Capítulo 94 — Suportando Mendoza
" ... Pelo contrário, não teria sido a Lady Inês quem cometeu adultério com o primo de Montoro e trouxe essa doença imunda para sua Alteza, Oscar? Sei que você teve uma relação muito "especial" com aquele cavalheiro. Pergunto-me como consegue enganar a si mesma, posando de inocente até o fim, apenas por ressentimento contra seu marido."
Um dia, nesta mesma sala, elas estavam se encarando. Mais perto do que agora. Olhando-se como se fosse impossível se odiarem mais.
As mulheres que se vendiam nos becos, ou as doenças nojentas que contraíam, não eram a vergonha de Oscar, mas ela? Quão ridículo é o viés do ódio. Todo o rancor que havia se acumulado por causa de Oscar foi subitamente direcionado àquela mulher que pronunciara apenas algumas palavras naquele momento.
"Seu marido é alguém que ascenderá ao trono no futuro. Não bastou monopolizá-lo com esse corpo inútil, que nem sequer conseguia gerar um herdeiro, então você abriu as pernas para estranhos como uma puta. Como ousa trair sua alteza Oscar? Você me dá nojo! Era natural que a criança não vingasse. Não deveria ter crescido para produzir apenas coágulos de sangue mortos. Você já estava sendo punida. Agora tudo faz sentido: você está amaldiçoada. O ventre da mãe estava sujo, por isso nenhuma das crianças cresceu e todas escaparam..."
Pelo menos naquele momento, Inês quis matar aquela garota mais do que a Oscar. Mais do que toda a dor que Oscar lhe causara. Bem. Ela se lembrava disso. De quantas vezes houvera momentos assim.
Assim como o ressentimento e a raiva, que antes eram dirigidos apenas a Cayetana, foram engolidos por uma única palavra de Oscar num instante. Assim como aquelas poucas palavras sujas cuspidas em seu rosto às vezes a faziam odiar Alicia mais do que odiava Oscar abrindo suas pernas à força para estupra-lá repetidamente.
Às vezes, bastavam algumas palavras para fazê-la querer matar alguém. Seu temperamento nunca foi tão instavél quanto nessa época.
"Se a esposa não o tivesse expulsado do quarto e deixado-o sozinho em primeiro lugar, será que sua Alteza Oscar teria colocado os pés naquele lugar imundo? Se a mulher dele o amasse, ele teria precisado do consolo daquelas prostitutas?"
Inês também sabia que, às vezes, Cayetana usava as amigas dela para tramar planos disfarçados de coincidências. Anos antes, Alicia vomitara seu amor desesperado por Oscar e revelara sua verdadeira natureza, como um cão ladrando em defesa do dono. Embora Cayetana soubesse que nada daquilo era verdade, ela apenas observava e a encorajava, como se achasse tudo interessante.
Ainda assim, Alicia era uma mulher que sempre sorria amavelmente, com uma cara de quem não sabia de nada, sempre que via Inês. Ela carregava nas costas a proteção da imperatriz que odiava a própria nora.
Parecia que a antipatia de Inês provinha de especulações ignorantes. Como se Alicia tivesse algo a ver com Oscar...
No entanto, Inês sempre a manteve fora de sua vista por um tempo, porque, no final das contas, ela não importava tanto assim.
Oscar não olhou para Alicia nem por um momento, e embora Cayetana gostasse muito dela, às vezes ela parecia apenas um cãozinho de estimação fofo. E não demorou muito para que Inês pisotiasse seu plano grosseiro.
Inês olhou para a fonte de todo o problema durante anos. Afinal, era Cayetana quem controlava aquela garota. Porque você está tentando me insultar usando essa mulher... O ódio e a aversão não deviam ser desperdiçados em ferramentas. Ela odiava Alicia Ilhar, mas nunca lhe deu muito valor.
Talvez Alicia também soubesse disso.
