The Broken Ring
O Anel Quebrado: Um Casamento Fadado ao Fracasso
Ines Valeztena foi prometida a um príncipe desde criança, mas decide desafiar seu destino. Uma história intensa sobre orgulho, liberdade e segundas chances.
Ler mais
My Alter Ego’s Path to Greatness
My Alter Ego’s Path to Greatness
Um jovem descobre uma habilidade de clonagem incrível antes de se aventurar em mundos paralelos. Ele pode viver várias histórias em um corpo! Uma novel divertida com fantasia e reviravoltas!
Ler mais
Corporação Negra: Joseon
Um inventor obcecado por tecnologia reencarna na Dinastia Joseon como filho do Rei Sejong, o Grande. Determinado a transformar o reino com suas ideias modernas, ele inicia uma verdadeira revolução científica em pleno passado histórico — onde inovação, política e muitas horas extras mudam para sempre o destino de Joseon...
Ler mais
Diários de Uma Apotecária
Arrastada à força para o harém imperial, Maomao — uma apotecária genial, teimosa e perigosamente fascinada por venenos — só quer sobreviver quietinha até ser libertada. Mas seu cérebro afiado não sabe ficar parado. Quando começa a desvendar doenças, intrigas e mistérios que nem os médicos da corte conseguem explicar, ela chama a atenção do homem mais deslumbrante e enigmático do palácio: o eunuco Jinshi. Agora, cada passo que dá a puxa mais fundo para os segredos do império, onde uma análise errada pode matar… e uma descoberta certa pode mudar seu destino para sempre....
Ler mais
I Was The Trash - Aquele Lixo Fui Eu
Reencarnada como a vilã mais desprezada, Tullia Frazier começa do fundo do poço. Com reputação de lixo e estatísticas mínimas, ela precisa virar o jogo. Entre intrigas, aliados inesperados e rivalidades perigosas, cada decisão conta. Será que o “lixo” pode se tornar indispensável? Descubra nessa jornada estratégica e cheia de emoções.
Ler mais

Capítulo 23 — Sem beijos

O ambiente da família Valeztena, que havia recobrado um pouco de paz, era agora bastante descontraído. O jantar que transcorrera como uma tempestade parecia até uma mentira. Talvez fosse porque a atmosfera estava diferente demais. Cássel olhou fixamente para Luciano e Miguel à distância enquanto eles caminhavam, conversando, e depois voltou os olhos para a imóvel Inês.

— ……

— ……


Ela bebia tranquilamente, enchendo a sua taça de vinho com água como se fosse álcool, exatamente como fizera na hora da refeição. Não parecia se importar com a presença dele ali.

Cássel já estava muito acostumado a esse tratamento insignificante, por isso aproveitou a brecha para observar Inês de forma unilateral. O cabelo preto cuidadosamente puxado para trás, a testa e a ponte do nariz redondas e retas, os olhos que, na realidade, nunca transmitiam sinceridade…… 

Em seguida, o seu olhar desceu para a mão que segurava a taça.

Aquele gesto casual de faze-la girar na palma da mão era semelhante ao de um alcoólatra, mas ele nunca vira Inês beber álcool. Apesar de, desde a infância, testemunhar com frequência o hábito dela de consumir bebidas não alcoólicas como se fossem licor……


Não passava de um pequeno hábito, mas havia certas coisas que chamavam a atenção dele sem que quisesse.

Qualquer imagem de Inês que ele pudesse evocar era, no máximo, de sua expressão distante e pouco amigável. Seu olhar arrogante, sorriso desinteressado, lábios firmemente fechados e penteado sempre impecável... Como ela zombava de qualquer um que dissesse algo idiota, e como estremecia quando alguém a incomodava... Esses eram seus pequenos hábitos, bastante desfavoráveis, que deixaram marcas na memória dele. 

Ainda assim, a lembrança trazia um sorriso agradável ao seu rosto.

A expressão de Cássel rapidamente se tornou amarga assim que começou a se preocupar que suas fantasias lascivas sobre ela pudessem surgir novamente. 


Ele não queria cobiçá-la, pelo menos não na frente da própria pessoa. Tentou se consolar pensando que eles se casariam em breve. Sua noite de núpcias resolveria aquela impotência embaraçosa de uma vez por todas.


