Capítulo 11 — Tortura silenciosa
—Desculpe pelo atraso.
Ao ouvir a voz de Inés, Cárcel virou a cabeça abruptamente.
—Eu tinha planejado chegar na hora, mas Luciano atrapalhou — explicou ela. Mas, assim que percebeu os olhares surpresos dos presentes, fechou a boca.
Cárcel continuou boquiaberto. Seu coração batia descompassado.
Seu desejo provavelmente não conseguia diferenciar fantasia de realidade. Seu coração devia estar reagindo ao desejo. Devia.
Ele evitou o olhar dela e olhou para baixo, mas a bainha do vestido a lembrou de seu devaneio anterior sobre se enfiar por baixo daquela bainha. O sangue sumiu de seu rosto.
Inés colocou a mão sob seu queixo e gentilmente virou seu rosto para frente. Cárcel prendeu a respiração. Maldita mão nua contra sua pele.
—Por que você veio? — sussurrou, sem se virar para Inés.
Ela abanou-se com o leque e respondeu em sussurros, sem lhe dirigir um olhar:
—Vim porque sabia que você estaria aqui.
— O que isso significa... — Cárcel interrompeu a si mesmo antes de investigar mais. Enterrou as unhas na palma da mão para conferir se não estava sonhando. A dor aguda era um lembrete de que ele não estava confundindo a realidade com a fantasia.
Se não pudesse evitar Inés, sua única esperança era que vê-la pessoalmente jamais o lembrasse da Inés de suas fantasias. Afinal, a Inés de suas fantasias era uma versão romantizada e sexualizada, criada para satisfazer todos os seus desejos. Portanto, a Inés real deveria ser decepcionante em comparação.
Um certo grau de desejo era uma característica saudável. Seria útil para gerar herdeiros, mas ele queria manter sua dignidade.
Desde que eram crianças, ela o lembrava de se conter em público e preservar sua dignidade. De fato, agora era o momento de Cárcel manter sua dignidade.
Cárcel nunca havia experimentado uma luxúria tão avassaladora. Ele nunca precisou se esforçar ou desejar algo na vida, já que tudo estava ao seu alcance assim que ele o desejava. Qualquer mulher se lançaria a seus pés antes que ele tivesse tempo de cobiçá-la por muito tempo. Por isso, ele nunca achou as outras mulheres particularmente memoráveis.
Como não pretendia se casar com nenhuma delas, não lhes dava muita atenção. Apesar do que Oscar pudesse dizer sobre ele, Cárcel era um homem razoável e inteligente. Ele entendia que era uma sorte que seu primeiro desejo sério fosse direcionado à mulher com quem ele se casaria.
Infelizmente, ele ainda não conseguia aceitar o fato de que estava obrigado a se dedicar à sua noiva, simplesmente porque não tinha outra escolha.
Idealmente, Cárcel escolheria sua esposa por lealdade e por suas nobres intenções. Mas, se continuasse incapaz de se excitar com outras mulheres, sentir-se-ia impotente em mais de um sentido.
—Peço desculpas pelo que aconteceu da última vez — disse Inés. — Não consigo imaginar por quê, mas você parecia chocado.
Sua reação imediata foi querer perguntar: por que eu estaria chocado pelo fato de você não ter nenhum sentimento por mim? Engoliu o sarcasmo e tentou, em vão, pensar em uma resposta mais apropriada. Tudo o que conseguiu foi lançar um olhar para os músicos à sua frente.
—Por isso pensei que deveria vê-lo novamente antes de você retornar ao seu posto — acrescentou ela. — Devemos esclarecer qualquer mal-entendido.
Para quê? Ela tinha sido clara como o dia. Ele não havia entendido nada errado. Ela não tinha sentimentos por ele e não achava que valeria a pena matá-lo se ele a traísse.
—Certamente você não precisava vir a este concerto só para falar comigo — disse ele, com uma calma forçada.
—Bem, caso contrário, teria que marcar outro encontro, o que parecia desnecessário.
Cárcel sentiu como se tivesse levado um tapa.
— Ah, você achou que eu não valia o esforço? — retrucou.
—Não, não há muito o que conversar, de qualquer forma, então não valeria nosso tempo... Estou ofendendo você de novo, meu senhor?
—Por que está me chamando de “Meu Senhor” de novo?
—Preferiria “Capitão”?
Ele se remexeu desconfortavelmente na cadeira.
— Toda essa formalidade me deixa desconfortável. Pare. Fico grosseiro quando você faz isso.
—O que há com você hoje, Escalante?
