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Capítulo 17 — Pecado Original

 Inês encarou o retrato de Oscar em sua sala de visitas. Era o presente generoso dele por sua visita à sua cidade natal. Ele disse que o retrato ficaria ao seu lado e a impediria de se sentir sozinha, mesmo quando sentisse saudades dele, blá, blá...


— Que presente horrível... — murmurou. 


Eu preferia morrer a me casar com imundície como ele de novo.


Oscar devia ser do tipo convencido desde o início. Como alguém poderia pensar em presentear alguém com uma pintura do próprio rosto? Seu rosto não era particularmente detestável, mas nunca fora de uma beleza extraordinária. Sem dúvida, a consciência de Inês sobre suas tendências perversas poderia ter influenciado seu julgamento sobre sua aparência.


Mesmo assim, ela continuou a encarar o retrato do príncipe herdeiro. De alguma forma, seu retrato era ainda mais irritante do que ele pessoalmente.


No retrato, Oscar tinha ombros largos e um rosto de adolescente que não parecia pertencer a um garoto de dez anos. O halo de luz ao redor de seu rosto e as asas angelicais atrás dele só aumentavam o ridículo. Todo o retrato era uma farsa, um comentário sobre a vaidade em seu auge.


Infelizmente, o pintor era talentoso. Este retrato compartilhava uma semelhança impressionante com a memória que Inês tinha do príncipe herdeiro que Oscar se tornaria adulto — exceto pelo corpo. Oscar era preguiçoso demais para treinar ou mesmo empunhar uma espada. 

Durante a caça, o Oscar adulto mal conseguia acompanhar sua noiva sem ofegar. Felizmente, seus genes lhe deram uma constituição decente e resistência, o que serviu ao seu corpo preguiçoso na juventude. Ainda assim, suas roupas caras lutavam para esconder seus braços flácidos e peito achatado. Mesmo se sobrevivesse à sua doença venérea tempo suficiente para envelhecer, ele se tornaria ainda mais flácido na velhice.


Inés zombou das ambições do garoto de dez anos retratadas na pintura. Ela tinha certeza de que Oscar nunca cresceria para parecer aquele retrato.


No passado, sua ganância pelo próprio trono turvou seu julgamento, e ela não via Oscar como ele realmente era. De fato, a primeira Inés teria se encantado com o presente de Oscar e respondido com elogios sobre sua generosidade e a beleza de seu sorriso. Seu retrato certamente abençoaria os solos de Perez com fertilidade. 

A Inés anterior talvez até tivesse enxugado lágrimas de alegria. Afinal, o Oscar de dez anos atravessou as províncias do sul por sua causa, contrariando os desejos da corte imperial.


Naquele tempo, ela era astuta o suficiente para se fazer de difícil com Oscar. Mesmo após implorar ao pai para levá-la a Mendoza para ver o príncipe herdeiro, ela fingia não se interessar na frente dele. Passava todo o tempo brincando com a irmã dele. E seus esquemas funcionavam. Oscar não aceitava bem a recusa, então fingir desinteresse apenas o encorajava a persegui-la ainda mais. Até sua versão de seis anos sabia que a devoção dele aumentaria seu prestígio aos olhos da sociedade.


A Inês de agora preferia chutar a poeira do retrato a se fazer de difícil para chamar sua atenção. Embora soubesse perfeitamente que ele ainda estava na mansão, não hesitou em danificar seu retrato.


— Morra, morra, morra... Apenas morra... —


Os olhos orgulhosos de Oscar no retrato encaravam Inês enquanto ela chutava a pintura mais uma vez. Mesmo diante de sua maldição e violência, os olhos pintados ainda brilhavam com amor e devoção.


Toda essa auto-adoração devia ser a semente de suas futuras tendências perversas. Inés não podia evitar ver tudo o que ele fazia como um prenúncio do homem que ele se tornaria.


Ela pegou o retrato e o empurrou do sofá para o chão. Tentou rasgá-lo, mas a tela era grossa demais para suas mãos de seis anos. Então, continuou com os chutes e pisadas.


Não conseguia se acalmar, não importava o quanto torturasse o retrato dele.


Maldito seja, Oscar... Maldito seja...


