Capítulo 22 — Um jantar de revelações
O silêncio na mesa de jantar dos Valeztena era sepulcral, uma barreira invisível de etiqueta e hostilidade velada. Apenas o som metálico e rítmico dos talheres se ouvia pelo salão. Cássel repetia para si mesmo, como um mantra militar, que ficaria tudo bem. Faltava pouco.
— Lorde Cássel, ouvi dizer que, pela primeira vez na vida, você anda agindo com virtude e castidade.
A voz do Duque de Valeztena interrompeu o silêncio como uma lâmina afiada. No mesmo instante, o movimento dos talheres sobre a elegante mesa parou no ar. Todos prenderam a respiração; até mesmo os servos posicionados junto às paredes pareceram congelar em suas posições.
— Desculpe…? — Cássel perguntou, surpreso.
A pergunta repentina e ácida do duque o pegara totalmente desprevenido. Até um momento atrás, ele estava ocupado demais, alheio ao mundo, olhando gananciosamente para os lábios de Inês para prestar atenção no que o sogro dizia; estava hipnotizado pela boca da noiva a ponto de esquecer onde estava.
O Duque de Valeztena pousou a sua taça de vinho, ainda meio cheia, sobre a mesa. O estalo do cristal contra a madeira maciça soou como um veredito.
— Bem, a sua reputação de promíscuo o precede, Lorde Cássel. Como o senhor bem deve saber.
Os olhos azuis de Cássel tremeram com um lampejo de pânico contido. Uma reprimenda direta daquela magnitude, arremessada na mesa de jantar a poucos dias do matrimônio, quebrava qualquer protocolo de diplomacia entre as duas linhagens mais poderosas do império. Sentado ao seu lado, Miguel também congelou, o corpo paralisado diante daquela declaração aberta de hostilidade do patriarca Valeztena. Ninguém na corte esperava tamanha e brutal franqueza, mesmo que a conduta libertina do herdeiro dos Escalante fosse de conhecimento público.
Dez dias antes do casamento, o duque havia convidado os dois irmãos Escalante para este jantar íntimo no solar dos Valeztena unicamente para celebrar os acertos finais da união, mas o clima agora assemelhava-se a um tribunal de guerra.
Cássel ergueu o garfo à boca com uma compostura forçada, agindo como se nunca tivesse congelado diante do comentário do duque. No entanto, o filé premium e perfeitamente preparado parecia borracha em sua boca seca.
O Duque de Valeztena bateu levemente com a ponta dos dedos na mesa, observando com evidente desdém a tentativa patética de Cássel em disfarçar o seu desconforto. O sorriso do velho duque era milimetricamente polido, mas os seus olhos eram puro gelo.
— Toda Mendoza conhece a sua reputação, não é mesmo, Luciano?
— Eu não saberia dizer, meu pai.
Ficava evidente que o herdeiro dos Valeztena estava medindo as palavras unicamente porque a sua irmã se tornaria a esposa daquele homem em uma semana. O matrimônio era um pacto irrevogável e Luciano possuía a racionalidade necessária para compreender que inflamar os defeitos do noivo naquele momento serviria apenas para manchar a honra de Inês. No entanto, os seus olhos não mentiam; a cortesia social que ele costumava estender a Cássel nos salões da corte fora inteiramente substituída por um desprezo silencioso.
Reflexivamente, Cássel desviou a sua atenção da linha de ataque e buscou o olhar do Duque, oferecendo ao sogro um sorriso polido, tentando usar a estampa impecável e a beleza clássica dos Escalante como um escudo diplomático.
O duque sabia perfeitamente que o rosto de Cássel era uma obra-prima da genética, extremamente agradável aos olhos de qualquer um, mas encontrava pouco mais para apreciar no caráter de seu futuro genro. Ele estreitou o olhar, encurralando o rapaz.
— Entendo que você nasceu para esse destino de libertinagem, graças às características particulares que herdou de sua linhagem.
A ênfase mordaz em “características particulares” parecia uma bofetada diplomática, implicando que Cássel possuía uma aparência excepcional, mas uma inteligência e moral severamente inferiores.
O Duque de Valeztena tomou outro gole de vinho e acrescentou, destilando uma falsa benevolência:
— Tenho certeza de que todos os homens entendem. O seu irmão Miguel, Luciano e eu também compreendemos perfeitamente a força do desejo masculino. Não é mesmo?
Infelizmente para Cássel, a frieza furiosa e assassina nos olhos do duque mostrava que ele não tinha compreensão ou tolerância alguma para a promiscuidade do rapaz. Cássel engoliu em seco.
— Tem algo a dizer para mim? — o duque provocou novamente, instigando-o a falar.
Cássel sentiu um arrepio genuíno subir pela espinha. O ar no salão parecia rarefeito. De alguma forma, enfrentar o futuro sogro naquela mesa era infinitamente mais intimidador do que encarar o próprio Almirante General da Marinha Imperial.
As palavras que o instigavam a dar uma resposta rápida eram simples, mas a pressão era esmagadora. Mesmo se estivesse sozinho em uma sala com o Almirante da Marinha, o ar não pareceria tão rarefeito quanto agora.
O que ele esperava que eu respondesse? Que eu ando aprontando por aí simplesmente porque vale a pena? Que esse é o meu privilégio de homem……?
Se Cássel dissesse "Não", o Duque rebateria com: "Então por que viveu dessa maneira até hoje?". Se o julgamento do velho fizesse uma curva ainda mais distorcida, ele diria: "Está me desmentindo?". Por outro lado, se respondesse "Sim", seria um suicídio diplomático.
Sendo melhor recuar do que se autodestruir, Cássel balançou a cabeça cortesmente:
— Não. Não tenho resposta.
— Se não consegue sequer defender as suas próprias ações, então por que agiu dessa forma deplorável desde o início? — insistiu o duque, quebrando a própria encenação benevolente.
