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O silêncio na mesa de jantar dos Valeztena era sepucral. Apenas o som dos talheres se ouvia. Ficará tudo bem.
— Lord Cárcel, ouvi dizer que, pela primeira vez, você anda agindo com virtude e castidade — interrompeu o silêncio o Duque Valeztena.
O movimento de talheres sobre a elegante mesa parou no ar.
Todos prenderam a respiração.
— Desculpe…? — Cárcel perguntou, surpreso. A pergunta repentina do duque o pegara desprevenido; até um momento atrás, ele estava ocupado demais olhando gananciosamente para os lábios de Inés para prestar atenção no que o duque dizia.
O Duque Valeztena pousou o copo de vinho, meio cheio, sobre a mesa.
— Bem, sua reputação de promíscuo o precede, Lord Cárcel. Como deve saber.
Os olhos de Cárcel tremeram de pânico. Sentado ao seu lado, Miguel também congelou diante da declaração aberta de hostilidade do duque. Ninguém esperava tamanha franqueza, mesmo que a reputação de Cárcel fosse de conhecimento público.
Dez dias antes do casamento, o duque havia convidado os dois irmãos Escalante para este jantar no solar dos Valeztena.
Cárcel ergueu o garfo à boca como se nunca tivesse congelado diante do comentário do duque. O filé premium parecia borracha em sua boca seca.
O Duque Valeztena bateu na mesa, observando a tentativa patética de Cárcel em disfarçar seu desconforto. O sorriso do duque era polido, mas seus olhos não.
— Todo Mendoza conhece sua reputação, não é mesmo, Luciano?
Luciano lançou um olhar frio para Cárcel e simplesmente deu de ombros.
— Talvez — respondeu ele.
Sua irmã já estava destinada a se casar com esse mulherengo, então decidiu evitar falar mal do futuro cunhado, mesmo que não tivesse muito respeito por Cárcel.
Cárcel tentou se lembrar do polido e afável Luciano em eventos sociais, mas falhou. Estremeceu diante do desdém aberto do irmão de Inés. Instintivamente desviou o olhar de Luciano, apenas para encontrar os olhos do Duque Valeztena.
O duque sabia que o rosto de Cárcel era extremamente agradável aos olhos, mas encontrava pouco mais para apreciar em seu futuro genro. Ele estreitou o olhar para Cárcel. — Entendo que você nasceu para esse destino graças às características particulares que herdou.
A ênfase em “características particulares” parecia implicar que Cárcel possuía aparência excepcional, mas inteligência inferior.
O Duque Valeztena tomou outro gole de vinho e acrescentou:
— Tenho certeza de que todos os homens entendem. Seu irmão Miguel, Luciano e eu também entendemos a força do desejo masculino. Não é mesmo?
Infelizmente, a frieza furiosa nos olhos do duque mostrava que ele não tinha compreensão alguma para a promiscuidade de Cárcel. Cárcel engoliu em seco.
— Tem alguma resposta para mim? — o duque provocou novamente.
Cárcel sentiu um arrepio subir pela espinha. De alguma forma, enfrentar o futuro sogro era mais intimidador do que encarar o Almirante General.
O que ele quer que eu diga? O duque acabara de zombar abertamente dele. O Duque Valeztena deixara claro que pouco se importava com a boa aparência ou o histórico sexual de Cárcel. Se ele aceitasse as acusações, o duque apenas aprofundaria a pressão. Se negasse, o duque não apreciaria sua mentira.
Sem boas opções, Cárcel apenas balançou a cabeça.
— Não, não tenho resposta.
— Se não consegue defender suas ações, então por que agiu dessa forma desde o início? — insistiu o duque.
Cárcel se incomodava menos com a pergunta em si do que com o fato de Inés estar assistindo à conversa. Ele lançou-lhe um olhar, mas ela parecia mais interessada no menu do que na troca de farpas.
Um pouco desapontado, Cárcel voltou sua atenção ao duque. — Fui imprudente.
— Sem dúvida. Você não teve nenhum pensamento inteligente.
Cárcel sabia que se tentasse se defender com mais desculpas, estaria entrando em uma armadilha. Mesmo que mencionasse que suas aventuras carnais foram apenas uma distração temporária durante os anos de solteiro, o duque faria questão de torná-las permanentes.
— Concordo, Vossa Graça — disse Cárcel, apenas acenando com a cabeça.
