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Capítulo 21 — Espionagem


José Almenara cruzou o limiar da porta demonstrando uma desconfiança evidente. Cássel ergueu a cabeça somente após escutar o clique da fechadura e franziu o cenho imediatamente.


— … E então?


Mesmo com a porta devidamente trancada, a fisionomia de José lembrava a de um criminoso pego em flagrante. Era o tipo de expressão que clamava: Eu cometi um delito, então, por favor, alguém me acuse.


Em vez de tomar assento na cadeira diante de Cássel, José esgueirou-se por trás do assento do capitão e, inclinando o corpo em uma reverência exagerada, começou a sussurrar com um falso ar de mistério. 

Cássel jogou a cabeça para trás, a testa vincada pela irritação.


— …… Por que você é incapaz de agir como uma pessoa normal e precisa parecer suspeito a cada passo que dá?


— Ora, capitão, é porque a natureza do assunto exige o máximo de cautela.


— O que você descobriu……?


Cássel estalou a língua e fez um gesto impaciente com a mão para que ele prosseguisse. José inclinou-se ainda mais, aproximando-se do ouvido do superior.


— Não há nada.


— O quê?


— Absolutamente nada.


Apesar de ser um relatório frustrante e repentino, Cássel repuxou o canto dos lábios de leve, como se aquela resposta fizesse perfeito sentido dentro de suas expectativas. José, alheio à reação do superior, continuou a cochichar com uma voz esganiçada e extremamente baixa:


— A senhorita Valeztena goza de uma reputação tão impecável e austera que, mesmo entre a criadagem do palácio, o veredito do 'gato' é de que seria impossível que ela escondesse qualquer deslize. A 'coruja' que vigia os corredores garantiu que não há margem para dúvidas, e o 'rato' afirmou…… Ah, e falando sobre esse 'rato', ele é um sujeito capaz de monitorar cada alma que entra e sai pelos fundos da residência dos Valeztena……


— …… Gato? Rato? Coruja?


— Na arte da espionagem, capitão, o uso de codinomes é uma questão de vida ou morte.


Para um subordinado que acabara de retornar de uma investigação amadora e desajeitada sobre a noiva de seu comandante, a resposta possuía uma pompa ridícula. Cássel balançou a cabeça negativamente, massageando as têmporas como se estivesse diante de um caso perdido.


— …… Prossiga.


O fato de ele manter os olhos baixos e a mão sobre a testa não decorria apenas do cansaço, mas sim de um profundo sentimento de vergonha de si mesmo. Ele sentia-se humilhado por ser compelido pela curiosidade a interrogar o tenente sobre um assunto tão mesquinho. Era degradante ver-se naquela posição atual, rastreando os passos e o passado da própria noiva.


Contudo, desde o momento em que o pensamento de que “definitivamente existe outro homem na vida dela” instalara-se em sua mente como um instinto primitivo, Cássel não conseguira mais livrar-se daquela paranoia. 

Não era repulsa, nem irritação, e muito menos um ciúme descontrolado…… Ele apenas necessitava constatar a verdade com os próprios olhos, se possível.


Será que Inês já dedicara aquele sorriso raro e belo a outro homem? Um sorriso que ela negava a ele mesmo que ele a encurralasse. Que tipo de homem seria o seu rival? Como um sujeito conseguira derreter o gelo daquela mulher para convencê-la a aceitar um encontro íntimo? O que nascera como uma mera curiosidade casual transformara-se rapidamente em uma sede insaciável por respostas.


— Os relatórios indicavam que ninguém jamais vira a senhorita Valeztena ausentar-se em horários suspeitos ou receber visitas secretas na mansão. Ela evitava a companhia até mesmo de seus familiares dentro do palácio, quanto mais a de um homem estranho……


"Por que, então, ela agira daquela forma sobre o noivado?"


Cássel não verbalizou as suas dúvidas, mas encarou o tenente com um olhar feroz, exigindo mais detalhes.


— Você por acaso fez perguntas diretas? Deixou evidente que a estava investigando?


José recuou um passo, assustado com a iminência de receber um tapa do capitão.


— Como eu disse, fui extremamente sutil…… apenas sondando o terreno……


— E o que mais?


— A senhorita é impenetrável, não há um único grão de poeira a ser extraído de sua conduta. Embora possua uma personalidade fria e às vezes pareça um tanto altiva e distante, todos os funcionários afirmam que ela é perfeita, desde a sua postura até o menor dos seus gestos……


Cássel soltou um riso sarcástico, interrompendo o tenente.