Cássel se incomodava menos com a agressividade da pergunta em si do que com o fato de Inês estar assistindo a toda aquela humilhação de camarote. Ele lançou lhe um olhar de esguelha, buscando alguma reação, mas ela parecia imensamente mais interessada no menu e no prato do que na troca de farpas dinásticas entre o noivo e o pai.
Um pouco desapontado com a frieza dela, Cássel voltou a sua total atenção ao duque.
— Fui imprudente.
— Sem dúvida. Você não teve nenhum pensamento inteligente.
Cássel sabia que se tentasse se defender com mais desculpas, estaria cavando a própria cova. Mesmo se mencionasse que as suas aventuras carnais foram apenas uma distração temporária durante os anos de solteiro e juventude, o duque faria questão de torná-las uma mancha permanente.
— Concordo, Vossa Graça — disse Cássel, apenas acenando com a cabeça e engolindo o orgulho nobre.
— Ah, parece que o nosso tenente não só carece de honra e de lealdade à sua noiva, como também de intelecto. Que conjunto humilde de qualidades você tem a oferecer. Parece que o que lhe sobra em beleza, falta-lhe o dobro em cérebro.
Cássel teve de admitir internamente a assustadora habilidade do duque para o sarcasmo. O deboche cirúrgico do Duque de Valeztena fazia qualquer comentário espirituoso ou punição que Cássel tivesse infligido ao Tenente José Almenara parecer uma brincadeira infantil. Mas ele teve de abandonar qualquer pensamento afiado e focar unicamente em conter a crise à frente: restava apenas uma semana para o noivado se converter em casamento definitivo.
Ele sentia que estava prestes a perder o juízo. O Duque o tratava como um aproveitador, como se Cássel estivesse ali cobrando o dote que o velho havia reservado para o enxoval de Inês.
— Ah, sim, compreendo. Você também está de olho no dinheiro dela. No entanto, eu nunca deixei um único centavo guardado para os Escalante. Não costumo financiar ladrões.
— O dote, se me permite dizer, é uma propriedade pessoal da senhorita Valeztena — defendeu-se Cássel.
— Pois bem. É uma propriedade pessoal de Inês Valeztena. Um patrimônio que irá diretamente para o meu futuro neto, que já nascerá com o sobrenome Escalante carimbado na testa.
— Certamente será assim, mas esse neto também será um herdeiro dos Valeztena, descendente de sua linhagem.
— Se pensa assim, por que não o deixa sob a minha tutela de uma vez?
— Antes disso, ele será o filho de minha esposa e meu……
— Esposa? Minha filha por acaso é piada para você? Usar o termo "esposa" antes do casamento? Por acaso já está tão eufórico a ponto de pensar em engravidá-la?
Cássel engoliu em seco.
Eles sequer haviam subido ao altar e o sogro já exigia a guarda de um neto que nem sequer existia…… Ainda assim, Cássel conteve o orgulho e balançou a cabeça em um sinal respeitoso.
— Não, não desejo desrespeitá-la. Pelo contrário, tenho a mais alta consideração por senhorita Valeztena—
— E como demonstra essa consideração? Dormindo com todas as outras mulheres que encontra?
Cássel ignorou a pergunta e continuou: — E estou ansioso pelo dia em que me tornarei oficialmente seu marido...
— Um marido oficial? — O duque zombou, em seguida disse, em fúria contida: — Só sobre meu cadáver!
— ....Quando tiver a honra de casar com sua filha, prometo que não decepcionarei você nem a duquesa.
— Promessa vazia — comentou o duque com indiferença. — Já estou decepcionado com você.
O comentário do duque atingiu Cássel profundamente, e seu sorriso educado congelou.
O duque pousou a taça vazia, fitando o rapaz com repulsa aristocrática, e concluiu:
— Estou particularmente desapontado até mesmo com a forma como você respira neste recinto; se puder fazer o favor de parar completamente com isso, seria de grande ajuda. Isso funcionaria muito bem para mim.
O silêncio tenso estava prestes a ruir o restante do jantar quando, finalmente, Inês abriu a boca com uma calma imperturbável.
— Basta, meu pai.
A voz de Inês ecoou pelo salão, intervindo com uma calma imperturbável para frear o ímpeto do Duque. Só então Cássel conseguiu desviar os olhos da fisionomia desdenhosa do sogro para focar na figura de sua noiva.
Mesmo no epicentro daquele caos, Cássel pôde ver Inês, que já havia terminado de comer e agora limpava os lábios elegantemente com um lenço de linho, agindo como se vivesse sozinha em outro mundo, completamente alheia à fúria do pai. Como sempre, ela mantinha uma mente aberta, direta e friamente pragmática.
Fosse pela exposição dos motivos políticos por trás do casamento iminente, pela atmosfera sufocante daquele salão ou pelo passado promíscuo de seu noivo exposto à mesa, qualquer outra dama nobre da alta corte teria abandonado o prato cheio de comida e se retirado com um olhar de profundo desgosto. Mas Inês não fez nada disso. Pelo contrário: ela esvaziara meticulosamente toda a comida que lhe fora servida e optara por permanecer firme em seu assento.
— Não chame as pessoas até aqui apenas para rebaixá-las dessa maneira — Inês declarou, a voz calma cortando o monólogo do pai. — Tenha um pouco de consideração pelos que eu mesma convidei.
— Você ficou estúpida, minha filha? Quem você pensa que está defendendo? — o Duque esbravejou, o rosto contorcido em uma careta de incredulidade.
— Eu sei muito bem quem estou defendendo.
Inês deu de ombros com total indiferença. O Duque de Valeztena parecia prestes a explodir.
