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Capítulo 23 — Sem beijos

Após o jantar cheio de acontecimentos, a mansão Valeztena parecia ter recuperado sua calma. Cárcel observava Luciano e Miguel caminharem lado a lado à distância. Em seguida, voltou seu olhar para Inés, que tomava pequenos goles de sua taça de vinho, que, na verdade, estava cheia de água em vez de álcool.

Ela não parecia notar sua presença, mas ele já estava acostumado a ser ignorado por ela. Então, apenas continuou a observá-la, sem se preocupar com sua falta de reação.

Seus cabelos de ônix estavam cuidadosamente presos atrás das orelhas. A linha que ia da testa até o nariz formava uma silhueta elegante. Seus olhos transmitiam desapego, e sua mão segurava o cálice de vinho. Ela girava o líquido na taça com uma postura prática, mas Cárcel nunca a tinha visto beber álcool antes.

Qualquer imagem de Inés que ele pudesse evocar era, no máximo, de sua expressão distante e pouco amigável. Seu olhar arrogante, sorriso desinteressado, lábios firmemente fechados e penteado sempre impecável... Como ela zombava de qualquer um que dissesse algo idiota, e como estremecia quando alguém a incomodava... Esses eram seus pequenos hábitos, bastante desfavoráveis, que deixaram marcas na memória dele. Ainda assim, a lembrança trazia um sorriso agradável ao seu rosto.

A expressão de Cárcel rapidamente se tornou amarga assim que começou a se preocupar que suas fantasias lascivas sobre ela pudessem surgir novamente. 

Ele não queria cobiçá-la, pelo menos não na frente da própria pessoa. Tentou se consolar pensando que eles se casariam em breve. Sua noite de núpcias resolveria aquela impotência embaraçosa de uma vez por todas.

Inés provavelmente seria tão reservada e fria na cama quanto em sua vida cotidiana. O desafio poderia excitá-lo por algum tempo, mas ele acabaria perdendo o interesse por uma parceira tão indiferente. Mesmo assim, ela era sua futura esposa e a única pessoa com quem ele poderia se deitar pelo resto da vida sem quebrar seus votos. Assim, ele ainda dormiria com ela mesmo depois que sua obsessão incomum diminuísse.

Ao refletir, a vida não parecia tão ruim assim. Pelo menos, ele se livraria desse pesadelo de fantasias sexuais que o assombrava. Atualmente, Cárcel estava em um delicado ponto de virada entre uma vida de impotência e potência. No entanto, a metade inferior de seu corpo estava menos preocupada com a autopreservação a longo prazo e respondia ansiosamente ao pensamento de Inés deitada em sua cama.

Até dias recentes, Cárcel Escalante nunca havia se visto levado a esforços solitários para satisfazer seus desejos. A necessidade de recorrer à própria imaginação para obter prazer era um desenvolvimento novo e indesejado, já que ele sempre pôde desfrutar dos prazeres reais da carne a qualquer momento. 

No passado, quando seus colegas da academia naval se entregavam a fantasias lascivas, ele os dispensava com um escárnio, confiante de que nunca se rebaixaria a tais práticas solitárias. E, no entanto, ali estava ele, imaginando Inés Valeztena desfazendo sua gravata ou ele mesmo imerso nos suaves contornos de seu busto no chão.

O nojo de si mesmo o dominava. Suas fantasias, uma tumultuada mistura de desejo clandestino e auto-reprovação, persistiam. Por mais que se repetissem em sua mente, a vergonha e o ódio próprio permaneciam. A Inés Valeztena de seus sonhos, embora muito distante da realidade, possuía uma aparência desconcertantemente autêntica. Seria possível realmente se excitar com a presença de uma mulher imaginária? Aparentemente, sim.

Tudo o que podia fazer era lamentar seu estado atual. Nos últimos dias, masturbava-se manhã e noite à imagem de Inés em suas fantasias. Oh, como costumava olhar com desdém para seus pares e suas fantasias sexuais não realizadas!

