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Capítulo 20 — Falsas Convicções


Parte III

“A Traição da Lealdade”


'Sinto muito, Inês Valeztena, mas você jamais conseguirá viver longe de mim.'

Dezessete anos haviam se passado desde o dia em que Inês, aos seis anos de idade, arquitetara aquele plano inovador para a sua nova existência.


Agora, aos vinte e três anos, Inês Valeztena batia o salto do sapato contra o chão de maneira obsessiva e rítmica. A parte superior de seu corpo, visível acima da mesa, mantinha uma postura impecavelmente aristocrática e rígida. Sua expressão era altiva, os olhos permaneciam serenos e uma de suas mãos folheava as páginas de um livro com aparente leveza...


Contudo, se ela não estivesse amassando a borda do papel com as pontas dos dedos, Inês pareceria tão plácida quanto um cisne deslizando na superfície do lago.


Ao redor do aposento, as criadas que realizavam a limpeza tentavam discretamente localizar a origem daquele som incessante de saltos batendo no piso. Quando seus olhos pousaram sobre Inês, que subitamente estancou os movimentos com o papel amarrotado entre os dedos, as servas trocaram olhares intrigados. Embora Inês tivesse notado a reação delas, a inquietação em seus pés não cessou, continuando em um movimento quase compulsivo.


'Você vai me beijar dezenas, centenas de vezes, e se deitará comigo outras milhares. Eu jamais tocarei em outra mulher que não seja você. Vou saciar você de mim até gerarmos um herdeiro, e depois outro, e quantos mais vierem.'


Quanto mais Inês recordava aquelas palavras proferidas por ele há dois dias, mais o calor da indignação subia ao seu rosto. Dizer que estava apenas constrangida era um eufemismo; ela sentia-se profundamente ultrajada e decepcionada.


Ela mal conseguia processar como permitira que um homem a encurralasse daquela maneira, e a surpresa ainda a paralisava. 

O que realmente a perturbava naquele instante não era o beijo repentino de Cássel — embora aquele toque curto, mas excessivamente cru, tivesse sido insolente o bastante para abalar os cumprimentos formais de um noivado —, mas sim o teor da promessa que ele fizera.


Em Ortega, a promiscuidade era a norma. Todos sabiam que flertes rápidos nos bastidores das festas eram perfeitamente aceitáveis e tolerados como um "dever" social antes do casamento. Além disso, a luxúria evidente com que Cássel a encarara era compreensível para um homem com o porte físico dele. 

Cássel muitas vezes parecia não saber como conter a própria energia vital, então aquela audácia física era esperada.


Contudo... 

'Eu jamais tocarei em outra mulher que não seja você.'


Aquela afirmação era o verdadeiro desastre.

Comparada à declaração de que se deitaria com ela milhares de vezes, a promessa de nunca tocar em outra mulher era um golpe fatal em seus planos.


“Não tocar em outra mulher…… Será que ele quis dizer que tocaria em tudo, exceto com as mãos?”, Inês cogitou, tentando desesperadamente distorcer a realidade para encontrar uma lógica que salvasse seu plano. Mas era uma hipótese absurda. Seria incômodo demais. Então por que ele dissera aquilo? Por quê?


“Até gerarmos um herdeiro, e depois outro, e quantos mais vierem, eu a satisfarei e deixarei que me satisfaça……” repetiu sem acreditar.


Fazia algum sentido um nobre declarar que "não se importaria com a quantidade de filhos" no contexto de um casamento dinástico?


Para a Inês desta vida, o ato conjugal deveria servir estritamente para a procriação. Seria um evento estipulado uma vez a cada longo ciclo, apenas para servir de prova jurídica de que o matrimônio havia sido consumado e que a relação de casados coexistia de forma oficial. Ela aceitara essa concessão com extrema relutância, unicamente para evitar que Cássel a acusasse de "recusa de leito" quando chegasse o momento de solicitar o divórcio.


