Demorou um tempo para que Inês conseguisse se sacudir do espanto daquela manhã caprichosa.
— Nesse ritmo, nunca terei a chance de conceber um filho.
A frase funcionou como um golpe de misericórdia desferido de surpresa contra a nuca de Cássel, que já estava atrasado para vestir o uniforme.
De fato, nesse ritmo, o plano dela nunca daria certo. Com Cássel totalmente satisfeito, ele não teria motivação para traí-la. Ela precisava que ele achasse sua casa sufocante, mas contra suas expectativas, parecia que ele não tinha nenhuma razão para se afastar.
"Preciso fazer alguma coisa...".
Nem sempre foi assim. Nas primeiras semanas de casamento, eles não tiveram relações sexuais nenhuma vez, mantendo noites calmas e relaxantes. No entanto, as relações sexuais se tornaram uma rotina noturna regular agora. Mesmo quando não estavam entrelaçados na cama, eles ainda passavam muito tempo juntos.
Mas quem mais ela poderia culpar além de sua beleza e encanto? Embora não tão atraente quanto costumava ser quando era a princesa herdeira, ela tinha belas curvas apesar do mínimo esforço que fazia para manter sua aparência. Mesmo que Cássel tivesse visto muitas outras beldades, ela conseguia entender por que ele poderia escolher se contentar com ela, especialmente porque ele era tão devoto à noção de um casamento obediente.
Seus esforços recentes para ganhar o favor dos outros vestindo-se melhor apenas adicionaram ao problema. Assim que percebeu, Inês tentou misturar vestidos monótonos de volta ao seu guarda-roupa, mas seus esforços para reduzir seu fascínio não foram páreo para o desejo sexual de Cássel.
— Por isso, precisamos de uma regra sistemática.
E dado que não havia espaço para um veto absoluto em seus planos, ela precisava criar regras que impusessem limites ao comportamento dele, em vez de uma proibição direta.
— … Filhos?
Sem responder de imediato, Cássel, que terminava de abotoar a camisa, olhou para ela de soslaio. Mesmo após ouvir a palavra "filho" sair da boca de sua esposa, ficava evidente que ele jamais havia parado para cogitar tal possibilidade.
Inês tentou esconder sua irritação.
"Por que mais estaríamos dormindo juntos assim todas as noites?!"
— Trata-se de escolher dias específicos e significativos.
— Significativos?
— Dias propícios para que eu possa engravidar.
Cássel baixou o olhar por um instante enquanto ajustava os punhos das mangas. Em seguida, ergueu os olhos azuis e curiosos para encará-la novamente.
— Em primeiro lugar, esse assunto é estimulante demais para se ouvir logo cedo.
— Por favor, não me interrompa e escute, Cássel — Inês respondeu com firmeza, cortando a distração dele na raiz. — Estabeleça os dias, estabeleça as regras. Como qualquer outro casal normal.
— Não seria muito mais eficaz se fizéssemos isso regularmente, todos os dias?
— … Por favor, reserve os seus exercícios regulares para o quartel. Eu não consigo acompanhá-lo. Minha resistencia tem limites.
— Eu já lhe pedi desculpas por ontem. A partir de hoje, garantirei que o treinamento me deixe meio morto — Cássel respondeu com uma seriedade extrema.
"Por que raios você precisa se matar de treinar?..." Enquanto Inês balançava a cabeça e franzia o cenho, tomada pela hesitação, ele reduziu a distância entre os dois enquanto vestia a túnica azul do uniforme sobre a camisa.
— Sabe de uma coisa, Inês? Eu acho que você simplesmente não quer dar o melhor de si.
— … O quê?
— Você está tentando pegar o caminho mais fácil em vez de tentar aumentar nossas chances de gravidez tentando sempre que possível.
Não dar o melhor de si? Aquelas palavras atingiram em cheio seu orgulho e ficou imediatamente frustrada com a acusação dele. Ela nunca havia trabalhado tanto quanto nas últimas semanas.
— Cássel, não fale bobagem. Eu estou fazendo o máximo esforço possível aqui, enquanto você está apenas se divertindo às minhas custas.
— Se isso é diversão, acho que você também tem tirado bom proveito dela.
— …
— Só ontem à noite…
Sua boca estava aberta, mas ela não encontrou palavras. Inês ficou subitamente sem palavras diante da enxurrada de memórias vulgares que invadiram sua mente. Cássel sorriu enquanto fechava os botões do uniforme, um a um.
— Se você continuar com a boca aberta desse jeito, eu poderia ficar tentado a enchê-la novamente.
— Você—!
