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Capítulo 38 — Energia Sexual

Após sondar o subordinado mais próximo de Cássel, Inês confirmou, para seu total descontentamento, que a fama dele como um libertino festeiro e barulhento limitava-se estritamente aos tempos de Mendoza.

José Almenara era o tipo de homem que seguia à risca os ensinamentos da infância: acreditava piamente que, se contasse uma mentira, arderia nas chamas do inferno. Por isso, era absolutamente incapaz de inventar histórias ou fantasiar sobre a conduta do seu capitão para a esposa dele. Diante de um informante tão temente a Deus, ficou claro que a vida de Cássel em Calstera era pacata demais, sem nenhuma grande artimanha que precisasse ser mascarada.


Inês encerrou a noite com uma ponta de frustração por não ter colhido nenhum fruto útil daquela conversa.

Ela deveria saber que Cássel teria poucas chances de cruzar com mulheres em um lugar como Calztera.

Mesmo assim, ela não conseguia entender por que ele raramente comparecia a eventos sociais aqui. Ele comparecia a quase todos os eventos em Mendoza, como era adequado aos seus talentos naturais. Na verdade, José disse a ela que Cássel recusou vários convites para os dois comparecerem a festas de trabalho para casais.


"… Não, ainda é muito cedo para me dar por vencida."


Se não existia um ponto de encontro natural para a alta sociedade, bastaria que ela mesma o criasse. O único porém era que Cássel não gozava de nenhuma reputação festeira naquela cidade portuária, o que significava que caberia a ela, de forma pioneira, abrir as portas da residência oficial para o mundo.


— … Você já está acostumada com isso? — a voz de Cássel ecoou, baixa e rouca. — Eu estou aqui me esforçando, mas você parece distante, pensando em outra coisa.


A linha de pensamento de Inês rompeu-se subitamente com a pressão dos lábios dele contra a sua pele. Cássel subia o rastro de beijos por baixo de seu queixo, mordiscando a região com uma insistência possessiva.

Deitada languidamente na cama, ela desviou os olhos turvos do teto e permitiu-se flutuar naquela sensação moderadamente prazerosa, deixando que os braços fortes de Cássel a puxassem de volta para o corpo dele.

Sentiu-se estranha por ser pega tão distraída durante o ato sexual. Ela também se sentiu um pouco envergonhada e exposta. Ele parecia ter notado seu estado de espírito.


Cássel diminuiu as estocadas e estreitou os olhos. 


— No que você estava pensando?


— Em nada.


Como se soubesse que aquela não era a resposta verdadeira, os olhos azuis de Cássel brilharam com malícia. À medida que o ritmo — que até então vinha sendo puramente contido e prazeroso — diminuiu, o corpo de Inês tendeu a seguir o dele por puro reflexo enquanto ele se afastava. No entanto, Cássel a segurou firmemente pela cintura com uma das mãos, interrompendo o movimento de forma calculada.


Se ela pudesse apenas gozar rapido, o estímulo não seria tão intenso. O membro dele, que havia deslizado quase por completo para fora, deixando apenas a extremidade do glande contida pelo calor dela, investiu com força até o limite interno, para então deslizar para fora lentamente outra vez.


— Mentir é feio, Inês.


— Oh... Ah...


— É ainda pior quando a cabeça e a parte de baixo jogam em times diferentes.


— Ah...!


— Sinto-me sexualmente explorado — ele murmurou, mantendo uma expressão imperturbável enquanto empurrava o quadril e discutia aquela absurda "indignidade".

Era uma sucessão implacável de estocadas profundas. Mal dava tempo de acomodar aquela estrutura maciça, que parecia ter a espessura de um antebraço, e ele já a preenchia por completo em vão, esmagando-a contra o colchão a cada investida.


Depois de dois orgasmos, Inês estava encharcada, e seu corpo estava completamente relaxado. Com a semente dele agindo como um lubrificante, ela não teve problemas em tomá-lo, mas as batidas intensas a sacudiram para fora de sua letargia. Um pouco constrangida, ela soltou um gemido sob o peso dele. Aquela já era a terceira vez... ou seria a quarta? Não importava o número; para a sua resistência física, o simples fato de conseguir se manter consciente naquele momento já exigia um esforço tremendo.


— Cássel... isso está profundo demais... Vá um pouco mais... raso. Como antes.


Inês o enlaçou pelo pescoço, puxando-o para perto na tentativa de evitar uma penetração tão dolorosamente profunda.

Embora a intenção dela fosse óbvia, a tentativa foi inútil. Cássel soprou um hálito quente contra os braços flexíveis que o prendiam, soltando um riso abafado.


— Só se você me disser o que estava pensando antes.


— Eu não estava pensando... em nada.


— No Almenara?


