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Capítulo 29 — Amanhecer em Calztera

Depois do jantar, Cássel e Inês sentaram-se no pequeno terraço, ouvindo o som das ondas. O terraço mal tinha espaço para uma pequena mesa e duas cadeiras, como todos os outros cômodos da casa. Mas tinha uma vista bastante romântica. As lâmpadas de latão no jardim tremeluziam, e a luz das velas projetava sombras sobre as flores de verão.

O Major Elba era responsável por todo esse esplendor. Ele plantara as flores e instalara as lâmpadas no jardim para criar uma bela vista para sua esposa, mesmo depois que o sol se pusesse.


Cássel lembrava-se desse detalhe das longas conversas com o major. O homem se mostrava ansioso para descrever tudo o que havia construído — ou, mais precisamente, comissionado a um artesão para construir — para sua esposa. Quando Cássel o encarava com uma expressão indiferente, Elba continuava a falar sobre quanto esforço essas reformas haviam exigido.


O ele era diferente do homem que Cássel conhecera durante a academia militar. Elba costumava detestar cada minuto passado com a esposa, mas parecia quase eufórico ao descrever como sua mulher apreciava a nova casa.

De fato, Elba estava certo. 

As luzes no pequeno jardim eram encantadoras. Por um momento, Cássel imaginou-se no lugar de Elba, dedicando-se à própria esposa com seu bem-estar em mente. A possibilidade de se tornar tão apaixonado parecia improvável, como um medo irracional de cair do cavalo diante de toda a cidade ou de ficar feio por causa de uma doença. No entanto, ao imaginar esse cenário hipotético, Cássel percebeu que não era uma ideia tão ruim, mesmo sendo apenas fantasias.


O Major Elba parecia um idiota quando tagarelava sobre seus esforços intermináveis para fazer a esposa feliz, mas Elba não era exatamente atraente. Independentemente da aparência medíocre e da personalidade desprezível, ou de como ele projetou e instalou as lâmpadas de latão, tudo o que Cássel se importava era que aquela pequena casa agora pertencia a ele e a Inês.

Eles tinham aquele lugar só para si.


— …… Como é possível que a sua licença termine amanhã?  disse Inês. Cássel havia lhe contado durante o jantar que suas férias haviam terminado.


— Está desapontada? — Cássel esboçou um sorriso de canto diante da indagação dela.


Inês riu, afastando a ideia.

Agora que estavam sozinhos, qualquer traço de gentileza que ela demonstrava diante de Arondra e dos outros funcionários desaparecera. Mas, pelo menos, ela parecia relaxada. Seus lábios não estavam tensos como de costume perto de Cássel. Seus olhos verdes estavam serenos enquanto contemplava o oceano após o pôr do sol. Ela girava vagarosamente uma taça de vinho cheia de água sobre a palma da mão


— Só estou surpresa com sua imprudência.


— Não sou imprudente — retrucou Cássel. — Preparei tudo com antecedência.


— Está se referindo ao plano que você fez há duas semanas, quando me pediu em casamento do nada?


— Considerando que estamos casados duas semanas depois, eu diria que tudo saiu conforme o planejado.


— Claro, porque sua única parte no plano foi aparecer na capela na hora certa e passar uma noite na mansão Valeztena. Eu que organizei o casamento — disse Inês.


Cássel não se abateu. 


— Sendo assim, o cronograma provou-se correto — insistiu Cássel, com uma ponta de insolência. — De qualquer forma, você já está aqui…… Somos casados. Não me parece que tenhamos qualquer problema.


Cássel fora deliberadamente ríspido.

Inês, sem se abalar, sorriu de leve e tomou um gole de água.


— Verdade. Fico feliz que tenha passado rápido. Não tinha interesse em prolongar a cerimônia.


— Minha mãe insistiu em dizer que você guardaria ressentimentos de mim pelo resto da vida por causa disso. Como eu mudei as regras do jogo, ela questionou como eu seria capaz de fazer uma mulher se casar de maneira tão apressada na única oportunidade de sua vida.


— Se tivéssemos estendido o noivado, eu teria sido condenada a jejuar por sessenta dias sob as ordens estritas da Duquesa de Valeztena. Minha mãe é implacável sobre a silhueta adequada.


— …… Se alguém jejuar por sessenta dias, simplesmente morre — Cássel franziu o cenho, como se estivesse diante de um absurdo completo.


Inês soltou uma risada clara, como se considerasse a reação dele uma piada divertida.


— Na realidade, creio que eu seria perfeitamente capaz de sobreviver por cem dias.


— …… Você?


— Há muito tempo, submeti-me a uma provação semelhante e consegui suportar.


Cássel lançou lhe um olhar cético e carregado de sarcasmo, fitando-a como se avaliasse a relevância de um único grão de areia em uma vasta praia deserta.