— —Estou falando da comida, é claro.
— …Vamos voltar ao assunto em questão.
— Eu entendi perfeitamente o que você quis dizer.
— Entendeu mesmo? — ela perguntou, desconfiada.
Cássel fechou o último botão da gola alta e assentiu.
— Claro. Você sabe que eu escuto tudo o que você diz.
Ela estreitou os olhos.
— Não, de jeito nenhum. Você não está me ouvindo agora, por exemplo.
— Na verdade, eu estou. É por isso que serei civilizado e só farei isso uma vez por noite, começando hoje à noite.
— Começando... hoje à noite? — perguntou Inês.
— Sim, conforme seu pedido.
— Mas você ainda planeja ter relações sexuais todas as noites?
— Eu levei a minha própria opinião em consideração também.
— …
— Arrume o colarinho para mim atrás, por favor.
Inês virou-se como se estivesse momentaneamente hipnotizada. Ela firmou os pés no chão, aproximou-se daquela silhueta imensa e ajeitou a gola levemente dobrada nas costas dele. Cássel virou-se para ela com uma expressão revigorada.
— Obrigado pela ajuda hoje, Inês.
Embora ela não tivesse feito nada de útil para ajudá-lo de verdade, Cássel depositou um beijo estalado no topo da cabeça de Inês com uma audácia descarada, apenas para expressar sua gratidão.
Pouco depois, Inês se viu completamente sozinha no aposento onde Cássel acabara de se despedir.
— … Isso não é bom…
Aquele desenvolvimento não era nada bom para os seus planos...
✽ ✽ ✽
— Por que a senhora emagreceu tanto de repente?
Inês desviou o olhar, tentando evitar o escrutínio de Raúl. Embora ela não estivesse exatamente magra, se tivesse que admitir que seu corpo parecia mais esguio agora, a razão era uma só. Uma razão que ela jamais confessaria a ele.
— Eu tenho comido e vivido muito bem, Raúl.
— E as suas horas de sono?
— Tenho dormido perfeitamente bem.
— Sei… Deve ser por isso que a senhora fez tanta questão de que Juana e eu viéssemos encontrá-la aqui em Calstera o quanto antes.
Tentando mudar de assunto para escapar daquele interrogatório, Inês endireitou a postura.
— Como estavam as coisas no Castelo de Esposa?
— Em primeiro lugar, isto. — Raúl enfiou a mão no interior do colete e puxou um envelope.
Ao avistar o selo de cera que lacrava o papel, Inês soltou um suspiro pesado, sentindo um arrepio incômodo.
— Você esteve em Pérez?
— Como a senhora não queria que toda a sua bagagem fosse transferida diretamente para Esposa, Juana e eu despachamos a maior parte dos baús para a propriedade de Pérez, sob o sobrenome da sua família.
— Fez bem. Muito bem…
Ela aceitou a carta com os dedos levemente trêmulos. Era a caligrafia de sua mãe, a Duquesa de Valeztena.
— Quer que eu a queime antes mesmo de a senhora abrir? — Raúl perguntou com a familiaridade de quem já conhecia os hábitos da patroa, intuindo que o conteúdo não traria paz.
Inês balançou a cabeça negativamente.
Há mais de dez anos, ela havia superado a fase em que as atitudes de sua mãe a faziam ter impulsos autodestrutivos. Em sua infância nesta vida, Inês não conseguia conter a própria fúria diante das interferências da Duquesa. 'É repugnante, vista algo decente', 'O que eu faço com uma menina gorda feito um porco?', 'O que há de errado com o seu cabelo?', 'Que expressão patética é essa?', 'Tire essa roupa horrível antes que eu a dispa à força e a pendure nos portões!'... Essas eram as palavras que a Duquesa de Valeztena despejava sobre Inês quando ela tinha meros seis anos de idade.
Naquela época, por ordem da mãe, as criadas tentavam forçá-la a usar penteados elaborados e vestidos coloridos; Inês reagia rasgando os tecidos e, se ouvisse críticas sobre seu peso, passava a comer compulsivamente ou se recusava a tocar na comida por dias, apenas para criar um escândalo. Quando a mãe a ameaçou dizendo que a colocaria nua para fora, Inês simplesmente respondeu "Pois bem" e caminhou em direção à saída sem um fio de roupa.
Foi só então que a Duquesa pareceu perceber que a filha estava completamente fora de seu controle.
Para uma dama da alta aristocracia, ver a filha vestir-se quase como se estivesse em um luto perpétuo e fora do bom senso comum era inaceitável. Como mãe, ela sentia uma necessidade patológica de interferir. E para Inês, aquilo era uma tortura.
