Capítulo 37 — José Almenara
Uma vez que Inês anunciava suas intenções, ela geralmente conseguia o que queria. Assim, uma noite, Cássel se viu sentado em frente a José Almenara.
Eles estavam tendo um jantar formal pela primeira vez nos últimos dezoito meses de trabalho juntos. José parecia desconfortável sentado à mesa de jantar em frente ao seu comandante. Até agora, nem José nem Cássel tinham sido convidados um do outro, exceto para jantares de equipe ou pausas rápidas para almoço durante um turno.
— Almenara, o que está achando da comida? Nós adoramos os pratos da Yolanda e esperamos que sejam do agrado do tenente também.
— Oh, sim! Senhora Escalante... Está muito bom. Não, na verdade, está excelente. A sopa... a sopa é fria...?
— Há algum problema em ser fria?
— Não, não! É especial. Exatamente por isso é tão especial.
O primeiro convidado oficial dos Escalante, José Almenara, ostentava uma presença que ocupava quase um lado inteiro da mesa de jantar, que ficava bem no centro do salão. Era natural para um homem cujo tamanho físico lembrava literalmente o de um urso. No entanto, por alguma razão, sempre que abria a boca diante de Cássel, ele costumava se encolher até virar um ponto insignificante. E hoje não era exceção.
Para piorar, como Inês falava diretamente com ele, José parecia diminuir de tamanho antecipadamente cada vez que ela tomava a palavra. Sorrindo, Inês continuou:
— Yolanda deve ter preparado algo frio porque está um dia escaldante.
— A-ah, é mesmo...? Muito atencioso da parte dela. E também... os funcionários dos Escalante são...
"São o quê?" — Cássel o encarou com sua expressão severa habitual e, sem notar, José se encolheu ainda mais. Era o maior ponto insignificante do mundo. Rapidamente, tentou consertar:
— Eu quis dizer que o pessoal é altamente qualificado, como convém à fama do nome Escalante... — José começou a engasgar com a água no meio de seus elogios exagerados.
Quanto mais ele tentava engolir a tosse, pior ela ficava. Cássel olhou para José sem nenhuma simpatia e apenas desdém, mas Inês fez sinal para o mordomo encher o copo de José.
— Almenara, beba mais um pouco de água.
Em vez de beber mais água, José tentou se desculpar por sua falta de educação e agradecer a ajuda de Inês ao mesmo tempo.
— Sim, senhora, desculpe... — ele conseguiu dizer entre acessos de tosse. No final, José tombou e pegou seu copo. Ele não conseguia parar de tossir enquanto engolia a água fria. Quando o silêncio fragmentado terminou, José recuperou o fôlego e olhou para cima com pavor. Enquanto Inês o observava com um olhar genuinamente preocupado, seu capitão imediato disparou:
— Para alguém que parece que poderia rasgar carne crua, você certamente não engole água muito bem.
— Você é quem come carne crua, Cássel. — Inês defendeu José, isso irritou ainda mais Cássel.
— Inês... Quantas vezes eu tenho que te dizer? É carne ao ponto.
— Carne ao ponto sangra desse jeito? Eu nunca consegui entender por que você ou meu pai gostam—
— Aposto que seu pai lamenta que ele e eu estejamos nomeados na mesma frase.
— Se você continuar com essa atitude, vai fazer com que Almenara não consiga engolir a comida de novo. — disse Inês lançando um olhar acusador a Cássel que bufou desdenhoso.
— Não é de se espantar que esse pobre homem grandalhão esteja tão nervoso... Deve ser toda a sua condescendência... — Inês murmurou pra si mesma enquanto empurrou a cesta de pão em direção a José. — Coma um pouco de pão quando sua tosse acalmar. Você deve estar exausto de lidar com seu superior.
— Obrigado, senhora...
— Você a está agradecendo... Então, você concorda com ela que é tudo culpa minha? —Cássel inclinou a cabeça para um lado, com a testa franzida. José congelou no meio da mordida, com o pão ainda na boca.
Inês apenas olhou para o grande pedaço de pão em suas enormes mãos que se assemelhavam a patas de urso com um sorriso no rosto. A cena chegava a ser cômica.
— É fofo como você congela tão facilmente com as palavras de Cássel.
"Fofo? Ele...?" Cássel não escondeu em nada sua expressão de absoluto absurdo. No entanto, Inês olhava para José — que era do tamanho de um urso — como se ele fosse realmente uma criatura adorável.
José olhou para Inês e Cássel sentados à sua frente, seus olhos arregalados e sem piscar. Ele também não conseguiu esconder o choque com o comentário de Inês. Fofo? … Eu? A dúvida silenciosa estampava-se em seu rosto inocente. Naquele estado, ele empurrou o pão para dentro da boca de uma vez, arrancando um sorriso radiante de Inês.
— Você é realmente tão fofo.
Enquanto Inês desabrochava numa risada, a carranca de Cássel se aprofundou na mesma proporção em que o rosto dela se iluminava. Nem por pura cortesia ele conseguiria admitir aquilo. O que aquele urso pardo tinha de fofo? Se era para ser fofo, ele próprio era muito mais...
De qualquer forma, Inês, sem dar a mínima importância ao marido sentado ao lado, continuou sorrindo e fez um sinal para o servo que acabara de entrar trazendo o prato principal.
— Que bom que chegou. Sirva o tenente primeiro.
— Senhora! Como eu poderia ousar...!