—Finalmente, você ouve.
Inés franziu a testa.
— Por que está sendo tão desafiador?
Cárcel prestou mais atenção ao rosto dela. Mesmo sendo a estrela de seus sonhos nas últimas semanas, sentiu como se a estivesse vendo pela primeira vez.
—Escalante? — perguntou ela, confusa com seu comportamento repentino e estranho.
Ela inclinou-se para frente. O rosto dela estava a poucos centímetros do dele. Ele prendeu a respiração, atônito com a intensidade crua de suas emoções.
Naquele momento, percebeu que ela era ainda mais bela pessoalmente do que em suas fantasias.
Inés examinou o rosto de Cárcel para tentar entender o que havia de errado.
—Você está agindo de maneira estranha hoje, Escalante.
***
A chuva caía sem cessar desde a noite, e a carruagem da família Escalante agora enfrentava dificuldades ao passar pelas poças na estrada.
Cada vez que as rodas batiam em um solavanco, a frágil forma de Inés estremecia com o impacto.
Normalmente, Cárcel teria sido rápido em repreender o cocheiro, apenas para culpar alguém pelo desconforto. Desta vez, ele estava tão absorto em seus pensamentos lascivos que nem prestava atenção ao cocheiro. Mal conseguia desviar os olhos do peito dela. Ao observar sua carne reagir aos solavancos, não conseguia impedir que a imagem de seus seios pálidos balançando ao ritmo de seus impulsos voltasse à sua mente.
Como ainda posso estar fantasiando sobre essas coisas com a Inés real bem diante dos meus olhos? — pensou, horrorizado consigo mesmo. Quase queria arrancar a crescente protuberância em suas calças.
—Escalante...? — ela o chamou novamente para chamar sua atenção.
O rosto dele perdeu a cor. A voz inocente dela apenas o torturava ainda mais. Ele cerrou os dentes e desviou o olhar para a janela.
—É... não é nada.
Ele não era nem um adolescente nem um viciado em sexo. Mas estava cada vez mais incerto sobre essa segunda afirmação. Em seus sonhos, ele já havia devorado sua noiva virgem de todas as formas possíveis. Durante suas horas de vigília, constantemente se masturbava relembrando os sonhos.
Talvez eu seja um viciado em sexo?
Todos esses pensamentos obsessivos poderiam muito bem ser um sintoma de seu vício. Ele estava mortificado. Seu orgulho estava despedaçado.
Ele se sentia como um homem rico que acabara de ser despojado de todas as suas riquezas e empurrado para a rua.
Cárcel cobriu o colo com uma almofada próxima para esconder a ereção. Ele segurava o tecido de veludo com força mortal para se controlar. Em seguida, compôs o rosto para mostrar a Inés que estava tudo perfeitamente bem.
—Aconteceu alguma coisa?
Ela não parecia convencida. — Não... nada...
A pausa dela deu arrepios em Cárcel, mas ele se disse que Inés não sabia o que estava acontecendo. Ela não teria notado. Ela mal tolerava conversas triviais, quanto mais se interessar genuinamente pelo funcionamento do desejo masculino. Provavelmente planejava nunca descobrir. E isso era o melhor, já que Cárcel preferiria ser enterrado vivo a ter que lhe contar sobre sua ereção.
Ele mal podia esperar para terminar aquela conversa, por mais rara que fosse a iniciativa de Inés em falar com ele. Impacientemente, esperava que o Solar Valeztena aparecesse pela janela da carruagem. Para seu desgosto, porém, a carruagem parou em frente ao Solar Escalante.
De todos os dias para o cocheiro cometer um erro, justo hoje. Os portões do solar se abriram e a carruagem atravessou os jardins. Quando parou diante da entrada principal, Cárcel suspirou profundamente.
Ele estava prestes a chamar o cocheiro quando Inés falou:
—Vamos. Você deve segurar minha mão enquanto desço da carruagem. —Ela já estava na beira do assento, pronta para se levantar.
Cárcel olhou para ela confuso. —Não estamos em sua casa.
—Eu posso ver isso sozinha.
—O cocheiro deve ter cometido um engano. Eu pedi para deixá-la primeiro.
—Fui eu quem disse a ele que iríamos para o Solar Escalante — respondeu ela. —Mal tivemos tempo de conversar no concerto.
Pensar que seu cocheiro seguiria ordens dela em vez das dele... Cárcel sentiu uma dor de cabeça surgindo e esfregou as têmporas.
—O que há com você, Inés? — Para alguém que não demonstrava nenhum interesse na vida do noivo, Inés certamente sabia como provocá-lo.