Dez anos atrás, aos treze anos, Inês havia consultado minuciosamente os advogados da casa Valeztena. O consultor jurídico fora categórico: a recusa contínua de coabitação era uma culpa imputável tanto ao marido quanto à esposa.


“Geralmente, na ordem dos tribunais, a infidelidade de uma das partes é seguida pela recusa de leito da outra, o que gera atritos e acusações de esbanjamento. Na prática, não há justificativa mais fácil de se consolidar em um processo do que a união de adultério e recusa de leito……”, a voz do advogado ecoava na mente de Inês.


E o plano que ela desenhara minuciosamente aos treze anos baseava-se exatamente nesses dois pilares: adultério e recusa de leito.


Naturalmente, ambos os crimes deveriam ser cometidos pelo futuro Cássel Escalante, jamais por ela. 

Fora isso, obter o divórcio seria impossível.


Agressão física estava fora de cogitação; se Cássel a agredisse, ela revidaria, e ela não tinha intenção de se envolver em violência doméstica. Quanto ao argumento de esbanjamento financeiro, tanto a fortuna dos Escalante quanto o dote dos Valeztena eram vastos demais para serem consumidos por gastos supérfluos.


Portanto, ela não precisava trilhar o caminho mais difícil. O adultério do playboy Cássel Escalante deveria ser um evento inevitável. Ele fora um libertino de primeira categoria em sua vida anterior. Diante do histórico dele, as promessas de fidelidade que ele fizera pareciam uma piada de mau gosto, mas, para a estratégia de Inês, aquilo representava um obstáculo gigantesco.


Qual teria sido a razão de escolher um homem tão desregrado como marido, se não para fazê-lo pagar o preço por aquela face deslumbrante? A ideia era que ele continuasse vivendo exatamente da forma que sempre viveu, casado ou não.


Cássel possuía um olhar clínico para selecionar e cortejar apenas as mulheres mais deslumbrantes da aristocracia de Mendoza, damas que brilhavam como estrelas no firmamento. Sabendo disso, Inês passara os últimos dezessete anos agindo de forma diametralmente oposta. 

Não por humildade ou por se considerar insuficiente, mas como resultado de um esforço de guerra meticuloso.


Ela vinha se preparando para o casamento há muito tempo. Embora a sua reclusão social nesta terceira vida fosse motivada pelo asco que sentia da futilidade da corte, todo o resto fora fruto de cálculos frios.


Um exemplo claro disso era a sua insistência em trajar apenas vestidos pretos e opacos durante dezessete anos — uma cor que nenhuma jovem nobre em Ortega usaria, a menos que estivesse de luto, prestes a ingressar em um convento ou tivesse perdido o juízo.


A alta sociedade de Mendoza era um ambiente peculiar, onde as damas acreditavam que o mundo desabaria se usassem preto em um baile. E Inês fizera questão de demolir os padrões estéticos daquele mundo.


Além das vestes sombrias, ela adotara cabelos severamente presos como os de uma governanta, ou tranças simples que lembravam uma camponesa de província. Às vezes, alisava os fios escuros de modo a tornar o vestido ainda mais sufocante aos olhos alheios; em outras ocasiões, mantinha a cabeça baixa, erguendo apenas o olhar de forma gélida.

Ao longo dos anos, suas técnicas de autopreservação e distanciamento desenvolveram-se de maneira sistemática.


Inês exibia essa postura austera em todos os salões. 

E, honestamente, o método funcionara muito bem. Ao encarar aquela figura modesta e severa no espelho, Inês às vezes sentia uma leve nostalgia dos dias em que se enfeitava com entusiasmo e exibia a sua beleza fulgurante; contudo, ao recordar o desfecho daquelas vidas passadas, qualquer anseio desaparecia sem deixar rastros. Ela se lembrava das horas tediosas gastas diante da penteadeira e das tardes inteiras perdidas apenas para selecionar o vestido perfeito.


