The Broken Ring
O Anel Quebrado: Um Casamento Fadado ao Fracasso
Ines Valeztena foi prometida a um príncipe desde criança, mas decide desafiar seu destino. Uma história intensa sobre orgulho, liberdade e segundas chances.
Ler mais
My Alter Ego’s Path to Greatness
My Alter Ego’s Path to Greatness
Um jovem descobre uma habilidade de clonagem incrível antes de se aventurar em mundos paralelos. Ele pode viver várias histórias em um corpo! Uma novel divertida com fantasia e reviravoltas!
Ler mais
Corporação Negra: Joseon
Um inventor obcecado por tecnologia reencarna na Dinastia Joseon como filho do Rei Sejong, o Grande. Determinado a transformar o reino com suas ideias modernas, ele inicia uma verdadeira revolução científica em pleno passado histórico — onde inovação, política e muitas horas extras mudam para sempre o destino de Joseon...
Ler mais
Diários de Uma Apotecária
Arrastada à força para o harém imperial, Maomao — uma apotecária genial, teimosa e perigosamente fascinada por venenos — só quer sobreviver quietinha até ser libertada. Mas seu cérebro afiado não sabe ficar parado. Quando começa a desvendar doenças, intrigas e mistérios que nem os médicos da corte conseguem explicar, ela chama a atenção do homem mais deslumbrante e enigmático do palácio: o eunuco Jinshi. Agora, cada passo que dá a puxa mais fundo para os segredos do império, onde uma análise errada pode matar… e uma descoberta certa pode mudar seu destino para sempre....
Ler mais
I Was The Trash - Aquele Lixo Fui Eu
Reencarnada como a vilã mais desprezada, Tullia Frazier começa do fundo do poço. Com reputação de lixo e estatísticas mínimas, ela precisa virar o jogo. Entre intrigas, aliados inesperados e rivalidades perigosas, cada decisão conta. Será que o “lixo” pode se tornar indispensável? Descubra nessa jornada estratégica e cheia de emoções.
Ler mais

Capítulo 106 — Uma Nova Vida

 — Alejandro, filho de Deus.

— Sim.

— E a filha de Deus, Juana.

— Sim.

— Estão diante dos votos sagrados que unirão suas vidas.

Inês fez uma pausa e recuou, agindo de forma completamente oposta à pessoa que o havia chamado momentos antes. Foi como se a mão de um monstro colossal golpeasse sua cabeça contra o chão; uma dor esmagadora que turvou sua visão.

— Pobres criaturas.

A voz à sua frente estava envolta em memórias vagas, como uma serpente trocando de pele.

— Provavelmente se arrependerão deste dia.

Aquele deslize involuntário. A sensação estranha daquele dia.

— Ele não era essa opção para você desde o princípio.

Esse homem fora a única testemunha daquele casamento desajeitado e humilde. Rogélio. O padre de Biedma. Sob o rosto pobre de um bondoso clérigo rural que presidia a cerimônia, escondiam-se os olhos de um governante que parecia enxergar através de tudo. No momento em que faziam seus votos a Deus e a mão da consagração se estendia sobre suas cabeças...

— Mas, no fim, até mesmo este será o seu destino, Juana.

— ... ...

— Talvez este nem seja o seu nome real.

Naquela vida, Emiliano não percebera nada. Apenas Inês via; apenas ela ouvia...

— Eventualmente, você voltará a trilhar o caminho do pecado, Inês.

A profecia lampejou em sua consciência. A mente de Inês, que vibrara precariamente como uma vela fustigada pelo vento, iluminou-se em um instante. Naquele dia em Biedma, ela havia esquecido a voz do profeta que ficara escondida em sua cabeça, como se a memória tivesse sido roubada.

O casamento miserável daquela vida era apenas uma lembrança do momento em que Emiliano colocava um anel de prata em sua mão, e ela fazia o mesmo por ele. Uma cerimônia sob a luz tênue de um pequeno templo, simples, mas bela... Sim, ela sequer conseguia se lembrar do rosto do padre desconhecido que os unira. Sua voz, seu nome...

Ou então, "Juana".

— ... ...

— É você? — perguntou Rogélio.

O fôlego de Inês, preso na garganta, pareceu despencar. Seu olhar vagou sobre ele, confuso. O cabelo dele era branco-prateado — não como o cinza de um ancião desgastado pelos anos, mas como o prata brilhante de um paladino do folclore orteguista, onde o tempo e a bênção são indeterminados. Em seu rosto não havia o cansaço da velhice, nem a vitalidade da juventude.