"O problema não era que Sua Majestade, o Príncipe Herdeiro, considerava seu próprio corpo precioso demais? pensou Inês, amargamente. Como futuro imperador, ele sentia que podia impor qualquer desejo a uma mulher."
Alicia nunca perdoou Inês.
Aos seus olhos, a esposa de Oscar não apenas desvalorizava a si mesma, mas cometia o sacrilégio de se recusar a curvar a cabeça diante do Príncipe Herdeiro — o homem a quem Alicia ofertava um amor tão vasto quanto o céu. Ela não fazia ideia de que Oscar havia quebrado Inês justamente porque ela não se curvava; ignorante dessa crueldade, Alicia não suportava aquela altivez."
"Se você considerasse uma honra receber os desejos dele, Sua Alteza nunca teria abraçado prostitutos imundos."
A verdade distorcida transbordava daquelas palavras passadas. Mesmo vendo Oscar se afogando na lama, Alicia o adorava como o ser mais nobre do mundo. A realidade suja e a fuga de Oscar, que parecia o homem perfeito, também deviam ter sido uma decepção para Alicia. Mas, em vez de se decepcionar com ele, ela abrigava um amor cego, quase religioso, que culpava a esposa por todas as falhas dele.
Até Cayetana, devota ao filho, devia se perguntar se algum dia conseguiria superar esse tipo de adoração cega. Pelo menos, Cayetana foi sensata o suficiente para proteger o filho quando ouviu o nome da doença vergonhosa de Oscar.
De fato, Oscar considerava o amor de Alicia assustador o tempo todo. Portanto, qualquer amor, não importa o quão profundo, torna-se uma tragédia quando não é desejado.
— Seria bom se Alicia também pudesse chamar a atenção de nosso Príncipe Herdeiro — disse Cayetana no presente, rompendo o devaneio de Inês.
Mesmo depois que a vida e o destino mudaram, algumas coisas permaneciam iguais.
Inês engoliu o cinismo ao ver Cayetana saborear aquelas palavras com falsa piedade. O amor de Alicia continuava sendo trágico, e a Imperatriz, que um dia a "protegeu", agora a expunha.
— Não sou suficiente... Sinto muito, Imperatriz Cayetana — murmurou Alicia, de cabeça baixa.
— Como você pode culpar o Príncipe Herdeiro por conhecer apenas os assuntos de Estado e ser indiferente às mulheres? — continuou Cayetana. — É uma bênção para Ortega que ele não se interesse por frivolidades femininas. No entanto, preocupo-me com a linhagem após o casamento.
Ela olhou para Alicia com um desdém velado.
— Eu não a vejo como uma mulher, de forma alguma.
A mulher que se casasse com o filho dela seria o tipo que ele acabaria odiando no final. Mas, contanto que houvesse um título para cobrir a calúnia, estava tudo bem.
Alicia sempre fora obediente e lisonjeira com a Imperatriz, como se fosse a própria língua em sua boca, e desta vez não deve ter sido diferente. Tanto quanto adorava Oscar, ela também adorava a mãe que dera à luz ao "grande" Oscar.
Então, se algo mudou, será que desta vez Alicia será a esposa do "belo filho".
Talvez fosse por isso que a Imperatriz mencionara o casamento de Cássel Escalante — a quem tanto preza — logo no início. Não era Inês a quem ela queria humilhar.
— Eles estão noivos desde a infância, então pode ser um pouco difícil se verem como homem e mulher — interveio a Marquesa Barca, tia de Alicia, como se arbitrasse a situação. — Meu marido também era assim. É vergonhoso dizer, mas meu marido e eu convivíamos de maneira diferente antes de nos casarmos. Mas, depois de casar e nos tornarmos um verdadeiro casal, obviamente nos vemos de forma diferente. Não é assim, Inês?
Inês sorriu levemente diante das palavras ditas pela Marquesa.
— Sim. Veja só o exemplo deles. — Ela continuava falando olhando para Inês buscando apoio — A propósito, o Tenente Escalante e a senhora estão juntos desde muito jovens, certo?
