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Capítulo 37 — José Almenara

Uma vez que Inês anunciava suas intenções, ela geralmente conseguia o que queria. Assim, uma noite, Cássel se viu sentado em frente a José Almenara.

Eles estavam tendo um jantar formal pela primeira vez nos últimos dezoito meses de trabalho juntos. José parecia desconfortável sentado à mesa de jantar em frente ao seu comandante. Até agora, nem José nem Cássel tinham sido convidados um do outro, exceto para jantares de equipe ou pausas rápidas para almoço durante um turno.

— Almenara, como está a comida? — perguntou Inês. — Adoramos a comida da Yolanda, mas não tenho certeza se ela vai agradar seu gosto.

— Ah, Madame Escalante... eu gosto, não, eu amo a comida. E esta sopa está... — José hesitou antes de terminar, — fria.

— Você não gosta de sopa fria?

— Não, não! Eu só estava comentando o quão único ele é.

Como primeiro convidado oficial dos recém-casados Escalantes, José Almenara estava sentado no lado mais longo da mesa de jantar. Sua constituição de urso diminuía a cadeira e ocupava quase metade da mesa, não deixando espaço para mais ninguém se sentar ao seu lado. No entanto, José sempre se sentiu pequeno diante de seu comandante, Cássel. Agora, ele se encolheu ainda mais de vergonha. 

Inês sorriu e disse: — Yolanda deve ter preparado algo frio porque está um dia escaldante.

José gaguejou: — Ah, é mesmo...? Tão atencioso, como esperado da equipe que atende os Escalantes...

Cássel ergueu uma sobrancelha e olhou para José com seu desgosto habitual.

Assustado com o olhar de Cássel, José rapidamente acrescentou: 

— Eu quis dizer que o pessoal é altamente qualificado, como convém à fama do nome Escalante... — José começou a engasgar com a água no meio de seus elogios exagerados.

Quanto mais ele tentava engolir a tosse, pior ela ficava. Cássel olhou para José sem nenhuma simpatia e apenas desdém, mas Inês fez sinal para o mordomo encher o copo de José. — Almenara, beba mais um pouco de água.

Em vez de beber mais água, José tentou se desculpar por sua falta de educação e agradecer a ajuda de Inês ao mesmo tempo. 

— Sim, senhora, desculpe... — ele conseguiu dizer entre acessos de tosse. No final, José tombou e pegou seu copo. Ele não conseguia parar de tossir enquanto engolia a água fria.

Quando o silêncio fragmentado terminou, José recuperou o fôlego e olhou para cima com pavor. Embora Inês parecesse preocupada com José, Cássel não demonstrou um pingo de simpatia.

— Para alguém que parece que poderia rasgar carne crua, você certamente não engole água muito bem.

Inês interrompeu: 

— Você é quem come carne crua, Cássel.

— Inês, quantas vezes tenho que te dizer? Meus bifes estão totalmente cozidos.

— Eu nunca soube que bifes cozidos escorriam sangue como os seus. Eu nunca consegui entender por que você ou meu pai gostam

— Aposto que seu pai lamenta que ele e eu estejamos nomeados na mesma frase.

Inês lançou um olhar acusador a Cássel. 

— Se você continuar com essa atitude, vai fazer com que Almenara não consiga engolir a comida de novo.

Cássel soltou um bufo desdenhoso. 

Inês murmurou: — Não é de se espantar que esse pobre homem grandalhão esteja tão nervoso... Deve ser toda a sua condescendência... — Ela empurrou a cesta de pão em direção a José. — Coma um pouco de pão quando sua tosse acalmar. Você deve estar exausto de lidar com seu superior.

— Obrigado, senhora...

Cássel inclinou a cabeça para um lado, com a testa franzida. 

— Você a está agradecendo... Então, você concorda com ela que é tudo culpa minha? — José congelou no meio da mordida, com o pão ainda na boca.

Inês apenas olhou para o grande pedaço de pão em suas enormes mãos que se assemelhavam a patas de urso com um sorriso no rosto. 

— É adorável como você congela tão facilmente com as palavras de Cássel.

Ela acabou de chamá-lo de adorável? Cássel não escondeu seu choque.

