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Capítulo 16 — Terceira Vida

 ✽ ✽ ✽

Então, Inês abriu os olhos novamente...

Ela havia regredido a um passado ainda mais distante.

Aos dezesseis anos, quando despertou pela primeira vez no campo de caça após o disparo, ela considerou tudo aquilo como um milagre absoluto. Inês regozijou-se, convencida de que até mesmo Deus se compadeceria de sua existência lamentável e lhe estenderia a mão. Afinal, receber a chance de viver de novo, sabendo que não havia maior bênção do que a própria vida……


Agora, contudo, Inês encarava fixamente o reflexo de uma criança de seis anos no espelho.


— … Isso é realmente uma piada.


Por ter sido incapaz de salvar os próprios filhos na vida anterior, ela acreditava que uma mulher como ela estaria fadada ao inferno. No entanto, o lugar onde desabara após sua última morte não fora um poço de fogo eterno e tortura, mas sim o leito acolhedor de uma jovem aristocrata, cercada por uma opulência nobre onde não lhe faltava absolutamente nada.

Lamentavelmente, ela havia retornado. E, desta vez, muito antes de qualquer uma das desgraças de sua vida sequer se aproximar.


Tomada por um acesso de puro pânico, Inês empurrou o espelho à sua frente, estraçalhando-o contra o chão. Seus pequenos dedos infantis tremiam violentamente.

Isto era o inferno.

Um arranjo cruel daquela magnitude jamais poderia existir fora do inferno.

No exato instante em que enfiara o cano da arma na boca diante de Óscar em sua primeira vida, ou talvez a partir de cada escolha errada que fizera depois, seu castigo já havia sido decretado.


Nunca houvera oportunidades ou bênçãos divinas desde o início.


O verdadeiro inferno era aquele: ser forçada a repetir a mesmíssima existência, de novo e de novo, apenas para ser dilacerada pela infelicidade todas as vezes.

Talvez estivesse condenada a esse castigo desde o momento em que enfiara a arma no próprio rosto. Deus nunca a abençoara. Nunca lhe dera uma segunda chance. Estava apenas presa em um ciclo infernal que repetia sua miséria vezes sem conta.

A Inês de seis anos manteve-se calma diante de sua regressão de idade. Já não precisava mais se torturar com as quinas afiadas dos móveis ou com a ponta de uma caneta-tinteiro para verificar se ainda estava sonhando. Essa dor apenas reforçaria a realidade da situação.


Ela não queria que sua nova vida parecesse real. 


A vida lhe parecia um poço de cianeto, e ela estava se afogando nele. Embora tentasse ao máximo agir como uma criança de seis anos, os sentimentos de sua vida passada voltavam a inundá-la de vez em quando.


Sempre que se lembrava de como havia matado o próprio filho, encarava suas pequenas mãos com incredulidade. Mãos tão pequenas não podiam fazer muito, quanto mais tirar a vida de alguém. Sempre que a culpa e o desespero ameaçavam dominá-la, encontrava alívio no fato de que agora seu corpo era o de uma menina de seis anos. Repetia a si mesma que era apenas uma criança indefesa e tentava se convencer de que suas memórias não eram reais.


— Com mãos tão pequenas, eu nunca poderia matar ninguém. Com esse corpo de seis anos, jamais poderia ser esposa ou mãe. Impossível.


Em vez de tentar encarar a realidade de sua regressão, passou a abordar sua nova vida com descrença e fuga. Talvez tudo não passasse de um sonho horrível e repulsivo... Um sonho sobre alguém que ela sentia falta desesperadamente, com todo o seu coração. Pouco lhe importava se a vida atual era um sonho ou se sua segunda vida com Emiliano fora um sonho. 


De qualquer forma, Emiliano já não fazia parte de sua vida.


Após dez dias de febre e vinte dias de silêncio, Inês finalmente aceitou sua situação. Não havia nada que pudesse mudar. 

Por mais que não quisesse estar viva, estava viva outra vez. Mesmo depois de ter acabado com a própria vida duas vezes, encontrava-se respirando e falando novamente. Havia retornado à sua vida em Perez, entre as muitas pessoas que costumava amar.


Esses eram os dias em que seus pais ainda eram felizes no casamento e em que sua mãe ainda tratava os filhos como seus maiores tesouros. Seu pai, que havia detestado a filha de vinte anos por sua desobediência em sua segunda vida, ainda amava a menina de seis anos. 


Sua vida era feliz novamente.