— Seis anos de idade. Acho que ele era mais como um amigo de infância do que como um noivo. — respondeu.
— Lembro-me do brinde naquele dia como se fosse ontem. Ambos eram muito fofos... A jovem senhorita não atormentou o jovem lorde no dia? Realmente me faz rir quando penso nisso de novo.
Alicia fora escolhida como noiva de Oscar quando este tinha onze anos, mas o noivado oficial demorou muito. Qualquer um na corte sabia que tanto o noivado quanto o casamento haviam sido adiados devido à recusa do Príncipe Herdeiro. Então, o fato de que "apenas tal coisa" (a falta de interesse dele) não fosse um problema, era sabido por todos ali.
Inês continuou, olhando para Alicia com um semblante amável, enquanto a outra ocupava aquele lugar que outrora fora seu, suportando o desprezo sem ter qualquer autoridade para se defender.
— Como disse a Marquesa Barca, depois do casamento, tudo será diferente. Além disso, na minha opinião, os dois [Alicia e Oscar] se dão muito bem, sem nada a criticar um no outro... Acredito que o discernimento de Sua Majestade ao fazer essa escolha pela primeira vez foi o mais preciso. — Inês elogiou tentando encerrar o assunto.
— E o que se faz quando essa percepção muda? — perguntou Cayetana a Inês, com um sorriso nos lábios.
— Ninguém conhece um filho melhor do que sua própria mãe.
Inês está usou a vaidade da Imperatriz contra ela mesma: se Cayetana criticar Alicia agora, estará admitindo que cometeu um erro ao escolhê-la. Considerando a relação repugnante entre mãe e filho, não havia necessidade de fingir.
Satisfeita com a resposta de Inês, a Imperatriz sorriu e voltou sua atenção para Alicia. O que tornava Alicia ainda mais "defeituosa" naquela situação era o fato de Inês ter cortado o assunto, garantindo que a culpa recaísse unicamente sobre o erro da própria Imperatriz em escolhê-la.
Claro, ver o rosto miserável de Alicia não fez o ódio dos velhos tempos diminuir ou se dissipar. Se Inês sentisse qualquer pena por aquilo, teria duvidado de sua própria sanidade.
O prazer secreto que pairava sob o rosto perfeitamente belo de Cayetana fez o estômago de Inês revirar. Era a mesma expressão que aparecia sempre que ela intimidava a mulher de seu filho.
— Estive em Calztela algumas vezes — disse Alicia de repente, voltando-se para Inês. — Talvez por isso, enquanto ouvia sua explicação mais cedo, senti como se o cenário daquele lugar estivesse se desenrolando diante dos meus olhos...
— Ah.
— Já se passaram mais de dez anos desde que meu tio foi designado para lá. Tenho lembranças de ir em um cruzeiro com meus pais quando ainda eram vivos. Depois da morte da minha mãe, minha tia vinha frequentemente a Mendoza por minha causa, mas, quando ela estava em Calztela, meu tio se sentia sozinho, então às vezes eu o visitava. Os dois diziam que era um longo caminho para alguém de corpo frágil como o meu, mas...
— Como você tem um corpo muito magro, deve haver muita pressão na viagem, claro. — completou Inês cortando a frase.
Como Inês assentiu em um tom sutil que claramente não era um elogio, Alicia apenas sorriu. Quando a comida chegou, a conversa se dispersou em pequenos grupos.
E Alicia aproveitou para "arrebatar" Inês de Isabella, com a mesma habilidade com que tentara arrebatar Oscar no passado, derramando palavras não solicitadas em um tom amável que soava como tortura. As circunstâncias tristes da família Barca, a história dos pais pobres que morreram sem um filho homem, a dor de seu corpo frágil...
Se ela continuar sem tocar na comida desse jeito, vai acabar conseguindo o que quer, pensou Inês, observando o prato intocado de Alicia com um olhar crítico.