Era a primeira vez que ela o via depois de ter se atirado da própria vida aos vinte e seis anos. Talvez o choque fosse tão esmagador porque ela nunca havia visto seus cabelos castanho-avermelhados nos quatro anos de sua primeira vida passada. Ela apenas encarava o retrato do príncipe herdeiro incrédula.


Quando enfrentou Luciano pela primeira vez após acordar de seu sonho febril, ela se sentiu dilacerada por emoções conflitantes. Sentiu raiva do homem que matou seu único amor verdadeiro e, ao mesmo tempo, saudade de seu querido irmão... Seus sentimentos conflitantes pela família a angustiavam; ela não sabia exatamente o que sentia por cada um deles. Mas estava cristalina quanto às suas emoções por Oscar.


— Que desprezível... — murmurou, ainda encarando o retrato.


Ela o achava genuinamente desprezível. Sentia profundo incômodo com sua existência e não suportava vê-lo.


Prefiro morrer a agradecer por esse presente horrível, pensou consigo mesma. Após alguns suicídios, morrer não parecia mais um grande problema. Não, melhor não pensar nisso. Quem sabe onde e quando eu acabarei da próxima vez?


Infelizmente, a morte não era o fim de tudo. 

Na verdade, sua escolha impulsiva de recorrer ao suicídio talvez tenha desencadeado todo esse padrão trágico de regressão de idade. Essa era a melhor explicação até agora. E, para se defender, ela não tinha outra escolha naquela época.

Embora Oscar fosse o culpado de sua fúria desde o início, ela decidiu não se deixar levar por esses pensamentos. Nesta vida, precisava ser mais cuidadosa com suas escolhas. Não queria acabar no útero de sua mãe da próxima vez.

Mordeu o lábio e bateu a caneta no papel. — Pense bem, Inês Valeztena. Pense com muito cuidado... — Ela sacudia a perna nervosamente. Franziu a testa e estalou os dentes. Estava recorrendo aos mecanismos de enfrentamento do passado, quando ficara presa em um casamento terrível.


Se essas regressões de idade eram realmente uma forma de inferno, como ela teorizava, devia ter cometido um pecado grave que a havia levado a esse inferno. Ela encarou atentamente o pergaminho à sua frente e forçou a memória em busca de possíveis razões.


Pelo que podia perceber, cometera seu maior pecado na primeira regressão de vida passada. Seduzira um homem inocente e o levara à morte. Depois, matou seu bebê com as próprias mãos.

Toda emoção esvaziou de seu rosto. 

Lembre-se, Inês. Nenhuma dessas coisas realmente aconteceu. Ela respondeu instintivamente com outro mecanismo de enfrentamento e se distanciou dos eventos da primeira vida passada.

Soltou um longo suspiro silencioso e continuou a refletir sobre os motivos. Sua primeira vida passada já era um inferno por si só. Suas ações terríveis deviam fazer parte do ciclo infernal. Então, algum pecado cometido antes da regressão devia ter desencadeado esse ciclo infernal.

Inés se lembrou dos eventos de sua vida passada e do primeiro casamento e começou a revisar tudo o que havia feito de errado.

1.Primeiro, arrogância. 

Ela escreveu a palavra no pergaminho e inclinou a cabeça para um lado. Uma pessoa arrogante é irritante, mas isso dificilmente seria motivo para condenação eterna.

2.Segundo, avareza

Mas se esse fosse realmente seu pecado, toda a nobreza desta nação estaria condenada ao inferno. Afinal, quem não gostaria da riqueza?

3.Terceiro, superficialidade

Ela usava os outros para seu benefício. Bem, ela nascera em tal posição, então isso era natural. Ela yambém só se preocupava com sua aparência. Embora tenha desperdiçado metade da vida na frente do espelho, sua obsessão consigo mesma nunca prejudicou ninguém. 

Ela raramente lia. Ridículo pensar que isso a levaria ao inferno. 

4. Mentir. Enganar. Todo mundo mente. Ela nunca mentiu de forma tão cruel a ponto de merecer condenação eterna. 

5.Ela desprezava sua mãe. Mas minha mãe me desprezava primeiro. 6.Ela revelou o segredo do príncipe herdeiro. Ele deveria estar agradecido por ter escapado com todos os membros intactos.