Mas o prato já havia sido colocado diante dele. Os olhos de José fixaram-se na comida como se tivessem sido atraídos por um feitiço. O aroma era verdadeiramente artístico.
— Sei que você gosta de cordeiro. Yolanda é excelente no preparo de cordeiro. Eu costumava detestar essa carne, mas ela cozinha tão bem que até mesmo pessoas que partilham da minha antiga opinião sentem vontade de comer de vez em quando. Assim que ouvi alguns comentários de um servo que esteve na residência oficial do tenente, imaginei que seria uma boa ideia servirmos isso hoje.
— Ela sabe até do que eu mais gosto... — José murmurou, involuntariamente comovido. Era surpreendente que o terceiro filho do Conde Almenara possuísse um coração tão simples e uma natureza tão tímida.
Inês desviou o olhar para Cássel.
"A academia militar realmente arruinou autoestima de muita gente...". Enquanto ela o avaliava com esse pensamento, Cássel devolveu o olhar.
— O quê?
— Eu estava pensando que tudo isso é culpa sua.
O rosto impecável de Cássel se desintegrou em protesto contra a acusação injusta. Mas Inês pensou que a baixa confiança de José devia ser devido ao seu comandante, dado que a autoestima de Cássel não foi afetada pelos três anos que ele passou na escola militar.
— Meu marido costuma atormentar muito o tenente no quartel?
— O quê? O Capitão? Isso é um absurdo...
Distraído pela carne macia, José não percebeu que ele balançava a cabeça em concordância, mesmo que suas palavras negassem a pergunta de Inês.
As sobrancelhas de Cássel se ergueram, arqueadas de forma irônica.
— Suas palavras e suas ações estão divergindo, Almenara.
— É a clássica diferença entre o que se sente por dentro e o que se demonstra por fora, Cássel. Aceite. — Inês interveio.
Ao ouvir aquilo, José começou a balançar as mãos vigorosamente em negação. Suas mãos eram tão grandes que as flores de um vaso próximo chegaram a balançar com o vento que ele provocou. — Não, não, eu só cometi um erro.
— Olha como ele está em pânico, Cássel. Quantas vezes você já não deve ter encurralado o tenente a ponto de ele ficar aterrorizado e negar tudo dessa forma?
— … Almenara, eu por acaso já te "encurralei" alguma vez? — Cássel destilou as palavras com uma ponta de sarcasmo.
José balançou a cabeça novamente com firmeza, achando aquela suposição um completo absurdo.
— Não, claro que não... O tratamento dele é estritamente na média.
Cássel deu de ombros e voltou a olhar para Inês, como quem diz: "Viu só?".
"… Na média...?"
— Então, quer dizer que o Cássel não persegue especificamente o tenente, mas distribui essa perseguição na média para todos? O que vem a ser isso?
— Pelo amor de Deus, Inês.
— Esta é a primeira vez que tomo conhecimento desse lado do meu marido. Apesar de nos conhecermos há tanto tempo... Que sádico.
— Em primeiro lugar, Inês, a palavra "sádico" está completamente fora de contexto aqui. E isso é um tremendo mal-entendido. Que inferno, você não faz a menor ideia de quão confortável a vida desse bastardo é na Marinha.
— Cássel, você está insultando o meu convidado?
— … Ele é o meu tenente.
— Mas ele está aqui como o meu convidado.
— Oh... Por favor, vocês dois, não briguem por minha causa... — José murmurou timidamente, sentindo-se o próprio pivô de uma tragédia dramática. — Senhora Escalante, a culpa foi minha...
— Exatamente porque esse bastardo é meu subordinado, você o convidou...
— — E você está insistindo em xingar o meu convidado chamando-o de "esse bastardo" de novo?
Cássel balançou a cabeça, impaciente, e cravou os olhos em José.
— Explique-se direito, Almenara. Você alguma vez foi alvo de qualquer tipo de perseguição da minha parte? Você sabe muito bem a resposta.
— Aceite as desculpas do Cássel primeiro, Almenara.
— Eu...? Aceitar as desculpas do Capitão? — José perguntou.
— Diga à senhora quão tranquila e privilegiada é a sua posição na frota, Almenara!
— Isto sim é perseguição, e perseguição nada mais é do que abuso de poder, Almenara.
— Esse é exatamente o tipo de comportamento ameaçador que considero abuso de poder.
Os olhos de José alternavam freneticamente entre Cássel e Inês a cada palavra disparada.
— Se a cobrança de hierarquia militar entre superiores e subordinados for considerada perseguição e abuso de autoridade, a frota inteira estaria transbordando de homens prestes a se afogar no mar.
— Então você está dizendo que pretende atirar ao mar o precioso terceiro filho do Conde Almenara?
Cássel estancou por um breve instante, seu instinto alertando-o diante do tom afiado de Inês, no qual ele vislumbrou a sombra intimidadora do Duque Valeztena.
"Tal pai, tal filha"
Ambos eram habilidosos em calá-lo, mas Cássel não considerava José importante o suficiente para brigar por ele.
— … Afinal, ele é apenas o terceiro filho, e não tem relevância alguma para a linha de sucessão, mesmo que o irmão mais velho não venha a se tornar o chefe da família no futuro.
— Cássel, mesmo que Almenara seja seu subordinado direto, você não pode desconsiderar o Conde Almenara, que também é um membro honorável dos Grandes de Ortega. Peça desculpas, Cássel.
— ......
— Não é vergonhoso pedir desculpas. Vergonhoso é persistir no erro.