Naqueles tempos, ela agira sem plena consciência de suas escolhas, mas, após despertar da morte pela terceira vez, recusava-se a repetir rotinas tão fúteis. Atualmente, ela sequer perdia tempo escolhendo roupas antes de sair: a resposta era sempre o preto. Para ocasiões excepcionais que exigissem alguma concessão, ela permitia-se tons de azul-marinho profundíssimo, marrom-escuro, cinza-chumbo ou um verde tão fechado que beirava o ébano. O corte das vestes seguia o mesmo padrão: golas altas que cobriam o pescoço inteiramente e tecidos que envolviam o corpo de forma hermética.


Foram dezessete anos completos de dedicação a essa estética. Anos renunciando à vaidade das cores vivas, mantendo uma atitude fria e distante com todos ao redor, sustentada com um esforço monumental.


Após os primeiros seis meses adotando essa conduta, a corte passara a apelidá-la de "O Corvo de Valeztena". 

Com o seu semblante que jamais esboçava um sorriso, ela desconfortava os nobres de sua geração, sendo descrita de forma vaga como "uma mulher excessivamente devota" ou, mais diretamente, "uma freira perdida fora da capela".


Para quem a olhava de fora, era um rosto que não transmitia qualquer vestígio de alegria ou vivacidade. A sociedade especulava que, por ser uma noiva belíssima destinada a um casamento arranjado, ela talvez tivesse desiludindo-se com o amor mundano e buscado consolo no rigor religioso.


Contudo, Inês não se importava com os julgamentos do mundo. Quanto mais consolidava uma reputação oposta à opulência de suas vidas anteriores, mais vitoriosa se sentia. Mas aquela estratégia não visava apenas o público geral; o alvo principal era Cássel Escalante.


Homens como ele, acostumados a tudo o que é vistoso e colorido, distraíam-se facilmente. O mero julgamento visual não seria suficiente para afastá-lo; era necessário que a sociedade inteira fizesse uma lavagem cerebral nele.


Cássel precisava ouvir de todos os lados: “Inês Valeztena não é o tipo de mulher que combina com você.”


O objetivo era anular qualquer faísca de interesse por parte dele antes mesmo que pudesse surgir. Se ele chegasse a se intrigar por ela, deveria considerar a si mesmo um tolo.


Inês tinha plena consciência do seu próprio magnetismo. Por mais que tentasse ocultar os seus atributos sob panos escuros, o charme natural e a estrutura de um rosto belo, mesmo sem qualquer artifício ou maquiagem, eram impossíveis de apagar por completo. O orgulho aristocrático que herdara de suas existências passadas fazia com que ela gerisse isso como um fato consumado.


Mesmo um libertino experiente como Cássel Escalante poderia ter momentos de fraqueza ou curiosidade dentro de um noivado tão duradouro. Por isso, ela fora implacável: vestimentas fechadas, círculos sociais restritos e olhares esquivos. Era vital criar uma atmosfera que asfixiasse Cássel pelo simples fato de pensar nela. Ele precisava cansar-se da noiva antes mesmo de conhecê-la.


Até dois dias atrás, Inês acreditava piamente ter alcançado o sucesso absoluto nesse plano.


Nos anos em que Cássel demonstrava algum receio em relação ao compromisso, Inês enviava-lhe cartas formais e pomposas, acompanhadas de presentes tão suntuosos que beiravam o constrangimento. Esmagado pelo peso daquela formalidade sufocante, o rapaz naturalmente tratava de manter distância e escapar das obrigações. Embora Cássel não tivesse rompido o noivado tão facilmente quanto ela previra, a estratégia de afastamento funcionara: assustado com a perspectiva do matrimônio, ele preferira refugiar-se na academia militar e, posteriormente, nos quartéis da marinha.


No entanto, o momento inevitável havia chegado.


A noiva a quem Cássel Escalante supostamente "negligenciara" durante anos estava prestes a ingressar formalmente na casa dos Escalante. Inês sabia que ele veria a união com pavor. Sendo assim, ela decidira afrouxar as rédeas preventivamente, aliviando qualquer senso de culpa que o rapaz pudesse carregar: eles cumpririam o papel de casar, e ele estaria livre para buscar as suas amantes.