Ele estava certo, em parte. Inês estava mentalmente incluindo Almenara em seus planos futuros e quase confirmou com um aceno, mas, antes de emitir qualquer som, encarou os olhos de Cássel de forma dramática. Percebeu a tempo que a pergunta dele não tinha o sentido geopolítico que ela imaginava. Ele claramente a imaginou pensando em Almenara sob uma luz diferente.


Diante do silêncio dela, Cássel pressionou a parte interna das coxas de Inês, afastando-as ainda mais para cravar-se com maior profundidade. O impacto foi tão firme que a cabeça dela acabou deslizando para fora do travesseiro.


Tendo começado bem no centro daquela cama enorme, a força dos golpes a empurrava de tal forma que ela sentiu o receio genuíno de cair para fora do colchão. Apesar do cansaço, Inês tentou se arrastar de volta para o meio da cama com hesitação. Cássel, interpretando o movimento como uma tentativa de fuga, puxou-a de volta para a posição inicial com um puxão firme.


Porém, o prazer logo se tornou tão impulsivo que ela perdeu completamente a noção de onde estava deitada. Ela foi dominada pelas sensações excitantes que a percorriam enquanto ele continuou entrando e saindo do corpo dela rápido demais para acompanhar.

O prazer dela atingiu o ápice e seu corpo estremeceu contra ele. Quando um gemido gutural escapou de seus lábios, Cássel acelerou estocando nela em um ritmo punitivo.


— Ainda não ouvi a resposta.


Seu baixo ventre se contraiu e sua garganta travou, deixando escapar outro gemido sufocado. Foi quando uma das mãos grandes de Cássel deslizou por baixo de suas nádegas, que estavam afundadas no colchão macio, suspendendo seu quadril para firmar o alvo.

Como se quisesse ridicularizar a ideia de que seria impossível ir mais forte ou mais fundo, ele firmou as duas mãos na base das coxas dela e desceu com todo o peso.


— Isso é claramente uma retaliação. Veja bem — Cássel sorriu, descarado. Ele próprio achou a situação divertida e riu baixinho, colando os lábios ao ouvido dela. 

Ela bufou para ele, mas os lábios dele roçaram seus lóbulos sensíveis, e ela teve que lutar contra seus gemidos novamente. Inês balançou a cabeça, tentando tirá-lo de suas orelhas.


— Por que eu pensaria em, hum, José em um momento... como este?


— Almenara.


— …?


— Para aquele bastardo, a única coisa digna é o sobrenome.


— …


— Que tal se referir a ele de forma mais formal? Sim?


Chamar o homem de José ou de Almenara não fazia a menor diferença para Inês, então ela apenas assentiu de forma brusca. Não dava para negociar com um homem agindo como um louco possessivo. A resistência dela tinha limite, e ele era grande demais para que ela pudesse contra-atacar naquela posição.

A forma como Cássel tratava seu tenente ou como geria o relacionamento com seus companheiros oficiais não era da conta dela. No fundo, Inês só precisava de "passarinhos inocentes" que pudessem chilrear cada passo e movimento de Cássel diretamente em seus ouvidos fora de casa.


Se os criados da mansão serviam como uma base de dados interna, os colegas de Cássel e suas respectivas famílias seriam as verdadeiras fontes de informação externa. E ela sequer precisaria recorrer a manipulações severas para obter o que queria; estabelecer uma convivência adequada com as esposas dos oficiais resolveria o problema de forma natural.

Mesmo que os oficiais da Marinha fossem leais uns aos outros, eles não exerceriam tanta discrição com suas esposas. E as mulheres tendem a dar conselhos úteis umas às outras. Se as esposas ouvissem fofocas de escritório de seus maridos, a notícia acabaria chegando a Inês. Ela já conseguia imaginar a esposa de um colega de trabalho dizendo a ela: "Eu só tenho as melhores intenções com você, Senhora Escalante, mas tenho que lhe dizer que seu marido tem sido..."


Claro, Inês não era insensível. Nas últimas semanas, ela soube que o Capitão Escalante de Calztera era um homem diferente de Cássel, o noivo que ela conhecia em Mendoza. Ela realmente esperava que ele se desse bem com seus colegas de trabalho, como alguém que tem pena de um cachorrinho solitário.


Mas por enquanto, ela estava apenas irritada com ele.

Embora as feições dele fossem perfeitas demais para parecerem humanas, no fim das contas, ele era apenas um homem, e aquilo não mudava nada. Naturalmente, a visão de mundo dela era inteiramente egocêntrica, mas Cássel também tinha sua parcela de egoísmo. Ela sequer pretendia lhe causar algum mal real...