Inês provavelmente seria tão reservada e fria na cama quanto em sua vida cotidiana. O desafio poderia excitá-lo por algum tempo, mas ele acabaria perdendo o interesse por uma parceira tão indiferente. Mesmo assim, ela era sua futura esposa e a única pessoa com quem ele poderia se deitar pelo resto da vida sem quebrar seus votos. Assim, ele ainda dormiria com ela mesmo depois que sua obsessão incomum diminuísse.


Ao refletir, a vida não parecia tão ruim assim. Pelo menos, ele se livraria desse pesadelo de fantasias sexuais que o assombrava. Atualmente, Cássel estava em um delicado ponto de virada entre uma vida de impotência e potência. No entanto, a metade inferior de seu corpo estava menos preocupada com a autopreservação a longo prazo e respondia ansiosamente ao pensamento de Inês deitada em sua cama.


Até dias recentes, Cássel Escalante nunca havia se visto levado a esforços solitários para satisfazer seus desejos. A necessidade de recorrer à própria imaginação para obter prazer era um desenvolvimento novo e indesejado, já que ele sempre pôde desfrutar dos prazeres reais da carne a qualquer momento. 


No passado, quando seus colegas da academia naval se entregavam a fantasias lascivas, ele os dispensava com um escárnio, confiante de que nunca se rebaixaria a tais práticas solitárias. E, no entanto, ali estava ele, imaginando Inês Valeztena desfazendo sua gravata ou ele mesmo imerso nos suaves contornos de seu busto no chão.

O nojo de si mesmo o dominava. 

Suas fantasias, uma tumultuada mistura de desejo clandestino e auto reprovação, persistiam. Por mais que se repetissem em sua mente, a vergonha e o ódio próprio permaneciam. A Inês Valeztena de seus sonhos, embora muito distante da realidade, possuía uma aparência desconcertantemente autêntica. Seria possível realmente se excitar com a presença de uma mulher imaginária? Aparentemente, sim.

Tudo o que podia fazer era lamentar seu estado atual.

Quanto mais observava Inês, pior se sentia consigo mesmo, e maior crescia sua culpa. Cássel finalmente decidiu parar de remoer. 

Em vez disso, tentou quebrar o silêncio e iniciar uma conversa com Inês. Apesar de seu costumeiro modo quieto, ele sempre era quem iniciava o diálogo, pois, de outra forma, os dois nunca falariam nada um com o outro.


— Bem, eu não sabia que você tinha um vínculo tão próximo com Miguel. — Ele soou mais irritado do que curioso, contra suas próprias intenções.

Talvez percebendo que a voz dele continha uma sutil distorção de humor, Inês ergueu as sobrancelhas em um ângulo afiado e afastou os lábios da taça de vidro para encará-lo.


— Surpreende-me que você se interesse por essas coisas, Sir Cássel.


Cássel suspirou.


— Pare de me chamar assim.


— Pois bem. Eu não fazia ideia de que você se interessaria por essas coisas, Escalante.


Cássel suspirou novamente diante de sua persistência. 

— Você também pode deixar de usar meu sobrenome. Agora somos apenas nós dois à mesa.

De fato, todos os outros participantes do jantar já haviam deixado a sala.

O duque carregou sua esposa bêbada para o andar de cima, e Luciano desapareceu para conversar com Miguel. Apenas Cássel e Inês permaneciam no cômodo.


Infelizmente, a paz ainda não havia chegado a essa mesa naquela noite.

Inês fez uma pergunta direta: 


— Então, quer falar de algo especial?


Inês abandonou completamente o tom formal e a sua pergunta também soou torta. Era uma voz que carregava o mesmo tom de reclamação dos últimos dias. O oposto absoluto da postura tranquila com que tentara dar uma lição no pai durante o jantar.

Os lábios de Cássel se curvaram em um sorriso torto. Ele ficou secretamente satisfeito por ter conseguido alguma reação emocional dela. 


— Eu me sentiria mais à vontade com você se me tratasse como um igual. Recebo formalidades demais na marinha, então não quero continuar fazendo isso com você.


— Então, você pode ser rude quanto quiser sozinho. Eu vou manter minhas maneiras.


— Que generosidade da sua parte — comentou Cássel, o sarcasmo pesado em seu tom.


— Estou simplesmente permitindo que você faça o que quiser, Escalante. Ainda assim, continuarei a tratá-lo com toda a cortesia do mundo.


— E, ao fazer isso, você planeja me tornar um misógino e um bastardo.