7.Matar animais inocentes. Ela caçava. Bem... suponho que matei animais inocentes por esporte. Mas podia culpar Luciano por tratá-la como um irmãozinho que ele nunca teve. Ele insistia que ela o acompanhasse em atividades “fraternas”. Ainda assim, não podia culpá-lo pelo quanto gostava desses hobbies. Seu espírito competitivo a tornava natural em tiro e corridas de cavalo. 

Ela precisava chegar em primeiro a qualquer custo. Até sua obsessão pela beleza era motivada pela necessidade de vencer.

Agora que pensava bem, tratou mal seu cavalo. Mas, apesar do tratamento, seu corcel sempre a amou. Não achava que seu cavalo desejasse vê-la no inferno.

8.Ela era ríspida. Mendoza estava cheia de pessoas repugnantes que não mereciam sua bondade. Se tivesse que ser gentil com pessoas tão horríveis para garantir seu lugar no céu, preferiria se tornar freira.

Quanto mais escrevia, mais confiante ficava de que não cometera nenhum pecado grave. Só sentiu uma pontada de culpa na linha sobre a caça e escreveu o nome de Luciano ao lado da palavra.

Passando a ponta da caneta pelo queixo, perguntou em voz alta:


— O que eu fiz que foi um pecado tão maligno?


O credo religioso de Ortega dizia que todos os humanos nascem com o pecado original e que o arrependimento constante era necessário para chegar ao céu. No entanto, ela tinha pouco interesse em tais debates teológicos. Além disso, se realmente nascera com um preço a pagar, deveria tê-lo quitado várias vezes com suas doações de caridade. Nenhuma dessas pequenas transgressões deveria importar.

Ela começou a anotar seus pecados novamente.

Ela bateu em Oscar. Como não recorrer à violência com um escroto desses?
Ela desprezava Oscar. Como não desprezar?
Ela amaldiçoou Oscar. Novamente, como não amaldiçoar?
Ela xingou Oscar. Poderia ter infligido violência física em vez de usar palavras, e mesmo assim se conteve. Como isso poderia ser pecado?

Oscar, Oscar, Oscar. Todo pecado grave que lembrava tinha a ver com Oscar. Ela largou a caneta. Ver o nome dele preenchendo a página a irritava ainda mais. Se ele fosse a vítima, qualquer violência estaria justificada. Assim, não conseguia se lembrar de um único pecado que realmente tivesse cometido.

Durante os dez anos do primeiro casamento, suportou a corte imperial zombeteira e quatro abortos. Ainda assim, foi devotada ao seu marido escroto e cumpriu seu papel de princesa herdeira até a morte. O que poderia ter feito de tão errado? Até sua morte, ela...

O sangue de repente drenou de seu rosto. Pegou a caneta novamente e rabiscou a palavra “suicídio” no pergaminho. O som da caneta riscando a página perfurou seus ouvidos.

Ela encarou a palavra em silêncio. O suicídio era tudo que suas vidas passadas tinham em comum. A percepção a atingiu: 

Deus não a colocara nesse ciclo apenas para infligir mais sofrimento. Se estou presa nesse ciclo de regressão por causa do meu suicídio, então...

Cada vez que escolhia terminar a própria vida por desespero, sua vida retornava como ondas batendo contra a praia. Como se alguma força divina a impedisse de se suicidar.

Cada vez, ela esperava que sua vida terminasse. Mas o fim apenas levava a outro começo, como se não fosse escolha dela. Ela acordou como uma garota de dezesseis anos quando se matou aos vinte e seis. E quando tirou a própria vida pela segunda vez, foi enviada ainda mais para o passado.

O que viria a seguir? Se se matasse novamente, seria enviada dez anos antes no passado, em relação à sua versão de seis anos? Ficaria à espreita como fantasma por quatro anos antes de se tornar um óvulo no útero da mãe? Estaria condenada a repetir esse ciclo até parar de tirar a própria vida?

Inês olhou ao redor de seu quarto, assustada. Rangendo os dentes, encarou o retrato de Oscar deitado de bruços no chão.


Oscar, afinal, lhe dera um presente útil. Uma teoria funcional e mais um motivo para odiá-lo ainda mais. Ele era quem a havia levado ao suicídio em primeiro lugar. Primeiro destruiu sua vida e depois roubou o direito à sua morte.

Falando no diabo. Lá estava ele.


— Inês! — chamou Oscar.


Ela amassou o pergaminho com velocidade relâmpago e o jogou debaixo da mesa.