— Então os criados da casa Valeztena decidiram defender a patroa diante de um estranho? Você realmente acreditou quando disseram: 'Eu apenas recebo o meu salário e faço o meu trabalho, mas sinto que a minha senhora tem um gênio difícil e se isola do mundo'? Eles apenas fingem fofocar dessa maneira para despistar idiotas. E você conclui que a minha noiva é perfeita? É para ouvir esse tipo de relatório amador que eu pago o seus serviços?


— Bem, capitão, independentemente das circunstâncias……


— Onde no mundo existem empregados que falariam mal de seus senhores para o primeiro que pergunta? Se você deseja investigar alguém de verdade, precisa cruzar dados com diferentes fontes e círculos sociais. Esta é a primeira vez que você realiza uma apuração?


— …… Primeira vez? Por acaso esta não é a sua primeira vez ordenando isso, capitão?


O tenente Almenara disparou a verdade sem medir as consequências. Após encarar aquela face honesta e patética por alguns instantes em absoluto silêncio, Cássel soltou mais um longo suspiro. Ele não conseguia conter o próprio assombro diante do ridículo da situação. Ele, Cássel Escalante, rebaixando-se a espionar a noiva através de um subordinado que agia como um urso desajeitado.


Na realidade, por mais que José tentasse conferir um tom de mistério militar ao relatório, as informações que ele recitava eram obviedades que qualquer habitante de Mendoza poderia deduzir. Não havia novidade alguma; os relatos orbitavam exatamente o que a corte esperava do "Corvo de Valeztena".


Os depoimentos da lavadeira, do vigia dos fundos…… Um nobre ortegano comum teria uma infinidade de segredos e escândalos a serem extraídos de sua criadagem, mas a mansão de Inês Valeztena parecia um mausoléu de segredos invioláveis. E mesmo que houvesse algo oculto ali, como um investigador tão inexperiente como José conseguiria capturar?


Cássel percebeu que fora tolo ao confiar tamanha tarefa ao subordinado. Era a primeira vez que ele investigava a vida privada de uma mulher e, por desconhecer os métodos corretos de espionagem social, passara três dias pressionando um soldado habituado a táticas de infantaria, sem saber ao certo o que procurar. Diferente dos métodos de José, as conclusões óbvias chegaram antes do esperado: não havia nada a ser descoberto.


Contudo, para um homem que jamais sentira a menor curiosidade sobre o passado de qualquer uma das inúmeras mulheres com quem já se deitara, Cássel sentia o peso de um crime grave na consciência pelo simples fato de ter submetido Inês àquele relatorio.


“Se eu cometi a baixeza de espioná-la, ao menos deveria ter obtido algum resultado útil”, pensou, semicerrando os olhos para José com desagrado.


José, interpretando erroneamente o olhar severo do capitão como um sinal de aprovação, inflou o peito com orgulho.


— Capitão…… Embora eu saiba que o senhor não é o meu mestre jurado, seria uma honra incomparável servi-lo nessa capacidade. Nesse sentido, se pensarmos no senhor como o meu mestre e em mim como o seu leal funcionário, eu creio que fui eficiente……


— Eficiente em quê, Almenara?


— Eu pensei que seria prudente relatar alguns comentários sobre o comportamento vertiginoso do meu mestre em locais onde o capitão não estivesse presente.


Cássel estreitou os olhos, lançando ao subordinado um olhar gélido e puramente militar.


— Então você está me dizendo que está pronto para trair o seu superior a qualquer momento em troca de suborno?


— De forma alguma! Eu quis dizer que os testemunhos dos criados da casa Valeztena são muito objetivos…… Traição jamais! Eu apenas pensei que, se os serventes tivessem algum podre sobre a senhorita Valeztena, eles teriam aberto a boca em troca de algumas moedas de prata. Mas a senhorita simplesmente não dá margem para fofocas. Ah, como eu posso explicar…… Ela é o oposto do capitão, que possui um histórico repleto de assuntos e escândalos sociais para serem comentados……


— ……


— …… O senhor vai me agredir?


— Almenara.


— Sim, capitão?


— Seria altamente recomendável que você retornasse para os braços de sua mãe para aprender as regras básicas de etiqueta antes de se apresentar novamente ao quartel.


