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Capítulo 31 — Raúl Ballan

— …… O que significa tudo isso? — Raúl perguntou incrédulo  Eu nunca imaginei que a residência oficial do capitão fosse tão estreita, além do mais……

O jovem lacaio vindo do Castelo de Pérez parecia sem fôlego diante daquela visão.

Era perfeitamente natural o espanto. Quando os membros da família Valeztena colheram informações sobre a residência de Cássel em Calstera, associaram o nome dele a grandes propriedades, e não a uma mansão tão pequena. Enquanto isso, Inês, que até então ignorava o fato de Cássel ter mudado para uma habitação bem mais modesta, não tinha muito o que dizer.

Dado que Inês não tinha ideia de que Cássel tinha se mudado poucos dias antes do casamento, ela também não conseguia explicar o tamanho desta casa para seu lacaio. Os dois se sentaram ali, olhando para as carruagens lotadas de bagagem e para a casa cheia de itens.


— Desculpe, eu deveria ter escrito para Perez para explicar a situação.


— Só para a senhora saber, nós estamos esperando mais cinco carruagens...— A voz do lacaio se arrastou novamente.


Inês massageou levemente as têmporas. Talvez tudo aquilo estivesse acontecendo porque ela andava desligada demais. Como sua agenda esteve tão apertada perto do casamento, ela acabou não acompanhando os detalhes passo a passo…… Seus pertences pessoais, que deveriam ter chegado junto com ela, acabaram retidos devido à correria da cerimônia. Até aquele momento, ela não havia sentido falta de nada, então simplesmente deixou para lá……


"…… É, a culpa é minha por não ter pensado nisso."


Inês chegou mais uma vez a uma conclusão puramente objetiva. Era óbvio que a família Valeztena enviaria seus pertences divididos em várias remessas; ela é quem havia simplesmente varrido o assunto da mente.


Seus habituais vestidos pretos guardados no Castelo de Pérez e os pertences da Duquesa em Mendoza certamente seriam suficientes para lotar aquelas duas primeiras carruagens. Embora os outros pudessem não saber discernir se eram trajes de luto ou não, Inês, que outrora ditara as tendências da moda em Ortega, ainda mantinha seu refinamento estético.


Além disso, havia os livros. Volumes que ela não conseguira transformar em um passatempo real em sua vida passada, mas que acabou acumulando por passar tanto tempo confinada em casa, sem ter o que fazer…… Somente os livros de suas estantes particulares seriam suficientes para encher quatro ou cinco daquelas carroças.


— Para esta primeira viagem, eu foquei estritamente no que a senhora considera mais importante, por isso trouxe apenas estes volumes.


— …… Raúl.


— Sim, senhora?


— Não há espaço para colocar nada disso aqui.


— Como?


— Eu não tenho onde guardar nem uma única dessas caixas.


— Isso é possível?


Raúl tentou negar a realidade. No entanto, aquela era a residência oficial onde até mesmo os pertences de Cássel, o próprio dono da casa, pareciam estar prestes a transbordar por falta de espaço.


— É a realidade.


— E o que faremos então?


— Você terá que mandar tudo de volta.


— …… A senhora vai mesmo continuar morando aqui?


Foi uma pergunta direta e sem rodeios.

Originalmente, Raúl fora um servo leal a quem Inês levara para a corte imperial e tratara com extrema rigidez em sua primeira vida. Mas agora, como ela não ostentava mais o título de princesa herdeira, ele era apenas uma figura que integrava o círculo extremamente restrito de sua confiança, junto com Juana.


Era inevitável que ele demonstrasse aquela disposição…… 

Em sua primeira vida, Inês salvara aquele órfão por mero capricho, impedindo que ele continuasse sendo espancado na rua quando ainda era um menino, e ele a servira fielmente até o dia de sua morte. No fim das contas, porém, toda aquela lealdade fora inútil.


