Capítulo 18 — O Noivo perfeito
“É por isso que, como meu pai disse, tenho que segurá-la enquanto ela é jovem e tola…", pensou Óscar ansioso.
Sem Inês, as opções dele na alta aristocracia seriam infinitamente escassas. Não havia espaço para aquela rejeição no futuro perfeito que ele havia arquitetado para si mesmo. O melhor deveria sempre permanecer com o melhor. Recordando os ensinamentos medíocres do Imperador, o Príncipe voltou a se pronunciar.
— Inês, eu não gostaria de ouvir você falar dessa maneira, mas……
Óscar fingiu humildade, virando-se para Luciano e assentindo com a cabeça de forma ligeiramente altiva.
Por aquela época, a postura do Príncipe Herdeiro — que não nutria a menor simpatia por garotos da mesma idade, especialmente se fossem mais atraentes que ele — já chamava a atenção de Inês. Aquela rivalidade silenciosa começava a dar as primeiras faíscas. Luciano, que possuía feições consideravelmente mais harmônicas que as de Óscar, caminhou em direção à estante do salão, alheio à conversa, enquanto Inês observava a dinâmica de forma significativa.
— Pérez no verão é realmente belo — comentou Óscar, mudando de assunto com a naturalidade de um herdeiro real para aliviar a tensão. — Você mencionou que estava exausta por ter passado a noite em claro, então Luciano me levou para um passeio pela propriedade.
— De fato.
Talvez por sentir vergonha de recolher a própria pintura com as próprias mãos, ou por preferir não admitir o incômodo de vê-la no chão, Óscar preferiu acomodar-se no braço baixo de um divã, fingindo indiferença enquanto aguardava que um lacaio resolvesse o problema.
— Pérez é tão esplêndido que Mendoza chega a parecer monótona. É por isso que você não visitou a capital durante toda a primavera, não é?
— Não foi por isso, Alteza. E, por mais bela que seja a nossa propriedade, ela nada representa se comparada a Mendoza, onde reside Sua Majestade, o Imperador — respondeu Inês, cruzando as pequenas pernas sob o vestido.
Óscar estufou o peito, mudando a postura para parecer mais imponente.
— E onde eu estou, Inês.
— …
— Eu a esperei por toda a primavera. Aguardei ansiosamente por suas cartas. Fiquei preocupado, cogitando o que poderia ter acontecido…… Será que a minha proposta de noivado foi apressada demais? Você ficou encabulada? Foi por isso que me evitou?
— Não, Vossa Alteza. Não é nada disso. Como eu ousaria rejeitar a honra de sua presença?
— Diga-me se o compromisso a aflige. Eu posso esperar—
— Usou a palavra exata, sim, é um fardo esmagador.
Uma resposta inesperada, firme e cortante. Óscar estancou no lugar, interrompendo o movimento de trocar as pernas de posição. Ele a encarou com um olhar intrigado, como se tentasse decifrar uma charada, e murmurou quase em transe:
— … Você parece ter mudado drasticamente desde a última vez que a vi. Muito mesmo.
— Seria isso possível?
— Sua face está pálida e seus olhos parecem marejados…… Faria sentido se tudo decorresse de preocupações com o matrimônio, mas há algo a mais……
— …
Óscar, afinal, não era cego. Diante do silêncio de Inês, ele estreitou os olhos e soltou um riso defensivo.
— Você fala de uma forma excessivamente madura. De repente, seu tom tornou-se digno e solene demais para uma criança.
— Então Vossa Alteza está sugerindo que eu costumava ser uma menina frívola, tola e ingrata?
— C-claro que não. — Gaguejou surpreso com o rumo da conversa — Você sempre foi perfeita, Inês. Mas há algo diferente, algo mais…… repentino……
— Não. Como Vossa Alteza bem pontuou, eu jamais fui perfeita.
Atordoado pela reação de Inês, que de repente ergueu a cabeça com uma expressão lamentável e desamparada, Óscar calou-se. A menina estendeu sua pequena mão infantil e segurou o braço do Príncipe com falsa urgência.