A mãe de sua primeira vida — que a partir de certo momento passou a sofrer de paranoias e depressões nervosas severas, atormentando a infância de Luciano e Inês — não mudara de postura nem mesmo quando Inês se tornou a Princesa Herdeira. Quem acreditaria se soubesse que a maior parte dos insultos que a Imperatriz Cayetana usava para humilhar a nora havia sido ensinada, originalmente, pela própria mãe biológica de Inês?
A família imperial não fora a única a condená-la pelos sucessivos abortos espontâneos. A Duquesa também o fizera, e aquela rejeição ferira Inês profundamente, embora a essa altura ela já não nutrisse qualquer afeto pela mãe.
A Duquesa de Valeztena era o tipo de mulher que exigia a atenção e o amor dos filhos enquanto os destruía emocionalmente. Quando Luciano e Inês cresceram e passaram a manter uma distância segura, ela começou a enviar cartas repletas de ameaças veladas, que ironicamente começavam com a saudação "Meus queridos filhos". Mais tarde, na primeira encarnação de Inês, quando ela completou vinte e quatro anos, a Duquesa cometeu suicídio, deixando um testamento direcionado a Luciano que dizia: "Isto aconteceu por culpa sua e de sua irmã".
Inês guardara mais rancor daquele testamento do que de todas as palavras cruéis que já ouvira na vida. A Duquesa fizera aquela escolha trágica unicamente para carimbar uma culpa eterna na alma de seus filhos. Sabendo o quão arruinada já estava a vida de Inês na corte, ela agira com o mais puro egoísmo.
Desde o dia em que soube da morte da mãe até o fim de seus dias, Inês nunca mais chorou por ela. Nesta nova vida, ela passou a queimar todas as cartas vindas de Pérez sem sequer romper o lacre. O hábito se manteve por anos. Assustada com as reações rebeldes da jovem Inês, a Duquesa passara a discipliná-la por escrito, mesmo morando sob o mesmo teto, alegando que não suportava olhar para o rosto da filha porque sentia que ela estava "possuída por espíritos malignos".
Ela sabia que Inês possuía a mesma faísca de frieza implacável que caracterizava os Valeztena.
O Duque de Valeztena e Luciano eram homens pragmáticos e implacáveis, capazes de cortar laços sem olhar para trás se fossem pressionados; mas a Duquesa era diferente. Foi por volta dos dez anos de idade que Inês compreendeu essa sutil diferença.
Foi nessa mesma época, em sua primeira vida, que ela percebeu que aquela era, de fato, a forma que sua mãe encontrara para amá-la. Sim, era amor. Mesmo que a garota daquela época e a mulher desta vida não fossem a mesma pessoa, e mesmo que Inês repudiasse aquele comportamento, aquilo nascia de um sentimento materno... por mais distorcido e egoísta que fosse. A Duquesa simplesmente não conseguia desistir de Inês, mesmo que isso significasse mais felicidade para ambas.
Foi a partir dessa constatação que Inês parou de travar batalhas barulhentas. Ela continuou ignorando as ordens da mãe, mas passou a escutar os sermões em silêncio, engolindo os insultos sem reagir. Afinal, sua alma já havia morrido duas vezes; ela não desejava carregar o fardo de um segundo testamento de suicídio alegando que a mãe morrera por sua culpa. Se tolerar os caprichos da Duquesa garantisse a paz, ela o faria.
E, curiosamente, as coisas correram melhor nesta vida. Afastada parcialmente da alta sociedade devido ao comportamento lúgubre da filha, a Duquesa de Valeztena parecia consideravelmente mais estável mentalmente do que quando vivia imersa nas intrigas da corte de Mendoza. A este ritmo, a ideia de atentar contra a própria vida parecia distante; ela agora estimava o próprio corpo a ponto de não querer feri-lo sequer com a borda de um papel.
Inês se lembrava de quão terríveis a paranoia e os colapsos nervosos de sua mãe tinham sido em sua vida anterior, então ela podia facilmente rir de qualquer explosão de embriaguez.
A paciência com a mãe finalmente colhera frutos. Na outra vida de Inês, quando ela era a princesa herdeira, Olga Valeztena não conhecia limites. Ela até mesmo entrava no quarto para despejar abuso verbal apenas algumas horas depois que Inês teve um aborto espontâneo.
