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Capítulo 32 — Paixão em Combustão

Enquanto desciam as escadas, Cássel notou a mudança no olhar dela e arqueou as sobrancelhas.


— Que expressão é essa?


— Sim, e o que significa esse arqueado de sobrancelhas?


— Eu perguntei primeiro, Inês.


Infantil……

Embora ela tivesse murmurado o julgamento de forma audível, Cássel não pareceu se importar. Não, ela não podia se deixar arrastar por aquele jogo. Inês não compreendia que tipo de vento soprava no noivo de tempos em tempos para deixá-lo daquela forma, mas aquele potro precisava de rédeas.


Se estivessem estritamente no closet do casal, ela até toleraria aquele comportamento até certo ponto…… Mas era inadmissível agir assim em plena tarde, em uma mansão onde os empregados circulavam constantemente pelos corredores.


— Quando estiver em casa, comporte-se como o senhor deste lugar. Mantenha a dignidade.


— Não acho que você esteja me tratando com a dignidade de um senhor.


— Num lugar onde os funcionários transitam sem aviso prévio, ver o mestre e a esposa nessa sem-vergonhice…… Isto é……


— É o quê?


— Você não deveria usar seus galanteios com a esposa em um ambiente assim...

Enquanto caminhava apoiando metade do próprio peso contra a força dele, Inês tentou repreendê-lo com firmeza. Ainda assim, não ousou se soltar dos braços dele, temendo a súbita aparição de outro criado.


— Clara não pareceu se importar de estarmos tão perto assim — Cássel notou.


— Ela não teve escolha a não ser aceitar. Ela pode ter te ouvido mencionando palavras vulgares sobre ficar duro...


— Inês, você é quem deveria ter cuidado.


— Com o quê?


— Se você continuar falando sobre minha ereção assim, isso só servirá para me excitar.


O rosto de Inês se tornou frio como pedra. 


— Se isso acontecer, você pode cuidar disso sozinho como faz de manhã. A noite ainda não caiu.


— Essa é uma promessa de que você vai me ajudar a cuidar disso quando a noite chegar? — A voz de Cássel era esperançosa, não zombeteira.

Inês novamente reforçou sua paciência. 


— Um cavalheiro não deve distorcer as palavras de uma dama para seu próprio benefício assim.

Cássel suspirou. 

— Nós não estamos mais presos a tais regras de formalidade. Nós somos uma família agora.


— As mesmas regras de cortesia se aplicam entre membros da família. — Inês se virou e olhou-o diretamente nos olhos. — Não distorça minhas palavras.


— Você mal me dá uma chance para fazer isso.


— Exatamente, o mundo não funciona assim. E eu sou uma mulher de temperamento difícil, como você mesmo mencionou.


No instante em que seus pés tocaram o chão do primeiro andar, ela manobrou o corpo e escapou habilmente dos braços dele.


— Agora que está casado, você é um adulto, Cássel.


Ela julgou ter encerrado a discussão com aquela instrução bem estruturada, mas, assim como ocorrera pela manhã, o braço tenaz dele a seguiu e a puxou firmemente de volta para o seu lado. O som do protesto dela ecoou pelo saguão, evidenciando que o peso que ganhara desde que chegara a Calstera não fazia a menor diferença contra a força dele.


— Escalante! — exclamou Inês.


— Eu te disse para não me chamar pelo meu sobrenome. É difícil saber a quem você está chamando.


— Mas você é o único Escalante aqui. Seu irmão não está aqui!


— Inês, você deveria se lembrar que você também é uma Escalante agora.


A declaração soou inesperadamente territorial. Surpresa, Inês examinou o rosto de Cássel, mas não encontrou nenhum traço de fúria ou possessividade que deveria acompanhar um macho marcando seu território. Ela tentou afastar sua intuição. Ainda assim, uma dúvida roedora permaneceu no fundo de sua mente. Inês estreitou os olhos e respondeu:

— Eu não teria uma ocasião para me chamar pelo meu sobrenome, a menos que eu ficasse louca.


— De fato, você não teria. Você é esperta demais — concordou Cássel.


— O que há de errado com você hoje?


— Eu perguntaria o mesmo a você, Inês Escalante.


— Cássel — Inês disse o nome dele como um aviso.


— Sim, esse é meu nome. Me chame assim, como você tem feito por semanas. — Cássel sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos.


Diferente da postura que mantivera no segundo andar, Cássel curvou os lábios em um sorriso aberto e a conduziu pelo corredor em direção à sala de jantar. Raúl, que vinha caminhando na direção oposta acompanhado por Alfonso, o mordomo da residência, deparou-se com o casal e curvou a espinha imediatamente.


— Senhor, senhora. Peço perdão pela minha intromissão.


Certamente, em sua primeira vida, Inês costumava interagir com Raúl sem qualquer traço de pudor, expondo suas piores facetas diante dele. Em suas vidas passadas, ele tinha cuidado de todo o seu trabalho sujo. Mas agora, ela sentiu suas bochechas corarem por Raúl estar observando-a tão íntima com Cássel.

