Capítulo 12 — Um cão fiel
Não demorou para que os criados da residência, que se posicionavam para receber o jovem mestre, arregalassem os olhos ao verem Inês cruzando a entrada principal de braços dados com ele. Na infância, a futura duquesa visitara a mansão da capital algumas vezes, mas nos últimos anos Inês se tornara uma figura reclusa, que nunca aparecia sem que houvesse um grande acontecimento dinástico.
Cássel a conduziu rapidamente ao salão, sentindo-se em meio a um campo minado. Dispensou os criados com um aceno tenso de mão quando informaram que a Duquesa gostaria de vê-los e que Miguel retornaria em breve do campo de treinamento.
— Eu gostaria de saudar a Duquesa de Escalante, já faz muito tempo — comentou Inês.
— Para quê? Quando nos casarmos, você se cansará de vê-la. E o Miguel também.
Embora Cássel tenha notado que ela chamou seu irmão pelo primeiro nome, engoliu a objeção que subia em sua garganta. Ela insistia em chamá-lo pelo sobrenome desde que ele foi feito cavaleiro aos quinze anos. Mantivera essa formalidade pelos últimos oito anos, e o relacionamento entre eles nunca pareceu completamente à vontade.
Cássel se sentou primeiro e disse:
— Miguel está ocupado agora com sua inscrição na escola militar.
— Estou ciente disso. Ele me contou em suas cartas.
— Você... troca correspondência com ele?
— Às vezes. Mas se não vamos ver sua mãe, por que não me trouxe para um aposento onde pudéssemos ficar a sós?
Cássel sentiu um nó apertado no estômago.
— …
— Este lugar é aberto demais.
O grande salão, que se conectava à enorme biblioteca e à sala de charutos do Duque de Escalante, dava uma sutil sensação de isolamento, mas estava longe de ser um espaço totalmente privativo. Havia criados circulando pelas extremidades dos corredores. Eles estavam sozinhos, mas não totalmente a sós.
—Há... algum motivo específico pelo qual precisamos de privacidade?
Se isso tivesse sido seu sonho, ele já a teria prensado no chão e despido ao ouvir uma pergunta tão sugestiva. Teria sondado os pensamentos lascivos que ela tinha em mente ao pedir privacidade. Mas, infelizmente, isso não era seu sonho. Ao menos, ele estava menos ereto do que alguns minutos atrás.
Sua confiança aumentou.
— Não há um motivo em particular. Só achei que seria mais apropriado para uma conversa pessoal.
— Acredito que este lugar seja bastante adequado para isso. Apenas diga o que quiser.
— Da última vez, você desapareceu com tanta pressa que não pude concluir nossa conversa de forma adequada — disse Inês.
— … Eu não saí com pressa.
Com uma única frase, a empáfia de Cássel ruiu. Inês deu de ombros, minimizando a objeção, e continuou:
— Em primeiro lugar, sou grata pela discrição que você manteve ao longo dos anos sobre sua vida promíscua.
— …
— Ou, ao menos, pela decência de tentar não ser pego.
— …
— Você me respeita.
— O quê? — O espanto dele quebrou qualquer resquício de etiqueta. — … Eu sou o único errado nessa história, por isso sei que devo ouvi-la e tolerar o máximo possível, mas…
— Sim.
— Você realmente parece ter perdido o juízo, Inês.
— Não. Continue escutando, Escalante.
— Você enlouqueceu.
— Falo muito sério quando digo que você não precisa se preocupar comigo, não importa com quem decida se deitar. Afinal, eu não tenho o menor interesse em você……
Cássel sentiu como se uma barra de ferro o atingisse na cabeça mais uma vez. Mas, forçando um sorriso cínico e polido, ele assentiu:
— Muito bem. E onde você quer chegar com isso?
— E você também não tem interesse em mim. — Inês não tinha uma ponta de dúvida em sua voz.
— … Certo.
— Portanto, como sempre fizemos, não devemos interferir na vida privada um do outro até o casamento.
— Certo.
— E mesmo após o matrimônio, desde que mantenhamos as aparências superficialmente.
— Certo… O quê?
— Não importa o que façamos às escondidas, simplesmente deixaremos um ao outro em paz.
O sorriso desapareceu por completo do rosto de Cássel.
'Até nos casarmos, e mesmo depois de casados... Superficialmente, mantendo aparências, deixando um ao outro em paz, às escondidas…'
— … O que exatamente você pretende fazer às escondidas?