— Ah, parece que nosso tenente não só carece de honra e de lealdade à sua noiva, como também de inteligência. Que conjunto humilde de qualidades oferece. Parece que o que tem em beleza falta-lhes o dobre em cérebro.
Cárcel teve de admirar a habilidade do duque para o sarcasmo. O deboche do Duque Valeztena fazia qualquer comentário espirituoso que Cárcel tivesse dito a José Almenara parecer insignificante. Mas ele teve de abandonar qualquer pensamento afiado e se concentrar na crise à frente: restava apenas uma semana para o noivado.
— Com tão pouco a oferecer, como ousa pedir a mão de minha filha? E ainda, para agravar a situação, pede dinheiro à minha família. Nunca imaginei que a família Escalante recorreriam ao roubo!
Cárcel não conseguiu pensar em uma resposta perspicaz. Mas pontuou:
— Se não me engano, a dote é um bem pessoal da senhorita Valeztena.
O duque não pestanejou.
— Claro, o dote é um bem pessoal. Um bem pessoal a ser reivindicado pelo meu neto, que, infelizmente, carregará a vergonha do nome Escalante.
— Vossa Graça, seu neto também herdará a linhagem Valeztena.
O duque ergueu uma sobrancelha. — Nesse caso, você não se importaria de entregá-lo a nós quando nascer?
Cárcel engoliu em seco.
— Bem, ele seria, antes de tudo, nosso filho e herdeiro—
— Seu filho? Seu herdeiro? Fala como se já tivesse engravidado minha filha!
Cárcel queria lembrar que o duque havia pedido primeiro um neto inexistente, mas sabia que provocar o futuro sogro seria imprudente.
— Não, não desejo desrespeitá-la. Pelo contrário, tenho a mais alta consideração por senhorita Valeztena—
O duque resfolegou alto.
— E como demonstra essa consideração? Dormindo com todas as outras mulheres que encontra?
Cárcel ignorou a pergunta e continuou: — E estou ansioso pelo dia em que me tornarei oficialmente seu marido.
— Um marido oficial? — O duque zombou, em seguida disse, em fúria contida: — Só sobre meu cadáver!
— Quando tiver a honra de casar com sua filha, prometo que não decepcionarei você nem a duquesa.
— Promessa vazia — comentou o duque com indiferença. — Já estou decepcionado com você.
O comentário do duque atingiu Cárcel profundamente, e seu sorriso educado congelou.
O duque tomou outro gole de vinho e disse:
— Estou particularmente desapontado até com a forma como você respira; talvez possa parar completamente. Isso funcionaria.
Finalmente, Inés abriu a boca.
— Pai, basta.
Cárcel desviou o olhar do olhar gelado do duque e olhou para sua noiva. Os elegantes dedos dela limparam a boca com o guardanapo. Nem um fio de cabelo fora do lugar.
Ela não parecia perturbada pela troca hostil entre seu pai e seu noivo. Qualquer outra jovem nobre estaria ansiosa demais para comer, mas ela não hesitou em nenhum momento. Seu prato era o mais limpo da mesa.
— Pare de ser tão mesquinho, pai. Foi você quem os convidou — disse ela.
O rosto do duque se enrugou em uma carranca.
— Mesquinho? Está me chamando de mesquinho?
Inés deu de ombros.
— Já sabe minha resposta a essa pergunta.
— Inés, considero-me generoso e indulgente, não mesquinho. Em vez de chutar o rosto bonito dele, ainda o alimentei e conduzi uma conversa civilizada.
— Com a mesma generosidade, permitiu que ele levasse sua vida pessoal até agora — respondeu ela. — Pai, não me importo com o que ou com quem ele tenha feito.
— Claro, deixei que fizesse o que quisesse enquanto parecia não ter interesse real em casar com você! Mas agora ele volta arrependido—
Inés o interrompeu, falando com firmeza.
— Agora ele parece interessado. E vai realmente se casar comigo. Você sabe disso muito bem. Então, por favor, deixe meu noivo em paz.
O duque fechou a boca, tentando engolir a fúria com outro gole de vinho.