Para começar, nesta terceira existência, ela não via motivos para precisar de alguém ao seu lado, visto que mal pretendia sair do quarto. Por isso, decidira deixá-lo por conta própria. Raúl, contudo, conseguira subir na hierarquia do castelo por mérito próprio e, ostentando uma fisionomia séria e uma estatura notavelmente alta, tornara-se lacaio desde muito jovem.

Assim como na primeira vida de Inês, o papel de Raúl era servir os membros da família Valeztena, dar as boas-vindas aos aristocratas que faziam uma visita social aos Valeztena e informar Inês sobre as últimas fofocas em Perez.

Até aquele momento, o papel dele não era muito diferente do que fora na primeira vida. No entanto, estava claro que ver a realidade de sua benfeitora, que agora parecia habitar uma residência tão modesta, devia ser algo ultrajante para aquele ele. Raúl tinha crescido para se tornar um servo leal, mas intrometido.


Era ele quem cobrava, pressionava, exigia e interrogava os outros empregados por cada guloseima ou detalhe que Inês deixasse passar, apenas para garantir que nada faltasse a ela. Mesmo em relação à própria Inês, ele interferia fielmente. Dos dezesseis aos vinte anos, quando Inês estava silenciosamente destroçada por suas memórias de Emiliano, ele se unia a Juana e, de alguma maneira, dava um jeito de fazê-la se alimentar. Sabendo o tipo de talento que possuía, ele se deslocava de Mendoza para Pérez conforme as necessidades dela…… até que, finalmente, ela se tornara a senhora Escalante.


— Como a senhora consegue viver em um lugar como este……?


Raúl olhou para a residência oficial como se estivesse diante de uma ratoeira.


— É um bom lugar, Raúl. Algumas pessoas sonhariam em viver em um espaço assim pelo resto de suas vidas.


— Seria o mesmo para um sujeito como eu. Não para a senhora Inês.


Ele conhecia bem o seu lugar no mundo, mesmo após ter construído sua carreira no Castelo de Pérez, mas nunca aceitava os padrões comuns quando a régua media sua senhora. Se ela era o critério de medida, ele se tornava orgulhoso na exata proporção da nobreza dela.


«Em um lugar tão lamentável para uma pessoa tão preciosa……» Como se Raúl falasse através de sua expressão, ele voltou a olhar para Inês, com o rosto tomado por um profundo pesar.


Ela suspirou e, aproximando-se, bagunçou de leve o cabelo dele com um afago carinhoso. Os olhos de Raúl, que costumavam ter um aspecto um tanto feroz, tornaram-se visivelmente mais suaves.


— Eu tenho passado muito bem, Raúl.


— Não consigo acreditar nisso.


— Eu como bem e durmo bem. Não estou parecendo até mais robusta?


— Talvez seja apenas o inchaço decorrente do estresse de viver em uma realidade desconhecida.


— …… Você não está tentando negar que eu ganhei peso, está?


— Não importa. A senhora é deslumbrante de qualquer maneira. Mas ver quem costumava trocar de traje várias vezes ao dia para circular pelo castelo……


Raúl murmurou, incapaz de conter o gesto de olhar uma vez para a pequena residência oficial e, em seguida, voltar os olhos para ela.


— …… A senhora deve estar passando os dias vestindo apenas os mesmos poucos conjuntos de roupa.


— Ninguém consegue notar a diferença entre os vestidos de qualquer forma.


— Mas a senhora disse que cada um é único, mesmo que as cores sejam quase as mesmas!


— Isso é verdade — Inês admitiu.



— Eu trouxe apenas algumas de suas roupas e livros favoritos, e nem isso podemos descarregar……


Até o momento, os itens de primeira necessidade haviam sido trazidos no dia em que ela chegara a Calstera. Como Inês não se importava muito com maquiagem ou excessos, bastava-lhe usar os poucos vestidos que tinha em esquema de rodízio. Quanto às estantes de livros, as de Cássel já estavam transbordando. De vez em quando, ela até pensava em algumas coisas que gostaria de ter trazido do Castelo de Pérez ou da residência do duque em Mendoza, mas acabava passando metade do dia comendo e dormindo de qualquer forma……


— Vivendo dessa maneira, percebi que não preciso de tantas coisas.