Se tivesse que adivinhar, ele aparentava ter entre trinta e quarenta anos. Inês recordou o rosto daquele dia — o qual nunca fora capaz de lembrar antes — de forma tão vívida que parecia mentira. Desde aquele dia em Biedma, ele não havia envelhecido sequer um momento.

Dezesseis anos. E agora, vinte e quatro. No meio disso, surgia um homem como se cruzasse um rio eterno. Quem chamaria aquilo de ser humano?

— ... Anastásio.

Ela pronunciou o nome como se estivesse possuída. Como se alguém tomasse sua língua emprestada. Como se tivesse esquecido completamente o nome do pároco que acabara de gritar. Ela nunca ouvira aquele nome antes, mas aquele era o nome dele...

Enquanto tentava objetar, sua cabeça foi envolta por uma dor lancinante, como se seu cérebro gritasse. O nome não tomava forma novamente. Inês respirou com dificuldade, como se engolisse uma pedra.

Anastásio. Estou sonhando. Essa pessoa...

— Você se lembra de mim, mesmo antes daquela noite em Biedma? — perguntou ele. — De mim, não de "Rogélio".

— ... ...

— Então você deve ter feito uma boa escolha desta vez.

A visão de Inês estilhaçou-se. Uma voz desesperada voltou a ecoar em sua mente: "Por favor, erga os olhos novamente. Para você... uma oportunidade...". E então, tudo se quebrou.

Memórias demais jorraram de uma vez. 

Como se observasse o mundo passar montada em um cavalo veloz, imagens que ela nunca reconhecera cruzaram sua mente antes que pudesse percebê-las. Era como estar sob um edifício desmoronando, olhando para a parede que a esmagaria em instantes. Todas as lembranças se derramaram como brinquedos emaranhados. Tudo o que era familiar e tudo o que era desconhecido aparecia e desaparecia em um turbilhão.

Inês sentiu sua consciência esticar-se ao limite. Ela respirou fundo, tentando sustentar o próprio peso, mas acabou desabando. Antes que atingisse o chão, porém, uma mão quente e firme a segurou pelo ombro.

Aquele toque desencadeou um fluxo de memórias estranhas, vindo da sensação do ombro até sua visão embaçada. Foi como um canal seco sendo subitamente preenchido por água, ou brotos verdes florescendo em um solo rachado. Gradualmente, o rosto dele foi se revelando em suas lembranças...

Aquele era o rosto de um dos mártires protestantes no local de execução na Via San Talaria, que ela observara sentada ao lado de Oscar. Era o rosto do bom guarda-caça que protegia as terras da família Valeztena. Era o rosto do pastor protestante resgatado no Castelo Pérez. E era o rosto do velho clérigo que cuidava sozinho da pequena capela de Biedma...

Inês olhou para as próprias mãos pálidas através de uma visão que parecia afundar no chão. Aquela era a mão de um Deus que a salvara de uma queda em uma encosta íngreme quando ela ainda era criança. A mão pálida do guardião da montanha.

Ele era todos eles.

— ... esse colarinho... você... — ela tentou dizer.

— Ah. Aquele não sou eu — respondeu ele.

— ... ...

— Às vezes, como você, existem crianças que, por mais que repitam uma vida que está fora de ordem, não conseguem voltar facilmente para onde deveriam estar.

— ... ...

— Existem crianças que não seguem o caminho que eu desejo.

Senhorita! — O grito de Juana ecoou enquanto ela finalmente encontrava Inês em meio à multidão.

"Senhorita". Como se sua Senhora nunca tivesse se casado, Juana a amparou apressadamente. Naquele instante, a mão de Juana era visível, mas a mão do sacerdote havia desaparecido. Inês tentou alcançá-lo, mas sua voz não saía. Ela sentia como se estivesse se afogando, incapaz de respirar novamente. Por favor, de novo... pare de novo...

Em vez de erguer a cabeça, Inês apenas conseguiu levantar o olhar. O campo de visão estava repleto de pulsos e mãos de estranhos que substituíam seus rostos. Ela buscou desesperadamente pelas mangas negras. Pela mão dele.

"Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte..."

"Não haverá mais luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram." (Apocalipse 21:4)

A mão do sacerdote vestido de negro atravessou suas memórias e, subitamente, cobriu seus olhos e sua testa. O mundo virou de cabeça para baixo. Como palavras à deriva em lembranças distantes, orações desesperadas soavam como a luz tênue daquela capela rural iluminando seu casamento miserável com Emiliano.