José olhou para Inês e Cássel sentados à sua frente, seus olhos arregalados e sem piscar. Ele também não conseguiu esconder o choque com o comentário de Inês. Ele empurrou o resto do pão para dentro da boca enquanto uma confusão genuína ondulava em seu rosto.

Inês riu e disse: — Você é realmente tão adorável.

Enquanto Inês desabrochava numa risada, a carranca de Cássel se aprofundou. Ele não conseguia concordar com ela de jeito nenhum. Como ela podia achar que aquele homem urso-cinzento era adorável? 

Eu deveria ser o adorável em comparação a ele...

No entanto, Inês não prestou atenção a Cássel. Em vez disso, ela fez um gesto para o criado entrando na sala com uma bandeja de pratos deliciosos. 

— Ah, perfeito. Por favor, sirvam nossos convidados primeiro para o jantar.

— Senhora, eu nunca ousaria...! — O olhar de José fixou-se na carne brilhante que contradizia suas palavras educadas. O aroma saboroso fez cócegas em seu nariz.

— Ouvi dizer que você gosta de carneiro, então pedi para Yolanda prepará-lo para sua visita. Os pratos de carneiro de Yolanda são famosos. Eu não gostava de carneiro até experimentar o dela. Agora, eu o desejo ocasionalmente.

— Você não precisava preparar isso para mim... — José quase engasgou de novo de tão emocionado. Sua atitude humilde estava fora de lugar para o terceiro filho do Conde Almenara.

Inês olhou para Cássel e pensou: A escola militar deve ter arruinado a autoestima de muitos jovens... Cássel sentiu seu olhar e se virou para ela.

— O quê?

Inês respondeu: 

— Eu estava pensando que tudo isso é culpa sua.

O rosto impecável de Cássel se desintegrou em protesto contra a acusação injusta. Mas Inês pensou que a baixa confiança de José devia ser devido ao seu comandante, dado que a autoestima de Cássel não foi afetada pelos três anos que ele passou na escola militar.

— Meu marido te assedia muito? — perguntou Inês.

— Me assediar? Ele nunca iria... — Distraído pela carne macia, José não percebeu que ele balançava a cabeça em concordância, mesmo que suas palavras negassem a pergunta de Inês.

Cássel arqueou uma sobrancelha. 

— Almenara, suas ações não condizem com suas palavras.

Inês interrompeu: 

— Cássel, aceite a realidade. Essa é a opinião honesta dele.

José acenou com as mãos em negação. A brisa de suas mãos enormes era forte o suficiente para balançar as flores no vaso. — Não, não, eu só cometi um erro.

— Olha como ele está em pânico. Você deve tê-lo assediado tanto, Cássel.

— Almenara, eu já te assediei? — A ênfase na palavra continha um tom de sarcasmo.

José balançou a cabeça vigorosamente. 

— Não, claro que não... Não o máximo que um oficial comandante médio.

Cássel voltou-se para Inês para se gabar, mas rapidamente percebeu que as palavras de José vazaram um pouco mais de seus verdadeiros sentimentos. Ele virou a cabeça de volta para José. — O quê? A média?

— Entendo. Então, Cássel não te assedia muito, só o quanto outros oficiais fazem. E o que mais? — Inês pediu a José que confessasse mais.

— Inês, isso é tudo um mal-entendido.

— Depois de todos esses anos, eu nunca conheci esse lado do meu marido... E pensar que ele tinha um lado tão sádico...

— Primeiramente, Inês, a palavra sádico não soa bem neste contexto. Segundo, isso é um mal-entendido. Aquele bastardo nem sabe o quão fácil é para ele na Marinha.

— Cássel, você acabou de usar palavrões na frente do meu convidado?

— Ele é apenas meu subordinado direto...!

— Mas ele é meu convidado agora, certo? — perguntou Inês.

— Hum... Por favor, não brigue por mim... — A voz de José tremeu. — Madame Escalante, minha língua escorregou...

— Você só convidou esse bastardo porque ele é meu subordinado direto... — Cássel a interrompeu.

— Você chamou meu convidado de bastardo de novo? — Inês respondeu.