Fosse por bem ou por mal, havia algo de muito peculiar na dinâmica daqueles recém-casados. A julgar pelo tom de voz que testemunhava naquele momento, não parecia a forma como uma esposa fala com o marido, mas sim o tom de uma mãe educando severamente uma criança.
Os olhos de José iam e vinham entre Inês e Cássel, sem saber para onde olhar, até que finalmente se fixaram em um ponto vazio no ar. Ele definitivamente não queria receber um pedido de desculpas forçado de seu superior. Só de pensar na retaliação sutil que poderia sofrer em uma futura missão caso aceitasse aquelas desculpas... No entanto, enquanto aquela tensão se desenrolava, o cordeiro estava incrivelmente delicioso, e a hierarquia dentro daquele casamento já estava mais do que evidente.
Em vez de se intrometer e dizer que não precisava de desculpas — o que significaria ir contra a esposa de seu chefe e, consequentemente, contra as ordens implícitas da própria dona da casa —, José optou pela prudência.
Ele calmamente fechou a boca e continuou a saborear o cordeiro. Pouco depois, Cássel cedeu:
— Cometi um pequeno erro.
— E o seu erro é...? — perguntou Inês.
— O quê? — Confusão marcou a testa lisa de Cássel.
— Um pedido de desculpas adequado descreve o erro por completo para provar que você entendeu seu erro. Então, por exemplo, você poderia dizer, eu agi desonrosamente na sua presença depois que você veio até aqui por causa do meu convite.
— Que inferno, eu já pedi desculpas... Você o convida e ainda me obriga a praguejar.
— Você diz que sente muito por praguejar e pragueja novamente na mesma frase?
— … Sinto muito por ter praguejado de novo. Satisfeita?
— Não sei dizer a quem você está se desculpando, a Almenara ou a mim.
— Você sabe que eu nunca te xingaria a menos que estivesse louco... — Cássel parou no meio da frase quando percebeu a que Inês estava se referindo.
Antes do casamento, ele havia importunado Inês sobre chamá-lo pelo sobrenome em vez de seu primeiro nome, alegando que ela poderia estar chamando seu irmão mais novo, Miguel. Cássel sabia que estava caindo em uma armadilha e não se sentiu mais compelido a discutir. Em vez disso, ele rangeu seu pedido de desculpas, enunciando cada sílaba:
— Sinto muito, Almenara. Eu disse que sentia muito por praguejar, mas acabei praguejando de novo. Peço desculpas.
Como se Cássel estivesse lendo um texto em idioma estrangeiro, ele soltou uma desculpa protocolar atrás da outra.
Enquanto José assentia com o olhar de quem aceitava as desculpas apenas para sobreviver e não ser morto ali mesmo, Inês esboçou um leve sorriso de aprovação e olhou para Cássel.
— Viu só? Como você sabe fazer as coisas direito quando quer?
— Tanto faz. — Deu de ombros com falsa humildade.
Sem perceber, José lançou um olhar irreverente para o seu superior, mas, assim que seus olhos se cruzaram com os dele, o tenente rapidamente desviou suas pupilas opacas e assustadas para o lado oposto.
Inês continuava a observá-lo com um sorriso amigável.
"Ela é tão diferente dos boatos..."
Para José, quem lhe servia uma comida deliciosa era, por definição, uma boa pessoa. E o que dizer daquelas palavras gentis?
A noiva de José, que sentia uma inveja aberta de Cássel, outrora lhe contara rumores terríveis sobre Inês, pintando-a como uma verdadeira bruxa. No entanto, esses boatos em nada coincidiam com a bela esposa de seu superior que estava agora bem diante dele.
Como podia ser que sua noiva fosse a única a espalhar tais fofocas? Aqueles que conheciam Cássel costumavam cochichar pelas costas dele sobre seu casamento iminente com o "infame corvo da família Valeztena". Independentemente de estarem genuinamente preocupados ou apenas ridicularizando a situação, o teor das conversas era sempre o mesmo: como um homem tão bonito poderia se casar com uma mulher tão sombria? Como ele conseguiria encarar uma viúva de luto eterno todas as manhãs na mesa do café? Como suportaria uma vida inteira de asfixia e amargura?
No entanto, a Inês Escalante sentada à sua frente não tinha nada da melancolia de um corvo; era uma mulher deslumbrante, vestindo um traje de cores vivas e elegantes.
Talvez, se tivessem se conhecido em um banquete distante, se ela ainda estivesse solteira, e se ela lhe servisse pratos maravilhosos daquela forma enquanto sorria para ele... José provavelmente perderia o rumo, teria ficado tão tímido na presença dela que mal conseguiria pronunciar uma palavra. Seu coração teria batido sem parar, e suor teria escorrido de todos os poros de seu corpo.
A única coisa que ancorava o espírito de José à realidade daquela sala de jantar era a expressão visivelmente incomodada e irritada no rosto de Cássel.
— Lamento ter chamado você de "bastardo", Almenara.
E tudo aquilo se devia àquela sucessão de pedidos de desculpas que Cássel era forçado a engolir.
— Não, não! O senhor pode me chamar como sempre chamou, Capitão...
Cássel franziu o cenho ferozmente. Ele definitivamente não parecia alguém que acabara de se retratar por livre e espontânea vontade...
— Entendo; meu marido te chama de nomes terríveis diariamente. Obrigado por me esclarecer sobre o comportamento escandaloso do meu marido no trabalho.
