilidades de Cássel, como você fez com as minhas, e conduzido seus assuntos secretamente sem me informar, eu o teria prontamente enviado despencando do topo da Colina Logorño, para o mar implacável. Isso é separado de como eu lido com Cássel. É uma questão de se meu servo se prova útil, e se ele me prioriza.

Alfonso se viu sem palavras.

— Você recebe um salário igual ao de seis outros membros da equipe, mas é incompetente, e até sua lealdade é inconstante. Entenda que sua irreverência é direcionada a Cássel, não a mim. — Inês estalou a língua, com desprezo indisfarçado.

Alfonso encontrou seu olhar desdenhoso sem piscar uma única vez, ainda parecendo atordoado.

— Se eu fosse pedir desculpas a Escalante em lágrimas, como você desejava, e implorar para que ele não me deixasse... — ela disse, sua voz equilibrada, mas severa, deixando inequivocamente claro que ela nunca se envolveria em tal ato degradante. — O que exatamente você planejava fazer depois?

— Eu planejava retornar a Esposa e declarar minha intenção de deixar o serviço da família Escalante... — ele respondeu.

— Já que alcançou seu objetivo inicial? — Inês não pôde esconder sua decepção e surpresa, envergonhando Alfonso ainda mais. Ele não estava acostumado a decepcionar seu mestre ou mestra.

— O que quer que aconteça agora fica a critério do meu senhor. Não tenho desejo de incomodar a futura duquesa.

— Pela futura duquesa, você quer dizer eu?

— Sim. — Ele piscou, contemplando quem mais poderia ser. Ele já tinha certeza de que seu mestre escolheria ficar com ela, apesar de sua falha.

— Então... Você não se importa, contanto que Cássel seja informado da minha falha e a considere aceitável? — ela sondou novamente.

— Não, minha senhora, não me importo.

— Então, Alfonso, qual é o propósito desta revelação? — ela disse, com a voz carregada de frustração. Parecia que ela desejava repreendê-lo por não aspirar a mais.

Ele piscou e respondeu deliberadamente:

— Não é essencial que ele esteja familiarizado com a verdade...?

Inês bufou.

— Essa é verdadeiramente sua única preocupação, Alfonso? Sua fixação por decoro excede até minhas expectativas mais loucas... No entanto, você está disposto a persistir em silêncio, permitindo que uma mulher profundamente falha como eu ascenda à posição de Duquesa Escalante? Você possui um nível de mente aberta muito incomum para um homem velho.

— Essa decisão não cabe a mim, mas ao Meu Senhor.

— De fato. Você não ousa assumir qualquer iniciativa — ela murmurou.

Alfonso pareceu discernir o tom sinistro na voz dela. Seus olhos traíam um toque de ansiedade.

— Mais cedo, você mencionou sua intenção de renunciar ao serviço da família Escalante, não foi?

— Sim, minha senhora. Eu não presumiria pedir uma carta de recomendação.

— Isso só beneficiaria você.

— De fato. Eu não tinha intenção...

— Você realmente acreditou que eu o deixaria sair tão facilmente?

— Se a senhora quiser me denunciar às autoridades... estou preparado para testemunhar como achar melhor.

— Como eu disse, é presunçoso assumir que eu o deixaria deixar a residência assim, Alfonso.

— Perdão...?

— Até que eu deixe Escalante, você permanecerá ao meu alcance — disse Inês.

As orelhas de Alfonso se aguçaram com a menção da partida dela, mas ele não ousou questioná-la.

— Mas certamente, a senhora não deseja mais ver meu rosto...

Ela simplesmente deu de ombros.

— Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos ainda mais perto. Mantenha seus servos que guardam seus segredos ao alcance da voz, e discipline servos audaciosos até que saibam seu lugar. Todos os três adágios se aplicam a você, Alfonso, então meus olhos e ouvidos estarão em você.

— A senhora quer dizer... que me permitirá continuar em seu serviço? — Ele não parecia entusiasmado com a perspectiva.

Ela ofereceu um sorriso gentil novamente.

— Sob minha vigilância, é claro.

— Mesmo que eu não ouse desejar...

— Eu não tenho interesse algum em suas preferências ou intenções.

— Mas como a senhora pretende me manter na linha...?

— Você está insinuando que não tem fraquezas? — A surpresa aparente em seu tom velava um toque de zombaria.

Uma carranca fugaz cruzou o rosto de Alfonso, rapidamente substituída por uma resposta educada:

— Não tenho família nem um passado a esconder.

