Capítulo 19 — Erro no Planejamento?
O Cássel Escalante que reencontramos no final daquele verão era, sem sombra de dúvidas, uma escultura viva. Ele superava até as memórias mais exageradas que ela guardava. Inês não fez a menor questão de ocultar a sua admiração; expressou-a de forma limpa, sem tirar nem pôr.
Era o tipo de deslumbramento que se sente ao contemplar objetivamente uma paisagem deslumbrante ou uma obra de arte em perfeito estado. Independentemente das preferências de cada um, ninguém no império ousaria negar que Cássel Escalante era uma criatura perfeitamente esculpida pelos deuses.
Ninguém, é claro, exceto o seu primo imperial, cujo ciúme doentio o tornava lamentavelmente mesquinho.
— … Você tem certeza? Tem certeza absoluta? — questionou Óscar.
— Sim.
— Inês, você não consegue enxergar o vazio naqueles olhos? São olhos desprovidos de alma.
— Em contrapartida, são dotados de uma belíssima tonalidade azul. Jamais vi olhos azuis tão esplêndidos — murmurou ela, destilando elogios deliberadamente exagerados enquanto tomava o seu suco de maçã como se saboreasse o mais requintado dos vinhos.
Os olhos estreitos e sobressaltados de Óscar alternaram entre Inês e a figura distante do primo. Em seguida, ele inclinou o corpo, aproximando o rosto do ombro da menina para sussurrar, como se estivesse prestes a revelar o maior segredo do Estado:
— Sabe de uma coisa? Crianças que são bonitas demais na infância tendem a ficar completamente arruinadas quando crescem.
— …
Diante do sorriso silencioso de Inês, Óscar franziu o cenho e insistiu:
— Acha que estou mentindo? É claro que o Escalante é bonitinho agora.
Fingindo desinteresse, ele referiu-se ao próprio primo apenas pelo sobrenome e fez questão de enfatizar a palavra "bonitinho". Era um termo muito mais brando e trivial do que "atraente" ou "belo", uma tentativa infantil de diminuir o rival.
— Se tivesse nascido menina, haveria tantos garotos correndo atrás dele quanto há garotas me perseguindo agora.
“Se Cássel Escalante tivesse nascido mulher…”
Inês refletiu internamente. Se fosse esse o caso, talvez todo o sofrimento que ela suportou nas mãos de Óscar tivesse sido transferido para ele. Afinal, Cássel possuía a linhagem mais impecável e a face mais bela do império, assim como ela.
De acordo com a filosofia do próprio Óscar, o melhor deveria sempre permanecer com o melhor. Se os dois fossem de sexos opostos, pelo menos um deles satisfaria o desejo de perfeição do Príncipe.
Por um breve instante, Inês permitiu-se suspirar de alívio.
Se o destino tivesse sido diferente, a esta altura ela estaria destinada a uma vida comum, gerando herdeiros sem grandes reviravoltas trágicas, ocupada apenas com as preocupações triviais de tolerar um marido com quem não mantinha grande afinidade.
Como a duquesa de alguma grande linhagem, teria levado uma existência linear, semelhante à de tantas outras nobres orteganas: mulheres que ostentavam grande influência pública, mas que guardavam pequenas amarguras no âmbito privado.
Ainda assim, ela teria arquitetado a sua própria parcela de felicidade.
Devido ao seu temperamento obstinado e à sua aversão a julgamentos, ela jamais se rebaixaria a manter amantes jovens na corte; em vez disso, Inês teria optado por uma vida de liberdade em seus próprios domínios. Dedicar-se-ia às caçadas, montaria cavalos em direção ao horizonte, administraria a sua propriedade e viajaria de férias para as estâncias termais ao redor do mundo……
Então, com um pouco de sorte, seu marido aristocrata faleceria prematuramente. Tendo gerado um herdeiro perfeito para sucedê-lo, ela seria oficialmente libertada de todas as suas obrigações matrimoniais.
O que a aguardaria seria o resto de uma vida soberana, desimpedida de qualquer amarra.
Ela seria verdadeiramente... Livre.
Caminharia de forma independente pelas terras que levara como dote para os Valeztena, desfrutando da existência de uma abastada proprietária rural até o fim dos seus dias. No fundo, esse era o destino ideal de qualquer viúva aristocrata afortunada.
O marido, como qualquer nobre comum de Ortega, inevitavelmente a trairia pelas costas com outras mulheres, mas que importância isso teria? Ele teria morrido primeiro de qualquer maneira, pensou ela com absoluta convicção. Além disso, não era tão simples assim contrair uma profusão de doenças venéreas sem um esforço hercúleo de libertinagem.
Mesmo um canalha obstinado como Óscar saberia que o ventre de sua esposa abrigava o herdeiro da coroa e não ousaria colocar em risco a linhagem dinástica contraindo alguma infecção mundana……
Inês contemplou as feições angelicais de Cássel com um olhar de pura conveniência estratégica. Em seguida, seus olhos congelaram em uma expressão fria ao desviar o foco para Óscar.
O Príncipe herdeiro estremeceu visivelmente.
— … O que foi? Por que me olha assim?
“Este ruivo infame será, sem dúvida, a pior criatura do mundo quando crescer. Um homem deplorável que usará e descartará as mulheres.”