— Inês, por favor, não use palavras como 'comportamento escandaloso'. Como eu disse antes...
— Então, como mais eu poderia chamar seu comportamento? — Inês não esperou que Cássel respondesse e se virou para José. — Não se preocupe com isso. Está tudo bem, José.
— … S-Sim?
— Posso chamá-lo de José de agora em diante? Afinal, já somos amigos.
Desta vez, Cássel ficou genuinamente boquiaberto. Após encarar Inês com aquela expressão de choque, ele voltou a olhar para José com um semblante que dizia claramente: "Se você ousar dizer sim, arque com as consequências".
Mas como ele poderia dizer não? À esposa do seu superior...?
José estava entre a cruz e a espada. A hierarquia dentro daquela casa estava se revelando cada vez mais distorcida. Mesmo para os olhos simplistas de José, quanto mais ele observava, mais evidente ficava quem mandava ali.
Se Cássel não conseguia resistir a ela, como o pobre tenente poderia contrariá-la? Além disso, como recusar um pedido feito por uma voz tão suave?
Ele estava impressionado com sua maestria e facilidade com que ela lidava com Cássel. Ela não se deixou intimidar ou distrair pelo carisma ou beleza de Cássel; ela até o repreendeu e o fez se desculpar.
Então, José ficou curioso.
Como Inês poderia permanecer impassível diante do rosto de tirar o fôlego de Cássel? Sua beleza era uma obra-prima presenteada à humanidade por Deus. Outros homens ocasionalmente ficavam sem palavras ou distraídos por sua beleza. José sempre considerou Cássel um indivíduo extraordinário, mas ele estava muito mais deslumbrado por Inês. Ela podia dizer a Cássel para calar a boca sem piscar.
"Isso não a torna ainda mais impressionante...? E ela é legal!"
Atordoado e confuso, José apenas assentiu sem entender completamente o que ele estava concordando.
— Sim, sim, claro... — Ele estava muito impressionado com Inês chamando seu primeiro nome e o olhar penetrante de Cássel para pensar direito.
Inês, por sua vez, pareceu extremamente satisfeita com a resposta.
— Excelente, José. Sendo o tenente, imaginei que visitaria muito a nossa casa, mas, por alguma razão, não vi nenhum dos colegas ou subordinados de Cássel virem aqui desde que me casei. Será que todos se sentem desconfortáveis com a minha presença?
— Não, na verdade, mesmo em sua residência anterior...
— Sua residência anterior? — perguntou Inês, com uma sobrancelha levantada.
José costumava demorar para entender muitas coisas, mas ao notar o olhar furioso de Cássel, até ele percebeu que precisava ficar quieto de uma vez. José balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Desculpe. Eu estava pensando em outro capitão agora mesmo.
— É mesmo? Qual deles?
— Senhora, a senhora vê... — O suor nervoso umedeceu as palmas das mãos de José. — Não posso nem me lembrar do nome dele.
Foi uma óbvia desculpa esfarrapada.
— Ele deve ter me confundido com outra pessoa — Cássel comentou, fingindo indiferença. Felizmente, sua beleza inigualável ajudou suas palavras a soarem mais convincentes. Na verdade, Cássel poderia ter sido um golpista bem-sucedido se ele já não tivesse herdado uma fortuna. Sua beleza teria deixado todas as suas vítimas sem sentido.
— Certo. Então o afastamento deles não é por minha causa, correto?
— Sim, absolutamente não.
— Então por que vocês não frequentam a residência oficial? Embora seja o meu marido, ele não é um homem intratável; pelo contrário, é muito sociável e costuma se dar bem com as pessoas... E ele parece ser diligente, se sua devoção ao seu cronograma de treinamento é alguma indicação.
A atitude de Inês lembrou a José alguém perguntando por que seu cachorro não consegue se dar bem com o do vizinho.
José se viu em um dilema. Desta vez, era difícil decidir o que responder apenas pela troca de olhares com o superior, que exigia que ele medisse bem as palavras.
"Não é que nós não frequentamos porque não queremos, é que ele não nos dá abertura... Seu marido é muito mais fechado do que a senhora imagina e não é nada sociável!" — pensou o tenente.
Aos olhos de José, Cássel cumpria suas obrigações com extrema rapidez em Calstera, mas passava longe de ser alguém sociável. Ele não demonstrava o menor interesse nos diversos entretenimentos que os oficiais desfrutavam em suas horas vagas, a menos que fosse um evento estritamente obrigatório. Não se importava em cortejar as filhas dos oficiais de alta patente nas reuniões, e ignorava as partidas de xadrez nos fins de semana ou os jogos de bilhar que o grupo jogava após o expediente.
A única coisa que Cássel fazia era treinar de forma insana, como se buscasse a própria morte, arrastando todos os outros junto com ele...
Tudo o que José havia ganhado durante um ano e meio sob o comando de Cássel fora um corpo consideravelmente maior do que o que tinha na academia militar. E não foram apenas os músculos que cresceram; a comida gordurosa que ele empurrava para dentro da boca todas as noites para recuperar as energias acabou se acumulando em sua estrutura pesada.
E, recentemente, o nível de exigência havia piorado. Depois que Cássel retornou ao posto após o casamento, começou a treinar como um louco ao amanhecer e a atormentar os subordinados. Não importava o que fizessem, até o meio dia de folga deles era preenchido com tarefas.
Ah, e havia mais um detalhe.