Mas como resultado da paciência recém-descoberta de Inês e da rebelião infantil, a duquesa finalmente se rendeu. Ela ocasionalmente perdia o controle e começava a agir por alguns minutos, mas desistia rapidamente quando se lembrava da jovem Inês fazendo a birra mais terrível. Se ela não tivesse ficado apavorada com Inês antes nesta vida, ela já teria batido nos portões da frente da residência Calztera.
"É por isso que ela ainda tem tanto receio de me enfrentar pessoalmente e prefere enviar cartas como esta..."
Sentindo-se generosa com a melhora da situação, Inês começou a ler a carta.
« À minha querida Inês,
Já se passaram vários meses desde que você se casou e deixou Valeztena. Como a filha ingrata que é, ainda não se deu ao trabalho de enviar notícias. Sei que você nutre rancor por esta mãe, mas é deplorável que não tenha escrito sequer ao seu pai… Contudo, como esperar que o coração de um filho compreenda a profundidade do coração de seus pais? Não me darei ao trabalho de pedir que me cumprimente.
Você ainda não engravidou? Eu imaginei que não…
Você precisa segurar o seu marido com firmeza, mas tenho muitas preocupações porque você é rígida e fria. Você não tem o menor talento para a sedução.
Durante o nosso último jantar, o Capitão Escalante pareceu se colocar ao seu lado e agir como um cavaleiro protetor, mas não se iluda: ele é um homem. E os homens, na maioria, não são confiáveis. Portanto, Inês, você precisa dar à luz o quanto antes para garantir a sua posição. Uma mulher sem filhos não passa de uma casca vazia.
E por falar em casca, a aparência do seu marido é um perigo. Mesmo se ele tivesse nascido na sarjeta em vez de na prestigiosa família Escalante, ele passaria o resto da vida cercado de mulheres cobiçando o seu rosto. Sendo assim, espero que o seu… não, o seu marido sinta o desejo de ter um bebê sempre que olhar para você nesta fase de recém-casados. Mesmo que ele a repudie, mesmo que tenha sido um casamento forçado. Garanta os seus herdeiros antes que o Capitão Escalante adquira o hábito de espalhar bastardos por aí.
Quanto mais tempo os homens convivem com as mulheres, mais eles passam a desprezá-las. Olhe para o seu pai. Se eu não tivesse lhe dado filhos, eu não teria a posição que desfruto hoje. Os filhos são o verdadeiro status de uma mulher. Seja ela rica ou pobre, nobre ou plebeia.
Embora você me despreze, deveria ter aprendido essa lição observando a conduta do seu pai. Você é o meu tudo. O amor de uma mãe é infinito e desconhece o ressentimento… Ah, você deveria valorizar esse amor.
A vida de uma mulher sem filhos é o nada, Inês. Uma mulher não pode sobreviver sem o marido; os filhos tornam um marido intolerável, tolerável. Tome a minha vida como exemplo.
Fico feliz que o Capitão Escalante tenha finalmente se tornado o seu esposo. Quando uma mulher tem um marido de posses, ela ganha uma casa acolhedora, criados à disposição e uma vida confortável. Para nobres como nós, há inclusive grandes mansões. Essa é a vida real. Tudo o que você precisa fazer é dar à luz um herdeiro. Essa é a única obrigação de quem nasce mulher… »
— Pode queimar. — Com o rosto marcado pela exaustão e com a paciência no limite, Inês interrompeu a leitura na metade e estendeu o papel de volta para Raúl.
Raúl aceitou o envelope prontamente, sem fazer perguntas desnecessárias, e caminhou em direção ao candelabro fixado na parede do salão, aproximando a ponta do papel da chama viva.
"Os filhos que ela não ama de verdade são tudo o que ela tem para se sustentar. Pensando bem, a vida da minha mãe é um paradoxo trágico e ridículo. A Duquesa de Valeztena é o exemplo perfeito do tipo de pessoa que jamais deveria ter tido filhos."
Inês questionava se aquele sentimento era amor real ou apenas uma obsessão em projetar no mundo a ideia de que uma vida confortável e aristocrática era a única métrica de sucesso, mesmo que para isso fosse necessário destruir o psicológico de todos ao redor.
Ao contrário de suas encarnações anteriores, Inês agora conseguia manter um distanciamento emocional da Duquesa, mas, por outro lado, a leitura daquelas linhas despertou nela um desejo quase infantil e irresistível de fazer o exato oposto de tudo o que a mãe aconselhara.
Até aquela manhã, ela vinha considerando seriamente a necessidade estratégica de estabelecer regras para conceber um filho com Cássel; bastou ler uma única carta da Duquesa para que sua vontade de ser mãe evaporasse por completo até o dia de sua morte.
"… Não posso me deixar influenciar por ela."
