Capítulo 97 — As Cartas
— O que diabos a senhora está fazendo? Mal chegou e já está pondo tudo para fora desse jeito...
Enquanto Inês empurrava o jarro que estivera segurando o tempo todo, Juana, que limpava suas costas por trás, piscou para a criada para que levasse a sujeira.
— Só assim não sobrará nada lá dentro. É um desperdício ter jantado na corte, no fim das contas.
— ...
— Aqui está a água. Beba um pouco primeiro. A senhora está pálida.
Ela mal conseguiu engolir alguns goles e estendeu o copo novamente. Juana suspirou profundamente, pegou-o, e Inês agachou-se ao lado dela, inclinando-se.
— Estou bem, Juana. Estou bem...
— ... A senhora tem certeza de que não está grávida? Nunca a vi vomitar tanto assim em anos. Além disso, já faz um tempo desde que a senhora voltou para Mendoza, e a situação ainda deixa muito a desejar.
— Não. Eu sei que não.
Inês frustrou as expectativas de Juana de uma só vez.
— Mas nunca se sabe. Hoje, a Duquesa Valeztena estará fora da residência o dia todo. Por que não vamos até a casa dos Valeztena e chamamos Angelica para dar uma olhada?
— O médico designado pelos Escalante já disse que não havia esperança desta vez.
— Ele disse isso apenas por dizer. No início, nunca se sabe ao certo.
— ... Não quero criar expectativas.
Era como dizer que não queria se decepcionar tão cedo. Certo. Ela não podia se dar ao luxo da decepção. Bastava a mera lembrança daquele desejo doentio para que tudo se tornasse terrível, causando-lhe uma aflição física, como se um enxame de formigas rastejasse por todo o seu corpo.
Lembrar-se de Oscar a deixava enjoada. Onde quer que o olhar cobiçoso dele tivesse pousado, parecia que o mesmo ar que ele exalava invadia os pulmões dela, sufocando-a, e a pele que ele tocara ardia com a memória de sua posse repulsiva.
Ele é apenas um ser humano que não sabe de nada. Um homem sem memórias. Ele não tem mais o poder de me machucar. Ele não pode mais me acorrentar.
Você nunca mais poderá me matar.
Ela repetia isso para si mesma como um mantra, respirando com dificuldade, como se tivesse acabado de escapar de um incêndio. O fato de Oscar ser ignorante sobre o passado causava-lhe uma mistura de náusea e desilusão, mas, acima de tudo, um profundo alívio. Ela preferia assim. Preferia que todo o passado fosse descartado.
Pelo menos, enquanto ele não se lembrasse, aquele bastardo da vida passada não existiria mais em lugar nenhum do mundo dela.
Mas, por outro lado, se ao menos ele agisse como a mesma pessoa de antes... Se ele se revelasse logo como aquele ser desumano daquela época...
É verdade que ele não tem as memórias, mas se ele fosse abertamente o mesmo monstro do passado, pelo menos ela saberia onde depositar seu medo. Mas agora, ele desconhece a própria natureza, e apenas ela carrega o fardo de saber quem ele realmente é.
Por que ele age como uma pessoa completamente diferente, com aquele ar de inocência da "primeira vez"? Aquele rosto... olhando para ela com a mesma máscara gentil daqueles breves dias em que fingia ser um "marido" devoto...
Inês levantou a cabeça bruscamente, como se quisesse fugir dos próprios pensamentos.
— Alguma notícia de Calztela?
O olhar de preocupação desapareceu repentinamente do rosto de Juana.
— Raúl enviou um relatório à senhora há apenas cinco dias, minha senhora.
Juana não ousou provocá-la abertamente, pois Inês estava pálida, mas seu olhar a observava com uma seriedade julgadora.
— Claro, e a diligente Dona Arondra enviou algo que mais parece um bilhete.
A carta de Arondra era tão concisa e curta que mal podia ser chamada de carta, considerando a longa distância que viajou. Dizia coisas como "Ele está cheio de energia e desimpedido". Era óbvio que Arondra nem sequer sabia que Cássel havia adoecido ou desmaiado.
— Deixei a carta ali. Gostaria que eu a trouxesse e lesse para a senhora?
— Não precisa.
Inês deitou-se no braço do sofá, encolhendo-se e deixando o cabelo cair solto. Sentia-se um pouco melhor agora que a náusea passara. O lado imundo da corte e as memórias de Oscar tornaram-se um ponto distante à medida que ela se esforçava para recordar a aparência de Cássel [ao invés da de Oscar].