Agora, José teria que passar o resto do ano sem um único dia de descanso. E tudo por causa do casamento de certa pessoa.
Ainda assim, Inês era uma excelente anfitriã, e José sentia que o esforço valera a pena naquele momento. Afinal, ver Cássel Escalante ser forçado a pedir desculpas era uma recompensa divina antes de morrer... Contudo, o próprio José precisava se casar ainda naquele ano, e sua noiva lhe enviava cartas furiosas todos os dias diante da realidade de que ele não teria direito a nenhuma folga, exceto os dias estritos da licença de casamento.
E o motivo disso? Era porque Cássel havia gastado todas as suas férias de verão e de inverno para ir espionar a residência dos Valeztena e o Castelo de Pérez no passado...
Naquele instante, a expressão de José mudou drasticamente, assumindo a culpa de um criminoso pego em flagrante. Graças ao seu raciocínio lento, ele conseguira ficar ali sentado apenas saboreando a janta, mas, ao se lembrar daquele detalhe, o pânico tomou conta dele, como um ladrão que sente o chão queimar sob os pés.
— Sim, de fato... O capitão é perfeito como esposo, mas nós é que não somos qualificados o suficiente para frequentar a casa... — ele murmurou, incapaz de sustentar o olhar diante de Inês.
Independentemente de como interpretou aquela resposta, Inês comentou com um toque de melancolia na voz:
— Então não foi em vão que encontrei aquelas mesas de bilhar e tabuleiros de xadrez abandonados...
✽ ✽ ✽
Enquanto Inês fazia um tour pela casa com José, Cássel sentou-se no terraço do primeiro andar e fumou seu charuto. A luz da lamparina do jardim iluminava seu rosto, e os fios de fumaça do charuto pairavam ao redor dele como uma nuvem.
Como muitos oficiais da Marinha, Cássel gostava de rotinas consistentes. Fumar um charuto e observar as ondas escuras quebrando nas pedras era parte de sua rotina relaxante. Ele não tinha intenção de sacrificar sua rotina por um hóspede tão trivial quanto José. Uma única interrupção em sua rotina pode arruinar seu dia inteiro.
Era por isso que Cássel nutria uma relação de amor e ódio por suas férias em Mendoza: ele gostava do descanso, mas detestava o fato de que, lá, os dias eram cheios de coisas que ele não conseguia controlar sozinho. Havia toda a dinâmica da família Escalante, incluindo a Imperatriz, além do Príncipe Herdeiro — a quem o Duque de Escalante servia quase como a uma religião...
"… E, acima de tudo, havia Inês Valeztena."
A tia de Cássel, a Imperatriz Cayetana, sempre soltava farpas venenosas quando Óscar, ainda criança, insistia em seguir os passos de Inês, a famosa e sombria filha dos Valeztena. Inês era uma joia intragável demais para o próprio filho da Imperatriz engolir, mas ela tampouco suportava a ideia de entregá-la de bandeja para outra família. Sendo assim, a garota encaixava-se perfeitamente como a noiva de seu sobrinho.
Se era esse o caso, não havia problema; restava apenas a utilidade política. A tarefa de lidar com uma mulher tão arrogante não seria jogada nas costas de seu precioso filho, mas sim nas do sobrinho "rebelde", que ela adorava fazer parecer inferior. Cayetana ficou bastante satisfeita com o arranjo e fazia questão de ostentar o casal. Especificamente, ela gostava de ostentar a "Filha de Valeztena ao lado do sucessor de Escalante".
Fora sua tia, Cayetana, quem moldara as ambições da dinastia em forma humana. A maior ambição dos Escalante... Até mesmo o pai de Cássel, que vivia imerso em grandes planos geopolíticos, mal conseguia acompanhar o ritmo maquiavélico da irmã. E, no que dizia respeito a ser manipulado, nada se comparava a como ele era manobrado por causa de Inês.
Cayetana temia que aquela jovem, que nascera tão bela e altiva quanto ela própria, de repente brilhasse no lugar errado. Por isso, embora o noivado entre Óscar e Inês tivesse fracassado de forma decepcionante, a Imperatriz garantiu que ela jamais se tornasse membro de outra linhagem, mesmo que para isso precisasse transformar "aquele corvo sinistro" na esposa de Cássel.
Exceto pelos convites da própria imperatriz, Inês recusou quase todos os convites. Por outro lado, Cássel teve que comparecer a quase todos os eventos sociais, especialmente no lugar de sua noiva. Como resultado, as férias de Cássel em Mendoza foram inteiramente ocupadas com sentar-se ao lado do assento vazio de Inês ou agir como apoio de braço de Inês nas raras ocasiões em que ela aparecia.
Segundo Cayetana, aquilo representava...
«A solidariedade entre os Escalante e os Valeztena»,
«O apoio do Duque de Valeztena ao Príncipe Herdeiro»,
«Um aviso claro aos Duques de Osorno e de Ilhar»,
«Uma vitrine para ostentar o maior matrimônio de toda Ortega» e «um lembrete sutil ao Duque de Valeztena de que ele estava sob o controle da Coroa»... e assim por diante.
Cássel sempre sentiu que sua tia estava lendo demais no noivado deles. A Imperatriz era obcecada por cálculos políticos e queria extrair significado de absolutamente tudo. Mas, no fundo, Cayetana sabia que o Duque de Valeztena estava determinado a romper o compromisso e levar a filha de volta na primeira oportunidade que tivesse. Por isso, ela vivia ansiosa, desesperada para cravar o nome dos Escalante na testa de Inês a qualquer custo.