Era o momento da morte.

Embora já tivesse morrido duas vezes, Inês nunca experimentara uma morte em seu leito. 

Aquela "dor confortável" do fim, repousando a cabeça em um travesseiro macio de penas enquanto ouvia a oração de um padre. Respirando superficialmente sob as mãos do sacerdote, ela ouviu o som familiar das ondas ressoando em seus ouvidos. Na oração de Anastásio, as ondas de Logorño quebraram e, nas últimas bênçãos de sua vida, as ondas se foram. Ele usava o colarinho da paróquia de Calstera.

A luz dispersa atingiu seus olhos, que já não conseguiam captar toda a claridade. 

Inês se viu deitada, observando o mundo através dos olhos dos moribundos. As cortinas de linho branco no quarto balançavam suavemente com o vento; era o seu pequeno aposento, onde, ao se deitar, era possível ver as paredes tingidas pelo sol em três direções.

Não havia rastro de Cássel Escalante naquele quarto, nem em qualquer parte daquela memória. Em um sentimento de impotência absoluta, incapaz de mover a ponta de um dedo, sua mente apenas contemplava a ausência dele. Procurava por ele com o olhar, sabendo que ele não estaria lá; uma loucura de esperar por alguém que ela sabia ser impossível de alcançar.

Todo o seu corpo estremeceu com a tosse vinda de pulmões secos. Enquanto o sangue escorria, Arondra limpava seus lábios sujos e chorava. Era uma Arondra mais velha, mais cansada e mais amarga do que a que ela conhecia. A mão que segurava o rosário tremia, como se fosse a própria Arondra quem estivesse prestes a morrer.

— Arondra... eu... — Suas palavras, que mal passavam de um som abafado, eram difíceis de distinguir. Inês sentia os próprios lábios se moverem, mas não sabia o que estava dizendo. Sua visão borrada falhava.

Então, sua voz desapareceu por completo. Como se o ar tivesse sumido, o som das ondas quebrando contra os penhascos de Rogorgó cessou. Um zumbido terrível arranhou seus ouvidos, ameaçando rasgá-los, e a visão oscilante desvaneceu-se em um brilho branco, como uma luz que se apaga bruscamente.

A luz consumiu a luz. O fôlego lhe foi roubado. A vida afundou sob um mar onde já não havia ondas. Uma morte brusca, como a de um soldado — algo que ela nunca havia experimentado antes — trespassou seu corpo como se ela já a tivesse vivido. No meio daquele zumbido ensurdecedor, ela ouviu bênçãos para os que partem, como se fossem alucinações.

O grito do monstro em seus ouvidos silenciou-se em um instante. Ela já não podia ver, já não podia respirar.

"Inês." Não mais. "Inês, espere aqui um momento."

De repente havia um lago que ela nunca vira antes. Cássel estava lá. Enquanto ele nadava para longe das águas banhadas pelo sol, virava a cabeça com indiferença, fingindo não notar os próprios ombros nus. Ele mantinha aquele semblante entediado que ela conhecia tão bem, sem conseguir fixar o olhar em lugar nenhum...

Então, finalmente, ela o viu. Viu um sorriso que jamais poderia retribuir, mergulhado em uma serenidade desconhecida. Era como recordar o único momento de paz em toda a sua vida. Ele caminhava em direção à água e ria. Oh, não doía nada.

Estou morta.

A consciência restante acalmou-se gradualmente. Parecia que ela poderia desaparecer de forma muito confortável assim...

Lady Inês, Lady Inês!

De repente, o som de Juana chorando e implorando tornou-se mais alto, como se estivesse se aproximando vindo de muito longe. Cássel e o lago desapareceram. O quarto onde ela morria desapareceu. Como se tentasse pedir para ser tirada dali, o braço de Inês lutou para segurar Juana.

— Por favor... por favor, não faça isso comigo. Por favor, Lady Inês...

Parecia que sua cabeça, submersa na água por muito tempo, fora subitamente puxada para a superfície. O ar exterior trouxe uma sensação de libertação instantânea, colando-se à sua pele. Finalmente. Finalmente ela estava fora... ela viveu. Estava viva ali. Não morta. Nunca estivera tão morta, e ainda sim agora estava viva. Não fora arrastada para lugar nenhum... estava ali. A alegria e a emoção preencheram o lugar onde antes habitava a dor.