— A senhora diz isso agora…… Mas quando pretende partir para o Castelo de Esposa?


— Ainda não tenho planos para isso.


— …… A senhora prometeu que me levaria junto quando se casasse, não prometeu?


Ele falou como se cobrasse uma promessa antiga, de anos atrás. Inês encolheu os ombros.


— Este é um lugar onde não há espaço para adicionar mais assistentes.


— Como não há espaço para um assistente? Há apenas uma governanta, um mordomo, um cocheiro, um jardineiro, duas cozinheiras, três criadas e três servos……


— …… Tudo isso?


De alguma forma, diante do tamanho da mansão, surgiu uma dúvida na mente de Inês de que o número de funcionários contratados não condizia com a dimensão da propriedade. Alguns deles provavelmente tinham alojamentos em outro lugar e sequer dormiam na residência oficial, aparecendo apenas pela manhã.


Na residência oficial anterior de Cássel, o número de criados era bem mais modesto comparado ao tamanho do lugar, mas como ela não tinha como saber desse detalhe, a estrutura atual parecia excessiva para uma casa tão pequena.


"Será que ele era tão desinteressado pelas tarefas domésticas a ponto de não calcular a quantidade de funcionários com quem convivia há anos?" Inês questionou Raúl sobre a estrutura mantida por Cássel:


— Isso costuma ser o suficiente para uma casa comum?


— Talvez…… Por sinal, não sei se o trabalho de três criados seria o bastante. Se fossem apenas três, não dariam conta sequer de engraxar as botas do capitão Escalante.


— As botas já são limpas pelo próprio Cássel.


Raúl olhou para a residência oficial com uma expressão impassível que dizia: «É natural que ele faça isso vivendo em uma ratoeira dessas», e comentou:


— O capitão Escalante não tem a menor intenção de mudar de residência? Mesmo tendo trazido a senhora Inês até aqui?


— Esta é provavelmente a melhor casa de Logorño. Não existem muitas propriedades maiores do que esta por perto……


— Parece haver muitas opções melhores perto do Quartel-General Naval.


— Ali é onde vivem os oficiais de alta patente. Não seria uma falta de respeito?


— Como assim? O marido da senhora é o herdeiro legítimo da família Escalante.


Sendo Cássel o sucessor da linhagem Escalante, era inconcebível para Raúl que ele não vivesse em um palácio enorme como o do coronel, de forma altiva e orgulhosa. Aquela discussão desnecessária continuou até que os dois se sentassem no jardim.


— Originalmente, essas casas foram erguidas pela família imperial. Os oficiais apenas se alojam nelas enquanto estão designados para a base, e esta estrutura já é excelente.


— Mas você não é uma oficial, minha senhora.


— Eu me casei com um oficial.


— Por que a senhora não deixa o Capitão Escalante fazer o papel do modesto servidor civil sozinho e se muda para o Castelo de Esposa agora mesmo?


— Quer que eu vá lá e o chame para você?


— Sim.


Raúl assentiu como se aquela audácia fosse a coisa mais natural do mundo. Inês riu suavemente.


— Você estaria tão longe de sua cidade natal.


— Um órfão não se importa com cidades natais.


Inês não estava convencida. 


— Todo mundo que você conhece mora em Perez. Você não conheceria ninguém em Esposa.


— Bem, a minha senhora estaria lá.

Inês não disse nada por um tempo. Em sua primeira vida, ela tinha usado Raúl a ponto de quase abusar dele. Em sua segunda vida, ela mal se lembrava de algo a ver com ele. Em sua terceira vida, ela nunca lhe mostrou muita bondade após seu resgate inicial, mas ainda assim acabou ganhando sua lealdade dedicada sem nem mesmo tentar.