Afinal, Raúl e Juana eram quase família, e ela imaginou que coraria de forma semelhante se Luciano a tivesse encontrado nos braços de outro homem. 


Mesmo se esse homem fosse seu marido legal, ela ainda se sentia desconfortável. Ela conseguiu milagrosamente se desvencilhar do braço de Cássel. O olhar dele obscureceu-se por uma fração de segundo, mas ela não percebeu.


— Raúl, você já jantou?


— Ainda não, senhora. Mas assim que os senhores terminarem a refeição, nos reuniremos com os demais funcionários lá embaixo para comer.


— Então devo comer rápido para que você possa se alimentar. Deve ter sido uma viagem exaustiva até aqui.


— Por favor, não coma às pressas por causa de alguém como eu. As funções digestivas da senhora Inês sempre foram muito delicadas……— Raúl se interrompeu quando ele sentiu o olhar de Cássel. O bem-estar de Inês não era responsabilidade dele, mas sim de seu marido. Raúl não completou a frase e puxou seus lábios em um sorriso educado.

— Obrigado por sua preocupação, minha senhora.


— Você é quem está sempre preocupado comigo, Raúl. Sinta-se à vontade no andar de baixo.


— Sim, senhora. — Raúl se curvou para o casal.


— Alfonso, por favor, oriente o Raúl adequadamente.


— Sim, senhora.


O mordomo e o jovem lacaio passaram por eles e seguiram em direção à pequena escada lateral que conduzia aos aposentos inferiores e à cozinha dos empregados. Inês observou Raúl desaparecer degraus abaixo e, em seguida, soltou um "Ah", como se tivesse se lembrado tardiamente da existência do marido ao seu lado.


Cássel mantinha as sobrancelhas arqueadas com uma expressão imperturbável.


— …… Perto dele, você age como se eu não significasse nada — murmurou ele em tom baixo, passando por ela e adentrando a sala de jantar. Inês não conseguiu processar a totalidade da queixa, captando apenas a insinuação de que o rapaz não deveria estar ali. 


— Meu rapaz fez algo para incomodar você?


Cássel ficou ainda menos satisfeito com a pergunta dela. — Você sempre o chama de "meu rapaz"?


— Bem, ele é um rapaz, então sim.


— Não, ele é seu funcionário — Cássel corrigiu.


Inês não tinha certeza de como explicar seu relacionamento com Raúl de uma forma que Cássel entenderia. 


— Sim, Raúl é meu empregado, mas...— Perdida em pensamentos, tentando formular uma explicação simples, instintivamente sentou na cadeira que Cássel puxou para ela.


— É um funcionário, e o que mais?


— Pensando bem, não há muito mais o que dizer. Ele é um bom rapaz.


— É mesmo?


— Ele cuidou muito bem de mim desde que eu era jovem. É extremamente leal.


Inês ficou presa novamente. Ela não conseguia descrever a lealdade de Raúl sem explicar o quão quebrada ela já tinha sido e como Raúl a tinha cuidado nos momentos mais desafiadores. Ela não queria divulgar nenhum desses tópicos a Cássel. Em vez disso, ela escolheu voltar sua atenção para a comida e abruptamente encerrou a conversa. 


— Vamos comer. Você disse que estava com fome.


Apesar do conselho de Inês, proferido com sua habitual firmeza velada por um tom brando, Cássel, mesmo faminto, não tocou nos talheres. Ele permaneceu fitando-a em silêncio antes de disparar:


— Você fala sobre ele como se estivesse se referindo a um cão de estimação.


— O Raúl é um lacaio, é completamente diferente.


— Você tem um verdadeiro talento para falar com os homens como se fossem cães.


— Não guardo memória de possuir esse tipo de talento.


— O cachorro travesso. O cachorro bonito. O cachorro que sabe esperar. O cachorro leal. O cachorro promíscuo. E claro, o bastardo……


— ……


— Se formos resumir a forma como você costuma se dirigir aos homens, geralmente gira em torno disso.


— …… Talvez pareça assim, mas garanto que nunca foi intencional.


— E esse cachorro bonito e leal, esse Raúl Ballan, costuma chama-lo pelo primeiro nome com frequência?


— Você esperava que eu me referisse formalmente a um funcionário mais jovem que eu como "Senhor Ballan"?


— Então a definição de cachorro está correta.


— …… Ele não é um cachorro. Podemos comer? — Inês ficou exasperada. — Por que você está sendo tão difícil?


— Porque eu estou muito irritado, mas eu não sei por quê.


Ao pronunciar aquilo, Cássel contraiu levemente os lábios. Inês franziu o cenho, encarando-o como se estivesse diante de um menino caprichoso, mas ele sustentou o olhar com uma seriedade flagrante e severa.


— Talvez o convidado de hoje não tenha agradado.

Inês suspirou. 

— Aquele rapaz é um lacaio da família Valeztena. Ele mal é um convidado. Ele está aqui para entregar minha bagagem.


