Capítulo 15 – Um Amor Condenado
Ela não queria passar a vida seguindo o caminho que sua família e a corte imperial haviam traçado para ela. Não queria sacrificar seu futuro em nome das promessas feitas por sua família. Simplesmente não poderia desperdiçar sua vida daquela forma novamente. Dessa vez, planejava viver uma vida completamente diferente.
Infelizmente, Inês havia se esquecido de uma diferença essencial em sua vida regressada... Ela se esqueceu de que tinha apenas dezesseis anos outra vez. Uma estranha jovem de dezesseis anos, aliás. Uma adolescente com as memórias de uma mulher adulta de vinte e seis.
A criada anunciou:
— Senhorita Valeztena, o pintor imperial chegou para retratá-la para a revista semanal. Esse retrato será publicado na próxima edição, então estamos com pouco tempo. Por favor, desça como está agora.
— Senhorita? — a criada insistiu.
Inês não conseguiu tirar os olhos do belo homem que estava ao lado do pintor. A jovem novamente Inês Valeztena se apaixonou à primeira vista.
Restavam-lhe apenas duas semanas antes de ter que viajar para Mendoza. O tempo para mudar sua vida estava se esgotando. Aquela era sua única chance de encontrar o verdadeiro amor, em vez de aceitar um casamento arranjado.
Era a oportunidade de viver a vida que sempre desejou — e ela já planejava um esquema detalhado para aproveitá-la ao máximo.
Um amor verdadeiro... Sua versão de vinte e seis anos teria lhe dado um tapa no rosto só de pensar nisso. Infelizmente, a Inês de dezesseis anos era muito mais romântica. O amor lhe parecia a única compensação apropriada pelo fracasso de seu casamento em sua vida passada.
Naquela noite, Inês despiu-se completamente antes de entrar no quarto do assistente do artista. Imaginou que só teria tempo para uma jogada ousada — e por isso escolheu um método mais direto e físico de sedução.
— Senhorita Valeztena...! — ele exclamou.
— Abaixe a voz, se não quiser ser pego — ela ordenou em sussurro.
O assistente, porém, não pareceu intimidado com a resposta. Em vez disso, não conseguia tirar os olhos do corpo perfeito dela.
Infelizmente, o rapaz de dezoito anos jamais havia conhecido uma mulher. Desajeitado, balbuciava que não tinha o direito de cometer um ato tão profano com uma dama de honra. Claro que Inês não era tão ingênua. Já tinha anos de experiência com Oscar e sabia exatamente como excitá-lo.
Aquele garoto tinha um dom para a adulação desmedida — quase suficiente para fazer Inês estremecer de constrangimento.
— Você é tão linda... Deve ser uma deusa. Não consigo acreditar em como você se move sobre mim — ele gemeu a noite inteira. — Desde o momento em que nos conhecemos, soube que não poderia evitar me apaixonar por você. Mesmo sabendo que jamais conseguiria alcançar alguém tão digna quanto você.
Inês tentou evitar vomitar concentrando-se em seu rosto. Ele tinha um rosto agradável, e isso não lhe incomodava.
Ele continuou a gemer:
— Você é tão adorável, tão elegante, tão divina. Sinto como se seus olhos elegantes estivessem me engolindo por completo... Me sinto abraçado pela luz do Sol. Você é maravilhosa, Inês...
Ela quis responder, mas não conseguiu. Não conseguia se lembrar do nome dele. Ouvira o pintor chamá-lo algumas vezes durante a sessão, mas devia estar ocupada demais admirando seu rosto.
Ele percebeu a frustração dela e sorriu timidamente:
— Por favor, não se esqueça do meu nome. Meu nome é Emiliano.
O sorriso dele iluminou todo o quarto. Ela mal conseguia respirar. Brincou com a pronúncia do nome por um momento.
O amor pode surgir rapidamente, assim, de repente. Assim que soube o nome de Emiliano, soube o que era o amor. Esse foi seu infortúnio.