Cássel jamais ouvira palavras tão carregadas de duplo sentido em toda a sua vida. Ele já havia sido esbofeteado pela indiferença dela várias vezes — quando ela dissera que não se importava com o que ele fazia, que não gostava dele, que ele não merecia o empenho de uma execução e que sequer valia o esforço de um encontro proposital —, mas nenhuma daquelas ofensas anteriores fora tão ultrajante quanto essa proposta.
"O que, afinal, ela pretendia fazer por trás dos panos?"
Não, aquilo poderia ser uma conclusão precipitada. Cássel forçou-se a raciocinar. Se eu posso fazer, você também fará, é isso? De qualquer forma, para ele, não fazia a menor diferença.
Não jogaria esse jogo.
Cássel estreitou os olhos e levantou-se abruptamente. Em seguida, contornou a mesa e aproximou-se de Inês, que segurava a xícara de chá do outro lado. Ele sentou-se na borda da mesa, abrindo as pernas de modo a cercar as saias volumosas do vestido dela, aprisionando-a contra a cadeira.
Agiu como se temesse que ela pudesse saltar e fugir a qualquer momento caso não fizesse aquilo.
Inês, que bebeu alguns goles de seu chá sem vacilar, apesar do comportamento errático do noivo, pousou delicadamente a xícara sobre a mesa para evitá-lo. Ela ergueu os olhos e disparou:
— Escalante, existem assentos apropriados para as pessoas se sentarem.
— Eu já me sentei. E considerando que ainda sou um ser humano, creio que estou perfeitamente acomodado.
— Escalante, isso é incômodo.
— Eu não me importo.
Ele estreitou as pernas abertas, forçando os joelhos dela a se prenderem entre os seus. Inês, completamente encurralada, soltou um suspiro de desdém, sem se dar ao trabalho de lutar fisicamente.
— Você é uma criança?
— As suas pernas por acaso são longas como as minhas? Em termos de estatura, a criança aqui seria você.
— Realmente infantil. De repente, interromper alguém enquanto está falando……
— Me explique o que você acabou de dizer.
— Não vejo qual é o problema.
— Você acha que uma proposta dessas faz algum sentido?
— E por que não faria?
O rosto que o questionava era vívido e impecável. Ela parecia genuinamente não compreender a indignação dele. Os botões rigidamente fechados até o pescoço e o vestido azul-marinho escuro eram os mesmos de sempre. Contudo, Inês não parecia a mesma para ele.
Ela estivera bonita demais no concerto, e agora……
— … No fim das contas, tudo isso é por causa de um amante?
— O quê?
Inês estava incrédula com aquela acusação.
— Você está propondo todo esse arranjo apenas para continuar se encontrando com um homem?
Para Cássel, tudo finalmente fazia sentido.
Toda aquela tolerância com a libertinagem dele, a permissão para que ele vivesse como bem entendesse no futuro e, agora, aquela discussão sobre o pós-casamento... Se tudo aquilo fosse para pavimentar o caminho para outro homem, as peças se encaixavam.
Ou talvez não fosse apenas um homem, mas vários……
Cássel concluiu o raciocínio em silêncio.
Aquela postura recatada e modesta não passava de uma farsa para enganar a sociedade; quem saberia dizer quantos homens já haviam sido seduzidos por aquele corpo perolado e fascinante? Não era de se espantar que ele próprio vivesse obcecado e preso àquela imagem em segredo.
Cássel, que tinha sua vida ridicularizada pela Inês de seus sonhos todas as noites, jamais subestimaria o poder de sedução dela. Sim, o corpo dela tinha capacidade de sobra para isso. Ela possuía uma personalidade egoísta, tratava os homens com frieza... Com apenas alguns comandos, qualquer um cairia de joelhos aos seus pés.
"Como um cão. É assim que ela os vê, inclusive a mim."
Por alguma razão, o estômago de Cássel revirou de puro ciúme. Ele não tinha o direito de cobrar explicações sobre o passado dela, mas, após o casamento, a história seria radicalmente diferente.
— … Não me importa quem você se deitou até agora. Eu não ligo, e sei que não tenho o direito de julgar.
— Você está presumindo que existe alguém baseado em si mesmo? — Apesar da gravidade das palavras dele, Inês perguntou com uma calma irritante.