Cássel virou-se para José e exigiu: 

— Explique a situação para ela. Almenara, eu nunca te assedio, e você sabe disso.

— Antes de fazer isso, Almenara, aceite as desculpas de Cássel — disse Inês.

— Eu...? Aceitar as desculpas do Tenente? — José perguntou.

— Almenara, diga a ela como seu trabalho é tranquilo. — Cássel insistiu.

Inês suspirou. 

— Esse é exatamente o tipo de comportamento ameaçador que considero assédio.

O olhar de José viajou entre Inês e Cássel, perdido e confuso.

— Pedir aos oficiais que sigam ordens não é ameaçador. Se isso for assédio, a maioria dos oficiais navais seria culpada e teria que se jogar no oceano como punição — rebateu Cássel.

— Ah, agora você está alegando que o terceiro filho do Conde Almenara deveria se afogar no oceano?

Cássel congelou no lugar. A habilidade aguçada de Inês de tirar conclusões exageradas deve ter vindo do pai. Tal pai, tal filha. 

Ambos os Valeztenas eram habilidosos em calá-lo, mas Cássel não considerava José importante o suficiente para brigar por ele. 

— Não vai importar muito, já que ele é um terceiro herdeiro de qualquer maneira. Quem se importa se ele se afogar...

— Cássel, mesmo que Almenara seja seu subordinado direto, você não pode desconsiderar o Conde Almenara, que também é um membro honorável dos Grandes Ortega.

A conversa deles era decididamente estranha. Inês e Cássel pareciam menos como um casal de recém-casados e mais como uma mãe repreendendo o filho. Os olhos de José oscilavam entre os dois, mas acabaram perdendo o foco e olhando para o espaço. 

Ele não precisava de um pedido de desculpas de seu comandante, e definitivamente não precisava da vingança sutil que Cássel infligiria a ele após o pedido de desculpas. Infelizmente, o carneiro era delicioso demais para ignorar, e Inês claramente tinha a vantagem no casamento. Em vez de recusar o pedido de desculpas de Cássel e ofender Inês, José decidiu sentar e ficar quieto. Ele apenas saboreou o gosto da comida.

Logo, Cássel admitiu: — Cometi um pequeno erro.

— E o seu erro é? — perguntou Inês.

— O quê? — Confusão marcou a testa lisa de Cássel.

— Um pedido de desculpas adequado descreve o erro por completo para provar que você entendeu seu erro. Então, por exemplo, você poderia dizer, eu agi desonrosamente na sua presença depois que você veio até aqui por causa do meu convite.

— Droga... sinto muito que você tenha ouvido palavrões como meu convidado — Cássel cuspiu entre dentes.

— E você acabou de dizer palavrões enquanto se desculpava por seus palavrões — Inês destacou.

— Eu... peço desculpas por xingar de novo. — Cássel virou-se para Inês. — Satisfeita?

Inês comentou: 

— Não sei dizer a quem você está se desculpando, a Almenara ou a mim.

— Você sabe que eu nunca te xingaria a menos que estivesse louco... — Cássel parou no meio da frase quando percebeu a que Inês estava se referindo. 

Antes do casamento, ele havia importunado Inês sobre chamá-lo pelo sobrenome em vez de seu primeiro nome, alegando que ela poderia estar chamando seu irmão mais novo, Miguel. Cássel sabia que estava caindo em uma armadilha e não se sentiu mais compelido a discutir. Em vez disso, ele rangeu seu pedido de desculpas, enunciando cada sílaba: 

— Sinto muito por ter dito mais palavrões para você, assim como me desculpei por falar palavrões, Almenara.

José assentiu relutantemente, parecendo nada confortável com o pedido de desculpas.

Inês deu a Cássel um pequeno sorriso de aprovação. — Viu? Você consegue se você se dedicar.

— Não foi tão difícil. — Cássel deu de ombros com falsa humildade.

José olhou para seu comandante e silenciosamente resmungou que Cássel estava levando crédito onde crédito não era devido. Mas José desviou o olhar de Cássel assim que encontrou seus olhos. Então ele deslizou seu olhar inofensivo em direção a Inês e parou. Ela estava sorrindo como nada mais que uma anfitriã graciosa.