A insistência de Óscar tornava-se ainda mais irritante diante daquela hipótese estúpida de "se Cássel Escalante fosse uma mulher", principalmente quando Inês já havia calculado com frieza que o seu marido imaginário seria convenientemente enterrado após meros dois anos de casamento.
O olhar de Inês tornou-se ainda mais cortante. Desconfortável sob o escrutínio da menina, Óscar pigarreou, endireitou a postura e retomou a sua campanha de difamação contra o primo.
— … Como eu dizia, se aquele garoto fosse uma menina, tudo bem. Para ser uma mulher bela, basta ter um rosto bonito. Mas os homens necessitam de muito mais do que isso. Homens verdadeiramente grandiosos não são feitos apenas de uma face delicada……
— Também necessitam de um porte físico imponente. Sim, eu sei disso — interrompeu Inês, demonstrando total indiferença enquanto tomava mais um gole de suco.
As ironias da vida são de fato imprevisíveis. Óscar zombava ali, sem ter a menor consciência de que ele próprio cresceria com uma constituição frágil e desprovida de vigor muscular, enquanto o seu primo "bonitinho", a quem ele tanto subestimava, se tornaria um homem de estatura formidável que o olharia de cima para baixo.
Diante daquela criatura que vivia em tamanha cegueira deliberada, Inês permitiu-se esboçar um sorriso enigmático.
— Você sabe que Meu Pai, o Imperador, é uma cabeça mais alto que o Duque de Escalante, não sabe? — gabou-se Óscar.
— Sim.
— E as linhas da testa do Duque já estão retrocedendo. O cabelo dele está caindo.
Era impressionante a meticulosidade do Príncipe em mobilizar a figura do próprio tio materno para prever um futuro desastroso para Cássel. Não importava quão atraente o garoto fosse no presente; Óscar tentava lançar uma maldição de que ele terminará os seus dias baixo e calvo.
Contudo, o esforço era inútil.
— O Duque de Escalante possui uma testa proeminente e digna — ponderou Inês.
— Não. A linha capilar daquele homem está recuando a passos largos. Você é quem não repara. Logo ele estará completamente calvo, uma perda que nem toda a sua riqueza poderá compensar. E os filhos sempre herdam as características dos pais……
— Oh, céus, isso é lamentável.
— Bem, não que ele não possa recorrer àquelas perucas brancas que os nobres usavam há um século. Não acha? Se Cássel seguir os passos do pai, a vida dele será apenas uma triste contagem regressiva para a calvície.
“Olhe só o desespero dele em tentar me convencer disso…” Inês observava Óscar pregar aquela teoria absurda com uma seriedade quase patética.
— Não importa quão radiante ele pareça agora, no futuro o único brilho que restará será o do reflexo em sua cabeça careca. Imagine só, Inês: aquela face bonita sem um único fio daquele cabelo loiro. O que me diz? Não seria uma visão espantosa?
— Seria terrível, de fato…… Mas diga-me, quem mais estaria destinado a perder os cabelos dessa forma?
— É difícil de acreditar, mas homens calvos existem pelo mundo. Estão por aí…… É uma visão pavorosa. A razão pela qual o jovem Lorde Ihar evita a corte é justamente porque está perdendo os cabelos. Eu mesmo vi. Não restou quase nada no topo da cabeça dele…… — Óscar estremeceu, como se estivesse revivendo um trauma visual.
Inês resolveu lhe dar uma lição:
— Eu apenas ouvi rumores, jamais presenciei tal coisa. Mal consigo conceber a ideia de uma cabeça inteiramente desprovida de fios…… Mas diga-me uma coisa, Vossa Alteza……
Quando Inês estendeu a mão e segurou o braço do Príncipe com uma falsa expressão de cautela, Óscar empertigou-se imediatamente, como um cãozinho ansioso por um passeio. Ele tinha a absoluta certeza de que ela havia mordido a sua isca.
— Você também tem medo disso? Eu sabia. Não importa a probabilidade—
— A linha da testa de Vossa Alteza…… — interrompeu Inês, com a voz mansa. — Sabia que ela é idêntica à do Duque de Escalante, seu tio materno? Eu sempre reparei nisso.
— …?
— Pensando bem, sim. É exatamente igual.
Óscar ergueu a mão mecanicamente, cobrindo a própria testa em um gesto de puro choque e negação. Era uma expressão de absoluto desespero, fosse porque ele realmente acreditava que o tio ficaria calvo, ou porque havia acabado de perceber que caíra na própria armadilha retórica.
De fato, em suas vidas futuras, o Duque de Escalante terminaria com uma calvície perceptível no topo da cabeça. Não era algo totalmente devastador, mas o suficiente para dar validade ao veneno de Inês.
E, ironicamente, no quesito estrutura óssea, Óscar assemelhava-se muito mais ao tio do que o próprio filho biológico, Cássel. Se misturassem os traços do Imperador com os do Duque de Escalante, o resultado seria exatamente a face de Óscar — e uma mistura executada de forma consideravelmente grosseira.
Inês sorriu de maneira radiante. A simples perspectiva de visualizar Óscar parcialmente calvo em seus anos futuros era o suficiente para alegrar o seu dia.
— O mesmo ocorre comigo. Meus dedos são idênticos aos da minha tia. Às vezes, manifestamos semelhanças não apenas com nossos pais e avós, mas também com os irmãos deles.