— Você não seria capaz de resistir por um único dia inteiro, Inês.


— E como pode ter tanta certeza?


— Basta olhar para o seu físico. O que pretende fazer com esse corpo tão franzino……? — Ele estalou a língua em sinal de desaprovação.


Inês franziu levemente as sobrancelhas, embora o tom dele lhe parecesse meramente birrento.


— Está sendo implicante…… Encontro-me perfeitamente saudável no momento. É claro que não pude me alimentar adequadamente nos últimos dez dias devido à pressa em ajustar o vestido de noiva de minha mãe ao meu tamanho, mas, no fim, a peça foi reformada para se adequar perfeitamente à minha silhueta……


— …… Você passou fome por dez dias? — Cássel interrompeu-a com uma surpresa genuína, ignorando o restante da explicação.


— Quando as mulheres de Ortega jejuam, não estamos tentando nos matar de sede ou fome.


— E o que faziam, afinal?


— Comemos o suficiente para sobreviver, mas nem um grão a mais.


— Consumíamos apenas o estritamente necessário para não desfalecer. Nem um grão a mais.


— Isso soa ainda pior.


— Presumo que esse método horrendo seja o responsável por moldar os corpos esguios das mulheres que você costumava se deitar, e que tanto gosta de me jogar na cara.


— …… Por que a conversa tomou esse rumo de repente?


— Só queria apontar que você viu mais corpos femininos nus do que eu. Só isso. — Inês deu de ombros. — Nossa cultura desencoraja as mulheres a se engajarem em qualquer atividade física relevante, mas promove que a figura seja a mais magra possível. Assim, as mulheres Orteganas não têm escolha a não ser jejuar.


— Isso é absurdo — proclamou Cássel com tanta certeza que fez Inês rir.


— Não se preocupe. Eu não sigo esses padrões — esclareceu Inês.


— Não importa o que faça, a escolha é estritamente sua. Mas, no que concerne às minhas impressões…… você é perfeita exatamente como é.


Cássel proferiu aquelas palavras com uma sinceridade despretensiosa.

No entanto, assim que a frase deixou seus lábios, uma sensação de estranheza o invadiu, como se tivesse confessado abertamente o temor de que qualquer pequena porção daquela mulher pudesse sumir ou se desgastar. Se aquelas eram as suas impressões, eram inevitavelmente baseadas na intimidade da noite anterior.


Quando Cássel começou a desejar secretamente que pudesse voltar o tempo alguns segundos atrás, avaliando que a escolha de suas palavras fora inadequada, Inês soltou uma risada suave.


— Muito bem. Não tenho a menor intenção de seguir o contrário.


Ao ouvi-la, ele sentiu um alívio imediato, ao mesmo tempo em que se recriminava internamente.

Inês era uma mulher que não buscava a aprovação alheia através do olhar dos outros; vivia estritamente à sua própria maneira, recusando-se terminantemente a fazer o que não desejava e fechando os ouvidos para tudo aquilo que não lhe interessava escutar.

Cássel não tinha interesse em fazê-la passar fome ou torturá-la por uma cintura mais fina. Ele estava atraído por ela como ela era agora. Certamente, Inês tinha defeitos, com seu temperamento e comportamento egoísta.

Mas ele não planejava mudá-la.


— Claro, espero que você recupere o peso que perdeu nos dez dias. Acho que ficaria melhor com um pouco a mais.


— Vou fazer o que eu quiser, Cássel.


Sim, era reconfortante constatar que a opinião dele não exercia a menor influência sobre ela. Cássel agira de forma descuidada e agora tentava se racionalizar.

Foi uma sorte que a atenção de Inês tivesse se voltado novamente para o oceano que se estendia além do jardim, pois a expressão no rosto dele naquele momento devia ser bastante reveladora.

No mar distante, por trás da bruma densa da névoa marítima, os olhos de Inês, que acompanhavam o declínio rápido do clarão avermelhado do poente, de repente convergiram de volta para ele.


— Fico feliz que este lugar não seja exatamente o que imaginei. — disse ela pensativa.


— E o que você imaginou?


— Estava pensando em algo mais parecido com um porto comercial. Um lugar apinhado e barulhento, repleto de pequenas embarcações de pesca atracadas……


Cássel fitou-a, tentando decifrar as nuanças da fisionomia de Inês sob a luz trêmula das velas.


— Isso se deve ao fato de esta ser uma zona estritamente militar, onde a atividade pesqueira é proibida…… Um pouco mais abaixo na costa, há um porto famoso que o público em geral conhece. A maioria das pessoas de Mendoza o chama de porto de Calstera, mas os nativos na verdade o chamam de Porto de El Tabeo.


— El Tabeo?