Quanto mais observava Inés, pior se sentia consigo mesmo, e maior crescia sua culpa. Cárcel finalmente decidiu parar de remoer. Em vez disso, tentou quebrar o silêncio e iniciar uma conversa com Inés. Apesar de seu costumeiro modo quieto, ele sempre era quem iniciava o diálogo, pois, de outra forma, os dois nunca falariam nada um com o outro.

— Bem, eu não sabia que você tinha um vínculo tão próximo com Miguel. — Ele soou mais irritado do que curioso, contra suas próprias intenções.


Inés ergueu uma sobrancelha e olhou para Cárcel. 

— Surpreende-me que você se interesse por essas coisas, Lorde Cárcel.


Cárcel suspirou. 

— Pare de me chamar assim.


— Pois bem. Eu não fazia ideia de que você se interessaria por essas coisas, Escalante.


Cárcel suspirou novamente diante de sua persistência. 

— Você também pode deixar de usar meu sobrenome. Agora somos apenas nós dois à mesa.

De fato, todos os outros participantes do jantar já haviam deixado a sala.

O duque carregou sua esposa bêbada para o andar de cima, e Luciano desapareceu para conversar com Miguel. Apenas Cárcel e Inés permaneciam sentados à mesa de jantar.
Infelizmente, a paz ainda não havia chegado a essa mesa naquela noite.

Inés fez uma pergunta direta: 

— E por que isso deveria mudar alguma coisa entre nós?

Ela não falava mais como a filha calma que tentava dissipar a ira de seu pai. Em vez disso, soava irritada.

Os lábios de Cárcel se curvaram em um sorriso torto. Ele ficou secretamente satisfeito por ter conseguido alguma reação emocional dela. 

— Eu me sentiria mais à vontade com você se me tratasse como um igual. Recebo formalidades demais na marinha, então não quero continuar fazendo isso com você.

— Então, você pode ser rude quanto quiser sozinho. Eu vou manter minhas maneiras.

— Que generosidade da sua parte — comentou Cárcel, o sarcasmo pesado em seu tom.

— Estou simplesmente permitindo que você faça o que quiser, Escalante. Ainda assim, continuarei a tratá-lo com toda a cortesia do mundo.

— E, ao fazer isso, você planeja me tornar um misógino e um bastardo.

— Como o mundo o avalia não é da minha conta. — Inés semicerrava os olhos, tentando entendê-lo. — O que você está aprontando? Por que está me perguntando sobre Miguel?

— Bem, sou irmão de Miguel. Ele tem dezessete anos e é adulto. Minha família está organizando um noivado para ele, então tenho a responsabilidade de zelar por sua reputação. Ele não pode ser visto conversando sozinho com senhoritas—

Inés o interrompeu impacientemente. 

— Chega disso. Você sabe que isso é ridículo. 

Sua carranca se acentuou ainda mais. 

— Você estaria, talvez, tentando controlar meus relacionamentos com os homens? — Soltou uma risadinha, mas não parecia divertida. — Você? Me controlar?

— Quando você coloca dessa forma, eu pareço horrivelmente controlador. No entanto, minha intenção era apenas—

— Você entende que estamos falando de Miguel, certo?

Cárcel ia continuar seu argumento, mas parou abruptamente devido à ênfase que ela deu ao nome do irmão. 

— Por que você diz o nome dele assim? O que há de tão especial em Miguel que ele, de algum modo, se torna uma exceção à sua postura usual com os homens?

Inés pensou por um segundo e respondeu: 

— Seu irmão é simpático. Ingênuo. Na verdade, adorável.

— Bem, eu também sou simpático. — Cárcel sabia que era musculoso demais para ser descrito como adorável, e cínico demais para ser ingênuo, mas ainda assim tentou manter sua dignidade.

— Você é... simpático à sua maneira, eu acho. Alguns discordariam, mas você é simpático o suficiente para mim. — Inés de repente mudou o tom e exibiu um largo sorriso. 