A infidelidade por acaso era uma mancha indelével em Ortega? Longe disso. O adultério apenas trazia desvantagens caso a disputa fosse parar nos tribunais, mas nunca chegou a ser um tabu na alta sociedade. Ninguém se divorciava simplesmente porque todos ao redor pulavam a cerca quando bem entendiam. 

Era algo banal, que qualquer um fazia...


Na verdade, tratava-se de uma sociedade tão distorcida que os nobres que passavam a vida inteira sem cometer uma única traição, mantendo-se estritamente fiéis às suas famílias, eram vistos como figuras anacrônicas e ultrapassadas.


Portanto, o plano de Inês era apenas usá-lo por um tempo e, depois, devolvê-lo exatamente à mesma vida que ele levava antes. À sua orgulhosa e livre rotina. Mesmo que, há mais de uma década, ela tivesse planejado garantir uma pensão, Cássel era, essencialmente, um colaborador dócil; por isso, ela já havia abandonado qualquer ganância desmedida há muito tempo.


Tudo o que ela precisava fazer era recolher o dote que trouxera e ir embora quando chegasse a hora. Um fardo chamado Inês se ataria a ele temporariamente e, depois, desapareceria sem deixar rastros, de modo que nada mudaria de verdade na vida dele. Além disso, se comparada à sua vida original — o de um filho renegado que se recusava a casar, que jamais receberia um título e que seria privado para sempre de uma vida digna —, a liberdade que ele reconquistaria desta vez seria perfeita.


No fim das contas, a vida dele estava evoluindo para uma forma muito melhor.


Inês recobrou a consciência em meio à onda pesada e sufocante do desejo dele. Seu grande e profano plano mestre, na verdade, revelava-se bastante altruísta. "Então, por favor, não me perturbe. Será que você não pode simplesmente facilitar?"


Como se tivesse decifrado o olhar dela, Cássel esboçou um sorriso enviesado. Em seguida, girou lentamente o membro que já se encontrava cravado profundamente nela e apertou-lhe o seio com firmeza.


Ele tinha força e vigor de sobra, mas não fazia a menor ideia do que se passava na mente dela... José, que era um talento valioso para ajudá-la a arquitetar seus planos sociais, seria enxotado por ele como se fosse um inseto? Ou Cássel cortaria os laços de todas as reuniões que ela pretendia frequentar diligentemente se soubesse o que ela tramava...? Ao mesmo tempo, a atitude dele parecia dizer: "Não se preocupe com bobagens".


Cássel é quem não deveria se incomodar com coisas inúteis. Ele sequer precisava empenhar tanto esforço e paixão em um ato carnal desnecessário...


Ao vê-lo abraçar com tanto fervor e sinceridade uma mulher que ele sequer desejava como esposa legítima, Inês sentiu uma necessidade desesperada daquela mesma liberdade de antes. Ela franziu o cenho diante da vertiginosa sensação de preenchimento que aumentava a cada segundo e tentou se concentrar em seus planos futuros.


— Pensando em outra coisa de novo.


— Não estou... Eu não...


Como demonstração de pura incredulidade, Cássel abocanhou o lóbulo da orelha dela com ferocidade, sugando-o e devorando-o com a mesma intensidade com que faria com um mamilo. Cada vez que ele a pressionava contra o colchão, o som vulgar do fluido seminal já expelido misturando-se aos fluidos de amor dela ecoava pelo quarto, incitando-a de forma obscena.

Incapaz de resistir por mais tempo àquele ritmo implacável, Inês foi arrastada ao clímax. Cássel, que também atingira o ápice consecutivas vezes, engoliu um xingamento rústico e desmoronou sobre ela, liberando sua semente por completo.


O calor morno e denso espalhou-se como ondas que colidiam contra os limites internos dela. A consciência à qual ela tanto tentava se apegar fragmentou-se por completo, dispersando-se na escuridão do quarto.


✽ ✽ ✽


O sol da manhã acordou Inês. 

Ela estava deitada de costas voltada para a janela da sacada, abriu os olhos em silêncio e contemplou a claridade. O som compassado das ondas invadia o quarto através da porta entreaberta. Era evidente que Cássel havia acordado cedo e a deixado assim. Em vez de olhar para o mar, ela fixou a vista embaçada na janela, como se pudesse enxergar a origem daquele som.

A reforma da residência oficial, que ela iniciara semanas atrás, estava finalmente chegando ao fim; o barulho ensurdecedor das ferramentas logo ao amanhecer já não ecoava mais do lado de fora. A cerca agora exibia um acabamento perfeito e a sala de jogos planejada para Cássel já ganhara forma. Restavam apenas alguns detalhes no interior da casa, que seriam devidamente resolvidos nos próximos três ou quatro dias.

O tempo ali às vezes era medido puramente pelo som. Inês ergueu-se lentamente, escutando o sussurro suave das cortinas brancas e o balanço leve do vento litorâneo.