O estresse de assumir um casamento há tanto tempo adiado deveria empurrar Cássel diretamente para os braços de outras mulheres. Como um dever inevitável para a consumação das núpcias, ele partilharia o leito com Inês apenas nas datas minimamente estipuladas; contudo, deparando-se com a reação fria e apática da esposa, e sentindo-se deprimido diante daquela presença sombria e severa, ele inevitavelmente buscaria consolo na infidelidade fora de casa.


"Sim... assim devia ser".


Após o matrimônio, Inês planejava desmentir todas as declarações de "viva livremente" ou "não me importo" que dissera recentemente. Ela demonstraria a ele, na prática, o peso de uma esposa que diz duas coisas contraditórias com a mesma boca. Ela o sufocaria com exigências formais até que ele perdesse o fôlego e desejasse apenas fugir do lar. Enquanto isso, nas raras datas fixadas em que fossem obrigados a coabitar, ela faria com que qualquer resquício de desejo dele evaporasse instantaneamente.


Quando Cássel estivesse exausto e relutante em assumir as suas responsabilidades domésticas, Inês usaria o futuro herdeiro como uma arma legal para exigir atenção e deveres. Diante disso, ele se sentiria encurralado novamente, acreditando que, após gerar um filho, seria finalmente libertado do fardo. 

Ele decidiria nunca mais se deitar com aquela esposa deprimente e severa... E seria exatamente nesse período de vulnerabilidade que Inês passaria a procurá-lo no leito, forçando-o a rejeitá-la continuamente.


Quão terrível seria para Cássel suportar uma esposa a quem ele detestava, que o deixava desconfortável e que passasse a exigir intimidade constantemente? Por mais libertino que fosse, a sua natureza aristocrática toleraria aquela imposição apenas até certo ponto; o estresse o empurraria de volta ao adultério.


Assim que a infidelidade dele se tornasse crônica e ela pudesse preencher o processo de divórcio com os nomes das amantes com quem ele passava as noites, Inês finalmente alcançaria o status de uma mulher divorciada e bem-sucedida em Ortega, herdando o controle dos bens dos Escalante e a sua tão sonhada independência civil.


Havia sido um plano perfeito, meticuloso e infalível. Até dois dias atrás...


Cássel dizia não necessitar daquela "liberdade" ou "privacidade" que ela tão desesperadamente tentara oferecer-lhe durante o encontro. Nos casamentos que ela conhecera, tais conceitos sequer existiam.


“…….”


'Eu sou um canalha, Inês Valeztena, mas sou cão muito mais fiel do que você imagina.'


A lembrança daquela frase fez com que a grandiosa estratégia que ela cultivara em absoluto isolamento durante dezessete anos desmoronasse como um castelo de cartas.


'Portanto, eu jamais trairei a minha família.'


Cássel Escalante havia traído todas as expectativas de Inês no exato momento em que prometera não traí-la.


✽ ✽ ✽


— …… O que diabos eu fiz de errado? O que faltou? Onde foi que eu errei?

— Senhorita Inês, para começar, eu sequer sei qual é o problema.


Juana inclinou a cabeça, como se não conseguisse compreender o dilema por mais que tentasse, enquanto vertia algumas gotas de óleo perfumado sobre os pés de Inês. Logo em seguida, esquecendo-se momentaneamente do assunto, Inês encolheu-se com um sobressalto de puro incômodo.


— Cócegas……! Não passe aí.


— A Duquesa ordenou que eu aplicasse o perfume sem deixar um único milímetro de espaço descoberto.


— Não importa, minha mãe não está aqui olhando.


— Mas Deus está olhando.


A devota Juana fez um rápido sinal da cruz com a mão ainda úmida de fragrância e, sem hesitar, segurou novamente o pé de Inês.