Assim como Inês tentava afastar da mente a lembrança de seu próprio assassinato, também tentava ignorar a memória de Luciano matando Emiliano. Mesmo quando, ocasionalmente, sentia-se compelida a estrangular o irmão, ela engolia o impulso. Aquele inocente garoto de nove anos não parecia o mesmo homem que havia matado Emiliano e cuspido em seu cadáver.


Talvez Luciano nunca tivesse matado Emiliano. Talvez seu irmão não fosse um assassino.


 É claro. Nada daquilo jamais havia acontecido. 

Inês fitava seu reflexo no espelho e dizia a si mesma que nenhum daqueles acontecimentos terríveis realmente ocorrera.

O Ducado de Perez ficava ao sul de Ortega. Seus dias eram longos e suas noites, ainda mais, mas Inês aprendeu a tolerar a passagem do tempo. Seu sexto verão havia acabado de começar. Seu reflexo no espelho parecia crescer a passos de tartaruga, mas ela aceitava esse fato.


À medida que se acostumava à sua terceira vida, as memórias de Emiliano se tornavam tênues. Às vezes, sentia-se aliviada em deixá-las desaparecer. À medida que as lembranças se desvaneciam, também a dor se enfraquecia.


Nas noites em que via Emiliano em seus sonhos e acordava soluçando, ela se reequilibrava dizendo a seu reflexo no espelho que nada daquilo realmente havia acontecido, até que as lágrimas parassem de cair. Então, o sol nascia, e tudo ficava bem novamente.


Ao menos por ora, Emiliano estava vivo em algum lugar. Ele também estaria se levantando de sua própria cama. Esse pensamento ajudava Inês a respirar outra vez. 

Estou bem, contanto que ele esteja vivo. 

Esse simples mantra dava sentido à sua terceira vida.

Após uma breve batida na porta, o rosto da duquesa Valeztena apareceu no batente.


— Inês, está pronta?


— Sim, mamãe.


Inês levantou-se do banco diante do toucador e seguiu a duquesa Valeztena. O príncipe herdeiro as aguardava.


✽ ✽ ✽


— Pérez no verão é ainda mais ameno. Você tem sorte, Inês. Ter uma terra natal como esta……

Óscar contemplava a luz deslumbrante do sol e as vastas planícies que se estendiam abaixo das colinas, fingindo admiração por um longo tempo enquanto tagarelava sem parar. Dizia que o extenso senhorio dos Valeztena era famoso por seus invernos calorosos, mas que o verão, quando a vida concebida pela primavera começava a pulsar, exibia a verdadeira vitalidade dos vales de Pérez... E seguiu com aquele falatório pretensioso.


Inês limitava-se a balançar a cabeça, ouvindo com absoluta indiferença, deixando as palavras dele entrarem por um ouvido e saírem pelo outro. Óscar tentou fitá-la com um falso significado e, de repente, fixou nela aquele olhar transbordante de uma precoce superioridade aristocrática.


— Você parece preocupada, Inês.


— Não é nada disso, Milorde.


— Eu sei que sim. Sabe, eu tenho um bom olho para avaliar as pessoas.


Ele tinha, acima de tudo, um excelente olho para escolher a melhor entre todas as mulheres disponíveis no império. Qualquer homem teria essa capacidade se estivesse na posição de escolher. Mas, considerando a sua primeira vida — na qual ela própria o invejara pelas mesmas razões —, Inês preferiu não tecer comentários.


Óscar outrora fora o partido mais esplêndido que ela poderia ter escolhido. O homem que a transformaria na mulher mais poderosa e invejada do império.

Houve um tempo em que aquela ilusão bastara, pois Óscar parecia perfeito. É claro que, na infância, sua excessiva modéstia parecia um defeito, mas à medida que crescia, ele próprio detectava suas imperfeições e as corrigia meticulosamente, moldando-se como um indivíduo impecável diante da corte.


Em poucos anos, cada palavra pronunciada por ele exalará uma falsa humildade.


“E então, um dia, ele se transformará naquele perfeito monte de imundície.”


— Acredite em mim, Inês, consigo perceber. No que você está pensando exatamente neste momento?


— …


Inês apoiou o queixo na mão e o encarou fixamente, incapaz de ocultar por completo o tremor de sua expressão. Ao fitar os olhos daquela criança que, no presente, claramente ainda não sabia de nada, ela sentiu um paradoxal alívio.