Era como se um vento soprasse de repente em sua cabeça e levasse tudo embora.
— ... Eu não estou curiosa sobre Cássel — murmurou ela.
— O que mais seria? — rebateu Juana.
A resposta veio rápido demais. Inês inclinou a cabeça para o lado e olhou para Juana.
— Só... Já é hora de enviar uma carta para Calztela.
— Então a senhora está com saudade?
— Não é que eu esteja triste ou com saudade. Não é apenas o que se espera de alguém que quer ser uma boa esposa?
— Desde quando a senhora age assim?
Inês olhou feio para Juana, que a estava alfinetando, por um momento, sem conseguir sustentar a sinceridade, e então se levantou.
— É apenas que... sinto pena dele por ter uma esposa tão insensível.
— Cássel não precisa da sua pena — retrucou Juana.
— Então, suponho que ele simplesmente não tivesse perguntas. Assim como eu, que já ouvi de Raúl sobre cada passo dele, ele provavelmente já sabe tudo sobre mim sem precisar perguntar.
— ...
— Como eu nunca fiz perguntas sobre meu marido antes, ele não viu motivo para enviar cartas agora.
— Juana, vamos para a casa dos Valeztena.
— De repente?
— Quero que você recupere as cartas que Cássel enviou durante a expedição de guerra.
— Eu irei buscá-las. A senhora ainda está pálida demais para sair.
Parecia irracional ousar escrever uma nova carta para Cássel Escalante sem antes olhar para trás, sem nem mesmo ter lido as cartas que ele enviara durante a guerra. Ele fora alguém que dera o seu melhor e sobrevivera por conta própria, enquanto ela o ignorava. Ela precisava ler o passado antes de escrever o presente.
— Quero encontrá-las eu mesma.
— A senhora pode estar se sentindo viva agora, mas Senhora Inês... Se a senhora se esforçar com esse julgamento precipitado...
Ignorando o conselho da criada, ela levantou-se de um salto, como se impulsionada por uma mola. Contrariando os avisos de Juana, Inês, movida por uma ansiedade repentina, correu para sua escrivaninha e sentou-se com sua pena em punho.
— Minha Lady?
“Cássel Escalante.
É realmente cansativo e exaustivo todos os dias aqui.
Sinto sua falta. Não pode vir a Mendoza por um momento?”
Assim que colocou a caneta no papel, percebeu que era uma conclusão sem sinceridade. Não havia mais nada sobre o que escrever e o caminho para a casa dos Valeztena estava movimentado, então Inês dobrou a carta cuidadosamente e se levantou.
— Peça a Alfonso para encaminhar esta carta para a residência em Calztela.
Recuperar as cartas dele e ser a primeira a enviar uma carta agora. Tudo o que ela tinha a fazer era torná-lo um pecador culpado por nunca escrever para a esposa e nunca vir vê-la.
Então ela poderia se permitir sentir tristeza e pensar nele o quanto quisesse. Porque, se ela pudesse passar o dia inteiro pensando nele...
Ele seria capaz de levá-la para longe de todas as coisas nojentas do mundo novamente.
✽ ✽ ✽
— Senhora. A senhora tem se irritado muito ultimamente? Parece estar sensível o tempo todo.
— Um pouco.
Inês estava deitada no sofá do quarto que usava antes de se casar, na propriedade do Duque de Valeztena, permanecendo por um longo tempo de olhos fechados. Ela fora para a casa dos Valeztena imediatamente, mas Juana já havia telefonado, então Angelica estava esperando no quarto.
Angelica era uma médica que Inês via apenas ocasionalmente durante sua estadia em Mendoza, uma mulher que a Duquesa de Valeztena designara para ela muito cedo por medo da infertilidade da filha. Desde que começara a menstruar aos onze anos, ela já vivia há dez anos nessa rotina, onde via uma ginecologista cerca de uma vez por mês.
Embora fosse difícil, ela sabia que um dia engravidaria. Ela sabia e desejava isso. O fato de ser difícil conceber com aquele corpo não mudava essa certeza.
No entanto, a motivação havia se transformado. Mesmo na época em que ela não nutria sentimentos por Cássel, a criança já era desejada, mas apenas por obrigação — uma necessidade política de produzir um herdeiro. Agora, contudo, ela queria o filho deles por uma razão totalmente diferente: não por dever, mas por um anseio genuíno, nascido do amor que agora sentia.