Uma risada involuntária escapou da jovem.


— Deus não dá a mínima para a forma como o óleo perfumado é distribuído pelo meu corpo. Então, por favor, pare com isso……!


— Você sempre teve tantas cócegas assim?


— Você sabe perfeitamente o quanto eu odeio que passem perfume nos meus pés……


— Esta é a primeira vez que aplico algo aqui, como eu saberia? Bem, embora eu ache que passei a conhecê-la melhor hoje, mas……


Ao perceber que cometera um deslize ao trair sua própria linha do tempo, Inês calou-se abruptamente. 

“Se você já fazia isso na vida passada, é melhor parar por aqui”, repreendeu-se mentalmente.


Em sua terceira existência, Inês havia se distanciado categoricamente de qualquer ritual de vaidade ou ornamentação. Por mais que a Duquesa de Valeztena insistisse, a filha recusava-se terminantemente; e quando a mãe tentava forçá-la, Inês reagia com crises tão violentas e paroxísticas que acabava por assustá-la.


Graças a esse comportamento intempestivo, a Duquesa foi obrigada a assistir à atual Inês caminhar pelos corredores trajando vestes pretas como um corvo lúgubre, restando-lhe apenas trancar no fundo do coração a lembrança daquela adorável boneca que a filha fora aos cinco anos de idade.


Para o desespero da mãe, a herdeira de uma das casas mais influentes do império não exalava o perfume de flores característico das jovens nobres; suas mãos, que deveriam ostentar o brilho de joias e cremes caros, frequentemente exibiam manchas de tinta ou carvão, e ela passava os dias isolada, respirando a poeira da biblioteca, sem receber a visita de uma única amiga.


“O seu cabelo já é idêntico ao daquele maldito do seu pai! E agora você insiste em insultar esta mãe vestindo-se como se estivesse em um eterno funeral……!”


Gritos histéricos como esse tornaram-se frequentes na infância de Inês. No entanto, o método drástico surtira efeito: a Duquesa nunca mais ousara impor-lhe vestimentas ou adornos à força.


'Se não fosse por isso, seria impossível. Não há outra explicação para aquela menina ter enlouquecido de repente…… Cabelos escuros e vestidos pretos. Você parece uma coveira, uma assombração de cemitério! Que tipo de criatura macabra você se tornou?!'


Inês já fora rotulada pela mãe como coveira, criatura das sombras e monstro lúgubre, mas a verdade é que a Duquesa sequer reunia coragem para proferir essas maldições diretamente na face da filha. Diante da rejeição quase patológica da jovem a qualquer adereço trivial, a Duquesa de Valeztena alternava entre o horror supersticioso e a convicção de que uma praga real abatera-se sobre a sua linhagem.


Assim, a mãe limitava-se a observá-la à distância, rangendo os dentes. 

Contudo, nos dias em que o sentimentalismo a vencia, ela invadia o aposento da filha em prantos, acariciava o rosto de Inês e despejava um monólogo repleto de ressentimento, culpa e uma comiseração desnecessária:

'Deve ter sido por causa daquela febre severa aos seis anos. Não é? Eu deveria ter cuidado melhor de você…… para que a sua mente não tivesse se quebrado dessa maneira…… Tudo isso é culpa do seu pai. Aquele homem maldito tornou a minha vida tão difícil que não pude me dedicar a você como deveria…… Minha pobre Inês.'

Ela chorava copiosamente enquanto tocava nos cabelos da filha:

'Olhe para esses cabelos negros. Oh, céus! Desde o momento do nascimento, transmitindo essa herança sombria a uma menina, aquele homem nunca serviu para nada…… E agora você se recusa a tirar esse vestido de luto…… A menos que esteja completamente louca…… O que foi que eu fiz para merecer isso?……'


A febre aos seis anos de idade. 

Sob a perspectiva de sua mãe, aquela era a causa exata de sua ruína. 