— …
— Felizmente, a estrutura do Duque de Escalante é altiva e reta. Suponho que seja por isso que a testa de Vossa Alteza possua um contorno tão distinto no momento.
— …
— No entanto, eu tenho verdadeira repulsa por calvície — decretou ela, categórica.
— … Mas eu não...
— Não importa o quanto tentem me convencer do contrário.
— Não…… O futuro não pode ser previsto com tanta exatidão — balbuciou Óscar, a voz vacilante. — Não existe uma lei que determine que o mesmo formato de testa resulte, necessariamente, no mesmo destino capilar……
— Certo. Sendo assim, Cássel Escalante estará perfeitamente seguro.
Óscar era tragicamente vulnerável a reviravoltas intelectuais e à sua própria falta de argumentos. Diante daquela conclusão simples, a mesma expressão de pane e humilhação que ele exibira no primeiro encontro voltou a estampar a sua face.
— Ele ficará calvo, não há garantias de que escape! E olhe bem para aquele rosto delicado. Ele crescerá sem qualquer traço de virilidade. Ninguém jamais olhará para um Escalante adulto e o elogiará por sua masculinidade.
“Isso é porque a palavra 'masculino' será pequena demais para descrevê-lo…” pensou Inês. “Ele será perfeito da cabeça aos pés.”
— Enfim, mesmo que tivesse nascido mulher, ele seria belo na infância, mas certamente jamais chegaria aos seus pés, Inês. Você é a perfeição. A minha escolha sempre será você.
Inês deu de ombros, demonstrando total indiferença às declarações do herdeiro.
— Um rosto comum como o da Señorita talvez precise esperar a maturidade para ganhar algum destaque, mas eu prefiro investir em um futuro que guarde belas surpresas. Não compreendo a razão pela qual milady escolheu trajar vestes tão sóbrias e monótonas hoje; se estivesse usando as roupas vivas e suntuosas de outrora, talvez aparentasse ser muito mais……
— É porque os Céus opõem-se a isso, Vossa Alteza.
— Eu já consultei o Bispo de Mendoza sobre essa sua história! — exclamou Óscar, irritado. — Ele me garantiu que tais alegações não possuem o menor fundamento teológico!
— Então Vossa Alteza está sugerindo que eu sou uma criatura ignorante, bárbara e supersticiosa, capaz de pautar decisões de tamanha relevância com base em crenças infundadas?
Óscar, cujo intelecto limitado demorou alguns segundos para processar o peso da palavra "bárbara", inclinou a cabeça, completamente aturdido.
— Jamais diria isso, Inês.
— Eu sou indigna de Vossa Alteza. Eu sou demasiado provinciana, ignorante e incapaz para aspirar à companhia de alguém tão refinado, culto e instruído quanto o Príncipe Herdeiro. Exatamente como Vossa Alteza acabou de sugerir.
— … Quando foi que eu sugeri tal coisa?!
— A ofensa foi profunda — mentiu ela, fingindo uma mágoa aristocrática. — Portanto, suplico-lhe que não fira mais a minha dignidade.
— Mas eu não a feri!
— Jamais contrairemos matrimônio, Vossa Alteza.
Inês depositou a taça vazia sobre a mesa com extrema elegância e virou as costas para o herdeiro do trono, retirando-se com passos firmes e altivos.
— Você não tomou essa decisão de verdade, tomou?! Não pode ser o Escalante! Você está apenas dizendo isso para me testar! Para me provocar! — gritou Óscar, desesperado, observando a menina se afastar.
— Quem sabe? — limitou-se a responder, sem olhar para trás.
— Eu sou o único aqui que terá de lidar com problemas envolvendo mulheres pelo resto da vida! — esbravejou ele, tentando reaver a sua posição de superioridade.
“Ah, você também terá muitos problemas com os homens, meu caro.” Inês sorriu em silêncio, saboreando a sua vitória absoluta.
✽ ✽✽
'— Não sou digna! Eu simplesmente não sou boa o suficiente para Vossa Alteza! Sou demasiada provinciana, ignorante e incapaz para aspirar à companhia de alguém tão refinado, culto e instruído quanto o Príncipe Herdeiro. '
— ...
— Espere! Isto não vai ficar assim, Inês Valeztena!
Quanto mais o jovem e ansioso Príncipe percebia que não poderia tê-la, mais o seu orgulho ferido se estilhaçava como vidro. Óscar estava furioso e perturbado, mas, mais cedo ou mais tarde, ele precisaria de uma noiva. Para escapar dele em definitivo, Inês precisava de um oponente que o Príncipe jamais pudesse desafiar.
— Inês, por que Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro, agiu daquela forma de repente...?
Olhando para Óscar por cima do ombro de Inês, Henrique Osorno questionou-a com cautela, interrompendo a frase no meio ao notar a reação da menina. Ela virou o rosto e fixou os olhos nele, como uma pequena predadora que acabara de encontrar uma nova presa.
— ... Por quê?
— ...
— O que foi? Esta me encarando de um jeito estranho,
Henrique Osorno.
Ele era cinco anos mais velho que ela e o único neto e herdeiro do Duque de Osorno. O garoto possuía cabelos castanhos-escuros e feições marcantes que carregavam o calor característico da antiga linhagem do sul. A antiga Inês costumava sentir o coração inquieto sem motivo sempre que o via.
