Capítulo 16 — Terceira Vida
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Então, Inês abriu os olhos para um passado ainda mais distante.
Quando havia se visto com dezesseis anos outra vez, considerara aquilo uma bênção. Que rara oportunidade, dada por Deus, de desfrutar novamente do privilégio da vida...
Mas lá estava ela, fitando o próprio reflexo no espelho em silêncio — em sua versão de seis anos de idade. Estava certa de que acabaria no inferno depois de matar o próprio filho. No entanto, em vez disso, acordara na cama confortável e na prosperidade de uma aristocrata.
— Que ridículo... — murmurou, fervendo de raiva contida.
Ela havia retornado. Retornado aos dias muito antes de todo o seu desespero começar.
Inês empurrou o espelho com toda a força. O vidro se estilhaçou em pedaços, e seus dedos tremeram de fúria. De fato, essa vida só podia ser um tipo diferente de inferno.
Talvez estivesse condenada a esse castigo desde o momento em que enfiara a arma no próprio rosto. Deus nunca a abençoara. Nunca lhe dera uma segunda chance. Estava apenas presa em um ciclo infernal que repetia sua miséria vezes sem conta.
A Inês de seis anos manteve-se calma diante de sua regressão de idade. Já não precisava mais se torturar com as quinas afiadas dos móveis ou com a ponta de uma caneta-tinteiro para verificar se ainda estava sonhando. Essa dor apenas reforçaria a realidade da situação.
Ela não queria que sua nova vida parecesse real. A vida lhe parecia um poço de cianeto, e ela estava se afogando nele. Embora tentasse ao máximo agir como uma criança de seis anos, os sentimentos de sua vida passada voltavam a inundá-la de vez em quando.
Sempre que se lembrava de como havia matado o próprio filho, encarava suas pequenas mãos com incredulidade. Mãos tão pequenas não podiam fazer muito, quanto mais tirar a vida de alguém. Sempre que a culpa e o desespero ameaçavam dominá-la, encontrava alívio no fato de que agora seu corpo era o de uma menina de seis anos. Repetia a si mesma que era apenas uma criança indefesa e tentava se convencer de que suas memórias não eram reais.
— Com mãos tão pequenas, eu nunca poderia matar ninguém. Com esse corpo de seis anos, jamais poderia ser esposa ou mãe. Impossível.
Em vez de tentar encarar a realidade de sua regressão, passou a abordar sua nova vida com descrença e fuga. Talvez tudo não passasse de um sonho horrível e repulsivo... Um sonho sobre alguém que ela sentia falta desesperadamente, com todo o seu coração. Pouco lhe importava se a vida atual era um sonho ou se sua segunda vida com Emiliano fora um sonho.
De qualquer forma, Emiliano já não fazia parte de sua vida.
Após dez dias de febre e vinte dias de silêncio, Inês finalmente aceitou sua situação. Não havia nada que pudesse mudar. Por mais que não quisesse estar viva, estava viva outra vez. Mesmo depois de ter acabado com a própria vida duas vezes, encontrava-se respirando e falando novamente. Havia retornado à sua vida em Perez, entre as muitas pessoas que costumava amar.
Esses eram os dias em que seus pais ainda eram felizes no casamento e em que sua mãe ainda tratava os filhos como seus maiores tesouros. Seu pai, que havia detestado a filha de vinte anos por sua desobediência em sua segunda vida, ainda amava a menina de seis anos. Sua vida era feliz novamente.
Assim como Inês tentava afastar da mente a lembrança de seu próprio assassinato, também tentava ignorar a memória de Luciano matando Emiliano. Mesmo quando, ocasionalmente, sentia-se compelida a estrangular o irmão, ela engolia o impulso. Aquele inocente garoto de nove anos não parecia o mesmo homem que havia matado Emiliano e cuspido em seu cadáver.
Talvez Luciano nunca tivesse matado Emiliano. Talvez seu irmão não fosse um assassino.
É claro. Nada daquilo jamais havia acontecido. Inês fitava seu reflexo no espelho e dizia a si mesma que nenhum daqueles acontecimentos terríveis realmente ocorrera.
O Ducado de Perez ficava ao sul de Ortega. Seus dias eram longos e suas noites, ainda mais, mas Inês aprendeu a tolerar a passagem do tempo. Seu sexto verão havia acabado de começar. Seu reflexo no espelho parecia crescer a passos de tartaruga, mas ela aceitava esse fato.
À medida que se acostumava à sua terceira vida, as memórias de Emiliano se tornavam tênues. Às vezes, sentia-se aliviada em deixá-las desaparecer. À medida que as lembranças se desvaneciam, também a dor se enfraquecia.
Nas noites em que via Emiliano em seus sonhos e acordava soluçando, ela se reequilibrava dizendo a seu reflexo no espelho que nada daquilo realmente havia acontecido, até que as lágrimas parassem de cair. Então, o sol nascia, e tudo ficava bem novamente.
Ao menos por ora, Emiliano estava vivo em algum lugar. Ele também estaria se levantando de sua própria cama. Esse pensamento ajudava Inês a respirar outra vez. Estou bem, contanto que ele esteja vivo. Esse simples mantra dava sentido à sua terceira vida.
Após uma breve batida na porta, o rosto da duquesa Valeztena apareceu no batente.
— Inês, está pronta?
— Sim, mamãe.