— O Marquês de Barca gostava tanto do sobrinho dele que ouvi falar muito da senhorita quando estava lá — continuou Alicia, ignorando completamente o desinteresse de Inês. — Ele costumava me dizer: "Você é o orgulho dos Barca, a mulher que se tornará a Princesa Herdeira no futuro."
Inês já ouvira o suficiente e quis encerrar aquilo. No entanto, ao pronunciar a palavra "Princesa" referindo-se a si mesma, Alicia sorriu com um rosto brilhante e ensolarado, puxou a cadeira e sentou-se ainda mais perto.
— Tenho vergonha de dizer isso. Além do mais, para a única senhorita que o Senhor Oscar cortejou...
— Isso foi apenas quando eu tinha seis anos. Sua Alteza tinha apenas dez anos.
Quando Inês a cortou secamente, Alicia ergueu as sobrancelhas com pena.
— Claro que sim. O que uma criança saberia? — Alicia riu um pouco, achando divertido que o príncipe fosse descartado com tanta indiferença, como uma simples criança.
Elas estavam perto demais, e o sorriso suave no rosto dela a enojava.
Inês deu uma mordida no biscoito com a cara de quem havia perdido o apetite.
— Ainda assim, o fato de que a senhora foi a única pessoa que o Senhor Oscar escolheu e desejou não desaparece. Além disso, desde muito jovem, Sua Alteza foi excepcionalmente inteligente, como um adulto, e seu julgamento provavelmente estava correto...
— Tal suposição é uma falta de respeito. Tanto para a senhorita quanto para mim.
— Oh, desculpe...
O rosto de Alicia voltou a demonstrar vergonha. Pedir perdão era como um hábito do qual ela nem se dava conta.
Tenho memórias vívidas de vê-la fingindo ser gentil, fingindo ser mansa enquanto tremia de ódio, mas não tenho lembrança de vê-la tão servil, nem por um momento...
Inês olhou novamente para Alicia. Ela parecia a imagem mais desagradável do mundo ao ver Cayetana conversando carinhosamente com sua mãe, a Duquesa Valeztena. Desta vez, parecia que haviam matado completamente seu espírito desde a infância. Não dava para saber o que restava lá dentro.
Com a intuição de que a situação deveria ser resolvida assim, a avaliação da Imperatriz — que fingia cuidar de Inês, que se mantinha ereta e impassível sem aviso prévio — foi mais uma vez surpreendente.
— Sinto muito. Em breve, será a senhorita quem terá uma missa de casamento com o Príncipe Herdeiro — disse Inês.
— Sinto que cometi um erro sem saber...
— Claro, foi grosseiro. Até para o meu marido.
— Ah. Sim. Para o Capitão Escalante também.
— O "nós" já é correto e perfeito, Senhorita.
Inês declarou com um rosto frio e graciosamente girou a água na boca como se fosse vinho. Parecia que o resultado da escolha "correta" não era comparável entre Cássel Escalante e o noivo dela [de Alicia], que tinha apenas dez anos na época.
— Certo. Fiquei tão impressionada quando vi vocês dois na missa de casamento da Senhora Inês. Eram um casal perfeito.
— A senhorita também é um par muito bom para Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro.
— Mesmo que ele me trate assim... Sua Alteza e eu, somos como vocês dois...
— Pode confiar em mim. Oscar e a Senhorita estão juntos pelo destino.
Ela ainda tinha uma expressão fria no rosto, mas por isso parecia mais sincera e honesta. Não havia fingimento ali.
Mas. Desde o início, não pode haver fingimento em palavras que são puramente sinceras...
Eles estavam condenados desde o início. Tinha que ser o destino. Inês olhou em silêncio para os olhos azul-escuros de Alicia.
Cabelos louro-escuros e cacheados, com belos olhos azuis. Um corpo pequeno e um rosto redondo, moderadamente bonito. À primeira vista, a impressão de ingenuidade escondia qualquer traço da velha teimosia.
