Capítulo 17 — Pecado Original
— Prefiro morrer a me comprometer novamente. Prefiro morrer mil vezes a me casar outra vez com um monstro daqueles…… — murmurou Inês, fuzilando com o olhar o retrato emoldurado de Óscar que repousava sobre o divã da sala.
Aquele fora o presente que o próprio Óscar lhe trouxera ao visitar a propriedade dos Valeztena daquela vez. Ele dissera, com aquela empáfia precoce, que seu futuro noivo sempre estaria ao lado dela, mesmo em Pérez, para que ela jamais se sentisse solitária, e seguiu com aquele falatório hipócrita……
— … E ele chama isso de presente… Horrível.
"Eu achava que havia enlouquecido apenas depois de adulta, mas, olhando para trás, percebo que já era uma lunática desde a infância."
Como ela pudera um dia acreditar que o rosto daquele garoto era uma dádiva divina? Ele possuía uma simetria facial impecável, sim, mas aquilo não garantia em nada que ele se tornaria um grande homem no futuro. A antiga Inês carecia tanto de senso estético quanto de objetividade.
Ela mirou a pintura do Príncipe com profundo desdém.
Aquele retrato conseguia evocar emoções ainda mais repugnantes do que o próprio Óscar de carne e osso.
A tela exibia um corpo inacreditavelmente forte para um menino de dez anos; feições que o faziam parecer uns sete anos mais velho — ou melhor, uma fisionomia excessivamente madura —, ombros ridiculamente largos, um halo luminoso divino ao fundo e asas de anjo que pareciam prontas para alçar voo em direção aos céus……
A obra, que seguia a tendência artística de exagerar as virtudes da realeza, atingia o ápice do ridículo naquelas asas teatrais. Contudo, Inês sequer foi capaz de rir; limitou-se a encarar fixamente o rosto pintado. O pintor, de fato, possuía talento. O Óscar do retrato exibia a exata imponência de um monarca que nascerá para governar.
Exceto, é claro, por aquele físico imponente. Na realidade, Óscar detestava o esforço físico do início ao fim; ele jamais praticara qualquer tipo de exercício moderado, muito menos um treinamento militar digno. Era um homem cujos antebraços caíam em linhas flácidas e finas assim que se despia de suas vestes caras, ostentando um peito estreito. Um sujeito que perdia o fôlego logo nos primeiros minutos de uma caçada e passava o tempo ocupado demais tentando alcançar o ritmo de sua noiva……
Para a infelicidade do império, ele estava desperdiçando por completo a robustez física inata e a excelente estocada que o Imperador lhe transmitira geneticamente. Quando estivesse velho, não restaria nada daquela carcaça. E, com uma vida sexual tão caótica e promíscua, era de se questionar se ele sequer sobreviveria até a velhice.
“Portanto, mesmo que eu não faça nada, ele jamais terá um futuro glorioso.”
Inês soltou um riso de escárnio diante daquele delírio alado de um menino de dez anos.
Em sua infância ambiciosa, cegada pelo desejo de se tornar a futura Imperatriz, ela jamais teria detectado aquele temperamento bizarro no noivo. Naquela época, ela provavelmente teria sussurrado palavras doces e bajuladoras:
“Vossa Alteza é tão maduro e atencioso…”,
“Agora, mesmo em Pérez, poderei ver o rosto de Vossa Alteza sempre que a saudade apertar. Estou tão feliz!”,
“O sorriso de Vossa Alteza ilumina a mansão dos Valeztena como o próprio sol…… Este ano, Pérez certamente colherá uma colheita abundante, pois Vossa Alteza abençoou esta terra!”……
Ela teria ficado genuinamente encantada, proferindo apenas lisonjas melosas.
Afinal de contas, o jovem Príncipe, com apenas dez anos, viajara diretamente para a mansão do sul, desafiando toda a oposição da família imperial, motivado apenas pelo desejo de cortejá-la. Era uma recordação que sequer existia em sua infância real — na qual ela é quem constantemente viajava até a capital para ver o Príncipe Herdeiro —, mas, se ela fosse a Inês de outrora, teria derramado lágrimas de comoção diante de tamanha demonstração de afeto.