— E seus pais? Ah, deixa para lá. Eu estaria me rebaixando demais.

Alfonso permaneceu em silêncio.

— Então, vamos apenas colocar sua vida em jogo — disse Inês.

— Perdão...?

— Não há nada mais importante do que a vida ou a morte. Nada mais eficaz para usar contra você.

— Minha senhora... A senhora está tentando me chantagear com a ameaça de morte? — ele perguntou, a incredulidade ressoando em seu tom.

— Bem, você me chantageou primeiro, rotulando-me como um produto defeituoso na frente do meu valete e especulando sobre a anulação do meu casamento na minha presença. Tanta lealdade de um servo — disse ela, suas palavras carregadas de sarcasmo.

A pálpebra de Alfonso tremeu com a exposição de seus atos audaciosos do passado; seus olhos se afundaram em vergonha, deixando-o sem palavras.

— Então... o que a senhora quer que eu faça? — ele perguntou hesitantemente.

— Eu meramente espero que você continue como sempre fez, como se nada tivesse acontecido.

— Como isso servirá à senhora...

Inês continuou sem perder o ritmo.

— Você pode ocasionalmente atender aos meus pedidos e me relatar sobre as instruções de Cássel.

— Perdoe minha intromissão, mas a senhora mencionou que um bom servo deve priorizar seu mestre...

— Verdade, mas sua lealdade já é medíocre. Então, não deve importar se você estender seu serviço a mim e servir a dois mestres. Não está correto?

Alfonso empalideceu.

— Minha senhora, eu não posso... — Ele já parecia atormentado.

Inês não fez nenhuma tentativa de esconder seu deleite.

— Cássel Escalante se envolve em atividades vergonhosas que você não revelaria a ninguém?

— Claro que não...! Nada desse tipo. Ele nunca...

— Então, qual é o problema?

O olhar de Alfonso vacilou por um momento, mas ele se recompôs ao ver a frieza glacial nos olhos de Inês.

— Eu meramente preciso que você me transmita o que ouvir. Isso é desafiador demais para você? — A pergunta dela parecia questionar a competência dele.

Completamente dominado pela postura dela, ele instintivamente quis obedecer. Ele lutou para manter a boca fechada.

Inês deu de ombros e continuou:

— Não vou interferir muito. Não vou prejudicar Cássel usando suas informações. Juro, nem um único arranhão. Mesmo que ele me engane com dez ou vinte mulheres, vou simplesmente ouvir e deixar as coisas como estão.

— Isso é um problema em si...

— De modo algum. Tudo o que estou dizendo é que, não importa o que você compartilhe, não usarei suas palavras para prejudicar seu mestre.

Alfonso mordeu o lábio.

— E fique de olho em Raúl.

— A senhora quer... que eu o vigie?

— Sim.

— A senhora... quer que eu espione Ballan? — Alfonso ainda parecia duvidar de sua audição. Por que ela iria querer que ele espionasse seu braço direito, que a admirava mais do que a Deus?

— Preciso de um par de olhos nele, mas de alguém que ele nunca suspeitaria.

— Ballan já desconfia profundamente de mim.

Inês balançou a cabeça.

— Ele pensa em você como o homem de Escalante, mas não o vê como meu espião.

De fato, Ballan nunca imaginaria Inês por trás das ações de Alfonso.

— A senhora... não confia nele? — ele perguntou.

— Confio — ela afirmou.

— Então por que...?

— Eu o espiono porque confio nele.

Embora suas palavras parecessem contraditórias, seu rosto transmitia sinceridade. Alfonso só ficava mais perplexo com o passar do tempo.

— Eu sei que ele faria qualquer coisa por mim, chegando ao ponto de desobedecer minhas palavras — ela explicou.

— Em relação à senhora, ele nunca...

Inês o dispensou com um gesto.

— Certo, já chega de você. Apenas observe cada movimento dele e me relate tudo.

A reação dela esvaziou o ego de Alfonso. Ele não havia experimentado tal dispensa, nem mesmo quando era um jovem valete em Esposa.

— Em particular, relate que esquema ele e Cássel tramam juntos.

— Ballan com Sua Senhoria...?

— Don Alfonso, você pode ser tão lento às vezes... Não é óbvio?

Chantageado sob ameaça de morte para espionar dois homens que pareciam não ter nada a esconder, Alfonso não pôde deixar de parecer frustrado.

Inês, no entanto, parecia indiferente à confusão dele.

— Então... Como a senhora confiará em mim?