Embora Cássel mantivesse o tom severo, ele aceitava implicitamente a lógica trazida por José. Sim, se você sacudisse qualquer nobre de Mendoza, alguma poeira haveria de cair, e bastaria aumentar a oferta de moedas de prata para obter o escândalo desejado.


Porém, Inês Valeztena era uma exceção à regra; por mais que a sacudissem, ela não soltava uma única gota de poeira. Ela nascera com aquela rigidez moral, dona de um orgulho que a faria preferir a morte a expor uma fraqueza de forma imprudente.


Subitamente, Cássel experimentou um misto de decepção e um imenso alívio. O alívio de constatar que, de fato, não existia outro homem na vida de Inês.


“…… Alívio?”


Cássel sobressaltou-se com o próprio pensamento.

O que ele estava fazendo? Por que sentir-se aliviado, como se o seu coração estivesse envolvido naquela questão? Assim que a palavra "coração" cruzou a sua mente, ele sentiu uma repulsa física, como se o seu corpo estivesse prestes a explodir em urticária. Ele balançou a cabeça vigorosamente, tentando afastar a vaga sensação de infidelidade que o assaltava.


— …… É possível que a minha noiva seja simplesmente rigorosa e fria demais com o sexo oposto? — indagou Cássel, buscando uma justificativa racional.


— Todas as criadas zombaram da mera possibilidade de haver um amante, capitão. Disseram que, se um homem tenta se aproximar dela, a senhorita o encara como se estivesse olhando para um verme rastejante.


Era uma explicação perfeitamente plausível. Afinal, mesmo diante de um noivo com os dotes físicos de Cássel, Inês mantinha aquela postura hesitante e desdenhosa.


Enquanto Cássel assentia e afagava o queixo, absorto em seus pensamentos, José, na tentativa de redimir-se do deslize anterior, deu um passo à frente e sussurrou com um ar confidencial:


— Mas há um detalhe, capitão. Enquanto eu fazia essas investigações discretas, percebi que não precisamos nos preocupar em levantar suspeitas na mansão. Ao que parece, algumas das mulheres com quem o senhor se envolveu no passado costumam enviar capangas para fazer essa mesma verificação de antecedentes de tempos em tempos, tentando descobrir alguma fraqueza da senhorita……


— …… O quê?


— A reação das criadas diante das minhas perguntas foi de total familiaridade. Elas disseram que frequentemente surgem sujeitos estranhos e espiões de quinta categoria rondando os arredores para extrair informações sobre a patroa. Mas veja bem, capitão, eu por acaso pareço um espião de quinta categoria? Eu possuo um porte tão urbano e militar, jamais seria confundido com essa gentalha……


José, que por um instante perdeu-se em sua própria vaidade, recuperou a postura orgulhosa.


— De qualquer forma, as servas chegaram a me perguntar se eu fora enviado por alguma das antigas amantes de Cássel Escalante, então eu apenas desconversei e…… Bem, o volume de investigações que aquelas mulheres ordenam é tão grande que a minha presença ali foi praticamente invisível, enterrada em meio a tantos outros espiões.


— ……


— Capitão?


Cássel permaneceu estático, encarando o tenente que exibia uma expressão de quem aguardava um elogio por um trabalho bem executado.


“Quantos espiões andam rondando a vida dela por minha causa?……”


Inês sabia. Não havia a menor possibilidade de ela ignorar aquela situação.


Naquele instante, a verdade desabou sobre Cássel como um balde de água fria: Inês Valeztena passara os últimos anos sendo importunada e investigada por culpa exclusiva dos escândalos dele.

Sim, agora as coisas faziam sentido. 

Aquilo que parecia completamente inexplicável começava a clarear. Era como se a névoa densa estivesse se dissipando, revelando metade do enigma por trás das atitudes recentes de Inês.


Contudo, no mesmo instante em que essa percepção o atingiu, Cássel sentiu uma pontada incômoda no peito, e a imagem de Inês desvaneceu de seus pensamentos. Suas ideias voltaram a ficar nubladas. Aquelas mulheres do seu passado deviam estar agindo pelas suas costas, fora de seu campo de visão…


A maioria dos seus antigos envolvimentos fora clara e direta, e mesmo os flertes mais discretos jamais haviam terminado com ressentimentos a ponto de justificar uma perseguição daquelas.


“É claro que elas fariam isso.”