Toda a situação era um caos. Ninguém na sala se sentia confortável. À direita de Cárcel, Luciano terminava a refeição com expressão sombria; à esquerda, Miguel permanecia imóvel, como uma estátua. A Duquesa Valeztena se ocupava com seu uísque em uma taça grande de vinho. Seu alcoolismo não passou despercebido a Cárcel, que percebeu que ela já não era capaz de intervir. Na verdade, ninguém parecia capaz de redirecionar a conversa para um assunto mais leve.
Cárcel suspirou.
Inés era a única que permanecia calma. Ele observou atentamente suas ações: sinalizou para as criadas retirarem os pratos vazios, pediu sua sobremesa e solicitou refill de água. Depois, girou a água como vinho e a bebeu delicadamente. Parecia alheia ou indiferente ao que acontecia ao redor. Por outro lado, Cárcel sentia o suor se formar na nuca, mantendo o sorriso congelado.
Inês pousou o copo na mesa e quebrou o silêncio:
— Ninguém mais parece ter apreciado a refeição como eu.
Miguel rapidamente recuperou os modos.
— Não, a comida estava excelente. Não é mesmo, Cárcel?
Cárcel assentiu lentamente ao comentário do irmão. Nesse momento, notou um canto da boca de Inés se erguendo levemente. Ela… está achando a situação engraçada?
Pela primeira vez naquela noite, Inés falou diretamente com ele.
— Lord Cárcel, a noite está agradando-lhe? — Sua pergunta era formal como sempre, mas a voz carregava uma pitada de piedade.
Cárcel forçou-se a sorrir.
— A noite tem sido esplêndida, obrigado.
Inés nunca foi do tipo falante. Cárcel, criado como militar, também era homem de poucas palavras. Sempre no centro das atenções, ele não precisava iniciar conversas; todos queriam falar com ele. Infelizmente, o Duque Valeztena não apreciava a quietude característica de Cárcel. Afinal, o duque não gostava da aparência, da personalidade ou até da forma de respirar do futuro genro.
— Finalmente, você diz algo — escarneceu o duque. — Lord Cárcel, fala alegremente sobre engravidar minha filha, mas não tem uma palavra de elogio para a sua ela.
— Não seja ridículo, pai — interveio Inés. — Que elogio espera que ele me faça?
— Por exemplo, poderia dizer que você está linda com esse vestido esta noite. É disso que outros homens não param de falar com suas noivas.
Inés respondeu, cansada:
— Bem, isso seria falso, porque não sou bela, e meu vestido é sem graça. Você sabe que detesto me repetir, pai, então pare de importuná-lo.
Cárcel, preso entre os dois Valeztena, não sabia quando intervir.
O duque voltou-se para Cárcel.
— Vê como ela é humilde e sem ostentação? Diferente de você, um homem extravagante e imprudente.
— Pare com isso, pai.
— E agora minha própria filha toma o lado dele contra o meu. Já trata este homem inútil como se fosse da família!
Inés suspirou mais uma vez.
— Pai…
— E eu o denuncio pelo que é. Um degenerado e um idiota.
Cárcel tentou intervir:
— Bem, gostaria de anotar que Senhorita Valeztena está bonita esta noite—
— Cale a boca, Escalante! — rugiu o duque Valeztena, tremendo de fúria e apontando o dedo para Cárcel. — Você, vagabundo que vende seu corpo por migalhas!
— Pai, Lord Cárcel não se prostitui, e certamente não faria isso por menos que um preço razoável — corrigiu Inés.
Cárcel estremeceu, perguntando-se por que o preço hipotético de seus serviços sexuais estava sendo discutido.
O duque continuou, cuspindo fúria:
— Ele vende seu sorriso bonito para mulheres!
— Na verdade, não — retrucou Inés.
— E ainda ousa fazer minha filha perder sua juventude, esperando que ele a peça em casamento—
— Pai, tenho apenas vinte e três anos — disse Inés, mas não conseguia parar a torrente de palavras raivosas do pai.
— Depois de todos esses anos, ele tem a audácia de aparecer agora e exigir o noivado em duas semanas! Pegou alguma doença fatal de tanto ser promíscuo? Seu pai mandou você encontrar uma moça que lhe desse um filho para perpetuar a família antes que você morra?
Inés suspirou novamente.
— Pai…
— Não permitirei que desrespeite minha filha! Sei que ela se apaixonou pelo seu rosto bonito, mas—
Cárcel engoliu em seco. A fúria fria nos olhos de Inés era ainda mais intimidadora que a do próprio pai.