— Como o mundo o avalia não é da minha conta. — Inês semicerrava os olhos, tentando entendê-lo. — O que você está aprontando? Por que está me perguntando sobre Miguel?


— Bem, sou irmão de Miguel. Ele tem dezessete anos e é adulto. Minha família está organizando um noivado para ele, então tenho a responsabilidade de zelar por sua reputação. Ele não pode ser visto conversando sozinho com senhoritas—

Inês o interrompeu impacientemente. 


— Chega disso. Você sabe que isso é ridículo. 

Sua carranca se acentuou ainda mais. 


— Você estaria, talvez, tentando controlar meus relacionamentos com outros homens? — Soltou uma risadinha, mas não parecia divertida. — Você? Me controlar?


— Quando você coloca dessa forma, eu pareço horrivelmente controlador e ciumento. No entanto, minha intenção era apenas—


— Você entende que estamos falando de Miguel, certo?


Cássel ia continuar seu argumento, mas parou abruptamente devido à ênfase que ela deu ao nome do irmão. 


— Por que você diz o nome dele assim? O que há de tão especial em Miguel que ele, de algum modo, se torna uma exceção à sua postura usual com os homens?


Inês pensou por um segundo e respondeu: 

— Seu irmão é simpático. Ingênuo. Na verdade, adorável.


— Bem, eu também sou simpático. — Cássel sabia que era musculoso demais para ser descrito como adorável, e cínico demais para ser ingênuo, mas ainda assim tentou manter sua dignidade.


— Você é... simpático à sua maneira, eu acho. Alguns discordariam, mas você é simpático o suficiente para mim. — Inês de repente mudou o tom e exibiu um largo sorriso.


— Claro, seu rosto é encantador e de imenso benefício para todos.

Cássel a observou com desconfiança. Não era comum ela elogiá-lo de qualquer forma.


— Você... vai fazer analogias estranhas de novo?


Inês ignorou a pergunta e apenas sorriu de volta. 

— Desculpe, Cássel. Aposto que deve estar exausto após o jantar com meu pai.


Ela definitivamente não estava se comportando como de costume. Inês Valeztena nunca se desculparia ou o chamaria pelo primeiro nome...


— Bem, as queixas de seu pai contra mim são válidas.


— Sinto muito.


— Então por que você está se desculpando?


— …… Porque a verdade é que eu tenho muitos defeitos. Realmente, lamento.


— …… Isso não é um pedido de desculpas real, é……? — Cássel franziu o cenho em silêncio, sem entender onde ela queria chegar.


Percebendo a dúvida dele, Inês sorriu de forma ainda mais amável e complacente.


— Como mencionei no jantar, acredito que você é um grande homem. Muito mais do que eu mereço.

Até um momento atrás, Cássel também teria imaginado que ela não sabia fazer um elogio verdadeiro, mas estava errado nesse ponto também.


— É por isso que você deve fazer o que quiser, independentemente do que meu pai diga — acrescentou, favorecendo-o com um sorriso gracioso. — Faça sempre o que o seu coração mandar. Entendido?


A fisionomia benevolente dela, como se tivesse se transformado em uma santa, parecia uma extensão daquela sofisticação cínica que ela demonstrara durante o jantar.


— Eu tenho orgulho de Sir Escalante, por isso não pretendo estragá-lo restringindo a sua liberdade.


No jantar, Cássel chegara a pensar que ela estava lúcida, mas agora via a verdade nua e crua. Ele até cogitara que aquilo pudesse ser um truque psicológico para fazer o Duque de Valeztena envelhecer mais rápido de tanto estresse, mas Inês estava apenas sendo sincera. Era um coração que ele não conseguia compreender de forma alguma.


— Eu já estou fazendo as minhas escolhas. Isso é o bastante.


— Eu sei. Estou ciente disso desde o momento em que você enviou aquele aviso unilateral dizendo que nos casaríamos em quinze dias…… Graças a essa sua pressa, fui obrigada a usar um vestido antiquado que a minha mãe usou há vinte e sete anos.


— Eu não sabia que


— Foi uma decisão arbitrária da sua parte, mas a responsabilidade de arcar com as consequências é minha. Por isso, embora tenha sido irritante, eu aceitei. Então, Cássel, cumpra com as suas responsabilidades.


Inês o interrompeu sem dar chance para explicações. Aquelas palavras soavam como um tapa de luva de pelica. Cássel estreitou os olhos em silêncio, encarando-a.