O rosto de Oscar se iluminou ao encontrá-la. Mas a empolgação desapareceu assim que viu seu retrato no chão. Ficou boquiaberto diante de sua imagem caída.


— Inês, por que meu retrato está no chão...?


Inês foi tentada a estrangular o escroto, mas lembrou-se de que ele ainda era príncipe herdeiro nesta vida e na anterior. Ela exalou profundamente e abriu os olhos.


— Não sei. Acho que deve ter caído sozinho.


— Sozinho? — perguntou Oscar, incrédulo.


— Sim. Esta preciosa pintura retrata Vossa Alteza. Quem ousaria derrubar um retrato tão sagrado?

Oscar tentou recuperar a compostura.


— Certo, de fato... Deve ter sido um descuido de algum criado. Pedi que entregassem discretamente em seu quarto para surpreendê-la. Queria apreciá-la junto com você.

Ele não conseguia desviar os olhos de sua imagem no chão. Por trás da expressão constrangida, ele com certeza fervia de raiva com o criado não nomeado que cometera tal blasfêmia.

Virou-se para Inês e sorriu.


— Queria pegá-la antes que visse o retrato. Queria ver sua expressão surpresa na grande revelação.


— Sinto-me honrada em ver Vossa Alteza em sua maturidade. Não posso acreditar no homem notável que você se tornará. — Claro, Inês era sarcástica e zombava de seus sonhos vãos. Mas Oscar foi facilmente enganado pelo sorriso falso.


Luciano franziu a testa atrás de Oscar. Devia ter percebido a insinceridade dela.


Alheio ao sarcasmo, Oscar respondeu:

— Disse repetidamente ao pintor para não exagerar nada. Um retrato deve ser um registro da realidade. Por isso este retrato não contém um pingo de exagero. Amo-me como sou agora.


— Claro, Vossa Alteza. Já é belo como é.


Oscar era sem vergonha. Feliz em ignorar os músculos adultamente desenhados e as asas angelicais, recusava-se a admitir que nada no retrato se parecia com a realidade. Inês não sabia se ele sempre fora tão iludido ou se apenas estava desesperado por sua atenção.


Oscar devia estar um pouco desesperado. Não sabia nada sobre sua febre recente ou comportamentos estranhos, exceto pelo fato de que ela começara a se manter afastada dele. De seu ponto de vista, Inês parou de visitá-lo e responder às cartas. Mesmo quando viajou até Perez, ela não o recebeu calorosamente. Chegou a dizer para tirar suas mãos imundas dela.


Se qualquer outra pessoa dissesse tais coisas a ele, seria punida por tal insolência. Mas Inés não era uma pessoa comum. Ele até lavou as mãos mais do que o normal antes de entrar no quarto dela. Não queria perpetuar quaisquer equívocos que ela pudesse ter sobre ele.


Oscar foi sábio o suficiente para manter seu comportamento rude em sigilo. Não queria se envergonhar ao revelar que sua futura esposa dissera tais coisas. Ainda menos queria ameaçar o noivado por um evento insignificante. Sua determinação de torná-la esposa nunca vacilou. Ele ainda não havia garantido o noivado e sabia que precisava agir com cautela.


Por mais ridículo que fosse recusar uma proposta imperial, uma dama dos Grandes de Ortega teria orgulho suficiente para, às vezes, ignorar os desejos dos pais. A corte imperial não interviria para não irritar os Valeztena, e o duque provavelmente ouviria sua única filha. Ela tinha muitas opções à disposição e chegou a dizer uma vez que preferia um filho de duque.


Em resumo, este noivado dependia inteiramente de Inês Valeztena de Perez.

Preciso seguir o conselho do meu pai para conquistá-la enquanto ainda é jovem, antes que venha por vontade própria... — pensou Oscar. Se Inés recusasse sua proposta, suas opções para uma esposa diminuiriam drasticamente. 

Ele não podia tolerar imperfeição em sua vida perfeita. Um homem espetacular como ele merecia apenas uma esposa igualmente espetacular.

Oscar sorriu convencido antes de colocar uma expressão falsa de humildade.


— Inês, nunca esperava ouvir tais elogios de você... — Então, pelas costas dela, sinalizou nada discretamente para Luciano sair da sala e lhes dar privacidade.