— Raúl, você realmente é um homem consistente e confiável.— Inês sabia que ele não tinha ideia de quanto ela queria dizer com essas palavras.


— Não foi isso que a senhora disse antes. Uma vez, a senhora me disse que eu me deteriorava cada vez que a senhora me via.


O próprio Raúl jamais seria capaz de adivinhar o real significado e a vasta profundidade daquela imutabilidade à qual ela se referia.

Raúl, que era apenas dois anos mais jovem que ela, conhecera as asperezas do mundo muito antes de Inês. Sob certos aspectos, ele era tacanho e sagaz ao lidar com as pessoas, mas também guardava uma pureza rara, sendo capaz de se lembrar eternamente do breve favor que ela lhe fizera quando ainda era um garoto. Mesmo em Pérez.

Inês endireitou as costas. 


— Eu quero que você cresça sua carreira em Perez.


Raúl franziu a testa. 

— Qual a utilidade de uma carreira se eu não posso servir a minha senhora?


— Se acostumar com Esposa e as pessoas de lá será difícil.— Inês sabia que adotar uma nova casa e trabalho seria um grande obstáculo para Raúl. — A equipe de lá serviu os Escalantes por gerações, assim como muitos fizeram para os Valeztenas.


— Eu vou me virar. Eu confio que a senhora vai me dar apoio.


— Eu não teria tanta certeza sobre isso, Raúl.

 

— Como a senhora nunca cuida de si mesma, a senhora definitivamente precisa de mim e de Juana ao seu lado.


Raúl respondeu com firmeza. Inês acariciou o cabelo dele com um gesto repleto de curiosidade.


— Obrigada, Raúl. Mas Juana precisa se casar em Pérez. E você também.


— Com licença, senhora Inês, mas eu já fiz planos para encontrar a mulher com quem vou me casar em Esposa.


— Não é certo que você deixe a sua terra natal por minha causa.


— Não importa o que a senhora diga, não vai convencer Juana ou eu do contrário.


— Que persistência…… Pois bem, quando eu for para Esposa, deixarei que me acompanhem.


— De qualquer forma, todos esses pertences terão de ser enviados para o Castelo de Esposa. Sendo assim, eu irei na frente para Esposa para observar as movimentações locais e analisar mais de perto o Duque de Escalante.


— Faça como quiser. Ainda assim, fique aqui por hoje. Leva-se mais de meio dia daqui até Esposa…… Você deve ter acordado de madrugada para preparar tudo.


— …… Por acaso resta algum aposento livre nos alojamentos dos criados?


Raúl demonstrou ceticismo. Inês tocou o ombro dele, tranquilizando-o.


— Eu falarei com Arondra.


— É impossível deixar os pertences da senhora Inês em uma estalagem comum, então é melhor seguir as instruções. Eu mesmo falarei com a governanta. Só não quero que a senhora se sinta incomodada com isso. Se não houver vagas aqui, procurarei uma hospedagem perto do Quartel-General Naval.


— Não faça isso. Não acredito que ninguém vá roubar nada, mas conhecendo a sua personalidade, você passaria a noite inteira em claro vigiando as carroças……


— Isso faz sentido.


— Peço desculpas por não ter avisado com antecedência que não precisaria de muita coisa aqui. Você teve tanto trabalho.


— Eu sei exatamente do que a senhora precisa. O problema é que esta casa simplesmente não tem espaço para guardar.


Era exatamente aquilo. Ainda assim, os dias transcorriam sem que ela sentisse falta de nada. Sem grandes reflexões, apenas vivendo uma rotina pacífica e ociosa……


Inês disse com um sorriso:


— Eu gosto daqui, Raúl. A paisagem vista deste ponto também é belíssima.


— A senhora viveu a vida inteira em palácios, então viver temporariamente em um lugar rústico como este deve parecer divertido.


— Não saberia dizer.