O que um garoto de oito anos poderia saber? Era bizarro imaginar em que tipo de pervertido degenerado ele se transformaria dali a doze anos, enquanto observava aquele cabelo castanho-avermelhado puro e aquele coração que fingia buscar a santidade, cortejando uma menina tão jovem.


Ainda assim, uma onda de náusea subiu por sua garganta.


Como seu pai ainda o estimava, e como o seu querido irmão Luciano ainda não havia assassinado Emiliano, Óscar tecnicamente ainda não a havia traído nesta linha temporal. Ela compreendia aquilo com a lógica de sua mente e até o aceitava com o coração. Era fato que, no momento, ele possuía a aparência de um menino encantador e inofensivo, a quilômetros de distância do semblante ganancioso e decrépito daquela época.


A semelhança física com o homem do futuro a fazia odiá-lo por puro hábito, mas o impacto já não era o mesmo. Se para ela Emiliano representava um sonho distante e sagrado, a década que passara ao lado de Óscar na primeira vida não passara de um pesadelo imundo e sem valor.


A existência de Óscar tornara-se infinitamente insignificante se comparada à magnitude de Emiliano. E isso não se devia apenas às atrocidades que Óscar cometera ou ao quão ridícula era a sua história de depravação nos bordéis, mas sim porque a presença de Emiliano em sua alma era grandiosa demais.


A memória de sua primeira vida era ainda mais vívida do que a da segunda, mas o sentimento assemelhava-se ao ato de recordar com precisão a biografia de uma terceira pessoa. Ela sabia perfeitamente, em termos intelectuais, que outrora havia sido esposa dele. 

Portanto, aquilo era uma questão de pura higiene e autopreservação.


— A profundidade que preenche o seu coração parece uma pintura.


Percebendo que ele tentava soar poético e profundo, Inês tencionou o pescoço para escapar do toque dele, mas a outra mão de Óscar pousou firmemente sobre o ombro da menina. 


Inês estremeceu dos pés à cabeça.


— Deve ser difícil para você…… Talvez a minha proposta de noivado tenha sido precoce demais. Tornar-se a futura Imperatriz de um país carrega um fardo esmagador.


— …


— Mas você será capaz, Inês Valeztena. Não existe mulher mais adequada para este assento do que você.


— …


— É como uma posição que já lhe foi divinamente atribuída. Você só precisa continuar se preparando, exatamente como é.


Aquelas mãos infantis pareciam limpas agora, mas dali a doze anos estariam infestadas por todo tipo de infecção venérea. Seriam as mesmas mãos que tocariam o estômago de cortesãs, o cabelo de prostitutos nos subsolos dos distritos da luz vermelha e que, eventualmente, tentariam agarrá-la……


Inês moveu a cabeça com violência, esquivando-se do toque de Óscar. Foi o momento em que ela manifestou a sua força de vontade mais avassaladora ao longo das dezenas de dias desde que despertara naquele corpo de seis anos.


Além do temperamento orgulhoso e aristocrático herdado de seu pai, ela carregava uma constituição frágil e melancólica herdada de sua mãe. O vislumbre daquelas mãos imundas do futuro e a repulsa absoluta de ser tocada por ele despertaram de golpe aquela mente infantil, que até então assistia a tudo com apatia e indiferença.


“Nunca mais permita que essa criatura toque em você. Isso não pode acontecer.”


— Inês?


— … Não me toque. Está contaminado.


No instante em que Óscar tentou segurar o braço dela novamente para acalmá-la, Inês desferiu um tapa contra a mão dele, como se repelisse algo contaminado e impuro. O garoto recuou, exibindo uma expressão de total consternação.


— Se eu cometi algum erro……


“Faça algo.” 


Uns oito anos se passarão, e depois outros doze. Até o momento em que ela finalmente perderá o controle de sua sanidade e enfiará o cano de um rifle na boca.


Inês percebeu que fora um erro crasso de sua parte acreditar que poderia simplesmente suportar aquele noivado com indiferença nesta nova vida. Uma onda de fúria e determinação ergueu-se naquele coração que antes se encontrava lamentavelmente afundado na depressão.


A sobrevivência de Emiliano não era o único objetivo.

Em primeiro lugar, ela não era o tipo de mártir altruísta que suportaria o inferno em silêncio por uma causa maior. E, sem sombra de dúvidas, seu estômago era fraco demais para tolerar a presença daquele monstro.


Aquela era a Inês Valeztena de seis anos de idade. 


E a única coisa que a enfurecia no presente era habitar uma idade tão tenra, na qual ela sequer tinha o direito de morrer por vontade própria.


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