"Madame Escalante é completamente diferente do que as fofocas dizem sobre ela," pensou José. Ela não era nada parecida com os rumores que sua noiva lhe contara. Infelizmente, a noiva de José não foi a única a falar mal de Inês.

Todos sussurravam sobre o quão infeliz Cássel era por se casar com o Corvo de Valeztena. Fosse motivado por zombaria ou preocupação, todos tinham pena do pobre homem que tinha que jantar todos os dias e criar um filho com uma mulher tão terrível.

José sempre gostou de quem lhe dava comida deliciosa. No entanto, ele tinha que admitir que a mulher diante dele era agradável e bonita além das expectativas, especialmente vestida de lavanda. Se Inês fosse solteira e lhe mostrasse a mesma hospitalidade que mostrava agora, ele teria ficado tão tímido na presença dela que mal conseguiria pronunciar uma palavra. Seu coração teria batido sem parar, e suor teria escorrido de todos os poros de seu corpo.

Felizmente, a hostilidade aberta de Cássel manteve José alerta por enquanto, então ele não se distraiu com seus encantos ou beleza.

— Almenara, me desculpe por ter te chamado de bastardo — desculpou-se Cássel.

— Não, senhor, pode me chamar do que costuma me chamar — respondeu José.

Cássel imediatamente franziu a testa, parecendo exatamente o oposto de arrependido.

Inês assentiu. 

— Entendo; meu marido te chama de nomes terríveis diariamente. Obrigado por me esclarecer sobre o comportamento escandaloso do meu marido no trabalho.

— Inês, por favor, não use palavras como 'comportamento escandaloso'. Como eu disse antes...

— Então, como mais eu poderia chamar seu comportamento? — Inês não esperou que Cássel respondesse e se virou para José. — Não se preocupe com isso. O mais importante é...

— S-sim? — gaguejou José.

— Posso te chamar de José? Somos amigos, afinal.

Cássel ficou estupefato. Ele lançou um olhar ameaçador a José. José pagaria o preço se concordasse em tratar a esposa pelo primeiro nome.

José estava entre a cruz e a espada. Como ele poderia recusar o pedido da esposa de seu comandante? Até mesmo um homem tão simples quanto José podia ver claramente que Inês tinha a vantagem no relacionamento. Como ele poderia negar o pedido de uma mulher que Cássel também não podia negar?

José desviou o olhar de volta para o sorriso gentil de Inês. Ele estava impressionado com sua maestria e facilidade com que ela lidava com Cássel. Ela não se deixou intimidar ou distrair pelo carisma ou beleza de Cássel; ela até o repreendeu e o fez se desculpar.

Então, José ficou curioso. 

Como Inês poderia permanecer impassível diante do rosto de tirar o fôlego de Cássel? Sua beleza era uma obra-prima presenteada à humanidade por Deus. Outros homens ocasionalmente ficavam sem palavras ou distraídos por sua beleza. José sempre considerou Cássel um indivíduo extraordinário, mas ele estava muito mais deslumbrado por Inês. Ela podia dizer a Cássel para calar a boca sem piscar.

"Isso não a torna ainda mais impressionante...? E ela é legal!"

Atordoado e confuso, José apenas assentiu sem entender completamente o que ele estava concordando. 

— Sim, sim, claro... — Ele estava muito impressionado com Inês chamando seu primeiro nome e o olhar penetrante de Cássel para pensar direito.

Inês abriu um sorriso satisfeito. 

— Ótimo, José. Eu esperava ver mais colegas de trabalho de Cássel, mas não vi ninguém desde que cheguei. Suspeito que seja porque eles se sentem desconfortáveis com a minha presença?

— Não, na verdade, mesmo em sua residência anterior...

— Sua residência anterior? — perguntou Inês, com uma sobrancelha levantada.

José costumava demorar para entender muitas coisas, mas ao notar o olhar furioso de Cássel, até ele percebeu que precisava ficar quieto de uma vez. José balançou a cabeça de um lado para o outro. 

— Desculpe. Eu estava pensando em outro tenente agora mesmo. 

— É mesmo? Qual deles?