Inês levantou-se do banco diante do toucador e seguiu a duquesa Valeztena. O príncipe herdeiro as aguardava.
Oscar admirou por um momento o glorioso sol e as vastas planícies à sua frente.
— Perez é ainda mais deslumbrante no verão. Você tem sorte de chamar um lugar tão bonito de lar, Inês.
Ele então começou a falar sem parar sobre como o verão trazia o poder da vida em Perez, blá, blá...
Inês apenas acenava com a cabeça, sem prestar muita atenção.
Oscar percebeu o quanto ela estava distraída e aproximou o rosto do dela.
— Você parece ter algo na mente, Inês.
— Não tenho nada disso, Alteza.
— Você não pode esconder nada dos meus olhos perspicazes.
De fato, Oscar era astuto o bastante para distinguir qual garota lhe traria mais prestígio e influência familiar. E, para ser honesta, Inês não tinha muito espaço para criticá-lo por ser superficial. Ela mesma o escolhera como esposo pelo mesmo motivo raso em sua primeira vida.
Certa vez, acreditara que Oscar era o nome mais poderoso e prestigioso entre os homens disponíveis. Estava confiante de que ele a tornaria a mulher mais admirada de toda a nação. Naquele tempo, essa promessa de prestígio era tentadora o suficiente.
Assim, Oscar era o noivo perfeito. Ele até deixaria de lado sua tendência infantil de se exibir. Em alguns anos, aprenderia a escolher palavras mais humildes, então ela não poderia culpá-lo por muito tempo.
Infelizmente, Inês sabia bem que ele acabaria se tornando um libertino imundo, além da imaginação de qualquer um.
Oscar estendeu a mão e segurou seu queixo com a destra.
— Eu sei o que você está pensando, Inês.
Ela não conseguiu esconder a amargura no olhar. Para ser justa, aquele garoto era realmente ingênuo. Tudo o que sabia era correr atrás dela e alimentar sua ambição de se tornar um governante sábio. Não tinha a menor ideia do pervertido repugnante em que se transformaria em doze anos.
Oscar ainda não a havia traído, assim como seu pai ainda não começara a desprezá-la e Luciano ainda não havia matado Emiliano. Ela aceitava esse fato tanto intelectual quanto emocionalmente. O rosto de Oscar naquele momento era o de um menino inocente, não o de um homem ganancioso que ele se tornaria.
Embora não conseguisse conter o nojo e o ódio instintivos herdados de sua vida anterior, suas emoções não eram tão intensas. Afinal, Oscar perdera toda importância assim que Emiliano entrou em sua vida. Se os acontecimentos de sua segunda vida já eram uma lembrança distante, sua primeira vida agora parecia apenas um sopro de pesadelo. Apesar de recordar os episódios de sua primeira vida de forma mais vívida que os da segunda, sentia-se desligada deles, como se pertencessem à história de outra pessoa.
Agora, Inês não odiava tanto Oscar. Tudo o que lhe importava era a higiene.
— Consigo ver a desolação em seus olhos — murmurou ele.
Provavelmente havia aprendido a palavra desolação em algum lugar e agora buscava uma oportunidade para exibir seu novo vocabulário. Assim que Inês tentou virar o rosto para escapar de seu toque, ele segurou seu ombro com a outra mão. Ela estremeceu.
— Entendo que você deva estar preocupada. Minha proposta pode parecer repentina. Tornar-se princesa herdeira traz muitos fardos... Mas você pode fazer isso, Inês Valeztena. Nenhuma outra mulher é mais adequada para esse papel.
Ela mal registrava o que ele dizia.
Oscar continuou a encará-la profundamente nos olhos.
— O título já é praticamente seu. Você só precisa vir como está agora.
Infelizmente, tudo o que Inês conseguia pensar era em como aquela mão em seu ombro acabaria contaminada com todo tipo de vírus. Os mesmos dedos que, um dia, se enfiariam em traseiros de mulheres sem nome e tocariam acompanhantes masculinos dos distritos da luz vermelha.
Sua repulsa instintiva era intensa, herdada da obsessão da mãe por limpeza. Incapaz de esconder o desgosto, ela se desvencilhou do aperto dele. Essa foi sua primeira emoção de verdadeira intensidade desde o momento em que acordara no corpo de uma menina de seis anos.
— Inês? — ele a chamou.
Ela afastou a mão dele com um tapa.
— Não me toque. Você é sórdido.
Agora estava decidida a nunca mais se aproximar de algo tão imundo. Nunca.
A boca dele se abriu, surpreso.
— Eu... fiz alguma coisa errada?
Ainda não. Mas, dali a pouco mais de uma década, ele cometeria muitos erros. Durante oito anos, faria absolutamente tudo de errado no mundo, até que sua esposa fosse levada a enfiar o cano de uma espingarda de caça contra a própria cabeça.
Talvez ela se importasse mais com aquela situação do que havia imaginado no início. Sentiu o coração se agitar e a mente começar a tramar. Sim, perceber que Emiliano ainda estava vivo em algum lugar daquela versão da realidade lhe trazia um alívio momentâneo. No entanto, seu objetivo principal era evitar a miséria a todo custo.
Ela não era altruísta nem paciente em nenhum sentido. Tinha pouquíssima tolerância para fazer coisas que não queria. Afinal, tinha apenas seis anos. Além disso, tinha um estômago fraco. Portanto, precisava de um plano para garantir que jamais teria de suportar Oscar novamente.
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