— Tudo o que eu quero é o nosso casamento, só isso. Eu sempre esperei por você, esperei que você finalmente tomasse a minha mão. Não importa quão repentino tenha sido o seu aviso, valeu a pena esperar. É algo pelo qual sou muito grata.


Pelo vocabulário exageradamente polido e pelo tom absolutamente desprovido de gratidão real, estava claro que ela estava irritada.


— Você deve ter ficado furiosa — murmurou Cássel de volta para si mesmo.


— Não. Claro, foi um pouco incômodo. Mas, fundamentalmente, este casamento era o que eu mais queria, acima de qualquer outra coisa……


— …… Você?


As palavras "queria se casar comigo?" quase escaparam por sua garganta, mas ele se conteve a tempo. Sim, obviamente, a escolha final fora de Inês Valeztena, não dele. Fora ela quem chorara, fora ela quem o pressionara; era toda culpa dela o fato de ele ter mudado o seu destino e aceitado aquele noivado exaustivo. No fim, ela sempre quisera se casar com ele……


Ainda assim, mesmo sabendo de tudo isso, ouvi-la falar como se tudo tivesse sido um "puro desejo romântico" despertava profundas suspeitas em quem escutava. Era como ouvir uma mentira descarada e desavergonhada.


— Então, fico feliz que você tenha tomado essa decisão firme, mesmo que tardia. Não deve ter sido fácil. Deve ter sido difícil para você, já que você é um rapaz surpreendentemente fiel aos seus próprios princípios……


A estatura de Inês estava bem acima da média das mulheres de Ortega, mas ainda era baixa em comparação a Cássel. Por causa disso, o fato de ela olhá-lo de baixo, com uma diferença de quase dois palmos, e chamá-lo de "rapaz" com aquela expressão fechada, ironicamente a fazia parecer pequena e inofensiva.


Aquele era um momento muito raro. Enquanto Cássel guardava silêncio para saborear um pouco mais aquela sensação peculiar, Inês continuou a falar com aparente sinceridade:


— Eu não consigo mensurar o quão sufocado você deve se sentir ao pensar em um futuro onde terá de viver fielmente, de acordo com as suas crenças sinceras. Por isso, você precisava desesperadamente de uma vida livre para evitar o nosso casamento e recuperar o fôlego. Não é verdade?


— ……


— Isso é essencial. Você é precioso demais para viver confinado em um sistema.


— ……


— Eu gostava da sua liberdade. Quando você tinha seis anos, parecia tão feliz cercado por outras meninas…… Eu não quero que você murche e se torne infeliz por estar preso a instituições ou obrigações matrimoniais.


— …… Que tipo de idiotice você está dizendo?


— Se você colhe uma flor, ela não murcha? Por isso, prefiro deixá-lo onde está, para que continue exatamente como é.


— Além de me comparar a uma flor desse tamanho, o que você está tentando fazer? Isso é lavagem cerebral ou hipnose?


— Lavagem cerebral? Que bobagem — Inês respondeu como se a pergunta fosse absurda, mas evitou o contato visual.


— É exatamente isso o que você faz: fala como se quisesse o bem dos outros, mas está apenas tentando me manipular. Está tentando consertar as minhas atitudes?


— Não há nada para consertar.


— Concordo. Não sou o mesmo homem. — Cássel se aproximou — Eu a beijei da última vez, lembra?


Ele percebeu que seu rosto empalideceu, mas se recusou a considerar a ideia de que ela tivesse perdido toda a cor ao se lembrar do beijo. Isso seria muito improvável, já que ele se considerava um excelente beijador. Acrescentou: 


— E acredito que deixei minha posição clara com aquele beijo.


— …… Você se esforçou bastante ao beijar alguém como eu.


— Esforço? — perguntou Cássel, incrédulo com o desdém dela. — Então eu deveria cravar o meu senso de dever na sua cabeça de uma vez por todas. Estou pronto para beijar uma garota como você de novo, assim, desse jeito —

Cássel a segurou pronto para um beijo.....

— — Não existe nenhuma obrigação de forçar a sua vontade sobre mim.

Mas foi detido pelas palavras dela.

Ela era uma mulher difícil, que usava as palavras como armas afiadas para deixá-lo sem ar…… Por um momento, os pensamentos de Cássel se agitaram enquanto ele lutava para manter o controle. Ele a soltou e colocou mais distância.