Era curioso: ela fora tão orgulhosa ao se agarrar a Oscar, dizendo que aceitaria ser sua amante, mas agora, sentada no lugar reservado à esposa de Oscar, olhava ao redor com insegurança. Não havia como ela ser uma pessoa diferente do que era naquela época em termos de amar Oscar, mas, pelo menos...
— Posso assegurar-lhe que não há mulher em Mendoza que combine melhor com ele do que a Senhorita Barca.
As bochechas de Alicia, incapazes de esconder o rubor, tingiram-se de timidez. Bem. Ela estava bastante sedenta de reconhecimento. Numa posição onde mal se aguentava em pé, sendo vigiada Cayetana do início ao fim, cada palavra dessa lisonja — que qualquer um poderia dizer da boca para fora — era dolorosamente necessária. Mesmo que, por dentro, ela fosse apenas uma fanática repugnante.
Ainda assim, tudo era verdade. Então Deus não tinha outra escolha a não ser entregar Oscar àquela louca.
— Obrigada. O dia em que finalmente nos casaremos se aproxima, mas estou começando a perder a confiança... É por isso que invejo a Senhora Inês.
— Aquele que se tornará a família real no futuro pertence à senhorita — respondeu Inês, com uma expressão inexpressiva, desviando o olhar.
Alicia balançou a cabeça, negando.
— Ele não é meu, Senhora Inês. Pertence à nobreza.
— Claro. Pertence àquela que em breve se tornarão a Princesa Herdeira e, num futuro distante, a Imperatriz.
Isso também foi sincero, embora seu discurso fosse impiedoso. Se Alicia Ilhar pudesse se contentar apenas em viver com o Oscar que tanto desejava, Inês estaria perfeitamente disposta a tratá-la como uma nobre superiora, chegando ao ponto de fingir que não tinha a audácia de fazer contato visual com alguém de tamanha posição.
— É estranho a senhora dizer isso. Não acho que chegará o dia em que a Senhora Inês se sentirá confortável como minha subordinada, mesmo se eu me tornar a Princesa Herdeira...
— Mas a posição faz a pessoa. — disse implicando que quando Alicia virar Princesa, a respeitará por causa do cargo, não por causa da pessoa.
Inês afastou a taça dos lábios e respondeu sem olhar para Alicia. Não houve falsa humildade para negar, nem palavras de encorajamento dizendo que ela se sairia bem. Simplesmente parecia ser a verdade nua e crua.
Alicia assentiu seriamente.
— Como a senhora disse, devo tentar me adequar ao meu lugar... Ainda assim, invejo a Senhora Inês. Como é viver com um homem a quem a senhora ama tanto? Como é a sensação de se amarem?
— ...
— Os rumores de Calztela continuaram correndo em Mendoza. Todos estão ansiosos para saber onde Inês aparecerá. O Capitão Escalante estará aqui em breve, certo? Tenho muita vontade de ver vocês dois parados um ao lado do outro. Quão doce você será?
— ...
— Sempre vi a Senhora Inês de longe, e pensei que fosse uma pessoa difícil... Mas a senhora é mais gentil do que eu pensava, e é amável...
Era uma voz tão tênue que, se não se prestasse atenção, mal se ouvia. Inês estava alheia e nem sequer tentou escutar; desde o momento em que Alicia mencionou "Calztela", Inês parou de processar as palavras e sua mente foi transportada para outro lugar.
De fato, as últimas semanas tinham sido assim. Sempre que Inês ouvia uma voz indesejada na corte, ela rapidamente imaginava o som das ondas de Calztela ou o bater do casco de um barco. Ela colocava a mente em outro lugar e ouvia apenas o zumbido das palavras... E, naquele momento, a praia ao entardecer, onde caminhara com Cássel após a missa, estendia-se diante de seus olhos.
Depois que o casamento daquele bastardo e desta fanática tiver passado...
— ... E esses brincos de diamantes. São tão bonitos... Desde o momento em que a senhora entrou, fiquei olhando para as orelhas da Senhora Inês. O artesanato elegante e esplêndido realmente lhe cai bem, a senhora tem um olho inato...