— Claro, seu rosto é encantador e de imenso benefício para o mundo.

Cárcel a observou com desconfiança. Não era comum ela elogiá-lo de qualquer forma. 

— Você... vai fazer analogias estranhas de novo?

Inés ignorou a pergunta e apenas sorriu de volta. 

— Desculpe, Cárcel. Aposto que deve estar exausto após o jantar com meu pai.

Ela definitivamente não estava se comportando como de costume. Inés Valeztena nunca se desculparia ou o chamaria pelo primeiro nome...

Cárcel cedeu: — Bem, as queixas de seu pai contra mim são válidas.

Inés manteve um sorriso educado no rosto. — Sinto muito.

— Por que você está se desculpando?

— Porque sinto remorso.

Cárcel ficou perplexo. 

— Eu não... percebi que se desculpar era algo que você alguma vez fazia. — Na verdade, ele teria imaginado que Inés não sabia como se desculpar. A dúvida franziu sua testa.

Inés forçou seu sorriso ainda mais. 

— Como mencionei no jantar, acredito que você é um grande homem. Muito mais do que eu mereço.

Até um momento atrás, Cárcel também teria imaginado que ela não sabia fazer um elogio verdadeiro, mas estava errado nesse ponto também.

— É por isso que você deve fazer o que quiser, independentemente do que meu pai diga — acrescentou, favorecendo-o com um sorriso gracioso.

Cárcel lembrou-se repentinamente de sua observação anterior sobre se orgulhar de sua beleza e de como ela pretendia compartilhar esse “bem”. Quando ela fizera tal comentário, ele duvidara de sua sanidade. Sua única outra explicação era que ela tentava apressar o envelhecimento do pai por algum propósito sinistro.
Agora, ele começou a acreditar que ela fora sincera quando disse aquelas palavras ridículas.

Cárcel escolheu cuidadosamente suas próximas palavras. 

— Inés, já estou seguindo meu coração.

Inés assentiu. 

— Sim, suspeitei disso quando você exigiu uma cerimônia de casamento em quinze dias. Infelizmente, como resultado de suas exigências, não me resta escolha a não ser usar o vestido cafona de minha mãe, do casamento dela há vinte e sete anos.

Ele ergueu uma sobrancelha. 

— E como você se sente a respeito disso?

— Fiquei um pouco irritada, mas entendo que seu senso de obrigação o guiou. Aprecio sua dedicação às suas responsabilidades. — Ela deu a entender que pouco mais apreciava em Cárcel.

Ele não respondeu. Em vez disso, apenas a encarou, tentando decifrar suas verdadeiras intenções.

— Tudo o que quero é que nos casemos. Esperei anos para estar ao seu lado e segurar sua mão. Nunca duvidei que você valesse a espera. Mesmo que de repente mude de ideia e queira apressar a cerimônia de casamento, aceitarei seu pedido com prazer — disse Inés.

No entanto, ela não soava nem um pouco grata ou animada. Provavelmente estava furiosa com o transtorno que isso lhe causara.

Cárcel respondeu, quase murmurando para si mesmo: 

— Então você ficou brava.

— Não, apenas um pouco irritada. Esperei por isso por muito tempo.

— Ah, é? — Cárcel mal conseguiu conter o sarcasmo na voz. Ele precisava se lembrar de que era Inés quem escolhera se comprometer com ele, e não o contrário. Ela insistira nele e mudara seu destino da noite para o dia. Ela era a razão pela qual ele herdaria esse título incômodo. Ainda assim, ele não conseguia acreditar que ela realmente queria se tornar sua esposa. Simplesmente não conseguia se livrar da sensação de que ela estava mentindo para ele.

— Por isso, fico feliz que tenha tomado a iniciativa de adiantar nossa cerimônia de casamento. Aprecio sua coragem. Sempre foi uma criança diligente...