— Esse sim é o porto original. Navios mercantes estrangeiros transitam por lá a todo momento, e as grandes embarcações pesqueiras aportam bem ali, ao sul de El Tabeo, por causa do mercado. É dali que os produtos são distribuídos diretamente para as cidades do interior. E abaixo dessa área, como você mencionou, existem vários portos menores por onde entram e saem barcos de pesca de pequeno porte…… Ficam um pouco mais distantes daqui. A maioria deles é compacta, mas muito bonita, e o barulho dos motores batendo na água é constante. São lugares ligeiramente mais suspeitos do que El Tabeo. Se você quiser visitá-los da próxima vez…… Ah, ou você quis dizer que detesta ambientes assim?


— Não, eu não os detesto. Apenas…… significa que prefiro a tranquilidade deste lugar.


Inês deu de ombros com indiferença e se levantou, segurando a taça de água. Cássel adiantou-se prontamente para ampará-la, mas ela afastou a mão dele com um sorriso ligeiramente incrédulo.


— Isto não é bebida alcoólica.


— Eu sei.


Ainda assim, ele insistiu obstinadamente em enlaçar o braço de Inês sob o seu. Ela murmurou em um tom suave:


— Se eu passasse mais uma hora aqui, acho que você acabaria me carregando no colo.


— Se for esse o caso……


— — Não.


— Eu sei — respondeu Cássel com desânimo, já prevendo a recusa dela.


O local para onde Inês se deixou conduzir, dispensando aquele amparo desnecessário, foi o corredor que interligava a sala de jantar do primeiro andar ao salão de charutos. Em vez de questionar o destino da caminhada, Cássel limitou-se a esperar em silêncio quando ela subitamente deteve o passo diante de uma pintura, passando a contemplá-la detidamente, sem pronunciar uma única palavra.


— Cássel. Este lugar também é El Tabeo?


— Esta? — Cássel nem tinha olhado para a pintura até agora. Agora, aproximou-se para observar melhor. —El Tabeo é o principal porto, então é muito maior. Este deve ser um dos portos menores...

Ele vasculhou silenciosamente a própria memória. Tratava-se de um local que ele próprio já havia visitado durante uma ou duas missões navais. Não passava de um ancoradouro onde flutuavam cerca de trinta barcos de pesca usados como balsas...


— Humm... Talvez seja Sevilla?


— Sevilla...— A voz de Inês era quase um sussurro.


Cássel voltou o olhar para Inês.


— Então chamam este lugar de Sevilla—, acrescentou ela, com o rosto sereno.


De algum modo, Cássel sentiu vislumbres de sentimentos intensos em conflito dentro dela.


— Você gosta da pintura? Poderia pendurá-la na sua biblioteca —, ofereceu ele.


— Isso significa que a biblioteca é oficialmente minha? — Inês perguntou, arqueando a sobrancelha.


— Claro, já que aparentemente sou apenas um marinheiro analfabeto que nunca toca em um livro — disse Cássel em tom sarcástico.


Inês riu baixinho e balançou a cabeça.


— Não. Eu detesto esta imagem.


— ……


— Retire-a do meu campo de visão. Era isso o que eu pretendia pedir.


✽ ✽ ✽


Enquanto dormia, Inês sentiu um braço vigoroso enlaçar-lhe a cintura. Era uma força descomunal, que despertava uma sensação de resistência mesmo no âmago de sua inconsciência.

Ela franziu levemente o cenho e tentou rolar o corpo para escapar daquele aperto. No entanto, desfrutando de total liberdade de movimentos, o braço que a sujeitava puxou-a de volta com uma determinação avassaladora. Parecia a raiz de uma árvore centenária, não um membro humano; um poder que tornava impossível qualquer tentativa de locomoção, como se ela estivesse presa por algo que transcendia a força de um homem comum.

Inês não guardava lembrança de jamais ter sido submetida a esse tipo de restrição ou vigor físico, uma sensação que lhe era inteiramente estrangeira. Expressando ainda mais desagrado, moveu-se com energia, mas agora se encontrava completamente imobilizada, a ponto de seus esforços sequer serem perceptíveis sob os lençóis.


— Sufocante…… — murmurou ela, ou julgou ter dito algo assim.


Indagou-se se a pressão ao redor de sua cintura cederia com aquela única queixa e, no instante em que se preparava para se esquivar, o outro braço dele subiu como uma trepadeira, segurando-a logo abaixo dos seios para arrastá-la contra o peito dele. O braço que antes envolvia sua cintura desceu pela linha estreita do abdômen, dividindo-se como uma raiz que se parte em duas. Embora a força exercida entre os membros dele tivesse diminuído consideravelmente, continuava sendo o bastante para impedir que ela se libertasse com os movimentos involuntários do sono.


Incomodada com a situação, Inês suspirou profundamente e relaxou o corpo, dando-se por vencida. A risada baixa do homem, carregada de satisfação, roçou-lhe o topo da cabeça. Ela contraiu as sobrancelhas mais uma vez e, em seguida, submergiu novamente em um sono pesado.