— Eu poderia muito bem ter chutado a cara dele — disse o Duque, apontando levemente para Cássel com o queixo. — Mas não o fiz, e ainda compartilhei o nosso pão de cada dia com ele. Isso já demonstra bastante refinamento e cultura da minha parte. Sou um homem generoso.
— Com essa mesma generosidade, permitiu que ele levasse a vida pessoal até agora da forma que quis — respondeu ela. — Pai, não me importo com as indiscrições anteriores do meu dele......
— Isso é diferente! Essa tolerância era para a época em que esse canalha agia como se nunca fosse se casar com você pelo resto da vida……! — o Duque tentou rugir.
—...... Ele agia assim no passado, mas, no fim das contas, ele vai se casar comigo. O senhor também sempre soube disso — Inês cortou resolutamente as palavras de seu pai, sem demonstrar um pingo de hesitação. — Portanto, deixe o meu noivo em paz.
O Duque de Valeztena soltou um suspiro pesado de pura frustração e virou o restante do vinho que restava em sua taça.
À sua direita, Cássel conseguia sentir Luciano continuando a comer a contragosto, apenas para manter as aparências, enquanto à sua esquerda, Miguel permanecia tão rígido e paralisado quanto uma estátua de pedra.
Sentada entre o Duque e Inês, a Duquesa de Valeztena exibia um comportamento alarmante: ela estava ocupada demais virando doses de uísque puro — e não de vinho —, consumindo o destilado com a rapidez de quem bebe água. Como Cássel já havia notado em ocasiões anteriores, a Duquesa não era exatamente alcoólatra; ela apenas usava o álcool como anestesia para suportar a própria família.
No geral, a atmosfera era deplorável.
Inês conseguira calar a boca do Duque por um instante, mas o humor no salão já havia descido por um caminho sem retorno, como se tivesse sido arrastado por uma correnteza violenta. Ninguém mais ali tinha o poder de suavizar o clima com palavras mansas. A Duquesa, que poderia ser um vislumbre de esperança diplomática, já estava bêbada sem que ninguém notasse, e Cássel carregava o fardo de sua própria culpa libertina, o que o impedia de abrir a boca para se defender.
No meio daquela escuridão psicológica, onde era impossível enxergar o fim do banquete, apenas Inês permanecia perfeitamente imperturbável do início ao fim.
Cássel observava a sequência de ações da noiva como um homem que parara diante de um beco sem saída. Enquanto os outros convidados mal conseguiam engolir a comida devido ao nervosismo, Inês fez um gesto sutil para que o servo retirasse os seus pratos limpos. Em seguida, ordenou que trouxessem a sua sobremesa e que enchessem a sua taça de vinho com água pura.
Ela começou a girar o cristal na mão com tranquilidade, como se estivesse apreciando uma safra rara, bebendo a água com uma postura que gritava que a opinião alheia não lhe importava em nada. Cássel, por outro lado, sentia-se perfeitamente sufocado, sustentando a mesma farsa da engessada e educada fisionomia que mostrara ao Duque desde o início.
Apesar de todas as circunstâncias hostis que a cercavam, Inês desfrutava de todo o lazer que considerava necessário, ostentando aquele seu temperamento característico que Cássel nunca sabia dizer se era desapego filosófico ou pura indiferença fria. O silêncio voltou a reinar no recinto.
E foi no momento em que ela pousou a taça de água sobre a mesa que a quietude foi quebrada de vez.
— Como é possível que ninguém esteja comendo adequadamente……? — perguntou Inês, correndo os olhos pela mesa. — Por acaso sou a única que apreciou o cardápio de hoje?
— Não, senhorita! O jantar está absolutamente excelente! — Miguel apressou-se em responder, a voz saindo um oitavo mais aguda pelo susto. Em seguida, virou a cabeça rapidamente na direção do irmão, buscando socorro: — Não é verdade, Cássel?
Miguel exibia uma cortesia desesperada que nunca havia demonstrado antes. Cássel assentou lentamente com a cabeça, fingindo concordar com o irmão mais novo para não piorar a situação. Ao ver a cena, Inês ergueu levemente os cantos dos lábios e esboçou um pequeno sorriso.
Ela…… sorriu? Cássel piscou, confuso.
— Senhor Escalante, o senhor está bem? — Inês perguntou diretamente a ele, com uma ponta de diversão fria, como se estivesse estendendo uma esmola de gentileza a um homem prestes a ser executado.
Cássel forçou os seus belos lábios a se curvarem e devolveu o sorriso:
— Sim, está tudo perfeito.
Pensando bem, desde o início daquele infame jantar, aquela era a primeira vez que Inês falava diretamente com ele, apesar de estarem sentados frente a frente o tempo todo. Inês estava longe de ser uma criatura sociável, e Cássel, embora ostentasse um rosto atraente que raramente enfrentava rejeição, possuía o pragmatismo direto de um soldado; portanto, a ausência de diálogo prévio não havia sido desconfortável para nenhum dos dois até ali.
Contudo, aquela súbita cumplicidade era um insulto intolerável para o orgulho do Duque de Valeztena. Ele já odiava o rosto de Cássel e a forma como o rapaz respirava, e ver a filha interagir com ele foi o estopim.
— Finalmente essa boca tão cara resolveu se abrir, não é? — debochou o Duque, a ironia transbordando. — A boca cara de um sujeito que não consegue proferir uma única palavra de elogio à mulher com quem vai se casar, mesmo que já esteja pensando em engravidá-la.
Tentando aliviar a tensão com a única arma que conhecia, Cássel arriscou um galanteio diplomático:
— A senhorita Valeztena está deslumbrante esta noite. Na verdade, se me permite dizer, o seu vestido empalidece diante de sua beleza, que não conhece limites—
— Eu não sou bonita e o meu vestido de hoje não tem cor alguma — Inês cortou-o no ato, com uma ponta de irritação na voz. Distante de qualquer falsa modéstia, o tom dela era de puro cansaço e tédio. — Eu realmente gostaria que os senhores parassem de me usar como pretexto para essa tortura.