— Eu nunca confiarei em você até o dia em que morrer. Mas sempre posso empurrá-lo no oceano, então só confio na sua mortalidade, Don Alfonso. — A maneira como ela chamou seu nome, como outros funcionários subordinados o tratariam, estava carregada de zombaria, mas ele só pôde engolir sua resposta. — Não se preocupe, vou compensá-lo. Não sou tão sem coração. Sua desobediência conseguiu me tirar da complacência no momento perfeito, então vou recompensá-lo por isso.

— Eu não preciso de nada...

— Claro que não, agora que esmaguei seu ego. Mas você queria algo quando ouviu pela primeira vez sobre meu segredo.

— Eu...

— Você queria separar essa louca de seu mestre. Você queria que Cássel soubesse a verdade e me expulsasse de casa. Você não queria que eu me tornasse a próxima Duquesa Escalante.

Seus pensamentos mais íntimos expostos, as orelhas de Alfonso queimaram em escarlate de vergonha.

— Você está certo. Você sempre esteve certo desde o começo... — Inês assentiu. — Então, reacenda sua lealdade a Escalante. Eu lhe concederei seu desejo.

— Perdão?

— Estou tentando ajudá-lo, já que você parece não ter talento para chantagem. Faça-me outra oferta. Repita comigo: Este é o seu lembrete de que estou a par do seu segredo. Em troca do meu silêncio, você deixará a família Escalante quando for a hora certa...

Alfonso interrompeu:

— Só para confirmar, a senhora está se referindo à minha partida desta família... Certo?

— Seu tolo... — Inês bateu na própria testa em frustração, mas Alfonso não conseguia acompanhar. — Você não consegue entender o contexto? Estou me referindo à minha partida.

— Mas por que a senhora...?

Ela suspirou e disse:

— Depois que eu conceber um filho, deixarei Cássel Escalante antes que este ano acabe.

Alfonso não pôde deixar de perguntar:

— Então, por que... quero dizer, por que a senhora precisa fazer isso?

A carranca de Inês se aprofundou.

— Independentemente do que você esperava quando me chantageou, eu ficaria o tempo necessário para cumprir meus objetivos. Não importa se você queria que eu fosse embora imediatamente ou que ficasse com Cássel para sempre. Se meu defeito significativo anular nosso casamento, será nos meus termos.

Tecnicamente falando, isso não era um pagamento justo por seu serviço se ela planejava fazer do seu jeito independentemente da escolha dele, mas Alfonso não ia discutir com ela. Ele enxugou o suor frio do rosto. Sua mente estava cheia de imagens infernais de seu jovem mestre divorciado.

— Não há necessidade de você me chantagear ou temer que eu mantenha Cássel no escuro pelo resto da vida. Ele saberá a verdade, e serei eu a contar a ele.

Alfonso balançou a cabeça. Ele tinha outras preocupações em mente agora. Mas a atenção de Inês já havia seguido em frente.

— Se você genuinamente queria que eu desaparecesse desta família, deveria ter examinado o temperamento do seu mestre mais a fundo. Ele nunca me abandonaria por causa do meu defeito. Em vez disso, isso poderia amarrá-lo a mim para sempre. Lembre-se, só podemos alcançar o final ideal que você queria se Cássel não souber sobre minha doença. — A carranca havia desaparecido de seu rosto. Ela agora parecia calma e determinada. — Se você realmente deseja o melhor para Cássel, pare com suas intrigas — você não é inteligente o suficiente para realizar nada. 

Ajude-me em vez disso. Confie em mim, meu desejo de me divorciar dele é várias vezes maior do que sua lealdade superficial.

Alfonso se encolheu com a palavra divórcio. Ele gaguejou:

— Minha senhora, mas divórcio... é um assunto muito grave e arriscado. Sua Graça, o Duque Escalante, nunca...

— A irmã dele, a imperatriz, vai me parar antes que ele possa. É por isso que planejo dar a ele um herdeiro, pelo menos. Precisarei de uma criança meio-Escalante e meio-Valeztena para me defender contra eles — disse Inês.

— Seria essa... a criança que a senhora planeja conceber antes do fim do ano? Isso significa...

Dado o número de bebês que não sobreviviam aos primeiros seis meses, muitas famílias nobres de Ortega só nomeavam seus filhos depois que eles sobreviviam aos nove meses e tinham mais probabilidade de chegar à idade adulta. Uma vez que a criança era nomeada, ela recebia seu título e outros privilégios oficialmente. Quanto maior a família, mais significativo era esse marco de nomeação.