— Senhora, a senhora vê... — O suor nervoso umedeceu as palmas das mãos de José. — Não posso nem me lembrar do nome dele. — Foi uma desculpa esfarrapada.

— Ele deve ter me confundido com outra pessoa — Cássel comentou, fingindo indiferença. Felizmente, sua beleza inigualável ajudou suas palavras a soarem mais convincentes. Na verdade, Cássel poderia ter sido um golpista bem-sucedido se ele já não tivesse herdado uma fortuna. Sua beleza teria deixado todas as suas vítimas sem sentido.

— Entendo — disse Inês. — Então, não é minha culpa que você não venha à residência?

— Não, de forma alguma, senhora.

— Então, por que você não vem me visitar? Meu marido tem uma família agradável e disposição amigável... E ele parece ser diligente, se sua devoção ao seu cronograma de treinamento é alguma indicação. — A atitude de Inês lembrou a José alguém perguntando por que seu cachorro não consegue se dar bem com o do vizinho.

Mais uma vez, José não tinha ideia de como responder. Como ele poderia responder honestamente a Inês sem admitir que Cássel não era tão agradável ou amigável quanto ela acreditava? Como José poderia dizer a ela que Cássel, não seus colegas de trabalho, recusou ofertas de socialização fora do trabalho?

Aos olhos de José, Cássel nunca foi um socialite extrovertido em Calztela. Ele não tinha interesse em muito do entretenimento que outros oficiais desfrutavam. Ele raramente comparecia a eventos sociais, a menos que fosse necessário, e não se socializava com as filhas de oficiais de alta patente. Ele não participava das partidas de xadrez de fim de semana ou dos jogos de sinuca. Cássel só participava das sessões de treinamento noturnas, que nem eram obrigatórias para um oficial de patente tão alta quanto a dele.

Se José ganhou alguma coisa servindo Cássel, foi seu corpo robusto. Ele estava ainda mais robusto do que era nos dias da escola militar. José ganhou não apenas músculos com o treinamento, mas também gordura com a comida gordurosa que ele comia depois do treinamento. Cássel treinou incessantemente depois do casamento, primeiro de manhã e depois à noite. Como resultado, José foi roubado de seu tempo livre por semanas.

Além disso, José tinha perdido mais uma coisa com certeza. Ele não tinha mais dias de férias para este ano, graças ao casamento de Cássel.

Pelo menos, José estava feliz que seu comandante se casou com uma mulher gentil. Nunca imaginou que receberia um pedido de desculpas de Cássel Escalante. Ele ficou satisfeito em saber que seus esforços não foram em vão. 

Essa linha de pensamento lembrou José de que ele precisava se casar este ano também. Sua noiva não estava feliz que ele não pudesse tirar nenhum dia de folga além do dia do casamento; ela estava escrevendo cartas furiosas para ele todos os dias.

Foi quando José se lembrou de que havia espionado Inês em sua casa. Agora, ele estava tomado pela culpa e se encolheu em seu assento. 

— Madame, seu marido é perfeito, mas os outros oficiais e eu... somos muito pouco sofisticados para lhe fazer companhia...

Inês interpretou o olhar de culpa no rosto de José como de apreensão. Ela murmurou: 

— Agora entendo por que a mesa de bilhar e os jogos de xadrez foram colocados assim...

***

Enquanto Inês fazia um tour pela casa com José, Cássel sentou-se no terraço do primeiro andar e fumou seu charuto. A luz da lamparina do jardim iluminava seu rosto, e os fios de fumaça do charuto pairavam ao redor dele como uma nuvem.

Como muitos oficiais da Marinha, Cássel gostava de rotinas consistentes. Fumar um charuto e observar as ondas escuras quebrando nas pedras era parte de sua rotina relaxante. Ele não tinha intenção de sacrificar sua rotina por um hóspede tão trivial quanto José.

Uma única interrupção em sua rotina pode arruinar seu dia inteiro. É por isso que Cássel não aproveitou suas férias em Mendoza tanto quanto os outros. Em Mendoza, ele não tinha controle sobre seus dias porque precisava priorizar as necessidades da família Escalante, seu primo Oscar e sua noiva-agora-esposa, Inês.