Naquela época, Inês possuía uma precocidade misturada a uma lentidão ingênua; ela o incentivava tanto quanto ele desejava e desfrutava imensamente daquela devoção milimetricamente calculada na qual ele se empenhava. Quando o pai de Óscar partia para a capital, Mendoza, ela forçava sua presença na corte apenas para garantir que Óscar não ficasse alheio às suas maquinações.
E, apesar de ter viajado até ali apenas para vê-lo, ela agora permanecia estática ao lado do divã, recusando-se a dirigir o olhar ao Príncipe real.
Como Óscar possuía a obstinação típica de um herdeiro real que precisava possuir justamente aquilo que lhe era negado, os esforços de Inês na primeira vida renderam frutos com extrema facilidade. Ela descobrira, com apenas seis anos, que quanto mais se esquivava dele, mais o seu valor aumentava aos olhos do garoto.
Mas a Inês atual simplesmente começou a chutar o retrato dele. Mesmo sabendo que Óscar ainda estava hospedado sob o mesmo teto da mansão.
— … Morra. Morra. Morra de uma vez sozinho……
A estampa da pintura — impregnada de uma autoconfiança inabalável, narcisismo, soberba e uma altíssima percepção de si mesmo — parecia fitá-la com deboche enquanto recebia os chutes e as maldições da menina. Era como se a imagem dissesse:
“Não importa o quanto você me pise, eu continuo amando a mim mesmo acima de tudo.”
Inês respirou fundo e empurrou a tela pesada, derrubando-a do sofá.
Aquele narcisismo doentio nada mais era do que o prenúncio de seus futuros desvios sexuais. Para a Inês do presente, cada traço da personalidade de Óscar assemelhava-se aos sintomas visíveis de uma infecção venérea.
O linóleo, recoberto por camadas espessas de tinta a óleo, era rígido e resistente, de modo que os pés de uma criança de seis anos não tinham força suficiente para rasgá-lo. Ainda assim, ela pisoteou a face do Príncipe contra o chão com toda a força que seu pequeno corpo permitia, arqueando os ombros pela respiração acelerada.
Contudo, por mais que esmagasse o rosto aristocrático pintado na tela, a fúria em seu peito não diminuía.
— Maldito…… Maldito seja, Óscar. Maldito……
Aquela era a primeira vez que ela via o rosto de Óscar desde o dia em que se suicidara diante dele. Morrera aos vinte e seis, despertara no campo de caça aos dezesseis e, após morrer novamente após quatro anos de uma humilde existência ao lado de Emiliano, cá estava ela de volta. Aos seis anos.
Em sua segunda vida, ela fizera questão de jamais cruzar com um único fio daqueles cabelos ruivos imperiais, e é por isso que o choque do reencontro estava sendo tão devastador. Quase incapaz de processar a realidade, Inês fixou os olhos na figura adulta do Príncipe projetada na pintura.
Quando reencontrara Luciano nesta terceira vida, vendo o irmão chorar com os olhos febris de ansiedade, o que a atormentara fora um misto torturante de luto, amor e ódio.
Luciano fora o homem que assassinara Emiliano — a única criatura que fora o seu mundo inteiro. Mas ele também era o irmão que a protegera e a amara acima de qualquer coisa na terra…… Sua própria família a condenava a oscilar perpetuamente entre o rancor e o afeto, tornando-a incapaz de decifrar os próprios sentimentos.
Mas Óscar... Óscar era diferente.
— … Como você consegue ser tão irritante?
Vê-lo era simplesmente insuportável.
Não havia um resquício sequer de afeto ali; até mesmo as grandes paixões, como o instinto assassino e o rancor generalizado, haviam se reduzido a partículas de poeira em seu coração. Mas ele permanecia sendo uma criatura absurdamente incômoda. A simples visão daquele homem gerava uma irritação tão severa que seu estômago revirava. Ela repudiava até mesmo o som do oxigênio entrando e saindo das narinas dele.