Embora Inés fosse mais alta que a média nacional para mulheres, ainda assim era vários centímetros mais baixa que Cárcel. E ali estava ela, falando com ele como se ele ainda fosse um bebê. Olhando para baixo, Cárcel pensou que Inés parecia estranhamente pequena e ridícula.

— Imagino que viver de acordo com seus valores pelo resto da vida deve ser sufocante. Por isso você buscou liberdade antes do nosso casamento e evitou a cerimônia por tanto tempo. Compreendo completamente. Você é um homem grande demais para ser preso pelas expectativas da sociedade. Sempre gostei de como você era proativo e popular. Não quero que definha por causa de obrigações.

Uma carranca marcou a testa de Cárcel. — Do que diabos você está falando?

— Uma flor murcha quando você a arranca de suas raízes. Por isso quero mantê-lo exatamente onde está e me manter onde estou — respondeu Inés, mas suas palavras não pareciam responder à pergunta dele.

— Mal me considero apropriado para uma comparação delicada a uma flor, mas... você está tentando me doutrinar?

— Doutrinar você? Nunca faria isso — Inés dispensou a pergunta, mas seus olhos vacilaram.

— Acho que você tem razão neste momento. Está tentando justificar o que disse em nossa última conversa, me doutrinando a aceitar suas afirmações ilógicas.

Inés levantou o nariz. 

— Não preciso justificar nada do que aconteceu da última vez.

Cárcel lembrou-a: 

— Eu a beijei da última vez. — Ele percebeu que seu rosto empalideceu, mas se recusou a considerar a ideia de que ela tivesse perdido toda a cor ao se lembrar do beijo. Isso seria muito improvável, já que ele se considerava um excelente beijador. Deu um passo à frente e acrescentou: — E acredito que deixei minha posição clara com aquele beijo.

Inés engoliu em seco e deu um passo para trás. 

— Agradeço o esforço.

— Você aprecia meu esforço? — repetiu Cárcel, com a voz carregada de confusão. Ele a encarava, um pouco atônito.

— Escalante, aprecio sua dedicação aos seus valores. Você estava tentando demonstrar que estava pronto para viver de acordo com eles, mesmo ao ponto de devorar uma mulher como eu.

— Eu não estava tentando demonstrar nada — Cárcel se encolheu com a escolha de palavras dela. Visões de devorá-la no chão turvaram seus olhos, mas ele balançou a cabeça para se livrar delas. 

— Depois que você disse que não queria desperdiçar seu esforço com um homem por quem não tinha sentimentos... não percebi que você se importava tanto com meus valores e minha liberdade.

— Bem, isso é uma questão totalmente diferente —

— Ah, é tão diferente assim? — Mais do que um toque de sarcasmo permeava seu tom. — Por favor, esclareça-me sobre sua razão.

— Cárcel — Inés suspirou.

— Um dia você me diz que se importa comigo, e no outro dia não se importa. Agora, aparentemente, me adora e mal pode esperar para estar ao meu lado. Depois de todas as mentiras que contou ao seu pai e a mim, como espera que eu acredite em você quando me encoraja a me enganar para meu próprio bem?

Ela bufou, exasperada. 

— Da última vez que disse que me importava com você, foi há mais de dez anos. Não faça parecer que mudei de ideia da noite para o dia.

— Bem, você realmente gostava de mim naquela época? — ele perguntou.

Ela refletiu por um momento e assentiu. Ele deu mais um passo à frente, e ela recuou outro.

Cárcel perguntou: 

— Então, quando deixou de se importar comigo?

Ele tinha várias suposições sobre o que causara a perda de interesse dela. Teria sido os diversos espiões que mulheres do seu passado haviam plantado na mansão Valeztena? Ou os boatos sobre suas conquistas sexuais? No entanto, não conseguia acreditar que tais coisas pudessem abalar uma mulher como Inés Valeztena.

Ela suspirou novamente, parecendo desejar que aquela conversa tivesse terminado alguns minutos antes. 

— Quero me casar com você. Se não quisesse, por que estaria fazendo isso?