— Então, você não lamenta de eu ter voltado para casa mais cedo do que o normal?


Inês inclinou a cabeça em confusão. — Por que eu me lamentaria disso?


Cássel fez o seu melhor para suprimir o descontentamento em seu rosto. 


— Eu presumi que eu tinha interrompido seu reencontro.


Inês considerou isso por um momento. 

— Bem, eu sou bem próxima de Raúl. Ele é especial para mim.


— Especial... — As palavras de Cássel se arrastaram, e seus olhos se estreitaram.


— Você se lembra que eu te falei sobre a minha dama de companhia que é como uma irmã para mim?


— Não, você nunca me falou — Cássel corrigiu. — Mas eu já te vi com Juana.


Os olhos de Inês se arregalaram uma fração de centímetro. — Onde você me viu com ela?


— Você realmente não se lembra o quão frequentemente eu visitava sua casa, não é?


Inês pareceu atordoada por um segundo, mas ela se recuperou rapidamente. 


— O que é importante é que você saiba de quem eu estou falando. De qualquer forma... aquele rapaz, Raúl, cuida de mim como Juana faz.


— Diferente de Juana, eu nunca te vi com aquele garoto — Cássel disse entre dentes as últimas duas palavras.


— Talvez suas visitas à mansão Valeztena em Mendoza coincidiram com o tempo em que ele foi enviado para Perez. — Inês estava muito preocupada para notar como as mandíbulas de Cássel se tencionaram quando ele falou sobre Raúl.


— E minhas visitas a Perez? Por que eu não o vi então?


— O castelo em Perez é grande demais, então você pode não ver todo mundo nos terrenos.


— É mesmo? — Cássel não ficou satisfeito com a resposta dela.


— Eu acho que também é bem provável que você o tenha esquecido, mesmo que você o tenha visto.


— Você subestima minha memória.


— Não estou dizendo que você tem uma mente ruim, só estou dizendo que ele não teria chamado a sua atenção. O Raúl é bastante perspicaz, inteligente e espirituoso para lidar com os nobres……


À medida que os elogios sobre as habilidades de Raúl continuavam a surgir, Cássel exibia uma expressão de completo desagrado no rosto, mas Inês geralmente ia até o fim com o que tinha a dizer.


— Tudo bem — ele interrompeu. — Ele é bem capaz, de acordo com você.


— Sim — concordou Inês. — As pessoas que são boas no que fazem têm menos probabilidade de serem notadas pelos seus superiores.


— Eu entendo. Eu entendi que ele tem uma presença insignificante.


— O que eu quero dizer é que ele nunca incomoda ninguém.


— Com isso eu teria que discordar, porque a presença dele me incomoda agora — disse Cássel.


As sobrancelhas de Inês se uniram em descrença. 


— …… O Raúl por acaso cometeu algum erro sem o meu conhecimento?

Ela duvidava que Raúl seria tolo o suficiente para irritar Cássel, e ela tinha certeza de que ele nem sequer teve a chance de ter um momento a sós com Cássel.


— Não, ele não fez nada. Seu Raúl é perfeito, Inês.


Inês não percebeu o sarcasmo ou o ressentimento em sua voz. 


— Eu sei. Até os aristocratas mais difíceis de agradar gostam dele.


— Eu vejo. — As respostas de Cássel estavam ficando mais curtas a cada elogio direcionado a Raúl.


— Ah. — Inês percebeu algo e se virou ansiosamente para Cássel. — Já que você retornou tão cedo, nosso jantar terminará mais cedo do que o normal. Você se importaria se eu fosse para o andar de baixo para falar mais com Raúl depois? Eu tenho algumas perguntas que eu preciso fazer a ele.


— Por que você pergunta? Você está buscando minha permissão? — Cássel ficou surpreso que ela sequer se deu ao trabalho de perguntar, mas não demonstrou a surpresa em seu rosto.


Inês deu de ombros.


— Já é quase noite. Não há nada de inadequado, já que estamos na casa, e ele é um servo da família Valeztena. Ainda assim, queria informa-lo já que você diz que nem se lembra dele.


— E o que isso tem a ver?


— Ele é um homem, e você é o meu marido.


— ……


— Eu gosto de ser minuciosa. Certifique-se de tomar nota disso também.


Por conta de detalhes assim, Inês, que vinha desfrutando diariamente daquela rotina ociosa em Calstera, proferiu suas palavras como uma leve declaração de princípios e começou a comer diligentemente. No fim das contas, a comida de Yolanda era a melhor de todas.

Cássel observou a cena e enterrou o rosto entre suas grandes mãos. Apenas a ponta de suas orelhas estava tingida de vermelho, contrastando com o crepúsculo que se instalava do lado de fora da janela.


Aquilo era irritação ou constrangimento?


✽ ✽ ✽


Inês tinha dito a Cássel que era impossível não gostar de Raúl.