Ele recorreu à sua habitual arrogância para afastar o incômodo.


— Depois que você disse que não queria desperdiçar seu esforço com um homem por quem não tinha sentimentos... não percebi que você se importava tanto com meus valores e minha liberdade.


— Bem, isso é uma questão totalmente diferente...


— Ah, é tão diferente assim? — Mais do que um toque de sarcasmo permeava seu tom. — Por favor, esclareça-me sobre sua razão.


— Cássel — Inês suspirou.


— Um dia você me diz que se importa comigo, e no outro dia não se importa. Agora, aparentemente, me adora e mal pode esperar para estar ao meu lado. Depois de todas as mentiras que contou ao seu pai e a mim, como espera que eu acredite em você quando me encoraja a te enganar para meu próprio bem?


Ela bufou, exasperada.


— Da última vez que disse que me importava com você, foi há mais de dez anos. Não faça parecer que mudei de ideia da noite para o dia.


— Bem, você realmente gostava de mim naquela época? — ele perguntou.


Ela refletiu por um momento e assentiu. Ele deu mais um passo à frente, e ela recuou outro.

Cássel perguntou: — Então, quando deixou de se importar comigo?

Ele tinha várias suposições sobre o que causara a perda de interesse dela. Teria sido os diversos espiões que mulheres do seu passado haviam plantado na mansão Valeztena? Ou os boatos sobre suas conquistas sexuais? No entanto, não conseguia acreditar que tais coisas pudessem abalar uma mulher como Inés Valeztena.


Ela suspirou novamente, parecendo desejar que aquela conversa tivesse terminado alguns minutos antes. 


— Quero me casar com você. Se não quisesse, por que estaria fazendo isso?


— Pare de mudar de assunto. Quando começou a me odiar?


— Eu não odeio você. Eu apenas disse que……


— Ah, você simplesmente não gosta de mim. Não gosta o suficiente para se importar…… Mas, afinal, o que você quer de mim? Oh, você disse que se colher uma flor, eu me transformo em uma planta murcha?


—.......


— Já entendi tudo — Cássel sorriu, com o sarcasmo transbordando na voz, ainda irritado com os insultos que tinha ouvido do Duque mais cedo. — Você gosta tanto de mim que prefere me compartilhar com outras para meu próprio bem nesse casamento. É isso? Faz muito sentido.


— Não temos nenhuma rivalidade aqui — rebateu Inês, fria. — Foi você quem escolheu gastar o seu corpo por aí com qualquer uma, então por que eu deveria me importar com isso agora?


—.......


— Você está irritado agora só porque eu disse que não gosto de você? — perguntou Inês, olhando-o com suspeita através de seus olhos semicerrados.


Os pensamentos de Cássel congelaram por um instante, como se ela tivesse acidentalmente atingido o seu ponto mais vulnerável sem perceber. Felizmente, porém, Inês continuou a falar com a sua voz impassível, sem notar o impacto de suas palavras.


— Que absurdo! Foi você quem me traiu primeiro.


— Mas não acabou de dizer que gostava dessa qualidade em mim?


— Bem, você não dormiu com aquelas mulheres pelo meu prazer, mas pelo seu! — gritou Inês.

— Droga! Nada do que você diz faz sentido! É uma contradição ambulante. Que diabos se passa nessa sua cabecinha?! Eu não consigo entender absolutamente nada do que você diz, do um ao dez, é impossível compreender……


— — Provavelmente porque você só exercita o corpo e nunca usa a cabeça, não é?


— Você continua me tratando como um idiota que só tem um rosto bonito?


— Mesmo no meio de uma discussão, você não esquece de exaltar a sua própria beleza. Como você conseguiria viver se não fosse atraente? Hum?


Naquele momento, as vozes dos dois se elevaram excepcionalmente no salão. Cássel percebeu que, assim como fazia na infância, não deveria se deixar levar por provocações tão infantis. Ele contraiu os lábios e forçou um sorriso irônico.

— Vamos ser honestos; meu rosto é mais que bonito. Estava tentando ser humilde. E, para constar, ainda não estávamos casados. Você me forçou a um noivado, e—


— Certo, você foi forçado a um noivado e está programado para ser forçado a um casamento. Não tinha motivo para ser leal a mim. Viu? Entendo suas ações.