Com olhar firme, Inés segurou a mão do pai. Cárcel temeu que ela explodisse, mas ela apenas puxou a mão dele para perto do corpo, deu leves batidinhas nas costas da mão e disse suavemente:
— Pai, não é assim que se trata nossos convidados.
Cárcel lembrou-se da mesma menina que, aos sete anos, repreendia o pai. Ela não havia mudado, apenas envelhecera.
O duque parou, aparentemente perdido em pensamentos, mas logo voltou o olhar para Cárcel, franzindo a testa. — Este homem é um ladrão, não um convidado.
— Pai, Lord Cárcel não é ladrão nem prostituto, mas um distinto oficial naval — disse Inés.
Cárcel não apreciou a referência à sua suposta prostituição, mas escolheu engolir o vinho em vez de intervir.
— E você sabe que Lord Cárcel tem dinheiro de sobra para não recorrer a roubo ou prostituição — acrescentou Inés.
O duque provocou:
— Inés, você sabe que ele teria sido um prostituto se não tivesse nascido com toda essa riqueza.
— Claro. Se fosse pobre, poderia ter usado seus belos atributos para superar a pobreza… Mas pai, discutir situações hipotéticas é inútil.
Cárcel queria apontar que Inés também estava se envolvendo nessa discussão inútil, mas a ansiedade lhe apertava a garganta.
— Continua sendo uma realidade incontestável que ele é um caráter deplorável, indigno de você—
— Pensando bem — sugeriu Inés — talvez seja sensato abstermo-nos de discussões sobre ele.
— Vê, Inés? Você é bondosa demais. Nem todos se dispõem a ignorar os defeitos alheios e ver apenas o lado positivo da vida!
O duque não parecia perceber a hipocrisia em suas próprias palavras. Ele jamais entenderia como Inés podia ser considerada positiva.
Cárcel pediu apenas um refill de vinho. Ele já não era necessário na conversa.
Suspirando, o duque continuou:
— Suponho que é por isso que você se satisfaz com o rosto bonito dele. Como pessoa leal e bondosa, encontra pequenas coisas para admirar no homem mais desprezível.
— Pode ser honesto e apenas dizer que sou suscetível à boa aparência — disse Inés, exausta.
— Sua generosidade e esperança são o motivo pelo qual você consideraria se casar com este homem, apesar de todos os meus esforços para convencê-la do contrário — o duque balançou a cabeça resignado e lançou um olhar suplicante à filha. — Por que não adia o casamento por um tempo?
A apenas uma semana da cerimônia, o duque ainda se opunha à união da filha. Cárcel percebeu que os Valeztena sempre foram contra o casamento. Ele se perguntava como o noivado sobrevivera até agora.
Todo esse tempo, Cárcel supôs que a família se irritava pelo envelhecimento da filha e pela evasão do genro através de destinos distantes. Mas o duque havia permanecido em silêncio justamente para que o noivado desmoronasse.
Cárcel estava perplexo. Amaldiçoado com um libido que agora se recusava a se voltar para qualquer outra mulher, tinha de escolher entre Inés e uma vida de impotência.
Ele voltou sua atenção à conversa: tinha que se casar com Inés a qualquer custo. Lançou um olhar furtivo ao duque, decidido a contornar qualquer tentativa de adiar o casamento.
Inés era alguns anos mais velha que a média das solteiras Ortegan, mas com prestígio e riqueza, não faltariam propostas. Claro, teria que suportar casar com alguém de família menos influente que os Escalante, e o noivo teria de enfrentar rumores após o cancelamento público de um noivado de dezessete anos.
Inés suspirou novamente.
— Pai, minha juventude já se esvaiu. Você mesmo disse. É tarde demais para adiar o casamento.
Ela então olhou para uma criada, exigindo silenciosamente sua sobremesa.
— Você não pode dizer que perdeu a juventude enquanto sua mãe e eu estivermos vivos.
A duquesa afastou-se de seu copo de uísque com o comentário:
— Sou jovem demais para alguém sequer pensar em me colocar no túmulo. Tenho apenas trinta e cinco anos.
O duque franziu a testa.
— Você tem quarenta e cinco, não trinta e cinco. Insistir em ser uma década mais jovem não vai mudar isso.
Ele voltou-se para a filha e segurou firmemente sua mão. — De qualquer forma, deve saber que casamento não é simples. Diferente do que pensava aos seis anos, um bom marido requer muito mais que um rosto bonito.