Mas, além desse desejo, ver Angelica sempre evocava um sentimento estranho em Inês. Por exemplo, este quarto onde ela ainda sentia que ter filhos era o único valor de sua vida. Essa sensação de pisar novamente sob a sombra sufocante de sua mãe...
Se houvesse um momento nesta vida que mais se assemelhasse à vida de Princesa Herdeira, seria quando Angelica ocasionalmente inspecionava suas partes íntimas ou ruminava sobre sua condição. Ela era gentil e discreta, e às vezes guardava os segredos de Inês até mesmo da Duquesa de Valeztena, mas, ainda assim, era a mulher da Duquesa desde o início.
Então, ela não queria vê-la. Especialmente num dia como hoje.
— Não é bem isso — discordou Angélica, examinando a boca de Inês. — As aftas voltaram a aparecer em vários lugares. Desde a infância, sempre que a senhora fica com os nervos à flor da pele, essas feridas aparecem. Ela deve estar sofrendo de desconforto digestivo contínuo por causa do estresse, não de outra coisa.
— Cuidado com as palavras — interrompeu Juana com um suspiro impaciente. — Esqueça a boca; mais cedo, assim que chegou em casa, ela vomitou violentamente.
Inês fechou os olhos e pressionou as têmporas, deixando Juana relatar os sintomas dos quais ela não tinha consciência.
— ... Então, me pergunto se a Senhora está grávida. Como está? Já se passaram dois meses desde sua última regra. Embora tenha vindo para Mendoza e tido uma agenda cheia, ela ainda estava muito cansada de ir para a cama cedo e acordar tarde...
— A senhora dormiu bem?
— Sim. Se ela apenas colocar a cabeça no travesseiro, adormece. Mesmo assim, quando chega a tarde, parece alguém que não dormiu a noite toda...
Pela descrição de Juana, o corpo de Inês parecia uma máquina ineficiente. Inês olhou para Juana com um misto de admiração e impaciência. A criada falava com a médica sem nem prestar atenção em sua senhora.
— Quantas vezes a senhora pulou o jantar por não se sentir bem? — continuou Juana. — Na maioria das vezes, exceto quando é convidada para jantar com a Duquesa Escalante, ou quando o Duque ocasionalmente janta aqui na mansão e a chama, a senhora simplesmente não come.
— Você está ignorando o fato de que, na maioria das vezes, meu sogro janta em sua residência oficial, longe de casa? — retrucou Inês.
— Ah, então isso justifica pular o café da manhã também? — Juana não cedeu. — Parece que o que a senhora comeu na noite anterior não digeriu bem porque seu estômago estava vazio... De qualquer forma, se continuar assim... Faz um mês desde que a senhora voltou para Mendoza, e seu rosto está assim.
Ao dizer "assim", Juana agarrou as bochechas de Inês com as duas mãos, apertando-as. Inês olhou para sua criada, com o rosto espremido, incapaz de protestar.
— A senhora ficou magra e esquelética de novo.
— Onde foi parar aquela pessoa que dizia que eu comia tão bem e vivia tão bem em Calztela? — resmungou Inês.
— O ser humano é um animal de adaptação, Lady Inês. Além disso, nunca houve uma época em que seu ciclo atrasasse por tanto tempo.
Então, o olhar intenso de Juana recaiu sobre o rosto benevolente de Angélica, como se exigisse um diagnóstico de gravidez imediato. Apesar da pressão silenciosa e persistente, Angélica continuou anotando diligentemente em seu registro por um tempo. Finalmente, ela soltou a caneta e olhou para Inês.
— Apesar disso, a Senhora sempre foi irregular — constatou a médica.
— Sim.
— Mais uma vez, é apenas um atraso. A julgar pela condição geral do seu corpo, a senhora está com os nervos excessivamente à flor da pele. Isso também afeta o ciclo. Um pouco mais do que o normal desta vez.
— Viu só? — disse Inês, triunfante.
Inês levantou a mão de Juana como se estivesse irritada, e se levantou. Juana imediatamente assumiu uma expressão sombria, encarando fixamente apenas Angelica.
— Em primeiro lugar, selecionarei algumas ervas medicinais que acalmam a mente e as enviarei para Escalante através de um farmacêutico. Acima de tudo, seu corpo não deve ficar fraco novamente como era antes. Mas, além dos sintomas temporários, tudo parece bem.