No entanto, ele estava profundamente irritado com Raúl Ballan, um sentimento não muito diferente de como ele se sentia em relação à cômoda no meio do corredor no segundo andar em que ele continuava esbarrando. 


Raúl tinha acabado de chegar naquela tarde, e o relógio tinha acabado de marcar oito, mas sua presença já tinha irritado Cássel mais de uma vez. Primeiro, quando Raúl e Inês estavam conversando próximos ao jardim; segundo, quando Raúl agiu de forma amigável com Inês antes do jantar; terceiro, este exato momento......


Cássel ficou irritado enquanto observava Inês e Raúl caminhando pelo jardim. A dupla parecia pitoresca enquanto eles passeavam pelo jardim romântico que o Major Comandante Elba tinha reformado para a esposa.


Raúl Ballan não deveria ser o convidado deles. Na verdade, ele tinha vindo de uma origem tão humilde que Cássel nunca foi formalmente apresentado a ele. Apesar da falta de apresentação, se lembrou do sobrenome de Raúl porque Inês não conseguia parar de falar sobre seu lacaio durante o jantar.

Ele possuía um rosto fino e limpo, uma fisionomia bonita de quem parecia ter crescido sem conhecer o sofrimento, mas bastava um olhar atento para decifrá-lo. Dava para notar, pelo aspecto debilitado, que se tratava de alguém que já havia passado por desgastes físicos e dependera de medicamentos. Ao crescer um pouco mais, o rapaz devia ter imaginado que tudo no mundo conspiraria a seu favor, pois seus olhos transbordavam autoconfiança. Estar cercado por pessoas inferiores a si mesmo, naturalmente, o faria parecer extraordinário.


Sob um ponto de vista estritamente frio e objetivo, suas feições eram aceitáveis, mas a postura sofisticada — fruto de uma educação de alto nível na capital — e a fisionomia que agradava moderadamente aos nobres eram vantagens visíveis para qualquer um.


Ao contrário do padrão de Cássel Escalante, se um plebeu que se senta ao seu lado para tagarelar fingindo ser inteligente for bonito demais, torna-se um fardo; se for feio, você simplesmente não quer olhar para ele. Raúl Ballan possuía um rosto que não era pesado nem desagradável nesse sentido. Ele era a própria definição de uma eficiência atraente e discreta.


A estatura alta e o porte esguio faziam com que o uniforme de lacaio lhe caísse muito bem. Não tinha um físico particularmente vigoroso, mas também não se podia dizer que era ruim.


Como quem avalia o peso da carne pendurada no teto de um açougue, Cássel listou, uma a uma, as aparentes qualidades e defeitos de Raúl Ballan. No geral, as vantagens não eram duradouras, e as desvantagens tampouco se estendiam por muito tempo. Contudo, mesmo excluindo todos os defeitos e somando todas as virtudes, não havia absolutamente nada naquele lacaio capaz de atrair Inês.


Ela tinha escolhido ele, Cássel Escalante de Esposa, como noivo. O homem a quem ela olhava desde a infância— e, daqui em diante, os detalhes podiam ser omitidos —; desde então ele foi seu primeiro e longo amor não correspondido, por mais que as coisas não fossem assim no presente.


Cássel concentrou-se em Raúl, afastando a incômoda verdade de que Inês já não o olhava da mesma forma. Inês Valeztena se transformou em Inês Escalante unicamente porque, em primeiro lugar, havia visto o rosto dele. Diante da lembrança daquele dedo gordinho que o apontara quando ela tinha apenas seis anos, ficava claro que os padrões estéticos dela voavam alto no céu; ela possuía o critério refinado de rejeitar qualquer coisa insignificante. Um padrão firme e simples: exigir o melhor, ao menos no que dizia respeito à face.


Raúl era um homem que não preenchia nenhum dos requisitos de Inês, independentemente de como se analisasse o histórico dele. Portanto, não importava a perspectiva.


— ……


Nesse instante, Cássel notou Inês acariciando gentilmente a cabeça de Raúl. O gesto o lembrou de uma criança acariciando seu cachorro. Ele concluiu que Raúl era o animal de estimação dela, nada mais. Mas, novamente, ele se lembrou de Inês descrevendo seu lacaio como “um bom rapaz” e sentiu uma onda de irritação subir por seu pescoço.


Cássel tentou afastar sua irritação, mas seu rosto se amassou na medida que ele viu o rosto de Raúl florescer em alegria.

Foi então que Inês sorriu. O som não cruzava o vidro, mas era um sorriso que claramente indicava uma risada calorosa e audível.


Aquilo era algo desconhecido até para Cássel.


A cena testemunhada através da janela sequer transmitia a voz humana. Ele recordou o primeiro pensamento que o assaltara ao ver o lacaio pressionando o rosto contra a mão de Inês mais cedo naquela tarde.

"De jeito nenhum. Ele é...?"


Os pensamentos de Cássel corriam em círculos. Será que Raúl é quem ensinou Inês...?