— Mas por que a senhora não aproveita para dar uma olhada na bagagem e escolhe algumas peças agora mesmo? Há itens que foram cuidadosamente selecionados por Juana, ela garantiu que a senhora os usaria de imediato…… Se enviar absolutamente tudo para Esposa, poderá sentir falta de algo no futuro.


— Está bem. Vamos fazer isso.


No instante em que ela concordou e fez menção de se levantar primeiro, Raúl ergueu-se apressadamente e, em seguida, curvou a espinha de forma solene. Obviamente, ela fora a primeira a fazer o movimento, mas ele se antecipou na postura de respeito.


Era o tipo de reverência formal que ela só costumava testemunhar quando ele interagia com o Duque no Castelo de Pérez.


Acompanhando o cumprimento protocolar de Raúl como se seguisse um procedimento natural, o olhar de Inês desviou-se gradualmente em direção à residência oficial.


Havia alguém observando.


Cássel, que acabara de retornar do quartel, estava apoiado na mureta da sacada do primeiro andar, acompanhando atentamente a interação dos dois no jardim.

Por alguma razão, ele ostentava um semblante sutilmente contrariado......


✽ ✽ ✽


— Não sabia que voltaria tão cedo e de forma tão repentina — comentou Inês.


— Eu pulei o treinamento de hoje.


— Ainda não preparei nada para o jantar, o que devo fazer?


Cássel a encarou com um olhar de descrença.


— Inês, você nunca preparou nossos jantares até agora. Por que eu esperaria que você começasse a fazer isso hoje à noite?


— Bem, eu fingi estar envolvida até agora...— A voz de Inês se arrastou. Se Cássel não tivesse acabado de apontar sua mentira de forma tão descarada, ela teria mantido a pretensão de ser uma boa esposa.

Como se esse fosse o caso, Cássel balançou a cabeça bruscamente e entrou no dormitório. Contudo, acrescentou logo em seguida, com leveza:


— A Yolanda é excelente no que faz, então podemos comer o que ela preparar.


Enquanto o mordomo o auxiliava brevemente a retirar as peças superiores do uniforme, Inês o seguiu sem a menor cerimônia até o closet, ostentando um semblante um tanto sério.

Naquela sociedade, nenhuma dama aristocrática em sã consciência lidaria com as refeições do marido com as próprias mãos, mas a supervisão dos empregados era, no mínimo, uma atribuição da anfitriã. Portanto, era perfeitamente comum que a dona da casa interferisse com algumas palavras sobre o cardápio que ia à mesa ou sobre o jantar com o cônjuge. Mesmo que não se importasse de verdade, fingir zelo era uma das virtudes esperadas de uma mulher de Ortega.


Tratava-se daquele dever antiquado de uma boa esposa: gerenciar os assuntos internos mais triviais da família e zelar pelo bem-estar do marido. Desnecessário dizer o quão ultrapassada era essa convenção. No caso de Inês, contudo, ela estava disposta a aceitar esse papel se o preço para clamar "eu preparei a sua refeição" fosse apenas passar o dia preguiçosamente e responder a duas ou três perguntas à noite.


Embora fosse um arranjo fácil e conveniente, ela não pretendia mantê-lo pelo resto da vida. No entanto, mesmo que temporariamente, Inês não queria dar margem para ser considerada uma esposa negligente. Mais precisamente, ela não queria parecer infiel aos seus deveres — um passo estratégico para o futuro, quando não vivesse mais como esposa ou cônjuge de ninguém.


Seu advogado em Mendoza já a havia alertado no passado: na verdade, são essas pequenas trivialidades do cotidiano que se acumulam e eventualmente se transformam em provas robustas num tribunal de divórcio.


Mesmo sem essa intenção, a conduta de Cássel poderia virar um estorvo aos olhos de quem os cercava se ela parecesse desleixada. De fato, nos tribunais, era comum que detalhes dos quais os maridos sequer se lembravam surgissem através do testemunho dos criados. Inês deu-se conta de quanta atenção andava dispersando secretamente nas ondas de Calstera e olhou para o mordomo por cima do ombro de Cássel.

