Capítulo 20 — Espionagem
José Almenara espiou dentro da sala antes de entrar.
Cárcel levantou a cabeça franzindo a testa ao ouvir a porta se fechar.
— O que houve?
José parecia nervoso, como se tivesse sido pego em flagrante na cena de um crime. Então, agachou-se atrás da cadeira de Cárcel e sussurrou:
— Eu descobri.
Cárcel inclinou a cabeça para olhar José, ainda com o cenho franzido.
— Por que você está agindo tão suspeitamente?
— Estou agindo com discrição... Dada a gravidade do assunto — José piscou.
Cárcel clicou a língua em desaprovação.
— O assunto dificilmente é grave... mas vá em frente. — Ele fez um gesto para que Almenara continuasse com seu relatório.
José se inclinou e sussurrou:
— Ela não tem nenhum.
— O quê? — perguntou Cárcel, incrédulo.
— Ela realmente não tem amante. — José percebeu uma careta no rosto de Cárcel e baixou ainda mais a voz. — O gatinho me disse que a senhorita Valeztena é conhecida por sua decência e não tem amantes. A coruja relatou que ela passa a maior parte do tempo em sua mansão. Ela não teria tempo para encontrar um amante. Agora, o rato... O rato é um informante notório da família Valeztena —
Cárcel o interrompeu. — A coruja? O rato?
— Proteger a identidade de seus informantes é a chave do trabalho de inteligência secreta — respondeu José, com um leve tom de desafio na voz.
Cárcel passou a mão pelo rosto. Vasculhar o passado de sua noiva era algo de que não se orgulhava. Sentia-se idiota por continuar essa linha ridícula de questionamentos, mas não conseguia parar.
— E então... o que mais?
Não importava o que fizesse, ele não conseguia tirar da cabeça a imagem de outro homem. Ele não estava com ciúmes nem obcecado por ela. Só queria ver o outro homem com seus próprios olhos. Só precisava saber, só isso.
Ela mostraria um sorriso tímido para esse homem? Ela seria capaz de tal coisa? Quem seria esse alguém? Como ele conseguiu convencer essa mulher de coração frio a se envolver com ele?
— Aparentemente, o rato nunca a viu sair discretamente ou levar alguém para dentro da casa. Na verdade, o rato disse que raramente a vê passando tempo até mesmo com sua própria família. Me pergunto por quê — José parecia incrédulo e confuso com seu próprio relatório.
Cárcel estava quase no limite da paciência. — Está me perguntando? Você é quem investigou toda essa confusão.
José respondeu rapidamente:
— Só estava curioso...
— E o que mais? — insistiu Cárcel.
— A senhorita Valeztena não tem segredos a serem notados. Claro, ela pode ser reservada, mas não tem falhas significativas.
— Almenara, todas as notícias que você tem são apenas elogios do pessoal leal da Valeztena aos seus patrões. E você foi estúpido o suficiente para pagá-los por dizer como sua senhorita é perfeita.
— É mesmo?
— Que funcionário em sã consciência falaria pelas costas do patrão? Uma investigação de verdade exige fontes variadas! Onde estão os funcionarios instisfeitos após demissão? Que erro de iniciante.
José pareceu magoado. — Mas... eu sou iniciante. Nunca fiz isso antes. E você?
Cárcel encarou o rosto inocente e honesto de José e suspirou profundamente. Sentiu-se horrível consigo mesmo. Como cheguei tão baixo?
Embora José falasse palavras impressionantes como “inteligência secreta”, a verdade é que todas as informações que conseguiu reunir eram pouco secretas. Se fosse qualquer outra família nobre de Ortega, José poderia ter extraído inúmeras histórias de empregadas ou porteiros.
Infelizmente, esse investigador inexperiente não conseguiu encontrar nada extraordinário na mansão Valeztena, mesmo que algo extraordinário estivesse acontecendo.
Cárcel também fazia um péssimo trabalho, já que havia escolhido um investigador tão medíocre. Simplesmente não sabia o que estava fazendo. Nunca pesquisara a vida privada das mulheres em sua vida. Até então, nunca sentira curiosidade pelo passado feminino. Então, por três dias, ele apenas implicou com seu subordinado direto.
Pelo menos José foi mais rápido do que esperava, mesmo que seus esforços não tivessem resultado.
Cárcel encarou José com olhos estreitos. Comissionar essa investigação improvisada fazia-o sentir como se tivesse cometido um crime imenso, sem obter nenhuma informação nova que compensasse a culpa.
José interpretou mal o que Cárcel pensava e continuou:
— Bem... veja, achei que essa abordagem poderia funcionar. Porque, mesmo você não sendo meu mestre, claro, seria uma grande honra servi-lo como mestre... O que quero dizer é que, se eu estivesse no lugar deles, se você fosse meu mestre e eu seu servo...
— E então?
José engoliu em seco.
— Eu provavelmente estaria feliz em compartilhar algumas opiniões honestas sobre o
comportamento escandaloso do meu mestre. Desde que pudesse ter certeza de que você não descobriria.
Cárcel ficou ainda mais vermelho de irritação.
— Oh? Está dizendo que está pronto para trair seus superiores a qualquer momento?