Os olhos de Cássel alternaram vertiginosamente entre o Duque e a filha, sem saber como reagir à frieza da noiva.
— Está vendo essa humildade? — o Duque bradou, voltando-se para o genro. — Desde o seu traje modesto até a sua atitude, ela é uma criança completamente diferente desses rapazes fúteis que só possuem uma carcaça deslumbrante e vazia!
— Pai, pare com isso — Inês exigiu, o tom subindo de tom.
— E você, não me interrompa mais! Daqui a uma semana, esse lixo ali será o seu marido……!
— Pai!
— Se chamá-lo de lixo a incomoda tanto—
— ...... A senhorita Valeztena é, por suposto, a mulher mais magnífica e…… — Cássel tentou intervir para defender a noiva.
— Cale a boca! — o Duque rugiu, interrompendo o rapaz com violência.
O Duque de Valeztena levantou-se parcialmente, apontando um dedo trêmulo de fúria na direção do peito de Cássel. Ele parecia estar enlouquecendo de ódio simplesmente porque não suportava a presença do genro.
— Você é um sujeito deplorável que vendeu o próprio corpo por um preço miserável!
— Pai, o senhor Escalante não vende o próprio corpo — Inês corrigiu o patriarca com uma calmaria assustadora. — E, mesmo se o vendesse, garanto que não seria por um preço barato.
Cássel piscou, chocado. Aquele era mesmo o momento adequado para ela tentar corrigir os valores morais e a tabela de preços do meu corpo?!
— Ele vende sorrisos fáceis por aí! — o velho gritou, espumando.
— Ele também não vende sorrisos — rebateu Inês, impassível.
— E pensar que eu permiti que a minha filha ficasse solteira até agora…… — o Duque começou a divagar, a voz trêmula de rancor. — Eu deixei tudo passar, e para quê? Para você se casar com isso em uma semana?! Por acaso você contraiu alguma doença terminal que vai destruir o seu corpo, e por isso precisa encontrar um herdeiro às pressas antes que o seu pai morra?!
— Pai.
— A minha filha deve estar completamente cega……! Ela se tornou uma criança tola que só consegue enxergar rostos bonitos, então olhe para ela……! Olhe o que você fez com ela……!
O Duque continuou o seu surto, mas Cássel já não conseguia mais olhar para os olhos injetados de ódio do sogro. Sua atenção foi completamente capturada pela fisionomia de Inês: o rosto da noiva estava tomado por uma expressão muito mais assassina e perigosa do que a do próprio pai.
Inês olhou fixamente para o dedo do pai, que continuava apontado em sua direção enquanto ele ditava o valor de mercado do rosto de Cássel. Ela o encarou como se fosse quebrar aquele dedo e, de repente, estendeu a mão...
O impulso foi tão carregado de uma energia cortante que realmente pareceu que ela arrancaria o dedo do Duque; mas, inesperadamente, ela apenas envolveu os dedos do velho com suavidade e os abaixou.
Em seguida, deu um tapinha de leve no dorso da mão dele para chamar sua atenção.
— O senhor não deveria tratar os seus convidados assim, não acha?
Aos sete anos de idade, durante um banquete imperial, aquela mesma voz infantil fora ouvida repreendendo o pai pelas costas. Era um cenário extraordinário ver que, mesmo após a maioridade, a dinâmica entre os dois permanecia exatamente a mesma.
O ímpeto do Duque de Valeztena cessou diante da voz da filha, como se ele tivesse sido colocado de castigo em uma sala de reflexão por um momento. No entanto, ele logo desviou os olhos para ver se algo daquela humilhação havia abalado a expressão altiva de Cássel.
— ……Convidado? Esse bastardo é um ladrão. Nada mais, nada menos.
— Sir Cássel é um oficial naval honorário do Império — rebateu Inês. — Ao contrário do que o meu pai diz, ele não vende o corpo e tampouco rouba.
Será que ela não poderia ter parado no elogio ao meu posto na Marinha Imperial? Ao ver o assunto de "venda de corpo" retornar à mesa, Cássel levou a taça de vinho à boca, sentindo a garganta repentinamente seca.
— Além disso, a família Escalante é rica demais para que ele precise disso. O senhor sabe bem.
— Então, Inês, mesmo que você olhe para ele com bons olhos, esse tipo de sujeito é do tipo que venderia a si mesmo se ficasse sem dinheiro!
— Se ele fosse pobre e possuísse atributos tão bons, não haveria necessidade de estragá-los guardando-os em segredo…… Apenas atenha-se aos fatos, papai. Só os fatos reais já são defeitos o suficiente.
Inês, que fingia ser pragmática e não se deixar enganar, acabou deixando a respiração de Cássel ainda mais pesada com aquela lógica invertida.
— Hum! Sim, se você vai colocar as coisas nesses termos tão sujos……
— Eu errei, papai. Pensando bem — sugeriu Inês — talvez seja sensato abstermo-nos de discussões sobre ele.
— Então, mesmo um homem desgastado e libertino como esse estaria bem aos seus olhos apenas por causa daquele rosto? Porque você é a filha de um Deus bom e virtuoso que, por mais pobre que o pretendente seja, sempre buscará extrair o bem dele no final……
Cássel chamou o criado em voz baixa para reabastecer a sua taça vazia com vinho e, ao mesmo tempo, inclinou a cabeça, chocado com a ilusão do sogro sobre a santidade da filha.
A conversa entre o pai e a filha sempre tivera Cássel como o protagonista, mas, àquela altura, o diálogo parecia estar se afastando dele, como se estivessem falando de um terceiro. Cássel sentiu como se a sua própria alma estivesse flutuando para longe daquele lugar.