“Prefiro a morte a ter que inclinar a cabeça em sinal de gratidão por receber este lixo como presente…… Como ele consegue viver sendo tão asqueroso? Por que simplesmente não morre?……”
Após ter experimentado a morte algumas vezes, a opção do suicídio surgia em sua mente sem qualquer dificuldade. Fora assim que sua primeira vida terminara de forma abrupta.
Contudo, Inês apressou-se em reorganizar seus pensamentos.
“Se eu morrer agora, como poderei prever para qual ponto do passado o tempo retrocederá?”
A morte definitivamente não representava o fim absoluto para ela. Para os outros homens, o fim era o esquecimento, mas a regra não se aplicava à sua existência. Talvez aquela maldição de retornos fosse a tragédia resultante de sua incapacidade de controlar a própria fúria desde o princípio. Pelo que sua mente recordava, aquele suicídio com o rifle fora o ponto de partida de seu calvário. Se ela não tivesse puxado o gatilho daquela forma, teria tido a chance de eliminar o verdadeiro culpado primeiro……
A contestação de “mas quem foi o culpado por provocar uma fúria tão incontrolável?” ecoou em sua mente, mas ela a reprimiu imediatamente. Embora Oscar fosse o culpado de sua fúria desde o início, ela decidiu não se deixar levar por esses pensamentos. Nesta vida, precisava ser mais cuidadosa com suas escolhas. Antes que acabasse abrindo os olhos novamente confinada no ventre de sua mãe.
— Pense com cuidado. Pense com cuidado…… Analise a situação friamente, Inês Valeztena…… Pense bem.
Sentou-se em silêncio diante de sua escrivaninha, murmurando palavras incompreensíveis para si mesma como se estivesse sofrendo uma lavagem cerebral, enquanto batia nervosamente a ponta seca da pena contra o papel.
Aquele era um transtorno obsessivo compulsivo que ela desenvolvera aos vinte e seis anos, na época em que se tornara quase impossível controlar a própria fúria devido ao matrimônio degradante. Suas pernas curtas, penduradas na cadeira alta, balançavam distraidamente sob o tecido do vestido infantil.
Inês cerrou os dentes e franziu o cenho.
Para que a hipótese de que “a repetição eterna da vida é o próprio inferno” fizesse sentido, era necessária a existência de um pecado original. Uma falha grave o suficiente para justificar o fato de ela ter sido submetida àquele fogo eterno.
Segurando a caneta de tinta com firmeza, ela fixou os olhos no papel em branco e ponderou.
Havia um pecado terrível e inegável que ela cometera, mas apenas em sua segunda morte. Ela seduzira um homem bom e inocente, arrastando-o inevitavelmente para a morte, e fora incapaz de proteger o próprio filho, que vivera menos de meio ano……
A expressão no rosto juvenil de Inês desvaneceu por completo.
Não, não era isso.
Argumentos que beiravam a autodefesa começaram a surgir em sua mente, ignorando qualquer lógica ou ordem cronológica. Ela isolou as memórias de sua segunda existência e voltou a refletir sobre o passado, como se estivesse analisando a biografia de uma terceira pessoa.
Aquela segunda vida já era um inferno por si só. O pecado terrível que ela cometera ali fora, na verdade, uma consequência do próprio calvário, e não a causa dele.
Se assim era, devia existir um primeiro indício, um erro inicial na primeira vida que empurrara Inês em direção ao abismo. Ela começou a recordar minuciosamente, um por um, os detalhes de seu primeiro casamento caótico. E, pela primeira vez em toda a sua existência, passou a examinar as próprias falhas.
Mergulhou a ponta da pena no tinto e escreveu seu primeiro crime na folha:
[Arrogância].
Inês inclinou a cabeça para o lado. Era um traço de personalidade um tanto desagradável, mas certamente não o suficiente para condenar alguém ao inferno.
[Luxo]. Se ostentar riquezas fosse um pecado mortal daquela magnitude, nenhum nobre daquele império jamais morreria em paz.
[Usar as pessoas]. Aquilo era apenas o reflexo de que a posição de cada um no mundo era intrinsecamente diferente desde o nascimento.