Teria sido porque ela não gostava da aparência dele no passado? E agora...
“... Mesmo agora.”
A sensação era igualmente sufocante, mas por motivos bem diferentes. No passado, ela teria se perguntado como suportaria olhar para um rosto daqueles pelo resto da vida.
No entanto, a Inês de hoje já havia decidido não atribuir qualquer significado romântico a palavras como "matrimônio" ou "marido". Para ela, bastava que o homem fosse um nobre comum de Ortega, incapaz de rebaixar a sua posição social. Ela não se importaria em carregar o sobrenome dele, desde que ele não possuísse traços genéticos que pudessem prejudicar seus futuros filhos — como deficiências intelectuais, nanismo ou calvície.
Embora a beleza não fosse o fator mais importante, seria sem dúvida embaraçoso desfilar ao lado de um homem feio. Portanto, ele não poderia ser desprovido de estética.
Suas feições não podiam ser bizarras, o tronco não podia ser excessivamente longo e a parte inferior do corpo não podia ser curta demais. Nem o inverso. A cabeça não deveria ser grande a ponto de parecer desproporcional, nem tão pequena que destacasse o tamanho do rosto. O nariz precisava ter um relevo adequado, os olhos não podiam ser encovados e a cor dos lábios não podia lembrar a de um enfermo……
"Isso não é pedir muito..."
Sob a premissa de que essas exigências anatômicas básicas fossem atendidas, Inês jurou a si mesma que a aparência real do homem não faria a menor diferença.
“E seria ideal se ele pudesse gerar um herdeiro e morrer prematuramente, no momento mais oportuno.”
A frieza que se enraizara na alma de Inês após tantas tragédias começava a reluzir intensamente em seus cálculos. Se ela pudesse evitar o casamento por completo, não haveria cenário melhor; contudo, tendo nascido como a filha da influente casa Valeztena, o matrimônio era uma imposição inevitável.
Além disso, viver como uma solteirona em Ortega era uma tarefa excruciante, a menos que a mulher aceitasse o confinamento definitivo em um convento. Seria uma vergonha para os pais e uma mancha para a reputação da família.
Longe dos valores tradicionais, ver-se banida do meio social, rotulada pela aristocracia como um "antro de defeitos ocultos" e ser alvo de fofocas maliciosas pelo resto da vida seria um tormento psicológico insuportável.
Para piorar, a legislação imperial determinava que uma mulher solteira jamais teria o direito de gerir os seus próprios bens, mesmo na velhice. Era uma ironia perversa: ela não poderia usufruir da herança que recebera pessoalmente de seus pais sem a expressa autorização de um sobrinho ou parente masculino. E, embora esse tutor pudesse não ser um canalha completo, o mundo estava repleto de homens canalhas. O que uma mulher sem filhos poderia fazer com a sua riqueza? No fim, seus bens seriam diluídos e tomados pelos filhos de seus irmãos.
Social e moralmente, uma solteirona poderia até ser respeitada como uma anciã da família à medida que envelhecesse. Contudo, perante a lei de Ortega, uma mulher que permanecesse solteira jamais seria considerada uma pessoa legalmente independente.
Inês sabia muito bem que o tal "respeito" da sociedade não servia sequer para alimentar os cães; sem o controle do próprio dinheiro, a dignidade não passava de uma ilusão.
As mulheres de Ortega precisavam casar para serem reconhecidas como cidadãs de pleno direito. Precisavam, inevitavelmente, tornar-se a esposa de alguém.
Ainda assim, a razão pela qual o código civil de Ortega era considerado "progressista" em comparação aos reinos vizinhos residia em um único detalhe: tudo mudava no instante em que o marido desaparecia da equação.
Fosse por morte, divórcio ou desaparecimento.
Ortega ostentava o maior índice de processos de divórcio da região, sendo o único país que amparava legalmente o divórcio por iniciativa da esposa, reconhecendo uma vasta lista de condutas masculinas como justificativas válidas. Se a mulher divorciada fosse declarada inocente no processo, ela jamais regressava ao status de dependência civil da juventude. Se houvesse um título nobre atrelado ao matrimônio, ela o preservava pelo resto de seus dias e passava a receber uma pensão generosa do Estado para manter a sua dignidade.
A partir daquele momento, as divorciadas e viúvas passavam a deter direitos absolutos e independentes sobre a administração de suas propriedades privadas. Aquela mulher deixava de ser a filha de um homem ou a esposa de outro; ela finalmente se tornava uma pessoa.
Por mais estúpido ou inepto que fosse um homem em Ortega, bastava que ele atingisse os dezessete anos de idade para que o mundo lhe concedesse todas as liberdades possíveis. Já uma mulher, por mais brilhante e genial que fosse, era obrigada a cruzar um verdadeiro calvário — que ia do casamento forçado ao divórcio ou à viuvez — para alcançar os mesmos direitos. No entanto, no presente cenário, essa era a única brecha de oportunidade que Inês possuía.
Para a maioria das nobres, a posição mais elevada no império seria ingressar na família real, mas a perspectiva de Inês era radicalmente oposta.