Suspirando, o duque continuou:
— Vê, Inês? Você é bondosa demais. A maioria não se dispõem a ignorar os defeitos alheios e ver apenas o lado positivo — Ele falava claramente desolado — Suponho que é por isso que você se satisfaz com o rosto bonito dele. Como pessoa leal e bondosa, encontra pequenas coisas para admirar no homem mais desprezível.
— Pode ser honesto e apenas dizer que sou suscetível à boa aparência — disse Inês, exausta.
— Então, você realmente, realmente, realmente quer se casar com ele nessas condições?
Ao ouvir o profundo arrependimento que transbordava na voz do Duque, Cássel finalmente se deu conta de uma verdade crucial: o casamento sempre enfrentara uma severa oposição interna na família Valeztena.
O verdadeiro milagre era que aquele noivado tivesse se sustentado por dezessete anos.
O Duque preferia adiar o casamento o máximo possível.
A filha estava passando da idade ideal de matrimônio e o noivo era um oficial militar que havia abandonado as obrigações matrimoniais para vagar pelos mares. Cássel sempre achara que o Duque guardava ressentimento dele por evitar o altar, mas a realidade era o oposto.
Havia apenas uma razão pela qual o Duque de Valeztena nunca protestara de forma enérgica quando Cássel adiava as núpcias usando a academia militar, o alistamento e toda sorte de desculpas navais:
"Porque ele queria que este casamento fosse anulado por si só."
Cássel não tinha ideia de como lidar com a situação, percebendo que o Duque ainda alimentava a esperança de romper ou mesmo adiar o compromisso a apenas uma semana do casamento.
Todo esse tempo, supôs que a família se irritava pelo envelhecimento da filha e pela evasão do genro através de destinos distantes. Mas o duque havia permanecido em silêncio justamente para que o noivado desmoronasse.
Cássel estava perplexo. Amaldiçoado com um libido que agora se recusava a se voltar para qualquer outra mulher, tinha de escolher entre Inês e uma vida de impotência.
Lançou um olhar furtivo ao duque, decidido a contornar qualquer tentativa de adiar o casamento.
Inês era alguns anos mais velha que a média das solteiras Orteganas, mas com prestígio e riqueza dos Valeztena, não faltariam propostas. Claro, teria que suportar casar com alguém de família menos influente que os Escalante, e o noivo teria de enfrentar rumores após o cancelamento público de um noivado de dezessete anos.
Inês suspirou novamente.
— Já é tarde demais para voltar atrás, papai. O senhor mesmo disse que eu já estou velha, não disse? — Inês olhou para o criado com uma expressão entediada. A julgar pelo seu olhar sereno, ela parecia estar perguntando silenciosamente: "Onde está a minha sobremesa?".
— Se você estivesse velha, a sua mãe e eu já estaríamos em um caixão! — o Duque retrucou.
— Você que se deite sozinho lá, por que está me arrastando para o caixão? Eu tenho apenas trinta anos agora — a Duquesa interveio de repente, com a voz embargada e arrastada pela embriaguez do uísque.
O Duque contorceu o rosto em uma careta de desgosto para a esposa.
— Você tem quarenta e cinco anos! Quantas vezes eu tenho que repetir? Tentar lavar o cérebro das pessoas não vai fazê-la rejuvenescer. Sinto muito, Inês. Afinal, o casamento não é tão fácil e pacífico quanto você pensava quando tinha seis anos e escolheu esse sujeito baseada apenas naquele rosto impecável.
— Sir Cássel não é o único homem a cometer desvios de conduta na corte — apontou Inês.
— Se fosse apenas um desvio comum, quem se importaria?! Se ele tivesse que se divertir, que fizesse isso discretamente…… Todos os jovens aristocratas são assim, não há o que fazer, nós aceitamos isso. Mas o que esse bastardo fez passa de todos os limites……
Ouvindo aquilo, Cássel percebeu que o destino daquele longo noivado nunca estivera em suas mãos, como o público imaginava.
O Duque de Valeztena estivera pronto para romper o casamento a qualquer momento, e Cássel, com a sua conduta libertina, apenas fornecera munição após munição para justificar o fim do acordo.
Por certo, considerando que todos os nobres de Mendoza eram de espírito livre, promíscuos e até um pouco depravados, eram raríssimos os casos em que um casamento de alta linhagem era cancelado por esse motivo. Porém, o oponente aqui era o Duque de Valeztena, o homem capaz de peitar o próprio Imperador no Senado por qualquer capricho.
— O senhor acha que o pacto selado com o nome de nossa família é uma piada? Sem mencionar que Valeztena e Escalante não são famílias nobres comuns; somos os Grandes de Ortega, reconhecidos pelo próprio império.
— ……
— E "Nós" não damos a nossa palavra em vão.
Como se confirmasse a ameaça, os olhos semicerrados do Duque nublaram-se com uma frieza política. Eram os mesmos olhos sombrios que, no passado, haviam bloqueado o decreto imperial de criação de uma fábrica militar apenas com uma petição do Duque no Senado.
O peso do poder político retornou para Inês. Naquela mesa, onde ninguém — desde a Duquesa embriagada até Luciano, que permanecia em silêncio — parecia desconfortável com a autoridade do Duque, Inês era a única que mantinha o controle.
Cássel despertou de seus pensamentos.
Havia uma razão pela qual aquela história de casamento conseguira avançar apesar de tudo: Inês o queria. Ela dizia que não gostava dele, que não se importava com as suas ações e que toleraria qualquer tolice, mas, no fim das contas, ela o queria de qualquer maneira.
Essa conclusão deveria ser prazerosa para o homem que começara a manhã ofegante após mais um sonho em que ela aparecia, mas ele não pôde evitar uma ponta de dúvida e hesitação.