— Não, não! Não estou traindo ninguém! Só quis enfatizar que os testemunhos do pessoal Valeztena devem ter alguma validade. Algumas moedas de prata soltariam imediatamente a língua se houvesse algo a revelar. Então o que quero dizer é que a senhorita Valeztena é irrepreensível. Eu sei muito mais sobre você, então poderia falar por horas se alguém pedisse—
José engoliu de novo ao ver a fúria nos olhos de Cárcel.
— Você... vai me bater?
Cárcel fechou os olhos e suspirou pela terceira vez. — Almenara.
— Sim, senhor.
— Sugiro que volte à escola e aprenda a formar frases coerentes antes de retomar seu posto comigo.
Cárcel sabia que José tinha um ponto, embora não admitisse. Não se surpreendeu ao saber que Inés tinha uma vida pessoal impecável. Esperava tal perfeccionismo dela. Metade dele estava desapontado, enquanto a outra metade se sentia aliviada por Inés não ter outro homem. Espera, por que estou aliviado? Estava preocupado que o coração dela estivesse com outro? Então, onde está meu próprio coração...? Cárcel sacudiu a cabeça violentamente.
— Alguma chance de minha noiva ter uma vida privada escandalosa, mas extremamente discreta, evitando todos os olhos?
— Nenhuma. Todas as empregadas concordaram plenamente que ela despreza todos os homens.
Cárcel achou essa versão confiável. Afinal, Inés tratava até um noivo magnífico como ele com desprezo e desdém. Ele assentiu e mergulhou em pensamentos profundos.
José se inclinou e sussurrou no ouvido de Cárcel como se compartilhasse um segredo grave: — Algumas mulheres com quem você dormiu também tentaram descobrir algum segredo escandaloso sobre a senhorita Valeztena—
— O quê?!
— As empregadas estavam acostumadas a ser interrogadas. Disseram que às vezes aparecem amadores como eu. Mas como poderiam pensar que eu sou um amador? Tenho um comportamento tão profissional... — José quase se desviou do assunto antes de se recompor. — De qualquer forma, uma empregada me perguntou se outra admiradora sua me enviou. E eu disse que exatamente era o caso! Então ninguém suspeitaria de você.
José parecia satisfeito, esperando que seu superior o agradecesse pelo bom trabalho.
— Senhor...? — Ele inclinou a cabeça quando Cárcel não respondeu como esperava.
Cárcel finalmente entendeu a situação. Ela devia saber de todas as investigações. Inés Valeztena não tinha um amante secreto que a impedisse de desejá-lo. Ela apenas estava farta de qualquer coisa relacionada a ele.
Finalmente, Cárcel juntou as peças. A mudança de atitude de Inés ao longo dos anos agora fazia sentido. Durante todo esse tempo, Inés lidava com tantos problemas sem que ele soubesse.
Cárcel sempre considerou seus relacionamentos com mulheres passageiros, casuais e sem consequências sérias. Nunca imaginou que sua noiva estivesse enfrentando as consequências de suas ações.
Quão equivocado ele esteve. Talvez as mulheres apenas fingissem não se importar na presença dele. Ele jamais imaginaria que essas mulheres mais tarde espreitariam sua noiva para descobrir fraquezas e usá-las contra ela. Não havia ninguém a culpar, senão sua própria beleza, que fazia essas mulheres obcecadas por ele.
Cárcel passou a mão pelo rosto, franzindo levemente a testa. Todas essas questões se resolverão assim que nos casarmos.
José interrompeu os pensamentos de Cárcel. — Senhor, eu não percebi que você se importasse tanto com essa situação... E você já enviou a proposta escrita para os Valeztena. Então por que ainda tenta descobrir a fraqueza da senhorita Valeztena?
— Fraqueza dela?
— Não é isso que você está tentando fazer? Achei que queria encontrar uma desculpa para cancelar o noivado com ela. Mas então você enviou a proposta à família...
Cárcel franziu o cenho confuso.
— Por que eu cancelaria o noivado?
A confusão também se instalou no rosto de José.
Os dois se encararam, sem se entender.
— Um amante secreto mal é um escândalo que justificaria cancelar um noivado, principalmente um tão longo de 17 anos — acrescentou Cárcel. — E eu dei minha palavra. Uma proposta de casamento não é apenas uma promessa entre homem e mulher, mas também entre famílias.
Depois de dezenas de casos de uma noite, Cárcel dificilmente poderia acusar Inés de infidelidade por um amante ou dois. Se tentasse, o Duque e a Duquesa Valeztena o processariam de volta. Além disso, Cárcel aceitava desde os seis anos que se casaria com Inés Valeztena. Quer desprezasse a ideia de se casar com ela ou fosse assombrado por uma luxúria selvagem como agora, sempre soube que passaria a vida ao lado de Inés. Portanto, José estava completamente equivocado ao pensar que Cárcel procurava uma desculpa para cancelar o casamento.
Cárcel deu ao seu subalterno presunçoso um chute rápido na canela para punir sua insolência. — Tire sua mente do lixo, Almenara.