— Lembra-se de quando mencionei que o quadro havia caído sozinho?
— … Sim?
— Eu estava tão perturbada que não consegui lhe contar a verdade de imediato. O retrato de Vossa Alteza é tão magnífico e avassalador que passei horas contemplando-o de perto, como se estivesse hipnotizada. Mas de repente, embora a terra não tenha tremido, a tela inclinou-se para a frente com violência, caindo diretamente sobre mim, como se tentasse me atingir!
— Céus! E você se machucou?
— Felizmente, não. Contudo, na pressa para esquivar-me do impacto, acabei pisando acidentalmente sobre a tela…… E foi assim que aquela marca de calçado ficou registrada no nobre semblante de Vossa Alteza.
— … Uma marca de calçado no meu rosto……?
Quando Óscar fitou a própria imagem pisoteada na tapeçaria, inclinou a cabeça para o lado, em choque absoluto. As desculpas esfarrapadas de Inês sequer foram processadas pelo cérebro do garoto, que ficou completamente paralisado diante do fato de que sua face perfeita havia sido manchada. Ele parecia genuinamente ofendido, como se a agressão tivesse ocorrido em sua própria pele.
Inês voltou a encarar a pintura, forçando um semblante de profundo pesar.
— Vossa Alteza crescerá de forma tão extraordinária que eu, em minha humildade, percebi que jamais serei digna de caminhar ao seu lado. Como alguém como eu ousaria aspirar à posição de sua consorte? A razão pela qual a pintura desabou sobre mim foi um castigo por minha própria ganância. Foi uma punição por eu ter ousado aceitar um fardo que claramente supera as minhas capacidades……
— … Meu rosto……
— Sim, eu quase fui punida fisicamente. Foi a manifestação da vontade divina. Deus fez com que aquele quadro, perfeitamente equilibrado no divã, despencasse sobre a minha cabeça……
— … O que você quer dizer com isso?
— Estou dizendo, Vossa Alteza, que os Céus opõem-se ao nosso noivado.
— Que absurdo!
— Vossa Alteza conhece o significado da palavra presságio?
Óscar hesitou. Ele era um indivíduo extremamente vulnerável à própria ignorância; sempre que alguém apontava uma falha em seu conhecimento ou sugeria algo que ele não compreendia de imediato, seu cérebro travava por alguns segundos.
Ele franziu o cenho, encarando a menina com desconfiança.
— Isto é um sinal divino, Vossa Alteza. Se oficializarmos este noivado, é um prenúncio de que a nossa união ruirá em desgraça.
Embora o tal presságio tivesse sido gerado unicamente pela fúria de Inês ao chutar a tela, o fracasso futuro daquele casamento era um fato incontestável.
— Uma pintura estática despenca sem motivo e, em um acidente bizarro, sou forçada a pisotear a face do futuro Imperador. Se eu fosse digna de reinar ao seu lado, as leis do destino teriam exigido que eu aceitasse a morte sob o peso do quadro, em vez de salvar a minha vida profanando a sua imagem. Por isso, peço-lhe o mais sincero perdão……
Cada uma daquelas sentenças carecia de lógica racional, mas a encenação impecável e a fluidez com que Inês proferia as mentiras criaram uma ilusão de verdade que atingiu em cheio o intelecto limitado de Óscar.
— Entendo…… — balbuciou Óscar, visivelmente confuso e manipulado. — Então você preferiu poupar a própria vida a aceitar o impacto…… e pisou no meu rosto……
— Exatamente. Vossa Alteza é grandioso demais para mim.
— Não, Inês……
— É por isso que não posso ficar com Vossa Alteza. Para alguém como eu, homens como Henrique Osorno, Dante Ihar, Cássel Escalante ou Leonardo Helves são mais do que suficientes...
— ...
— Basta-me ter alguém desse nível.