Mesmo se, como dizia o Duque, o seu rosto bonito fosse tudo o que ela desejava, por que aquela era a sua única qualidade aos olhos dela? Era irritante e perturbador o fato de que, sempre que olhava para ele, ela parecia apenas tolerar a sua existência.
— Além disso, o casamento foi arranjado pela própria Imperatriz — continuou Inês. — A família imperial faz parte desta cerimônia, de modo que revogar o matrimônio agora seria um insulto direto à coroa.
— A Imperatriz conhece bem os motivos para anular o compromisso. Ela sabe muito bem a fama do precioso sobrinho dela que pode estar vendendo o corpo por aí. Portanto, não pode nos censurar — rebateu o duque.
— A família Escalante tem recursos em abundância, e Sir Cássel não se prostitui, como já estabelecemos.
— Como você pode ser tão ingênua a ponto de não ver a verdade? Acha que ele se limita a vender o corpo e roubar? Sujeitos como ele venderiam a própria alma se pudessem obter mais prazer. Por que você não enxerga isso?
— Eu não creio que Sir Cássel tenha obtido nada além de mera diversão ao se deitar com aquelas mulheres — Inês respondeu, voltando a sua atenção explicitamente para a sobremesa que acabara de chegar à mesa.
Era uma avaliação fria, objetiva e insultuosamente indiferente para se referir à devassidão do próprio noivo. Em termos de importância para Inês, a promiscuidade de Cássel parecia não ter o tamanho do pedaço de fruta que ela estava espetando com o garfo naquele instante.
— Depois de ter se divertido tanto, acho que ele deveria tentar cobrar de verdade.
— Eu acredito que Sir Cássel está se contendo ultimamente e que ele se importa comigo. Não é verdade, Senhor Escalante?
— Contendo-se? Ele deve estar morrendo de medo de ser desmascarado na missa de casamento! Com esse cérebro estúpido, ele já deve estar planejando em qual cama vai se deitar assim que a cerimônia terminar — o Duque rebateu como uma muralha de ferro, sem dar tempo para Cássel responder.
Inês deu de ombros, mastigou o pedaço de fruta e declarou:
— Na verdade, seria um desperdício de recursos monopolizar esse rosto apenas para mim. Seria como abandonar minas de ouro ou deixar de colher o sal do mar.
— O quê? — o Duque engasgou.
— Eu tenho orgulho de Sir Cássel, por isso não pretendo estragá-lo restringindo a sua liberdade.
Que tipo de atitude era aquela? Ela parecia uma criadora tratando de um pássaro ferido apenas para soltá-lo na natureza depois. Cássel piscou os olhos, atônito, sentindo que acabara de receber um incentivo caloroso da noiva, como se ela estivesse dizendo: "Agora, abra as suas asas e voe pelo mundo das mulheres". A uma semana do casamento, ver a própria noiva dar permissão para que ele ficasse com outras mulheres diante dos pais dela era inacreditável.
— Inês Valeztena de Perez, a menos que você esteja completamente louca……! Escalante, o que significa essa sua expressão? Você deve estar radiante por ter recebido a permissão dela! Você planeja minerar intensamente a sua mina de ouro? Vai secar todo o sal da salina? É isso?!
De repente, o Duque começara a substituir a expressão "venda de corpo" por analogias de mineração e salinas, e aquela nova e bizarra discussão geopolítica deu uma dor de cabeça instantânea em Cássel.
Ele simplesmente não tinha palavras para responder. Deveria dizer que nunca tivera a intenção de operar uma mina após o casamento? Ou que a salina estava desativada? Cássel olhou para Inês com uma onda avassaladora de embaraço.
Os lábios de Inês, que antes mastigavam a fruta, endireitaram-se em uma linha firme, e logo em seguida curvaram-se de forma magnífica. Os olhos de Cássel, que a encaravam com profunda desconfiança, de repente nublaram-se, como se ele estivesse completamente hipnotizado por aquela fisionomia.
— Eu estou bem, de verdade, pai. Afinal, eu anseio de todo o coração por Cássel Escalante.
Naquele exato momento, ele se deu conta de mais uma verdade absoluta:
Inês Valeztena possuía o sorriso mais bonito do mundo justamente quando estava mentindo.
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— Quero dizer, Sir Escalante.
Com aquela, Cássel devia ter ouvido a frase "Quero dizer" umas dez vezes.
Enquanto todos se dirigiam ao salão após o jantar, Cássel, que apenas tentara amparar a duquesa bêbada por um breve momento para ajudá-la a caminhar, acabou encurralado por ela. Agora, a mulher continuava a conversa transformando-a em uma autêntica tortura. Repetia o que já tinha dito, voltava atrás nos próprios passos, reformulava a mesma ideia uma e outra vez…… Era o epítome de um bêbado inconveniente.
Cássel fez uma careta de tédio e desviou o olhar para Inês, que conversava com Miguel à distância. Tentava escutar a duquesa com um ouvido enquanto deixava as palavras saírem pelo outro.
"Desde quando esses dois tinham se tornado tão próximos?", pensou ao ver a noiva e o irmão caçula.
— …… Você está me ouvindo?
— É claro, Duquesa. Continue, por favor.
Cássel teve de reprimir a pergunta que lhe rondava a mente:
"Por que esses dois estão sentados juntos conversando de forma tão íntima?". Com perfeita cortesia, voltou a inclinar a cabeça para a Duquesa de Valeztena, fingindo que ela tinha toda a sua atenção.
— Tenho uma opinião muito diferente daquele Duque de mente fechada. Eu gostei de você desde o primeiro momento.
— É uma honra, Duquesa.
— Sempre digo isso à Inês…… Você é demais para ela. Uma joia. Inês não é a filha que eu desejava. Nunca fez nada do que lhe pedi…… É uma filha profundamente decepcionante. Tudo o que ela faz é para me humilhar.