Ao contrário de Arondra, que interpretava a inércia da patroa com compaixão, o mordomo — que ainda agia conforme os costumes rígidos de Mendoza — parecia desaprovar aquela indolência. Sempre que ela cedia à preguiça e adormecia no sofá da sala aproveitando o sol, a expressão dele parecia julgar a postura da jovem senhora.


Buscando reverter essa impressão, ela perguntou com uma amabilidade calculada:


— Então, por que você não treina todos os dias?


— Eu sou muito preguiçoso para treinar todos os dias — respondeu Cássel. Surpreendentemente, ele não estava sendo falsamente humilde e parecia sincero em sua avaliação dura de si mesmo.


Ali estava Inês, uma mulher que tinha dormido, comido e feito pouco mais desde que chegou a esta cidade, na frente de um homem que só tinha tirado um dia de folga de sua rotina de treinamento. 

No entanto, Inês era desavergonhada. 

— Eu posso ver que você pode ser preguiçoso às vezes. Um dia perdido naturalmente leva a dois, e dois levam a três. É assim que você cria um padrão de preguiça.


— Você fala exatamente como o meu avô.


— Eu estou honrada em ser comparada à sabedoria do Almirante Calderon.


Cássel pensou nas memórias distantes de seu avô. 


— Agora que eu penso sobre isso, vocês dois compartilham muito em comum.


— Cássel, eu não estava convidando você para desrespeitar seu falecido avô.


Admitindo que ele não estava prestes a apontar nada de positivo que eles tinham em comum, Cássel assentiu. — Nem toda pessoa precisa ter uma ótima personalidade.


Inês deu de ombros ao seu comentário. 


— Está tudo bem. Você é um dos homens mais diligentes que eu já conheci. Todos os outros homens deveriam compartilhar a culpa se você fosse classificado como preguiçoso.


— Você está me elogiando?


— Eu estou declarando um fato.


Era raro vê-la ser generosa com algo que não fosse a aparência dele. Uma espécie de reconhecimento que ele jamais ouvira em Mendoza, no Castelo Pérez dos Valeztena ou no Castelo Esposa dos Escalante.

Cássel virou-se com um leve esboço de sorriso diante do raro elogio, terminando de tirar a camisa para entregá-la ao mordomo.


A visão de suas costas, capaz de impressionar qualquer um que a contemplasse, revelou-se em uma forma perfeita acompanhando o movimento dos ombros e a definição muscular, antes de retornar à sua postura escultural original.


Em uma memória distante, Inês recordou-se subitamente de que alguém na capital costumava elogiar a beleza da coluna vertebral de Cássel e o contorno de suas omoplatas. A verdadeira essência de Cássel Escalante não residia apenas no rosto esculpido por Deus, mas no porte físico que ele próprio construíra com disciplina.


Quanto aos comentários sobre a densidade de seu perfil, as curvas do quadril e a lombar que se seguiam…… Inês parecia ter fechado os ouvidos para aquela tagarelice desde a juventude. Não precisasse ouvir elas cobiçarem os músculos do bumbum de Cássel ou suas partes inferiores bem dotadas.


Em Mendoza, Inês não tinha escolha a não ser ouvir o nome de Cássel em cada conversa. Embora ela não estivesse interessada nele, todas as outras mulheres admiravam cada centímetro de seu corpo esculpido. 


Sua longa lista de fãs e ex-amantes incluía um grande número de amigas que ela tinha tido no passado antes de ela ter se transformado em uma garota de seis anos. Naquela época, ela gostava de deitar em seu divã na sala e ouvir suas amigas fofocarem por horas.

Nesta vida, ela não toleraria um minuto disso.