“As mulheres mais bem-sucedidas do Império, na atualidade, são aquelas cujos maridos morreram, desapareceram ou delas se divorciaram. Em suma: uma mulher que passou pelo matrimônio, mas que já não possui um marido.”
O tamanho da fortuna que cada uma acumulava era um detalhe secundário. Afinal, independentemente de onde ou de qual linhagem tivessem vindo, não existia forma de nascer mulher e viver de maneira mais livre e independente do que sob a condição de uma viúva ou divorciada rica.
Sob os critérios atuais de Inês, quanto mais cedo o marido batesse as botas ou quanto mais rápido ela conseguisse o divórcio, maior seria o seu triunfo. E Inês estava obstinada a alcançar o sucesso absoluto nesta nova vida.
Ela tentara inicialmente seguir o fluxo do destino ao lado do Príncipe Herdeiro, mas a sua repulsa por Óscar a fizera desistir imediatamente.
Recordando-se da convivência com ele em sua primeira existência, Inês agora compreendia perfeitamente por que tantas esposas em Ortega acabavam assassinando os próprios maridos. Se você o eliminasse, o mundo inteiro se transformava a seu favor.
Contudo, embora compreendesse o sentimento daquelas mulheres, ela estava em uma posição na qual não deveria acumular mais pecados em sua alma. Sua primeira vida ao lado de Óscar fora o suficiente para fazê-la ir para a cama todas as noites arquitetando métodos e locais para dar fim ao cônjuge. Ela não desejava retornar àquela rotina sangrenta e desgastante.
Sendo assim, restavam-lhe apenas duas alternativas: um acidente prematuro ou morte natural do cônjuge após dois anos de união, ou um divórcio litigioso fundamentado inteiramente nos erros da outra parte.
Inês desviou os olhos para Henrique Osorno e avaliou-o.
Ele exibia uma saúde formidável; não era o tipo de nobre que se arriscaria em expedições militares perigosas no futuro e, ao contrário dos acadêmicos sedentários, não negligenciava os treinos físicos. Em suma: acidentes, enfermidades letais ou uma morte heroica no campo de batalha eram cenários completamente distantes da realidade daquele rapaz.
Buscando nas gavetas de sua primeira vida, Inês lembrou-se de que Henrique integrava o grupo de jovens aristocratas que competiam frequentemente contra Cássel na corte. Diferente dos demais, ele montava com destreza, demonstrava habilidade nas caçadas e jogava polo como ninguém...
“... Diferente dos outros, ele não é apenas saudável. Ele é excessivamente saudável.”
Não importava como as pessoas planejavam as suas vidas; quanto menor a probabilidade de um óbito precoce, mais arriscado era o investimento para os planos de Inês. Ao chegar a essa conclusão, ela deu-se conta de quão desumana e fria estava sendo ao fazer tais cálculos diante do jovem rapaz à sua frente.
Embora Henrique fosse cinco anos mais velho, aos olhos da atual Inês, ele parecia apenas uma criança ingênua.
Projetar uma viuvez precoce ou lamentar a saúde de um garoto daquela idade era uma atitude sombria. Ela sentiu o peso de um remorso silencioso; parecia que a proximidade de Óscar a fizera perder os últimos resquícios de sua própria humanidade.
— ... Inês, você está realmente bem? Sua face está um tanto pálida. Creio que o susto com o Príncipe a afetou.
— Estou bem.
— Eu não consegui ouvir o que Sua Alteza dizia, mas notei que algo a perturbou. Você disse algo que o desagradou?
— Não. Não foi nada disso.
— Não compreendo a razão pela qual você se tornou tão reservada desde o início da primavera. Ultimamente... todos na corte parecem prender a respiração, agindo apenas para tentar decifrar os seus olhares.
— É mesmo?
— Sim, por isso não se mutile com tantas preocupações. Parece que as coisas não têm saído exatamente como você planejava nestes últimos dias...
Inês Valeztena conteve um sorriso irônico. Fora ela própria quem deliberadamente transformara e destruíra os planos que os outros haviam traçado para ela. Mantendo a face impassível, limitou-se a assentir com a cabeça.
Apesar do tom visivelmente enfadonho da conversa, Henrique continuava a fitá-la com um carinho evidente. Olhando para trás, independentemente das circunstâncias, ele sempre fora uma excelente pessoa na memória de Inês. Um homem incapaz de cometer uma vileza, mesmo que não estivesse destinado a ser um santo.
“No fim das contas, é um tanto incômodo e cruel casar-se com alguém esperando pela sua morte...”, ponderou ela.
Portanto, a conclusão era óbvia: o cenário ideal com Henrique teria de ser um divórcio onde ninguém precisasse morrer.
“Seria perfeito se o divórcio pudesse ser obtido facilmente através dos erros e da estupidez dele.”
Contudo, Henrique era, objetivamente, um bom rapaz. Ele possuía uma vasta cabeleira herdada de seu avô, e não faltavam damas na corte atraídas por aquele seu semblante expressivo e caloroso. Ele era extremamente inteligente e, em poucos anos, certamente se destacaria no meio acadêmico da capital. Além disso, tendo perdido o pai precocemente, ele já figurava como o herdeiro direto do Ducado de Osorno, o que significava que herdaria o título muito antes de qualquer outro jovem aristocrata ali presente.
Era natural que houvesse uma fila de pretendentes ao seu redor, mas...