Por essa razão, foi-lhe impossível notar que o negligé subira até a altura dos quadris, ou que as alças haviam escorregado, expondo a nudez de seus ombros. Lábios macios trilhavam o contorno de suas omoplatas, sugando e mordiscando a pele frágil de tempos em tempos de forma indolor, mas com a clara intenção de deixar marcas. Uma mão de grandes proporções acariciava lhe a coxa, enquanto um toque sinuoso subia por baixo de seu busto, apertando-o……


A exaustão acumulada era excessiva para que ela se desse conta de tudo aquilo. Inês vinha sendo atormentada pelas exigências da mãe há uma quinzena, desde os preparativos até a missa nupcial da noite anterior, culminando em uma madrugada na qual mal conseguira conciliar o sono. Além disso, haviam enfrentado uma longa viagem desde o início da manhã, sem direito a descanso. Embora tivesse passado a maior parte do trajeto com a cabeça apoiada no colo de Cássel, ora desfalecida, ora sofrendo com uma leve tontura em um estado de semiconsciência, tratara-se de um percurso de sete horas. Para um corpo debilitado como o seu, fora um esforço desmedido.


Tanto que ela sequer se recordava de ter caminhado até a cama ou de ter se deitado por conta própria.


Finalmente, Inês abriu os olhos. Sua visão clareou lentamente e ela viu o quarto bem iluminado. Ainda um pouco atordoada, ela olhou para as cortinas esvoaçantes e tentou se lembrar de sua última memória.


A última coisa de que se lembrava era de estar sentada perto da janela, lendo.


A atitude superprotetora de Cássel era ridícula e irritante. Ele também havia sido muito mais persistente em relação à intimidade física do que ela havia imaginado, e ela não tinha certeza se tinha resistência para isso. Por isso, ela recusou seus avanços sexuais e manteve distância dele fingindo ler a Bíblia sentada perto da janela.

A Escritura sagrada era sua defesa contra a tensão sexual no quarto.


Por mais indiferente que tentasse ficar perto dele, Cássel constantemente a tocava e flertava com ela. Seu rosto permanecia natural e impassível, mesmo quando suas mãos tocavam o corpo dela de maneira sugestiva. Ele tinha uma maneira de tornar a atmosfera íntima com os menores gestos ou uma única palavra.


É claro que isso era de se esperar de um grande libertino. Cássel era tão habilidoso em seu ofício que as mulheres com quem dormia não se ressentiam dele depois.


"Talvez seja exatamente isso...", ponderou Inês, analisando os perigos que Cássel representava através de hipóteses incertas.

Por trás de sua fisionomia séria de oficial da marinha, havia seu desejo sexual e técnicas diabólicas - ou assim Inês acreditava. Ao ler a Bíblia, ela se lembrou de como Cássel podia ser perigoso antes de sucumbir ao sono. Quanto mais ela pensava sobre a noite passada, mais ela era vencida pelo cansaço acumulado.


"…… Espero que este comportamento também se restrinja ao período de recém-casados", refletiu ela, avaliando a conduta do marido como se analisasse um elemento estranho.


Não parecia que ele a privaria de sua liberdade, dado que já possuía distrações suficientes fora de casa, tampouco parecia impressionado com a modéstia de sua nova esposa. No entanto, apesar dessa atitude, o senso de dever conjugal de Cássel mostrava-se exagerado. Na verdade, era muito mais suspeito do que ela antecipara. Ele revelava-se excessivamente enérgico, promiscuo em seus toques e, paradoxalmente, fiel à sua nova rotina.


Inês tentou descobrir o que deu errado em seu plano.


Primeiro, Cássel já tinha tido seu quinhão de conquistas sexuais. Segundo, ele não poderia se sentir excitado por ela, tão simples como ela estava agora. Ela também manteve sua atitude não cooperativa. Terceiro, Inês não conseguia entender por que ele estava tão empenhado em cumprir seus deveres conjugais. Ele era muito viril, muito enérgico e muito fiel.


A única desculpa que ela conseguiu pensar foi colocar a culpa na fase de lua de mel.


Qualquer que fosse o esforço, era natural que um homem se sentisse motivado inicialmente. Assim como Inês havia planejado fervorosamente destruir esse casamento, Cássel devia estar se esforçando ao máximo para fazer algo positivo com esse casamento indesejável. Ela não achava que ele conseguiria reprimir seu desejo de procurar novas mulheres por muito tempo. Se até mesmo o amor e a paixão desaparecem, não há como o senso de dever resistir ao tempo. 


"Então, logo ele deixará de estar tão motivado para ter intimidade comigo."