— Lord Cárcel não é o único solteiro em Ortega com múltiplas amantes — disse Inés.
— Verdade, mas seu histórico eclipsa todos os outros. Eu poderia ignorar se tivesse mostrado moderação e usado a juventude como desculpa. Mas este homem…
O duque parecia ansioso para quebrar o noivado, e o histórico de affairs de Cárcel fornecia razões de sobra. Embora incomum entre aristocratas de Mendoza cancelar noivado por infidelidade, o duque poderia se dar ao luxo de agir.
— Pai, você não pode voltar atrás depois que comprometemos nossas famílias. Os nomes Valeztena e Escalante dos Grandes de Ortega não podem ser desrespeitados — ponderou Inés.
Os olhos do duque se turvaram de incerteza, assim como os do imperador quando o duque impedia o funcionamento da fábrica militar. Isso significava que Inés tinha vantagem na argumentação. Ninguém — nem a duquesa, Luciano ou o duque — podia desafiar a filha mais nova em declarar as regras sobre o que a família poderia ou não fazer.
Cárcel teve outra epifania: Inés queria casar-se com ele.
Essa era a única razão pela qual o noivado durara tanto. Apesar de não nutrir afeto por ele ou interesse nas mulheres com quem ele se relacionava, Inés Valeztena o queria.
Ele mal podia acreditar. Como alguém que a desejava dia e noite, encantou-se com isso. Mas ainda era difícil de aceitar. Se o duque tivesse razão, ela o queria apenas pela aparência. Então por que franzia a testa ao olhar para ele?
Inés continuou: — Além disso, lembre-se que Sua Majestade, a Imperatriz Cayetana, organizou este casamento. Não podemos insultar a corte imperial cancelando o noivado.
— Sua Majestade conhece bem os motivos para anular o compromisso. Portanto, não pode nos censurar — rebateu o duque.
— Lord Cárcel também não é culpado, pois é rico demais para ser ladrão e não se prostitui, como já estabelecemos.
— Você não sabe que os ricos são os mais gananciosos, sempre querendo mais do que a sua parte? Esses bastardos venderiam a alma ao diabo por mais dinheiro.
— Pai, não há motivo para acreditar que Lord Cárcel tenha ganho algo além do prazer pessoal com as mulheres com quem se relacionou — disse Inés, voltando sua atenção à sobremesa recém-chegada. Mesmo falando das outras mulheres, parecia mais interessada na fruta em sua mão do que na vida sexual do noivo.
— Depois de se divertir, poderia estar planejando tirar maior proveito.
— Bem, ele tem exercitado prudência e contenção recentemente. Não é mesmo, Lord Cárcel?
Cárcel nem teve chance de responder quando o duque zombou:
— Tenho certeza de que ele já planeja enganá-la assim que o casamento acabar.
Inés apenas deu de ombros e mordeu outra fruta.
— Isso parece justo. Monopolizar tanta beleza seria egoísmo. Como abandonar uma mina de ouro ou deixar o sal de uma salina.
O duque ofegou, as sobrancelhas franzidas em uma linha implacável.
— O quê…?
— Tenho orgulho da beleza de Lord Cárcel, então planejo compartilhá-la — disse Inés, com voz quase generosa.
Cárcel piscou, incrédulo. Inés praticamente o encorajara a traí-la bem na frente do pai. A fúria acendeu-se nos olhos do duque.
— Inés Valeztena de Pérez! Você perdeu a razão? — ele exclamou. Ao vislumbrar o rosto chocado de Cárcel, rosnou para ele:
— Que expressão é essa? Está planejando conceder a todas as outras moças de Ortega a bênção de explorar seu ouro e colher seu sal?
Cárcel quase perdeu o fio desses complexos conceitos de prostituição. Não sabia como responder. Deveria dizer que não queria minerar ouro nem colher sal? Cárcel apenas encarou sua noiva, confuso.
Inés parou de mastigar a sobremesa, e os cantos de sua boca se ergueram em um leve sorriso.
— Não me importo, pai, contanto que eu tenha Lord Cárcel. Porque eu o amarei de qualquer forma.
Foi então que Cárcel teve sua última epifania da noite:
Inés Valeztena tem o sorriso mais radiante justamente quando está mentindo.
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