De qualquer forma, as opiniões da Duquesa não tinham relevância real. Se tudo corresse conforme o planejado, Inês viveria sem grandes sobressaltos até o fim de seus dias. Independentemente do que sua mãe dissesse, esta vida estava sendo moldada de acordo com as suas próprias vontades — livre das amarras da família imperial, de Óscar ou de seus pais.
No entanto, ao engolir aquele amargo em silêncio, o gosto que restou em sua boca foi desagradável. Ela se lembrou de quando a Duquesa proferira palavras idênticas em sua primeira vida, logo após a sequência de abortos que ela sofrera. Na corte, a mãe a cobrara friamente: 'Como Princesa Herdeira, a sua única função é dar à luz um herdeiro para o império. Por que diabos você não consegue fazer algo tão simples?'
Se para a Duquesa a Inês que demorara a se casar com Cássel nesta vida era vista como "comida estragada", a Inês da primeira vida, que falhara em carregar o filho de Óscar, fora rotulada como um "artigo defeituoso".
Inês recordou nitidamente a humilhação do momento em que viu a Duquesa de Valeztena curvar a cabeça diante da Imperatriz Cayetana, implorando por clemência em termos degradantes: "Peço perdão a Vossa Majestade. O corpo problemático da minha filha falhou em carregar a preciosa semente de Sua Alteza...."
Naquele instante do passado, ela sentira mais aversão pela própria mãe do que pela tirania da Imperatriz.
— A senhora responderá a Sua Graça? — A pergunta de Raúl tirou Inês de seus pensamentos sufocantes.
— Não vou.
— Pensou bem. Na verdade, eu já havia transmitido os seus cumprimentos formais de praxe quando passei por Pérez… Mas conhecendo a Duquesa, mesmo sabendo que a senhora está bem, ela continuará enviando cartas para cobrar uma resposta pessoal.
— Se ela estivesse realmente interessada no meu bem-estar, não escreveria coisas desse tipo.
Raúl analisou o semblante de Inês com cautela, familiarizado com as oscilações de humor da patroa quando o assunto envolvia a família Valeztena. Para evitar que o criado ficasse excessivamente preocupado, Inês forçou um pequeno sorriso e mudou o foco da conversa:
— E como estavam as coisas em Esposa? Conte-me o que viu por lá.
— Parecia um castelo abandonado.
— … Como?
— Mas não se preocupe. Assim que a senhora decidir se mudar para lá, aquela propriedade pertencerá inteiramente a Senhora Inês. Disso eu tenho certeza. — O semblante comedido e leal que Raúl exibia há pouco deu lugar a um olhar brilhante, tomado por uma nítida ambição.
— Eu já disse que não tenho interesse em assumir o controle daquela propriedade…
— Senhora Inês, o que está dizendo?… Afinal, se o Capitão Escalante herdar o título de Duque de Escalante no futuro, não é natural que tudo passe para as mãos da senhora? É a ordem natural das coisas.
— Então a minha opinião pessoal não tem o menor valor para você?
— Por que a senhora insiste em recusar o que é seu por direito? Tudo o que estou sugerindo é que assuma as rédeas da situação o quanto antes.
— E onde fica a atual Duquesa de Escalante nessa sua lógica?
— Dizem que a Duquesa não tem grande apreço pelo Castelo de Esposa. Os boatos em Mendoza são de que ela prefere passar as quatro estações do ano na capital.
— Eu também ouvi dizer que a Duquesa raramente deixa Mendoza.
Certamente o desinteresse dela por Esposa não era gratuito; devia estar atrelado à sua proximidade com a Imperatriz Cayetana. A atual Duquesa de Escalante provavelmente passava os dias sendo arrastada pelas ambições e caprichos da corte imperial...
Inês lembrava-se dela como uma dama de temperamento dócil, quase apagado, e que exibia sempre um sorriso gentil. Na primeira vida, como esposa de Óscar, Inês cruzara com a tia de seu marido em inúmeras ocasiões oficiais, mas, curiosamente, nunca sentira que possuía qualquer ponto de conexão real com ela — ao contrário do impacto imediato que Cássel sempre exercera.
A Duquesa de Escalante parecia pertencer ao grupo de pessoas indiferentes ao mundo que girava ao seu redor, o que também provava que ela era uma mulher inclinada à paz e à reclusão. Nesta vida, Inês pretendia manter com ela uma relação polida, porém distantemente estratégica.