…… Será que o cenário sempre fora assim? Mulheres obcecadas rondando os bastidores da corte, tentando encontrar uma falha na noiva a quem ele fingia não dar importância, prontas para atacá-la se descobrissem o menor deslize…… E depois de tudo, ele ainda agira com absoluta indiferença, como se a segurança de Inês não fosse problema dele.


Quem era o verdadeiro culpado? A sua própria estampa e o seu comportamento libertino eram o verdadeiro pecado ali…… Cássel passou as mãos pelo rosto com força várias vezes, tomado pelo nervosismo.


De qualquer forma, em breve, toda aquela confusão chegaria ao fim.


— …… Capitão, o senhor está se sentindo tão mal assim? Mas, de todos os modos, a decisão de se casar já não foi tomada? O senhor até já enviou a solicitação formal ao Duque de Valeztena…… Agora, mesmo que aquelas mulheres encontrem alguma fraqueza na senhorita, o que pretendem fazer?


— …… Que fraqueza?


— Uma fraqueza qualquer…… Não era isso que o senhor pretendia usar? O senhor não queria descobrir algo para anular o matrimônio? Mas, contradizendo tudo isso, o senhor acabou de enviar a carta exigindo o casamento à casa Valeztena……


— Por que merda eu faria uma idiotice dessas?


Cássel lançou ao subordinado um olhar carregado de incompreensão. José, por sua vez, sustentou o olhar com a mesma estupefação. Os dois militares encararam-se por longos segundos, completamente perdidos nos argumentos um do outro.


Para começar, a ideia de usar o passado de Inês como "fraqueza" era ridícula. Diante do histórico de conquistas de Cássel, seria o cúmulo do cinismo se ele — que agia como um libertino incorrigível — tentasse alegar: “Não posso contrair matrimônio com a senhorita Valeztena porque suspeito que ela teve um amante na adolescência.” Fazer tal acusação dezessete anos após o pacto de noivado ser firmado seria um insulto grave. A casa Valeztena teria motivos de sobra para processar os Escalante por calúnia e difamação antes mesmo de o caso chegar ao tribunal.


Além do mais.


— Uma promessa é uma promessa, Almenara. Um noivado dessa magnitude é um pacto de sangue entre duas famílias ducais. Tentar golpear o aliado pelas costas dessa maneira traria consequências desastrosas para o império.


Desde os seis anos de idade até se tornar este homem de vinte e três, Cássel, por mais rebelde e astuto que fosse, jamais cogitara um futuro onde não estivesse posicionado como o marido de Inês Valeztena, por mais incômodo que esse destino parecesse. Embora o futuro ao lado dela o assustasse, embora a rigidez da moça o sufocasse e o fizesse questionar a própria sanidade…… ele nunca concebera outra realidade.


Portanto, as insinuações conspiratórias de José soavam quase como uma blasfêmia aos seus ouvidos. Cássel sempre fora muito mais fiel à sua palavra do que a alta sociedade imaginava. Como punição pela audácia do subordinado, o capitão desferiu um chute firme na canela do tenente. 

José soltou um gemido abafado, contendo o grito de dor.


— Use a cabeça para pensar, Almenara.


— Mas capitão, o senhor ordenou uma investigação! Quando se ordena uma coisa dessas……!


— Você é um lixo de investigador, Almenara. É por ser um sujeito tão desajeitado, que faz promessas idiotas a informantes incompetentes e tenta passar a perna no próprio superior, que o seu pai desistiu de você e o despachou para a Marinha Imperial.


— Por acaso a Marinha virou depósito de lixo agora, capitão?!


José protestou, sentindo-se profundamente injustiçado, mas ao encarar a fisionomia severa de Cássel, a sua expressão mudou para uma de súbita compreensão. A personificação da promiscuidade aristocrática estava bem diante de seus olhos. Ele sabia que, assim que o capitão se casasse, seria promovido em um piscar de olhos, tornando-se um oficial ainda mais influente e intocável…… Não havia como Cássel não notar o julgamento silencioso no olhar do tenente. Cássel chutou a canela dele mais uma vez.


— Ai……!


— A sua mente é transparente demais, Almenara. Limite-se a relatar os fatos e receba a punição devida, ou simplesmente pare de divagar.


— Como o senhor quer que um homem pare de pensar?……


— O que você disse? Você anda muito ousado para o meu gosto, Almenara. A sua audácia está crescendo proporcionalmente ao tamanho da sua cabeça.


— …… Eu não escolhi nascer com este porte.