Inês se lembrou de que Oscar tendia a ser rude com outros meninos de sua idade, especialmente se fossem mais bonitos que ele. De fato, ele já buscava atenção na infância assim como faria na vida adulta.

O mais bonito, Luciano, deixou-os e se afastou da sala de visitas.

— Devo dizer, Perez é linda. — Oscar mudou de assunto suavemente. — Luciano me disse que você teve dificuldade para dormir ontem à noite e me mostrou os arredores em seu lugar.


— Entendo — respondeu Inês secamente.


Oscar andava de um lado para o outro, dividido entre pegar seu retrato do chão sujo ou deixar sua preciosa imagem ali. Desejava chamar um criado para resolver isso imediatamente. Ainda assim, não queria parecer muito preocupado e tentava continuar a conversa sem olhar tanto para o retrato.


— Não é de se admirar que tenha achado Mendoza sem graça. Você tem uma natureza tão bonita em seu quintal. Deve ser por isso que não visitou a cidade nesta primavera — disse ele.

Inés balançou a cabeça.


— A beleza de Perez não se compara à de Mendoza, a cidade de Sua Majestade o imperador. Tive outros motivos para ficar em Perez.


Oscar cruzou as pernas novamente e se inclinou para frente.


— Esperei por suas cartas durante toda a primavera, Inês. Estava preocupado que algo ruim tivesse acontecido e impedido você de escrever... Minha proposta foi repentina demais? É por isso que me evita?


— Nada disso está acontecendo. Pelo contrário, como poderia recusar a honra de ver Vossa Alteza? — disse Inês com sarcasmo disfarçado.


Oscar suspirou.


— Apenas me diga, Inés, se a proposta é pressão demais. Posso esperar o tempo que for—


— De fato, é pressão demais — ela interrompeu.


Oscar congelou com a resposta inesperada. Olhou bem para ela e estreitou os olhos. Então, ao perceber algo que não notara antes, murmurou:

— Parece que você... mudou desde a última vez que a vi. Bem diferente, na verdade.


— É mesmo?


Ele continuou observando-a detalhadamente.


— Está mais magra, e seus olhos estão cheios de tristeza.


Inés sorriu por dentro. Então ele não é cego afinal.

Ele estava notando cada vez mais.


— Sua fala está mais inteligente do que antes. Cheia de... elegância.


— Quer dizer que meu discurso anterior carecia de graça ou inteligência?


Ele buscou mentalmente as palavras certas.


— Não, claro que não. Você sempre foi perfeita, Inês. Mas quero dizer que... de repente...

Inês o interrompeu antes que revelasse mais incoerências.

— Está correto, Vossa Alteza. Nunca fui perfeita.


Oscar pausou novamente, confuso com a reação de Inês. Ela estendeu a mão ao braço de Oscar, que se encolheu com o movimento súbito. Ela o encarou com uma paixão que não pertencia a uma menina de seis anos.


— Eu não disse que o quadro caiu sozinho agora há pouco? — perguntou ela.


— Acredito que sim — murmurou ele.


— A verdade é que estava apreciando seu glorioso retrato de perto, encantada com sua beleza, quando ele de repente caiu sobre meu rosto.


Oscar engasgou.

— Oh, meu Deus! Você não se machucou?


— Felizmente, não. Mas foi assim que acabei pisando em seu retrato por acidente, e é assim que seu rosto régio acabou com uma pegada.


— Uma pegada... no meu rosto? — A boca de Oscar se abriu enquanto encarava o retrato. Não conseguia desviar os olhos da marca, congelado em choque. Parecia que ela tivesse pisado em seu rosto de verdade.


Ela se voltou para a pintura, como se lamentasse.


— Sou simples demais para ficar ao lado do grande homem que você se tornará. A obra deve estar me punindo por desejar algo que não mereço. Como ouso desejar você...?


— Meu... rosto... — Oscar ainda estava obcecado com a pegada e não prestava atenção à história de Inês.

Mesmo assim, ela continuou:

— Deus deve estar me avisando. Debati isso a primavera inteira, mas este noivado não pode continuar.

Oscar finalmente saiu do estupor autoabsorvido.


— Espere, o quê?


Ela baixou os olhos, como se estivesse desanimada com a possibilidade de desistir do noivado.


— Quero dizer que até Deus é contra nosso noivado.