A menção lisonjeira de Alicia aos brincos rompeu o som imaginário das ondas. Eram as joias que Cássel escolhera quando praticamente saqueara uma joalheria inteira para levar à residência.
Inês detestava a voz de Alicia, mas os brincos que Cássel lhe dera eram bonitos o suficiente para serem dignos de um Valeztena, então Inês sorriu cortesmente enquanto tocava as joias.
— Isso é um presente do Capitão Escalante? A senhora usa esses brincos desde que chegou a Mendoza...
A filha do Marquês Karlsada, que de repente se aproximou delas, perguntou cuidadosamente.
Inês assentiu, e as outras se reuniram ao seu redor para examinar o presente de Cássel. A barreira social desmoronou com apenas um sorriso... Inês sentiu um gosto amargo na boca, pensando em como até a atenção daquelas pessoas erradas parecia manchar as coisas que ela apreciava.
Houve um tempo em que diziam que era uma questão de dignidade um casal não demonstrar amor. Mas, quando Inês não desmentiu os rumores sobre Calztela, uma risada cúmplice explodiu entre elas.
Diziam que Cássel Escalante era o amor encarnado. Que Inês Valeztena era o amor... Embora os dois nomes tivessem significados completamente opostos no passado, agora eram murmurados juntos no mesmo fôlego. Falavam sobre o olhar apaixonado de Cássel Escalante, enquanto lançavam olhares para ela, às vezes carregados de profunda inveja.
Todos ao seu redor riam das respostas ousadas de Inês. Agiam como se sempre tivessem sido íntimas dela.
A Duquesa Valeztena olhava para a filha como se, finalmente, tudo estivesse correndo bem.
O que significava que as coisas não ficariam bem por muito tempo.
Inês percebeu que Alicia sustentava apenas um sorriso desconfortável nos lábios, incapaz de ocultar o olhar um tanto lúgubre e abatido.
Como se tivesse engolido um espinho, uma sensação de desagrado tomou conta dela. Era hora de mudar o foco dos pensamentos. Sim, voltar-se para aquele presente de Cássel que ela vinha contemplando há semanas.
✽ ✽ ✽
— Além do mais...
Assim que a porta rangeu ao abrir, a expressão do proprietário se nublou ao verificar o rosto do cliente. Cássel deu um leve tapinha no ombro dele e o encarou. Joalheria e Casa de Penhores da Dona Angélica. Já fazia vários dias que ele visitava o local pessoalmente, e não mais enviava Raúl.
O proprietário dissera que esperaria o contato do dono original, mesmo que demorasse, mas devido à pressa recente, o valete dos Escalante entrava e saía da joalheria repetindo ameaças e tentativas de conciliação. Então Cássel apareceu, dizendo: "Só soube dos excessos do meu subordinado agora." Começando pelo fato de ter vindo pessoalmente se desculpar, Cássel Escalante era uma figura imponente.
— O senhor veio de novo hoje, Capitão Escalante.
— Encontramo-nos novamente, Don Rossano.
Os olhos de Cássel, ignorando a saudação, percorreram as prateleiras com um ar cerimonioso. O proprietário descansou a testa na mão por um momento, exausto, e então ergueu a cabeça quando Cássel se aproximou do balcão.
— ... Prefere que eu o ameace? — perguntou Cássel, com voz calma.
— Eu gostaria de respeitá-lo, Capitão. O senhor é alguém que mantém sua palavra, o que é raro neste mundo cruel — retrucou o dono, tentando manter a dignidade.
— Você continua testando minha paciência.
— ...
— Não importa como se olhe, parece que estamos desperdiçando tempo aqui justamente porque o senhor, Don Rossano, se recusa a falhar no teste de integridade.
— ... Capitão—
— Então, por favor, quando o dono original aparecer, diga a ele que foi forçado a fazer isso.
Como cortesia final, o proprietário retirou a caixa e revelou o medalhão de olivina, murmurando perturbado. Meu Deus. O homem distinto à sua frente estava fazendo uma nova exigência, diferente da de ontem: "Em vez de vender o item à revelia, apenas me revele a identidade do proprietário."