José, que passara a infância tolerando as piadas dos irmãos mais velhos que o chamavam de "cabeça de vento de tamanho gigante", tivera dificuldades na juventude até que o seu corpo imenso encontrasse o equilíbrio físico adequado através do rigor militar.


Ao ver o robusto tenente responder com um tom de voz acanhado, visivelmente atingido em uma velha ferida emocional, Cássel soltou uma risada branda.


— Eu sei. Você é enorme, por isso é um alvo fácil. E justamente por você ter essa fisionomia patética toda vez que tenta armar uma conspiração, a minha vontade de esmurrá-lo só aumenta.


— Que tipo de fisionomia eu tenho, afinal?


— Se você pensou em algo, fale de uma vez. Se não tem coragem de falar, limpe esses pensamentos impuros da mente.


O rosto desajeitado do tenente não conseguia ocultar as suas conclusões. Vendo que Cássel ameaçava erguer a bota para um terceiro chute, José recuou apressadamente e despejou a verdade:


— Eu apenas pensei…… que o senhor, tendo conhecido tantas mulheres e mantido uma vida tão boêmia, estivesse com a consciência pesada. Pensei que o senhor suspeitasse que aquela virtuosa e intocável senhorita Valeztena guardasse algum segredo ou um amante secreto no passado…… O senhor parecia tão consumido pela desconfiança……


— …… Então você decide verbalizar todas as suas deduções idiotas na frente do seu superior, mesmo após eu ter ordenado que guardasse as suas opiniões para si?


— Oh, então eu estava errado?


José resmungou, massageando a canela que fora atingida novamente após a sua ousada pergunta.


— Eu com dúvidas? Eu? De quem? Para quê?


— Não estava? — José assentiu bruscamente, adotando um tom de "se o senhor diz, quem sou eu para discordar", enquanto se afastava estrategicamente do raio de alcance de Cássel.


— Por que eu duvidaria dela?


— Bem, ou isso, ou o senhor andou bebendo……


— Você sempre faz isso, Almenara. Transforma ordens diretas em fofocas de caserna.


— Se o senhor analisar bem as suas próprias atitudes…… Não era desconfiança, e o senhor não estava tentando encontrar uma fraqueza. Então, por qual outra razão o senhor mandaria vasculhar a vida da senhorita Valeztena?


Cássel silenciou.

“…… Para que eu estava cavando o passado dela?……”, murmurou mentalmente, atingido por um choque de realidade.


— Eu apenas queria saber.


Ao pronunciar aquelas palavras, Cássel ergueu o queixo de leve. Seus olhos, subitamente distantes e vagos, fixaram-se na paisagem cinzenta além da janela do gabinete. Sua mente pareceu viajar para um lugar muito distante em um piscar de olhos.


José observou o semblante enigmático do chefe, ponderando se deveria retirar-se do aposento ou insistir no cronograma. Por fim, reunindo a coragem restante, o tenente pigarreou e questionou:


— …… Mudando de assunto, capitão, quando o senhor pretende retornar à base de Calstera? Se continuar estendendo a sua licença dessa maneira, as nossas férias de inverno desaparecerão por completo.


A preocupação de José era legítima e urgente. Ele já havia esgotado a sua própria licença de verão e continuava retido na capital unicamente para cobrir as excentricidades de Cássel. O capitão respondeu com total indiferença, sem desviar os olhos da janela:


— Eu vou me casar.


— Sim? E quando será o casamento?


— Dentro de uma semana.


— …… O quê?!


— O Duque de Valeztena afirmou que esta seria a melhor oportunidade para usufruirmos das férias oficiais antes do término do verão.


— Mas se o senhor se casar agora, não teremos direito à licença nupcial regulamentar separadamente?


— O prazo estipulado já inclui essa concessão.


— …… E quanto a mim?


— Por acaso você ainda tem alguma licença de inverno restante?


— Tenho. Sim, mas……


José assentiu, a fisionomia expressando um desalento quase cômico. Em suma, o capitão não pretendia retornar à base tão cedo.


Cássel continuou a fitar a chuva que castigava os vidros da janela, completamente imerso em seus próprios pensamentos e ignorando os lamentos do subordinado. Se os seus instintos estivessem corretos, ele já conseguia vislumbrar a si mesmo arrancando o véu e o rígido vestido de noiva de Inês Valeztena no exato instante em que fossem declarados marido e mulher.



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