— Pare de mudar de assunto. Quando começou a me desgostar?

— Não te desgosto. Apenas tenho pouco afeto por você.

— Entendo. Segundo você, não se importa o suficiente comigo para prestar atenção às minhas ações. Mas prefere que eu me torne uma vadia a definhar? — Ele sabia que estava sendo sarcástico, mas não conseguia evitar o tom em sua voz. Os insultos do duque Valeztena o irritaram.

Inés semicerrava os olhos e olhou desconfiada. 

— Cárcel, você está bravo porque eu não gosto de você?

Cárcel recuou como se ela tivesse tocado em um ponto sensível.

Felizmente, Inés não pareceu notar sua reação. — Que absurdo! Foi você quem me traiu primeiro.

— Mas não acabou de dizer que gostava dessa qualidade em mim?

— Bem, você não dormiu com aquelas mulheres pelo meu prazer, mas pelo seu! — gritou Inés.

Cárcel rosnou. — Droga! Nada do que você diz faz sentido! O que se passa naquela cabecinha sua?

— Talvez usar seu cérebro, pela primeira vez, em vez do corpo, ajude na compreensão auditiva.

— Ainda me trata como um idiota com um rosto bonito?!

— Você ainda não nega o fato de ter um rosto bonito. O que teria feito sem esse rosto bonito?

Cárcel tentou erguer os cantos da boca. Não queria continuar com essa discussão infantil.

— Vamos ser honestos; meu rosto é mais que bonito. Estava tentando ser humilde. E, para constar, ainda não estávamos casados. Você me forçou a um noivado, e—

— Certo, você foi forçado a um noivado e está programado para ser forçado a um casamento. Não tinha motivo para ser leal a mim. Viu? Entendo de onde você vem.

— Pare de me interromper antes que eu termine meu raciocínio. Não estou tentando justificar meu comportamento. Estou tentando dizer que as coisas mudarão depois do casamento.

— Mas por que as coisas precisam mudar? — Inés levantou as mãos, frustrada. — Esqueça, retiro o que disse sobre entendê-lo. Eu não o entendo de jeito nenhum.

Cárcel aproveitou a chance para agarrar sua cintura e puxá-la para perto.

Inés ficou sem palavras com a proximidade repentina. 

— O que... você está fazendo agora?

— Eu disse, Inés Valeztena de Perez. Sou um escravo fiel.

Inés franziu a testa em seus braços. — Você não faz sentido algum.

Ele continuou a expressar seus pensamentos, independentemente. 

— E o casamento é um ato de fé.

— Pare de tentar me ensinar. Você não está qualificado para isso.

Cárcel teve que concordar com ela. Que direito tinha de ensiná-la sobre fidelidade a um parceiro? Sua reputação o desqualificava imediatamente. Ele jamais faria tal discurso se não fosse por Inés e sua lógica absurda.

— Cárcel, você está dizendo que será fiel a mim depois de todos os anos que dormiu por aí como um cachorro no cio? Por que eu acreditaria em você?

Ele olhou-a nos olhos. 

— Mostrarei a prova da minha devoção no quarto. Então, finalmente, você vai acreditar em mim.

— Escalante, não vamos compartilhar o mesmo quarto. Usaremos camas separadas.

Embora seu corpo estivesse próximo ao dele, sua expressão permanecia distante e sua voz firme.

Cárcel sorriu em resposta. 

— Você sabe que isso não é verdade. Vamos compartilhar a mesma cama.

— Sou humana. Não durmo em camas de cachorro — retrucou Inés.

— Ah, mas você sabe que cães são fiéis e vivem com seus donos humanos.

— Que absurdo completo você fala.

— Estou pedindo que não me abandone como se eu fosse seu animal de estimação.

O rosto de Inés se contraiu, e suas pupilas se estreitaram como fendas.