Inês sentiu algo rígido pressionar suas costas de maneira incômoda, porém previsível, e desviou os olhos para a janela. De todo modo, tratava-se de uma reação fisiológica normal de um homem ao amanhecer, estivesse ele acompanhado ou não, razão pela qual ela preferiu não atribuir nenhum significado especial ao fato.


Exceto pelo inconveniente de sentir aquela reação se transmitir diretamente contra o seu corpo, não havia novidade alguma ali. Cássel Escalante encontrava-se na idade de maior vigor físico, e os homens costumavam agir com o instinto apartado da razão…… Ela baixou o olhar sobre o edredom, observando a mão de Cássel que havia deslizado da sua coxa até a parte inferior do seu ventre.


"Ele avançou depois que adormeci……"


Percebeu que o negligé, que mal cobria sua roupa íntima, acompanhara o movimento daquela mão, subindo pelo seu estômago. Seu quadril, desprovido de qualquer proteção substancial, foi puxado para ainda mais perto com uma força implacável, como se ele pretendesse fundir os dois corpos a qualquer momento.


Era um gesto impregnado de desejos simples; ela não conseguia discernir se aquilo era um hábito noturno fruto de uma vida promíscua ou simplesmente um costume que ele dominara. A respiração ritmada de Cássel ainda ecoava logo atrás de sua cabeça. Estava claro que ele permanecia profundamente adormecido, de modo que sua consciência não operava ali. Contudo, o poder avassalador do qual ela não conseguia se libertar continuava presente.


"…… Ainda é cedo, não há necessidade de despertá-lo."


Inês voltou a fitar a janela com um suspiro brando.

Além dos vidros da janela verde-escura que se abria para o exterior, a luz do sol nascente fluía para o interior do quarto como as pinceladas de uma pintura. O ar puro e a brisa fresca característicos da manhã, as cortinas bailando suavemente contra o céu e o som das ondas fustigando as falésias compunham o cenário.


De repente, Inês se lembrou da pintura da noite passada. 

Embora tivesse passado apenas quatro dias lá, ela se lembrava de Sevilla como uma bela cidade. Os pequenos barcos de pesca balançavam com as ondas. Os pescadores idosos e as senhoras da vila trabalhavam no porto. Ela se lembrava do sorriso de Emiliano e do bebê em seus braços a cada detalhe que recordava.


As lembranças da cidade haviam pairado sobre Inês quando ela tinha seis anos de idade. Ela não conseguia deixar de odiar seu irmão, Luciano, ao vê-lo crescer e se tornar o homem que havia matado Emiliano.


Ela nunca havia escapado de suas lembranças de Sevilla, especialmente quando teve que reviver os momentos que passou com Emiliano em sua vida anterior. Entre os dezesseis e os vinte anos de idade, Inês foi assombrada por essas lembranças. 

Sentia-se, de certa forma, grata pelo fato de Cássel, aos dezessete anos, ter considerado o noivado com ela um estorvo e ter partido para a academia militar. Ela não precisou lidar com o casamento quando já estava sobrecarregada pelas imagens do pequeno porto.

Era ironia do destino que ela sequer soubesse o nome daquele porto até o dia anterior. A Inês daquela existência passada permanecera trancafiada naquele cais, como um indivíduo que aguarda solitário por um encontro ao qual ninguém comparecerá.


No dia em que Emiliano morreu, sob aquele mesmo ar, tanto pela manhã quanto à noite, ela se vira incapaz de escapar para qualquer lugar, em qualquer momento, passando a viver trancada dentro de si mesma. Quando abria os olhos, deparava-se com a manhã daquele dia fatídico; e quando os fechava, a noite caía antes mesmo que o sono pudesse acolhê-la.

A noite em que o corpo gélido de Emiliano escapara de suas mãos, e em que o seu filho lhe fora arrancado. Por quatro anos, ela sofreu com esse pesadelo recorrente... Ela adormecia todas as noites, sabendo que veria seus entes queridos morrerem. As lembranças que ela havia tentado suprimir com tanto afinco na infância voltavam para assombrá-la.


Ela temia cruzar o caminho de Emiliano e levá-lo ao mesmo fim trágico.


No entanto, o que antes fora memória agora se desfazia no presente, enquanto ela escutava o romper das ondas sem tremer. Diante do mar de Calstera, ela não sonhou com Sevilha ou com Emiliano. Apenas despertou e permitiu-se pensar nele. Estando nos braços de outro homem que não o seu antigo amor…… Havia um estranho sentimento de culpa em relação a Emiliano, mas, ao final, ela se fixava deliberadamente à realidade presente, como se nada do passado fizesse parte de sua vida atual.


Inês recordou, com o semblante impassível, os desenhos do tamanho da palma de uma mão que Emiliano costumava esboçar ocasionalmente, utilizando pedaços de carvão barato. Após resgatar algumas dessas lembranças acalentadoras, sentiu que o torpor do sono se dissipara por completo. Afinal, aquelas eram coisas que jamais haviam existido nesta presente vida.