Mas ela ainda não conseguia respirar ou mover um único dedo por vontade própria. Pensou ter acordado de um pesadelo terrível, mas, tal como num sonho, ainda podia ver seus braços pendendo inertes.

— Senhor Herrera! Senhor Herrera! Aqui! Por favor, rápido... Inês...!

O som de Juana respirando fundo e gritando, tomada pelo desespero, ecoava ao redor. Inês olhou para o próprio braço imóvel com a visão turva. Na verdade, seu braço nunca se movera em direção a Juana.

O som das ondas cessou, e a parede estreita desmoronou diante dela.

Talvez esse fosse o nosso futuro. Ou talvez... não fosse.

✽ ✽ ✽

Após deixar o auditório do arcebispo, Cássel devolveu a arma e a espada aos sentinelas. O sacerdote que o esperava fez um sinal assim que ele finalmente prendeu a pistola ao talabarte.

— Senhor Escalante, venha por aqui.

Cássel o seguiu em silêncio.

Como toda grande paróquia, a catedral de Bilbao possuía tetos excessivamente grandiosos, colunas altas e majestosas e arcos que pareciam uma cascata congelada no ar. Cássel caminhava enquanto observava as peças delicadamente esculpidas no teto e as tochas no interior, posicionadas tão alto que, mesmo que um homem subisse em uma escada, não conseguiria alcançá-las.

— A paróquia que está sendo reconstruída em Bilbao foi completamente destruída pelo grande incêndio há cem anos, como bem sabe o senhor Escalante — explicou o sacerdote. — Agora, há uma grande capela no lado leste que Tristán IV pessoalmente ordenou reconstruir. Graças à enorme dedicação da família imperial, o milagre de consagrar o templo foi alcançado em apenas dez anos... As relíquias dos apóstolos que Bilbao guardou por setecentos anos estavam todas sob as ruínas; foi muito difícil restaurar o antigo templo.

— Entendo.

— Foi a primeira vez que o Arcebispo Sergio tomou tal decisão, há trinta anos. Levou quase dez anos para desenterrar todas as relíquias. O atual Arcebispo Claudio, que o sucedeu, impulsionou sem demora a conclusão da antiga capela. Sim, foi assim.

A luz brilhante do exterior entrava pela porta aberta ao final do corredor. Cássel estreitou os olhos e olhou além do jardim, em direção ao templo inacabado. Superficialmente, parecia que a conclusão estava próxima, mas, naquele estado, levaria mais de dez anos até que a fortificação estivesse completa.

— Parece um milagre, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O senhor Escalante também entregou uma generosa doação à diocese desta vez...

"Não há outro templo no mundo que possa ser construído da noite para o dia" — citou Cássel, acompanhando o passo lento do clérigo.

— Sim. Exatamente como diz o versículo.

O sacerdote era um homem idoso e chapado à antiga. Ele se arrastava em direção ao novo templo com um passo sem vigor, contrastando com o entusiasmo com que falava sobre dinheiro. Era alguém sem status para atuar como guia; se não fosse pelo ouro de Cássel, ele sequer estaria ali.

— Além disso, a situação na paróquia está ainda mais difícil hoje em dia, quando especialistas em pigmentos, como os que o senhor Escalante indicou, estão restaurando a antiga "tocha". Em Mendoza, trouxemos artesãos que já recebiam patrocínios caríssimos...

Um patrocínio caro... Cássel sorriu polidamente para o sacerdote, levantando ligeiramente os lábios sem que o sorriso chegasse aos olhos.

As habilidades desses homens eram garantidas pelo olhar exigente do arcebispo, mas artesãos famosos não ficavam presos como escravos no templo. Onde quer que houvesse alguém talentoso, havia a sombra de uma pessoa poderosa. No caso normal, sim. Mas Emiliano, se conseguisse completar a "tocha" para comemorar o casamento do Príncipe Herdeiro — que seria em apenas dois meses — a pedido de Cássel, seu nome ganharia fama anos antes do esperado.

— Não é difícil arcar com o custo de liberação deles por alguns anos — continuou o sacerdote. — Afinal, o nordeste sofreu com a seca no ano passado. Embora Bilbao seja uma paróquia grande, seu tamanho faz com que saia mais dinheiro do que entra. É uma realidade que gera dúvidas sobre se convém continuar reconstruindo o santuário.

— ...

— Quanto mais pode me dizer sobre o resgate desses cinco artesãos?

