Capítulo 14 — Segunda Vida
Sua primeira morte fora uma escolha extremamente racional, mas, ao mesmo tempo, profundamente irracional.
Inês era, por natureza, uma pessoa de sangue quente. Para colocar de forma mais branda, esse era o traço característico dos orteganos, frequentemente descritos como "apaixonados" pelos povos de países mais frios. E não havia exceções a essa regra, nem mesmo para a nobre filha do duque, a quem fora concedido o prestigioso status de Grandes de Ortega.
Não existia outra nação onde ocorressem tantas mortes por vinganças privadas e duelos, independentemente da idade ou da posição social. Cientes de que governavam uma etnia propensa a crimes passionais e impulsivos, os imperadores de Ortega vinham aperfeiçoando leis penais estritas ao longo de várias gerações.
Contudo, os orteganos simplesmente não eram racionais o suficiente para temer as consequências ou ponderar sobre o futuro; a maioria se vingava no exato instante em que pensava "quero vingança", e a maioria matava no momento em que decidia "quero matar".
O que aconteceria depois pouco importava para eles. Se você não eliminasse quem precisava ser eliminado, mesmo estando vivo, não estaria vivendo de verdade. Se não se vingasse, estaria morto por dentro, ainda que continuasse respirando.
Inês, no entanto, era uma aristocrata refinada. Uma mulher que passara a vida inteira aprendendo a ser paciente, a manter uma máscara de indiferença diante do mundo. Não seria exagero dizer que os sentimentos que ela suprimira por tanto tempo — ocupada demais em ostentar uma existência elegante — de repente emergiram com força total. Mas, mesmo enquanto planejava o desperdício de sua própria vida, ela não deixou de pensar no futuro.
Quem deveria desaparecer deste mundo não era ela, mas sim o lixo do seu marido.
Contudo, era impossível enviar toda a família imperial à guilhotina apenas para se livrar daquele verme. Inês sempre fora uma filha exemplar e uma irmã amada. Sua família não tinha culpa de nada. Portanto, seu plano consistia em enterrar o Príncipe Herdeiro vivo apenas no âmbito social, garantindo que mais ninguém saísse ferido.
Inês acreditava que não havia erro naquele julgamento. Era uma conclusão moralmente impecável. É claro que ela agira movida por uma boa dose de fúria. E talvez, por ter morrido daquela forma... Mas quem, colocado diante daquele mesmo precipício, seria capaz de arquitetar um desfecho mais pacífico?
Sua morte não feriu fisicamente a ninguém, além de obviamente a si própria.
Nem mesmo àquele príncipe que agia como um rato de bordel. Embora ela o tivesse espancado implacavelmente em vida, no final, ele sequer terminou com um dedo quebrado.
A única diferença era que, agora, todos os seus fetiches bizarros e segredos obscuros haviam sido expostos ao mundo.
Mesmo avaliando a situação novamente, ela tinha certeza de que tomara a melhor decisão. Não esperava uma grande recompensa divina. Apenas fechara os olhos com o pensamento humilde de que, se existisse um Deus, que Ele a levasse para um lugar melhor.
Isso era tudo. Sua cabeça devia ter sido despedaçada no mesmo milésimo de segundo do disparo, restando apenas a sutil satisfação de ter quebrado o orgulho do príncipe.
✽ ✽ ✽
— É um sonho. Isto é apenas um sonho. Um sonho muito longo...
Inês implorou a Luciano que lhe desse alguns tapas na cara para acordá-la, mas recebeu uma resposta irritantemente gentil:
— Você enlouqueceu de vez? Está assim porque andava ansiosa demais antes do casamento?
Em vez de bater ainda mais no irmão, ela tentou golpear o próprio braço com a coronha do rifle longo. Apavorado, Luciano a impediu à força, arrastando-a em direção a uma árvore próxima e segurando-a firmemente pelos ombros. Ele a encarava como se ela fosse uma psicopata, mas Inez não se importava com o julgamento dele.