Inês deu um sorriso leve e conhecedor.

— Sim, eu sei o que você está pensando. Eu partirei depois que a criança for nomeada. — Embora estivesse sorrindo, ela não parecia mais tão encantada como quando zombava de Alfonso.

— E se... a criança for uma menina?

— Não importa.

Como a única filha do Duque Valeztena, Inês nunca careceu de nada. Assim, seguia-se que ela se importaria mais com a liberdade legal do que com riquezas, mas Alfonso ainda estava surpreso com seu genuíno desinteresse pelo dinheiro de Cássel.

— Um filho seria mais útil... mas tudo o que importa é que ela seja nossa filha — disse Inês.

Claro, útil era um eufemismo grosseiro para o quanto a família Escalante tinha a oferecer. Desde o início, Inês e Cássel casaram-se em famílias de prestígio tão comparável que muitos consideravam seu casamento um movimento para proteger as preciosas linhagens dos Grandes de Ortega. 

O novo herdeiro Escalante herdaria uma fortuna excepcional, mesmo para os padrões da família imperial. Mas Inês não se importava em calcular a fortuna de seu marido, muito menos a herança de seu filho no futuro distante. Tudo o que ela se importava era ter um filho para conectá-la à família Escalante e fornecer alguma segurança estendida. E tudo o que ela queria dos Valeztenas era liberdade de sua intromissão. Se ela detestava tanto seu casamento com Cássel, teria sido melhor anular o casamento atual e começar de novo como Valeztena, sem filhos e desimpedida. Com um filho, ela nunca poderia fingir ignorar seu primeiro casamento.

Nem toda a nobreza nascia igual. A maioria dos aristocratas dos Grandes de Ortega achava que o divórcio estava abaixo deles e muitas vezes encontravam desculpas para anular seus votos de casamento ou viver o resto de seus casamentos fracassados em vez de deixar seus cônjuges. 

Ninguém suportaria a vergonha de entrar em um tribunal de divórcio. Uma vez que seu filho fosse legalmente reconhecido, seu bebê serviria para sempre como prova do casamento de Inês e Cássel. Mesmo que se divorciassem, pelo menos um Valeztena estaria para sempre entrelaçado com a família Escalante. 

Como neto tanto do Duque Escalante quanto do Duque Valeztena, essa criança ligaria para sempre as duas famílias, servindo às intenções originais do casamento e deixando a Inês uma desculpa ainda melhor para partir. 

Se Sua Majestade permitir... Alfonso pensou consigo mesmo.

— Pelo menos, a senhora não está se divorciando do Lorde Cássel porque o despreza... — disse ele em voz alta.

— O que o faz pensar isso? — perguntou Inês.

— Porque... — Porque a senhora olha para ele da mesma forma que ele olha para a senhora... Mas Alfonso sabia que sua vida já estava por um fio, então não podia dizer o que pensava. Sob quaisquer outras circunstâncias, Alfonso teria relatado tudo o que sabia ao Duque Escalante assim que descobrisse o segredo de Inês. Mas duas coisas o impediram: a primeira era como Cássel olhava para ela, e a segunda era como Inês olhava para Cássel.

— Porque? — Inês incentivou quando Alfonso não continuou. — O que o faz ter tanta certeza de que não desprezo Cássel?

— Bem... eu...

— Eu já lhe disse que planejo me divorciar dele.

— Simplesmente se tornou aparente com o tempo... — ele murmurou.

— Então, de repente você esteve prestando atenção esse tempo todo?

— Vocês dois são gentis um com o outro...

— Mas como pode ter certeza de que meus sentimentos são genuínos? E se eu for simplesmente uma excelente atriz?

— Isso não parece provável... — Alfonso se interrompeu, recuando um passo por sua imprudência impensada. Para sua sorte, Inês não parecia zangada. Ela nem estava mais olhando para ele. Ela estava olhando para o nada, a expressão suave e desprotegida — obviamente pensando em Cássel. Alfonso sabia que um vislumbre de tristeza logo surgiria — em sua mente, mais evidência do quão profundamente Inês se importava com Cássel. Ela podia não ter o mesmo brilho de obsessão, mas Cássel ficaria feliz em receber qualquer afeto de Inês. 

— Pelo menos, a senhora está pensando em Sua Senhoria, se nada mais...

— Sim, suponho — disse Inês secamente, voltando sua atenção para ele. — Agradeço sua percepção.

— Percepção, minha senhora?

— De que minha atuação é convincente demais.