Tudo o que o sacerdote dizia era irrelevante, exceto o fato de que a igreja já contava com "patrocínios caros". Era uma desculpa para usar artesãos promissores, já descobertos por alguém, a um preço muito baixo. Não era uma perda para ninguém: os artesãos investiam seu trabalho esperando riqueza e status em poucos anos, e a igreja ganhava mão de obra sagrada.

Sorte. Sim, fora uma grande sorte para Emiliano. Não era algo que um homem comum e ignorante pudesse conseguir facilmente. Fora completamente intencional por parte de Cássel.

Cássel sentiu um leve formigamento nos lábios, como se uma risada estivesse prestes a escapar.

— Só pensei nos tijolos que construiriam o templo, não ousei pensar na carga que a igreja carregaria — disse Cássel, dando ao sacerdote a resposta que ele buscava.

— Embora o mundo chame isso de luxo, como poderia faltar a glória de Deus?

— Comunicarei a situação ao Príncipe Herdeiro. O sacramento do matrimônio de Sua Majestade será um dia feliz, e ele receberá como presente uma "tocha" abençoada pelo próprio Arcebispo de Bilbao.

— É um momento emocionante.

Cássel olhou ao redor do jardim pacífico.

— Embora pareça que a primeira parte está completa, as peças da parede exterior estão apenas começando a ser trabalhadas. Serão dez anos, no mínimo — disse o padre.

Dez anos, no mínimo. Mesmo que Emiliano terminasse sua parte e saísse antes, levaria pelo menos cinco anos? Cássel olhou fixamente para a agulha da torre apontada pelo sacerdote.

E então, lentamente, ao final de seu olhar, surgiu um certo jovem. Era um homem com cabelos ruivos e cacheados presos para trás, carregando um frasco vazio no ombro. Usava trajes maltrapilhos que não eram nem de padre, nem de escriba. Sua túnica estava manchada de um tom avermelhado.

Quando Cássel parou subitamente de caminhar para observá-lo, o olhar do sacerdote que ia à frente voltou-se para o jovem.

— Ah. Foi aquela pessoa indicada pelo Arcebispo? 

— ... Não.

O sacerdote olhou para Cássel como se estivesse intrigado com o breve diálogo interno do nobre, então fez um gesto para o rapaz. O homem, que caminhava em direção ao poço segurando uma jarra vazia, ficou visivelmente nervoso; ele endireitou as costas e aproximou-se deles.

— Ah... senhores... 

Lourdes, o Emiliano está lá dentro? — perguntou o padre. 

— Sim. Está no altar. 

— Este aqui é o irmão do especialista em pigmentos chamado Emiliano, e seu colega artesão de Oli García. O que o Arcebispo Claudio viu na pintura em Mendoza e que o deixou maravilhado foi a sagrada colaboração entre este rapaz e Emiliano

— Sim. — Deixe a jarra por um momento e guie o senhor que está aqui até ele. Ele é uma pessoa muito importante vinda da capital.

Lourdes apressou-se em deixar a jarra perto de um canteiro de flores e fez uma reverência profunda. O sacerdote, alegando não se sentir bem para continuar a caminhada, despediu-se.

— Fique tranquilo — disse Cássel.

Cássel fez uma breve reverência ao sacerdote que se retirava e moveu levemente o queixo, sinalizando para que Lourdes o guiasse. O rapaz, parado ali sem saber como agir enquanto admirava o rosto de Cássel com espanto, começou a caminhar rapidamente.

— O senhor... o senhor é mesmo um cavaleiro da casa Escalante? — perguntou o rapaz, hesitante.

— Sim.

— Então é tudo verdade...

Lourdes olhou para trás discretamente e limpou o rosto, visivelmente comovido; a ficha finalmente parecia ter caído. Sua pele era curtida pelo sol e seu corpo, embora magro, possuía a musculatura rígida de quem enfrentara anos de trabalho braçal. Ele não tinha nada da aparência delicada de um pintor que vive recluso em capelas.

Cássel observava aquela figura inquietante com um olhar indiferente e gélido. Lourdes, contudo, nem sequer ousava encará-lo nos olhos; estava absorto demais na súbita fortuna do amigo para notar o desdém silencioso do capitão.

Emiliano criar a "Tocha" para o casamento de Sua Majestade, o Príncipe Herdeiro... — murmurou Lourdes. — No início, achei que fosse alguma brincadeira de mau gosto. É como um sonho ver os errantes de Oli García chegarem a Bilbao dessa maneira.