Inês encarou Henrique como quem avalia um enigma sem solução e balançou a cabeça negativamente. Vasculhando todas as suas memórias passadas, o único rumor de destaque que envolvia o nome de Henrique Osorno era a sua reputação de ser um homem romântico e devotado. Um verdadeiro amante à moda antiga.
“... Isso é patético. É o pior cenário possível.”
Um homem que viveria em função dos desejos de sua esposa, orbitando ao redor dela pelo resto dos seus dias... Se o objetivo de Inês fosse construir uma família tradicional e harmoniosa, Henrique seria o marido perfeito. Contudo, o sucesso com o qual ela sonhava exigia termos muito diferentes.
As mulheres mais bem-sucedidas do império eram as casadas sem marido. Como a morte acidental fora descartada no caso de Henrique, a sua única via de libertação seria o divórcio. Ela almejava ser uma mulher livre em sua forma mais plena: uma cidadã capaz de tomar decisões legais por conta própria, desatrelada de tutelas masculinas. A única forma de se tornar uma pessoa independente...
Após se libertar tanto da sombra da casa Valeztena quanto da presença de um cônjuge, talvez ela pudesse se permitir apaixonar-se novamente no futuro. Ou talvez não fizesse a menor diferença se permanecesse sozinha para sempre. De qualquer forma, o resultado seria excelente: ela seria inteiramente soberana.
— A propósito, Inês, o que aconteceu durante a sua estadia em Pérez? Desde que retornamos a Mendoza, reparei que você tem trajado apenas vestidos pretos nas recepções...
— ...
— É claro que não estou sugerindo que a cor não lhe caiba bem. No entanto, essas vestes parecem excessivamente sóbrias, um tanto lúgubres e austeras... e, ainda assim, parecem adequar-se à sua figura de uma forma quase misteriosa...
— ...
— Você mudou o seu guarda-roupa de forma tão repentina que até a minha mãe demonstrou preocupação, questionando se teria ocorrido alguma tragédia na casa Valeztena. Afinal, você sempre nutriu predileção por adornos vivas e suntuosos. Além disso, nenhuma jovem costuma trajar luto em festividades sociais.
— ...
— Foi o que minha mãe comentou. Uma jovem vestida de forma tão sombria... Os únicos cenários em que uma moça recorre a trajes tão melancólicos são após sofrer um choque traumático que a prive temporariamente da razão, ou quando alguém muito próximo falece.
“Casar-se, e fazer o marido desaparecer.”
Contudo, um cônjuge atencioso e vigilante — que monitorava cada mudança em seu humor, que reparava se as suas roupas haviam mudado ou se ela parecia ter perdido a sanidade — jamais se afastaria voluntariamente ou daria motivos fáceis para um divórcio legal.
Inês não necessitava de um bom esposo. Ela precisava de um homem que pudesse ser facilmente descartado de sua vida.
Ignorando completamente as preocupações bem-intencionadas de Henrique, Inês passou a examinar os demais herdeiros ducais com o mais absoluto desdém.
“Dante Ihar?” Era um jovem astuto que seguia à risca as rígidas tradições de sua casa. Havia alguns boatos superficiais sobre ele, mas nenhuma memória de relevância em suas vidas passadas. O tipo de homem que priorizava a segurança acima de tudo; alguém que jamais cruzaria uma linha perigosa, mesmo que o mundo desabasse às suas costas.
"Descartado."
“Leonardo Helves?” No presente, ele deveria ter no máximo um ou dois anos de idade. Não passava de um bebê de colo. Embora ela própria tivesse apenas seis anos, a perspectiva de uma união com uma criança tão pequena não possuía qualquer apelo prático aos olhos do mundo. Ela sequer conseguia recordar a fisionomia dele na vida adulta.
"Descartado."
Seus olhos contornaram as figuras de Dante Ihar e Leonardo Helves e, finalmente, fixaram-se no herdeiro dos Escalante. A face daquela futura lenda que, em alguns anos, causaria o maior alvoroço nos salões da alta sociedade.
“Cássel Escalante……”
Inicialmente, ela usara o nome dele apenas como um pretexto rápido para desestabilizar Óscar, mas, analisando bem, a ideia estava longe de ser ruim.
Inês desviou o foco de Cássel — que distribuía respostas curtas e indiferentes ao seu redor — e passou a observar as jovens nobres que o cercavam. Elas permaneceriam exatamente daquela mesma forma dez anos no futuro, cobiçando-o. E continuariam a fazê-lo mesmo vinte anos mais tarde, mesmo após estarem todas devidamente casadas com outros homens.
“…… Nada mal.”
Embora a atual Inês achasse aquela adoração ridícula, a reputação de Cássel entre as mulheres em sua vida anterior era lendária. Houve uma época em que ela considerava aquele comportamento deplorável e o desprezava profundamente, mas agora via a situação sob uma ótica estritamente utilitária.
— … Inês? — Henrique chamou-a novamente, a ansiedade estampada no rosto. — Você está agindo de forma muito estranha. Gostaria que eu a acompanhasse até o Duque de Valeztena?
Henrique continuava ali, fitando-a com insistência, mas ele já havia sido completamente apagado do campo de visão da menina. Alheia às palavras do rapaz, Inês contemplava os traços impecáveis de Cássel com um olhar quase benevolente.