Fitou os vidros da janela por mais alguns instantes e, em seguida, girou o corpo dentro do abraço de Cássel, virando-se de frente para ele.


— Cássel.


— ……


— Acorde, já é de manhã.


— Uhmm…


— Não quero mais ficar deitada. — anunciou Inês.


Ela teve o súbito pressentimento de que, se permanecesse ali, Cássel acabaria descobrindo mais do que devia sobre as reações do corpo dela, o que a deixou desconfortável. O som da respiração compassada que fluía dos lábios dele cessou por um instante. Cássel abriu os olhos lentamente. 

No mesmo segundo, Inês estreitou o olhar, perspicaz.


— …… Você já estava acordado?


— Sim — respondeu ele, de forma direta.


Não parecia particularmente envergonhado ou cínico; apenas ofereceu uma resposta natural, desprovida de qualquer floreio.

E era justamente isso o que tornava a situação embaraçosa. Sem dizer mais nada, Inês desferiu um tapa no braço dele enquanto tentava se desvencilhar do aperto que a puxava para trás. Fez isso porque aquela rigidez masculina voltara a pressionar a fina seda de sua roupa íntima, que mal cobria suas partes mais íntimas, e agora os dois estavam com os rostos muito próximos.


— …… Não vou fazer isso.


— Eu não disse nada, Inês.


— Mas a parte inferior do seu corpo está falando. Agora mesmo.


Ela empurrou o quadril para trás, tentando se afastar. Era um gesto que denotava muito mais irritação do que timidez, pois ela tinha plena consciência de que a mão grande de Cássel segurava firmemente as suas costas. Como das outras vezes, a tentativa de fuga foi inútil.


— ……


— É fascinante como você consegue expressar tantas coisas sem dizer uma palavra.


Cássel soltou uma risada baixa ao dizer aquilo, como se elogiasse a audácia de alguém bem mais jovem. Ao puxá-la para um abraço ainda mais profundo, o ventre de Inês foi esmagado contra a enorme ereção dele.

A carranca de Inês se aprofundou. 

"Será que ele acha que pode fazer o que quiser comigo só porque dormimos juntos uma ou duas vezes?"


— Não me deitarei com você a está hora da manhã. Não mesmo. —  disse ela.


— É claro que não. —  Embora a voz de Cássel soasse sincera, sua ereção não parecia concordar.


Inês olhou novamente com desconfiança.

Cássel deu outra risada. 


— Inês, você pode fazer o que quiser.


— Há muito tempo não tenho tanta liberdade.


— Eu lhe prometo que não tentarei nada. — Cássel parecia um tanto sincero.


— É difícil de acreditar, já que você está empurrando algo tão vulgar contra o meu corpo logo de manhã.


— Eu realmente não tentarei nada desagradável. Então, vamos ficar assim por um tempo. — sussurrou.


A voz calma dele soou tão doce e enjoativa que os dedos dos pés dela se mexeram. Ele então se inclinou gentilmente e beijou o topo da cabeça dela.

Aquelas circunstâncias eram perigosas. Aquele toque tão pessoal, aquela ramificação íntima que nada tinha a ver com o objetivo principal de seu plano…… nada daquilo lhe trazia benefícios. No instante em que Inês tentou, por puro instinto de preservação, escapar dos braços dele mais uma vez, Cássel a conteve, pressionando os lábios contra os cabelos dela.


— Se eu não cumprir minha palavra, você tem minha permissão para cortá-lo — disse ele parecendo despreocupado demais para estar discutindo sua castração.


Inês contorceu o rosto em uma careta de aversão.


— Não tenho interesse em castrar você.


— Ah, tudo bem. —  Cássel quase pareceu desapontado, como se ela tivesse recusado sua confissão de amor.

Inês afastou seus lábios. 

— Pare de dizer bobagens. Você ainda deve estar meio dormindo.


— Já estou acordado há algum tempo. Devo ser mais diligente do que você pensa de mim.


— Se você tivesse acordado mais cedo, deveria ter saído da minha frente.


Como ele apontara, Cássel parecia ter despertado há horas. Sua fisionomia impecável sob os fios loiros desalinhados não lembrava em nada a de alguém que acabara de abrir os olhos. Até mesmo aquela bagunça em seu cabelo parecia o resultado de um cálculo meticuloso para parecer atraente, o que, de certa forma, era irritante.


"Ao contrário dele, eu não devo ser nada atraente neste momento. Mas isso pode ser uma vantagem para mim. Minha aparência repugnante pode afastá-lo."


— Quer que eu saia de perto de você? Isso é cruel — , protestou Cássel.


Inês aproveitou a chance para afastá-lo com os dois pés. Ela não tinha obrigação de aceitar seus avanços. O sol já havia nascido.