— Além disso — continuou Raúl —, assim que o seu cunhado se graduar na academia militar e receber a sua comissão oficial, ele passará o resto da vida dividindo o tempo entre os quartéis de fronteira e a capital. Portanto, aquele lugar…
— … É meu? — Inês completou a frase com uma ponta de relutância.
Raúl assentiu com entusiasmo.
— Desde que a Senhora Inês se estabeleça lá, todos os funcionários saberão a quem responder. O castelo estará sob os seus pés.
— Eu realmente não tenho o menor desejo de colocar ninguém sob os meus pés, Raúl.
— Então a senhora não deveria ter escolhido o filho mais velho da Casa Escalante como marido. A escolha foi sua, afinal… — Raúl resmungou com uma audácia quase profana, antes de suavizar o olhar novamente. — De qualquer forma, isso é tudo o que a senhora precisa ter em mente por ora. Pode me chamar quando decidir inspecionar a propriedade.
— Está bem, cessa esse teatro de lavagem cerebral.
— Ah, e há outra novidade. Recebi a notícia de que uma mensagem chegou ao castelo de Pérez há cerca de uma semana, mas ela não foi despachada para Calstera. O recado de Dom Joaquín mencionava os jovens artistas que a senhora voltou a patrocinar após esse longo período…
O olhar de Inês, que estivera fixo na paisagem litorânea através da janela, voltou-se abruptamente para o rosto de Raúl, tomada por um interesse renovado.
— Parece que a Magdalena já está fazendo nome na província, pintando retratos de figuras locais. Pelo menos desde o início do verão até o outono, o trabalho dela não parou. Tudo graças àquela primeira recomendação da Senhora Inês, então ela fez questão de expressar sua gratidão.
— Que bom.
— Claro, ela escreveu sua carta de gratidão ao velho banqueiro que ela imagina ser seu patrono. Ela até perguntou sobre sua saúde na velhice. Ela é uma garota gentil.
Inês ouvia com atenção o relatório de Raúl. Ela pegou um copo de água e tomou um gole, engasgando-se de leve com as palavras seguintes.
— Continue enviando o apoio financeiro. É uma perda de tempo que ela continue pintando retratos de comerciantes locais. Peça para que ela me envie uma natureza-morta aqui para Calstera no inverno… Estamos precisando de algumas decorações nesta residência.
— E quanto a Archivaldo? Da última vez, a senhora disse que a natureza-morta que ele pintou era a sua favorita. Posso enviar uma mensagem para que ele comece uma nova imediatamente.
— Você me disse que ele queria se isolar na cabana de Kahlo até o inverno para pintar apenas o lago, sem qualquer distração, então deixe que ele continue pintando o que bem entender. Grandes obras costumam nascer desses delírios artísticos… Permita que Archivaldo passe o inverno concentrado em seu tema favorito. Afinal, nada nesta vida sai de graça.
— Não direi uma palavra a ele, então. E quanto a María… Parece que ela passou o ano inteiro pintando apenas retratos da Condessa de Gormas em Mendoza. Não aceitou nenhuma outra comissão.
— É uma cliente de um narcisismo formidável.
Uma cliente dotada de um ego inflado e um pintor especializado em embelezar seus retratos eram uma combinação perfeita, almas gêmeas profissionais. Sabendo perfeitamente disso, Inês havia arquitetado aquela ponte de propósito; não havia margem para erro.
Um breve sorriso surgiu nos lábios de Inês ao imaginar sua antiga e outrora miserável amiga cobrindo todo o corredor do palácio da condessa com o próprio rosto dela. No entanto, aquela imagem agradável rapidamente perdeu a força e se dissipou. Sua expressão tornou-se novamente fria e impassível, concentrando-se na voz de Raúl.
— Parece que a condessa gostou tanto do trabalho dela que sugeriu que María abandonasse todos os outros patronos para aceitar o patrocínio exclusivo da família Gormas. As telas seriam pagas à parte.
— Isso é excelente para María, já que a condessa é uma mulher generosa. Será um trabalho um tanto tedioso aguentar os caprichos dela, mas… em alguns anos, María terá dinheiro suficiente para pintar o que quiser. Deixe a menina seguir o caminho dela. Não me oponho.
— Vou repassar a instrução. Agora, sobre Lourdes e Emiliano… eles serão transferidos para a Oligarquia a fim de trabalhar na restauração do ícone da Catedral de Bilbao a partir deste inverno.
Talvez não fosse por falta de aviso ou por não esperar ouvir aquele nome, mas a mão de Inês, que ainda segurava o copo de água, apertou o vidro com uma força involuntária antes de relaxar os dedos abruptamente.