Seu corpo, banhado pela luz radiante do sol, ainda era um completo desastre. Estava repleto de marcas de mordidas e chupões. Após uma noite inteira de um sexo implacável e atormentador, mesmo quando a mente dela se desvaneceu pela primeira vez, ele continuara a fustigar cada centímetro de sua pele. Até mesmo enquanto a banhava pela última vez, antes de a deitar, o vigor dele parecia intocado.


"… Nunca é o suficiente para ele."


Embora soubesse que era apenas uma força de expressão, ela já se sentia exausta só de constatar aquela insaciabilidade.


"Ele sempre transa desse jeito?"


À medida que os dias passavam, Cássel demonstrava um vigor impossível de acompanhar e, às vezes, uma tenacidade que ela simplesmente não sabia como manejar. Se ele fosse assim tão obcecado e implacável com todas as mulheres com quem já se deitara na vida, a alta sociedade certamente seria inundada de boatos sobre esse seu lado selvagem...


No entanto, os rumores que Inês recordava de sua vida passada sobre Cássel Escalante eram consistentes: ele tinha a reputação de ser um libertino limpo e descompromissado. Como suas aventuras nunca passavam de uma única noite, nenhuma mulher jamais chegara a ser nomeada sua amante oficial, o que evitava grandes escândalos ou incidentes de agressão.

A maior humilhação na vida daquelas mulheres era, no máximo, a rejeição sumária no dia seguinte; mas quem ousaria odiá-lo ao encarar aquele rosto perfeito? Diante de tamanha beleza, as pessoas simplesmente aceitavam o desfecho com uma admiração hipnotizada, como se tivessem a capacidade de julgamento anestesiada.


A Inês de sua encarnação anterior nunca questionara os relatos de bastidores, mas era fato conhecido que uma noite com Cássel continuava sendo o maior troféu que uma nobre mendozana poderia almejar — um privilégio escasso e cobiçado por todas. Talvez fosse uma experiência tão marcante que as mulheres que passaram por sua cama a remoeriam em pensamento até o dia de suas mortes. Quando Inês completou 26 anos pela primeira vez, ela já tinha ouvido vários desses contos tantas vezes que conseguia recitá-los de cor.

Ela os entendia até certo ponto.

Até mesmo a Inês atual conseguia compreender o porquê de ele receber críticas tão favoráveis. Porque ele é bom nisso a um nível que chega a ser assustador...


Contudo, ao recordar os detalhes dos elogios que tanto ouvira falar, o ato em si costumava ser descrito dentro dos limites do bom senso comum. Como alguém certa vez pontuara, a única coisa que Cássel tinha fora do comum era o rosto, a força, a estrutura física e o tamanho...


Não havia práticas pervertidas ou exigências unilaterais degradantes. Essa, inclusive, fora uma das muitas razões práticas pelas quais Inês o escolhera como marido nesta vida.


"Uma relação limpa e sem complicações..."


Ela olhou novamente para a própria pele repleta de manchas arroxeadas pela luxuria.


"… Isso por acaso parece limpo?"


Os vestígios daquele desejo persistente e daquele zelo excessivo pareciam não ter limites. Como ele não podia tomá-la enquanto ela dormia, parecia ter decido liberar toda a sua voracidade sexual na sua pele. Talvez ele estivesse tentando se acalmar enquanto ela dormia ou acordá-la para poder continuar de onde parou. Independentemente de suas intenções, ele estava agindo como um louco.


"Seja como for, ele não é um louco de verdade..."


De fato, ele não era um pervertido no sentido estrito da palavra. Não agia de forma sombria ou doentia, tampouco exigia submissão sádica. Nunca fizera nada repugnante que a fizesse sentir repulsa.


O único problema era sua resistência e força excepcionais. Era constrangedor quando ele recuperava a ereção apenas alguns minutos após a liberação. 

Às vezes, ele endurecia enquanto ainda estava dentro dela e continuava metendo. Quando ele subia em cima dela, o tamanho do corpo dele tirava lhe o fôlego, e ela se sentia envolvida por ele de todos os ângulos... 

A sensação esmagadora de intimidação no momento em que o corpo de semental de Cássel a cobria por inteiro, e a nítida impressão de ser engolida por uma onda violenta toda vez que tentava recuar ou escapar de seus limites...

O simples pensamento disso a esgotava. 


Lembrar-se daquilo a fez estremecer por completo, de modo que Inês tratou de expulsar tais pensamentos da cabeça o quanto antes. Felizmente, ele já não se encontrava mais no quarto.


"Que horas ele se levantou?"