De fato, fora a partir daquele momento que a trajetória de Inês mudara drasticamente em relação às suas vidas anteriores. Embora Inês achasse cômico que a escolha da cor de seus vestidos fosse interpretada como o marco de sua " insanidade", compreendia que, para a sua mãe — assim como para o restante da corte —, a estética externa possuía um peso vital.


No fundo, Inês nutria uma ponta de responsabilidade por aquele sofrimento materno. Ela sabia que a filha biológica da Duquesa não deveria ser um corvo tão melancólico. Por essa razão, naquele exato momento, ela aceitara submeter-se às ordens da mãe, permanecendo deitada e despida enquanto recebia os cuidados corporais exigidos para as núpcias iminentes. 

Tudo em nome do casamento que se aproximava a passos largos.


— Por mais incômodo que isto seja, a senhorita precisa tolerar agora, senhorita Inês. A Duquesa teve muita paciência todos estes anos. Além disso, não nos resta muito tempo……


“Não resta muito tempo…… Não temos mais tempo……”


Inês virou o rosto para contemplar o retrato emoldurado na parede de seu aposento. Era uma pintura quase irônica que retratava Cássel Escalante aos dez anos de idade, sorrindo com uma vivacidade radiante.


Para a Duquesa de Valeztena, que amargara dezessete anos assistindo à sua única filha vestir-se de luto antecipado, o dia de hoje representava uma vitória tardia. Cássel, que passara anos recorrendo a toda sorte de desculpas formais e justificativas baseadas nas leis rígidas da Marinha Imperial para postergar a união, finalmente enviara uma carta oficial à casa Valeztena, exigindo a antecipação do matrimônio para a data mais breve possível.


Ele finalmente cedera. O Cássel de treze anos atrás a encarava de dentro da moldura dourada, vigiando o quarto dela. Um garoto irritantemente charmoso, cuja imagem parecia zombar de sua situação atual.


Inês fitou a pintura em silêncio, sentindo uma ponta de amargura. Um retrato da infância dela também decorava o quarto de Cássel. A razão pela qual nenhum dos dois jamais cogitara trocar retratos atualizados na vida adulta devia-se ao distanciamento geográfico e emocional que cultivaram ao longo dos anos: ele partira para a academia militar e ela permanecera enclausurada em Mendoza.


Portanto, por mais que Cássel carregasse o noivado como uma corrente incômoda em seu pescoço e encarasse o futuro com sobriedade, ele jamais saberia o que significava acordar todas as manhãs e deparar-se com aquela imagem infantil.


— …… Não fale dessa forma, Juana, porque você não entende a gravidade disso — murmurou Inês.


Que ele jamais trairia a sua família; que não necessitava de privacidade ou liberdade; que nunca, pelo resto de seus dias, tocaria um único dedo em outra mulher……


— Como um homem prestes a se casar tem a audácia de dizer algo assim para a sua noiva?


— …… Pois é exatamente isso que eu não consigo entender — rebateu Juana, terminando de massagear as pernas de Inês. — Se vocês dois vão se casar, não é natural que o Capitão Escalante abandone a vida de flertes para se sossegar ao seu lado? Ontem mesmo ele enviou a proposta formal. Qual é o verdadeiro problema nisso?


"Esse é justamente o problema, Juana."


— ……?


— O problema é exatamente o fato de ele querer sossegar.


— ……


Juana, que estava prestes a borrifar mais essência sob os joelhos de Inês, paralisou as mãos, confusa, e encarou a sua senhora.


— …… O que foi? Não me olhe com essa expressão.


— Senhorita Inês, não sei que tipo de pensamentos absurdos estão passando pela sua mente agora, mas o Capitão Escalante é, sob qualquer ponto de vista, um homem perfeito.


— Essa perfeição me cansa…… E eu não pedi a sua opinião sobre ele.


— Mas a senhorita o amava desesperadamente quando éramos crianças.


— Sim. Eu amava. — Inês mentiu facilmente.