Dez dias depois, os dois desapareceram de Perez. Viveram quatro anos pobres, mas felizes, até serem capturados pelos guardas Valeztena em uma pequena cidade portuária. Emiliano conseguiu fugir com a ajuda de um amigo de Inês, mas acabou morrendo aos pés de Luciano no final. Emiliano foi morto diante dela e de seu filho recém-nascido.
Ela chorou em desespero e agarrou o corpo sem vida dele. Os guardas Valeztena a arrancaram de seus braços e a carregaram como um saco de bagagem, jogando-a em seguida na carruagem próxima.
Ela era um bem danificado. Já não servia mais para o príncipe herdeiro, mas ainda era a única filha da família Valeztena. Os Valeztena imploraram perdão à família imperial e prometeram encarcerá-la pelo resto da vida como punição por suas ações.
A imperatriz mostrou misericórdia a Inês e concedeu-lhe o “privilégio” de tornar-se a segunda esposa do Conde Almenara. Declarou esperar que Inês cumprisse sua pena ao lado de um marido mais velho e aprendesse seu lugar no mundo.
Embora o Conde Almenara já tivesse mais de sessenta anos, Inês não se importou. Pouco lhe interessava quem seria seu próximo marido. Se não fosse Emiliano, ninguém poderia fazê-la feliz. Portanto, ela aceitou se casar com o conde.
Também lhe disseram que seu filho com Emiliano se tornaria o filho adotivo de um primo distante. Os Valeztena prepararam um grande casamento para apaziguar os rumores a seu respeito. Ela seguiu todas as ordens sem resistência — até ouvir que seu filho, na verdade, seria enterrado vivo nos campos de caça, e não enviado a um primo distante. O próprio duque Valeztena comentara que não queria que aquela “semente nojenta” crescesse em primeiro lugar.
Inês ficou devastada. Seu filho precioso agora era chamado de “semente nojenta”, e ela mesma de “bem danificado”.
Não havia mais sentido em lutar. Inês deixou de resistir.
Se entregou a depressão profunda.
Num mundo sem Emiliano, só lhe restava tristeza infinita. Qualquer amor que pensara ter sentido por Oscar empalidecia diante da profundidade do luto que carregava por Emiliano. Ela o amava mais do que qualquer coisa, mas ele já não estava mais ali para receber esse amor.
Seu filho era a única prova restante de sua união, o único fragmento de Emiliano que ainda restava... Ela não queria que ele morresse em dor, em um lugar estranho.
Por isso, decidiu matar o próprio filho.
Uma semana antes da cerimônia de casamento com o Conde Almenara, permitiram que passasse uma última noite com a criança. Estrangulou o bebê de três meses com as próprias mãos. Mesmo enfraquecida como estava, não teve dificuldade em sufocar sua respiração frágil.
Ficou horas olhando para o corpo sem vida e, antes do amanhecer, enfiou uma lâmina em si mesma.
Enquanto via seu sangue escorrer sobre o corpo morto do bebê, Inês pensou em Emiliano. A voz dele ecoava em sua mente:
— Por favor, não esqueça o meu nome, senhorita Valeztena. Meu nome é Emiliano.
Alguns nomes podiam mudar o curso do mundo. O nome de Emiliano tinha esse efeito sobre Inês. Num mundo em preto e branco, ele era a única pessoa que brilhava em mil cores.
Ela não podia imaginar alguém mais puro ou mais perfeito. Ninguém mais amável, mais belo... Ela daria de bom grado a própria vida para ter de volta até mesmo um traço dele no mundo. Seu amor por Emiliano era tão grande que até o ódio por Oscar parecia insignificante em comparação.
Tudo havia mudado, e Emiliano já não estava mais ali. Ele era o único que importava para ela, e ainda assim não fazia mais parte de sua vida. Por isso, sua própria vida precisava terminar.
Ela tinha certeza de que pertencia ao inferno por ter matado o próprio filho. E tinha ainda mais certeza de que não esqueceria o nome de Emiliano, nem mesmo no inferno. Enquanto sua consciência se apagava, ela sentiu o calor dos braços dele envolvê-la e a voz dele sussurrar em sua mente:
— Por favor, não me esqueça, senhorita Valeztena.
Na sua segunda morte, Inês tinha apenas vinte anos.
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