Cássel segurou os pulsos de Inês antes que ela pudesse se esquivar, forçando as mãos dela a pousarem juntas sobre o colo dele. Encarando-a fixamente nos olhos, ele declarou:
— Mas isso não tem cabimento. A menos que seja a ideia deturpada de que, já que eu pretendo viver de forma libertina, você também tem o direito de……
— É mais ou mais isso o que eu penso.
— Você enlouqueceu.
— Embora, naturalmente, seja difícil eu alcançar o seu histórico.
Sua noiva virtuosa agora falava como um devasso experiente. Cássel soltou as mãos dela e esfregou o próprio rosto com rudeza.
— … Eu sei que o meu comportamento desde a época da academia de cadetes foi decepcionante. Eu sei disso.
— Você se alistou na marinha porque não queria se casar comigo?
Originalmente, o alistamento dele coincidira com a época em que ele começara a se deitar com outras mulheres, mas Inês preferiu analisar sob uma ótica mais profunda. Eles deveriam ter se casado há seis anos.
Assim que os belos olhos de Cássel vacilaram, ela esboçou um leve sorriso.
— Eu sei. Está tudo bem. Isso foi ótimo, obrigada.
— …
— No fim, foi realmente uma excelente decisão você ter se alistado.
O tom dela não parecia o de alguém genuinamente agradecido, mas sim o de quem pensava: "Foi um incômodo, mas foi bom que você tenha se mantido longe".
Cássel sorriu de volta com malicia, recusando-se a perder aquela disputa psicológica.
— Excelente porque assim você pôde desfrutar de seus encontros secretos com seu amante?
— Nunca existiu tal homem. Nem uma única vez.
Foi uma resposta direta, sem qualquer vestígio de hesitação ou mentira. O sorriso tenso nos lábios de Cássel desfez-se lentamente. Enquanto ele baixava a guarda, digerindo a informação, ela continuou com sua serenidade habitual:
— Eu apenas fiquei feliz por o casamento ter sido adiado indefinidamente. — Ela suspirou exasperada — O que não significa que eu o odeie, Escalante.
— Mas você também não gosta de mim.
— E que diferença isso faz para você?
Por um instante, Cássel sentiu o ar faltar em seus pulmões.
"Que diferença isso faz para mim?" Ele sentiu uma vontade avassaladora de confrontá-la. Por que aquilo deixara de importar para ela?
— Nunca houve homem algum na minha vida. Até porque eu não possuo um rosto deslumbrante como o seu, nem um charme especial.
Não era verdade. O magnetismo dela era tão real que o estava enlouquecendo.
"Você tem ideia do quão desesperado eu fiquei por sua causa? Sabe o que eu fiz enquanto pensava em você?"
Mas nenhuma daquelas palavras conseguiu escapar de sua garganta. Se ele revelasse o que se passava em sua mente, não seria de se estranhar se ela o expulsasse de Mendoza por pura repulsa.
— É errado eu pensar que apenas quero que você fique mais confortável? A premissa de 'mútuo' foi incluída justamente para beneficiar você. É claro que eu considero a possibilidade de que, algum dia, eu possa encontrar um homem que amo, mas……
Com um semblante desprovido de qualquer traço de emoção ou calor, ela falava sobre encontrar um homem do destino. Cássel contraiu os lábios perfeitos em um esgar de puro desdém.
— Em vez disso, eu apenas desejo que você seja livre, Escalante.
— …
— Você foi prejudicado por minha causa. Conseguiu um noivado que não queria por minha causa, tornou-se um oficial da marinha cedo demais por minha causa e passou quase vinte anos tolerando aulas maçantes e escoltando uma noiva indesejada. Pensei que, já que você seria obrigado a se casar com uma noiva que parece uma freira de capela e passar o resto da vida ao lado dela, por isso acabou comandando uma frota para fugir com esse seu corpo precioso. Eu só quero que você viva dessa forma por mais algum tempo, mesmo após o matrimônio.
— …
— Sendo assim, eu o compensarei pelas suas perdas. Não permitirei que esse seu rosto lindo se deprima nem um pouco.
Aquela mão ousada ergueu-se para acariciar a face dele, exatamente como no concerto. Mas o semblante dela permanecia plácido. Era o rosto de uma noiva dócil, disposta a abrir mão de todo o orgulho e das aparências em prol da conveniência de seu prometido……
Condescendência? Submissão? Seria tudo aquilo apenas fruto daquela personalidade fria e pragmática? As palavras dela não podiam ser tudo o que havia ali. Cássel estava convencido de que havia algo a mais. Era suspeito que ela estivesse se estendendo tanto em explicações, dado o quanto detestava conversar, mesmo sem ele ter perguntado nada.