Como boa bêbada, ela repetia as suas lamentações sem dar sinais de cansaço, mas uma estranha sensação de alienação começou a se infiltrar nos ouvidos de Cássel. O jovem capitão entreabriu os olhos.
— Você já reparou em como aquela menina me olha? Os olhos dela não conhecem a gratidão pela mãe que a trouxe ao mundo…… São olhos extremamente frios. Você não pensa o mesmo quando a vê?
— ……
— Nem sempre foi assim. Ela não nasceu um monstro; ao contrário, era uma criatura linda e benevolente. Oh, minha garotinha.... Houve um tempo em que era incrivelmente bela e encantadora…… Mas depois…… Talvez tenha sido depois daquela febre severa que ela sofreu na infância.
Cássel e a Duquesa de Valeztena se conheciam há dezessete anos, unidos pelo laço daquele compromisso dinástico, mas as suas interações sempre se limitaram às palavras ocas e corteses da etiqueta social. Ele já a tinha visto beber para se embriagar em muitos banquetes, mas o Duque sempre se apressava em afastá-la discretamente com as próprias mãos, de modo que Cássel não se lembrava de jamais ter mantido uma conversa a sós com ela naquele estado.
Talvez por isso, o rosto que ele achava conhecer tão bem de repente lhe pareceu o de uma estranha. Embora a duquesa às vezes se mostrasse sensível e nervosa, no fundo sempre fora uma mulher elegante e modesta. Não costumava ser excessivamente afetuosa com estranhos, mas esperava-se que ao menos mostrasse piedade com os próprios filhos……
— A partir daquele momento, a minha vida se tornou um deserto por causa dos desplantes dela. Eu só queria uma filha normal e linda, mas olhe em que bruxa ela se transformou! Se você tivesse uma criatura assim ao seu lado, seria capaz de suportar?
— ……
— Bem, é evidente que você também não conseguia suportar, por isso passou a vida adiando o casamento e vagando pelo mar. A simples ideia de dividir a cama com uma menina tão sinistra deve ter lhe parecido aterrorizante…… Qualquer um tremeria só de olhar para ela daquela maneira!
Em Ortega, a Duquesa de Valeztena era vista pela sociedade como uma mãe que transbordava um carinho obsessivo pelos filhos. Como quase todos no império. Não importava quão cruelmente um nobre espancasse os seus servos; quando olhava para o próprio filho, o seu rosto se transformava e ele lhe dedicava um sorriso. Isso não era apenas uma regra estrita da aristocracia, mas uma característica da cultura de Ortega, que valorava o sangue e a família acima de todas as coisas.
Se o assunto era a própria prole, os pais projetavam todo o amor do mundo sobre eles; e se a tradição promíscua de uma família resultasse em filhos demais, escolhiam um ou dois para canalizar a sua devoção. A possessividade em relação aos filhos era imensa, e não eram raros os casos em que casamentos se destruíam brigando pela tutela de uma criança. A Duquesa de Valeztena parecia se encaixar perfeitamente nesse molde: a típica mulher aristocrática que desprezava o resto da humanidade, mas professava um amor asfixiante pela sua prole.
— Então, você se rendeu? Como vai ser capaz de suportar esse olhar pelo resto dos seus dias? Eu lhe rogo, você tem de endireitar aquela garota. Tem de consertá-la, o caso dela é uma doença……
O olhar que a duquesa dirigia a Inês à distância não se parecia em nada com o de uma mãe. Era uma mistura repugnante de amor e ódio, o cansaço cru de estar farta da própria carne, uma expressão de absoluto desprezo.
Na realidade, quase nenhum pai em Ortega aprovaria o comportamento habitual de Inês. Fosse a sua insistência em vestir roupas escuras de luto, o seu caráter huraço ou a sua aparência fria, eram traços que Cássel já tinha aprendido a tolerar até se tornarem insignificantes, mas que qualquer pai de Mendoza consideraria motivo de alarme extremo.
A sociedade aristocrática da capital compartilhava um gosto estrito e um senso comum muito estreito.
Devido a isso, os pais costumavam se enfurecer, consumir-se em preocupações, amaldiçoar ou suplicar aos filhos rebeldes…… Tinham de reagir de alguma maneira, pois em Ortega dizia-se que o filho é o reflexo do pai.
No entanto, neste império, a dor raramente superava o amor de sangue. O afeto dos pais de Ortega pelos filhos era tão desmedido que muitas vezes arriscavam a vida e a honra para proteger uma filha que tinha envenenado o marido ou um filho que tinha matado o melhor amigo em um duelo. Se o amor paterno nesta terra era capaz de abraçar um assassino, não deveria ser visto como um gesto aceitável que uma mãe tolerasse uma filha que insistia em vestir luto em um banquete alegre?
— Quando as pessoas a veem fora de casa, parece que ela está contendo a respiração, amaldiçoando-me em silêncio para que eu morra rápido. Não posso suportar! Como ela se atreve a me desonrar dessa maneira, como se planejasse a minha desgraça durante o dia inteiro? — a duquesa continuou a difamar a própria filha de uma forma que roçava a blasfêmia.
Queixava-se da jovem que se vestia à sua vontade e se recusava a ser dócil, murmurando uma e outra vez como uma criança mimada e frustrada porque as coisas não saíam como queria.
— Estou certa de que alguém trocou a alma dela durante aquela febre. Às vezes ela se comporta como um demônio…… faz coisas verdadeiramente perversas. Houve um dia em que, sendo ainda pequena, ela me ameaçou. Infligiu ferimentos a si mesma, machucou o próprio corpo e me jurou que jamais voltaria a me obedecer……
— Diz a senhora que ela a ameaçou? — Cássel repetiu, sentindo a curiosidade e o horror se misturarem no peito.