Antes, enquanto pensava que ele dormia, suportara o assédio daqueles toques em silêncio, mas agora……

…… Mesmo que tentasse não encará-lo, o esforço foi em vão. Empurrar Cássel era o mesmo que tentar mover uma rocha.


Em suas memórias distantes, alguém com aquele mesmo nível de força e tenacidade havia sido afastado de forma lamentável, mas Cássel, ao contrário dos outros, permanecia perfeitamente plácido diante dos gestos mais agressivos de Inês. Ele apenas a fitava, demonstrando uma disparidade avassaladora de força física.


Apoiando a cabeça no travesseiro de forma lânguida, Cássel murmurou:


— Eu não quero me levantar.


— Como você pode servir na marinha com essa atitude preguiçosa?—  perguntou ela.


— Como se você fosse melhor — rebateu Cássel.


— Olhe para o tempo. Uma Senhora realmente preguiçosa nem estaria acordada a esta hora.


— Então, por que está me chamando de preguiçoso por acordar a essa hora?


— Padrões diferentes se aplicam aos soldados. Você deveria ter saído da cama ao amanhecer e descoberto uma maneira de levar seu corpo ao limite.


Inês parecia em paz com seu duplo padrão.

Cássel deu uma risadinha. 


— Eu não lhe disse que fui transferido para o Comando Central?


— É a primeira vez que escuto isso.


— Eu disse, o que significa que não preciso levar meu corpo ao limite. Na verdade, nem preciso suar muito hoje em dia.


— Que sorte a sua —  disse Inês sem um pingo de sinceridade.


— Ah. Exceto, é claro, quando estou na cama com você.


Ele acrescentou o comentário com total desprendimento, como se descartasse um pensamento irrelevante.

A naturalidade com que ele se referia ao fato de terem passado a noite juntos lembrava a rotina de um desjejum diário ou a prática de um exercício regular……

"Não seja tímida."

Inês repetiu para si mesma mentalmente, sentindo-se encurralada.

"Ele fala de mim como se sexo comigo fosse um hábito, quando só dormimos juntos duas vezes. Que arrogante e presunçoso."


De fato, Cássel estava agindo de forma estranha. Talvez ele tivesse comido algo nojento, ficado doente e continuado a comer aquela coisa nojenta até perder todos os sentidos.

Inês não tinha outra explicação para o comportamento estranho dele desde a noite de núpcias.


Além de sua estranha obsessão por sexo com ela, ele tinha sido o mesmo de sempre. Durante os últimos dias de seu casamento, Cássel estava tão calmo e composto como sempre. Inês quase podia se enganar pensando que nada havia mudado e que os toques excitantes dele faziam parte da rotina diária do casal. 


Para um homem tão taciturno como ele, sempre foi relativamente generoso e gentil quando eram noivos. Ela sempre desconfiou que ele sabia como falar com as moças e, por isso, não achava surpreendente que ele pudesse ser carinhoso quando queria.


Diante de tudo isso, Inês não conseguia entender o que havia provocado tanta paixão em Cássel. Afinal de contas, não era como se ela tivesse tirado a virgindade dele. Ela só conseguia imaginar um homem tão luxurioso nos primeiros dias de contato com a intimidade física do sexo oposto. Para Cássel, isso teria acontecido há pelo menos sete anos. Por que ele estava tão obcecado por sexo agora?


Teria sido um erro a transferência dele para o Comando Central? Sem os treinamentos exaustivos no mar, restava-lhe energia em excesso, justamente no início do matrimônio e após um período de aparente abstinência para manter as aparências? Ou ele simplesmente agia assim por ter frequentado mulheres demais no passado?


"Será que ele enlouqueceu?"


Inês o fitou com evidente suspeita. Os fios loiros e desalinhados dele espalhavam-se sobre a seda macia do travesseiro. Sob a luz do sol nascente, o cabelo reluzia como ouro puro. Era uma visão digna de uma pintura, mas representava também o pior dos perigos. Ao menos aos olhos de Inês, cuja mente já se preenchera de desconfianças.


Ela esperou que ele se soltasse e se soltou dos lençóis, mas rapidamente caiu de volta nos braços dele. Naquela fração de segundo, ela se lembrou de que sair daquela cama e dos braços dele não importava no grande esquema. Ela conhecia sua tendência de se lançar de cabeça nas situações sem considerar o quadro geral. Ela não precisava ficar obcecada com pequenos detalhes, como o fato de seus planos matinais terem sido frustrados.


Cassel aproveitou a chance para puxá-la para mais perto e murmurar:


— Você vai me dar ideias se continuar a atacar meu corpo com o seu desse jeito. Talvez eu me sinta tentado a entrar em você. Afinal de contas, como você sabe, já estou duro.


— ......