A dor era nítida. Real e cortante demais... Era um intervalo longo e físico demais para ser apenas aquele último vislumbre que a mente projeta antes da morte, e o gatilho fora puxado exatamente como ela se lembrava. Se era assim, aquilo significava, no mínimo, que não era um delírio.
Sendo assim, o que haviam sido os vinte e seis anos da outra Inês? O último ano suportando cada dia a contragosto com uma vontade assassina contra Óscar, toda a perseguição e o desprezo da família imperial... Tudo aquilo fora longo e doloroso demais, a ponto de fazê-la trincar os dentes, para ser rotulado como um mero pesadelo.
Onze anos de convivência com Óscar.
Cada hora daquelas memórias estava perfeitamente depositada em sua mente. As lembranças distantes pareciam distantes; as recentes pareciam próximas... E agora, ela habitava novamente aquele corpo jovem. Era impossível negar a realidade dos fatos.
Como aquele longo horror poderia ter sido apenas um sonho?
Inês saiu do coto de caça amparada por Luciano, tocando as próprias bochechas repetidas vezes. Seu irmão, que na primeira vida era três anos mais velho e já um homem de vinte e nove anos antes de ela morrer, agora exibia a vivacidade juvenil de seus dezenove anos.
Dezenove anos. Meu Deus, Luciano é apenas um garoto de dezenove anos……
— … Só pode ser isso. Você por acaso não tomou os calmantes da mamãe por engano esta manhã?
Após retornarem ao castelo dos Valeztena em Pérez, o transe dela continuou. Ela exibia um olhar errático enquanto tocava e inspecionava os rostos jovens das criadas ao seu redor; e a cada vez que sentia a mente vacilar, chutava as pernas entalhadas de uma mesa de centro ou batia com o dorso da mão contra um pesado tinteiro de bronze para testar a dor.
Por fim, já a altas horas da noite, ela foi contida por Luciano e firmemente enrolada em uma manta. Encarando o teto como um cadáver estendido em um caixão, Inês finalmente chamou o irmão, que a vigiava com profunda ansiedade:
— Luciano, venha aqui.
— … Por quê?
— Se estou mandando vir, apenas venha.
Ele a fitou com suspeita e inclinou-se sobre a cama. Inez lutou para libertar o braço preso sob o cobertor, arrastou-se um pouco e estendeu a mão.
— Inês Valeztena, você vai começar de novo?
— … Você é tão... tão jovem, Luciano.
Acariciando o rosto firme de seu irmão mais velho, ela murmurou repetidamente o quanto ele parecia jovem e revigorado. Para qualquer um que assistisse à cena, ela parecia ter perdido completamente o juízo. Luciano estremeceu e afastou o rosto do aperto de Inez.
Juana, a criada que a servia no ducado desde a infância, de repente ergueu a cabeça ao lado da cama e murmurou:
— Milorde, a Señorita não estaria agindo assim por causa do matrimônio iminente?
— Só pode ser essa a razão. Ela age como se estivesse prestes a enlouquecer.
— Juana, você também está aqui.
— Sim, minha lady. E a señorita já massageou o meu rosto antes, se quer saber.
— Você é tão bonita…… Eu cheguei a dizer isso?
— Pelo menos desde esta tarde, não parou de repetir isso até se cansar.
— Tão jovem… Olhe para essa pele viçosa…… Você por acaso tem dezessete anos este ano?
— Você parece um velho libertino obcecado por uma jovem camponesa. Já chega, Inês. — Luciano segurou a mão da irmã no ar e a empurrou de volta para sob a manta.
Contudo, Inez não conseguia desviar os olhos do rosto de Juana.
Em seu sonho, ela teve que deixar o Ducado de Perez ao completar dezesseis anos, para morrer sem nunca mais ver os terrenos de sua família. Quando Oscar levantou seu véu de noiva, ela perdeu seu povo amado, seu belo jardim familiar e sua vista favorita das torres do castelo. Nunca chegou a ver o que aconteceu com Juana ou com as criadas na última década.