Ela correu os olhos pelo ambiente e fixou o olhar no canto onde Cássel costumava ficar. No lugar dele, havia uma bandeja de café da manhã sobre os lençóis.

Será que alguma criada entrara no quarto enquanto ela dormia nua? Suas bochechas esquentaram com o pensamento de qualquer vê-la nesse estado. Se a Duquesa de Valeztena presenciasse uma cena dessas, certamente faria uma crítica severa, dizendo algo como: "Vocês por acaso vivem em um galinheiro para comerem desse jeito no mesmo quarto em que dormem?"


Como passara tantos dias privada de dignidade e passando privações ao lado de Óscar em sua vida passada, às vezes o mero ato de comer a confortava, de modo que ela já não ligava tanto para o valor das formalidades. Além disso, em Mendoza, as damas da alta sociedade costumavam reclamar do cansaço de terem que se vestir perfeitamente desde as primeiras horas da manhã apenas para evitar que seus maridos fizessem o desjejum sozinhos; muitas preferiam desfrutar de manhãs preguiçosas comendo no próprio aposento. Se não fosse pela necessidade absoluta de manter o teatro e convencer a todos de que estava "dedicando o máximo de sua paixão e sinceridade a este matrimônio", Inés sequer faria questão de abrir os olhos pela manhã, muito menos de se levantar para comer.


No entanto, a típica disciplina matinal de soldado que Cássel carregava parecia ter se espalhado para Inés como uma praga persistente. A prova disso era que, embora seu corpo estivesse exausto e sem energia, seus olhos instintivamente piscavam e abriam na hora certa todas as manhãs.


— Uhff...


Ela não tinha forças sequer para soltar um suspiro profundo, de modo que apenas um sopro superficial de ar escapou por seus lábios. Uma soneca mais tarde talvez compensasse a energia sugada por aquela rotina matinal avassaladora, mas, por ora, a preguiça precisava ser deixada de lado. Quando ela chegou inicialmente em Calztera, ela tirava uma soneca todos os dias, mas havia abandonado esse estilo de vida semanas atrás. Como ela não passava mais muito tempo se arrumando, ela só precisava escovar o cabelo e vestir um vestido respeitável.


Tudo o que ela precisava fazer era se portar como uma pessoa de postura firme e roupas alinhadas. Era um mecanismo que funcionava perfeitamente todas as manhãs. Exceto hoje, neste exato momento em que se encontrava inteiramente nua diante de uma refeição servida sobre a cama...


Ele armara aquilo tudo simplesmente porque ela não teria forças sequer para descer as escadas daquela pequena casa de dois andares.

A porta do pequeno cômodo privado, utilizado principalmente como antessala do banho do casal, abriu-se, revelando o verdadeiro culpado. Os fios de cabelo na testa de Cássel estavam levemente úmidos, indicando que ele acabara de lavar o rosto.


— Acordou?


Os olhos azuis dele pareceram ganhar um brilho ainda mais intenso assim que a viram sentada na cama. Como de costume pela manhã, ele era o único a exibir um sorriso brilhante, dócil e uma clareza invejável no olhar.


Naturalmente, a nudez dela atraiu a atenção imediata. Cássel aproximou-se com passos largos pelo quarto, cujo espaço de circulação era consideravelmente menor do que os aposentos imensos que eles possuíam antes do casamento.


— Fiquei preocupado ao ver que você não acordava.


— Então continue preocupado. A culpa é inteiramente sua — Inês respondeu, encarando-o com os olhos semicerrados.


Cássel parecia o oposto dela em todos os aspectos possíveis. O fato de Inês ser particularmente vulnerável e lenta pela manhã não era novidade, já que o vigor dele sempre atingia o ápice nas primeiras horas do dia, mas nunca os dois pareceram tão polarizados quanto hoje.


E não era para menos. Depois de atormentar o corpo dela daquela forma... Não havia o menor sinal de desgaste no rosto limpo e revigorado de Cássel, mesmo sob o olhar de nítido ressentimento que ela lhe lançava. À tarde, ele costumava ouvi-la em silêncio e demonstrar certa docilidade, mas pela manhã ele assumia aquela postura inflexível, como se as reclamações de Inês sequer fizessem eco em seus ouvidos. Uma calma irritante que não escondia o contentamento que ele carregava por trás daquela expressão leve...


— Eu sei, Inês. É por isso que preparei tudo aqui em cima, para que você não precise fazer esforço e acabar caindo.


— E quem foi que me deixou neste estado para começo de conversa?


— Não se preocupe com isso. Trate apenas de comer, eu mesmo trouxe o seu desjejum.


Cássel agia com uma naturalidade revigorante. Era óbvio que os dois haviam suado juntos a noite inteira, mas vê-lo tão intacto a incomodava profundamente; parecia que ele habitava um mundo completamente diferente do dela. Não fora uma noite de prazer solitário; a maior parte da ação fora ditada por ele, que a arrastava de um lado para o outro sempre que ela tentava recuar.