Já se foram os dias em que ela passava seus dias cercada por pessoas e se embelezando para elas. Naqueles dias distantes, ela tinha sofrido de interações humilhantes e cruéis com a corte imperial e então descarregado sua frustração em aristocratas que não tinham escolha a não ser obedecer às ordens da princesa herdeira.


Agora, ela não tinha que lidar com tais personagens irrelevantes. As multidões que fofocavam sobre ela ou Cássel tinham ido embora. Em Calztela, os dois poderiam finalmente ser deixados sozinhos.


Inês sentiu uma emoção indescritível. As vidas deles tinham mudado drasticamente desde que ela tinha apontado para ele quando ela tinha seis anos. Ela tinha se desviado para longe do caminho de vida que a tinha levado à sua destruição.



Inês foi tomada por uma sensação estranha e fixou o olhar nele.


Vestindo calmamente uma nova camiseta interior, Cássel virou-se de meio lado e começou a desatar as botas com precisão. Assim como os demais nobres, o mordomo permanecia ao seu lado pronto para servi-lo, mas parecia que Cássel não necessitava daquela assistência mecânica.


Em Mendoza, ele dava a impressão de ser incapaz de fechar um botão de punho sem ajuda; mantinha o lacaio apenas por uma questão de etiqueta, mas realizava suas próprias tarefas com autonomia. Cássel costumava poupar os funcionários, exigindo deles o mínimo de esforço. O hábito de se virar sozinho estava tão enraizado em seu corpo que o mordomo limitava-se a preparar os sapatos novos com antecedência e recolher as botas usadas na bandeja.


"Será que ele vivia em Mendoza de forma diferente dos outros nobres?"


Em uma sociedade onde o ápice da aristocracia consistia em não tocar em um único cordão de sapato, era revigorante vê-lo realizar tais ações com uma fisionomia que parecia mais nobre do que a de qualquer outra pessoa. Afinal, na academia militar, ele certamente precisara aprender a fazer tudo por conta própria, do início ao fim.


— Quer que eu ajude? — ofereceu Inês.


— …… Você estava mesmo pretendendo ajudar?


— Se houver algo que eu possa fazer.


Ele, que estava afrouxando o cinto de couro, fitou-a com o cenho ligeiramente franzido, como se tivesse ouvido um absurdo. Em seguida, após alguns segundos de silêncio, os cantos de seus lábios se ergueram em um sorriso enviesado.


— Então, você vai tirar as minhas calças?


Naturalmente, aquilo estava fora de cogitação. A intenção de Inês era puramente protocolar, apenas marcar presença e demonstrar que estava pronta para acompanhá-lo no jantar. Era, por assim dizer, o equivalente a apenas observar o processo de fora.

Como não passara o dia cuidando da casa e nem preparara a refeição, ela tentava compensar a negligência com aquele gesto…… O cinto de couro passou da mão de Cássel para a do mordomo enquanto Inês assimilava o impacto daquela reação inesperada.


— Se você me tocar agora, eu inevitavelmente acabarei tirando mais do que apenas minhas calças.


Embora sua voz soasse calma, Inês sabia que ele estava insinuando muito mais. Ela instintivamente verificou a reação do mordomo que, constrangido com a intimidade do casal, evitou seu olhar. Inês sentiu o rubor tomar conta das bochechas mesmo tentando manter o rosto inexpressivo.

Em seguida, Cássel despiu as calças de uniforme alinhadas e vestiu uma peça de tom bege, tecida com uma fibra leve típica do sudoeste. 

— Eu preferiria não passar a noite inteira no closet, então eu vou recusar seu pedido de ajuda. — Inês voltou a fitá-lo após manter a cortesia de desviar o olhar por um instante enquanto ele se trocava.


Ao desabotoar os primeiros botões da camisa, Cássel passou a transmitir uma impressão muito mais relaxada do que antes. As roupas não pareciam folgadas demais, ajustando-se com conforto sobre o seu porte físico robusto. Quando ele prendeu os suspensórios de couro claro sobre os ombros, finalmente assumiu um aspecto totalmente descontraído.