Cássel poderia jurar por sua própria extensa história sexual que Inês tinha estado com outros homens antes do casamento, por mais que ela afirmasse o contrário. Embora Cássel tivesse se esforçado para tirar isso da cabeça, ele não conseguia parar de se perguntar se Raúl estava incluído nessa lista.


Mesmo que na noite de núpcias Cássel tivesse tirado sua virgindade, ele duvidava que Inês não tivesse experimentado outros atos sexuais. Durante a longa e exaustiva noite deles, alguns de seus gestos eram familiares demais para quem estaria vivenciando sua primeira vez.


Ele não se importaria se Inês tivesse estado com dez ou vinte outros homens; na verdade, preferia a hipótese de ela ter tido múltiplos amantes. O que realmente o incomodava era a possibilidade de ela ter tido apenas um. A ideia de que um único homem tivesse sido capaz de conquistar a impenetrável Inês Valeztena enchia Cássel de pavor.


 "Talvez esse bastardo…? De jeito nenhum.…".


O amante intangível de Inês. Um homem sem sombra…… Que tipo de pervertido teria ensinado a Inês tudo sobre o sexo, exceto como se entregar adequadamente a ele?

É por isso que Cássel tinha sido tão curioso sobre a identidade do amante dela e tentou desenterrar informações sobre o homem, mas sem sucesso. Até agora, ele não tinha um único candidato em potencial.


Cássel encarou o rosto de Raúl.

Atrás do cabelo castanho-dourado e dos olhos cinzentos, Cássel podia ver a astúcia e a ganância de Raúl. Ele provavelmente escondia um caráter desagradável atrás do rosto bonito. Mas quando Raúl olhou para Inês, seus olhos estavam cheios de adoração e afeto em vez de astúcia. Mesmo que Raúl tivesse permissão para ser íntimo de Inês....... Ele provavelmente explodiria em lágrimas e gritaria que ele não era digno de revelar seus genitais imundos diante do olhar sagrado dela.


Essa linha de pensamento incomodou Cássel de uma maneira diferente. Como alguém constantemente excitado na frente de Inês, ele nunca poderia vencer contra outro homem que a admirava demais para cobiçá-la.


Cássel parou no caminho. 


"Será que estou me colocando como um rival contra este rapaz? Um lacaio, de todas as pessoas? "


Ele cobriu o rosto com as mãos em humilhação por seus próprios sentimentos. Ele não estava em alguma competição de homem das cavernas por Inês com este garoto, e, portanto, toda essa premissa falhava.


«…… A Senhora disse que me levaria consigo quando se casasse, não foi?»


No início, Cássel pensou que aquela era uma frase que Inês diria a um amante escondido secretamente no Castelo de Pérez, mas, parando para pensar agora, era óbvio que um bicho de estimação merecia dizer tal coisa.

Raúl Ballan era o cão leal de Inês.

Ainda assim, a presença dele parecia um presente para ela…… Cássel continuou fitando a varanda sem qualquer sinal de que a conversa entre os dois terminaria, sentindo pela primeira vez uma incômoda sensação de exclusão. As luzes românticas do major Elba faziam com que os dois parecessem a porcaria de um casal de namorados.


O tom de voz que a chamava de "Senhora Inês". A familiaridade nascida de um longo tempo de convivência que sustentava aquela intimidade. O eco de compreender os pensamentos um do outro sem a necessidade de palavras. Mesmo que Cássel a conhecesse há dezessete anos, ele nunca compartilhou o que Raúl parecia ter com Inês.


Naquela noite, Inês tinha sido mais gentil com Cássel do que o seu eu habitual. E, toda vez que ela agia daquela forma, ele era invadido pelo pensamento distorcido de que, talvez, ela estivesse agindo assim por causa de seu amante.


Cássel se envergonhou de suas próprias suspeitas e pensamentos.

"Ele nunca poderia satisfazê-la. Os gostos de Inês são refinados demais para aquele garoto."

Cássel sempre se imaginou como o único que poderia atender aos altos padrões de Inês. Então, para sua paz de espírito, Cássel concluiu que Raúl era um mero pervertido que se satisfazia em interpretar o papel de cachorro de Inês. 


"E ainda sim, não gosto dele. Ele ainda me incomoda."


✽ ✽ ✽


A residência oficial de Cássel contava com apenas seis funcionárias. Descontando a idosa governanta Arondra, a velha cozinheira Yolanda e seu ajudante, restavam somente três criadas.

Todas as três eram servas com um forte espírito profissional, mas, infelizmente, não tinham nenhuma experiência em servir a alta nobreza. Elas estavam vendo de perto uma mulher de status tão elevado quanto Inês pela primeira vez na vida.


Que utilidade teria uma criada refinada e educada na residência oficial de um militar solteiro? Na província, o serviço nos aposentos de um mestre homem geralmente era realizado por empregados do sexo masculino — homens com melhor nível de instrução, chamados de mordomos ou valetes.

Cássel contratava apenas quem ele precisava, e Arondra era astuta o suficiente para contratar apenas a pessoa certa para o cargo. Como resultado, ninguém na residência era qualificado para servir a nova Senhora Escalante.