[Obsessão por adornos e aparências]. Ela não sentia que havia desperdiçado a vida diante do tocador, e, de qualquer forma, cuidar da própria estética não significava que tivesse causado dano real a terceiros.
[Negligência nos estudos]. Uma tolice sem tamanho considerar isso um pecado.
[Falsidade / Ter duas caras]. Quem no mundo exibia a mesma face para todos?
[Enganar os pais]. [Mentiras]. Ela jamais mentira a ponto de merecer a danação eterna……
[Rancor da mãe]. Fora a Duquesa quem a odiara primeiro.
[Não salvaguardar os segredos do Príncipe Herdeiro]. Óscar deveria ser grato a ela por ter poupado a vida dele naquele dia.
[Matar animais inocentes]. Ela caçava. Bem... Sim, matou animais inocentes por esporte. Mas podia culpar Luciano por tratá-la como um irmãozinho que ele nunca teve. Ele insistia que ela o acompanhasse em atividades “fraternas”. Ainda assim, não podia culpá-lo pelo quanto gostava desses hobbies. Seu espírito competitivo a tornava natural em tiro e corridas de cavalo.
Ela precisava chegar em primeiro a qualquer custo. Até sua obsessão pela beleza era motivada pela necessidade de vencer.
Agora que pensava bem, tratou mal seu cavalo. Mas, apesar do tratamento, seu corcel sempre a amou. Não achava que seu cavalo desejasse vê-la no inferno.
[Ela era ríspida]. Mendoza estava cheia de pessoas repugnantes que não mereciam sua bondade. Se tivesse que ser gentil com pessoas tão horríveis para garantir seu lugar no céu, preferiria se tornar freira.
Quanto mais escrevia, mais confiante ficava de que não cometera nenhum pecado grave. Só sentiu uma pontada de culpa na linha sobre a caça e escreveu o nome de Luciano ao lado da palavra.
Passando a ponta da caneta pelo queixo, perguntou em voz alta:
— O que eu fiz que foi um pecado tão maligno?
Inês releu a lista de pequenas imperfeições com um olhar crítico. Nada ali justificava a magnitude do castigo que estava sofrendo. Nenhum daqueles atos era o "pecado original" que a prendera no ciclo de regressões temporais.
Ela percebeu que precisava cavar mais fundo na estrutura de suas escolhas. Se o inferno começou com Óscar, o erro não estava em como ela agira durante o casamento, mas sim na escolha de se entregar àquele destino em primeiro lugar.
A ganância de sua infância, o desejo cego de se tornar a esposa do Príncipe Herdeiro para alcançar o topo do império... Essa fora a engrenagem que acionou a armadilha. Para quebrar o ciclo, ela não precisava ser uma pessoa melhor; ela precisava destruir a fundação daquele futuro.
Explorando o próprio pecado original, ela acariciou o queixo com a ponta da pluma.
A religião oficial de Ortega ensinava que “o homem já carrega o pecado original pelo simples fato de nascer neste mundo”, doutrinando e governando mansamente o povo com a ideia de que a salvação no céu só seria alcançada através de um arrependimento perpétuo. Inês não comprava aquela tolice. Se houvesse algum preço real a pagar por ter nascido, ela já o teria quitado com as doações exorbitantes que a família imperial extorquira dela por causa de Óscar.
Portanto, em relação a Deus, sua consciência estava limpa.
A pluma moveu-se novamente sobre o papel.
[Bater em Óscar]. Como seria possível não esmurrar aquela cara ao vê-la?
[Odiar a Óscar]. Como seria possível não odiá-lo?
[Amaldiçoar a Óscar]. Como não rogar pragas contra ele?
[Insultar a Óscar]. Como criticar uma criatura que merecia ser executada imediatamente sem qualquer julgamento seria considerado um pecado?
[Óscar…]
Todas as emoções sombrias e os padrões de comportamento agressivos que ela desenvolvera em sua primeira vida estavam intrinsecamente associados a ele.