Aquela postura de Inês — sempre rígida, fria e retraída — era, na realidade, o reflexo da imensa pressão que a família imperial e a própria dinastia exerciam sobre ela. Era como se dissessem: "Nós precisamos de você, e você tem a sorte de Cássel aceitar esse matrimonio, então cale a boca e sirva de apoio para ele exibir o poder da nossa união ao mundo..."
Por ser o suporte de Inês nesse jogo de aparências, Cássel foi sobrecarregado desde a infância com todas as responsabilidades da sucessão e os fardos da vida adulta. Pensando bem, sua vida inteira havia sido uma dança exaustiva, manipulada de um lado para o outro.
Ao relembrar suas férias em Mendoza, o sentimento de tédio profundo já parecia um hábito arraigado. Ele não detestava festas em si, mas a intromissão e a pressão imperiais que o forçavam a comparecer a banquetes sem a sua parceira eram profundamente irritantes. No entanto, rebelar-se dava ainda mais trabalho. Aquela sua personalidade pragmática e contida certamente fora moldada pela rigidez da vida militar. E o mesmo se aplicava ao fato de ser arrastado pelos caprichos de Inês, como se o corpo dela exercesse um magnetismo inevitável sobre o dele...
Cássel tragou seu charuto, observando Inês caminhar pelos jardins com José. Estranhamente, ele não se sentia tão incomodado por estar à mercê dos caprichos dela. Em Mendoza, ele sempre a considerou um dos muitos aborrecimentos com os quais lidar. Mas ultimamente, ele a achava irritantemente bonita.
— Os esforços de renovação começam nesta cerca. Levou apenas meio dia para reconstruir o muro interno — Inês explicou.
Os olhos de José se arregalaram. — Só meio dia? Isso é mais rápido do que eu esperava!
— Está certo. — Inês assentiu. — Por favor, desculpe a bagunça. Algumas das reformas ainda estão em andamento.
Cássel examinou seu vestido lilás. O decote era largo para expor sua clavícula; era escandalosamente revelador comparado ao seu traje anterior. Seu cabelo preto estava trançado frouxamente sobre um ombro, e suas mangas esvoaçavam ao vento.
Ele tentou imaginar os vestidos abafados e monótonos que ela costumava usar, junto com seu sorriso permanente e olhar desinteressado. Tal traje tinha sido o uniforme de Inês por mais de dezessete anos até agora. Mas nas últimas semanas, para sua perplexidade, ela se vestiu como agora, com um sorriso gentil e um vestido feminino.
Estranhamente, pensar nela abotoada até o excitava.
"Que inferno. Que diabo havia de tão atraente em ver uma mulher coberta de forma tão implacável...? Mas, maldita seja, ela era deliciosa".
Inês era tão provocante que ele não conseguia contê-la em seus pensamentos sem soltar um xingamento.
Apenas imaginar a rigidez da postura dela, do queixo até a ponta dos pés, imaginando aquela carne firme onde mal se podia ver o esterno sob o tecido pesado, e o ato de arrancar alguns daqueles botões... Aquilo fazia Cássel se sentir excitado como um animal no cio. O momento de quebrar aquela armadura de retidão, o instante em que aqueles olhos severos se distorceriam pelo desejo puro, apertava sua garganta.
Ironicamente, agora ele se pegava frustrado justamente porque ela não estava vestida daquela forma blindada e não estava agindo com a frieza habitual. Pensando bem, ele parecia um completo pervertido. Ele passava os dias ocupado em despi-la em sua mente, e agora ficava irritado porque ela decidira usar roupas mais leves.
Além disso, qualquer um que olhasse para ele naquela situação acharia seu estado deplorável... Esse fato martelava a cabeça de Cássel, que se transformara em um devasso sem salvação.
Contudo, às vezes, a razão conversa apenas com a cabeça, e não com o coração. Se ela se despia, ele ficava excitado; se ela se cobria pela metade, ele ficava excitado do mesmo jeito... O verdadeiro problema era que ele se excitava por qualquer coisa que envolvesse Inês.
Após o casamento, o motivo pelo qual ele praticamente passara a morar no campo de treinamento militar era justamente para evitar agir como um animal faminto perto da aristocrática e intocável Inês. Ele seria mais grato se ela demonstrasse menos audácia; se fosse assim, preferia que ela ficasse completamente nua todas as noites... Não, aquilo também seria perigoso para sua sanidade.
Enquanto imaginava vestir e despir Inês, ele chupou seu segundo charuto. Franziu o cenho por um breve instante ao ver Inês sorrir novamente para José e, em seguida, congelou uma memória específica em sua mente.
Era o funeral de uma certa condessa. Ele se lembrou, com uma reverência quase profana, de como ela estava vestida com um autêntico traje de luto fechado. Sua garganta secou instantaneamente. Em sua imaginação, ela saía da capela após a missa e erguia discretamente a saia negra ao subir na carruagem......
......Os olhares desdenhosos e as palavras afiadas de Inês dominaram a mente dele.
O desejo fervia dentro de seu peito, esmagado por aquele queixo empinado e por aqueles olhos que olhavam para o resto da humanidade por cima do ombro.
E aquele desejo, num piscar de olhos, transformou-se em pura agressividade. As noites de verão em Calztera eram curtas demais para serem desperdiçadas entretendo José; ele tinha coisas muito mais divertidas para fazer com sua esposa.