"Mas por que apenas eu pareço em frangalhos?"


Dava a impressão de que Cássel havia sugado toda a energia vital dela para si. Ele parecia excepcionalmente melhor do que nas outras manhãs, exibindo a expressão satisfeita de quem acabara de desfrutar de um banquete magnífico.


"Como ele ousa ostentar essa cara de satisfação plena?..."


— Quem entregou a bandeja para você? — perguntou em dúvida.


— Peguei diretamente na porta. Ninguém a viu, pare de se preocupar.


— …


— Como sempre, você é cheia de desconfianças.


Ao dizer isso, a mão de Cássel moveu-se para acariciar suavemente os cabelos desalinhados de Inês. O gesto deveria ser apenas um toque casual para ajeitar os fios, mas, conhecendo-o, era impossível prever quando aquela faísca inicial poderia incendiar um novo desejo. Cássel entrava no cio com uma facilidade alarmante...

Quando Inês ergueu a mão em um gesto de profunda vigilância, Cássel soltou um riso leve, exibindo uma expressão perfeitamente inofensiva, como se achasse graça da óbvia desconfiança dela.


— Meu coração chegou a disparar, Inês.


— …


De que adiantava aquela expressão inofensiva? Ele fixou o olhar diretamente no busto exposto de Inês e a provocou com uma audácia renovada: "Obrigado pelo banquete, foi uma bela visão". E, antes que ela pudesse disparar uma advertência séria sobre o assédio verbal que ele transformara em hábito, a mão dele desceu e apertou-lhe o seio com firmeza.


No final, a mão de Inês moveu-se por reflexo e golpeou a mão atrevida dele, que já se afastava após torcer-lhe o mamilo de leve. Cássel perseguiu a mão dela em retaliação, capturando seus dedos para entrelaçá-los em um aperto firme e possessivo.


— Você está completamente sem roupas.


— Só porque estou despida não significa que estou dando permissão para você me tocar.


— De qualquer forma, eu sinto vontade de tocar você mesmo quando está vestida.


Portanto, estar nua ou coberta não mudava em nada o apetite dele. Discutir a lógica daquela obsessão era uma pura perda de tempo.


"Sim, meu corpo não vai se desgastar apenas por um toque no peito..." — Inês pensou de forma distante, tentando se desassociar da própria carne, mas, pelo sim ou pelo pelo não, tratou de esticar o braço livre para alcançar o negligé que Cássel havia deixado pendurado na cabeceira da cama.


Não havia motivos para pudores excessivos agora, visto que passaram a noite inteira despidos, mas Cássel pela manhã conseguia ser ainda mais persistente e obstinado do que durante a noite, mesmo sem a intenção direta de iniciar um novo ato. E, sempre que ela reclamava, recebia aquela resposta cínica: 'Não estamos transando, estamos apenas conversando, como você queria'. Sendo assim, era melhor cobrir-se antes que ele perdesse o controle novamente.


Inês puxou o tecido com a mão livre, cobrindo o busto rapidamente.


— … Trate de descer logo e vá tomar o seu café. Não quero ver o seu rosto na minha frente esta manhã.


A ordem de expulsão foi categórica. No entanto, Cássel não afrouxou o aperto das mãos entrelaçadas; pelo contrário, usou a força para puxar o braço dela em sua direção, impedindo qualquer movimento de afastamento. Ele não tinha a menor intenção de soltá-la. Em vez de libertar a mão de Inês, Cássel usou os dedos livres para segurar a borda do negligé dela. 

O coração dela voltou a acelerar diante da aproximação, mas, por alguma razão, os olhos dele não se fixaram no decote, mas sim diretamente no olhar dela.


— Deixe que eu faço isso.


— Eu posso fazer sozinha...


— Você não consegue sequer erguer os braços direito.


— … E de quem é a culpa?


— É minha.


Ele respondeu com uma mansidão desconcertante e deslizou o negligé pela cabeça de Inês. Suas palavras soavam como um pedido de desculpas, mas a expressão em seu rosto não carregava o menor vestígio de real arrependimento.


— Afinal, eu estava agindo como um animal no cio.


Conforme ele se inclinava para a frente, sua voz rouca roçou a orelha de Inês em um sussurro cúmplice. Cássel guiou as mãos dela por dentro do tecido, acomodando cada um de seus braços nas mangas, uma de cada vez. Em seguida, deslizou as palmas por dentro da vestimenta, acariciando suavemente as costelas e a lateral de seus seios, afastando-se logo em seguida.


Ele tinha plena consciência do que fizera, de modo que não havia muito o que contestar.