Até mesmo a sua criada mais fiel demonstrava aquela teimosia cega, incapaz de enxergar além das aparências.


— O único defeito naquele homem perfeito…— Juana colocou a mão na testa tentando pensar.


— …… Não é ele. Sou eu — interrompeu Inês com absoluta firmeza. Após dezessete anos de sacrifícios e cálculos minuciosos, aquela era a única certeza de que se orgulhava: ela conseguira transformar-se no defeito daquela equação.


Juana franziu o cenho e balançou a cabeça vigorosamente em sinal de negação.


— Não! O que há de errado com a senhorita? Inês Valeztena é a glória de sua casa, a honra de sua linhagem e uma bênção imerecida de Deus……


— Chega, Juana. Já basta.


— O único defeito real do Capitão é, sem dúvida, o fato de ele ser cercado por mulheres excessivas — insistiu a criada.


— Sim. Ele nasceu para ser um Escalante.


— E ele acabou de afirmar que vai corrigir essa conduta por você! Isso não é maravilhoso?


— Eu preferia o Cássel Escalante exatamente como ele era antes.


— A senhorita tem gostos bizarros…… Por acaso ver o seu futuro marido cortejar outras damas lhe traz algum tipo de satisfação ou emoção excêntrica?


— Talvez — respondeu Inês, mantendo o tom enigmático.


Juana encarou a patroa como se estivesse diante de uma autêntica pervertida e soltou um longo suspiro.


— O seu noivo certamente não compartilha dessa visão. Ele pode ter dito aquelas palavras românticas apenas para agradá-la antes do casamento, mas o Capitão não é o tipo de homem que faz promessas levianas……


— Baseada em quê você afirma isso?


— No fato de ele ser um militar. Quando eu era jovem, o capelão me ensinou que os soldados carregam a verdade na ponta da espada e não mentem.


— Santo Deus, quão inocente você é, Juana…… Por onde eu deveria começar a desconstruir essa ilusão? Todos mentem neste mundo. Os soldados mentem para bajular os seus generais, e os sacerdotes mentem para omitir suas falhas diante de Deus.


— O Padre Jorge jamais faria algo assim! — protestou Juana, escandalizada. Ela apressou-se em traçar o sinal da cruz no ar e, aproximando-se da cama, repetiu o gesto sobre a cabeça de Inês. — Pronto. Espero que ele não seja castigado por Deus toda vez que a senhorita o coloca à prova em suas orações.


 Você é otimista demais, Juana.


— E a senhorita é pessimista em demasiado.


— Mas você acabou de levantar um ponto plausível.


— Sim?


— No fim das contas, tudo isso não passa de palavras vazias que Escalante proferiu ao acaso, apenas para me lisonjear momentaneamente.


— …… Eu não quis dizer exatamente isso……


Juana ajudou Inês a virar-se na cama, exibindo uma expressão nitidamente hesitante. Inês acomodou-se conforme as instruções da criada e continuou a murmurar para si mesma, buscando recuperar a convicção:


— Você está certa. Para onde iria um hábito arraigado na carne? Sim, a lógica está do meu lado. Como um cão se transformaria em um ser humano de uma hora para outra? Se um cão disser 'amanhã serei um homem', ele acordará humano no dia seguinte? Obviamente não.


— A senhorita está conversando sozinha novamente, Inês.


— Exatamente. Escalante é um cão.


— …… E por que cargas d'água a senhorita parece tão aliviada ao chegar a essa conclusão?


— Porque isso significa que eu não estava errada, Juana.


“Portanto, os meus dezessete anos de esforço jamais me trairão……”, Inês sussurrou, quase como se tentasse aplicar uma lavagem cerebral em si mesma.


Contudo, restava uma dúvida cruel: existiria no mundo um noivo capaz de desferir uma mentira doce com a mesma intensidade de quem lança uma luva para um duelo na face da noiva?