Don Rossano se perguntava qual seria o mal nisso. Era uma honra excessiva — e um trabalho árduo demais — ter que atender uma pessoa tão preciosa dia sim, dia não.
Não era como se o item fosse desaparecer, mas ele começou a questionar sua própria teimosia. Os Escalante certamente seriam muito melhores em localizar pessoas do que um simples joalheiro deste porto...
Além disso, se a morada atual do dono fosse um lugar onde pessoas comuns não pudessem sequer pôr os pés, a busca de Rossano seria inútil.
Na realidade, Don Rossano nem sequer sabia o nome ou o endereço atual do proprietário que lhe confiara aquelas coisas. Cássel já havia deixado um sinal enorme, o suficiente para comprar metade da loja... Era a crença de Don Rossano que ele deveria receber o dinheiro e manter o contrato, não importasse quanto tempo levasse. Mas, para ser honesto, tratar aquele jovem plebeu [o dono original] e o oficial à sua frente como se fossem o mesmo tipo de cliente seria ignorar a realidade das coisas.
Na verdade, era quase misericordioso da parte dele pressionar apenas pelo nome, em vez de usar o nome Escalante para confiscar a mercadoria à força.
— Não seria mais conveniente se nós déssemos a explicação diretamente a ele? — sugeriu Cássel.
— Então por que não leva esta coisa de uma vez? Tome-a à força com seus soldados. Não seria mais fácil do que me forçar a quebrar meu sigilo?
— Não posso roubar de alguém um presente para minha esposa.
Com sua insistência tenaz e esse caráter supostamente íntegro, Cássel tornava a situação exaustiva. Don Rossano suspirou.
— ... O senhor cometeu algum pecado grave contra a Senhora e o prazo para se desculpar está acabando? É por isso a pressa?
— Quem dera fosse isso.
— Não é?
— Minha mente está ocupada. Em breve, ela partirá para Mendoza com as damas.
Enquanto trocavam aquelas palavras leves, o rosto de Cássel, que estivera inexpressivo o tempo todo, de repente se suavizou e relaxou. Mesmo olhando para o mesmo sujeito rabugento, o rosto dele parecia desumanamente belo ao pensar nela. Don Rossano perdeu o fio da meada por um momento, observando a mudança no rosto de Cássel, depois olhou para o medalhão e conseguiu recobrar o juízo.
— É porque não posso ir ver minha esposa de mãos vazias.
— ...
— Claro, mesmo se eu descobrir o nome dessa pessoa agora, se eu não o encontrar antes da viagem, inevitavelmente terei que deixar isso de lado e comprar outros presentes.
— Então olhe ali. O que posso mostrar ao senhor como um presente substituto para a Senhora...
— Don Rossano. O nome do proprietário.
— ...
Don Rossano engoliu o resto de sua resistência.
— ... Originalmente, ele era um pintor da família Garcia. No entanto, nesse meio tempo, também tentamos contatá-lo, mas nenhuma resposta voltou. Recentemente, enviamos várias pessoas para investigar... Disseram que ele se mudou para Bilbao.
— Bilbao?
— Pelo que ouvi, a história é um pouco vaga e não sei se é verdade, mas dizem que ele agora está sob a tutela do Arcebispo de Bilbao. Disseram que o próprio Arcebispo descobriu seu talento, e ele está trabalhando em uma tarefa muito sagrada, a construção de um novo templo. Também disseram que não havia como a correspondência externa chegar a ele devido à natureza do trabalho...
Cássel encarou o medalhão na caixa por um tempo, com os olhos estreitados. Então ele silenciosamente levantou a cabeça e disse:
— Eu não sei o nome dele.
— Ah. É Emiliano.
Não aguento ver meu casal separado e esse monte de cobras ao redor da minha Inês u.u
ResponderExcluire temos um Cassel que está descobrindo coisas. Oremos!!
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