— E seu antigo patrocinador? — instigou Cássel, sondando o terreno.

— Ah, ouvi dizer que era um banqueiro rico de Mendoza. Alguém que apoiava secretamente jovens artistas desconhecidos... Eu não sei os detalhes, mas depois de sermos escorraçados diversas vezes das grandes exibições de Mendoza, o Emiliano finalmente terminou um quadro e, logo em seguida, conseguiu esse apoio.

— ... 

— Ah, parando para pensar, acho que tivemos muita sorte desde então. Isso já faz nove anos... 

— ...

— Foi graças a esse patrão que pude manter contato com as obras de Don Joaquín. Se não fosse por ele, eu estaria até agora fazendo trabalhos braçais na fundição... E o Emiliano estaria em uma situação parecida. Aquele cara, especialmente com as tintas, onde quer que vá... Enfim, foi esse patrocinador quem nos conseguiu um lugar para trabalharmos juntos em Oli García e nos conectou.

Cássel permaneceu em silêncio absoluto.

— Ele dizia que gostaria que colaborássemos, pois nossos estilos de pintura combinavam. E agora, o Arcebispo verá o que somos capazes de fazer...

— Patrocínio — interrompeu Cássel.

— Enquanto estivermos no Santuário de Bilbao, não receberemos nada de fora. No entanto, os anos de apoio no passado foram longos e não queremos ser ingratos... Depois disso, desejo que voltemos a pertencer a ele. Emiliano e eu. Sempre foi assim, desde o começo.

Lourdes percebeu tarde demais que sua própria voz, antes animada, soava seca diante da frieza cortante de Cássel. Ele tentara contar uma história inspiradora a um nobre de alto escalão, mas, ao olhar para os olhos de Cássel enquanto cruzavam a porta traseira da paróquia em construção, sentiu um peso no estômago.

Cássel era uma figura imponente: um rosto esculpido, estatura hercúlea e um porte físico impecável. Era um aristocrata que exalava uma aura de perfeição, como uma estátua moldada sem a menor falha, da cabeça aos pés.

Lourdes já tinha visto vislumbres da riqueza pintando retratos de nobres em Oli García, mas nunca vira um homem tão magnífico, nem um nobre que parecesse tão... puramente nobre. Nem mesmo os paladinos de sua cidade natal tinham aquela atmosfera de autoridade. 

Intimidado, Lourdes desviou o olhar para o corredor escuro e estreito, mas o silêncio e o som dos passos tornaram-se insuportáveis.

— Não falo por mim — arriscou Lourdes com cautela —, mas o Emiliano, indicado pelo Duque de Escalante, tem um talento extraordinário. Na verdade, é difícil até para mim acompanhá-lo. Por favor, diga ao Duque que ele não se arrependerá.

— ...

— Tive a sorte de aproveitar o talento dele para chegar até Bilbao. Mesmo quando o Emiliano mal tinha vinte anos, ele já possuía habilidades que superavam qualquer artesão famoso. Às vezes me pergunto se ele não é um gênio...

— Você já esteve em Calstera? — perguntou Cássel subitamente.

— Como?

— Esqueça. Não vou perguntar mais nada.

— Bem... Calstera? O senhor quer dizer o mar? Onde fica o porto militar?

— Sim.

— Eu não, mas... o Emiliano foi para lá algumas vezes visitar parentes nos arredores. Ah, agora que me lembro, a zona onde o Duque de Escalante serve, na Marinha, chama-se Calstera, não é?

Cássel viu o homem aparecer ao final do corredor sem dizer uma palavra. O cabelo castanho-claro dele estava iluminado por um feixe de luz que filtrava pela fresta de uma pequena porta aberta.

— Ah, aquele ali é o meu amigo — apontou Lourdes.

Cássel fixou o olhar naqueles olhos de aparência frágil que ele tanto detestava. Uma beleza efêmera e delicada.

— Ele não consegue falar direito nem na frente de um cavaleiro comum — cochichou Lourdes. — Quando soube da notícia do patrocínio, ele ficou tão atordoado que chegou a empalidecer.

Era ele. Emiliano.


🏠 Início

Comentários

  1. Ai tá chegando numa parte tensa! Gente meu casal sofreu demais!! E ainda há muito por vir!

    ResponderExcluir
  2. Ah e obrigada pelo capítulo!!! Amei 😍

    ResponderExcluir

Postar um comentário