— Pare de me interromper antes que eu termine meu raciocínio. Não estou tentando justificar meu comportamento. Estou tentando dizer que as coisas mudarão depois do casamento.


— Mas por que as coisas precisam mudar? — Inês levantou as mãos, frustrada. — Esqueça, retiro o que disse sobre entendê-lo. Eu não o entendo de jeito nenhum.


Inês ergueu as duas mãos em um gesto de puro sarcasmo. Cássel aproveitou a brecha e envolveu a cintura dela com um de seus braços, como se ela tivesse lhe estendido o convite. Inês umedeceu os lábios em silêncio.


Diferente de sua postura habitual, a máscara de frieza dela desmoronou por um instante, revelando a sua personalidade difícil e genuína.


— …… O que você pensa que está fazendo agora?


— Inês Valeztena, eu já lhe disse. Eu sou um bastardo fiel.


— Eu não entendo você desde o princípio. Você acha que isso faz algum sentido?


— E o casamento é algo sagrado.


— Olhe só…… Quem diria que logo você tentaria dar lição de moral em alguém.


Cássel, de modo geral, era muito bom em avaliar a si mesmo de forma realista, apesar de sua natureza impulsiva. Quem diria que logo ele tentaria dar lição de moral em alguém? Ele concordava totalmente com o sarcasmo afiado de Inês.

Era uma situação ridícula: ele, o maior libertino da capital, pregando sobre casamento e castidade justamente para a rainha da virtude, Inês Valeztena.


Mas afinal, quem havia criado aquela situação bizarra em primeiro lugar?


— Escalante, você está dizendo que será fiel a mim depois de todos os anos que dormiu por aí como um cachorro no cio? Por que eu acreditaria em você?

Ele olhou-a nos olhos. 

— Mostrarei a prova da minha devoção no quarto. Então, finalmente, você vai acreditar em mim.


— Escalante, não vamos compartilhar o mesmo quarto. Usaremos camas separadas.


Embora seu corpo estivesse próximo ao dele, sua expressão permanecia distante e sua voz firme.

Cássel sorriu em resposta. 


— Você sabe que isso não é verdade. Vamos compartilhar a mesma cama.


— Sou humana. Não durmo na cama com um cachorro — retrucou Inês.


— Ah, mas você sabe que cães são fiéis e vivem com seus donos humanos.


— Quem é que está falando bobagens agora?


— Então, não gaste as suas forças desnecessariamente tentando me afastar. 


Eu não faço ideia do que você quer dizer com tudo isso……


Inês abriu os olhos muito lentamente.

Assim como antes, os olhares dos dois se cruzaram a uma distância perigosamente curta. A respiração dela, ainda acelerada, tocava de leve o queixo dele.


Mesmo prendendo o próprio fôlego, Cássel estacou, sentindo como se o ar lhe faltasse de verdade. "Se for assim, isso é realmente perigoso."


Parecia que fazia um século que seus lábios estavam pressionados contra os dela com aquela leve sensação de provocação mútua. Olhar para ela de tão perto trazia uma névoa escura à sua mente. Cássel levou a mão ao rosto dela, como se estivesse possuído. Quando esfregou o polegar contra os lábios de Inês para limpá-los, o rastro da saliva misturada dos dois brilhou de forma transparente.

Aquele era um sentimento que ele jamais conseguiria explicar. Nunca havia sentido nada parecido antes. Inês Valeztena sempre fazia aquilo: transformava o que era familiar em algo completamente desconhecido. Deixava-o confuso e o atormentava sem o menor esforço. De um jeito ou de outro.


Ainda assim, ele não odiava a sensação daquele jogo.


Inês virou o rosto suavemente, livrando-se do aperto dele. Foi um movimento tão natural que Cássel se viu olhando para o vazio em sua própria mão, anestesiado.


— ……

"Que audácia...", pensou Inês ainda incrédula com a própria reação.


O som que se seguiu ficou em algum lugar entre um estalo seco e um impacto surdo.

Uma fricção violenta ecoou nos ouvidos de Cássel.

Fora um golpe completamente inesperado, mas o seu corpo era musculoso e firme demais para cambalear; ele manteve o equilíbrio e o centro de gravidade. No entanto, a dor no rosto estava longe de ser insignificante.


Por um breve segundo, Cássel pensou que o Duque de Valeztena tivesse surgido do nada e lhe desferido um soco, mas o salão continuava em silêncio. Inês era a única ali na sua frente.