Alfonso franziu a testa antes de rapidamente controlar suas feições.

— Ah, sim, bastante... — Ele tossiu. — Em todo caso, minha senhora deixou claro que gostaria de um divórcio, de qualquer maneira.

— Então, você não é totalmente sem esperança. Pena que não se aplica a nada útil. Ainda assim, astuto é astuto, mesmo vindo de um imbecil.

— Obrigado. — Alfonso engoliu em seco. — A senhora tem certeza absoluta sobre o divórcio?

— Talvez a insolência nunca melhore com a idade — observou Inês com um sorriso afetado, fazendo Alfonso se encolher. Então ela murmurou: — Dezessete anos.

— Perdão?

— Eu pensei sobre o divórcio nos últimos dezessete anos. Eu diria que é deliberação suficiente. — Sua resposta apontou várias falhas em seu argumento. Dezessete anos atrás, ela tinha apenas seis anos de idade. Dezessete anos atrás, ela havia selecionado Cássel Escalante por sua aparência marcante e firmado um noivado.

— A senhora... — Alfonso começou cautelosamente. — Este foi seu plano desde o início? — Se tivesse sido, seria muito mais condenatório do que qualquer doença. Ele recuou diante da pura malícia de tudo aquilo.

Inês apenas o encarou de volta, impassível.

— Agora você vê a verdadeira extensão dos meus pecados.

— Mas... mas ele... Como pôde fazer isso com ele?

— Ele receberá uma recompensa adequada.

— Como?

— Como ele quiser — disse ela levemente. — A criança pode ser parte disso, embora ele possa exigir um filho. Ele provavelmente vai querer um herdeiro para evitar ser acorrentado a outro casamento... Se for esse o caso, é melhor eu rezar por sorte. Espero poder conceber um filho nos próximos quatro ou cinco anos.

A cabeça de Alfonso começou a doer.

— Minha senhora, eu devo protestar. Como pôde fazer isso com ele, sabendo como ele se sente em relação à senhora? Pior, a senhora planeja abandonar seu filho pequeno!

— Não olhe para mim assim. Eu nem sequer carreguei a criança ainda. E não é como se eu a estivesse deixando na rua para se virar sozinha. Ela ficará com os Escalantes em Esposa. Cássel e eu podemos nos revezar cuidando dela lá, ou eu posso criar nosso filho sozinha se ele não quiser. Então, Cássel pode viver tão promiscuamente quanto quiser, e o herdeiro Escalante pode crescer em Esposa e passar tempo em minha futura propriedade. Nosso filho não se sentirá como um órfão.

Alfonso se perguntou quão profundos eram os planos dela.

— O Lorde Cássel sabe sobre isso...? — ele perguntou.

— Ele não sabe de nada — respondeu Inês. — Ninguém sabe. Nem mesmo Raúl.

— Então, por que está me contando?

— Porque todos que são leais a mim me negariam o que eu quero.

Qualquer um em sã consciência negaria isso a você, pensou Alfonso.

Inês ofereceu sua xícara vazia, e Alfonso serviu seu chá obedientemente enquanto fervia em silêncio.

— Independentemente de quão lastimavel você seja — ela continuou — não podemos mudar o que já aconteceu. Em vez disso, precisamos nos adaptar. Você é, antes de mais nada, leal à família Escalante, não a Cássel como indivíduo. É por isso que você não podia me suportar e suas ameaças são vazias. E é por isso que eu tenho você e a família que você serve à minha mercê.

— Mas a senhora disse que não tocaria neles...

— Contanto que você não me traia, não deveria se importar se eu ameaçar você ou sua família inteira — Inês disparou. Ela o olhou nos olhos, assustadoramente impassível. — Don Alfonso, você é a primeira e única pessoa a saber do meu plano. De certas maneiras, você é outro homem que teve o meu "primeiro".

Aos olhos de Alfonso, Inês havia se tornado um pesadelo vivo do pior tipo. Em vez de aprender um segredo crítico, ele se sentia à mercê dela por saber demais. 

Mesmo que tentasse falar sobre o que ouviu hoje, ninguém acreditaria em uma história tão ridícula. Ele apenas assentiu, tentando se convencer de que os planos mirabolantes de Inês nunca seriam realizados. Ele decidiu concordar com o que ela queria por enquanto.

 Sim, isso era muito mais seguro. O que poderia dar errado?


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Comentários

  1. No fim fiquei com dó do mordomo…: Qualquer um pensaria que a Inês está louca kkkkkkk

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