A tia de Cássel, a Imperatriz Cayetana, era a ambição personificada. Até mesmo as ambições de seu irmão, o atual Duque Escalante, empalideciam em comparação. Quando seu filho, Oscar, suspirava por Inês na infância, ela costumava desprezar a única filha de Valeztena. Ela sempre suspeitou que a jovem Inês poderia ceder o poder de sua família e tomar a coroa como ela mesma havia feito muitos anos atrás. 

Portanto, ela nunca quis que Inês se casasse com Oscar. No entanto, ela mudou sua atitude quando Inês ficou noiva de Cássel. Ter outra família se casando em uma aliança poderosa com os Valeztena nunca daria certo.

Estar distantemente relacionada à poderosa família Valeztena sem sacrificar seu próprio filho era a situação ideal para a imperatriz. Em vez de seu filho, seu sobrinho teria que suportar o fardo de viver com uma garota tão arrogante como punição por fazer seu filho parecer tão simples em comparação. 

A imperatriz Cayetana estava feliz em brindar a Cássel e Inês. Sempre que Cássel estava nas suas férias em Mendoza, ela organizou com alegria as aparições públicas deles.

Exceto pelos convites da própria imperatriz, Inês recusou quase todos os convites. Por outro lado, Cássel teve que comparecer a quase todos os eventos sociais, especialmente no lugar de sua noiva. Como resultado, as férias de Cássel em Mendoza foram inteiramente ocupadas com sentar-se ao lado do assento vazio de Inês ou agir como apoio de braço de Inês nas raras ocasiões em que ela aparecia.

De acordo com a imperatriz, o noivado deles representava “a união de Escalantes e Valeztenas” e “o apoio do duque Valeztena ao príncipe herdeiro”. O casal também serviu como “um aviso para o resto dos Grandes de Ortega” e “um dispositivo de compromisso para o duque Valeztena”.

Cássel sempre sentiu que sua tia estava lendo demais no noivado deles. Talvez a imperatriz Cayetana tivesse percebido que o duque Valeztena estava hesitante, se não abertamente contra o casamento deles, o que explicaria por que ela era tão inflexível em apoiá-lo.

Para Cássel, Inês Valeztena costumava simbolizar toda a pressão e responsabilidades que a corte imperial exigia dele. Eles exigiam que ele se calasse e se comportasse bem, enquanto Inês Valeztena o tratava como um apoio de braço inanimado nesses eventos, tudo para o benefício da monarquia. Se não fosse pelo noivado, ele não teria tido que desempenhar os deveres de herdeiro ducal em uma idade tão precoce.

Ao recordar aquelas férias em Mendoza, Cássel sentiu o tédio se instalando. Ele não se importava com as festas, mas se importava com a intromissão da corte imperial, embora não estivesse descontente o suficiente para se rebelar. No entanto, Cássel sempre foi obediente, o que provavelmente era o motivo pelo qual a vida de oficial naval lhe convinha tão bem e ele não podia recusar as ordens de Inês na cidade.

Cássel tragou seu charuto, observando Inês caminhar pelos jardins com José. Estranhamente, ele não se sentia tão incomodado por estar à mercê dos caprichos dela. Em Mendoza, ele sempre a considerou um dos muitos aborrecimentos com os quais lidar. Mas ultimamente, ele a achava irritantemente bonita.

— Os esforços de renovação começam nesta cerca. Levou apenas meio dia para reconstruir o muro interno — Inês explicou.

Os olhos de José se arregalaram. — Só meio dia? Isso é mais rápido do que eu esperava!

— Está certo. — Inês assentiu. — Por favor, desculpe a bagunça. Algumas das reformas ainda estão em andamento.

Cássel examinou seu vestido lilás. O decote era largo para expor sua clavícula; era escandalosamente revelador comparado ao seu traje anterior. Seu cabelo preto estava trançado frouxamente sobre um ombro, e suas mangas esvoaçavam ao vento.

Ele tentou imaginar os vestidos abafados e monótonos que ela costumava usar, junto com seu sorriso permanente e olhar desinteressado. Tal traje tinha sido o uniforme de Inês por mais de dezessete anos até agora. Mas nas últimas semanas, para sua perplexidade, ela se vestiu como agora, com um sorriso gentil e um vestido feminino.