Óscar, Óscar, Óscar. De repente, ao ver aquele nome preencher metade da folha, uma irritação avassaladora a invadiu. Inês recusou-se a continuar olhando para aquilo e largou a caneta.
Nenhuma afronta poderia ser considerada pecado se Óscar fosse a vítima. Portanto, não importava sob qual ângulo analisasse, ela não se lembrava de ter cometido um crime real até o momento de sua primeira morte.
Ela suportara onze anos de uma perseguição e opressão infernais na corte imperial; suportara quatro abortos espontâneos lancinantes. Dedicara-se inteiramente a um marido infectado por doenças venéreas e vivera como uma Princesa Herdeira impecável e fiel ao matrimônio até o último suspiro……
O que diabos ela fizera de errado ali? Ela realmente, até o instante em que expirara……
— …
Ela revivia vagamente os detalhes daquele fim quando, de repente, empalideceu e ergueu a pluma de golpe. Um chiado aterrorizante pareceu ecoar em seus ouvidos.
[Suicídio].
Inês fixou os olhos na única ação em comum entre sua primeira e segunda vida.
Ela não estava simplesmente repetindo a mesma existência de forma aleatória apenas para ser infeliz. Antes, em seu profundo pessimismo, ela acreditava nisso; contudo, aquilo não passava de uma roda de hamster espiritual, um ciclo sem razão aparente.
— … Isso não faz sentido. Não é o bastante……
Mas e se o motivo inicial fosse o suicídio? E se o tempo retrocedia porque ela ousara tirar a própria vida?
Cada vez que ela decidia se matar após ser empurrada ao desespero, sua vida retornava como uma onda violenta. Como se o suicídio fosse uma transgressão inaceitável para o destino.
Como se ela estivesse desafiando as regras do mundo.
Ela escolhera a morte esperando encontrar um ponto final, mas o verdadeiro fim lhe era negado porque aquela fuga era considerada uma afronta. Suicidara-se aos vinte e seis anos e regressara aos dezesseis; quando se suicidara novamente aos vinte, fora castigada com um retorno ainda mais severo, acordando aos seis.
O que viria a seguir? Se ela morresse agora, não importando como ou quando, acabaria retrocedendo outros onze anos, começando antes mesmo de nascer? Vagando por Pérez como um fantasma, aguardando o coito de seus pais para se tornar um feto em um útero? Repetindo aquele ciclo até ser incapaz de morrer por conta própria……?
Perturbada, Inês desviou o olhar e deparou-se com o retrato do Príncipe jogado no chão. Ela rangeu os dentes.
Óscar havia lhe trazido um presente, sim.
Uma hipótese inédita, concreta e infinitamente mais irritante. Quem fora o primeiro a arruinar sua vida? Ele a havia privado da paz em vida e, agora, também a privava do direito de morrer adequadamente……
— Inês!
Como a manifestação de um espectro, o próprio culpado surgiu diante de seus olhos. Com uma agilidade impressionante para uma criança, ela amarrotou o papel e o chutou para debaixo da escrivaninha.
Óscar, que fora despachado para brincar com Luciano devido à flagrante indiferença de Inês, entrara no salão com uma expressão radiante. Contudo, ao notar seu retrato jogado na tapeçaria, seu semblante estilhaçou-se instantaneamente, como vidro quebrado. Era como se ele mesmo estivesse estirado no chão, e não uma pintura.
— Inês… Por que o meu retrato está jogado aí no chão……?
A vontade dela era de esganar aquele pescoço infantil imediatamente para arrancar o mal pela raiz, mas, por mais que sua vida estivesse se repetindo, ele ainda era o Príncipe Herdeiro de um império. Inês respirou fundo, controlando os próprios impulsos com uma disciplina de ferro, e abriu os olhos com falsa ingenuidade.
— Não faço ideia. Parece ter caído sozinho.
— Sozinho?
— Quem ousaria tocar no retrato de Vossa Alteza com a ponta dos dedos? Ele é tão sagrado quanto um altar.
— Bem, isso é verdade…… Deve ter sido negligência de algum servo. Eu queria lhe fazer uma surpresa, fazer com que o trouxessem para os aposentos internos para que pudéssemos admirar a obra juntos.