Por trás daquela casca simétrica e perfeita, ele se transformaria em um libertino decadente quando crescesse; porém, por outro lado, Cássel era um homem que perseguia obstinadamente uma existência sem amarras, rejeitando qualquer vestígio de responsabilidade. Um sujeito tão avesso a compromissos que se recusaria a contrair matrimônio mesmo após a morte do pai, abrindo mão do próprio título de Duque para manter a sua liberdade.
As opiniões da alta sociedade dividiam-se sobre os reais motivos de Cássel — se ele abdicara do título porque não queria casar, ou se não casara porque repudiava a herança ducal —, mas uma coisa era incontestável: ele entrava em pânico diante de qualquer dever legal.
E quão conveniente isso era para ela? Cássel envolvia-se apenas com as mulheres que se lançavam sobre ele como um tsunami, mas jamais tivera uma esposa formal a quem trair. Embora a sua conduta fosse rotulada como promíscua, isso também significava, sob outra perspectiva, que não havia nenhuma mulher a quem ele tivesse quebrado uma promessa legal ou emocional.
Mesmo sem fazer o menor esforço, ele era permanentemente cercado por um enxame de pretendentes, e restava a Inês reconhecer o mérito do rapaz em não se prender a nenhuma delas. Era preferível um homem cujo físico fazia as mulheres desejarem se despir por livre vontade do que um canalha hipócrita que vendia falsas promessas de amor apenas para conseguir o corpo de uma dama.
“Ao menos, ele não é um vigarista barato.”
Além de sua fama de conquistador, Cássel não carregava o histórico de infecções venéreas que assolava outros nobres; mantinha uma promiscuidade moderada, nunca frequentava bordéis de baixa categoria e os seus escândalos permaneciam dentro dos limites do bom senso aristocrático.
Era quase inacreditável que todas as qualificações de que ela necessitava estivessem reunidas naquele garoto de seis anos.
A maior garantia dessa conduta vinha do próprio Óscar.
Se Cássel Escalante tivesse se envolvido com prostituição masculina ou contraído qualquer enfermidade mundana, o Príncipe Herdeiro, consumido pelo ciúme, teria exposto o primo ao mundo na primeira oportunidade. O fato de a vida amorosa de Cássel ser amplamente aceita nos salões provava que nem mesmo Óscar conseguira encontrar uma falha grave em seu comportamento.
Aos poucos, Inês convencia-se de que Cássel Escalante era o bilhete para a sua liberdade. Com ele, ela poderia gerar um herdeiro saudável e sem o risco de anomalias pervertidas, e o divórcio subsequente seria um processo limpo, deixando o seu patrimônio intacto.
Para as damas de Mendoza, Cássel representava uma conquista que deveria ser realizada ao menos uma vez na vida. Um sonho para umas, um adorno social para outras. Por mais que tentassem manter a discrição e agir como jovens recatadas, nenhuma delas conseguia segurar a língua após partilhar de uma noite com ele.
Exibiam os seus segredos como troféus. Nos bastidores da corte, as fofocas flutuavam livremente, detalhando até mesmo as preferências dele na intimidade, acompanhadas do unânime elogio de que ele era "dotado de grande vigor e excelência".
Apesar da profusão de boatos sobre as suas noites de amor, todas as histórias orbitavam dentro da normalidade; ele possuía um apetite voraz, mas não guardava desvios ou fetiches bizarros.
Havia uma diferença brutal entre um nobre comum que se deitava com dez mulheres e passava despercebido, e Cássel Escalante deitando-se com uma única dama. Ele era o tipo de libertino que se destacava justamente por não humilhar as suas conquistas, permitindo que elas se orgulhassem do envolvimento.
Portanto, uma vez que se casassem, seriam as próprias amantes de Cássel que espalhariam publicamente os motivos necessários para justificar o divórcio de Inês.
— … Perfeito… Ele é perfeito… — murmurou ela.
Era uma perfeição que transcendia o significado literal da palavra. Se a escolha fosse Cássel Escalante, nem mesmo a Imperatriz ousaria intervir.
Embora desejasse desesperadamente garantir a aliança com a poderosa casa Valeztena, a Imperatriz jamais tolerara a presença de Inês ao lado do Príncipe Herdeiro. A soberana alegava que, quanto mais observava as falhas da menina, menos a suportava. Como a maioria das mães de Ortega, a Imperatriz considerava o próprio filho a criatura mais sublime do universo; para ela, Inês não passava de uma ameaça à reputação de Óscar, uma garota de seis anos que manipulava o seu herdeiro de forma infantil.
Contudo, o único motivo pelo qual a Imperatriz insistia tanto naquele noivado era o temor geopolítico. Para a Coroa, seria um desastre absoluto se a casa Valeztena selasse uma aliança matrimonial com o Duque Ihar — que liderava a oposição aos Escalante — ou com o Duque de Helves, que se recusava a apoiar o Príncipe Herdeiro.
Mas se a escolha de Inês recaísse sobre o sobrinho da própria Imperatriz? Se o pretendente fosse o herdeiro dos Escalante, aquele que ironicamente reduzia o Príncipe Herdeiro a uma figura opaca sempre que estavam no mesmo recinto?