Estranhamente, pensar nela abotoada até o queixo me excitava, pensou Cássel. 

"Por que me excita alguém coberto da cabeça aos pés?"

Independentemente do motivo, Cássel ficou excitado com a imagem de desabotoar aquelas golas altas para revelar sua pele pálida por baixo. O pensamento de conquistar sua fortaleza de disciplina e ver seus olhos frios nublados de desejo fez os músculos de seu pescoço se contraírem e a adrenalina subir em seu sangue.

Agora que ela não se vestia mais e não se comportava mais daquele jeito, ele, ao contrário, a queria ainda mais. Ele sabia que soava lascivo, desejando que ela vestisse mais roupas para sua excitação. "Qualquer homem razoável apreciaria melhor a aparência atual dela," ele pensou. Mas seu subconsciente não ouvia a razão.

Para ser franco, Inês em qualquer traje poderia ter excitado Cássel. Ele ainda a desejaria se ela estivesse meio vestida ou nua. Na verdade, ele tinha passado tanto tempo treinando para controlar sua luxúria desenfreada. 

"Talvez fosse mais útil se ela ficasse nua a noite toda em vez de... Não," Cássel se corrigiu. "Ver o corpo nu dela só pioraria o problema." Enquanto imaginava vestir e despir Inês, ele chupou seu segundo charuto. Ele franziu a testa ligeiramente quando ouviu a risada de Inês e viu a inclinação de sua boca direcionada a José. Mas ele logo se viu procurando por uma lembrança.

Em sua memória, Inês estava vestida toda de preto em um funeral real. Antes ele não conseguia se conter, sua imaginação corria solta, arrastando-a para fora do funeral, pulando em uma carruagem próxima e então puxando sua saia preta. Ele engoliria seus protestos com seus lábios e espalharia beijos por todo o queixo orgulhoso dela, que se projetava para cima em desafio. 

Cássel olhou para José, ainda preso em sua conversa. A hora era tarde, e ele deveria ter ido embora há um tempo. Só de olhar para eles, Cássel só ficava furioso. As noites de verão em Calztela eram curtas demais para serem desperdiçadas entretendo José; ele tinha coisas muito mais divertidas para fazer com sua esposa.

— Por que ele não vai embora logo? — resmungou Cássel para si mesmo.

Inês perguntou a José: 

— O que você acha de pintar essas cercas de branco? Esse é o plano atual, pelo menos.

José assentiu. — Claro, aposto que ficaria esplêndido.

Uma carranca marcou o rosto suave de Cássel. "Ela não deveria pedir a opinião de alguém sem olho para estilo. Qualquer um pode acenar e concordar com o que ela disser."

— Exatamente. O branco vai parecer mais acolhedor. Sugiro que você discuta esses assuntos com sua noiva antes de se casar. As casas aqui tendem a ser menores do que as mansões em Mendoza, então ela deve fazer as malas de acordo. Cássel nunca pensou em discutir tais assuntos comigo. Mas você é um homem atencioso, José, e provavelmente tomará mais cuidado do que ele tomou.

Porra... Cássel engoliu a blasfêmia que saiu de seus lábios.

— Minha noiva ficará encantada em saber que você me mostrou sua casa — disse José. — Ela é uma grande admiradora do Tenente Escalante...

Cássel quase xingou de novo. 

"Por que esse idiota continua fazendo comentários inúteis?"

— Ah, é mesmo? Então tenho certeza de que ela vai gostar de se tornar nossa vizinha em Calztela — disse Inês.

— Sim, é tudo o que ela espera... Nenhuma de suas expectativas se realizaram no fato de que ela vai se casar comigo.

Cássel zombou silenciosamente, observando seu subordinado direto com os olhos semicerrados. "Aparentemente, ele fica feliz em se envergonhar."

— Oh. — Inês jogou a mão sobre o peito. — Sinto muito em ouvir isso. A beleza de Cássel confundiu e levou muitos ao erro.

— Não, a minha feiura é a culpada pela indiferença dela... Está tudo bem. — Os ombros de José afundaram uma polegada.

Inês levantou a mão para dar um tapinha no ombro de José. 

