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Capítulo 9 — O Desabafo do Capitão

  — Puxa, que inveja. — disse José Almenara.


— O quê?


— Esse não é o sonho de qualquer homem, capitão?


— E o que seria esse sonho? — perguntou Cássel, com a voz gélida.


— Uma mulher que não amarra o marido.


— … Ela ainda não é minha esposa.


— Sim, claro! O senhor ainda é um homem livre…… — José assentiu com a cabeça vigorosamente, tentando amenizar o clima. — Sabe, o meu noivado não está próximo? Daqui a meio ano nos casaremos, e agora a ficha começou a cair, o que é apavorante. Depois que você se casa, passa o resto da vida sob a supervisão da esposa…


— Você nem entende as mulheres, então do que está falando? Expresse sua gratidão eterna à sua prometida em Gormas. Ela é quem está saindo no prejuízo por aceitar você.


— Claro que sim, mas o casamento é outra história, e a liberdade de um homem…


— Deixe-me adivinhar: tudo o que vai sair dessa sua boca agora é pura merda.


— C-como? — O rosto de José empalideceu diante da acusação abrupta.


 — Que liberdade um homem casado deveria querer? Que tipo de coisas vergonhosas você pretende fazer às escondidas de sua esposa?


— Não, veja bem… Eu só estava invejando o casamento liberal do capitão. Afinal, a sua mulher, quer dizer, a señorita Valeztena, não lhe deu um passe livre piedoso?


— Então você me vê como um canalha promíscuo igual a você?


— O quê?


— Se eu jurar solenemente diante de Deus em uma igreja que vou me casar, você acha que eu manteria uma esposa em casa enquanto saio para me deitar com outras mulheres? Que vou sair espalhando bastardos por aí? — Cássel semicerrou os olhos. — É verdade que você sempre me viu como um libertino, mas agora estou genuinamente ofendido.


"O sonho de todo homem uma ova...", pensou Cássel, furioso.


José engoliu em seco. 

Será que o capitão não era uma pessoa tão maleável assim? Temendo que seus pensamentos ficassem evidentes em seu rosto, o tenente balançou a cabeça e tentou consertar:


— É claro que o senhor não faria isso! Mas a jovem Valeztena…


— Eu por acaso sou o cão de estimação dos Valeztena? Se ela estalar os dedos e me disser que está tudo bem eu sair por aí me acasalando, eu deveria simplesmente obedecer?


— Não, não, claro que não! O senhor é o homem que se tornará o próximo Duque de Escalante


— Então como exatamente você me enxerga?


José hesitou. Na verdade, ele sempre vira o capitão como um tremendo conquistador, e aquela demonstração repentina e inesperada de fidelidade por parte de um homem tão pródigo o deixava completamente desorientado.


— Ainda assim, não sei como as coisas vão se desenrolar… Ela não me parece uma mulher comum. Que sorte a sua que a senhorita Valeztena possua um coração tão compassivo, tolerante e atencioso, a ponto de abrir as portas para que o capitão viva a vida como bem entender um dia….


— Ela não está sendo atenciosa ou tolerante comigo.


— Não?


— Ela não dá a mínima para mim. Nem um caralho.


— …


— É por isso que ela diz que está tudo bem eu fazer o que eu quiser.


Se aquela indiferença fosse algo positivo, o natural seria que Cássel ostentasse um sorriso de satisfação ao dizer que "podia fazer qualquer coisa". Especialmente se ele recordasse de todas as vezes em que ela o cobrira de palavras doces, amor e conforto no passado.


Mas o semblante de Cássel era sombrio. 

Em seguida, ele murmurou um palavrão de baixo calão. Ele andava praguejando com a mesma frequência de seus tempos de cadete na academia. E por que estava tagarelando tanto? Em um único dia, ele dissera ao tenente mais palavras do que costumava dirigir a ele em um ano inteiro. Por que estava agindo de forma tão atípica? Se continuasse a remoer aquilo, onde iria parar?


"A simples perspectiva de morrer no futuro parece melhor do que esse casamento, e eu ainda achava que seria uma boa ideia……"


Como se punisse o tenente por sua insolência, Cássel empurrou o rifle contra o peito de José com tanta força que o ar do rapaz quase escapou. Uma ordem severa foi disparada contra o subordinado, que segurou a arma desajeitadamente:


— Abata aquele pássaro em um minuto.


— Como?


— E não ouse voltar aqui até ter trazido mais dez deles.


— …


— Já informei ao Coronel Barca que você providenciará tudo o que for necessário para o jantar de hoje. Você sabe que decepcionou o seu avô materno com sua péssima pontaria, não sabe?


— …


Cássel sorriu polidamente e deu tapinhas no ombro de José, como se estivesse demonstrando um falso encorajamento ao tenente. O fato de José Almenara ser um péssimo artilheiro era de conhecimento geral desde que ele quase fora reprovado na academia militar, e o capitão não parecia disposto a ter nenhuma complacência com ele hoje.


— Faça um bom trabalho.


— …Capitão...


— Faça um ótimo trabalho.


A mão do superior, que apertou o ombro do tenente uma última vez, carregava uma malícia evidente. O que diabos eu fiz de errado?, pensou José, desolado. E assim corria mais um dia infernal na vida daquele jovem oficial, um dos muitos filhos da aristocracia.


Novamente, José não soube o que dizer. 


Assim, o terceiro filho do Conde Almenara acabou ficando com a pior parte.

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