— Sim. É isso mesmo.


— ……


— Eu bati em você.


Ela respondeu com uma calmaria quase gentil, como se estivesse ajudando Cássel a processar a situação com atraso. Então, emendou uma pergunta:


— Por que está me olhando assim? Não devo ser a primeira vez que uma mulher lhe dá um tapa na cara. — Inês chamou de tapa mas era mais um soco. — Por que essa boca aberta? Você já deve ter sido estapeado por mulheres várias vezes.


— Esta foi a primeira vez — disse Cássel, atônito.


A maioria das mulheres com quem ele já havia se envolvido costumava dizer coisas como: «Viverei o resto da vida com as lembranças daquele dia», «Foi um período curto, mas me senti no céu» ou «Lembrarei daquela noite tanto nos momentos felizes quanto nos tristes».

Além disso, o que Inês havia acertado não fora um tapa dramático na bochecha. Aquilo foi um soco direto……

Cássel se perguntou de onde vinha a força daquela noiva virtuosa, cujo único passatempo conhecido era ler livros na biblioteca, para desferir um golpe capaz de quase arrancar a cabeça de um homem. Aquela não era a mão de quem batia em alguém pela primeira vez. Com a nítida intenção de machucar de verdade, ficava claro que a falta de força física natural dela havia sido compensada com pura técnica……


— Ah, não. Não gosto da ideia de ser sua primeira — ironizou.


Cássel a encarou, olhos arregalados e boca entreaberta. 

"Ela falou como um homem velho que se lamenta de ter sido o primeiro amante de uma jovem."

Diante do olhar chocado de Cássel, Inês sorriu com desdém e perguntou com uma expressão fria:


— O dono não deve dar uma lição quando o cachorro se comporta mal?


— …… Você bate em cachorros?


Cássel a encarou com uma expressão de puro espanto, como quem pensa: «Eu não esperava isso, você é um monstro». Inês semicerrou os olhos de leve.


— Por que eu bateria em uma criatura tão fofa? Eu não bato em animais, mas em humanos que agem como tal é necessário a correção......


— Inês, você realmente me vê como um cachorro—


— ...... Afinal, isso não significa que você gosta de apanhar?


— Inês, ninguém no mundo gosta de apanhar.


— Existe gente que gosta. Sim, pessoas cuja cabeça deu algumas voltas e que se excitam com esse tipo de coisa.


Inês murmurou aquilo de forma enigmática e cruzou os braços com arrogância.


— Por isso pensei que você fosse um deles. Não achei que faria algo tão rude comigo se não estivesse implorando por uma surra.


Cássel a observou. 

Não importava quão bem ela prendesse o cabelo ou quão modesta tentasse parecer vestindo aquele luto negro azeviche da cabeça aos pés. Mesmo que ela estivesse escondendo toda a sua estrutura por trás daquela postura rígida, a sua verdadeira personalidade não era melhor do que a dele.


— E os cães precisam ser ensinados a não cruzar os limites. Eu crio os meus cães assim — continuou ela.


— ……


— Não há permissão para entrar no quarto principal. E nem pense em subir na cama.


— ……


— Entendido?


Como se estivesse agachada diante de um cachorro verdadeiramente burro recitando advertências, a voz de Inês era lenta, suave e controlada. Cássel soltou um riso nasalado, indignado.


— Agora você resolveu me dar ordens.


— Já que você insistiu em brincar conosco e apressar o casamento, achei melhor ditar os termos desde já, Escalante. A partir de agora, limite-se apenas ao básico.


— ……


— Não tente gracinhas como essa de novo.


Se estivessem ao ar livre, Cássel estava pronto para cuspir no chão de tanta frustração.


— De que tipo de "gracinhas" você está falando?


— Disso aqui.


Ela desenhou um grande círculo no ar com o dedo indicador, englobando a ele e a si mesma no mesmo espaço. Cássel apenas ergueu as sobrancelhas.


— Disso?


— Sim. Não faça mais isso.


— Do beijo?


— Sim.


Na verdade, enquanto o beijo acontecia, ela não parecera odiar, mas agora o seu rosto miúdo exibia um cansaço profundo diante da palavra "beijo", como se estivesse genuinamente ofendida. Cássel semicerrou os olhos, estreitando a distância mental entre eles.


— Então, vamos direto ao ponto. Fazer somente o essencial.


— ……


— Pode ser mais clara?