José engoliu um grito silencioso e segurou a canela dolorida. — Quero dizer, você me pediu para descobrir os segredos dela! Normalmente, essas missões de reconhecimento são para enfraquecer a outra parte—
Cárcel balançou a cabeça. — Você recorre rapidamente a esquemas pelas costas. Não é à toa que seu pai te expulsou e te enviou para a marinha.
— Está sugerindo que a marinha é um depósito para homens inuteis? — José gritou, indignado e ferido.
Imediatamente após pronunciar as palavras, José percebeu que sua afirmação tinha um fundo de verdade. Afinal, a marinha abrigava o homem inútil e promíscuo à sua frente. Na verdade, esse mesmo homem estava prestes a receber outra promoção na marinha após o casamento.
Cárcel adivinhou quais pensamentos passavam pela mente de José e chutou sua canela novamente.
— Ai!
— Almenara, seu rosto é fácil demais de ler. É melhor parar de pensar por completo, a menos que queira mais chutes na canela.
— Senhor, como alguém pode parar de pensar...? — José reclamou, choramingando.
— Se não consegue parar de pensar, talvez possa parar de ter um rosto tão grande que revela todos os seus pensamentos.
José encolheu-se e murmurou: — Eu nunca pedi por este rosto grande... — Passou muitos anos sendo provocado pelos irmãos por sua cabeça anormalmente grande, e o insulto doeu fundo.
Cárcel sorriu suavemente ao perceber que seu subordinado direto estava abalado pelo comentário severo.
— Sei que você não pediu por isso. Só quero avisar que meu punho clama por contato com seu rosto sempre que pensar coisas rudes.
— Que tipo de rosto eu faço? — perguntou José.
— Bem, seu rosto mostra tudo quando você pensa algo rude sobre mim. Se pensou algo ruim, ao menos seja honesto. Mas se não tiver coragem de dizer em voz alta, então pare de pensar tais coisas desde o início.
Infelizmente, a mente de José gerou mais um pensamento desleal, e Cárcel fingiu chutar novamente sua canela.
José recuou e disse:
— Tudo o que estava pensando... era que você assume que todos no mundo são como você. Então suspeita da recatada senhorita Valeztena de promiscuidade. Porém, nem todos são tão liberais a ponto de deixar outros entre suas pernas.
— Almenara. Você decidiu dizer toda grosseria que lhe vem à mente?
— Oh. Achei que era isso que você estava me dizendo para fazer. — Outro chute rápido na canela esclareceu rapidamente a situação para José.
— Por que eu deveria suspeitar dela de qualquer coisa? — perguntou Cárcel.
— Mas não é exatamente isso que você está fazendo? — José deu um passo cauteloso para trás do bico da bota de Cárcel, como forma de se proteger.
— Por que eu me preocuparia com o que ela está fazendo?
— Se não, então deixa pra lá... — A voz de José se esvaiu.
— Você é sempre assim. Primeiro, diz tudo o que vem à mente e depois abandona sua posição ao menor sinal de resistência.
José resmungou:
— Bem, foi você quem me disse para dizer o que penso em vez de esconder. — Antes que Cárcel tivesse outra chance de chutar sua canela, José mudou de assunto:
— De qualquer forma, então por que está investigando a vida pessoal da senhorita Valeztena? Se você não está particularmente desconfiado e não tenta encontrar uma fraqueza dela para cancelar o noivado —
— Como se o que você fez pudesse ser chamado de investigação — Cárcel zombou. — Eu só queria saber a verdade. — Ele inclinou a cabeça em direção à janela e imediatamente se perdeu em seus pensamentos.
José ponderou por um momento se deveria se retirar, mas decidiu falar sobre uma pergunta que o incomodava há dias:
— Senhor, quando retornará ao nosso posto em Calztela? Você não terá mais dias de férias para o inverno, na taxa em que está consumindo-os.
Ele tinha razão. A escolha de Cárcel em permanecer na cidade também obrigava José a ficar, e ele começava a se preocupar com suas férias de inverno.
— Voltarei ao meu posto assim que me casar — respondeu Cárcel.
— Quando você vai se casar? — perguntou José.
— Em duas semanas.
— Como? — José ficou boquiaberto com a inesperada notícia.
— Segundo Javier, duas semanas extras é o máximo que posso usar no verão.
— Senhor, você não receberá dias adicionais para a lua de mel?
— Meus planos já incluem esses dias extras de férias.
— E quanto a mim? Não recebo dias adicionais. — O leve tremor na voz de José denunciava sua ansiedade. Ele suspeitava que Cárcel exigiria que seu subordinado continuasse a acompanhá-lo na cidade como uma espécie de secretário pessoal.
Cárcel fingiu refletir por um momento antes de responder:
— Você poderia usar seus dias de férias de inverno agora.
José assentiu, quase com lágrimas nos olhos.
— Quer dizer... isso é possível, mas... — Ele sabia que logo perderia seus dias de férias de inverno.
Cárcel não prestou atenção ao subordinado e continuou olhando pela janela. A visão do belo homem olhando longamente para fora poderia parecer romântica se sua mente não estivesse cheia de fantasias lascivas sobre a noite de núpcias com sua noiva.
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