Se ele a levasse para a sala de estar com essa ereção óbvia, seria obrigado a demitir todos os servos da casa, só para enterrar esse segredo constrangedor.
Quanto mais ele tentava não pensar na tensão em sua virilha, mais duro ficava.
Ele tentou conjurar imagens pouco apetitosas para matar a ereção:
Os rostos de monges, o som da oração matinal, uma casa de açougue, o cheiro do esgoto.
No entanto, todos os outros pensamentos desapareceram assim que ele voltou o olhar para Inés. Ela era tudo o que conseguia pensar.
—Escalante, eu sei que não sou exatamente uma convidada bem-vinda, mas—
—Inés, você não está me irritando — ele interrompeu. — Estou apenas aterrorizado por você, ou pelo menos, aterrorizado de ser pego por você...
—Bem, isso é uma boa notícia. Agora, você poderia descer primeiro e me ajudar a sair da carruagem?
Cárcel olhou para Inés, desconfiado de suas intenções. Eventualmente, desistiu de tentar decifrá-la e desceu da carruagem primeiro para lhe dar a mão. Ela a aceitou sem hesitação e pisou no chão. Em seguida, colocou o braço entre o dele e se apoiou nele.
—Vai ficar aí parado?
—E-Eu... estou andando. Estou — ele gaguejou.
Isto é uma nova forma de tortura. Deve ser. A leve pressão do peso dela queimava seus sentidos. Enquanto caminhavam de braços entrelaçados, ele recuou o braço levemente para minimizar o contato, mas ela corrigiu sua postura de volta à posição formal e adequada de um cavalheiro. Maldita seja, Inés Valeztena de Perez...
Os servos do solar Escalante suspiraram ao ver Inés entrando na casa. Eles esperavam apenas Cárcel, não sua noiva. Ela raramente aparecia, a menos que algum evento especial exigisse sua presença.
Cárcel a conduziu até o salão e dispensou quaisquer servos que mencionassem a Duquesa Escalante ou Miguel. Estava determinado a resolver todo esse episódio o mais rápido e discretamente possível.
—Gostaria de visitar a Duquesa Escalante — disse Inés. — Faz bastante tempo que não a vejo.
—Você realmente precisa fazer isso? Terá muitas oportunidades quando estivermos casados.
—Espero ver Miguel também.
Embora Cárcel tenha notado que ela chamou seu irmão pelo primeiro nome, engoliu a objeção que subia em sua garganta. Ela insistia em chamá-lo pelo sobrenome desde que ele foi feito cavaleiro aos quinze anos. Mantivera essa formalidade pelos últimos oito anos, e o relacionamento entre eles nunca pareceu completamente à vontade.
Cárcel se sentou primeiro e disse:
—Miguel está ocupado agora com sua inscrição na escola militar.
—Estou ciente disso. Ele me contou em suas cartas.
—Você... troca correspondência com ele?
—Ocasionalmente. Podemos ir a algum lugar mais reservado, se não formos visitar a duquesa? Aqui é um pouco exposto demais.
Cárcel sentiu um soco no estômago.
Era exatamente por isso que ele havia escolhido aquela sala. O grande salão estava conectado ao resto do solar por vários corredores, cada um com um servo em suas funções. Assim, o salão não dava a impressão de ser um espaço reservado apenas para eles dois... Cárcel engoliu em seco enquanto deixava seus pensamentos vagarem pelas oportunidades que a privacidade poderia permitir.
Ele conseguiu articular a pergunta:
—Há... algum motivo específico pelo qual precisamos de privacidade?
Se isso tivesse sido seu sonho, ele já a teria prensado no chão e despido ao ouvir uma pergunta tão sugestiva. Teria sondado os pensamentos lascivos que ela tinha em mente ao pedir privacidade. Mas, infelizmente, isso não era seu sonho. Ao menos, ele estava menos ereto do que alguns minutos atrás.
—Não há um motivo em particular. Só achei que seria mais apropriado para uma conversa pessoal.
—Acredito que este lugar seja bastante adequado para isso. Apenas diga o que quiser.
Ele se orgulhou de sua própria resposta. Soava confiante e longe de qualquer desejo carnal. Sentiu-se mais no controle agora, especialmente de seu corpo inferior. A possibilidade de estranhos entrarem e o ar fresco pareciam estar funcionando. Cruzar as pernas e esconder a região também ajudava.
—Nunca terminamos a conversa porque você saiu tão de repente, quase correndo da última vez, Escalante.
Sua confiança se despedaçou imediatamente.