— …… Você realmente sustenta essa pose até o fim, não é? — comentou ele com um leve sorriso, fazendo um sinal para que o mordomo se retirasse do closet. — Inês, você está tentando compensar a falta de empenho com o jantar?


— Eu sou assim tão fácil de ler?


— Na verdade, não. Eu apenas te conheço muito bem. Nós nos conhecemos há dezessete anos, afinal.


Como se não bastasse ser excessivamente sincero, agora ele fingia ser capaz de ler os pensamentos dela. Talvez fosse porque a mente de Inês estivesse livre de preocupações nesses últimos dias, permitindo que ele a decifrasse com facilidade. Ela assentiu em silêncio.


— Eu espero que sim.


— O quê?


— Que compense o fato de eu não ter preparado a comida com antecedência.


— Quando eu não estava aqui, você comia apenas o que a Yolanda preparava. Se realmente quer se envolver nos assuntos da casa, não há necessidade de se forçar a demonstrar um zelo que não sente.


— Um dever tão simples e conveniente…… Eu não gostaria de abrir mão dele.


Cássel pareceu desconcertado por um breve instante diante da resposta categórica de Inês. Em seguida, assentiu bruscamente, como se compreendesse o pragmatismo da esposa, e abriu a porta do closet para que pudessem descer.

Cássel fechou a porta atrás de si e, tendo-a enviado um passo à frente, voltou a questionar:


— Então, você cumpriu o seu dever de esposa me assistindo trocar de roupa como uma pervertida?


— Não me chame de pervertida. Eu estava apenas tentando ajudar a se vestir.


— Você me olha daquele jeito e chama isso de ajuda?


— De qualquer forma, para gerenciar uma refeição, basta dizer "faça isso" ou "eu odeio cordeiro". O princípio é semelhante.


— E por que você odiaria cordeiro? É delicioso.


— Isso importa agora?

Cássel estalou a língua e voltou ao assunto original. — Não entre quando eu estiver me vestindo. Você só vai atrapalhar.


— Eu não vejo por que você está assumindo que eu vou atrapalhar quando tudo o que eu faço é ficar e te observar.


— Seus olhos vão atrapalhar. Eu quase fiquei duro em resposta ao seu olhar, especialmente com o nosso quarto tão perto...— Quando os olhos de Cássel vagaram para o quarto deles, Inês entendeu isso como sua deixa para ir embora.


Cássel riu enquanto ele observava sua forma se afastando. 


— Você não precisa fugir de mim. Não é como se eu tivesse dito que eu teria você para o jantar.


Inês não olhou para trás nem uma vez enquanto ela dizia:


— Mantenha sua distância de mim, Cássel.


Mas ele a alcançou com alguns passos fáceis. — Nós podemos caminhar lado a lado.

Quando ele estendeu a mão para a mão de Inês, ela bateu os braços em protesto. 


— Não, eu preferiria não. Vá embora.


Ele riu novamente e a puxou para mais perto. Ela tentou em vão recuperar sua compostura e colocar alguma distância entre os corpos deles, mas ele era forte demais. Ele se inclinou para ela e sussurrou: 


— Eu só disse que eu quase fiquei duro, não que eu estava.


Inês não estava divertida. 


— Ainda assim, a possibilidade permanece, e você parece muito ansioso pela possibilidade. Esse é o problema.


— Hmm. — Ele fingiu considerar suas opções. — Eu pulei o almoço, então você terá que esperar até eu estar satisfeito para o sexo.


— O quê? Eu nunca te pedi por...!— Inês quase gritou em seu rosto em indignação antes de avistar uma criada por perto. Surpresa com a mulher que caminhava na direção oposta carregando um cesto de roupas, Inês desfez imediatamente a expressão de censura direcionada a Cássel. Em uma fração de segundo, ela estampou um sorriso dócil no rosto e recostou-se com ternura contra o corpo dele, simulando uma perfeita harmonia conjugal para quem passava.


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