Por mais que Inês analisasse a situação sob todos os ângulos, ela não conseguia apagar da memória a expressão facial de Cássel durante o encontro. A linguagem corporal dele naquele dia não mentia: aquele semblante estranhamente tenso, a respiração contida e o nervosismo evidente……


E então, como um golpe desferido pelas costas para desestabilizar todo o seu tabuleiro, ele enviara aquela maldita carta oficial exigindo o casamento imediato.

Sim, fora bizarro. Naquele dia, Cássel agira de maneira estranha, não importava sob qual ângulo ela analisasse a situação.


— …… Senhorita Inês, mudando de assunto, não acha que seria mais adequado compartilhar esses dilemas com amigas de sua própria posição social? Eu sou apenas uma criada.


— Eu não tenho amigas.


Inês respondeu de forma simples e direta, enquanto encolhia ligeiramente as pernas, ainda sentindo o incômodo rastro de cócegas do óleo perfumado. Diante de um tema tão crucial quanto o casamento, como ela conseguia manter uma postura tão fria e pragmática, prevendo apenas o pior cenário possível?


Juana soltou mais um suspiro profundo enquanto encarava a nuca de sua senhora, com o mesmo olhar de uma irmã mais velha preocupada com os rumos de uma criança obstinada.


— E quem eram aquelas jovens nobres com quem a senhorita conversava na última recepção?


— Eram apenas convidadas de minha mãe. Senhoritas aristocratas que disputam a atenção para se tornarem a futura esposa de Luciano.


— Sendo assim, não acha que já passou da hora de a senhorita começar a construir o seu próprio círculo social, mesmo que lentamente?


— Não. Não pretendo me desgastar com superficialidades cansativas.


— Quando se casar e mudar-se para a residência dos Escalante, a senhorita se sentirá solitária. Todas as recém-casadas passam por isso. Além do mais, embora eu ache que o Capitão Escalante não vá quebrar a promessa que fez tão cedo, ainda assim……


— O que você sugere? Que eu recrute damas da corte para montar uma rede de espionagem e vigilância ao redor dele?


Juana assentiu discretamente com a cabeça diante da pergunta direta de Inês. No fim das contas, a criada também compartilhava da mesma premissa: ninguém acreditava piamente que um cão pudesse transformar-se em um ser humano da noite para o dia.


Esquecendo por um breve instante a expressão perturbadora que Cássel exibira no noivado, Inês esboçou um sorriso genuinamente satisfeito.


— Esqueça isso. Eu tenho plena confiança na natureza de Escalante.


— Mas a senhorita acabou de dizer que um cão jamais muda os seus hábitos……


— E quanto a ter amigas, a sua presença é mais do que suficiente para mim, Juana.


— ……


— O que foi? Ficou sem palavras? Está tão comovida a ponto de não conseguir responder?


— …… Eu apenas gostaria que a senhorita tivesse outras amizades.


— Por quê? Acha a minha companhia entediante?


— Claro que não. É que eu gostaria que as outras pessoas da corte soubessem o quão extraordinária a senhorita realmente é…… Porque quando eu tento defendê-la nos bastidores, ninguém acredita nas minhas palavras.


Juana usara o termo "extraordinária" como o eufemismo mais polido que encontrara para não chamá-la de excêntrica. Ignorando a óbvia frustração da criada, Inês virou-se de bruços na cama, oferecendo as costas para que Juana terminasse a aplicação do óleo perfumado.


O Cássel Escalante de dez anos continuava ali, estático na pintura ao alcance de seu olhar gélido. Àquela altura, para Inês, pouco importava se o mundo a considerava uma mulher bizarra ou não.


'Sinto muito, Inês Valeztena, mas você não pode viver sem mim.'


A voz do Cássel de vinte e três anos, proferida há dois dias, ecoou novamente em seus ouvidos, soando como uma provocação insolente. Inês semicerrou os olhos com irritação e ditou a ordem em voz alta, como se estivesse ordenando o banimento de um garoto impertinente:


— …… Juana, mande remover esse retrato da parede imediatamente.



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