— Não diga isso. Você é um jovem bonito com ombros largos.

Inês era bem alta para uma mulher, mas parecia pequena parada ao lado de José. Cássel achou toda a cena divertida e até pensou: "Aposto que ela vai gostar de Calztela quando chegar aqui. Esta cidade é divertida à sua maneira."

José assentiu vigorosamente. 

— Tenho certeza de que ela mudará de tom assim que perceber que você será amiga dela.

Apesar dos esforços de Inês para destruir sua reputação social, todos em Mendoza sabiam o nome dela. Sua celebridade só cresceu quando ela mostrou seu verdadeiro eu no casamento e desapareceu da cidade. Sua nova amiga, sem dúvida, levaria notícias do famoso casal e ganharia alguns holofotes.

— Graças a você, José, agora tenho um novo amigo. Mal posso esperar pelo seu casamento. — Inês sorriu.

— Observando o Tenente Escalante, começo a pensar que o casamento pode não ser tão desgastante quanto os outros oficiais fizeram parecer. Sua expressão tem sido leve e alegre todas as manhãs desde o casamento.

— É mesmo? — perguntou Inês.

Cássel fez uma pausa. Talvez ele devesse deixar seu subordinado direto terminar elogiando-o antes de expulsar o homem porta afora.

— Sim, e ele parece ainda mais elegante com seu sorriso. — José sorriu em resposta.

— Será problemático se ele se tornar ainda mais ousado — murmurou Inês.

José só aproveitou isso como uma deixa para despejar mais elogios. 

— O Tenente Escalante mudou desde que se casou com você. Sua influência positiva deve estar deixando-o ainda mais atraente.

— José, você é ainda melhor com bajulação do que eu — comentou Inês, ignorando as palavras de José.

— Não, senhora, eu realmente quero dizer isso. Verdadeiramente.

— Claro, claro. Casamento é uma coisa boa. Você também deixará sua noiva feliz com seu cuidado atencioso. Não esqueça de nos convidar quando se mudar para Calztela — disse Inês.

— Claro, senhora.

— Ah, eu mencionei que vamos construir um solário ali? Vou instalar alguns jogos no solário para que vocês dois possam jogar lá dentro. Você gosta de jogar bilhar?

— Sim... mas o Tenente Escalante está junto?

Inês deu de ombros. 

— Bom, qualquer coisa será melhor do que jogar contra uma parede.

Na mente de Inês, seu marido deve ser um pária e eremita irrecuperável. Infelizmente, Cássel estava muito animado pelo fato de ela se importar tanto com ele para se ofender por ela pensar tão pouco dele. Então, mesmo que ela falasse dele como uma criança de quatro anos que precisa de um cercadinho, ele ainda não conseguia parar de sorrir como um idiota.

— Parece que meu marido não se socializava muito com o resto do grupo, então, por favor, fale bem dele na frente do resto da equipe. Ele provavelmente é arrogante sobre seus encantos, mas tenho certeza de que você pode entender sua auto-infatuação. Sua beleza e encantos certamente merecem isso.

— Eu entendo... Ele certamente gosta de sua própria beleza...

Cássel sentiu-se tentado a dar uma pancada na cabeça de José, mas a resposta de Inês o acalmou.

— Pretendo convidar os generais quando as reformas terminarem. Podemos recebê-los para um jantar e um pouco de vinho — ela continuou.

Ouvir Inês falar sobre como ela planejava encontrar mais companheiros de brincadeira para ele foi prazeroso. O relógio tocou e lembrou Cássel de que ele precisava expulsar José logo, mas ele demorou um pouco mais para apreciar a voz de Inês.

— José, por favor, tente convidar o máximo de pessoas possível. Quero ter bons termos com os colegas oficiais de Cássel.

— Ninguém ousará recusar seu convite, madame. E eu farei o meu melhor.

De fato, ninguém seria tolo o suficiente para negar seu convite. A maioria dos oficiais estava sedenta por um vislumbre dela, mesmo que passageiro, apesar da fria recusa de Cássel.

Cássel percebeu que já tinha ouvido o suficiente da tagarelice de José e o expulsou antes que ele pudesse dizer mais palavras de bajulação.


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