— Dom Joaquín consultou a Senhora Inês sobre isso. Ele disse que Lourdes e Emiliano estão apenas tentando inflacionar o preço de suas obras, mas que esse projeto os deixará amarrados como escravos da Ordem por pelo menos três anos.
— O que tem de mais em ser um escravo da arte? — ela respondeu com uma voz sombria e distante, como se estivesse comentando sobre o destino de jovens pintores cujos rostos sequer conhecia.
Suportar o peso de certas verdades às vezes exigia uma coragem desmedida. Inês tocou a borda do copo com a ponta dos dedos e sustentou o olhar de Raúl.
O peso daquele nome, o significado profundo que ele carregava, diante dos olhos de um criado que não sabia de absolutamente nada. Mas, nesta vida, Raúl era o único elo, a única voz familiar que pronunciava o nome de Emiliano diretamente para ela. Por conta disso, havia dias em que Raúl a fazia se sentir acolhida, e dias em que sua presença a afundava na mais completa solidão.
Ainda assim, haveria prova mais reconfortante da realidade do que ouvir outras vozes pronunciando o nome dele? Quando Raúl sussurrava "Emiliano", Inês finalmente conseguia se certificar de que Emiliano estava, de fato, vivo no mundo. O que muitas vezes parecia apenas um delírio ou uma ilusão flutuando em sua mente solitária convertia-se em realidade palpável.
Aquilo era o mais próximo de uma confirmação que ela poderia obter, já que havia se privado do direito de ver Emiliano mesmo que de longe. Por uma única vez, ela não se concedeu o luxo de testemunhar com os próprios olhos que ele respirava. Em vez disso, ela acariciava os vestígios invisíveis da existência de Emiliano através do som da voz de Raúl.
Não fora por mero acaso que, aos quinze anos nesta vida, Inês conseguira localizar Dom Joaquín entre os inúmeros pintores decadentes e esquecidos de Mendoza, valendo-se da competência de Raúl. Fora ela quem intermediara o contato de Agustín — que outrora usara Emiliano como um mero assistente explorado — com os canais da corte, e fora Joaquín quem aceitara Emiliano como discípulo daquele mestre de temperamento difícil.
Por alguma razão, era doloroso manter-se totalmente afastada de Emiliano. Embora ela repetisse para si mesma que esta encarnação deveria ser vivida sem qualquer conexão com o passado, ele ainda era aquele jovem de dezessete anos: um pouco baixo, ignorante das maldades do mundo, a alma mais bondosa e o homem mais adoravelmente tolo que ela já conhecera — o belo Emiliano, antes que ela o arruinasse em sua vida anterior.
Apenas um ano antes do que teria sido o primeiro encontro deles na linha do tempo original, o inocente Emiliano de dezessete anos, privado de instrução e tendo seu talento roubado, havia sido agredido brutalmente pelo ébrio Agustín na mesma noite em que tentara fugir de Pérez.
O belo retrato de Inês, que estava destinado a receber os mais altos elogios da aristocracia, havia sido, na verdade, metade obra de Emiliano. Um jovem pintor anônimo que desconhecia as engrenagens do mundo e era incapaz de ocultar seu talento transbordante; ele certamente esperara receber ensinamentos e reconhecimento de um mestre que gozava de fama. Mas tudo o que o assistente fiel recebera em troca fora a inveja e o desprezo de Agustín.
Inês lembrava-se de que, quando vira Emiliano pela primeira vez nesta vida, aos seus quinze anos, o dedo mingo direito dele já ostentava uma leve deformidade. Na noite em que descobriu que Agustín havia quebrado o dedo do rapaz com um pisão, uma fúria assassina tomara conta de seu ser…
Quase por um impulso de proteção, Inês decidira intervir para evitar o futuro trágico em que Emiliano teria o dorso de sua mão esmagado. E, ao contrário do caráter impulsivo de sua decisão, ela se cercou de um disfarce extremamente meticuloso. Ela se posicionou como um patrono misterioso que apoiava jovens pintores pobres e talentosos, indivíduos que não possuíam renome e não sabiam estipular o valor de suas obras, permitindo que eles assinassem os próprios quadros e ganhassem notoriedade muito antes do tempo comum. Para o mundo, ela era a investidora astuta que monopolizaria o valor de mercado daquelas promessas artísticas…
No papel, tratava-se de um negócio legítimo: adquirir as primeiras telas de gênios desconhecidos para revendê-las por dezenas ou centenas de vezes o valor original após algumas décadas. Era uma justificativa perfeita, dado que muitos nobres que se vangloriavam de ter bom gosto para as artes visuais faziam o mesmo de tempos em tempos.