No momento, os Valeztena e todos de Perez pareciam exatamente os mesmos. Como se a última primavera que ela passara ali tivesse sido congelada no tempo.
— Certo, era primavera... — murmurou para si mesma.
— O quê? — perguntou Luciano.
— A primavera ainda não passou — respondeu ela, quase para si.
Luciano a encarou, achando que ela realmente estava enlouquecendo.
— Claro que ainda é primavera, Inês — suspirou. — Você vai se casar com o príncipe herdeiro em quatro meses. Vai partir para Mendoza em quinze dias. Não pode estar se comportando assim—
— Não, eu não vou — interrompeu ela.
— Mãe sempre dizia que os Mendozanos fariam tudo ao seu alcance para encontrar defeitos em você. Sei que você deve sentir que não merece Oscar. Entendo a pressão que deve sentir... —
Ela mordeu o lábio e franziu a testa.
Luciano percebeu a resistência em seu rosto.
— Talvez devêssemos chamar o médico da família, Juana. Olhe para ela. Obviamente não está me ouvindo.
Juana sentiu a raiva de Inês aumentando.
— … Mais do que isso, Milorde. Creio que o senhor deveria ter mais cautela com as palavras…
— Quem não merece quem?! — gritou Inês. Ela se lançou sobre o irmão e o empurrou para a cama.
Luciano nem teve tempo de protestar antes de ser atingido pela irmã.
— Ai, Inês! Pare!
Ela apertou sua garganta e gritou em seu rosto:
— Oscar é quem não me merece! Diga isso. Fale com sua própria boca!
Pego de surpresa Luciano não conseguia reagir.
— Diga isso de novo! Olhe nos meus olhos e repita se tiver coragem! — Ela agarrou o colarinho de Luciano com os punhos cerrados e gritou como uma possessa.
Luciano, sem ar devido ao aperto em sua garganta, acabou apanhando ainda mais violentamente por não conseguir responder às exigências da irmã.
A sensação física de espancar alguém vivo... Aquilo também era real. Aquele impacto por si só não podia ser uma ilusão. Satisfeita, ela finalmente saiu de cima do peito de Luciano, exibindo um sorriso enigmático.
Sua expressão era tão bizarra e desconcertante que Luciano, que pretendia descarregar uma enxurrada de palavrões contra Inês, esqueceu o que ia dizer por um instante e apenas a encarou, estupefato.
— … Você realmente perdeu o juízo? Diga-me, Inês. Você por acaso tomou os remédios da mamãe no lugar dela?
A sensação de cobrir Luciano de pancadas era idêntica à sensação de espancar Óscar aleatoriamente em seus dias de fúria na corte. Era o mesmo realismo do peso do rifle longo que ela empunhara invertido antes de morrer, e que ainda parecia presente quando despertou no coto de caça.
Tudo aquilo era real.
Nem a vida desesperada aos vinte e seis anos, nem a tolice de sua mente aos dezesseis — quando passava os dias fantasiando em se tornar a esposa perfeita de Óscar — haviam sido um mero sonho. Inês convenceu-se disso após realizar dezenas de pequenos testes mentais e físicos.
O momento presente era a primavera de seus dezesseis anos, exatos quatro meses antes do matrimônio com Óscar.
Ela havia retornado. Ao limiar de todas as desgraças de sua vida.
Aquilo era uma oportunidade de ouro, uma verdadeira bênção divina. O prêmio por sua integridade, por ter mastigado e engolido o próprio ódio através do suicídio sem arrastar a Casa Valeztena para a ruína. Toda a sua paciência havia valido a pena. Era a chance de encerrar sua trajetória de forma correta antes de ascender aos céus.
Um destino concedido por Deus……
Naquele momento, quando ela conhecia apenas uma única morte, era exatamente isso o que ela acreditava.
Ela perceberia o quão enganada estava apenas quando morresse pela segunda vez.
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