Havia uma intenção. Claramente, ela tinha um propósito oculto.
Cássel estreitou os olhos e inclinou-se para a frente, aproximando seu rosto de forma perigosa. Inês continuou falando, sem sequer piscar.
— A sua infância esteve acorrentada ao nosso noivado, mas tudo será diferente depois que nos casarmos.
A distância de dois palmos reduziu-se para um palmo e meio.
— Você será mais livre do que jamais foi antes do casamento.
A distância encurtou ainda mais, restando apenas a largura de uma mão.
— E eu também serei, cumprindo meu papel de esposa apenas pelo dever dinástico.
A proximidade agora era de meros centímetros, o suficiente para que as respirações de ambos se emaranhassem. Pela primeira vez, Inês exibiu uma expressão desconcertada. Era a mesmíssima feição que ele via repetidamente em seus sonhos. E, nos sonhos, sempre que ela olhava para ele daquela forma, ele a possuía.
— … Eu cumprirei minhas obrigações pelo dever, independentemente do que você decida fazer na sua vida.
— Você quer viver sem o seu marido? Acha mesmo que isso é possível?
— Eu farei o meu melhor por você. Porque acredito que você fará o mesmo por mim... Eu não o amo, e você não me ama, por isso mesmo seremos o casal perfeito. Não concorda? Teremos apenas os herdeiros necessários para a sucessão, não interferiremos na vida privada um do outro e não haverá conflitos……
Cássel silenciou o restante das palavras dela da forma mais brutal.
UM BEIJO.
Inês perdeu o fôlego, os olhos arregalando-se em choque quando a língua dele invadiu seus lábios, arrancando um suspiro caótico de sua boca entreaberta. Tudo aconteceu em uma fração de segundo. Foi um impulso avassalador, surpreendendo inclusive o próprio Cássel, que entregava à sua noiva o primeiro beijo da vida real.
Tomado por uma luxúria reprimida, ele sugou o lábio inferior carnudo dela, puxando o corpo de Inês contra o seu. O joelho dele, que antes pressionava a lateral da perna dela, avançou profundamente entre as coxas da noiva, acomodando-se contra o quadril dela.
Mais precisamente, pressionando-se contra a masculinidade dele, que já se encontrava rigidamente ereta.
Se Inês fosse uma mulher totalmente indiferente aos prazeres do mundo e ingênua, como ele presumira por tanto tempo, ela não compreenderia de imediato o significado daquele contato. Por outro lado, se as suspeitas dele estivessem corretas, ela perceberia a nudez daquela situação instantaneamente.
E Cássel viu, pela primeira vez, o rosto de Inês corar violentamente. Ela compreendia perfeitamente o significado carnal daquele aperto. Ele estava certo. Era a primeira vez que ele conseguia quebrar a compostura inabalável dela... Pela primeira vez, ele a deixara frustrada, vulnerável e indefesa.
Contudo, não houve espaço para qualquer sentimento de satisfação vitoriosa.
— … Você disse que teríamos filhos por dever, então pretendia gerá-los sem passar por isso comigo?
"Quem ensinou essas coisas a você?"
Ele sabia que não tinha o direito de repreendê-la por suas teorias, mas, apesar disso... Cássel provocou levemente os lábios de Inês, que ainda se mantinham próximos aos dele, e voltou a pressioná-los com firmeza e posse.
— Sinto muito, Inês Valeztena, mas você jamais conseguirá viver longe de mim.
Um lampejo de frieza e determinação brilhou sob o semblante dele, que agora exibia um sorriso cínico. Não importava o que o passado ocultava. A história do futuro seria ditada por ele.
— Você vai me beijar dezenas, centenas de vezes, e nossos corpos vão se entrelaçar milhares de vezes. Eu jamais tocarei em outra mulher que não seja você, e vou saciá-la e preenchê-la com o meu ser até que você conceba um filho, e outro, e quantos herdeiros mais forem necessários.
— …
— Eu não preciso dessa maldita liberdade ou da privacidade que você está tão desesperada para me dar. Nos casamentos que eu conheço, esse tipo de absurdo jamais existiu.
— …
— Eu posso ser um canalha, Inês Valeztena, mas sou cão muito mais leal do que você imagina.
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