— Pois é. Você sabe muito bem que agiu como um cachorro no cio... — Enquanto ela murmurava aquela acusação com uma voz trêmula e contida, Cássel afastou uma mecha de cabelo do rosto dela e soltou um riso abafado.


Contudo, o olhar dele ainda preservava aquela mesma tenacidade possessiva, o que fez Inês acionar seus alarmes internos mais uma vez; mas, por fim, ele cedeu primeiro.


— Eu não treinei ontem. Sinto muito, tentarei me controlar mais no futuro.


— … Isso por acaso faz alguma diferença?


Como se aquela fosse a justificativa mais absurda que já ouvira na vida, Inês o encarou com uma indignação trêmula.


— Faz.


Cássel limitou-se a responder de forma breve e caminhou até a mesa de cabeceira ao lado. Foi então que ela reparou melhor na comida disposta ali. Havia carne bovina levemente grelhada e algumas porções de vegetais cozidos... Se a bandeja sobre a cama continha o desjejum dela, aquela mesa lateral abrigava um café da manhã simples destinado estritamente a Cássel. 

Uma refeição trazida com o único propósito de ser consumida ali, ao lado dela.

No entanto, os homens da nobreza de Ortega jamais faziam o desjejum nos aposentos de suas esposas. A menos que estivessem gravemente enfermos ou acamados nos seus últimos dias de vida.


"O que os outros pensariam se vissem isso?"


... O que mais chamava a atenção na dinâmica do casal era que os desdobramentos da convivência não estavam seguindo em nada o planejamento original de Inês. Houve uma época em sua vida anterior em que ela desejara unilateralmente a proximidade dele, apenas para ser sumariamente rejeitada. Mas agora, se eles continuassem agindo dessa forma íntima todas as manhãs, como se realmente se gostassem, os boatos e as fantasias das pessoas ao redor cresceriam de forma descontrolada...


— Normalmente, eu gasto as minhas energias de propósito antes de vir para o quarto — comentou ele.


— Que energias... Ah.


Inês interrompeu a própria pergunta no meio do caminho. Ontem, como ele próprio mencionara, Cássel abrira mão do treinamento exaustivo, o que explicava o excesso de vigor na noite anterior; mas ela não tinha dados suficientes para comparar com os dias em que ele de fato gastava suas forças no quartel.


— … Então, o ritmo de antes era o resultado do seu suposto autocontrole?


Contudo, antes que ela pudesse obter uma resposta clara, Cássel já havia começado a cortar a carne, agindo como se não a tivesse ouvido. Ele mantinha aquela mesma postura focada ao manusear a faca. Como um predador carnívoro que enxergava apenas a presa e a si mesmo no mundo, ele ignorava solenemente as intervenções alheias quando estava concentrado.


Apesar de ter sido sutilmente ignorada, Inês recusou-se a dar o braço a torcer e esticou a mão para puxar a bandeja de prata em sua direção. No entanto, assim que tentou erguer o objeto, sentiu toda a pouca força que restava em suas falanges se esvair por completo, de modo que o movimento limitou-se a um leve arrastar de metal.


Não havia um único miligrama de energia na ponta de seus dedos ou de seus pés. Tudo por causa daquela última investida intensa da madrugada... Não importava o quanto tentasse racionalizar, aquela transa final parecera quase uma retaliação por parte dele.


Ainda assim, analisando o que ele dissera sobre a diferença gritante entre os dias de quartel e os dias de folga, o argumento parecia fazer sentido em partes, embora gerasse dúvidas. Afinal, mesmo nos dias de treinamento pesado, as noites com ele nunca haviam sido fáceis. Ela se viu genuinamente intrigada com o funcionamento daquele corpo; mas ver Cássel portar-se de maneira tão impecável e revigorada, diante de sua nítida fraqueza física, feriu um pouco o seu orgulho aristocrático.


Portanto, se alcançar a bandeja já fora uma batalha, puxar aquele objeto pesado de prata de volta para o seu colo seria a sua pequena vitória.


— Você deveria ter me pedido ajuda.


Foi o instante em que ela conseguiu aproximar a bandeja quase por completo, acomodando-a a um palmo acima de seus joelhos.

Inês ergueu os olhos com uma ponta de espanto ao sentir as mãos grandes de Cássel segurarem delicadamente as bordas do metal, acomodando o objeto com firmeza sobre o colo dela.


— As suas mãos estavam tremendo desse jeito.


— Eu não estava tremendo. De forma alguma.


— Eu não havia reparado nisso antes. Deveria ter suspendido a bandeja para você.


— Eu mesma faço isso. Está tudo bem...


— Quer que eu a alimente na boca?