— Mesmo que a minha senhora estivesse tão magra...?
— É difícil saber exatamente do que Juana está falando porque não a vi logo após retornar a Mendoza, mas vi a Senhora pela última vez cerca de três semanas antes de me casar, certo?
— Sim. Mais ou menos nessa época.
— A senhora parece incomparavelmente mais saudável do que naquela época. Como Juana disse, pode parecer temporariamente cansada e fraca, mas sua condição geral é muito melhor. No caso da Senhora Inês, ganhar peso assim é um bom sinal para uma gravidez. A senhora estava um pouco magra antes, e essa magreza excessiva é veneno para o seu corpo. Quanto mais magra for, pior é. Não importa o quanto engorde, não será uma mancha em sua aparência, porque sua estrutura natural é muito esguia.
Angélica falava de estar "um pouco magra antes". Comparado aos dias de Princesa Herdeira, quando ela quase teve falência dos órgãos por não comer, a diferença era enorme. Se a Duquesa Valeztena usava a expressão "gorda" para descrevê-la agora, era apenas porque Inês, nesta vida, não passava mais fome propositalmente para manter um corpo doentio.
Quando Inês regrediu à infância, ela exigiu que a duquesa lhe trouxesse comida, mesmo que tivesse que virar o quarto inteiro de cabeça para baixo. Ela não considerava mais o direito de saciar a própria fome como algo garantido, pois havia lutado e sofrido muito para recuperar a capacidade de comer.
No passado, a Duquesa, preocupada com o casamento e a gravidez da filha, temia que ela não fosse notada pelo Príncipe Herdeiro. A Duquesa daqueles dias, que forçava Inês a jejuar por medo de que fosse vista gorda, ficou chocada ao saber que o corpo que ela moldara a vida toda retornara "envenenado" pelas suas próprias regras.
"Você é a filha de Valeztena e Montor. Não deve haver nenhuma Senhorita em Mendoza que brilhe mais do que você. Você será a próxima Cayetana. Você tem que ser a mulher mais nobre do Império Ortega. Você deve ser uma mulher bonita digna de seu lugar..." Como diz o ditado, Inês Valenza Ortega, que cresceu numa familia rica, era verdadeiramente bonita. No entanto, sua beleza não servia de nada porque o corpo não podia ter filhos.
Mesmo quando se tornou Princesa Herdeira aos 16 anos e sofreu um aborto espontâneo de seu primeiro filho, que tivera dificuldade em conceber em anos, a mãe lhe disse, com crueldade:
— Não use isso como desculpa para se afogar na tristeza e comer. — Foi só depois de ouvir o conselho de vida ou morte de Angélica várias vezes que a mãe, a quem haviam prometido obediência, ofereceu comida à Inês pela primeira vez em sua vida.
Angélica disse: — Afinal, é difícil conceber, mas é ainda mais difícil quando se é magra demais. Mesmo se tiver sorte o suficiente para engravidar, o corpo tem dificuldade em resistir até mesmo a um pequeno choque...
"Generosa diante da comida" — era essa a imagem de mãe que Inês ansiava quando criança. Houve uma mãe que só soube oferecer o alimento necessário quando a médica disse que era tarde demais. E toda essa tragédia, no final, resumia-se a uma única e cruel lição: a história de como era difícil engravidar após tanta privação.
No entanto, com a mente doutrinada a ver o ato de comer como um pecado capital, ela estava aterrorizada de ingerir qualquer coisa. Para Inês, era mais fácil simplesmente jogar a comida fora. A Duquesa, que havia esbofeteado a filha ainda criança por comer meros cinco doces, agora implorava à filha mais velha, que não conseguia comer, para dar mais uma mordida. E se o apelo não funcionasse, a Duquesa a atormentava com abusos.
Não importava a condição de seu corpo ou o modo como ela vivesse, Inês estava destinada a arruinar tudo no final de qualquer maneira. Mas ela poderia ter sido feliz por alguns momentos. Poderia ter tido um pouco mais de conforto. Ela teria aproveitado um pouco mais o tempo e olhado ao redor, se tivesse...
— As circunstâncias são boas o suficiente, então o que resta são os esforços do casal. Só porque é mais difícil do que para os outros não significa que seja impossível. Mesmo se tiver dificuldades inatas, pode aumentar suas possibilidades dentro delas... E, o mais importante, nunca fique fraca novamente.