Ele agiu como se ela tivesse rasgado a camisola e atacado, quando apenas esbarrou em seu corpo por acidente.


Ele a puxou sutilmente para mais perto e murmurou, como se tentasse dissipar os temores dela. Os corpos colidiram inevitavelmente, e o peito despido dele pressionou o dela de imediato…… Sobressaltada com a proximidade, Inês esqueceu o argumento anterior e questionou:


— …… Por acaso você aprendeu esse tipo de ousadia com o seu primo?


— Eu faço isso por instinto, não precisei aprender — respondeu ele, com falsa modéstia.


A mão de Cássel, que antes repousava nas costas dela, deslizou suavemente por baixo da seda do camisão que havia subido, acariciando a pele exposta de sua coxa. A caricia lhe causou um arrepio e Inês estagnou por um instante, o corpo rígido, antes de erguer as sobrancelhas para encará-lo de frente.


— …… Pare com isso.


— Você não me permitiu tudo, menos beijar seus lábios? — perguntou Cassel.


— Não use minhas palavras contra mim.


— Eu também recordo que você me ofereceu uma certa "ajuda" primeiro. Talvez......


De fato, Inês se lembrou do tipo exato de ajuda que havia oferecido.


— Essa oferta só é válida à noite — ela rebateu, cortando qualquer ideia dele.


— Mas minha excitação não espera o pôr do sol.


— Esse é o seu problema.—  Inês não se comoveu.


— Ah, isso é lamentável. Achei que isso funcionaria. — Uma pitada de decepção tomou conta da voz de Cassel.


Inês zombou. 

— Você não estava prestes a jurar pela sua vida que não teria relações sexuais comigo esta manhã?


— Bem, a oferta de me castrar se eu agir contra minha palavra ainda é válida.


— Cássel, suas palavras não correspondem às suas ações.


— Isso é porque meu cérebro sabe o que não devo fazer, mas meu corpo não sabe.


— Seu cérebro é uma parte do seu corpo, portanto, espero que você possa encontrar harmonia entre os dois.


Enquanto ela discursava com severidade, ele engoliu em seco e enterrou os lábios na curva do pescoço dela.


— Não devia exalar um aroma tão bom... — gemeu.


— …… Eu não uso perfume algum.


— Mas eu sinto.


Cássel roçou de leve a ponta do nariz contra a pele dela, permitindo que um sorriso sutil despontasse em seus lábios, suavizando a fisionomia habitualmente implacável.


— É por isso que estou nessa situação há mais de uma hora. Ah, minhas bolas chegam a doer.


Inês nunca entendeu como ele conseguia dizer coisas tão obscenas com uma cara séria. Ele deve ter um senso saudável de vergonha, pois geralmente corava ou ficava irritado com as zombarias de Oscar ou com as provocações dela.


"Talvez isso venha de sua vasta experiência sexual".


Inês olhou para os lençóis que cobriam suas metades inferiores. Debaixo dos lençóis, a ereção dele se tornava ainda mais proeminente enquanto cutucava o baixo ventre dela.


"Como é possível que algo desse tamanho consiga entrar?……"


Tomada por um misto de tédio e incredulidade, ela contraiu as sobrancelhas.


— É uma pena que isso reaja com tanta facilidade, mas não há o que fazer.


— Eu sei. É uma reação matinal.


Cássel depositou um beijo suave logo abaixo da orelha dela e começou a se levantar.


— Eu mesmo vou dar um jeito nisso.


Demorou alguns segundos para que Inês decifrasse o verdadeiro sentido daquela resposta tão despretensiosa. Diante daquela declaração velada de que ele pretendia se aliviar sozinho ali mesmo, bem no início da manhã, Inês fixou os olhos na fisionomia imponente das costas dele enquanto ele descia da cama. Com o olhar vacilante, ela indagou com urgência:


— Você não está sugerindo que vai fazer isso aqui e agora, não é?


— Este é o nosso dormitório. Onde mais eu faria?


— Mas eu estou bem aqui……!


— — E isso importa?


— Claro que importa! Eu me importo……!


Cássel, contudo, já desamarrava e despia a roupa íntima com total desapego.


— Para mim, pouco importa se você está olhando ou não…… Afinal de contas, somos um casal. Na verdade, pensando bem, acho que ter você como espectadora tornará tudo ainda mais instigante.


— Mesmo entre marido e mulher, existe uma dignidade que deve ser mantida……!


— — Você fala de elegância de um modo tão adorável, logo depois de termos passado a noite inteira conversando sobre esse exato assunto.


Antes que pudesse vislumbrar aquela obscenidade sob a claridade radiante do sol que invadia o quarto, Inês puxou o negligé com rapidez sobre os ombros e os quadris, rolando para fora da cama. Num movimento ágil de fuga, ela buscou refúgio no closet, batendo a porta atrás de si.



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