— …


Inês cravou nele um olhar que dizia claramente: "O que há de errado com você para sugerir uma idiotice dessas?". Cássel, porém, parecia ter interpretado o silêncio de outra forma e já posicionava a faca sobre o prato, o que fez Inês segurar rapidamente o pulso dele.


— Não faça isso, eu realmente consigo sozinha. Cuide da sua própria refeição...


— Você consegue cortar o pão?


— Consigo.


— Consegue segurar a faca?


— Claro que consigo.


— Então segure.


As mãos dela denunciaram a fraqueza de forma nítida no instante em que ela estendeu os dedos para receber o cabo da faca que ele lhe oferecia. Os talheres de prata da residência eram excepcionalmente grossos e pesados, e a pegada firme que Inês costumava ostentar parecia ter sumido diante daquele metal maciço.

Cássel tirou suavemente a faca da mão dela e começou a cortar a torrada em pedaços pequenos com a seriedade de um cirurgião.


A cena teria sido cômica se ele não tivesse ficado tão bonito fazendo isso. Embora Inês fosse mais imune aos seus encantos do que a maioria, ela teve que admitir que ele estava deslumbrante com o cabelo molhado cobrindo a testa.


Ela olhou para o bife dele, que estava esfriando na mesa. 


— Isso serve, Cássel.


— Você não come o suficiente no café da manhã. Não é de se espantar que você tenha tão pouca energia de manhã. — Cássel não pareceu muito satisfeito com isso.


Em sua bandeja havia uma limonada recém espremida e um pedaço de pão integral recém torrado. Para alguém como Inês, este era um café da manhã farto. Mas um apaixonado por carne como Cássel provavelmente não conseguiria distinguir a refeição frugal de um mendigo da dela.


— Eu como bastante. Só estou assim por sua causa — retrucou Inês.


— Você está certa. É tudo culpa minha. — Cássel pegou uma fatia de torrada com o garfo e a segurou contra os lábios dela.


"Pelo menos ele admite", pensou Inês, mas ela se recusou a abrir a boca e continuou olhando para ele.


— Inês. Você precisa abrir a boca.


— …


— Eu lavei as mãos. Estão limpas.


— …


— Estou pedindo para você comer o pão, não para lamber as meus dedos, Inês.


— … Como você consegue falar uma grosseria dessas?


Absorta pelo absurdo da frase, Inês acabou mastigando e engolindo por puro reflexo o pedaço de pão que ele enfiou em sua boca assim que ela terminou de perguntar.


— E o problema não são as suas mãos estarem sujas, é que…


— Mais uma vez. Abre a boca.


— Desista. Me dá isso aqui, vá embora.


Se ela soubesse a expressão que Cássel exibia enquanto ela tentava esquivar a cabeça e esticava o braço para arrancar o pão das mãos dele, Inês jamais teria tentado resistir com tanto empenho. Ele fazia aquilo com uma dedicação e uma sinceridade irritantes.


— Isso é um insulto…


— É tão ultrajante assim ser alimentada por mim?


— É constrangedor e eu odeio isso… Então me deixe em paz, pare com isso agora.


— Mas você até colocou meu pênis na sua boca sem hesitar.


O queixo de Inês caiu.

Cássel aproveitou a chance para colocar outro pedaço na boca dela e então sorriu como se estivesse olhando para algo adorável.

Enquanto Inês ficava completamente sem fala, chocada com a ousadia daquelas palavras ditas com tanta naturalidade, outro pedaço de pão foi mastigado.


Cássel exibia um sorriso provocante. O olhar dele era o de quem contemplava a criatura mais adorável do mundo.


— No fim das contas, basta colocar algo na sua boca para você comer direitinho.


— …


Ela mastigou o pão de forma mecânica, ainda atônita, e logo outro pedaço foi empurrado para dentro. Desta vez, os nós dos dedos dele, grossos e longos, roçaram seus lábios até a ponta.


Inês franziu o cenho e cravou os dentes na mão dele com força. Devia ter doido, pois ela mordera com a intenção real de machucar, mas a única resposta que obteve foi uma risada baixa e contida.

Ela ergueu os olhos e viu que ele realmente estava achando graça. Era como se tivesse levado uma mordida de um animalzinho indefeso e insignificante. Uma pontada de dor boba que vinha e sumia em poucos segundos…


Aquilo era o cúmulo. Ela era uma mulher que, em uma de suas vidas passadas, já havia deslocado o ombro de um marido com a coronha de uma espingarda de caça. Jamais deveria ser tratada como um felino doméstico...


— Você é igual a um gato. Você morde e é um pouco agressiva.


— …


— Mas tudo bem. Faz parte da sua natureza ranzinza.


E, mais uma vez, o pão foi empurrado para dentro de sua boca, que se abrira em um perfeito sinal de estupor.


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