—Eu... eu não saí assim tão de repente.
Ela apenas deu de ombros e continuou:
—Aprecio o esforço que você fez para esconder sua promiscuidade de mim todos esses anos. Suponho que seu esforço... era sua forma de me mostrar respeito.
—O quê? — Agora, Cárcel estava apenas confuso. — Sei que sou eu o culpado, então você deveria falar primeiro, mas...
Ela esperou que ele continuasse.
—Você deve estar louca, Inés.
—Escalante, deixe-me terminar minha explicação primeiro.
—Absolutamente louca — ele pronunciou, para não deixar dúvidas.
—Quero dizer que, quando digo que não me importo com quem você possa estar... —
Aquele golpe atingiu Cárcel como se tivesse levado um tapa na cabeça, mas ele não podia demonstrar isso. Simplesmente assentiu e sorriu.
—Claro, continue.
—E você também não se importa comigo. — Inés não tinha uma ponta de dúvida em sua voz.
—Certo...
—É por isso que devemos continuar a nos deixar em paz até a cerimônia de nosso casamento.
—Entendo. — Cárcel continuou assentindo.
—Mesmo depois de casados, podemos deixar que o outro faça o que quiser —
—Sim — Espera. — O quê? — Cárcel parou de assentir.
—Em privado, é claro. Contanto que mantenhamos a aparência de um casal adequado para o mundo.
O sorriso desapareceu de seu rosto magnífico.
Até sermos casados... Mesmo depois do casamento... Deixar o outro fazer o que quiser... Em privado... — Cárcel disse o último pensamento em voz alta:
—O que cada um de nós quiser... em privado?
Palavras tão sinistras. De todas as coisas frias que Inés disse até agora, nada soou tão ameaçador quanto isso.
—O que você planeja fazer em privado, Inés, quando eu não estiver olhando?
Ele tentou se acalmar antes de tirar conclusões precipitadas. O que ela pensa que é um casamento? Ele bufou e se levantou do assento.
Não importava como tentasse interpretar, não conseguia encontrar uma forma sensata de dar sentido às palavras dela.
Entreolhando Inés com olhos semicerrados, Cárcel sentou-se à mesa, com as pernas bem abertas. Agora, ele tinha o corpo dela entre suas pernas, na esperança de impedir que ela se afastasse desta conversa.
Inés continuou a beber seu chá. Não parecia se importar que seu noivo a tivesse prendido entre suas pernas. Ela simplesmente o encarava.
—Há assentos ali, Escalante, para sentar.
—Estou sentado aqui. Por ora, acredito que isso serve como assento.
—Pare de ser tão inconveniente.
—Engraçado, não me incomoda. — Ele fechou as pernas, prendendo os joelhos dela entre suas coxas.
Inés não recuou nem um pouco.
—Por que você está agindo como uma criança? — ela zombou.
—Uma criança nunca conseguiria fazer isso com essas pernas longas. Entre nós dois, você parece ser a que tem tamanho de criança.
—Não consigo acreditar em como você pode ser tão infantil. Ficar me respondendo assim dessa maneira—
—Em comparação com as besteiras que você tem dito nos últimos dias, dificilmente acho que eu seja o problema aqui.
Ela franziu a testa.
—Não vejo problema em minhas palavras.
—Como você não vê problema nisso?
—Como eu veria um problema que não existe? — Inés respondeu sem pestanejar. Parecia realmente não compreender o problema.
Ela estava tão exasperante quanto sempre e vestia o mesmo vestido azul-marinho abotoado. Ainda assim, aos olhos de Cárcel, parecia completamente diferente. De algum modo, ela conseguia parecer ainda mais atraente do que no concerto. Cárcel tentou organizar seus pensamentos e emoções misturadas. Se ela estava disposta a ignorar sua promiscuidade e queria garantir uma vida após o casamento em que ambos pudessem estar com quem quisessem... a única explicação lógica era que ela tinha um amante — ou vários — que queria continuar a ver.
—Você está fazendo tudo isso... por causa do seu amante?
—O quê? — ela perguntou, confusa.
—Essa conversa faz parte do seu plano para continuar seu relacionamento com ele?
Talvez sua aparência recatada fosse apenas uma fachada para confundi-lo e ao resto do mundo. Talvez ela tivesse seduzido homens em segredo com seu corpo delicado e voluptuoso. De fato, ela seria capaz disso. Ele próprio já testemunhara o poder de sua sedução. Dada sua personalidade dominante, ela poderia facilmente fazer outros homens se lançarem aos seus pés.
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