— Tudo bem.
— A senhora sempre tem relações com o Senhor em todos os dias férteis?
— Sim.
Sexo não é o problema.
Mas talvez ela devesse ter prestado mais atenção nele... Se ela tivesse agido assim desde o começo... haveria mais coisas para lembrar dele do que agora.
Ela esperou que Angélica voltasse e Juana trouxesse a caixa com as cartas de Cássel. Enquanto olhava fixamente para a janela, algumas palavras permaneceram como as lascas de uma árvore.
"Devem ter restado algumas cicatrizes no corpo dele..."
Meu estômago revirou e minha febre subiu novamente.
Estúpido Escalante. Como você é tão estúpido? Por que não me contou nada? Como pode esconder coisas assim...?
Como você nem sequer me culpa?
Inês cuspiu a risada que vazava vazia. Eu o manuseio à vontade, o engano e o jogo fora, mesmo se você não tratar as pessoas assim. Eu o odiava horrivelmente quando criança, quando fingia gostar dele.
O menino gentil e tolo que sorria e se aproximava dela de longe era agora Cássel Escalante, o homem que era tolo porque a amava incondicionalmente. Na época, Inês o desprezava por ser tão ingênuo, assim como ela desprezava todos. Aquele garoto não era nada...
— Esqueci que coloquei na estante da Senhora Inês e procurei inutilmente no outro quarto por um longo tempo.
— Dê-me isso.
Inês recebeu a caixa de madeira das mãos de Juana e abriu a tampa com cuidado. No topo, estavam as cartas, perguntando sobre seu bem-estar, enviadas após a designação dele para Calztela, estação após estação.
A caligrafia de Cássel parecia um desenho irregular numa carta que saltava da caixa, mal dobrada.
Inês puxou a carta para o lado, sorrindo enquanto via as demais por baixo. Em seguida, removeu a primeira e tirou todas as cartas que ele enviara durante a expedição. Eram seis no total. Segurando-as todas, Inês dirigiu-se à janela ensolarada.
"Para Inês.
Estou a salvo, sem ferimentos. A situação também está a favor de Ortega, então espero que você esteja segura em Mendoza.
Desejo-lhe sempre a paz.
Cássel Escalante de Esposa, de Baja Cali."
Inês, que tocava silenciosamente a borda da carta, virou o papel.
"Para Inês.
Desculpe por não conseguir um bom papel. A situação do estoque nesta marina não é muito boa. Por favor, perdoe-me pelo fato de este ter sido o papel mais limpo que pude encontrar. Você pode se surpreender ao ouvir quanto paguei por este papel. Ainda estou ileso, sem ferimentos. A situação tem estado em desvantagem por um tempo, mas se recuperará em breve.
Que Deus esteja sempre com você.
De Cássel Escalante de Esposa, em Upece."
A tinta estava manchada no material de papel escasso. O nome dele, escrito apressadamente, prendeu o olhar dela.
"Para Inês.
Ouvi tarde que o navio que levava a última carta afundou em Henne. Essa é a única razão pela qual você não recebeu uma carta em algum tempo. Estou indo bem, sem o menor ferimento. Que você sempre permaneça saudável também. Mendoza, Perez, onde quer que você esteja, que Deus a abençoe.
De Cássel Escalante de Esposa, em Elo Flores."
Era como ler todas aquelas cartas pela primeira vez. As palavras inscritas causavam uma dor aguda, como se nunca tivessem sido lidas antes. Sem ferimentos... Ela conhecia todas as cicatrizes grandes e pequenas deixadas naquele corpo. Ela conhecia todos os traços dos anos passados.
Ela conhecia as cicatrizes, mas tomou a vida dele como garantida. Foi insensível às cartas que ele enviava do campo de batalha, ignorando o perigo e a rotina de soldado que ele vivia manhã e noite, como se a sobrevivência dele fosse um dado adquirido.
Estou a salvo, sem ferimentos. Estou indo bem, sem o menor ferimentos. O tempo e o esforço dele eram finalmente visíveis sob as letras esticadas. O garoto inarticulado de antes cresceu para ser um jovem que escrevia mentiras limpas em seu campo de batalha. Tudo pela ignorância dela.
— ... Porque você me desejava proteção se era você quem precisava da proteção de Deus — disse Inês, com amargura.
Tolo Escalante, mentiroso.
Não aguento ver eles separados 😕
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