"… Por que esse bastardo ainda não foi embora?"
— O que você acha de pintar essas cercas de branco? Esse é o plano atual, pelo menos.
— Claro, aposto que ficaria esplêndido. — José assentiu.
Uma carranca marcou o rosto suave de Cássel. "Ela não deveria pedir a opinião de alguém sem olho para estilo. Qualquer um pode acenar e concordar."
— Não é? Vai dar uma sensação de calor, brilho e amplitude — Inês continuou, com naturalidade. — Seria excelente se o tenente discutisse isso com a sua prometida antes de se casarem. Os cômodos das residências oficiais daqui costumam ser muito menores do que os de Mendoza, por isso é importante planejar com antecedência e decorar o lar de acordo com o espaço. O Cássel não tem esse tipo de consideração, nunca pensou em discutir tais assuntos comigo. Mas você é um homem atencioso, José, e provavelmente tomará mais cuidado do que ele tomou.
"Porra... ". Cássel engoliu a blasfêmia que saiu de seus lábios. "Atencioso uma ova..." — desdenhou Cássel em pensamento.
— Eu adoraria contar a ela sobre o tour de hoje pela residência oficial do capitão — José comentou, entusiasmado. — A minha noiva é uma grande admiradora do Capitão Escalante...
Cássel quase xingou de novo.
"Por que esse idiota continua fazendo comentários inúteis?"
— Ah, é mesmo? Então tenho certeza de que ela vai gostar de se tornar nossa vizinha em Calztera.
— Sim, é tudo o que ela espera... Nenhuma de suas expectativas se realizaram já que ela vai se casar comigo.
Cássel zombou silenciosamente, observando seu subordinado direto com os olhos semicerrados.
"Aparentemente, ele fica feliz em se envergonhar."
— Oh. — Inês jogou a mão sobre o peito. — Sinto muito em ouvir isso. A beleza de Cássel confundiu e levou muitos ao erro.
— Não, a minha feiura é a culpada pela indiferença dela... Está tudo bem. — Os ombros de José afundaram uma polegada.
— José, por que está olhando para baixo? Você é um homem muito atraente e tem uma excelente presença.
Em um instante, Inês estendeu a mão e deu tapinhas consoladores no ombro de José, que parecia murchar como grama pisoteada, e inclinou levemente a cabeça para olhar o rosto dele. Ela era alta para uma mulher, mas perto do tamanho absurdo de José, ela parecia minúscula.
Não havia uma única coisa que agradasse Cássel na voz de José, muito menos aquelas palavras vazias e absurdas, mas ainda assim a cena tinha um toque peculiar. O grandalhão até que tentava ser gentil...
— Senhora, não precisa me dizer coisas apenas por cortesia, está tudo bem... Eu sei que meu corpo é enorme, e a minha cabeça também...
— José, a sua estrutura atual está em perfeito equilíbrio. E é a mais pura verdade que você é muito bonito. Além disso, o simples fato de estar ao seu lado faz com que o rosto das outras pessoas pareça menor. Veja quão generoso é o seu porte!
— Ouvir algo assim de alguém que passou a vida inteira vendo o Capitão Escalante...
— Você é muito másculo, isso sim.
"Alguém precisa ensinar esses dois a falar direito" — pensou Cássel, irritado. Se aquele urso representava o que era ser másculo, então o conceito de masculinidade havia retrocedido ao estado de uma besta selvagem.
— De qualquer forma, olhando bem, a escala desta reforma é bem maior do que eu esperava, e o interior já foi retocado em vários pontos... A senhora sequer descansou desde que chegou a Calstera? Não sei como está conseguindo fazer tudo isso sozinha.
— Não posso me dar ao luxo de descansar o tempo todo, mas não há problema. É divertido ver o lugar mudar a cada toque.
Desde que ela chegara em Calstera alternava entre comer, se divertir e descansar como se tivesse recuperado uma energia repentina. Cássel soltou um riso involuntário diante da resposta descarada de Inês a José, e logo em seguida voltou a fechar o semblante.
— Parece uma tarefa exaustiva demais para quem acabou de chegar. A minha noiva também terá que reformar a nossa residência oficial, e eu já fico frustrado só de pensar que ela possa se desgastar ou ser passada para trás pelos operários...
— Eu ajudarei a senhorita. De qualquer forma, seria ótimo cultivarmos uma relação próxima.
"Ajudar e ter uma relação próxima com a esposa dele?" Ultimamente, passara a ser mais do que habitual Inês escolher focar em coisas estranhamente ordinárias. Ainda assim, toda vez que a ouvia falar daquela forma, Cássel não conseguia evitar a dúvida se havia alguma intenção oculta por trás daquela fachada pacata.
Cássel baixou o charuto lentamente, pensando, com seu habitual humor ácido, que José teria que ser testado na marra para ver se aguentava o tranco.
A brisa do mar atiçou a brasa do tabaco, que foi morrendo aos poucos conforme ele parou de tragar. Ele girou a ponta do charuto contra um cinzeiro de cristal até apagá-lo por completo e fixou os olhos na verdadeira culpada por aquela noite.
Agora, era a vez de despachar José.
— Você poderia, por favor?. Não que ela já esteja reclamando por ter que vir até este lugar remoto... ou por causa dessa reforma...
— Ela certamente nunca esteve em Calstera. Mas as coisas mudam quando se chega aqui. Este lugar tem seus próprios encantos.