— Nós faremos o mínimo necessário……


— — Sexo? — ele perguntou em voz baixa, e o salão caiu em um silêncio absoluto por um instante.


Em vez de ficar timidamente corada, Inês permaneceu estática, como se tivesse perdido temporariamente a capacidade de reagir à audácia dele. Então, recompôs-se e falou:


— O ato conjugal mínimo. Apenas isso.


— Então, você abomina beijos, mas as relações sexuais estão liberadas? É isso o que está dizendo?


— Sim.


— Pulamos as preliminares e vamos direto ao assunto principal.


— Exatamente.


— …… Você é uma pervertida sem igual — concluiu Cássel de forma curta e grossa.


Inês pareceu enfurecida por um milésimo de segundo, mas, em um piscar de olhos, recuperou a sua expressão fria, rígida e inabalável.


— Beijos são desnecessários. São íntimos demais, demandam muita proximidade e são uma perda de tempo. Esse é o tipo de coisa que as pessoas que se amam fazem.


— Quantas vezes eu preciso repetir? Eu serei o seu marido, Inês Valeztena.


— Por isso mesmo não precisamos disso, Cássel Escalante. Os casais nobres da elegante Ortega não se amam. Nós lidamos com isso de uma forma muito mais honrada……


— — Fazendo sexo?


— Da próxima vez, eu posso quebrar essa sua boca bonita, Cássel — Inês ameaçou com leveza.


Cássel assumiu uma postura séria e rebateu:


— O que você está propondo não tem nada a ver com dignidade ou honra. É o comportamento de animais que apenas se despem, alinham as partes inferiores do corpo e fazem o que é biologicamente necessário.


— É eficiente. Quanto menos intimidade criarmos, mais pacífica será a nossa convivência familiar.


— Isso não tem a menor graça.


— Afinal, o nosso casamento já é uma piada completa. Eu irei ao altar vestindo um trapo antiquado fingindo seguir uma tradição de família, e você, que passou a vida fugindo de Mendoza para evitar a sua noiva, de repente insistiu em se casar em quinze dias por causa de um capricho. E então, vai desaparecer da capital assim que a cerimônia terminar. Suspeito que, durante um mês inteiro na corte, essa nossa história será o motivo de piada de todos os nobres.


— ……


— Estou apenas garantindo que nós dois não tenhamos de passar por esse ridículo.


Cássel a encarou por um longo momento com olhos curiosos e analíticos. Então, deu um passo atrás, ampliando a distância física entre eles.


— Para começo de conversa, isso nunca foi uma piada para mim. Porque esse noivado era o único futuro que eu imaginei, apenas aceitei que você seria a minha esposa.


— ……


— É por isso que nos beijamos. Eu não amo você, mas em breve você será a mulher mais importante da minha vida. E se você é tão importante, achei que um beijo estaria bem. Peço desculpas. Fui rude.


— ……


— Eu…… não vou insistir se você não quer. Se você se sente desconfortável porque não estamos apaixonados, eu vou respeitar a sua vontade. Se não for para sermos vistos por terceiros, omitirei os beijos a partir de agora.


— ……


— Se for assim, seja lá o que for, se você me disser para não fazer, eu não farei.


Diante daquela declaração séria e formal de Cássel, os olhos de Inês mudaram de expressão de forma bizarra. Houve uma ponta de hesitação nela. Se ele reagisse com grosseria, seria fácil contra-atacar, mas quando ele agia daquela forma racional, ficava difícil saber como se comportar.


A expressão tensa de Cássel relaxou um pouco.


— Então, por enquanto, dou por entendido que está tudo liberado, exceto os beijos.


Diz o ditado que se deve escutar o que as pessoas têm a dizer até o final. No entanto, Inês pensava que, às vezes, existiam palavras que ela não conseguia compreender mesmo escutando até o último segundo. Sem entender completamente a conclusão absurdamente conveniente a que Cássel havia chegado, ela permaneceu parada com uma fisionomia fechada, enquanto ele caminhava subitamente em direção à saída.


Com as suas pernas longas de militar, ele alcançou a porta do salão em um instante, abriu-a de supetão e chamou a criada que aguardava no corredor:


— Juana!


— Sim, meu senhor?


— Por favor, cuide da sua senhorita Valeztena — disse ele, lançando um último olhar para trás antes de sair sem outra despedida.



🏠 Início

Comentários