Arondra insistia com Inês para contratar uma nova pessoa de Mendoza, Esposa ou Perez que fosse devidamente treinada para ser uma dama de companhia. Inês recusou. A estrutura de pessoal atual parecia funcionar bem, e Inês não queria atrapalhar nada. Ela usou o tamanho pequeno da casa como desculpa para não aumentar o número de residentes, e Arondra aceitou a desculpa relutantemente. 


Secretamente, Inês raciocinou que ela acabaria deixando esta casa eventualmente, mesmo que seu estilo de vida sedentário ultimamente sugerisse que ela não iria a lugar nenhum tão cedo.


Além disso, aquela casa lhe dava liberdades que ela não possuía nem em Mendoza, nem em Esposa. A liberdade de não ter que gastar horas se enfeitando, a liberdade de não precisar manter tantas formalidades……

Como a casa era simples, era divertido tentar fazer as coisas por conta própria. Além do mais, ela não necessitava de uma grande produção de maquiagem pela manhã ou à noite…… Assim como o visual sóbrio de luto que costumava usar, a recém-casada tentava ativamente manter a simplicidade.


Preservar a dignidade e a aparência limpa de uma pessoa era essencial, mas ela não permitia que seu rosto bonito ou qualquer vestígio de charme pessoal se destacassem por um único momento. Tudo para que, de alguma forma, a mente de Cássel não fosse invadida pelo pensamento de: 'Acho que ela pode ser bonita'. Para evitar que ele a desejasse.

Antes de se casar, Inês tinha tentado o seu melhor para parecer simples e pouco atraente, mas ela não conseguia impedir Juana de ser a talentosa esteticista que ela era. Nesta nova casa, Inês tinha que depender de suas próprias mãos inexperientes para arrumar o cabelo, maquiagem ou roupa, o que lhe convinha bem.


De fato, Calztera era o lugar perfeito para passar o primeiro par de anos de seu casamento. Depois disso, tudo o que Inês precisava fazer era passar o tempo até que Cássel inevitavelmente ficasse entediado com ela e começasse a traí-la.


Inês foi literalmente arrancada de seu devaneio por uma das três criadas não qualificadas.


 — Oh, não, não, não! Senhora... A escova... E-Eu sinto muito. Doeu? — exclamou a criada em pânico. A escova tinha ficado presa na bagunça emaranhada do cabelo de Inês. Quando a criada tentou soltar a escova, ela efetivamente puxou um punhado de cabelo de sua senhora.


Inês ajeitou a cabeça novamente e sorriu pacificamente. 


— Não, não doeu nada.


A criada ainda estava em pânico e pairava nervosamente sobre o cabelo de Inês. 


— Eu não sou acostumada com tarefas tão delicadas... Eu sinto muito... Deve ter doído...


Se aquela cena tivesse ocorrido com uma criada no castelo de Perez, a reação não teria sido um tímido "deve ter doído, desculpe", mas sim um alvoroço generalizado, como se ela tivesse cometido uma tentativa de assassinato. Mesmo que Inês permanecesse imóvel, a serva já teria se ajoelhado, batido com a cabeça no chão e chorado como se o mundo estivesse prestes a desabar.


É claro que aquele desespero se devia muito mais ao medo das governantas do castelo e das outras criadas de alto escalão do que de Inês, que não nutria o menor interesse pelos funcionários de nível mais baixo. Afinal, os castigos corporais no castelo eram estritos e severos.


Em vez de caminhar sobre uma camada de gelo tão fina, Inês preferia mil vezes aquele lugar onde podia simplesmente responder: "Deve ter doído, desculpe". Todo mundo ali levava uma vida difícil. Era uma falta de formalidade, não uma falta de consideração para com ela.

Obviamente, a criada não tinha como adivinhar que Inês estava tendo seus cabelos arrancados enquanto planejava um futuro ambicioso e sorria feliz sem perceber.


— Meu cabelo ainda está úmido, por isso é natural que seja difícil penteá-lo corretamente. Vá devagar……


— Mas talvez seja melhor…… O pente…… o pente não sai do lugar……


Inês sequer havia notado a gravidade da situação enquanto estava distraída, mas, ao olhar para o espelho e ver o objeto sendo forçado, sentiu uma pontada de dor a cada puxão. Como ela mesma havia constatado, a criada era forte demais e não tinha controle. Enquanto Inês franzia o cenho pela dor, o rosto da serva afundava em uma profunda culpa.


"Talvez essa força seja o equivalente ao vigor necessário para esfregar o peitoril de uma janela".

Inês suspirou — cuidando para que o gesto não parecesse direcionado à funcionária — e, com delicadeza, desvencilhou os cabelos e o pente das mãos da garota.


— Deixe que eu faço. Pode parar e ir descansar.


— Sinto muito. Sinto muito mesmo……


E foi exatamente nesse momento que Cássel entrou no quarto, deparando-se com a criada pedindo desculpas sinceras repetidas vezes.