“Ah, poupe-me……”, pensou irritada.
Enquanto Óscar contemplava a própria face aristocrática estendida no tapete, tentando soar maduro e disfarçar o constrangimento, Inês conteve o impulso de revirar os olhos, emitindo um suspiro protocolar. Ainda assim, o olhar vacilante do garoto insistia em se dirigir à figura alada no chão, como se estivesse prestes a caçar o lacaio responsável por aquele descuido.
— Eu não esperava que você visse o quadro primeiro. Queria ver a sua reação de surpresa.
— Ao ver como Vossa Alteza já exibe uma maturidade tão esplêndida de antemão, fico profundamente comovida. Certamente se tornará um homem maravilhoso……
Mentiras premeditadas não custavam nada.
Com apenas aquele sorriso fingido de Inês, a tensão no rosto de Óscar desfez-se como gelo ao sol. Atrás dele, Luciano assistia à cena de cenho franzido, mas Inês ignorou o irmão e caminhou em direção ao Príncipe.
— Não há qualquer exagero nessa pintura — declarou Óscar, recuperando a empáfia. — Eu sempre digo aos meus pintores que detesto embelezamentos inúteis. Um retrato é um registro histórico. Isso não é um mero adorno, é a minha própria essência. Eu realmente aprecio a minha figura exatamente como ela é.
— Sim. Vossa Alteza é esplêndido o suficiente sem a necessidade de glorificações.
Desde o torso artificialmente musculoso até o par de asas magníficas, absolutamente nada ali era real, mas a audácia do garoto era impressionante. Inês não recordava que ele fosse tão patético nessa idade; contudo, percebeu que, ao se deparar com a frieza dela nos últimos dias, o jovem Príncipe ficara ansioso e decidira ostentar bravatas diante de uma garota. O tiro, porém, saíra pela culatra.
Era um segredo guardado a sete chaves pelas criadas do castelo de Pérez que Inês estivera acamada com febres severas por semanas, manifestando comportamentos anômalos. Para Óscar, contudo, a situação era alarmante. Inês, que costumava frequentar a capital Mendoza assiduamente, de repente desaparecera. Por mais cartas que ele enviasse, não obtinha respostas afetuosas, apenas uma indiferença gélida — sem mencionar as palavras chocantes que ela proferira para que ele afastasse suas "mãos sujas" dela.
Se qualquer outro nobre ousasse dizer que as mãos do Príncipe Herdeiro eram sujas, Óscar mandaria decepar seus pulsos sem hesitar. Mas a autora fora Inês.
Devia haver outra explicação. E, como um tolo, ele passara a lavar as mãos diligentemente antes de se aproximar dela, temendo ter sido mal interpretado de alguma forma.
Como o desejo de ter Inês como sua noiva permanecia inabalável, Óscar adotou uma postura calculada, fingindo ignorar as ofensas da menina. Ele sentira vergonha ao ouvir aquele insulto de sua futura esposa, mas o que ele verdadeiramente temia não era uma afronta insignificante, e sim a anulação do compromisso.
Após o noivado ser oficializado perante a corte imperial, o casamento jamais seria desfeito pelas simples súplicas de Inês. No entanto, antes da assinatura do contrato, a história era completamente diferente. As filhas altivas dos Grandes de Ortega às vezes eram tratadas como cães latindo pelos caprichos de seus pais, mas Inês era a única filha e herdeira da poderosa Casa Valeztena.
A família imperial não arriscaria forçar uma união se o Duque se opusesse. E o Duque de Valeztena jamais obrigaria sua preciosa menina a casar-se contra a vontade se ela implorasse com firmeza suficiente.
No fim das contas, os Valeztena tinham o poder da escolha. O Duque já havia deixado claro, inclusive encarando Óscar nos olhos, que preferia os filhos dos grandes nobres do império como genros a entregar sua filha à família imperial.
Portanto, naquele exato momento, o destino do noivado imperial dependia inteiramente das engrenagens que giravam na pequena cabeça de Inês.
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