— Se ela puder desfrutar da companhia da Senhora Escalante, tenho certeza de que mudará de postura imediatamente.
Em qualquer sentido, independentemente de como Inês tivesse abandonado sua vida social no passado, seu nome continuava sendo uma lenda viva em Mendoza. Além disso, a forma como ela transformara sua própria missa de casamento em um espetáculo, pegando todos de surpresa para logo em seguida sumir do mapa, fizera dela um mistério. Se a noiva de José pudesse voltar a Mendoza ostentando que era íntima de Inês, o prestígio de seu nome subiria como a maré.
Obviamente, Cássel não tinha a menor intenção de permitir que isso virasse um circo.
— Graças ao José, eu também poderei fazer amigas próximas. Espero que vocês dois se casem o quanto antes. — Inês sorriu.
— Observando o Capitão Escalante ultimamente, vejo que o casamento não é o bicho de sete cabeças que os outros oficiais dizem... O senhor tem andado com... como posso dizer? Uma expressão excelente. Parece estar de muito bom humor todas as manhãs.
— É mesmo?
Cássel apagara o charuto com a firme intenção de enxotar José dali imediatamente, mas ver o subordinado gaguejar e tentar costurar elogios tão desajeitados fez com que ele contivesse o impulso por um momento, apenas observando a audácia do tenente.
Ele estava realmente com uma expressão melhor? Uma ponta de dúvida surgiu em sua mente, mas ele a ignorou sumariamente.
— Sim. O senhor parece ainda mais vistoso ultimamente, com certeza.
— Bem, seria difícil ele ficar mais vistoso do que já é — Inês interveio.
E aquilo era um fato irrefutável.
— Está claro que as coisas mudaram desde que o senhor se casou. É o que chamam de uma boa influência, não é? Com certeza a excelente influência da Senhora Escalante o está deixando com uma aparência ainda melhor. Sim, sim.
— As pessoas costumam dizer qualquer coisa que considerem agradável aos ouvidos — rebateu Inês, com desdém, ignorando a bajulação desajeitada do subordinado de seu marido.
— Não, senhora, absolutamente não são palavras vazias. De forma alguma.
— Sim, sim. O casamento é algo maravilhoso. Tenho certeza de que você também fará a sua senhorita muito feliz, José. Afinal, você é um homem delicado... Quando se casarem, não se esqueçam de nos convidar primeiro para a sua residência oficial.
— Sim, com certeza!
— Ah, eu mencionei que vamos construir um solário ali? Vou instalar alguns jogos no solário para que vocês dois possam jogar lá dentro. Você gosta de jogar bilhar?
— … Claro que gosto, mas... o capitão aprovaria isso?
— Bem, seria muito melhor do que vê-lo jogar sozinho encarando a parede...
A sociabilidade de Inês havia atingido um ponto de não retorno? Cássel mal conseguia acreditar em quem estava ditando regras de etiqueta para quem. Mas, em vez de se ressentir pela alfinetada, ele secretamente gostou do fato de ela estar prestando atenção aos hábitos dele, mesmo que fossem defeitos.
Era um sentimento genuinamente novo.
Então, mesmo que ela falasse dele como uma criança de quatro anos que precisa de um cercadinho, ele ainda não conseguia parar de sorrir como um idiota.
— Parece que meu marido não se socializava muito com o resto do grupo, então, por favor, fale bem dele na frente do resto da equipe. Ele provavelmente é arrogante sobre seus encantos e isso afasta os outros. É uma situação curiosa, mas espero que você compreenda. Porque o Cássel, no fundo, é um bom homem.
— Sim, eu sei disso. Ele certamente gosta de sua própria beleza...
Cássel sentiu-se tentado a dar uma pancada na cabeça de José. Contudo, também sentiu um vislumbre de satisfação ao ver Inês falar dele daquela forma, desejando que os outros o compreendessem como se ele fosse uma extensão dela mesma.
— Assim que as reformas terminarem, farei questão de convidar os oficiais e suas famílias. Faremos um pequeno jantar e uma recepção com vinhos — anunciou Inês.
Embora aquilo parecesse a forma de uma mãe organizar uma tarde de brincadeiras para que outras crianças fizessem amizade com seu filho...
A percepção de que a noite estava avançando e de que ele precisava expulsar José de uma vez por todas foi reforçada pelo som implacável do relógio, mas Cássel permitiu-se saborear a voz altiva de Inês por mais alguns instantes.
— Por favor, faça o possível para que um grande número de pessoas compareça. Se não for pedir muito, gostaria de me dar bem com os companheiros de farda dele, além do José.
— Quem ousaria recusar um convite da Senhora Escalante? Eu mesmo farei questão de liderar a todos até aqui.
Como o próprio José dissera, ninguém em sã consciência recusaria um convite vindo dela. Já fazia muito tempo que os oficiais do quartel cochichavam pelos cantos como passarinhos curiosos, ansiosos para comentar qualquer detalhe sobre a misteriosa esposa do capitão, e Cássel vinha cortando sistematicamente qualquer alvoroço sobre quando ela finalmente abriria as portas da residência.
No meio de tudo aquilo, era desagradável ver José estufar o peito e agir como se fosse o único porto seguro dela ali. Por isso, Cássel tratou de enxotá-lo antes que Inés disparasse mais alguma de suas frases de falsa modéstia devastadora. Um idiota sem o que fazer...
A noite era curta demais para ser gasta ouvindo o falatório daquele urso.
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