— O que está acontecendo aqui?


— Nada. Pode ir descansar agora.


Inês foi compreensiva com a criada que, para piorar sua situação, havia esbarrado com Cássel em um momento desfavorável, e apressou-se em dispensá-la. Cássel não era o tipo de homem que faria um escândalo por um erro bobo de uma serva, mas, para a funcionária, a situação devia ser profundamente constrangedora.

Cássel levantou uma sobrancelha e então franziu a testa para Inês no espelho. Quando ele viu a escova de cabelo e o punhado de cabelo, ele rapidamente descobriu o que tinha acontecido.


— Eu te disse para contratar uma nova dama de companhia.


— Eu posso contratar uma quando retornarmos a Mendoza.


— Nós estaremos em Calztera por um tempo, no entanto.


— Bem... — Inês sabia que este casamento duraria por vários anos, pelo menos. Ela provavelmente precisaria de uma dama de companhia em algum momento. Mas ela não queria acumular bagagem quando ela esperava se mudar eventualmente. Por uma pequena quantidade de respeito por Cássel, Inês não queria atrapalhar demais a vida dele em Esposa ou Mendoza. 


Em vez de contratar novas pessoas para ela ou ter seus pertences por toda a casa, ela queria que seu eventual desaparecimento fosse pouco perceptível. Então, ela foi rápida em usar a casa pequena como a desculpa perfeita. 


— Eu não sei se podemos acomodar outra serva. Esta casa já está cheia.— Foi a mesma desculpa que ela usou para impedir Raúl de empilhar seus vestidos no closet de Cássel. — Os aposentos dos criados são muito apertados... Você sabe que o jardineiro até tem que usar o dormitório lá fora.


— Nós podemos arrumar espaço para mais uma criada — Cássel insistiu.


— Mas nós já temos Arondra, a cozinheira, as criadas de limpeza, o garoto do estábulo...


Cássel deu de ombros. 


— Nós poderíamos demitir um deles.


Inês zombou. 


— E como você se viraria sem qualquer um desses servos? Você planeja dirigir sua própria carruagem? Ou pedir para as criadas de limpeza cozinharem? Ou pedir para os cozinheiros limparem? Eles sairiam imediatamente.


Cássel respondeu sem perder o ritmo: 


— Eu não vou desistir da Yolanda.


Inês riu levemente com o quão irredutível ele soava. As prioridades dele claramente estavam com a boa comida, mesmo que isso significasse que ele teria que dirigir sua carruagem.


— Você só come carne, de qualquer forma.


Cássel levantou uma sobrancelha e murmurou:


— Pratos de carne requerem uma mão experiente para grelhá-los corretamente.


— Seus bifes mal são grelhados. A maioria pinga sangue.


— Apenas um profissional pode alcançar aquele equilíbrio perfeito de interior suculento e a camada externa crocante.

Enquanto ele falava, Cássel se inclinou para a frente e pegou a escova de cabelo ainda presa no cabelo de Inês. Era óbvio que ele nunca tinha tocado em uma escova de mulher antes. Ele atrapalhou-se desajeitadamente para desembaraçar o punhado de cabelo da escova. Suas sobrancelhas se franziram enquanto ele se concentrava na pequena escova em suas mãos enormes.


Inês riu novamente com a cena.


— Pare de rir de mim. Você está atrapalhando minha concentração.


Isso só fez Inês rir mais. — Você riria também, se pudesse se ver agora.


— Continue rindo se você quiser dormir com a escova ainda presa.


— Deixa para lá. Eu posso desembaraçar sozinha.


— A escova está na parte de trás da sua cabeça. Você nem consegue ver.


— Não importa. Um pouco de óleo de cabelo deve resolver o problema.— Inês tentou alcançar a escova, mas Cássel a afastou. Ele estendeu sua outra mão. — Me dê o óleo de cabelo.


Inês derramou algumas gotas na mão dele e o observou pingar o óleo no cabelo emaranhado. — Está funcionando?— ela perguntou.


— Não, na verdade não... — Cássel franziu a testa enquanto ele se concentrava. 


— Você realmente precisa de uma dama de companhia. Ou você poderia trazer Juana para cá.


— Não, Juana precisa se casar com o homem que ela ama. Eles ambos moram em Perez. Embora eu suponha que ele poderia vir para Mendoza, já que ele também é um funcionário dos Valeztena.


— Então, nós podemos contratar ambos em Calztera.


— Cássel, você não percebe o quão pequena é a sua casa?


Ele deu de ombros. Dado que ele costumava morar em uma casa com espaço amplo para todos os servos, ele ficou um pouco irritado com a repreensão de Inês, mas ele a ignorou. 


— Seu ponto era que Juana precisa ficar com esse homem. Meu ponto é que eles podem ficar juntos se esse homem vier com Juana.


— Eu não quero isso. — Inês balançou a cabeça. — Ambos nasceram em Perez e vêm de famílias leais aos Valeztena. Eu não quero que eles se mudem por minha causa apenas para se mudarem de novo depois de alguns anos.