Inês aceitara sob sua asa todos os jovens pintores obscuros que Joaquín recomendara com confiança, garantindo-lhes comissões de peso. María, Archivaldo, Magdalena, Lourdes… e Emiliano.
Contrariando o imenso fervor com que ela arquitetara o plano para salvá-lo da crueldade de Agustín, Emiliano fora o último pintor incluído na lista de Inês. Era como se ela fizesse questão de desviar a atenção dele, como se o tivesse inserido no projeto apenas por obrigação no meio do percurso… Seria prudência de sua parte, ou apenas um delírio covarde?
Seja como for, era natural que ela duvidasse de suas próprias intenções. Suas memórias ao lado de Emiliano sempre se assemelhavam a um lago congelado no início do inverno: bastava dar um único passo, acreditando tratar-se de gelo firme, para que a superfície se rompesse, jogando-a nas águas congelantes do passado.
Quando as primeiras telas de Emiliano, junto às dos outros pintores, chegaram ao Castelo de Pérez, Inês passou a noite inteira chorando, atormentada por sonhos com ele. Até mesmo o menor vislumbre da pincelada dele quebrava seu coração. Embora o quadro enviado fosse apenas uma natureza-morta simples retratando um vaso comum, seus sonhos insistiam em reviver os dias mais felizes e ensolarados que os dois haviam compartilhado em Maiorca.
Aquilo não era saudável. Ela sentia que não conseguiria respirar se continuasse submersa naquelas lembranças; naquele cenário, ela seria condenada a morrer repetidamente.
Inês lutara muito para assegurar uma vida pacífica nesta encarnação e desejava apenas descartar aquele fardo desgastante através de uma morte natural e definitiva, sem jamais ter o infortúnio de reencarnar como Inês Valeztena outra vez. Por isso, ela precisava se policiar e duvidar de si mesma até a exaustão.
— Dom Joaquín deixou a tela da restauração do ícone exposta no ateliê e, enquanto ele estava fora, o Arcebispo de Bilbao visitou o local e a viu… No entanto, Dom Joaquín não pareceu muito entusiasmado com a proposta da Igreja. Ele argumenta que os jovens têm um futuro promissor, mas o que farão se esses três anos de contrato acabarem virando cinco ou dez anos sob as ordens do clero? Ele perguntou a Senhora Inês se não haveria uma forma de intervir. Eles estão perdendo oportunidades de mercado porque a Ordem exige que peçam permissão formal ao patrono para qualquer outro trabalho paralelo.
— Se o Arcebispo escolheu a obra deles, como um simples banqueiro de província poderia recusar o pedido da Igreja?
— Na sua carta, Joaquín mencionou que você não é apenas um banqueiro, então você deve ser capaz de ajudar...
— Foi tão direto assim?
Inês esboçou um sorriso desdenhoso. Joaquín sabia que Inês não era uma banqueira comum, mas sequer desconfiava de que a correspondência final tinha como destino o palácio de Pérez. Havia pseudônimos e rotas comerciais complexas protegendo a identidade dela. Portanto, a única autoridade que Joaquín tentava evocar em nome de seu investidor era a riqueza de uma aristocracia rural exclusiva, que habitava uma propriedade isolada, porém imensamente abastada…
— Que absurdo. Como alguém cogita dobrar a vontade de um arcebispo contando apenas com alguns tostões?
— É verdade, mas o prejuízo para a senhora é evidente. Pelo menos, Dom Joaquín gostaria de ser indenizado por qualquer quebra de exclusividade contratual.
— Não haverá prejuízo algum. Assim que eles finalizarem a restauração do ícone sagrado, nós cobraremos um preço exorbitante da Ordem.
— A senhora encara isso como um investimento de longo prazo?
— O arcebispo de Bilbao tem mais dinheiro do que sabe o que fazer com ele. Ele adora colecionar esculturas pagãs de Aurelius e fingir que são esculturas de santos, então ele sem dúvida gastará uma fortuna no mural. Então, ele anunciará o alto preço para extorquir mais dízimos dos aristocratas. Então, os aristocratas farão fila no quarteirão para contratar os dois artistas por ainda mais dinheiro, mesmo que seja apenas para ter o direito de se gabar.
— ......
Afinal, Inês foi quem convidou o arcebispo para a galeria de Joaquín. Tudo o que ela queria era que Emiliano estivesse financeiramente seguro e livre para pintar como quisesse e que ela mesma levasse uma vida pacífica. Ela não queria arruinar a vida dele ou dela novamente.
Era melhor assim...
Comentários
Postar um comentário