Ele bufou, ignorando-a.


— Isso é um absurdo.


— Você acredita em presságios? — ela perguntou.


Ele ficou surpreso por um momento. Era extremamente sensível em parecer ignorante na sala. Sempre que alguém perguntava diretamente se ele sabia de algo que não entendia, costumava ficar sem palavras, como agora.


— Este é um desses presságios. O quadro caído é um sinal da ira de Deus contra nosso noivado.


Essa afirmação só seria válida se ela substituísse a palavra “Deus” por seu próprio nome. A pegada no retrato era prova de sua própria ira.


— Seu quadro caiu sem causa aparente, e eu acidentalmente pisei em seu rosto. Se Deus me considerasse digna de ser sua esposa, eu teria preferido ser atingida na cabeça e cair para a morte pelo retrato do que pisar em seu rosto... Não posso acreditar...


Oscar apenas piscou. Ela falava com tanta confiança que seu argumento absurdo soava quase lógico. Relutantemente, disse as palavras que sabia que deveria dizer para ser educado:

— Prefiro que pise em meu retrato do que morra...


— Viu! Você é generoso demais — exclamou ela. — Minha humilde pessoa não merece sua bondade.


— Não, Inés— — Oscar tentou interromper o monólogo, sem sucesso.


— É por isso que não mereço estar com você, Vossa Alteza. Em vez disso, mereço homens mais simples como Enrique Othrono, Dante Ijar, Cárcel Escalante, Leonardo Helbeth... e outros semelhantes. — Sem piscar, ela citou os nomes de filhos de cinco outras casas proeminentes dos Grandes de Ortega. 

Suspira dramaticamente, como se esses nobres fossem meros desconhecidos que ela merecia como castigo por sua ganância.

— É por isso que você deve esquecer nosso noivado — concluiu.

Ela mencionou cinco nomes, mas os pensamentos de Oscar focaram em um.

Seu orgulho se despedaçou quando perguntou:

— Você acabou de mencionar Cárcel Escalante de Esposa?


Ah, certo. Foi então que Inés se lembrou novamente de que ele odeia todos os meninos mais atraentes que ele.


Inês vasculhou suas vagas lembranças da primeira vida. Tudo o que conseguia se recordar sobre Cárcel era seu rosto excepcionalmente belo, e decidiu aproveitar a oportunidade.


Embora não lembrasse da aparência de Cárcel na infância, recordava-se nitidamente de como o jovem Oscar ficava nervoso e abatido sempre que seu primo era mencionado. Ele parecia sempre preocupado que sua noiva descobrisse o quão banal e comum ele parecia ao lado de seu maravilhoso primo. 

Eventualmente, evitava até mesmo ficar próximo a Cárcel.

Oscar sabia que a beleza física era relativa. Ao lado de um homem mais simples, poderia se considerar bonito, mas Cárcel possuía traços capazes de fazer qualquer modelo murchar de vergonha.

Na primeira vida, Inês evitava tudo o que Oscar evitava. Por isso, raramente cruzava caminhos com Cárcel. Tudo que lembrava era uma imagem vaga dele, de longe, em seu uniforme naval. Certo, ele era um oficial estacionado nas costas de Calztela...

Uma lembrança dolorosa a atingiu de repente no estômago. Nas praias de Calztela, ela havia segurado a mão de Emiliano com todas as forças, fugindo de oficiais que os perseguiam implacavelmente. Ela quase podia sentir o vento cortante do oceano em seu rosto e ouvir os lamentos do bebê.


Engoliu o soluço e se recusou a se prender àquelas memórias dolorosas. Mesmo que Emiliano estivesse vivo novamente, ele morreria assim que cruzasse seu caminho. O estado atual das coisas era o melhor para todos. Emiliano ainda não havia conhecido Inés e, portanto, permanecia vivo e bem em algum lugar. Nenhum desses eventos trágicos havia ocorrido ainda.


Com renovada ira contra Oscar, Inês sorriu maliciosamente, pronunciando palavras que sabia que feririam seu orgulho:

— Sim, acho que Cárcel Escalante será suficiente. Ele é um casamento adequado para mim.

Cárcel provavelmente já parecia um anjo, e Oscar fervilharia de inveja ao perder sua noiva para ele. Um noivado com Cárcel seria sua doce vingança.


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