Cárcel inclinou-se para frente e beijou seu rosto franzido. Em vez de seus lábios, ele beijou o canto da boca dela. Quando sentiu seu franzir de sobrancelhas se intensificar, aprofundou o beijo. Ele se inclinou ainda mais, e suas línguas se entrelaçaram. Embora sua língua fosse brincalhona, o beijo estava longe de ser infantil.

Inés fez uma careta, e então uma mistura confusa de expressões passou por seu rosto, mas ela não se afastou do beijo.

Cárcel não tinha certeza do que ela estava pensando, mas ficou feliz por ela não recusar. Ele puxou seu corpo mais para perto e apoiou sua cabeça em sua palma, de modo a guiar seus corpos em ritmo. Cada vez que suas bocas se separavam para respirar, respirando juntas, seu beijo se tornava mais apaixonado. Quando Inés começou a ofegar demais, Cárcel sugou suavemente seu lábio superior e se afastou.

— Você sabe que cães nunca abandonam seus donos — sussurrou ele. — Então não perca tempo tentando me afastar.

Inés abriu lentamente os olhos. Seus olhares se encontraram. Ela ainda ofegava levemente, e sua respiração pousava em seu queixo.

Cárcel pensou em quão perigoso aquele momento era. Seus lábios estavam a apenas alguns centímetros dos dele, e eram diabólicamente tentadores. Ele estendeu a mão e passou o polegar pelos lábios dela, enxugando a umidade do lábio inferior.

Ele só pretendia provocá-la um pouco, mas parecia que uma eternidade havia se passado durante o beijo. Nunca havia se sentido assim antes. Inés Valeztena sempre o desarmava sem muito esforço. Mas ele não desgostava do efeito que ela tinha sobre ele.

Inés torceu o rosto para fora de suas mãos. Então, o som de um tapa alto ecoou pelo quarto.

Cárcel quase tropeçou com a força, mas conseguiu manter-se firme.

A dor foi tão chocante que ele se perguntou se o duque Valeztena havia aparecido de algum canto para dar o tapa, mas apenas Inés estava diante dele.

— Sim, você entendeu certo. Acabei de dar um tapa no seu rosto — Inés confirmou gentilmente o que estava acontecendo. — Por que essa boca aberta? Você já deve ter sido estapeado por mulheres várias vezes.

— Esta foi a primeira vez — disse Cárcel, atônito.

A maioria das mulheres tentava impressioná-lo após o sexo ou um beijo. Ele também queria argumentar que Inés não havia apenas dado um tapa em seu rosto, mas acertado sua cabeça inteira. Tentava conciliar a força e a violência que acabara de presenciar com a noiva reservada e amante de livros que conhecia há dezessete anos.

Infelizmente, seu golpe provou o contrário. Ela parecia habilidosa e confiante em infligir dor à sua vítima.

— Ah, não gosto da ideia de ser sua primeira — murmurou.

Cárcel a encarou, olhos arregalados e boca entreaberta. Ela falou como um homem velho que se lamenta de ter sido o primeiro amante de uma jovem.

Inés sorriu, mas sua expressão rapidamente se transformou em uma careta fria. 

— Você não acha que um cachorro travesso merece uma surra de seu dono?

— Você... bate no seu cachorro? — o rosto de Cárcel se contorceu de repulsa.

Inés também franziu a testa em resposta. 

— Claro que não. Por que eu bateria em uma criatura tão adorável? Mas um humano que age como um cachorro é outra história.

— Inés, você percebe que eu não sou um cachorro de verdade, certo?

— Bem, você praticamente estava pedindo um tapa.

— Inés, ninguém em sã consciência pediria para ser espancado.

— Na verdade, algumas pessoas pedem. Esse tipo de coisa excita certas pessoas.

Ela cruzou os braços em desafio. 

— Eu estava me perguntando se era isso que você queria. Caso contrário, por que faria algo tão rude? — Ela apoiou o peso em uma perna e olhou para Cárcel. Mesmo com sua roupa modesta, de algum modo parecia mais desejável. — E cães merecem correr ao ar livre, não ficar presos dentro de uma casa humana. Portanto, proíbo animais de estimação no quarto e, principalmente, na cama. Entendeu? — Inés pronunciou cada palavra como se explicasse a um cachorro de verdade.