— Tudo o que eu fazia era para que ela ficasse linda! Mas ela continuava com aquelas atitudes incompreensíveis, rejeitando-me…… Cheguei a afundar a cabeça dela em um balde de água para corrigir os seus maus hábitos, causei um escândalo para endireitá-la…… Trocar as roupas dela, cuidar da pele dela, vigiar minuciosamente para que ela não levasse qualquer porcaria à boca…… Tudo eu fiz pelo próprio bem dela!
— ……
— Você já a viu há pouco durante o jantar, não viu? Falta uma semana para o casamento dos herdeiros das duas grandes casas, e olhe para ela, devorando a comida daquela maneira tão vulgar diante dos olhos de todos.
Cássel recordou o prato de Inês; não havia rastro de vulgaridade nos modos dela. Limitava-se a mastigar e engolir com perfeita graça a porção exata que correspondia a cada comensal.
— Onde já se viu uma dama nobre se comportar assim? Por isso digo que ela não se diferencia em nada do gado que afunda a cabeça no cocho de forragem. Tornou-se selvagem e vulgar. Se recusa a se maquiar e a se arrumar, ao menos deveria proteger a beleza do seu corpo. O que supõe que eu farei se ela engordar como um porco por não ter disciplina?
— ……
— Como mãe, tive de tentar arrancar-lhe esses costumes à força. Para que no futuro pudesse ser amada pelo marido, não podia permitir que danificasse um único bem de sua aparência…… Mas então ela me olhou com olhos tão injetados de sangue! Deu-me tanto terror que jamais me atrevi a voltar a pôr as mãos na minha filha. Desde aquele dia, o rosto dela permaneceu assim. Feio, frio e murcho……
— ……
— Essa é a minha filha. Preferia trancá-la em um quarto sob chave. Não deixá-la ir a lugar nenhum……
— …… A senhorita Inês é bastante bela, Duquesa — Cássel interrompeu, a voz fria como o gelo, cuspindo as palavras como se tirasse uma espinha da garganta.
A Duquesa de Valeztena soltou uma gargalhada estridente e repentina.
— Que divertido você é! O pai dela acabou de dizer exatamente a mesma coisa……
— ……
— O Duque diz que não devemos perturbar a piedade e os votos de Inês. Que aquela indumentária negra é a escolha da menina e que devemos respeitá-la porque deve ter um significado profundo. É ridículo! Deus não morreu ontem; ela não veste negro por devoção, é apenas uma amostra da sua obstinação.
— …...
— Na realidade, fui eu, a mãe dela, quem a moldou para que agora nem sequer seja capaz de levantar a cabeça com orgulho diante da sociedade. Não a tranquei em um calabouço, mas é como se estivesse prisioneira nesta casa…… Sir Cássel, sei que conheceu muitas mulheres da sua idade na capital. Quem demônios se comporta como ela? Existe por acaso outra dama nobre com semelhantes taras? Você tem de consertá-la quando se casar. Porque essa conduta dela é uma autêntica doença.
Cássel sentiu que as poucas forças que lhe restavam após o demolidor confronto com o Duque se evaporavam de golpe. Afastou da mente os complexos pensamentos que começavam a sobrecarregá-lo e buscou com o olhar o Duque ou Luciano para usá-los como desculpa e se afastar da mulher, mas não havia sinal deles no salão.
Cássel soltou um suspiro pesado e assentiu.
— Não possuo as qualidades necessárias para curar a sua filha, duquesa. Gostaria que soubesse disso.
— Você será o marido dela. Será o dono daquela criatura.
— Apenas serei o marido dela.
— Você é muito brando. Acaso diz isso porque não precisa da emoção de uma esposa devota? De qualquer modo, Sir Escalante tem mulheres de sobra em cada porto……
— A única mulher que conhecerei a partir de agora será a sua filha.
A Duquesa explodiu em risos, como se tivesse ouvido a piada mais engraçada da sua vida. Ao ouvir o eco daquela gargalhada desequilibrada, Cássel sentiu os olhares de Inês e Miguel se fixarem neles desde o outro extremo do salão. Temendo que Inês pudesse escutar as aberrações que saíam da boca da mãe, Cássel a guiou com naturalidade para o grande janelão, usando como pretexto a necessidade de deixar entrar um pouco de ar fresco enquanto abria amavelmente a vidraça.
— É a única coisa que ela fez na vida que realmente me agrada — murmurou a duquesa, contemplando a noite.
Cássel manteve-se em silêncio, negando-se a perguntar, nem mesmo por mera cortesia, a que ela se referia. Limitou-se a observar o jardim através do vidro. Foi então que a duquesa levantou uma mão e lhe roçou o rosto com a ponta dos dedos secos e ásperos pelo álcool.
— Quando a Inês se ficou obcecada por você aos seis anos, pegou uma coleira invisível, amarrou-o pelo pescoço e transformou-o em propriedade dela. Essa é a única coisa boa que ela já fez.
Claramente, não era o tipo de declaração que alguém em sã consciência faria. Mas ali, naquela família, a sanidade parecia um conceito distante. Ao avistar o Duque, que acabara de entrar no salão com passos firmes, Cássel ergueu a mão discretamente para chamar sua atenção, fazendo com que o velho se aproximasse para levar a esposa dali e livrá-lo daquela tortura.
— Acho que alguém trocou a alma daquela menina durante a febre. Às vezes ela age como um demônio……Sim, ela não é a minha Inês desde os seis anos......
De alguma forma, aquelas palavras específicas da duquesa fincaram raízes na mente de Cássel e se recusaram a ir embora. No meio de tantas queixas mesquinhas, fúteis e preconceituosas que a mãe disparara contra a própria filha, aquela frase ecoava não apenas como uma acusação cruel, mas como um vislumbre assustador de algo que ele próprio mal conseguia decifrar.
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