Se a Imperatriz pudesse manter a influência da casa Valeztena dentro de sua própria ala familiar, impedindo a união com os nobres dissidentes…… ela não apenas aceitaria, mas abençoaria e facilitaria o casamento com entusiasmo.
Era o plano ideal. E trazia o bônus adicional de destruir por completo o equilíbrio emocional de Óscar.
“Eu sou muito mais inteligente do que imaginava”, Inês vangloriou-se internamente. Era o equivalente a garantir a sua independência futura antes mesmo de subir ao altar.
Cássel Escalante estava prestes a ser arrastado para uma rota imprevista. Contudo, sob as amarras daquele casamento de conveniência, ele estaria livre para buscar as suas habituais escapatórias, permitindo que Inês, em contrapartida, conquistasse a sua tão almejada soberania legal.
Alguns homens tolos imaginavam uma vida inteira ao lado de uma mulher bastando que ela lhes dedicasse um único sorriso. Inês, contudo, ia muito além: em sua mente, ela já arquitetava como administraria as suas propriedades e acolheria os futuros filhos a cada temporada após a conclusão do divórcio.
— Pai, eu já me decidi — anunciou Inês, aproximando-se do Duque Valeztena.
— Sim?
— Eu desejo me casar com o menino mais belo do mundo.
Inês moldou a sua voz para soar como uma criança repleta de sonhos e inocência, contrastando drasticamente com a frieza de seus olhos que avaliavam Cássel à distância. Ninguém entende melhor a mente de um adulto do que uma criança que preserva memórias de uma vida inteira; quanto mais ingênuo e vaidoso o desejo aparentasse ser, menos os adultos desconfiariam de suas reais intenções.
— … Por acaso você se refere a Cássel Escalante? — indagou o Duque, desviando o olhar para o ponto indicado pelo pequeno dedo da filha.
O garoto, cercado por camadas de meninas como se estivesse no centro de um arranjo de flores, inclinou a cabeça ligeiramente, sem compreender a razão pela qual Inês o apontava. Diante daquela cena, o Duque de Valeztena franziu o cenho em uma careta de visível desdém. Contudo, evitou despejar o seu pessimismo sobre a filha de seis anos; afinal, que tipo de pai alertaria a filha de que um garoto que já atraía tantas meninas na infância seria um problema insolúvel na idade adulta?
O Duque selou os lábios por um instante, contendo as suas ressalvas, e questionou com doçura:
— … Você realmente deseja um rapaz como aquele?
— Sim.
— E essa é a única razão? Apenas porque ele possui feições atraentes?
— Sim.
— Minha filha, você realmente só se importa com a aparência física……
— Se todos eles pertencem a linhagens equivalentes, o único critério que me resta avaliar é o rosto — respondeu Inês, com uma lógica cirúrgica.
O Duque mostrou-se momentaneamente surpreso diante do argumento pragmático da menina. Em seguida, esboçou um sorriso brando e provocou-a:
— Mas e quanto ao Príncipe Herdeiro? Ele também é considerado atraente e está destinado a se tornar o Imperador.
— Ele parece que vai ficar calvo, exatamente como o Duque de Escalante — disparou ela, convicta.
Uma gargalhada espontânea e desprovida da habitual pompa aristocrática escapou dos lábios do Duque de Valeztena. Era um riso de pura diversão genuína.
O Duque de Valeztena e o de Escalante haviam estudado juntos desde a infância, mantendo uma relação peculiar baseada em rivalidades infantis e disputas veladas, muito distante de uma amizade verdadeira.
— No entanto, o Príncipe Óscar é o futuro imperador, Inês. Você não teme o arrependimento? Está rejeitando a oportunidade de ascender à posição mais alta do império. Se casar com ele, até mesmo o seu pai terá de curvar a cabeça diante de você.
— Eu não me importo se meu pai curvar a cabeça para mim.... Mas o cabelo… Até mesmo o próprio Imperador detesta a ideia da calvície.
O Duque engoliu o restante do riso e ponderou:
— Sendo assim, Cássel também corre perigo.
— Cássel Escalante, felizmente, não herdou os traços capilares do pai. Ele assemelha-se à Duquesa, portanto, a linha de sua testa permanecerá intacta.
— … Enquanto Sua Alteza realmente herdou os traços do tio — o Duque concordou, pensativo.
Não era possível discernir se o Duque de Valeztena divertia-se com a profecia de que o seu antigo rival terminaria careca, ou se a perspectiva de Óscar perder os cabelos lhe parecia cientificamente precisa. De qualquer forma, ele aceitou de bom grado o aparente capricho de sua única filha.
— Minha preciosa filha não pode ser condenada a passar a vida ao lado de um homem calvo……
— O senhor é um excelente pai.
— Inês Valeztena. Se uma face deslumbrante é de tamanha relevância para você, então você se casará com o homem mais belo do império. Somente o melhor para minha filha. — decretou o Duque, pousando a mão sobre o ombro da menina com firmeza.
Aquele gesto revelava claramente de onde Inês herdara o seu temperamento determinado e a sua inclinação para decisões audaciosas.
Por um breve segundo, o Duque permitiu-se sentir uma ponta de compaixão pelo jovem Cássel Escalante.
“Mas que mal há em fazer um futuro playboy pagar as suas penitências adiantadas?”, pensou ele, divertido.
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