Cássel argumentou:


— A mansão Escalante em Mendoza não é muito longe da mansão Valeztena, e nosso castelo em Esposa tem uma rota direta para Perez. Eu continuarei estacionado aqui, então eles não teriam que se mudar com muita frequência.


Foi então que Inês percebeu que ela tinha falado com a premissa do casamento terminando depois de alguns anos. Embora Cássel não tenha notado a discrepância entre a lógica dele e a dela, Inês ficou irritada consigo mesma por ser tão tola. A este ritmo, ela poderia contar a ele todos os seus planos por acidente.


"Não baixe a guarda, Inês!"


Ela repreendeu a si mesma. O objetivo é fazer ele baixar a guarda, não cair em sua própria armadilha.

Para seu alívio, Cássel estava muito preocupado com o cabelo dela para notar a autocritica em seu rosto.

Inês riu novamente. relaxando ao ver um homem tão bem construído mexendo com mechas de cabelo minúsculas em suas mãos enormes. Mas a beleza dele era tão poderosa que ele nunca perdia seu charme, não importava o quão desajeitadas suas mãos fossem. O charme de Cássel permaneceu inalterado mesmo quando ele estava apenas divagando; ele não parecia um tolo, mesmo quando ele fazia algo bobo.


Nesse ponto, Inês teve que admitir que Cássel podia ser adorável às vezes. Ela entendeu isso em um nível teórico, mesmo que ela não se conectasse emocionalmente com essa observação.


Ao contrário da maioria das mulheres, Inês não era mais facilmente influenciada por emoções e não confiava em sua intuição. Afinal, seus instintos a tinham levado a Oscar, que era um cafajeste inútil, e depois a Emiliano, que era um órfão bonito, mas sem dinheiro.


Ela tinha escolhido Oscar, impulsionada pelo desejo instintivo por poder, e Emiliano por causa de sua beleza juvenil e disposição gentil. Infelizmente, ambos os homens estavam longe de ser um marido ideal. 


Embora Oscar fosse o primeiro na linha de sucessão ao trono, ele estava infectado com doenças venéreas e a tratava mal. Enquanto Emiliano tinha um rosto bonito e era profundamente dedicado a ela, ele não era poderoso o suficiente para proteger a família deles da cruel realidade.


Então, Inês concluiu que seu gosto por homens não podia ser confiado.


No entanto, ela não tinha escolhido Cássel com base em seu gosto. Depois de pesar cuidadosamente suas opções e analisar seus riscos, ela tinha decidido com base apenas na razão.


Inês tinha encontrado Cássel inúmeras vezes em sua primeira vida, mas nunca pensou muito sobre ele. Tudo o que ela tinha a dizer sobre ele era que ele era um homem preguiçoso e irresponsável e a falha da família Escalante, com seu rosto impecável como a única graça salvadora.


Agora, ela via o homem no espelho, ainda cuidadosamente penteando seu cabelo, e o achava muito satisfatório. Não exatamente porque ele era seu. Ela se sentiu satisfeita que cada faceta deste homem atrairia outras mulheres. Sempre que ela notava suas feições impressionantes, músculos tonificados ou algum outro charme, ela ficava feliz com sua decisão.


Dada a reputação de Inês como uma dama distante e parecida com um corvo, as mulheres continuariam a se lançar sobre Cássel, apesar de seu status de casado. Eles viviam em uma sociedade onde os valores eram raros e a infidelidade comum. Assim que Cássel baixasse a guarda, seu senso de dever se desintegraria, e ele seria cercado por mulheres clamando para ser sua amante.


Inês se lembrou da voz angelical do Cássel de seis anos perguntando o comprimento do resto da vida de alguém. O Cássel de vinte e seis anos pode não se lembrar de sua pergunta, mas Inês se lembrava.

Cássel só precisava reconhecer exatamente quantos anos ele teria que permanecer casto — salvando suas noites ocasionais com Inês — e ele voltaria aos seus velhos hábitos. Assim que eles retornassem a Mendoza, ele provavelmente se esqueceria de ser um recém-casado.


"Quaisquer fantasias sobre o casamento desaparecerão rapidamente. Ele nem se casou por amor—"


Cássel interrompeu seus pensamentos. 


— Você ainda está rindo de mim?


— Não — disse Inês. Então, ela fez uma pausa e admitiu francamente, — Eu apenas achei você adorável.


Cássel encarou Inês, com os olhos estreitados. Os olhos deles se encontraram no espelho por um momento, mas logo, ele voltou a pentear lentamente o cabelo dela.


— Você é bom nisso. Eu deveria ter sabido... — A voz de Inês se arrastou. Ela estava prestes a dizer tinha certeza da habilidade dele em qualquer coisa a ver com mulheres, mas ela pensou melhor. Enquanto ela procurava em sua mente por outro comentário, Cássel a interrompeu.


— Então, o que eu ganho em troca da minha ajuda? — ele perguntou.


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