Dos cinco ducados escolhidos como os mais prestigiados entre os Grandes de Ortega, Inês listou os herdeiros de todas as linhagens — exceto a sua própria, Valeztena —, pronunciando aqueles nomes ilustres como se fossem as criaturas mais insignificantes do mundo.
Ela afastou a mão que segurava o braço de Óscar com um desamparo fingido, agindo como se aqueles homens sem valor estivessem exatamente à altura de sua suposta mediocridade.
— Portanto, por favor, esqueça o nosso compromisso.
— ... Cássel? Você... acabou de dizer Cássel Escalante?
Inês havia mencionado quatro nomes, mas o orgulho ferido de Óscar pareceu registrar apenas um. Com uma expressão completamente desmoronada, o Príncipe a questionou.
“Ah, claro. Ele é desse tipo.”
Ela se lembrou de que ele repudiava qualquer homem que ousasse ser mais atraente que ele.
Portanto, não havia motivos para hesitar. Em toda a memória de suas vidas passadas, não existia homem com uma beleza mais impecável do que Cássel Escalante. Pelo menos no que dizia respeito à perfeição física.
Inês se perdeu nas lembranças de Cássel por um breve instante.
Ao contrário das memórias em forma de palavras, sua mente infantil não conseguia projetar uma imagem nítida dele nessa idade, exceto por suas feições maduras do futuro. Como seria a aparência de Cássel quando criança, ou seja, por esta mesma época?
Óscar sempre sentira uma profunda desconfiança e inveja à medida que seu primo crescia e se transformava em uma verdadeira escultura viva. Ele temia que Inês, ao notar quão grosseiramente Deus moldara o próprio noivo em comparação àquela estátua perfeita, ousasse dirigir a palavra a Cássel. Por isso, Óscar o odiava, duvidava dele e evitava a todo custo permanecer ao seu lado.
O Príncipe era perfeitamente ciente de que os padrões de beleza eram relativos. Óscar possuía uma vaidade frágil e medíocre: ele parecia deslumbrante dependendo de quem o cercasse, mas a proximidade de Cássel Escalante reduzia qualquer um ao redor a um reles pedaço de lama disforme.
Como a antiga Inês costumava evitar qualquer atitude que desagradasse ao noivo imperial, era natural que ela e Escalante jamais tivessem mantido um contato próximo no passado. Apesar do parentesco aristocrático próximo, as únicas memórias que guardava dele eram distantes. O uniforme impecável de oficial naval, a brisa cortante na costa de Calstera……
De repente, uma recordação amarga invadiu a mente de Inês, fazendo-a engolir em seco, como se uma agulha perfurasse sua garganta.
O último vislumbre que restara de Cássel Escalante cravou-se em sua consciência sem aviso. Ao fechar os olhos no presente, sentiu-se arremessada de volta ao seu último dia em Calstera, lançada contra o vento gélido do mar…… Aquela noite fatídica, correndo desesperadamente de mãos dadas com Emiliano até o limite de suas forças. E o choro dilacerante de seu bebê nos braços de Emiliano ecoando em seus ouvidos como um pesadelo eterno.
Inês forçou-se a reprimir aquele trauma antes que o Cássel daquele dia ou a imagem de Emiliano dominassem por completo os seus sentidos. Naquela segunda existência, Emiliano havia sido caçado e morto logo após a fuga.
Contudo, no presente, tudo estava bem. Agora que ela havia regressado, Emiliano estava vivo e seguro; aquela tragédia específica jamais aconteceu.
Alheio ao colapso interno de Inês e focado em seu próprio rancor, Óscar assentiu de forma amarga e contida:
— Sim, Cássel Escalante. — Ele pareceu levar alguns segundos para dominar suas emoções obvias. — Creio que ele seria um partido perfeitamente adequado para o seu nível, Inês.
Se ela não conhecesse a verdadeira face daquela corte, o desdém de Óscar seria o desfecho ideal. Afinal, mesmo naquela tenra idade de infância, o herdeiro dos Escalante já era considerado uma verdadeira obra de arte viva.
E Inês pretendia usar essa obra de arte como o seu escudo definitivo.
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