Cárcel bufou. 

— Essas são suas regras para o nosso casamento?

— Senti-me compelida a estabelecer meus próprios limites depois das suas proclamações, Escalante. Então, vamos conversar em vez de brincar de jogos bobos.

— Que jogos bobos estou jogando?

— Jogos como este — ela indicou os dois corpos com o dedo.

Cárcel ergueu uma sobrancelha. — Como este?

— Sim. Não faça isso de novo.

— Quer dizer que não devo mais te beijar?

— Exatamente — ela contorceu os músculos do rosto como se estivesse enojada com a ideia do beijo.

Ele semicerrava os olhos. Não conseguia entender seu ponto, já que ela não havia se oposto durante o beijo. 

— Então, você tem alguma outra condição para o nosso casamento?

— Bem, precisamos ter certo grau de contato físico—

— Você quer dizer, ter relações sexuais? — Silêncio seguiu a pergunta de Cárcel.

Inés parecia mais insegura que envergonhada com a menção direta da palavra. Continuou:

— Quero dizer o contato físico mínimo necessário para conceber filhos.

Cárcel resumiu suas intenções. 

— Portanto, você está consentindo a relações sexuais, mas não a beijos?

— Sim.

— Prefere pular a preliminar e ir direto ao evento principal?

— Exatamente.

— Quão... pervertido. — A resposta de Cárcel foi simples.

Inés parecia irritada, mas recuperou a calma em segundos. 

— Não precisamos desse contato frívolo e supérfluo. Beijos são para amantes.

— Quantas vezes preciso me repetir? Serei seu marido, Inés.

— Por isso não precisamos de mais do que o mínimo necessário. Casais casados em Ortega não se amam. Em vez disso, praticam um tipo refinado de—

— Sexo refinado?

— Cárcel, vou te dar outro tapa na boca bonita se não parar de ser vulgar — ela ameaçou.

— Não há nada de refinado no sexo sem sentido que você está descrevendo — respondeu ele. — Animais fazem assim, não humanos.

— O que estou descrevendo é eficiência. Quanto maior a eficiência, maior a liberdade, maior a paz na família.

— Você está sendo absurda.

— Todo o nosso casamento é uma farsa, Escalante. Participarei da cerimônia matrimonial, fingindo que o vestido cafona faz parte de uma tradição familiar. Depois da cerimônia, você desaparecerá para dormir com outras mulheres. Todos em Mendoza vão fofocar sobre nós e rir pelas nossas costas. Então, não precisamos adicionar mais comédia a este evento.

Cárcel a encarou por alguns momentos e deu um passo atrás. 

— Nunca levei este casamento levianamente. Pelo tempo que me lembro, só imaginava um futuro em que você seria minha esposa. Por isso a beijei. Mesmo que eu não a ame, sei que você se tornará a mulher mais importante para mim. Por isso achei apropriado beijá-la. Peço desculpas pela minha grosseria. Não farei coisas que você não queira. Se se sentir desconfortável pelo fato de eu não amar você, respeito sua decisão. Podemos abrir mão dos beijos, a menos que estejamos na frente de outros. Se houver mais alguma coisa que você não queira, pararei de fazê-la.

Inés ficou sem palavras. Não sabia como reagir à sinceridade de Cárcel.

— Considerarei sua falta de objeção como consentimento para tudo, exceto beijos.

Inés permaneceu imóvel, congelada em confusão. Mesmo depois de lhe dar chance de terminar o pensamento, ainda estava confusa sobre o que ele realmente queria dizer.

Cárcel caminhou em passos firmes até a porta. Abriu-a e chamou:

— Juana!

— Sim, meu senhor?

— Por favor, cuide da sua senhorita Valeztena — disse ele, lançando um último olhar para trás antes de sair sem outra despedida.



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